| Bellacosa Mainframe e o professor que arquivou o Funeral |
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Capítulo 3 — O Professor que Arquivou o Funeral
Conheça a história de Wolfgang Spruth e descubra como sua coleção de reportagens preservou a memória das previsões sobre a morte do mainframe, transformando-as em um importante documento histórico da computação moderna.
Por Vagner Bellacosa
Wolfgang Spruth e a Coleção das Manchetes que Tentaram Enterrar o Mainframe
"A História não é escrita apenas pelos vencedores. Às vezes ela também é escrita pelos analistas que erraram a previsão."
Antes de continuarmos...
Existe um personagem fundamental nesta história.
Curiosamente...
Ele não era jornalista.
Não era executivo de marketing.
Não era consultor.
Nem trabalhava tentando vender a próxima grande revolução da informática.
Era um professor.
Um pesquisador.
Um engenheiro.
Alguém que dedicou décadas da vida estudando computação corporativa.
Seu nome era Professor Wolfgang (Wilhelm G.) Spruth.
E, sem saber, ele acabaria produzindo um dos documentos históricos mais importantes sobre a evolução do IBM Mainframe.
Quem foi Wolfgang Spruth?
Para quem trabalha com IBM Z, principalmente na Europa, Wolfgang Spruth dispensa apresentações.
Professor da Universidade de Tübingen, na Alemanha, Spruth foi uma das maiores autoridades mundiais em Enterprise Computing, IBM Mainframe, sistemas operacionais, bancos de dados e arquitetura corporativa.
Durante décadas pesquisou:
IBM System/360
System/370
ESA/390
S/390
zSeries
z/OS
CICS
Db2
Virtualização
Arquiteturas Corporativas
Grandes Centros de Processamento de Dados
Muito antes da palavra "Cloud" existir...
Spruth já estudava virtualização.
Muito antes de falarmos em IA...
Ele estudava arquitetura de sistemas.
Muito antes do DevOps...
Ele analisava integração entre aplicações corporativas.
Seu foco nunca foi seguir modismos.
Seu foco sempre foi entender como os sistemas realmente funcionavam.
E essa diferença faz toda a diferença.
Um pesquisador em vez de um torcedor
Existe algo interessante sobre pesquisadores.
Eles normalmente não torcem.
Eles observam.
Registram.
Documentam.
Comparam.
Foi exatamente isso que Spruth fez.
Enquanto boa parte da imprensa anunciava o "fim inevitável" do mainframe...
Ele resolveu guardar aquelas reportagens.
Não para zombar.
Não para ridicularizar jornalistas.
Mas para construir um registro histórico.
Porque previsões tecnológicas também fazem parte da História da Computação.
O nascimento de um documento histórico
Anos depois surgiu um pequeno documento que se tornaria extremamente famoso entre profissionais IBM.
Seu título era simples.
The Death of the Mainframe
À primeira vista parecia apenas mais uma apresentação.
Alguns slides.
Algumas citações.
Poucas páginas.
Mas havia algo extremamente inteligente naquele material.
Em vez de discutir opiniões...
Spruth simplesmente mostrou as manchetes.
Uma após outra.
Em ordem cronológica.
Como um museu.
Como um álbum de fotografias.
Como um arquivo de jornal.
Cada slide representava um momento em que alguém decretou que o IBM Mainframe havia chegado ao fim.
O leitor tirava suas próprias conclusões.
Essa simplicidade tornou o trabalho tão poderoso.
O museu dos "fins do mundo"
Imagine entrar em um museu.
Na primeira sala existe uma placa.
1989
Logo abaixo.
Uma manchete.
"O Mainframe morreu."
Você caminha alguns metros.
Outra sala.
1991
Mais uma manchete.
"O último mainframe será desligado."
Mais alguns passos.
1993
"O Mainframe está correndo para a extinção."
Depois...
Outra previsão.
E outra.
E outra.
Ao final da exposição...
Você sai do museu.
Liga o aplicativo do banco.
Faz um PIX.
Compra uma passagem aérea.
Usa um cartão de crédito.
Recebe o salário.
E percebe que boa parte dessas operações ainda continua passando por plataformas IBM Z.
É impossível não sorrir.
O maior mérito de Spruth
Talvez você espere que o professor passasse páginas e páginas criticando cada jornalista.
Não.
Esse nunca foi o objetivo.
O trabalho possui um tom quase acadêmico.
Ele apenas apresenta os fatos.
Mostra as datas.
As publicações.
As frases.
E deixa que a passagem do tempo faça o restante.
É um excelente exemplo de como a História costuma ser mais convincente do que qualquer debate.
