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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Capítulo 6 — InfoWorld (1991)

Bellacosa Mainframe e a infoworld com a morte do mainframe em 1991

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 6 — InfoWorld (1991)

O Dia em que Marcaram a Data da Morte do Mainframe... e Esqueceram de Avisar o Mainframe

Uma análise histórica da previsão atribuída a Stewart Alsop, publicada pela InfoWorld, segundo a qual o último mainframe seria desligado em 15 de março de 1996. O capítulo mostra por que a previsão falhou e como COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z continuaram evoluindo.

Por




``` InfoWorld e a previsão de que o último mainframe seria desligado em 15 de março de 1996
Em 1991, uma previsão publicada pela InfoWorld marcou 15 de março de 1996 como a data do desligamento do último mainframe. A data chegou, mas os sistemas continuaram funcionando.

“Prever o futuro já é difícil. Colocar data e hora no futuro é um convite para virar capítulo de livro de História.”

— Bellacosa Mainframe


Existe uma previsão que entrou para a História

Ao longo deste artigo vimos jornalistas dizendo que o mainframe era um dinossauro.

Vimos revistas afirmando que estava ultrapassado.

Outras sugeriam que sua importância diminuiria rapidamente.

Mas em 1991 aconteceu algo diferente.

Muito diferente.

Alguém resolveu fazer aquilo que engenheiros normalmente evitam fazer.

Marcar uma data.

Não um período.

Não "alguns anos".

Não "até o final da década".

Uma data exata.

Dia.

Mês.

Ano.

Uma espécie de prazo de validade para o IBM Mainframe.

Foi aí que nasceu uma das frases mais famosas — e mais lembradas — da história da computação.


Bellacosa Mainframe e as previsoes erradas na historia da informatica
Stewart Alsop

O protagonista desta história era Stewart Alsop.

Na época, Alsop era um dos jornalistas e analistas de tecnologia mais influentes dos Estados Unidos.

Escrevia para a InfoWorld.

Suas colunas eram lidas por executivos, arquitetos, CIOs e fabricantes de tecnologia.

Quando Stewart Alsop publicava uma opinião...

O mercado prestava atenção.

Era uma época em que revistas especializadas moldavam decisões de investimento de bilhões de dólares.

Não existia YouTube.

Não existia LinkedIn.

Não existiam influenciadores digitais.

As revistas técnicas eram uma das principais fontes de informação da indústria.

E foi exatamente nelas que apareceu uma das previsões mais ousadas da história da TI.


A frase que atravessou três décadas

Em sua coluna, Stewart Alsop escreveu:

"On March 15, 1996, someone will unplug the last mainframe."

Em tradução livre:

"No dia 15 de março de 1996 alguém desligará o último mainframe."

Não era uma metáfora.

Não era uma figura de linguagem.

Era uma previsão literal.

Uma data específica.

O último mainframe seria desligado.

Fim da história.

Essa frase foi posteriormente preservada pelo professor Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe e acabou se tornando uma das citações mais conhecidas sobre previsões tecnológicas equivocadas.


Um exercício de imaginação

Vamos imaginar o mundo naquela sexta-feira.

15 de março de 1996.

Nosso Padawan COBOL acorda cedo.

Olha o calendário.

Sorri.

Pensa consigo mesmo:

"Então hoje é o grande dia..."

Enquanto toma café...

Em algum lugar do planeta...

Segundo a previsão...

Um operador deveria caminhar lentamente até um enorme IBM Mainframe.

Respirar fundo.

Olhar para o painel.

Apertar o botão de desligamento.

Apagar a última luz.

Fechar a porta do CPD.

Ir para casa.

Fim da era dos mainframes.

Bonita cena.

Daria um excelente filme.

Existe apenas um pequeno problema.

Nada disso aconteceu.


O que realmente aconteceu em 15 de março de 1996?

Enquanto a previsão dizia que o último mainframe seria desligado...

Milhares deles continuavam funcionando normalmente.

Bancos abriram suas agências.

