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sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

O Café com Gosto de Saudade Enquanto o Tempo Voa

Bellacosa Mainframe e saudade enquanto vejo o tempo passar

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O Café com Gosto de Saudade Enquanto o Tempo Voa

Ou: quando o ano da infância demorava uma eternidade, a vida adulta virou processamento em lote, os boletos assumiram o calendário — e uma velha amiga chamada Lili continuou chamando seu capitão muito depois de o canal ter sido encerrado

Há uma conspiração envolvendo o tempo que ninguém nos explica quando somos crianças.

Talvez porque nenhuma criança acreditasse.

Aos oito anos, um ano não era uma unidade de medida. Era uma cordilheira. Um território imenso, dividido por acontecimentos que pareciam separados por eras geológicas: aniversário, Páscoa, férias de julho, Dia das Crianças e Natal.

Quando janeiro começava, dezembro ficava do outro lado do universo conhecido.

Era preciso atravessar uma nova série escolar, conhecer outra professora, encapar cadernos, copiar matéria, fazer lição de casa, estudar para provas, montar trabalhos em grupo e descobrir que “trabalho em grupo” significava uma criança trabalhando enquanto quatro colegas contribuíam com cartolina, cola, confusão e desaparecimento estratégico.

Cada bimestre parecia uma administração presidencial completa.

A professora anunciava:

— A prova será na próxima semana.

E a próxima semana levava aproximadamente três anos para chegar.

Depois vinha a espera pelo aniversário. Os dias eram riscados no calendário um a um. Faltavam vinte, dezenove, dezoito… O relógio parecia carregado por funcionários públicos romanos, transportando cada minuto em carrinhos individuais.

A ampulheta trabalhava honestamente.

Grão por grão.

Então crescemos.

Em algum momento, sem qualquer comunicado oficial, alguém substituiu a ampulheta por um processador paralelo.

Piscamos os olhos e chegaram as férias.

Piscamos novamente e apareceu o décimo terceiro.

Entramos num projeto, participamos do kickoff, discutimos escopo, cronograma, riscos e dependências. Alguém abriu uma apresentação com quarenta e sete slides explicando que tínhamos tempo suficiente.

Duas reuniões depois, o líder surgiu com os olhos arregalados:

— Gente, gente, precisamos dar um gás. A implantação é na semana que vem.

Como assim, semana que vem?

O kickoff não foi ontem?

Não. O kickoff aconteceu seis meses atrás. Entre uma conferência, uma homologação, três mudanças de requisito e quarenta reuniões que poderiam ter sido e-mails, o tempo executou um SORT FIELDS=COPY e transferiu metade do ano para algum volume que ninguém consegue mais localizar.

Na meia-idade, a transformação finalmente se completa.

O calendário deixa de ser marcado por festas, férias ou projetos.

Passa a ser controlado por boletos.

Dia 1.

Dia 15.

Dia 20.

Dia 25.

Dia 27.

Eles aparecem com tamanha frequência que às vezes olhamos para uma conta e pensamos:

— Porra, mas eu já paguei isso.

Durante meio segundo, imaginamos uma cobrança duplicada, um erro bancário ou uma fraude sofisticada envolvendo uma organização criminosa especializada em contas de energia.

Então consultamos o aplicativo e descobrimos a verdade mais ofensiva:

Nós realmente pagamos.

Mas foi no mês passado.

Outro mês inteiro passou enquanto estávamos olhando para outro lado.

O relógio cuco do capitalismo

O boleto é o relógio cuco da vida adulta.

Periodicamente, ele põe a cabeça para fora da parede e anuncia:

CUCO! VOCÊ CONSUMIU MAIS UM PEDAÇO DA SUA EXISTÊNCIA!

Não interessa se o mês teve trinta ou trinta e um dias. Não interessa se enfrentamos uma crise, concluímos um curso, escrevemos um artigo, começamos uma dieta ou juramos que finalmente organizaríamos aquela gaveta.

O boleto retorna.

Pontual, impassível e rejuvenescido.

Nós envelhecemos. Ele não.

Talvez os boletos sejam os únicos objetos conhecidos capazes de atravessar o espaço-tempo sem sofrer dilatação relativística. Einstein deveria ter incluído uma conta de condomínio em seus experimentos mentais.

Mas essa aceleração não acontece apenas porque ficamos mais velhos.

Quando temos dez anos, um ano representa 10% de toda a vida que conhecemos. Aos cinquenta, corresponde a menos de 2%. A mesma duração ocupa uma proporção muito menor da nossa biografia.

Existe também a maneira como o cérebro arquiva os acontecimentos.

A infância é cheia de primeiras vezes: a primeira professora, o primeiro amigo, a primeira excursão, a primeira bicicleta, o primeiro beijo, o primeiro cachorro, a primeira vez em que somos escolhidos por último para o time e descobrimos que a meritocracia termina quando alguém entrega uma bola a duas crianças populares.

Novidade produz memória.

Memória produz marcos.

Marcos fazem o passado parecer extenso.

A rotina adulta, entretanto, é um gigantesco processamento em lote:

LER E-MAIL
TRABALHAR
PAGAR CONTA
COMPRAR CAFÉ
PARTICIPAR DE REUNIÃO
DORMIR
REPEAT UNTIL FIM-DOS-TEMPOS

Como muitos dias se parecem, o cérebro não os conserva individualmente. Ele aplica compactação.

Trinta dias entram no arquivo.

Três lembranças saem.

Depois consultamos o diretório da memória, encontramos poucos registros e concluímos:

— Este mês passou voando.

O tempo talvez não tenha acelerado.

Fomos nós que deixamos de enxergar seus grãos.

As pessoas que saíram antes do fechamento

Mas existe outra mudança muito mais difícil de aceitar.

Na infância, quase todas as pessoas parecem permanentes.

Pais, professores, vizinhos, colegas, tios, avós e amigos habitam o mundo como se fossem parte de sua infraestrutura. Mesmo quando alguém muda de escola, de bairro ou de cidade, imaginamos que continua vivendo normalmente em algum bastidor, aguardando uma próxima aparição.

