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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Capítulo 6 — InfoWorld (1991)

Bellacosa Mainframe e a infoworld com a morte do mainframe em 1991

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 6 — InfoWorld (1991)

O Dia em que Marcaram a Data da Morte do Mainframe... e Esqueceram de Avisar o Mainframe

Uma análise histórica da previsão atribuída a Stewart Alsop, publicada pela InfoWorld, segundo a qual o último mainframe seria desligado em 15 de março de 1996. O capítulo mostra por que a previsão falhou e como COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z continuaram evoluindo.

Por




``` InfoWorld e a previsão de que o último mainframe seria desligado em 15 de março de 1996
Em 1991, uma previsão publicada pela InfoWorld marcou 15 de março de 1996 como a data do desligamento do último mainframe. A data chegou, mas os sistemas continuaram funcionando.

“Prever o futuro já é difícil. Colocar data e hora no futuro é um convite para virar capítulo de livro de História.”

— Bellacosa Mainframe


Existe uma previsão que entrou para a História

Ao longo deste artigo vimos jornalistas dizendo que o mainframe era um dinossauro.

Vimos revistas afirmando que estava ultrapassado.

Outras sugeriam que sua importância diminuiria rapidamente.

Mas em 1991 aconteceu algo diferente.

Muito diferente.

Alguém resolveu fazer aquilo que engenheiros normalmente evitam fazer.

Marcar uma data.

Não um período.

Não "alguns anos".

Não "até o final da década".

Uma data exata.

Dia.

Mês.

Ano.

Uma espécie de prazo de validade para o IBM Mainframe.

Foi aí que nasceu uma das frases mais famosas — e mais lembradas — da história da computação.


Bellacosa Mainframe e as previsoes erradas na historia da informatica
Stewart Alsop

O protagonista desta história era Stewart Alsop.

Na época, Alsop era um dos jornalistas e analistas de tecnologia mais influentes dos Estados Unidos.

Escrevia para a InfoWorld.

Suas colunas eram lidas por executivos, arquitetos, CIOs e fabricantes de tecnologia.

Quando Stewart Alsop publicava uma opinião...

O mercado prestava atenção.

Era uma época em que revistas especializadas moldavam decisões de investimento de bilhões de dólares.

Não existia YouTube.

Não existia LinkedIn.

Não existiam influenciadores digitais.

As revistas técnicas eram uma das principais fontes de informação da indústria.

E foi exatamente nelas que apareceu uma das previsões mais ousadas da história da TI.


A frase que atravessou três décadas

Em sua coluna, Stewart Alsop escreveu:

"On March 15, 1996, someone will unplug the last mainframe."

Em tradução livre:

"No dia 15 de março de 1996 alguém desligará o último mainframe."

Não era uma metáfora.

Não era uma figura de linguagem.

Era uma previsão literal.

Uma data específica.

O último mainframe seria desligado.

Fim da história.

Essa frase foi posteriormente preservada pelo professor Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe e acabou se tornando uma das citações mais conhecidas sobre previsões tecnológicas equivocadas.


Um exercício de imaginação

Vamos imaginar o mundo naquela sexta-feira.

15 de março de 1996.

Nosso Padawan COBOL acorda cedo.

Olha o calendário.

Sorri.

Pensa consigo mesmo:

"Então hoje é o grande dia..."

Enquanto toma café...

Em algum lugar do planeta...

Segundo a previsão...

Um operador deveria caminhar lentamente até um enorme IBM Mainframe.

Respirar fundo.

Olhar para o painel.

Apertar o botão de desligamento.

Apagar a última luz.

Fechar a porta do CPD.

Ir para casa.

Fim da era dos mainframes.

Bonita cena.

Daria um excelente filme.

Existe apenas um pequeno problema.

Nada disso aconteceu.


O que realmente aconteceu em 15 de março de 1996?

Enquanto a previsão dizia que o último mainframe seria desligado...

Milhares deles continuavam funcionando normalmente.

Bancos abriram suas agências.

Companhias aéreas venderam passagens.

Seguradoras emitiram apólices.

Governos arrecadaram impostos.

Operadoras de cartão autorizaram milhões de compras.

Empresas pagaram funcionários.

O mundo simplesmente continuou girando.