Companhias aéreas venderam passagens.

Seguradoras emitiram apólices.

Governos arrecadaram impostos.

Operadoras de cartão autorizaram milhões de compras.

Empresas pagaram funcionários.

O mundo simplesmente continuou girando.

Os mainframes também.


O humor involuntário da História

Existe algo fascinante sobre previsões muito específicas.

Elas envelhecem rapidamente.

Imagine alguém dizendo hoje:

"No dia 12 de agosto de 2031 desaparecerá a última aplicação Java."

Ou:

"Em 18 de fevereiro de 2034 ninguém mais utilizará bancos relacionais."

Provavelmente riríamos.

Foi exatamente isso que aconteceu com a frase de Alsop.

Ela deixou de ser uma previsão.

Transformou-se em um símbolo.

Hoje ela aparece em livros, palestras e cursos de arquitetura corporativa como um lembrete de que entusiasmo tecnológico não substitui análise técnica.


Por que tanta confiança?

A pergunta mais interessante não é:

"Como ele errou?"

A pergunta correta é:

"Por que tanta gente acreditou que ele acertaria?"

A resposta está no contexto da época.

Client/Server crescia rapidamente.

Windows NT aparecia como alternativa corporativa.

UNIX dominava universidades e centros de pesquisa.

RISC parecia imbatível.

As redes TCP/IP se expandiam.

O custo dos servidores diminuía ano após ano.

Tudo parecia caminhar para uma descentralização completa.

O erro foi imaginar que descentralização significava abandono da computação central.

Na prática...

As duas evoluíram juntas.


Enquanto isso... na IBM

Existe uma diferença curiosa entre marketing e engenharia.

Marketing faz anúncios.

Engenharia entrega versões.

Enquanto a indústria discutia o funeral do mainframe...

Os laboratórios da IBM continuavam trabalhando.

Mais desempenho.

Mais memória.

Mais canais de I/O.

Mais virtualização.

Mais confiabilidade.

Mais escalabilidade.

Sem responder às manchetes.

Sem entrar em debates públicos.

A IBM simplesmente fez aquilo que engenheiros costumam fazer.

Continuou desenvolvendo tecnologia.


O maior erro da previsão

Curiosamente...

O erro não foi subestimar o hardware.

Foi subestimar o software.

Na década de 1990 já existiam milhões de linhas de código COBOL executando operações críticas.

Centenas de milhões.

Depois bilhões.

Esses programas não eram apenas código.

Eram décadas de conhecimento empresarial.

Legislação.

Contabilidade.

Tributação.

Seguros.

Operações bancárias.

Regras de crédito.

Logística.

Folha de pagamento.

Não existia botão mágico chamado:

"Converter quarenta anos de experiência para outra plataforma."

Essa parte raramente aparecia nas apresentações de marketing.


O Padawan encontra Stewart Alsop

Vamos imaginar uma conversa impossível.

Nosso Padawan COBOL viaja no tempo.

Encontra Stewart Alsop.

Pergunta educadamente:

— Senhor Alsop...

Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Quantas linhas de COBOL existem hoje nos bancos americanos?

Silêncio.

— Quantas delas serão reescritas até março de 1996?

Mais silêncio.

— Quantos testes serão necessários?

Outro silêncio.

Então o Padawan conclui:

— Talvez o hardware mude mais rápido do que as regras de negócio.


A elegância da retratação

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, Stewart Alsop não fingiu que nada aconteceu.

Anos depois, ele reconheceu publicamente que sua previsão havia falhado.

Admitiu que havia subestimado a importância dos sistemas corporativos centralizados e a preferência das empresas por plataformas extremamente confiáveis para cargas críticas. Essa postura é frequentemente lembrada como um exemplo raro de humildade intelectual na indústria de tecnologia.

Isso merece respeito.

Errar faz parte da ciência.

Reconhecer o erro faz parte da honestidade intelectual.


Trinta anos depois...

Agora olhe ao redor.