É como uma personagem que saiu de cena, mas permanece contratada pela série.

Na meia-idade, começamos a compreender que nem todos retornarão na próxima temporada.

Algumas pessoas desaparecem aos poucos. Mudam de emprego, vão morar longe, deixam de telefonar. A amizade não termina numa briga nem numa cerimônia. Apenas passa a ocupar intervalos maiores.

Outras continuam próximas apesar da distância.

E algumas partem definitivamente.

O aspecto mais cruel é que quase nunca sabemos quando estamos diante de alguém pela última vez.

Não há música triste.

Não há câmera lenta.

Nenhum operador envia uma mensagem:

WTOR IEC999I
ATENÇÃO, CAPITÃO:
ESTA É A ÚLTIMA CONVERSA.
DESEJA PROSSEGUIR? S/N

A última vez chega disfarçada de dia comum.

Uma ligação.

Um café.

Uma mensagem de aniversário.

Uma risada no WhatsApp.

Somente depois ela recebe esse nome.

Lili entra no programa

Lilian Yumi — a Lili — entrou nesta história em 1997, nos corredores do programa de trainees do Banco Real, depois de um sorteio de amigo secreto e por fim trabalhando quase 4 anos juntos num mesmo sistema.

Certas amizades começam com grandes afinidades filosóficas.

Outras começam porque alguém colocou dois nomes em pedaços de papel.

A amizade atravessou quase três décadas.

Durante cerca de cinco anos, trabalhamos frente a frente, no meio da turbulência envolvendo Banco Real e ABN AMRO. Era um período de sistemas, pressões, mudanças, café, decisões, conversas e aquela sensação muito conhecida de que uma organização inteira estava sendo modificada enquanto as pessoas tentavam continuar trabalhando como se tudo estivesse perfeitamente normal.

Lili era intensa.

Escorpiana no modo ON FIRE.

Ela me chamava de Capitão, como era conhecido pelos colegas trainnes, pois brincavamos de USS Enterprise em meios aqueles velhos 3270 na Rua 24 de Maio no centro de São Paulo.

E possuía um método próprio de gerenciamento de estresse que provavelmente não seria aprovado por nenhum departamento moderno de Recursos Humanos.

Às vezes aplicava um cascudo.

Em outras ocasiões, um beliscão no braço.

Havia também reguadas e até chutes na canela registrados na documentação histórica.

Tudo acompanhado por um lindo sorriso e pela explicação técnica:

— Precisava descomprimir.

Eu era, aparentemente, uma espécie de válvula humana para alívio de pressão operacional.

Hoje, uma consultoria chamaria aquilo de “estratégia presencial de liberação rápida de tensão em ambiente de missão crítica”. Na época, era simplesmente Lili castigando o capitão e voltando satisfeita ao trabalho.

Mas nossa amizade não vivia apenas dessas pequenas agressões afetivas.

Havia a máquina de café.

Os origamis.

A surpresa dela ao me ver usando hashi.

A enorme bola de wasabi — um artefato culinário capaz de abrir todos os canais respiratórios e talvez estabelecer contato direto com os antepassados.

Havia o Buscopan em gotas e o aviso de mau humor.

A brincadeira dos quase vinte “porquês”.

A troca de livros.

E aquelas conversas malucas que parecem não ter importância quando acontecem, mas décadas depois se revelam parte fundamental da arquitetura de uma vida.

Nós raramente percebemos quais momentos estão sendo gravados no arquivo permanente.

Do processamento on-line para o assíncrono

Depois do Banco Real, não deixamos simplesmente de existir um para o outro.

Ainda nos encontramos algumas vezes antes de ela partir para o Canadá.

Depois vieram os e-mails.

Mais tarde, as conversas pelo WhatsApp.

A amizade mudou de infraestrutura, mas o canal continuou aberto.

Saímos do processamento on-line — cinco anos trabalhando frente a frente — para uma comunicação assíncrona atravessando fronteiras. As mensagens podiam levar algum tempo. Os encontros tornaram-se raros. Mas bastavam algumas palavras para recuperar aquela intimidade construída no banco.

Amizades verdadeiras possuem compatibilidade retroativa.

Você pode trocar de cidade, país, emprego, cabelo, telefone, sistema operacional e até opinião sobre algumas coisas. Quando a conversa recomeça, o protocolo ainda funciona.

No ano em que Lili partiu, conversamos no meu aniversário.

Demos risada.

Era apenas mais uma conversa entre duas pessoas que haviam atravessado décadas carregando uma coleção particular de histórias.

Quem poderia imaginar que, meses depois, chegaria a triste notícia?

O cérebro volta à última conversa procurando algum sinal.

Uma frase diferente.

Uma pausa.

Um presságio escondido entre as palavras.

Qualquer aviso de que aquela janela não seria aberta novamente.

Mas provavelmente não havia nada.

Havia somente uma conversa de aniversário e duas pessoas rindo porque ambas imaginavam, como naturalmente imaginamos, que outras conversas aconteceriam.

A última vez só se torna a última vez retroativamente.

Enquanto acontece, é apenas a vida.

Nenhum botão para salvar a sessão

Talvez essa seja uma das descobertas mais brutais da maturidade: frequentemente nos despedimos sem saber que estamos nos despedindo.

Dizemos “até mais” quando não haverá mais.

Fechamos uma janela acreditando que poderemos abri-la novamente.

Deixamos uma mensagem para responder depois.

Adíamos uma visita.

Não porque não amamos aquela pessoa, mas porque o futuro sempre parece conter espaço suficiente.

O amanhã é o maior fornecedor de capacidade computacional imaginária da humanidade.

Amanhã telefonamos.

Amanhã encontramos.

Amanhã tomamos café.

Amanhã contamos aquela história.

Até o dia em que o sistema informa que o recurso não está mais disponível.

Não existe botão para restaurar a sessão.

Isso não significa que devamos viver aterrorizados, tratando cada conversa como uma despedida fúnebre. Seria impossível e até cruel. A beleza de muitas relações está justamente na naturalidade: poder rir sem imaginar que estamos produzindo uma lembrança histórica.