Os mainframes também.


O humor involuntário da História

Existe algo fascinante sobre previsões muito específicas.

Elas envelhecem rapidamente.

Imagine alguém dizendo hoje:

"No dia 12 de agosto de 2031 desaparecerá a última aplicação Java."

Ou:

"Em 18 de fevereiro de 2034 ninguém mais utilizará bancos relacionais."

Provavelmente riríamos.

Foi exatamente isso que aconteceu com a frase de Alsop.

Ela deixou de ser uma previsão.

Transformou-se em um símbolo.

Hoje ela aparece em livros, palestras e cursos de arquitetura corporativa como um lembrete de que entusiasmo tecnológico não substitui análise técnica.


Por que tanta confiança?

A pergunta mais interessante não é:

"Como ele errou?"

A pergunta correta é:

"Por que tanta gente acreditou que ele acertaria?"

A resposta está no contexto da época.

Client/Server crescia rapidamente.

Windows NT aparecia como alternativa corporativa.

UNIX dominava universidades e centros de pesquisa.

RISC parecia imbatível.

As redes TCP/IP se expandiam.

O custo dos servidores diminuía ano após ano.

Tudo parecia caminhar para uma descentralização completa.

O erro foi imaginar que descentralização significava abandono da computação central.

Na prática...

As duas evoluíram juntas.


Enquanto isso... na IBM

Existe uma diferença curiosa entre marketing e engenharia.

Marketing faz anúncios.

Engenharia entrega versões.

Enquanto a indústria discutia o funeral do mainframe...

Os laboratórios da IBM continuavam trabalhando.

Mais desempenho.

Mais memória.

Mais canais de I/O.

Mais virtualização.

Mais confiabilidade.

Mais escalabilidade.

Sem responder às manchetes.

Sem entrar em debates públicos.

A IBM simplesmente fez aquilo que engenheiros costumam fazer.

Continuou desenvolvendo tecnologia.


O maior erro da previsão

Curiosamente...

O erro não foi subestimar o hardware.

Foi subestimar o software.

Na década de 1990 já existiam milhões de linhas de código COBOL executando operações críticas.

Centenas de milhões.

Depois bilhões.

Esses programas não eram apenas código.

Eram décadas de conhecimento empresarial.

Legislação.

Contabilidade.

Tributação.

Seguros.

Operações bancárias.

Regras de crédito.

Logística.

Folha de pagamento.

Não existia botão mágico chamado:

"Converter quarenta anos de experiência para outra plataforma."

Essa parte raramente aparecia nas apresentações de marketing.


O Padawan encontra Stewart Alsop

Vamos imaginar uma conversa impossível.

Nosso Padawan COBOL viaja no tempo.

Encontra Stewart Alsop.

Pergunta educadamente:

— Senhor Alsop...

Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Quantas linhas de COBOL existem hoje nos bancos americanos?

Silêncio.

— Quantas delas serão reescritas até março de 1996?

Mais silêncio.

— Quantos testes serão necessários?

Outro silêncio.

Então o Padawan conclui:

— Talvez o hardware mude mais rápido do que as regras de negócio.


A elegância da retratação

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, Stewart Alsop não fingiu que nada aconteceu.

Anos depois, ele reconheceu publicamente que sua previsão havia falhado.

Admitiu que havia subestimado a importância dos sistemas corporativos centralizados e a preferência das empresas por plataformas extremamente confiáveis para cargas críticas. Essa postura é frequentemente lembrada como um exemplo raro de humildade intelectual na indústria de tecnologia.

Isso merece respeito.

Errar faz parte da ciência.

Reconhecer o erro faz parte da honestidade intelectual.


Trinta anos depois...

Agora olhe ao redor.

Estamos em 2026.

O IBM Z executa cargas de Inteligência Artificial.

O IBM z17 incorpora recursos avançados de aceleração para IA.

O watsonx integra modelos corporativos.

O BOB (Build Open Builder) automatiza pipelines modernos.

O Enterprise COBOL continua evoluindo.

O Db2 13 recebe melhorias constantes.

O CICS TS conversa com APIs REST.

O z/OS integra ambientes híbridos.

O Ansible automatiza operações.