O contexto importa
E aqui existe uma lição importante para todo Padawan COBOL.
É muito fácil rir das previsões feitas há trinta anos.
Mas precisamos lembrar do contexto.
Naquela época:
Os computadores pessoais dobravam de potência rapidamente.
As redes locais cresciam.
O UNIX conquistava espaço.
O Windows NT surgia como promessa corporativa.
A internet começava sua expansão.
Os servidores Intel ficavam cada vez mais baratos.
Tudo parecia apontar para uma descentralização completa.
Se estivéssemos vivendo em 1991...
Talvez muitos de nós também acreditássemos naquelas previsões.
A História precisa ser analisada com os olhos da época.
Não apenas com o conhecimento que temos hoje.
A imprensa não inventou essa narrativa
Outro detalhe interessante.
As revistas não criaram sozinhas a ideia da morte do mainframe.
Elas refletiam um sentimento muito presente no mercado.
Fabricantes promoviam novas arquiteturas.
Consultorias recomendavam migrações.
Analistas divulgavam projeções otimistas.
Empresas buscavam reduzir custos.
A imprensa fazia aquilo que continua fazendo até hoje.
Publicava aquilo que parecia representar o futuro.
O problema não era noticiar tendências.
O problema era transformar tendências em certezas.
Existe uma enorme diferença entre dizer:
"O Client/Server está crescendo."
E afirmar:
"O Mainframe acabou."
Uma frase descreve uma evolução.
A outra decreta um veredito.
O curioso efeito das manchetes
Manchetes possuem um poder enorme.
Poucas pessoas leem o artigo inteiro.
A maioria lê apenas o título.
Imagine um diretor financeiro em 1993.
Ele abre uma revista.
Lê:
"Mainframe: tecnologia em extinção."
Pronto.
A ideia fica plantada.
Mesmo que o restante do texto apresente ressalvas...
O título já cumpriu sua missão.
Esse fenômeno continua existindo em 2026.
Troque "Mainframe" por:
IA substituirá todos os programadores.
O fim das linguagens tradicionais.
O último DBA.
O fim do DevOps.
O fim do Cloud.
O fim do Kubernetes.
Mudam os personagens.
O mecanismo psicológico continua exatamente o mesmo.
A máquina do hype nunca parou
Os anos mudam.
Os nomes mudam.
Mas existe uma engrenagem que permanece.
Primeiro surge uma inovação.
Depois aparece entusiasmo.
Em seguida surgem previsões exageradas.
Logo aparecem manchetes definitivas.
Anos depois...
A realidade encontra um equilíbrio.
Foi assim com:
Client/Server.
SOA.
XML.
Java Applets.
CORBA.
Blockchain.
Metaverso.
NFT.
E, muito provavelmente, acontecerá com diversas previsões atuais envolvendo Inteligência Artificial.
A IA transformará profundamente a indústria?
Sem dúvida.
Mas isso não significa que todo software existente será descartado.
Nem que toda linguagem desaparecerá.
Nem que décadas de regras de negócio deixarão de existir da noite para o dia.
O verdadeiro legado de Spruth
Talvez a maior contribuição de Wolfgang Spruth não tenha sido provar que o mainframe sobreviveu.
Isso o tempo fez sozinho.
Seu verdadeiro legado foi outro.
Ele nos ensinou a importância de preservar a memória da tecnologia.
Porque engenharia também possui História.
E quem não conhece essa História corre o risco de repetir exatamente os mesmos erros.
Hoje olhamos para aquelas manchetes e sorrimos.
Daqui a vinte anos...
Talvez alguém faça exatamente a mesma coisa com muitas previsões feitas sobre Inteligência Artificial em 2026.
Um conselho para o Padawan
Quando você ouvir alguém dizendo:
"Essa tecnologia morreu."
Não pergunte apenas:
"Qual tecnologia?"
Pergunte também:
Quem fez essa previsão?
Em qual contexto?
Com quais dados?
Qual interesse econômico existia?
Ela resolve um problema técnico ou vende uma narrativa?
Foi exatamente esse olhar crítico que transformou um conjunto de manchetes esquecidas em um dos documentos históricos mais valiosos da computação corporativa.
Graças ao trabalho paciente do professor Wolfgang Spruth, aquelas previsões não ficaram perdidas em arquivos de jornais. Elas se tornaram uma aula permanente sobre humildade tecnológica.
Porque, no fim das contas, a maior vítima da década de 1990 não foi o mainframe.
Foram as certezas absolutas.
E a Engenharia continua ensinando, geração após geração, que modismos passam.
Arquiteturas sólidas evoluem.
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