Mas talvez possamos prestar um pouco mais de atenção.

Responder uma mensagem.

Fazer aquela ligação.

Tomar aquele café.

Dizer o que precisa ser dito enquanto o canal continua aberto.

Não para derrotar o tempo.

Apenas para deixar menos jobs importantes aguardando na fila.

A memória descomprime o arquivo

E aqui aparece uma ironia que parece escrita por algum roteirista especialmente atento aos detalhes.

Lili dizia:

— Precisava descomprimir.

Décadas depois, é exatamente isso que a memória faz.

Ela encontra um arquivo antigo, aparentemente esquecido entre milhares de registros, e começa a descomprimi-lo.

De repente retornam a voz, o sorriso, os origamis, a máquina de café, o wasabi, o hashi, o Buscopan, os “porquês”, os livros, as conversas e o cascudo que provavelmente chegou sem qualquer aviso de segurança.

Por alguns segundos, o Canadá desaparece.

O tempo desaparece.

A notícia triste desaparece.

Estamos novamente no banco.

Ela olha para mim.

— Capitão.

E algum gesto vem logo em seguida.

Não é imaginação no sentido de fabricar algo que nunca existiu. É a memória reconstituindo uma presença a partir dos registros que sobreviveram.

Pessoas importantes deixam pequenos programas residentes em nós.

Elas alteram nosso vocabulário, nossos hábitos, nossas referências e a maneira como reagimos a determinadas palavras. Depois que partem, continuam sendo executadas em situações inesperadas.

Uma música toca.

Um aroma aparece.

Alguém dobra um papel.

Uma pessoa usa hashi.

Outra exagera no wasabi.

E o programa residente acorda.

Lili não existe apenas nas grandes datas. Está preservada na palavra “capitão” de uma maneira que ninguém mais conseguiria pronunciar exatamente igual.

Essa talvez seja a forma mais profunda de permanência disponível aos seres humanos.

O café com gosto de saudade

O café da juventude era combustível.

O café do trabalho era uma pequena rebelião contra o expediente, uma desculpa para abandonar a cadeira e conversar cinco minutos diante de uma máquina que produzia uma bebida de qualidade duvidosa.

O café da maturidade contém outras coisas.

Tem gosto de lugares que mudaram.

De empresas que trocaram de nome.

De salas desmontadas.

De amigos espalhados pelo mundo.

De gente que prometeu aparecer e nunca apareceu.

De pessoas que apareceram na hora errada.

E de pessoas que, mesmo partindo cedo demais, chegaram no momento exato para se tornar parte de nós.

É um café com gosto de saudade.

Saudade não é apenas tristeza. É a evidência de que alguma coisa foi importante o suficiente para deixar uma ausência.

Sentimos saudade porque houve presença.

Porque houve riso.

Porque houve amizade.

Porque alguém nos chamou por um nome que parecia comum na época e se tornou insubstituível depois.

Como impedir que a vida passe sem deixar log

Não podemos fazer o tempo voltar à velocidade da infância.

Os aniversários continuarão chegando mais depressa.

Os projetos continuarão começando com cronogramas confortáveis e terminando com alguém gritando que precisamos “dar um gás”.

Os boletos continuarão surgindo nos dias 1, 15, 20, 25 e 27 com a regularidade de um relógio atômico mal-intencionado.

Também não podemos impedir todas as despedidas.

Mas podemos lutar contra a compactação excessiva da existência.

Podemos aprender alguma coisa nova.

Viajar.

Escrever.

Telefonar.

Ouvir uma história até o fim.

Guardar uma fotografia.

Responder a um amigo.

Criar pequenos marcos que obriguem o cérebro a registrar que aquele mês não foi somente mais uma execução do mesmo job.

E podemos contar histórias sobre quem partiu.

Não para transformar pessoas em personagens perfeitos, mas para preservar justamente suas imperfeições maravilhosas: o cascudo, o beliscão, o chute na canela, o excesso de wasabi, o mau humor anunciado pelo Buscopan e a necessidade absolutamente inexplicável de descomprimir em cima do capitão.

Enquanto essas histórias forem contadas, o tempo não terá conseguido levar tudo.

Epílogo — Ainda em execução

Talvez o verdadeiro problema da meia-idade não seja perceber que o tempo passa depressa.

É descobrir que ele sempre esteve passando e que, durante muitos anos, acreditamos possuir uma quantidade ilimitada dele.

Na infância, esperávamos o Natal.

Na juventude, esperávamos o futuro.

Na vida profissional, esperávamos a implantação.

Agora esperamos o próximo boleto — e tentamos lembrar se já pagamos o anterior.

Mas, entre um vencimento e outro, às vezes uma pessoa retorna.

Não fisicamente.

Retorna em uma frase, numa risada, numa lembrança que atravessa décadas e abre a porta do datacenter sem apresentar crachá.

Lili apareceu novamente enquanto falávamos sobre a velocidade do tempo.

Veio do Banco Real, passou pelo Canadá, atravessou e-mails, mensagens, aniversários e anos inteiros. Aproximou-se do console, olhou para aquele homem de meia-idade tentando entender para onde foram todos os meses e chamou:

— Capitão.

Talvez tenha dado um cascudo.

Talvez apenas tenha sorrido.

A memória nem sempre precisa escolher.

O importante é que, por alguns instantes, ela esteve aqui.

O boleto marca o mês que chegou.

A saudade marca a pessoa que não volta.

E o café, esfriando ao lado do teclado, guarda os dois: a pressa absurda do tempo e a permanência inexplicável do afeto.

No fim, talvez não exista uma maneira de desacelerar a viagem.

Mas existe uma forma de não desaparecer completamente durante o percurso:

deixar histórias nos outros.

Lili deixou.

O job terminou há algum tempo.