O Zowe aproxima o mundo open source do IBM Z.

O sistema que deveria ter sido desligado em março de 1996...

Hoje conversa com Kubernetes.

É difícil imaginar um desfecho mais irônico.


O verdadeiro vencedor

Muitas pessoas dizem que o mainframe venceu.

Na verdade...

Não houve vencedor.

O que venceu foi uma ideia muito maior.

A ideia de que arquiteturas sólidas evoluem.

O IBM Z incorporou Linux.

Depois Java.

Depois Web Services.

Depois APIs.

Depois DevOps.

Depois containers.

Depois OpenShift.

Depois Inteligência Artificial.

Sem abandonar aquilo que fazia desde os anos 1960.

Processar transações críticas com confiabilidade extraordinária.


A maior lição da história

Existe uma frase muito conhecida entre historiadores:

"Datas são perigosas."

Quando alguém afirma:

"Isso acontecerá algum dia..."

Talvez esteja certo.

Quando afirma:

"Acontecerá exatamente neste dia..."

O risco aumenta enormemente.

Foi exatamente isso que tornou a previsão de Stewart Alsop tão inesquecível.

Ela ganhou uma data.

E a História adora testar previsões com datas.


O conselho do velho mestre ao Padawan

Sempre que você ouvir alguém dizendo:

"Essa tecnologia desaparecerá até o ano X."

Respire.

Pegue um café.

Faça três perguntas.

  • Quem depende dela?

  • Quanto custa substituí-la?

  • Ela continua resolvendo problemas reais?

Se a resposta para a última pergunta for "sim"...

Talvez ela ainda tenha uma longa vida pela frente.

Foi exatamente isso que aconteceu com o IBM Mainframe.

No dia 15 de março de 1996 ninguém desligou o último IBM Z.

Na verdade...

Trinta anos depois...

O "último mainframe" virou IBM z17, executando Inteligência Artificial, DevOps, cloud híbrida, COBOL moderno, Db2, CICS, Linux e milhões de transações por segundo.

O único equipamento realmente desligado naquele dia foi a previsão.


Fonte histórica

InfoWorld, coluna de Stewart Alsop (1991), preservada pelo Professor Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe. A previsão de que "o último mainframe seria desligado em 15 de março de 1996" tornou-se uma das citações mais emblemáticas da história da computação, sendo lembrada até hoje como um exemplo clássico dos riscos de extrapolar tendências tecnológicas sem considerar a realidade operacional e o valor das aplicações de missão crítica.

Contexto histórico

No início da década de 1990, o crescimento do modelo Client/Server, dos servidores UNIX, das redes locais e dos computadores pessoais criou a percepção de que os grandes sistemas centralizados seriam rapidamente substituídos.

A previsão ignorava, entretanto, o valor acumulado em aplicações COBOL, regras de negócio, processamento transacional, segurança, disponibilidade, auditoria e integração corporativa.

A lição da previsão

A data de 15 de março de 1996 tornou-se um símbolo dos riscos de transformar tendências tecnológicas verdadeiras em conclusões absolutas. O Client/Server cresceu, mas o mainframe também evoluiu.

Em 2026, o ecossistema IBM Z reúne COBOL moderno, CICS, Db2, z/OS, Linux, APIs, DevOps, automação e inteligência artificial.

Bellacosa Mainframe e o Funeral que nunca aconteceu


 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Capítulo 3 — O Professor que Arquivou o Funeral

Bellacosa Mainframe e o professor que arquivou o Funeral

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 3 — O Professor que Arquivou o Funeral

Conheça a história de Wolfgang Spruth e descubra como sua coleção de reportagens preservou a memória das previsões sobre a morte do mainframe, transformando-as em um importante documento histórico da computação moderna.

Por


Wolfgang Spruth preservando a história das previsões sobre a morte do Mainframe

Wolfgang Spruth documentou décadas de previsões equivocadas sobre o fim do Mainframe, criando um importante registro histórico da computação.


Wolfgang Spruth e a Coleção das Manchetes que Tentaram Enterrar o Mainframe

"A História não é escrita apenas pelos vencedores. Às vezes ela também é escrita pelos analistas que erraram a previsão."


Antes de continuarmos...

Existe um personagem fundamental nesta história.

Curiosamente...

Ele não era jornalista.

