| Bellacosa Mainframe e a infoworld com a morte do mainframe em 1991 |
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Capítulo 6 — InfoWorld (1991)
O Dia em que Marcaram a Data da Morte do Mainframe... e Esqueceram de Avisar o Mainframe
Uma análise histórica da previsão atribuída a Stewart Alsop, publicada pela InfoWorld, segundo a qual o último mainframe seria desligado em 15 de março de 1996. O capítulo mostra por que a previsão falhou e como COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z continuaram evoluindo.
Por Vagner Bellacosa
“Prever o futuro já é difícil. Colocar data e hora no futuro é um convite para virar capítulo de livro de História.”
Existe uma previsão que entrou para a História
Ao longo deste artigo vimos jornalistas dizendo que o mainframe era um dinossauro.
Vimos revistas afirmando que estava ultrapassado.
Outras sugeriam que sua importância diminuiria rapidamente.
Mas em 1991 aconteceu algo diferente.
Muito diferente.
Alguém resolveu fazer aquilo que engenheiros normalmente evitam fazer.
Marcar uma data.
Não um período.
Não "alguns anos".
Não "até o final da década".
Uma data exata.
Dia.
Mês.
Ano.
Uma espécie de prazo de validade para o IBM Mainframe.
Foi aí que nasceu uma das frases mais famosas — e mais lembradas — da história da computação.
| Bellacosa Mainframe e as previsoes erradas na historia da informatica |
O protagonista desta história era Stewart Alsop.
Na época, Alsop era um dos jornalistas e analistas de tecnologia mais influentes dos Estados Unidos.
Escrevia para a InfoWorld.
Suas colunas eram lidas por executivos, arquitetos, CIOs e fabricantes de tecnologia.
Quando Stewart Alsop publicava uma opinião...
O mercado prestava atenção.
Era uma época em que revistas especializadas moldavam decisões de investimento de bilhões de dólares.
Não existia YouTube.
Não existia LinkedIn.
Não existiam influenciadores digitais.
As revistas técnicas eram uma das principais fontes de informação da indústria.
E foi exatamente nelas que apareceu uma das previsões mais ousadas da história da TI.
A frase que atravessou três décadas
Em sua coluna, Stewart Alsop escreveu:
"On March 15, 1996, someone will unplug the last mainframe."
Em tradução livre:
"No dia 15 de março de 1996 alguém desligará o último mainframe."
Não era uma metáfora.
Não era uma figura de linguagem.
Era uma previsão literal.
Uma data específica.
O último mainframe seria desligado.
Fim da história.
Essa frase foi posteriormente preservada pelo professor Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe e acabou se tornando uma das citações mais conhecidas sobre previsões tecnológicas equivocadas.
Um exercício de imaginação
Vamos imaginar o mundo naquela sexta-feira.
15 de março de 1996.
Nosso Padawan COBOL acorda cedo.
Olha o calendário.
Sorri.
Pensa consigo mesmo:
"Então hoje é o grande dia..."
Enquanto toma café...
Em algum lugar do planeta...
Segundo a previsão...
Um operador deveria caminhar lentamente até um enorme IBM Mainframe.
Respirar fundo.
Olhar para o painel.
Apertar o botão de desligamento.
Apagar a última luz.
Fechar a porta do CPD.
Ir para casa.
Fim da era dos mainframes.
Bonita cena.
Daria um excelente filme.
Existe apenas um pequeno problema.
Nada disso aconteceu.
O que realmente aconteceu em 15 de março de 1996?
Enquanto a previsão dizia que o último mainframe seria desligado...
Milhares deles continuavam funcionando normalmente.
Bancos abriram suas agências.
Companhias aéreas venderam passagens.
Seguradoras emitiram apólices.
Governos arrecadaram impostos.
Operadoras de cartão autorizaram milhões de compras.
Empresas pagaram funcionários.
O mundo simplesmente continuou girando.
Os mainframes também.
O humor involuntário da História
Existe algo fascinante sobre previsões muito específicas.
Elas envelhecem rapidamente.
Imagine alguém dizendo hoje:
"No dia 12 de agosto de 2031 desaparecerá a última aplicação Java."
Ou:
"Em 18 de fevereiro de 2034 ninguém mais utilizará bancos relacionais."
Provavelmente riríamos.
Foi exatamente isso que aconteceu com a frase de Alsop.
Ela deixou de ser uma previsão.
Transformou-se em um símbolo.
Hoje ela aparece em livros, palestras e cursos de arquitetura corporativa como um lembrete de que entusiasmo tecnológico não substitui análise técnica.
Por que tanta confiança?
A pergunta mais interessante não é:
"Como ele errou?"
A pergunta correta é:
"Por que tanta gente acreditou que ele acertaria?"
A resposta está no contexto da época.
Client/Server crescia rapidamente.
Windows NT aparecia como alternativa corporativa.
UNIX dominava universidades e centros de pesquisa.
RISC parecia imbatível.
As redes TCP/IP se expandiam.
O custo dos servidores diminuía ano após ano.
Tudo parecia caminhar para uma descentralização completa.
O erro foi imaginar que descentralização significava abandono da computação central.
Na prática...
As duas evoluíram juntas.
Enquanto isso... na IBM
Existe uma diferença curiosa entre marketing e engenharia.
Marketing faz anúncios.
Engenharia entrega versões.
Enquanto a indústria discutia o funeral do mainframe...
Os laboratórios da IBM continuavam trabalhando.
Mais desempenho.
Mais memória.
Mais canais de I/O.
Mais virtualização.
Mais confiabilidade.
Mais escalabilidade.
Sem responder às manchetes.