O programa continua em execução.

domingo, 23 de outubro de 2022

Pastel, Algodão-Doce e Giovanna — Pequenas Máquinas do Tempo

 


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Pastel, Algodão-Doce e Giovanna — Pequenas Máquinas do Tempo

Ou: como uma feira paulista, uma estação de trem, uma velha máquina de algodão-doce e os olhos azuis de uma jovem de 1999 continuaram executando um programa dentro da memória quase trinta anos depois

START GIOVANNA1999


Alguns programas nunca foram feitos para terminar.

Há momentos em que os milhões de chimpanzés que habitam minha cabeça fazem silêncio.

É raro.

Normalmente existe uma chuva permanente de ideias, pensamentos, lembranças, absurdos, projetos e associações aparentemente impossíveis. Um chimpanzé pensa em mainframe, outro em história, outro em alguma viagem realizada décadas atrás, enquanto um quarto provavelmente tenta descobrir por que determinada palavra japonesa parece portuguesa.

Mas existem pequenos gatilhos capazes de interromper tudo.

Não importa quanto tempo tenha passado.

Não importa onde eu esteja.

O gatilho acontece e o CPD para.

Um deles é o pastel.

Sim.

Pastel.

Aquela pequena massa frita que talvez algum historiador do futuro considere simples demais para merecer registro, mas que qualquer paulista criado entre feiras livres sabe que pertence a uma categoria muito mais elevada da existência.

Pastel não é apenas comida.

Pastel é memória.

E, no meu caso, pastel também é Giovanna.



O sacramento dominical do paulista

Para compreender essa história, talvez seja necessário explicar às gerações futuras o que significava uma feira livre paulista.

Imagino algum leitor em 2126 consultando este texto enquanto um robô doméstico sintetiza sua refeição molecularmente perfeita e perguntando:

— Mas por que alguém sairia de casa para comprar legumes numa rua?

Porque era muito melhor assim, meu caro descendente.

A feira tinha sons.

Cheiros.

Gente gritando preços.

Crianças.

Senhoras discutindo a qualidade do tomate.

Sacolas.

Caixas.

Frutas cortadas para degustação.

E, em algum ponto estratégico daquele pequeno caos urbano, estava a barraca de pastel.

Ao lado dela, quase obrigatoriamente, caldo de cana.

Ou garapa.

Cada região adotava sua palavra.

O pastel chegava quente demais para ser comido imediatamente, embora invariavelmente tentássemos.

A primeira mordida quebrava a casquinha crocante e libertava uma pequena nuvem de vapor capaz de queimar o céu da boca de qualquer pessoa impaciente.

Dentro poderia haver carne.

Queijo.

Palmito.

Pizza.

Frango.

Ou dezenas de outras invenções.

Mas havia ainda um ingrediente secreto que jamais aparecia na placa:

o óleo.

Não qualquer óleo.

O óleo ancestral da feira.

Depois de fritar uma quantidade arqueológica de pastéis, aquele óleo parecia possuir memória própria.

O pastel de queijo carregava talvez uma lembrança distante do pastel de carne.

A carne poderia ter conhecido o palmito.

O palmito certamente havia cruzado com algum pastel de pizza.

Era quase uma rede neural gastronômica treinada durante milhares de frituras.

E aquilo era delicioso.



O velho japonês que a história transformou em “chinês”

Existe ainda uma história humana por trás das barracas de pastel paulistas.

São Paulo recebeu uma enorme imigração japonesa ao longo do século XX. Essas famílias chegaram, trabalharam, criaram filhos, atravessaram preconceitos, guerras, transformações econômicas e adaptações culturais.

Em determinado período de nossa história, especialmente sob o peso do preconceito antijaponês relacionado à Segunda Guerra Mundial, identidades precisaram ser escondidas, adaptadas ou reinterpretadas.

No imaginário popular paulista surgiu então aquela figura que muitas crianças da minha geração conheceram simplesmente como:

“o chinês da feira”.

Muitas vezes era japonês.

Ou descendente de japoneses.

A história real é muito mais complexa que essa pequena frase, naturalmente. Envolve imigração, racismo, sobrevivência, assimilação e empreendedorismo.

Mas décadas depois algo extraordinário havia acontecido.

O pastel tinha deixado de parecer japonês, chinês ou estrangeiro.

Tornara-se simplesmente paulista.

Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da cultura.

Ela mistura pessoas, histórias, ingredientes e circunstâncias até que ninguém consiga mais separar completamente as origens.

O resultado vira tradição.



1991 — Pastel, Márcia e Freddie Mercury

Minha história pessoal com pastel também possui algumas pequenas ramificações.

Em 1991, ano em que Freddie Mercury morreu, houve Márcia.

Márcia era filha de uma pasteleira.

Tivemos um breve relacionamento.



É curioso como o cérebro cataloga acontecimentos. Alguém poderia imaginar que uma relação com a filha de uma mulher que fazia pastéis seria suficiente para criar a grande associação gastronômica da minha vida.

Não foi.

O cérebro decidiu outra coisa.

Passaram-se alguns anos.

Outra cidade entrou no mapa.

Outro tempo.

Outra jovem.

E então o índice foi criado definitivamente.

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2021/11/marcia-pastel-freddie-mercury-o.html



Amparo SP

Chegamos a Amparo, interior de São Paulo.

Cidade marcada pelo ciclo do café e por uma arquitetura que ainda guarda fragmentos daquela época em que fortunas atravessavam o interior paulista junto com trilhos, fazendas e estações ferroviárias.

Ali existia uma pastelaria próxima à antiga estação.

Sua própria existência carregava história.

Originalmente aquele tipo de estabelecimento atendia viajantes que chegavam ou partiam pelos trens. Pessoas desciam carregando malas, notícias, saudades, negócios e expectativas.

Comiam alguma coisa.

Tomavam alguma bebida.

Esperavam.

Depois seguiam viagem.

Quando a ferrovia perdeu importância e os trens desapareceram daquela rotina, estabelecimentos como aquele deveriam, segundo a lógica econômica, desaparecer também.

Mas alguns sobrevivem.

Mudam de dono.

Mudam detalhes.

Perdem parte da história.

Ganham outras histórias.

E continuam funcionando.

São pequenos fósseis comerciais vivos.


Em 1999, aquela pastelaria ainda vendia pastéis.