Não era executivo de marketing.

Não era consultor.

Nem trabalhava tentando vender a próxima grande revolução da informática.

Era um professor.

Um pesquisador.

Um engenheiro.

Alguém que dedicou décadas da vida estudando computação corporativa.

Seu nome era Professor Wolfgang (Wilhelm G.) Spruth.

E, sem saber, ele acabaria produzindo um dos documentos históricos mais importantes sobre a evolução do IBM Mainframe.


Quem foi Wolfgang Spruth?

Para quem trabalha com IBM Z, principalmente na Europa, Wolfgang Spruth dispensa apresentações.

Professor da Universidade de Tübingen, na Alemanha, Spruth foi uma das maiores autoridades mundiais em Enterprise Computing, IBM Mainframe, sistemas operacionais, bancos de dados e arquitetura corporativa.

Durante décadas pesquisou:

  • IBM System/360

  • System/370

  • ESA/390

  • S/390

  • zSeries

  • z/OS

  • CICS

  • Db2

  • Virtualização

  • Arquiteturas Corporativas

  • Grandes Centros de Processamento de Dados

Muito antes da palavra "Cloud" existir...

Spruth já estudava virtualização.

Muito antes de falarmos em IA...

Ele estudava arquitetura de sistemas.

Muito antes do DevOps...

Ele analisava integração entre aplicações corporativas.

Seu foco nunca foi seguir modismos.

Seu foco sempre foi entender como os sistemas realmente funcionavam.

E essa diferença faz toda a diferença.


Um pesquisador em vez de um torcedor

Existe algo interessante sobre pesquisadores.

Eles normalmente não torcem.

Eles observam.

Registram.

Documentam.

Comparam.

Foi exatamente isso que Spruth fez.

Enquanto boa parte da imprensa anunciava o "fim inevitável" do mainframe...

Ele resolveu guardar aquelas reportagens.

Não para zombar.

Não para ridicularizar jornalistas.

Mas para construir um registro histórico.

Porque previsões tecnológicas também fazem parte da História da Computação.


O nascimento de um documento histórico

Anos depois surgiu um pequeno documento que se tornaria extremamente famoso entre profissionais IBM.

Seu título era simples.

The Death of the Mainframe

À primeira vista parecia apenas mais uma apresentação.

Alguns slides.

Algumas citações.

Poucas páginas.

Mas havia algo extremamente inteligente naquele material.

Em vez de discutir opiniões...

Spruth simplesmente mostrou as manchetes.

Uma após outra.

Em ordem cronológica.

Como um museu.

Como um álbum de fotografias.

Como um arquivo de jornal.

Cada slide representava um momento em que alguém decretou que o IBM Mainframe havia chegado ao fim.

O leitor tirava suas próprias conclusões.

Essa simplicidade tornou o trabalho tão poderoso.


O museu dos "fins do mundo"

Imagine entrar em um museu.

Na primeira sala existe uma placa.

1989

Logo abaixo.

Uma manchete.

"O Mainframe morreu."

Você caminha alguns metros.

Outra sala.

1991

Mais uma manchete.

"O último mainframe será desligado."

Mais alguns passos.

1993

"O Mainframe está correndo para a extinção."

Depois...

Outra previsão.

E outra.

E outra.

Ao final da exposição...

Você sai do museu.

Liga o aplicativo do banco.

Faz um PIX.

Compra uma passagem aérea.

Usa um cartão de crédito.

Recebe o salário.

E percebe que boa parte dessas operações ainda continua passando por plataformas IBM Z.

É impossível não sorrir.


O maior mérito de Spruth

Talvez você espere que o professor passasse páginas e páginas criticando cada jornalista.

Não.

Esse nunca foi o objetivo.

O trabalho possui um tom quase acadêmico.

Ele apenas apresenta os fatos.

Mostra as datas.

As publicações.

As frases.

E deixa que a passagem do tempo faça o restante.

É um excelente exemplo de como a História costuma ser mais convincente do que qualquer debate.


O contexto importa

E aqui existe uma lição importante para todo Padawan COBOL.

É muito fácil rir das previsões feitas há trinta anos.

Mas precisamos lembrar do contexto.