Sem entrar em debates públicos.
A IBM simplesmente fez aquilo que engenheiros costumam fazer.
Continuou desenvolvendo tecnologia.
O maior erro da previsão
Curiosamente...
O erro não foi subestimar o hardware.
Foi subestimar o software.
Na década de 1990 já existiam milhões de linhas de código COBOL executando operações críticas.
Centenas de milhões.
Depois bilhões.
Esses programas não eram apenas código.
Eram décadas de conhecimento empresarial.
Legislação.
Contabilidade.
Tributação.
Seguros.
Operações bancárias.
Regras de crédito.
Logística.
Folha de pagamento.
Não existia botão mágico chamado:
"Converter quarenta anos de experiência para outra plataforma."
Essa parte raramente aparecia nas apresentações de marketing.
O Padawan encontra Stewart Alsop
Vamos imaginar uma conversa impossível.
Nosso Padawan COBOL viaja no tempo.
Encontra Stewart Alsop.
Pergunta educadamente:
— Senhor Alsop...
Posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— Quantas linhas de COBOL existem hoje nos bancos americanos?
Silêncio.
— Quantas delas serão reescritas até março de 1996?
Mais silêncio.
— Quantos testes serão necessários?
Outro silêncio.
Então o Padawan conclui:
— Talvez o hardware mude mais rápido do que as regras de negócio.
A elegância da retratação
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, Stewart Alsop não fingiu que nada aconteceu.
Anos depois, ele reconheceu publicamente que sua previsão havia falhado.
Admitiu que havia subestimado a importância dos sistemas corporativos centralizados e a preferência das empresas por plataformas extremamente confiáveis para cargas críticas. Essa postura é frequentemente lembrada como um exemplo raro de humildade intelectual na indústria de tecnologia.
Isso merece respeito.
Errar faz parte da ciência.
Reconhecer o erro faz parte da honestidade intelectual.
Trinta anos depois...
Agora olhe ao redor.
Estamos em 2026.
O IBM Z executa cargas de Inteligência Artificial.
O IBM z17 incorpora recursos avançados de aceleração para IA.
O watsonx integra modelos corporativos.
O BOB (Build Open Builder) automatiza pipelines modernos.
O Enterprise COBOL continua evoluindo.
O Db2 13 recebe melhorias constantes.
O CICS TS conversa com APIs REST.
O z/OS integra ambientes híbridos.
O Ansible automatiza operações.
O Zowe aproxima o mundo open source do IBM Z.
O sistema que deveria ter sido desligado em março de 1996...
Hoje conversa com Kubernetes.
É difícil imaginar um desfecho mais irônico.
O verdadeiro vencedor
Muitas pessoas dizem que o mainframe venceu.
Na verdade...
Não houve vencedor.
O que venceu foi uma ideia muito maior.
A ideia de que arquiteturas sólidas evoluem.
O IBM Z incorporou Linux.
Depois Java.
Depois Web Services.
Depois APIs.
Depois DevOps.
Depois containers.
Depois OpenShift.
Depois Inteligência Artificial.
Sem abandonar aquilo que fazia desde os anos 1960.
Processar transações críticas com confiabilidade extraordinária.
A maior lição da história
Existe uma frase muito conhecida entre historiadores:
"Datas são perigosas."
Quando alguém afirma:
"Isso acontecerá algum dia..."
Talvez esteja certo.
Quando afirma:
"Acontecerá exatamente neste dia..."
O risco aumenta enormemente.
Foi exatamente isso que tornou a previsão de Stewart Alsop tão inesquecível.
Ela ganhou uma data.
E a História adora testar previsões com datas.
O conselho do velho mestre ao Padawan
Sempre que você ouvir alguém dizendo:
"Essa tecnologia desaparecerá até o ano X."
Respire.
Pegue um café.
Faça três perguntas.
Quem depende dela?
Quanto custa substituí-la?
Ela continua resolvendo problemas reais?
Se a resposta para a última pergunta for "sim"...
Talvez ela ainda tenha uma longa vida pela frente.
Foi exatamente isso que aconteceu com o IBM Mainframe.
No dia 15 de março de 1996 ninguém desligou o último IBM Z.
Na verdade...
Trinta anos depois...
O "último mainframe" virou IBM z17, executando Inteligência Artificial, DevOps, cloud híbrida, COBOL moderno, Db2, CICS, Linux e milhões de transações por segundo.
O único equipamento realmente desligado naquele dia foi a previsão.
Fonte histórica
InfoWorld, coluna de Stewart Alsop (1991), preservada pelo Professor Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe. A previsão de que "o último mainframe seria desligado em 15 de março de 1996" tornou-se uma das citações mais emblemáticas da história da computação, sendo lembrada até hoje como um exemplo clássico dos riscos de extrapolar tendências tecnológicas sem considerar a realidade operacional e o valor das aplicações de missão crítica.
Contexto histórico
No início da década de 1990, o crescimento do modelo Client/Server, dos servidores UNIX, das redes locais e dos computadores pessoais criou a percepção de que os grandes sistemas centralizados seriam rapidamente substituídos.
A previsão ignorava, entretanto, o valor acumulado em aplicações COBOL, regras de negócio, processamento transacional, segurança, disponibilidade, auditoria e integração corporativa.
A lição da previsão
A data de 15 de março de 1996 tornou-se um símbolo dos riscos de transformar tendências tecnológicas verdadeiras em conclusões absolutas. O Client/Server cresceu, mas o mainframe também evoluiu.
Em 2026, o ecossistema IBM Z reúne COBOL moderno, CICS, Db2, z/OS, Linux, APIs, DevOps, automação e inteligência artificial.
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