E eu estava lá.

Mas não estava sozinho.



Giovanna

Giovanna tinha lindos olhos azuis.

Quanto ao cabelo, existe uma divergência histórica que provavelmente jamais será resolvida.

Para mim, castanho-claro.

Para ela, loiro-escuro.

Considerando que este é meu registro para a posteridade, deixarei documentadas ambas as versões para que futuros arqueólogos não iniciem uma guerra acadêmica sobre o assunto.

Era 1999.

Éramos jovens.

E havia Amparo para zanzar.

Gosto da palavra zanzar porque ela descreve perfeitamente aquilo.

Não estávamos realizando uma missão.

Não havia roteiro turístico.

Não havia aplicativo indicando os dez lugares obrigatórios para fotografar.

Não precisávamos registrar cada minuto para provar aos outros que tínhamos estado ali.

Nós simplesmente andávamos.

Sentávamos num banco de praça.

Conversávamos.

Explorávamos alguma construção antiga dos tempos áureos do café.

Entrávamos numa loja de R$ 1,99.

Comíamos alguma coisa.

Voltávamos a andar.

Hoje parece extraordinariamente simples.

Talvez fosse justamente isso que tornasse aquilo extraordinário.


A pastelaria da estação

Em algum momento dessas tardes havia pastel.

Não sei se naquele instante pensei:

“Preciso memorizar isto porque daqui a quase trinta anos ainda vou lembrar.”

Certamente não.

Ninguém vive assim.

Grandes acontecimentos normalmente anunciam sua importância.

Casamentos possuem cerimônias.

Formaturas possuem fotografias.

Viagens possuem passagens.

Nascimentos possuem documentos.

Mas ninguém entrega um certificado dizendo:

ATENÇÃO: esta tarde aparentemente banal será importante para você em 27 anos. Favor prestar atenção.

A vida simplesmente acontece.

Comemos o pastel.

Conversamos.

Talvez tenhamos rido de alguma bobagem cujo conteúdo desapareceu completamente da minha memória.

E seguimos andando.

O problema — ou talvez a maravilha — é que meu cérebro executou silenciosamente:

COMMIT;

A transação foi gravada.

Pastel passou a apontar para Giovanna.

E nunca mais consegui desfazer essa associação.


O índice secreto da memória

Se nossa memória funcionasse como um banco de dados organizado, talvez existisse algo parecido com:

GIOVANNA → AMPARO → 1999

Mas memória humana é uma péssima DBA.

Ela cria índices sem consultar ninguém.

No meu caso, aparentemente fez:

PASTEL → GIOVANNA

AMPARO → GIOVANNA

PRAÇA → GIOVANNA

LOJA DE 1,99 → GIOVANNA

E ainda faltava um dos mais poderosos.

ALGODÃO-DOCE → GIOVANNA


A máquina impossível de algodão-doce

Amparo possuía outra pequena maravilha.

Uma velha máquina de algodão-doce.

Na minha lembrança, era uma máquina antiquíssima, do começo do século XX, mantida funcionando graças ao empenho de alguém que se recusava a permitir que aquele artefato simplesmente desaparecesse.

Talvez algum pesquisador futuro consiga determinar sua fabricação, modelo e história com maior precisão.

Para mim, naquele momento, importava outra coisa:

ela ainda funcionava.

Aquilo era maravilhoso.

Uma máquina criada em outro tempo continuava executando perfeitamente sua função.

Açúcar entrava.

O mecanismo girava.

E surgia uma nuvem doce.

Como alguém que passou boa parte da vida trabalhando com mainframes, reconheço hoje uma filosofia familiar:

— Isso ainda está funcionando?

— Sim.

— Há quanto tempo?

— Ninguém sabe exatamente.

— Não deveríamos substituir?

— Não toque.

Há coisas que sobrevivem simplesmente porque alguém continuou cuidando delas.

E aquela máquina continuava produzindo algodão-doce para novas gerações.


Açúcar transformado em nuvem

Algodão-doce é uma invenção maravilhosa justamente porque é quase completamente absurda.

Pegamos açúcar.

Transformamos em fios.

Enrolamos numa vareta.

E produzimos uma nuvem comestível.

Não existe praticamente nenhuma justificativa adulta para aquilo.

Não é sofisticado.

Não demonstra status.

Não é uma experiência gastronômica complexa.

Não precisamos discutir terroir.

Não há harmonização.

É açúcar.

É infância.

É diversão.

É inútil.

E talvez por isso seja tão importante.

Em algum momento de 1999, Giovanna e eu também comemos algodão-doce.

O segundo índice foi criado.

Décadas depois, ainda funciona.


START GIOVANNA1999

Hoje posso estar vivendo um dia completamente diferente.

Outro século.

Outra rotina.

Outros problemas.

Outras pessoas.

Outro eu.

Então aparece um pastel.

Mordo.

A casquinha quebra.

Sinto o recheio quente.

O cheiro chega.

E algum chimpanzé responsável pelo arquivo morto da minha memória abandona sua mesa, corre por um corredor empoeirado do CPD cerebral e grita:

— CHEFE! ENCONTREI UMA COISA!

Antes que minha parte racional compreenda o que aconteceu, o JOB já foi submetido:

START GIOVANNA1999

E estou novamente em Amparo.

Não fisicamente.

Mas suficientemente perto.

Vejo a praça.

A estação.

As construções.

Uma loja de R$ 1,99.

Pastéis.

Algodão-doce.

Olhos azuis.

E aquele cabelo castanho-claro que, caso Giovanna algum dia leia isto, certamente continuará alegando ser loiro-escuro.

Alguns bugs não precisam ser corrigidos.


A felicidade que não sabia que era felicidade

Com o passar dos anos comecei a perceber algo.

As lembranças mais persistentes nem sempre pertencem aos acontecimentos que, na época, pareciam mais importantes.

Viajei.

Conheci lugares extraordinários.

Vi monumentos.

Atravessei países.

Vivi acontecimentos históricos.

Trabalhei com tecnologias gigantescas.

Conheci muita gente.