Naquela época:

Os computadores pessoais dobravam de potência rapidamente.

As redes locais cresciam.

O UNIX conquistava espaço.

O Windows NT surgia como promessa corporativa.

A internet começava sua expansão.

Os servidores Intel ficavam cada vez mais baratos.

Tudo parecia apontar para uma descentralização completa.

Se estivéssemos vivendo em 1991...

Talvez muitos de nós também acreditássemos naquelas previsões.

A História precisa ser analisada com os olhos da época.

Não apenas com o conhecimento que temos hoje.


A imprensa não inventou essa narrativa

Outro detalhe interessante.

As revistas não criaram sozinhas a ideia da morte do mainframe.

Elas refletiam um sentimento muito presente no mercado.

Fabricantes promoviam novas arquiteturas.

Consultorias recomendavam migrações.

Analistas divulgavam projeções otimistas.

Empresas buscavam reduzir custos.

A imprensa fazia aquilo que continua fazendo até hoje.

Publicava aquilo que parecia representar o futuro.

O problema não era noticiar tendências.

O problema era transformar tendências em certezas.

Existe uma enorme diferença entre dizer:

"O Client/Server está crescendo."

E afirmar:

"O Mainframe acabou."

Uma frase descreve uma evolução.

A outra decreta um veredito.


O curioso efeito das manchetes

Manchetes possuem um poder enorme.

Poucas pessoas leem o artigo inteiro.

A maioria lê apenas o título.

Imagine um diretor financeiro em 1993.

Ele abre uma revista.

Lê:

"Mainframe: tecnologia em extinção."

Pronto.

A ideia fica plantada.

Mesmo que o restante do texto apresente ressalvas...

O título já cumpriu sua missão.

Esse fenômeno continua existindo em 2026.

Troque "Mainframe" por:

  • IA substituirá todos os programadores.

  • O fim das linguagens tradicionais.

  • O último DBA.

  • O fim do DevOps.

  • O fim do Cloud.

  • O fim do Kubernetes.

Mudam os personagens.

O mecanismo psicológico continua exatamente o mesmo.


A máquina do hype nunca parou

Os anos mudam.

Os nomes mudam.

Mas existe uma engrenagem que permanece.

Primeiro surge uma inovação.

Depois aparece entusiasmo.

Em seguida surgem previsões exageradas.

Logo aparecem manchetes definitivas.

Anos depois...

A realidade encontra um equilíbrio.

Foi assim com:

Client/Server.

SOA.

XML.

Java Applets.

CORBA.

Blockchain.

Metaverso.

NFT.

E, muito provavelmente, acontecerá com diversas previsões atuais envolvendo Inteligência Artificial.

A IA transformará profundamente a indústria?

Sem dúvida.

Mas isso não significa que todo software existente será descartado.

Nem que toda linguagem desaparecerá.

Nem que décadas de regras de negócio deixarão de existir da noite para o dia.


O verdadeiro legado de Spruth

Talvez a maior contribuição de Wolfgang Spruth não tenha sido provar que o mainframe sobreviveu.

Isso o tempo fez sozinho.

Seu verdadeiro legado foi outro.

Ele nos ensinou a importância de preservar a memória da tecnologia.

Porque engenharia também possui História.

E quem não conhece essa História corre o risco de repetir exatamente os mesmos erros.

Hoje olhamos para aquelas manchetes e sorrimos.

Daqui a vinte anos...

Talvez alguém faça exatamente a mesma coisa com muitas previsões feitas sobre Inteligência Artificial em 2026.


Um conselho para o Padawan

Quando você ouvir alguém dizendo:

"Essa tecnologia morreu."

Não pergunte apenas:

"Qual tecnologia?"

Pergunte também:

  • Quem fez essa previsão?

  • Em qual contexto?

  • Com quais dados?

  • Qual interesse econômico existia?

  • Ela resolve um problema técnico ou vende uma narrativa?

Foi exatamente esse olhar crítico que transformou um conjunto de manchetes esquecidas em um dos documentos históricos mais valiosos da computação corporativa.

Graças ao trabalho paciente do professor Wolfgang Spruth, aquelas previsões não ficaram perdidas em arquivos de jornais. Elas se tornaram uma aula permanente sobre humildade tecnológica.