Estamos em 2026.

O IBM Z executa cargas de Inteligência Artificial.

O IBM z17 incorpora recursos avançados de aceleração para IA.

O watsonx integra modelos corporativos.

O BOB (Build Open Builder) automatiza pipelines modernos.

O Enterprise COBOL continua evoluindo.

O Db2 13 recebe melhorias constantes.

O CICS TS conversa com APIs REST.

O z/OS integra ambientes híbridos.

O Ansible automatiza operações.

O Zowe aproxima o mundo open source do IBM Z.

O sistema que deveria ter sido desligado em março de 1996...

Hoje conversa com Kubernetes.

É difícil imaginar um desfecho mais irônico.


O verdadeiro vencedor

Muitas pessoas dizem que o mainframe venceu.

Na verdade...

Não houve vencedor.

O que venceu foi uma ideia muito maior.

A ideia de que arquiteturas sólidas evoluem.

O IBM Z incorporou Linux.

Depois Java.

Depois Web Services.

Depois APIs.

Depois DevOps.

Depois containers.

Depois OpenShift.

Depois Inteligência Artificial.

Sem abandonar aquilo que fazia desde os anos 1960.

Processar transações críticas com confiabilidade extraordinária.


A maior lição da história

Existe uma frase muito conhecida entre historiadores:

"Datas são perigosas."

Quando alguém afirma:

"Isso acontecerá algum dia..."

Talvez esteja certo.

Quando afirma:

"Acontecerá exatamente neste dia..."

O risco aumenta enormemente.

Foi exatamente isso que tornou a previsão de Stewart Alsop tão inesquecível.

Ela ganhou uma data.

E a História adora testar previsões com datas.


O conselho do velho mestre ao Padawan

Sempre que você ouvir alguém dizendo:

"Essa tecnologia desaparecerá até o ano X."

Respire.

Pegue um café.

Faça três perguntas.

  • Quem depende dela?

  • Quanto custa substituí-la?

  • Ela continua resolvendo problemas reais?

Se a resposta para a última pergunta for "sim"...

Talvez ela ainda tenha uma longa vida pela frente.

Foi exatamente isso que aconteceu com o IBM Mainframe.

No dia 15 de março de 1996 ninguém desligou o último IBM Z.

Na verdade...

Trinta anos depois...

O "último mainframe" virou IBM z17, executando Inteligência Artificial, DevOps, cloud híbrida, COBOL moderno, Db2, CICS, Linux e milhões de transações por segundo.

O único equipamento realmente desligado naquele dia foi a previsão.


Fonte histórica

InfoWorld, coluna de Stewart Alsop (1991), preservada pelo Professor Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe. A previsão de que "o último mainframe seria desligado em 15 de março de 1996" tornou-se uma das citações mais emblemáticas da história da computação, sendo lembrada até hoje como um exemplo clássico dos riscos de extrapolar tendências tecnológicas sem considerar a realidade operacional e o valor das aplicações de missão crítica.

Contexto histórico

No início da década de 1990, o crescimento do modelo Client/Server, dos servidores UNIX, das redes locais e dos computadores pessoais criou a percepção de que os grandes sistemas centralizados seriam rapidamente substituídos.

A previsão ignorava, entretanto, o valor acumulado em aplicações COBOL, regras de negócio, processamento transacional, segurança, disponibilidade, auditoria e integração corporativa.

A lição da previsão

A data de 15 de março de 1996 tornou-se um símbolo dos riscos de transformar tendências tecnológicas verdadeiras em conclusões absolutas. O Client/Server cresceu, mas o mainframe também evoluiu.

Em 2026, o ecossistema IBM Z reúne COBOL moderno, CICS, Db2, z/OS, Linux, APIs, DevOps, automação e inteligência artificial.