Entretanto, algumas memórias que atravessaram décadas são absurdamente pequenas.

Um gosto.

Uma rua.

Uma conversa.

Um banco de praça.

Um alimento simples.

Talvez exista uma explicação.

Há momentos que lembramos porque alguma coisa extraordinária aconteceu.

Mas existem outros que lembramos porque, sem perceber naquele instante, estávamos extraordinariamente felizes fazendo coisas absolutamente ordinárias.

Esses são perigosos.

Não precisam de fotografias.

Não precisam de aniversários.

Não precisam sequer que pensemos conscientemente neles.

Ficam esperando.

Até que algum cheiro, música, palavra ou sabor encontre a chave.


A garapa de Luxor e o pastel de Amparo

Anos depois eu sentiria algo semelhante muito longe dali.

No Egito, em Luxor, antiga Tebas, encontrei caldo de cana.

Garapa.

Em meio a uma viagem cercada por milhares de anos de história, templos, faraós e monumentos capazes de atravessar civilizações, uma coisa aparentemente banal conseguiu me atingir profundamente:

caldo de cana.

Porque sabor não respeita geografia.

Também não respeita calendário.

Uma bebida simples podia aproximar o Egito do Brasil durante alguns segundos.

Assim como um pastel comprado décadas depois pode aproximar 2026 de 1999.

Talvez comida seja uma das máquinas do tempo mais eficientes inventadas pela humanidade.


Não era sobre o pastel

Naturalmente, nunca foi realmente sobre pastel.

Também não era sobre algodão-doce.

Nem sobre a loja de R$ 1,99.

Nem sequer apenas sobre Giovanna.

Era sobre aquele conjunto específico de circunstâncias que jamais poderá ser reproduzido exatamente.

Aquela idade.

Aquela cidade.

Aquele momento histórico.

Aquela companhia.

A ausência de pressa.

A possibilidade de simplesmente caminhar sem destino.

O futuro ainda não havia acontecido.

Muitas decisões ainda não tinham sido tomadas.

Muitas pessoas ainda não tinham chegado.

Outras ainda não tinham partido.

Nós não sabíamos disso.

Estávamos apenas vivendo uma tarde.


Para quem estiver lendo isto no futuro

Talvez você seja um descendente.

Talvez seja alguém que encontrou este texto perdido pela internet.

Talvez nem saiba quem foram aquelas pessoas.

Isso pouco importa.

Quero lhe deixar algo muito mais importante do que os nomes.

Quando estiver vivendo um momento simples, não o despreze por ser simples.

Coma o pastel.

Compre o algodão-doce.

Sente no banco.

Entre naquela lojinha aparentemente inútil.

Caminhe sem destino.

Converse.

Observe os prédios.

Ria da bobagem.

Não transforme necessariamente tudo em fotografia.

Não tente fazer cada segundo parecer extraordinário.

Apenas esteja lá.

Porque você não sabe quais desses momentos seu cérebro escolherá guardar.

Daqui a vinte, quarenta ou sessenta anos talvez você não consiga lembrar o assunto daquela conversa.

Talvez esqueça a roupa.

Talvez o estabelecimento desapareça.

A estação poderá virar museu.

A loja poderá ser demolida.

A velha máquina finalmente poderá parar.

Até as pessoas poderão seguir caminhos completamente diferentes.

Mas então, numa tarde qualquer, alguém colocará um pastel diante de você.

Você dará a primeira mordida.

E alguma coisa acontecerá.

O presente ficará silencioso.

Uma porta será aberta.

E por alguns segundos você terá novamente vinte e tantos anos.

Estará numa praça.

Ao seu lado haverá alguém que o tempo levou para outro caminho.

Você poderá quase ouvir sua voz.

Talvez até veja aqueles olhos.

Então compreenderá uma coisa que eu demorei muitos anos para aprender:

a vida não é formada apenas pelos grandes acontecimentos que contamos aos outros.

Boa parte dela está escondida nas pequenas coisas que aparentemente não mereciam ser guardadas.

Mas foram.

Meu pastel guardou uma cidade.

Meu algodão-doce guardou uma época.

Uma velha máquina guardou uma tarde.

E Giovanna acabou guardada em todos eles.

Talvez a memória seja justamente isso.

Um gigantesco CPD administrado por milhões de chimpanzés, cheio de arquivos sem documentação, programas que ninguém ousa apagar e índices criados sem qualquer lógica aparente.

De vez em quando um deles encontra uma fita esquecida.

Coloca para rodar.

O CPD inteiro fica em silêncio.

E nós chamamos aquilo de saudade.


Epílogo — O último pastel

Algum dia comerei meu último pastel.

Naturalmente não saberei que é o último.

Provavelmente reclamarei que tem pouco recheio.

Talvez esteja quente demais.

Talvez o óleo esteja naquele glorioso estágio arqueológico em que já possui conhecimento acumulado de quinze mil pastéis anteriores.

Vou morder.

A casquinha fará crack.

O vapor subirá.

E espero que, onde quer que meus milhões de chimpanzés estejam naquele momento, algum deles ainda conheça o comando.

START GIOVANNA1999

Então, por alguns segundos, pouco importará quantas décadas tenham passado.

Haverá novamente uma estação.

Uma pastelaria.

Uma praça.

Uma loja de R$ 1,99.

Uma máquina centenária transformando açúcar em nuvem.

Uma jovem de olhos azuis.

Um sujeito olhando para o cabelo dela e insistindo que aquilo era castanho-claro.

E uma tarde qualquer de 1999 que ninguém presente sabia ser histórica.

Não foi histórica para o Brasil.

Não mudou São Paulo.

Não apareceu nos jornais.

Não modificou o destino de Amparo.

Mas ficou registrada em algum lugar muito menor e, paradoxalmente, muito mais resistente.

Minha memória.

Se você estiver lendo isto muitas décadas depois de mim, talvez aquela pastelaria não exista mais.

Talvez aquela máquina esteja finalmente num museu.

Talvez ninguém mais saiba quem foi Giovanna.

Agora você sabe.