Porque, no fim das contas, a maior vítima da década de 1990 não foi o mainframe.

Foram as certezas absolutas.

E a Engenharia continua ensinando, geração após geração, que modismos passam.

Arquiteturas sólidas evoluem.

 

Bellacosa Mainframe e a serie Funeral que nunca aconteceu



quarta-feira, 1 de julho de 2026

Capítulo 1 — O Funeral que Nunca Aconteceu

Bellacosa Mainframe e o funeral que nunca aconteceu


Uma viagem histórica pelas previsões que anunciaram a morte do mainframe e pela engenharia que manteve COBOL, CICS, Db2, JCL, z/OS e IBM Z essenciais até 2026.

Por


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 1 — O Funeral que Nunca Aconteceu

"Existem três coisas extremamente perigosas na Tecnologia da Informação: benchmark sem contexto, buzzword da moda e jornalista anunciando a morte de uma tecnologia que movimenta bilhões de dólares por dia."
— Bellacosa Mainframe


O dia em que enterraram um computador... que continuou trabalhando

Imagine a cena.

Março de 1991.

Um auditório lotado.

Executivos de gravata.

Consultores distribuindo transparências de retroprojetor.

Especialistas apontando para gráficos coloridos.

No centro da sala, um palestrante sobe ao palco e anuncia, com a confiança de quem acredita estar vendo o futuro:

"O mainframe morreu."

A plateia aplaude.

Outro completa:

— "Agora tudo será Client/Server."

Mais um responde:

— "COBOL acabou."

Um terceiro acrescenta:

— "Em poucos anos ninguém mais usará JCL."

Lá no fundo alguém grita:

— "Windows NT vai dominar o mundo!"

E outro completa:

— "UNIX substituirá tudo."

Naquele instante parecia impossível discordar.

A imprensa repetia.

Os analistas confirmavam.

Os fabricantes concorrentes comemoravam.

As consultorias vendiam projetos milionários de migração.

Os buzzwords surgiam mais rápido do que versões de frameworks aparecem hoje.

Enquanto isso...

A milhares de quilômetros dali...

Sem plateia.

Sem marketing.

Sem PowerPoint.

Sem keynote.

Um IBM Mainframe continuava fazendo exatamente o que sempre fez.

Processando folha de pagamento.

Autorizando compras.

Movimentando contas bancárias.

Controlando companhias aéreas.

Executando milhões de transações CICS.

Atualizando tabelas Db2.

Executando milhares de JOBs JES2.

Processando COBOL.

Respondendo IMS.

Gerenciando VSAM.

Sem saber que, segundo alguns especialistas, ele já estava morto.


Bellacosa Mainframe e o IBM S390 que atravessou o olho do furacão

O morto mais produtivo da história da computação

Existe uma ironia maravilhosa nessa história.

Poucas tecnologias receberam tantos atestados de óbito quanto o mainframe.

E poucas sobreviveram tão bem.

Durante praticamente toda a década de 1990 surgiu uma nova manchete anunciando que aquele enorme computador centralizado finalmente havia chegado ao fim.

Era compreensível.

Os PCs evoluíam rapidamente.

As redes Ethernet cresciam.

Os servidores UNIX ficavam mais baratos.

Windows NT surgia como promessa corporativa.

A internet começava sua explosão.

Tudo parecia apontar para um futuro distribuído.

O problema não era enxergar essas tendências.

O problema era acreditar que evolução significava substituição.

Foi exatamente esse erro que boa parte da indústria cometeu.


A década dos Buzzwords

Se você é um Padawan COBOL em 2026, talvez ache engraçado imaginar uma época sem Cloud, Kubernetes, DevOps, IA Generativa ou LLMs.

Mas toda geração cria seus próprios modismos.

Na década de 1990 eles tinham nomes diferentes.

Client/Server.

Downsizing.

Open Systems.

Distributed Computing.

Network Computing.

Workstations.

RISC.

Windows NT.

Cada um era apresentado como "o futuro inevitável".

Bastava colocar um desses nomes em um folder colorido e, magicamente, o produto parecia revolucionário.

Era como se existisse um encantamento corporativo.