Bellacosa Mainframe e o Funeral que nunca aconteceu


 
C:\BELLACOSA\COBOL\FUNERAL_QUE_NUNCA_ACONTECEU.HTML
★ BELLACOSA MAINFRAME APRESENTA ★

A MORTE DO COBOL

O Funeral que Nunca Aconteceu

Uma investigação histórica em 14 capítulos sobre as previsões, reportagens, buzzwords e profetas que anunciaram repetidamente o fim do COBOL — enquanto bilhões de transações continuavam sendo processadas silenciosamente.

SISTEMA ONLINE — 14 CAPÍTULOS DISPONÍVEIS
▼ DIRETÓRIO DE CAPÍTULOS ▼

README.TXT

Esta série investiga uma das narrativas mais repetidas da história da tecnologia: a suposta morte do COBOL. Durante décadas, revistas, jornais, consultorias e especialistas anunciaram seu desaparecimento. Entretanto, o COBOL permaneceu processando bancos, seguradoras, governos, cartões, pagamentos e sistemas críticos.

Os títulos e links acima são elementos HTML reais, permitindo que mecanismos de busca encontrem e rastreiem todos os capítulos. Os iframes funcionam apenas como previews visuais.

C:\> RUN BELLACOSA.EXE /COBOL /HISTORY /NO-FUNERAL _

★ BELLACOSA MAINFRAME ★ COBOL ★ IBM Z ★ HISTÓRIA DA COMPUTAÇÃO ★

Melhor visualizado em qualquer navegador com café disponível.

quinta-feira, 14 de março de 1991

📷 1991 — A Minha Primeira Câmera Fotográfica

 

Bellacosa Mainframe e a minha aventura fotografica

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

📷 1991 — A Minha Primeira Câmera Fotográfica

Antes de existir a AW890, antes do Mappin e muito antes de uma câmera caber dentro de um telefone, havia um menino brincando com embalagens de filmes enquanto observava o pai trabalhar como retratista.

Minha história com a fotografia não começou quando comprei minha primeira câmera.

Começou muito antes.

Começou na infância, acompanhando meu pai em seus trabalhos como fotógrafo — ou, como o povo dizia naquela época, retratista.

Eu era o menino curioso que ficava por perto.

Olhava.

Perguntava.

Mexia onde provavelmente não deveria mexer.

Brincava com rolos, caixinhas e embalagens de filmes.

Aquelas pequenas latinhas, cartuchos e pedaços de material fotográfico eram quase brinquedos para mim.

Mas, enquanto brincava, estava aprendendo.



👨‍👦 O filho do retratista

Fotografia naquele tempo possuía algo de alquimia.

Hoje apontamos um telefone para alguma coisa, tocamos na tela e, menos de um segundo depois, vemos a imagem pronta.

Naquele universo não.

Primeiro havia a câmera.

Depois o filme.

Depois o laboratório.

Depois os produtos químicos.

Depois a espera.

E somente no final do processo aparecia a imagem.

Eu fui conhecendo pouco a pouco todas essas etapas.

Primeiro como criança curiosa.

Depois como ajudante.

Passei a acompanhar a revelação de negativos em preto e branco.

Também participei da preparação e revelação de diapositivos, inclusive aqueles destinados aos pequenos binoclinhos que transformavam uma fotografia em uma pequena janela iluminada.

Era fascinante.

Você começava com algo que aparentemente não possuía nada e, por meio de processos que para uma criança pareciam quase mágicos, surgia uma imagem.


🧪 O laboratório dentro de casa

Meu pai também montava seu estúdio e laboratório caseiro.

E eu estava por perto.

Sempre curioso.

Sempre atento.

Sempre querendo descobrir como aquilo funcionava.

Vi fotografias nascerem antes de entender completamente a física e a química responsáveis por aquilo.

Luz.

Filme.

Negativo.

Revelador.

Fixador.

Papel fotográfico.

Tempo.

Temperatura.

Escuridão.

Tudo precisava conversar corretamente.

Hoje percebo que aquilo talvez tenha sido uma das minhas primeiras experiências com algo que encontraria décadas depois na informática:

um processo possui etapas, dependências e sequência.

Faça uma delas incorretamente e o resultado final será diferente.

Era uma espécie de JCL químico.