Ela foi uma jovem de olhos azuis que, durante algumas tardes de 1999, zanzou comigo por Amparo.

E isso bastou para que, décadas depois, um simples pastel ainda fosse capaz de parar o CPD.

Não subestime as pequenas felicidades.

Algumas delas executam para sempre.

domingo, 17 de janeiro de 2021

🌧️💔 Bellacosa Otaku Blog — Parte 42: As Lágrimas Invisíveis — Expressões Japonesas de Tristeza, Saudade e Despedida 💔🌧️

Bellacosa Mainframe blog otaku file 42


 🌧️💔 Bellacosa Otaku Blog — Parte 42: As Lágrimas Invisíveis — Expressões Japonesas de Tristeza, Saudade e Despedida 💔🌧️


🌙 Quando o silêncio fala mais que as palavras

(Versão Bellacosa: o idioma do adeus, onde cada som é uma lembrança que se desfaz no vento.)

O japonês tem uma delicadeza única para expressar tristeza.
Não é um choro alto, mas um sussurro que permanece.
As palavras de dor em japonês são poesia pura — elas não gritam, respiram suavemente dentro de nós.

Nos animes, elas surgem em cenas de despedida, nas confissões não ditas, nos sorrisos que escondem saudade.
Hoje o Bellacosa traduz esse idioma invisível — o vocabulário do coração partido dos animes. 🌸


🌧️ 1. 悲しい (Kanashii)

Tradução: “Triste / doloroso / de partir o coração.”
👉 A palavra mais direta para tristeza, mas cheia de ternura.

📺 Anime vibe: Clannad, Your Lie in April, Vivy.
💬 Exemplo: “Kanashii kedo… eu preciso seguir em frente.” 💧

💬 Curiosidade Bellacosa: Kana (悲) carrega a ideia de emoção profunda, mais sentida do que explicada.


🌫️ 2. 切ない (Setsunai)

Tradução: “Tristeza bela / dor suave / nostalgia que dói.”
👉 Um sentimento agridoce — tristeza misturada com amor e lembrança.

📺 Anime vibe: 5 Centimeters per Second, Your Name (Kimi no Na wa), Orange.
💬 Exemplo: “É tão setsunai… lembrar e não poder voltar.” 🌌

Setsunai é o coração do drama japonês — o peso da saudade e a doçura de ter vivido algo verdadeiro.


🍂 3. 寂しい (Sabishii)

Tradução: “Solitário / com saudade / sozinho.”
👉 A sensação de vazio e ausência de alguém querido.

📺 Anime vibe: Anohana, Angel Beats!, Erased.
💬 Exemplo: “Sabishii yo… sem você aqui, o mundo é menor.” 🌙


🌧️ 4. いたい (Itai)

Tradução: “Dói / está doendo.”
👉 Literalmente físico, mas muitas vezes usado para dor emocional.

📺 Anime vibe: Naruto, Vivy, Your Lie in April.
💬 Exemplo: “Itai… mas não é o corpo. É o coração.” 💔

💬 Curiosidade Bellacosa: O japonês não separa claramente dor física e emocional — itai é uma só ferida.


🕊️ 5. さようなら (Sayonara)

Tradução: “Adeus.”
👉 Um “adeus” mais profundo que “tchau” (bye bye ou ja ne). Carrega um senso de despedida final.

📺 Anime vibe: Hotarubi no Mori e, Your Name, Plastic Memories.
💬 Exemplo: “Sayonara… obrigada por ter feito parte do meu mundo.” 🌧️


🪞 6. 仕方がない (Shikata ga nai)

Tradução: “Não há o que fazer / não pode ser evitado.”
👉 Aceitação resignada do inevitável — filosofia japonesa em forma de expressão.

📺 Anime vibe: Grave of the Fireflies, Vivy, Tokyo Magnitude 8.0.
💬 Exemplo: “Shikata ga nai… o destino já escolheu.” 🍂


🩵 7. 懐かしい (Natsukashii)

Tradução: “Saudade boa / nostalgia doce.”
👉 Sentimento caloroso ao lembrar de algo que passou.

📺 Anime vibe: Barakamon, Clannad, Whisper of the Heart.
💬 Exemplo: “Que natsukashii ouvir essa música de novo…” 🎶

💬 Curiosidade Bellacosa: Não existe equivalente exato em português — é o “saudade” japonês, mas mais suave e terno.


🕯️ 8. 心が痛い (Kokoro ga itai)

Tradução: “Meu coração dói.”
👉 Expressa dor emocional intensa e sincera.

📺 Anime vibe: Anohana, Ef: A Tale of Memories, Your Lie in April.
💬 Exemplo: “Kokoro ga itai… mas eu ainda te amo.” 💫


🌧️ 9. 泣きたい (Nakitai)

Tradução: “Quero chorar.”
👉 Surge quando a emoção transborda e não cabe mais dentro.

📺 Anime vibe: I Want to Eat Your Pancreas, Silent Voice.
💬 Exemplo: “Nakitai yo… só uma vez mais.” 🕯️


🩶 10. もう会えない (Mō aenai)

Tradução: “Não posso mais te ver.”
👉 Uma das frases mais dolorosas do japonês — um adeus definitivo, cheio de saudade e amor.

📺 Anime vibe: Your Name, 5 Centimeters per Second.
💬 Exemplo: “Mō aenai kedo… eu nunca vou esquecer.” 🌠


💮 Curiosidades Bellacosa:

  • No Japão, tristeza e beleza estão ligadas — a dor é vista como parte da arte da vida.

  • As trilhas sonoras e títulos de animes costumam usar essas palavras para reforçar o sentimento (“Setsunai Omoi”, “Kanashii Melody”, “Sayonara no Asa ni”...).

  • O silêncio é, muitas vezes, a tradução mais fiel de kanashii.


🕊️ Dica Bellacosa:

  • Quando sentir saudade, ouça músicas japonesas com palavras como natsukashii e setsunai.

  • Veja como a voz e o ritmo transmitem o que nem sempre dá pra traduzir.