Se um software fosse chamado apenas de "Sistema Financeiro", ninguém prestava atenção.

Mas bastava renomeá-lo para:

Open Distributed Client/Server Enterprise Architecture Framework

...e imediatamente ele parecia valer dez vezes mais.

Mudou alguma coisa desde então?

Talvez apenas os nomes.

Hoje trocamos "Client/Server" por "AI Native".

"Distributed Computing" virou "Cloud First".

"Open Systems" virou "Platform Engineering".

"SOA" virou "Microservices".

"Big Data" virou "Data Fabric".

"Machine Learning" virou "Generative AI".

A tecnologia evolui.

Os buzzwords apenas mudam de roupa.


O professor que resolveu guardar a história

Anos depois, o professor Wilhelm G. Spruth, uma das maiores autoridades mundiais em Enterprise Computing e tecnologia IBM Z, teve uma ideia brilhante.

Em vez de simplesmente dizer que aquelas previsões estavam erradas...

Ele resolveu preservá-las.

Em seu famoso trabalho "The Death of the Mainframe", Spruth reuniu exatamente essas manchetes históricas publicadas por jornais, revistas e analistas de mercado. Seu objetivo não era ridicularizar ninguém, mas mostrar como previsões tecnológicas podem ser influenciadas pelo entusiasmo do momento e pelo marketing da indústria.

Graças a esse trabalho, hoje podemos olhar para aquelas páginas quase como um arqueólogo observa um fóssil.

Cada manchete conta uma história.

Cada previsão revela como a indústria pensava.

Cada erro ensina uma lição.


Este artigo não é sobre rir do passado

Seria muito fácil fazer piada.

E faremos algumas.

Mas o objetivo aqui é outro.

Vamos entender por que pessoas extremamente inteligentes chegaram à conclusão de que o mainframe morreria.

Na época, isso parecia lógico.

Muitos dos argumentos eram tecnicamente consistentes.

O problema é que quase todos analisavam apenas o hardware.

Pouquíssimos observavam aquilo que realmente sustentava o mundo corporativo:

  • décadas de regras de negócio;

  • milhões de linhas de COBOL;

  • consistência transacional;

  • disponibilidade próxima de 100%;

  • segurança;

  • auditoria;

  • governança;

  • integração;

  • custo gigantesco de uma migração.

Eles olharam para o computador.

Esqueceram de olhar para o negócio.

E negócios raramente seguem modismos.


Trinta anos depois...

Agora avance o calendário.

Não estamos mais em 1991.

Nem em 1996.

Estamos em 2026.

Enquanto muitos dos "assassinos do mainframe" desapareceram, foram comprados, mudaram de nome ou simplesmente deixaram de existir, o IBM Z continua evoluindo.

Hoje temos:

  • IBM z17;

  • aceleração de IA integrada;

  • watsonx;

  • IBM Build Open Builder (BOB);

  • OpenShift;

  • Ansible;

  • Zowe;

  • DevOps;

  • APIs REST;

  • containers Linux;

  • Enterprise COBOL cada vez mais otimizado;

  • Db2 mais inteligente;

  • CICS mais moderno;

  • z/OS integrando cloud híbrida e inteligência artificial.

O "dinossauro" aprendeu a conversar com Kubernetes.

Aprendeu a executar IA.

Aprendeu a expor APIs.

Aprendeu DevOps.

E fez tudo isso sem abandonar aquilo que sempre soube fazer melhor: executar cargas críticas com confiabilidade extraordinária.


Bem-vindo ao maior "post-mortem" da história da TI

Nos próximos capítulos vamos abrir uma verdadeira cápsula do tempo.

Vamos revisitar, uma a uma, as reportagens da Forbes, The New York Times, InfoWorld e Business Week.

Você verá o contexto histórico.

Os argumentos utilizados.

O que acertaram.

O que erraram.

Como aquelas previsões influenciaram toda uma geração de arquitetos e executivos.

E, principalmente, por que o tempo mostrou que o futuro costuma ser muito mais complexo do que qualquer manchete de capa consegue prever.

Pegue seu café.

Abra o ISPF.

Porque a autópsia vai começar.

E, curiosamente, o paciente ainda está trabalhando.

Bellacosa Mainframe e a serie o Funeral que nunca aconteceu