E o job precisava terminar com CC 0000.

📸 Uma amizade que atravessou gerações

Havia ainda outro personagem nessa história.

Meu colega de escola, Fabio.

O avô dele era fotógrafo e havia sido mentor do meu pai.

A fotografia havia criado uma ligação entre nossas famílias antes mesmo de nós dois aparecermos.

Depois, por uma dessas coincidências deliciosas da vida, os descendentes se encontraram na escola.

A amizade atravessou gerações.

O avô ensinara meu pai.

Meu pai levara aquele conhecimento adiante.

E eu crescia observando tudo aquilo.

Sem internet.

Sem tutorial no YouTube.

Sem curso online.

Conhecimento era transmitido principalmente de uma pessoa para outra.

Alguém ensinava.

Outro praticava.

Errava.

Perguntava novamente.

Aprendia.

E depois ensinava o próximo.

Era uma corrente humana de conhecimento.



🗓️ Então chegou 1991

Eu já não era mais aquela criança brincando com embalagens vazias de filme.

Estava trabalhando na Fundação CESP.

Minha vida havia mudado bastante.

O salário finalmente começava a permitir algo precioso para um jovem:

sobrar dinheiro depois das obrigações.

Não era riqueza.

Mas era liberdade.

E liberdade, quando somos jovens, possui uma cotação muito particular.

Eu conseguia aumentar a frequência das minhas viagens e passeios.

Podia comprar algumas coisas que antes precisavam permanecer apenas na lista de desejos.

Inclusive cartuchos para o meu querido Nintendinho de 8 bits.

O personagem havia subido de nível.

LEVEL UP!

Mais salário.

Mais autonomia.

Mais viagens.

Mais equipamentos.

Melhores itens para a quest.

Ainda não havia armadura de mithril no inventário.

Mas, para aquele jovem, aquilo já era uma tremenda vitória.



🏬 Mappin — Praça Ramos de Azevedo

E foi nesse contexto que decidi comprar algo especial.

Minha própria câmera fotográfica de 35 mm.

Não a câmera do meu pai.

Não uma câmera emprestada.

A minha.

Fui às Lojas Mappin da Praça Ramos de Azevedo, no centro de São Paulo.

Para quem conheceu aquela São Paulo, falar simplesmente “Mappin” desperta um conjunto inteiro de memórias.

O prédio.

O movimento do centro.

As vitrines.

As escadas rolantes.

Os departamentos.

A sensação de entrar em uma grande loja onde existiam dezenas de coisas que você gostaria de levar para casa.

E ali estava uma delas.

Uma câmera Mirage 35 mm, totalmente analógica.

Comprei.

Talvez alguém olhando de fora enxergasse apenas uma câmera fotográfica.

Eu enxergava muito mais.

Era a continuação de uma história que começara quando eu ainda era pequeno, observando meu pai trabalhar.

Finalmente eu possuía minha própria máquina de capturar momentos.

😱 E a danada veio com defeito

Só havia um pequeno problema.

A câmera apresentou defeito de fabricação.

Tudo bem.

Acontece.

Voltei ao Mappin, expliquei o problema e fizeram a substituição.

Peguei uma nova.

Agora começaria a aventura.

Ou não.

Porque, para minha surpresa, a segunda máquina apresentou um defeito semelhante.

Duas câmeras.

Dois problemas.

Aparentemente o RNG daquela quest estava contra mim.

Voltei à loja.

Desta vez, porém, o vendedor me deu um conselho diferente.

— Procure diretamente a fábrica.

🏭 Santa Cecília — indo falar com quem entendia da máquina

A fábrica ficava na região de Santa Cecília, em São Paulo.

Peguei minha câmera problemática.

Peguei a nota fiscal.

E fui até lá.

Curiosamente, anos depois eu faria isso incontáveis vezes trabalhando com tecnologia.

Quando o problema ultrapassa determinada camada, você escala.

N1.

N2.

N3.

Fabricante.