  • As expressões de tristeza no japonês não são sobre desespero, mas sobre aceitar o que já foi bonito. 🌧️


💔 Conclusão Bellacosa:

No idioma japonês, a dor é uma forma de beleza.
Cada kanashii é uma flor que murcha, mas deixa perfume.
Cada sayonara é o fim de um ciclo — e o início de outro.

“Não há tristeza sem amor, nem adeus sem lembrança.” — 🌸 Bellacosa 🌸

terça-feira, 28 de abril de 2020

💞 Expressões Japonesas do Amor, do Ciúme e do Coração Partido

Bellacosa Mainframe e a expressoes japonesas do amor do ciumes e do coração partido

💞 Expressões Japonesas do Amor, do Ciúme e do Coração Partido

(Versão Bellacosa: poesia, drama e aquele arrepio de emoção no último episódio.)


🌸 1. 恋に落ちる (koi ni ochiru)

Tradução literal: “Cair no amor.”
Significado real: Apaixonar-se repentinamente — como tropeçar num sentimento.
👉 O verbo ochiru (cair) dá uma ideia de perda de controle, de algo inevitável.

📘 Exemplo:

“Quando ela sorriu, percebi… koi ni ochita.

📺 Anime vibe: Your Name, Toradora!, Ao Haru Ride.


💔 2. 失恋 (shitsuren)

Tradução literal: “Amor perdido.”
Significado real: Sofrer uma desilusão amorosa, ter o coração partido.
👉 É a palavra japonesa para o “fim de um amor” — intensa, mas silenciosa.

📘 Exemplo:

“Depois do shitsuren, ele nunca mais foi o mesmo.”

📺 Anime vibe: Orange, 5 Centimeters per Second.


🕯️ 3. 一目惚れ (hitomebore)

Tradução literal: “Amor ao primeiro olhar.”
Significado real: Apaixonar-se à primeira vista — aquele golpe do destino que só os animes sabem mostrar em câmera lenta.

📘 Exemplo:

“Foi hitomebore — um instante, e pronto.”

📺 Anime vibe: Kimi ni Todoke, Clannad, Tonari no Kaibutsu-kun.


😔 4. 片思い (kataomoi)

Tradução literal: “Amor de um lado só.”
Significado real: Amar alguém que não retribui.
👉 Uma das expressões mais dolorosas e belas da língua japonesa — pura essência dos romances colegiais.

📘 Exemplo:

“Mesmo sem ser correspondida, ela continuou… kataomoi.

📺 Anime vibe: Your Lie in April, A Silent Voice (Koe no Katachi).


🫶 5. 恋心 (koigokoro)

Tradução literal: “Coração de amor.”
Significado real: Os sentimentos sutis de quem começa a se apaixonar — algo entre amizade e desejo.
👉 É o “talvez eu esteja gostando dele…” japonês.

📘 Exemplo:

“Toda vez que ele fala comigo, sinto koigokoro.” 💓

📺 Anime vibe: Horimiya, Fruits Basket.


💭 6. 会いたい (aitai)

Tradução literal: “Quero te ver.”
Significado real: Expressa saudade, desejo de estar com alguém — algo entre “sinto sua falta” e “preciso te ver”.
👉 É curta, mas carrega um universo emocional.

📘 Exemplo:

“Mesmo sabendo que não vai atender… aitai.

📺 Anime vibe: Your Name, Plastic Memories, Vivy: Fluorite Eye’s Song.


💞 7. 惚れ直す (horenaosu)

Tradução literal: “Apaixonar-se de novo.”
Significado real: Redescobrir o amor por alguém — sentir o coração se reacender.
👉 Usada quando uma pessoa faz algo que faz o outro se encantar outra vez.

📘 Exemplo:

“Quando ela sorriu daquele jeito… horenaoshita.

📺 Anime vibe: Lovely★Complex, ReLIFE.


🥀 8. 心が痛い (kokoro ga itai)

Tradução literal: “Meu coração dói.”
Significado real: Sentir dor emocional profunda — a dor da perda, da culpa, da distância.
👉 Uma das frases mais ouvidas em dramas e animes tristes.

📘 Exemplo:

“Cada lembrança dói… kokoro ga itai.” 💔

📺 Anime vibe: AnoHana, Vivy, I Want to Eat Your Pancreas.


🫶 9. 運命の人 (unmei no hito)

Tradução literal: “Pessoa do destino.”
Significado real: A alma gêmea, o amor destinado.
👉 Romântica, mística e muito presente em animes sobre reencontros e vidas cruzadas.

📘 Exemplo:

“Mesmo em outra vida, você ainda seria meu unmei no hito.

📺 Anime vibe: Kimi no Na wa, Re:Zero, The Girl Who Leapt Through Time.


🌧️ 10. 未練 (miren)

Tradução literal: “Apego que resta.”
Significado real: Sentimento de não conseguir esquecer alguém — o resquício do amor após o fim.
👉 É melancolia pura, o eco do que já foi.

📘 Exemplo:

“Ela seguiu em frente, mas ainda sinto miren.

📺 Anime vibe: 5 Centimeters per Second, Ef: A Tale of Memories.


💮 Curiosidade Bellacosa:

O japonês raramente diz “eu te amo” diretamente — aishiteru é forte, quase solene.
As emoções se expressam nas entrelinhas, com gestos, silêncios e expressões como aitai ou koigokoro.
O amor japonês é feito de contenção, sutileza e poesia. 🌙


💡 Dica para quem estuda e sente:

  • Crie um “diário de sentimentos em japonês”: escreva o que sente usando expressões como kataomoi, aitai, miren.

  • Repare nas letras de openings e endings: elas são cheias desses termos!

  • Associe cada palavra a uma emoção de um anime — é o jeito mais bonito de memorizar.


🌸 Conclusão Bellacosa:

O amor japonês é uma arte de silêncio.
Cada expressão é uma janela para o que não se diz — o olhar que hesita, o toque que não acontece, o trem que parte.
Aprender essas palavras é entender por que o romance nos animes dói tanto… mas é tão lindo.

“Mesmo que o tempo nos separe, ainda direi em pensamento: aitai.” 🌧️

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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