Naquele momento eu ainda não chamava aquilo de escalonamento.

Era simplesmente:

“Leva lá que eles resolvem.”

E resolveram.

Foi ali que conheci o senhor Akira, chefe do departamento de atendimento aos clientes.

Fui prontamente recebido.

Expliquei toda a novela.

Comprei a câmera.

Defeito.

Troquei.

Segundo equipamento.

Defeito semelhante.

Ele ouviu minha história e apresentou uma solução inesperada.

🎁 “Vamos trocar por uma AW890.”

O senhor Akira sugeriu substituir minha câmera por outro modelo.

Uma AW890.

Um equipamento superior.

Possuía recursos melhores, incluindo rebobinamento automático do filme e uma lente de qualidade superior.

E então veio a melhor parte.

Eu não precisaria pagar diferença.

O valor que eu havia pago pela minha câmera no varejo era compatível com o preço de custo daquele modelo superior para a fábrica.

Para eles, a conta fechava.

Para mim...

LOOT RARO DESBLOQUEADO.

Entrei carregando uma câmera defeituosa.

Saí carregando um upgrade.

Ainda não era equipamento de mithril.

Mas certamente havia acabado de trocar uma espada +1 por uma +3.

🎞️ 36 oportunidades

E aquela câmera passou a documentar minha vida.

É difícil explicar para quem nasceu na fotografia digital como era possuir uma câmera analógica.

Um filme de 36 poses significava exatamente isso:

36 oportunidades.

Não 3.600.

Não 36 mil.

Trinta e seis.

Você não fazia quinze fotografias praticamente iguais para depois escolher a melhor.

Pensava.

Enquadrava.

Esperava.

Disparava.

Click.

Menos uma.

33...

O contador fazia parte da viagem.

E havia ainda o custo do próximo estágio.

Revelar o filme.

Fazer as ampliações.

Guardar os negativos.

Portanto cada fotografia tinha peso.

🧪 E o menino do laboratório agora estava do outro lado

Existe uma bela simetria nisso tudo.

Quando criança, eu havia acompanhado meu pai.

Brincara com os rolos.

Conhecera os filmes.

Ajudara com negativos preto e branco.

Vira diapositivos.

Participara das experiências do laboratório caseiro.

Agora era eu quem colocava o filme dentro da própria câmera.

Era eu quem escolhia o que merecia virar fotografia.

Era eu quem apertava o disparador.

Sem perceber naquele momento, uma espécie de passagem de bastão havia acontecido.

O filho do retratista havia comprado sua própria câmera.

🚗 E o mundo ficou maior

Aquela compra também coincidiu com outro fenômeno.

Eu estava viajando mais.

Passeando mais.

Conhecendo lugares.

Encontrando pessoas.

Vivendo experiências novas.

Minha renda na Fundação CESP havia ampliado meu pequeno horizonte de possibilidades.

A câmera chegou exatamente quando havia mais mundo para fotografar.

E começou a acompanhar essas aventuras.

Paisagens.

Amigos.

Família.

Viagens.

Festas.

Estradas.

Momentos absolutamente banais.

E são justamente alguns desses momentos banais que hoje possuem maior valor.

Porque nós cometemos um erro quando somos jovens.

Achamos que estamos fotografando lugares.

Décadas depois descobrimos que estávamos fotografando tempo.

❤️ Pessoas que hoje só consigo visitar através das fotografias

Essa talvez seja a parte mais importante de toda a história.

Muitas das pessoas registradas por aquela câmera já partiram.

Naquele momento ninguém estava pensando nisso.

Estávamos apenas vivendo.

Alguém sorria.

Outra pessoa fazia uma brincadeira.

Alguém reclamava por estar sendo fotografado.

— Ah, não tira foto!

Click.

E ainda bem que tirei.

Porque décadas depois posso pegar aquela fotografia e encontrar novamente aquele rosto.

Olhar roupas que havíamos esquecido.

Uma casa que talvez nem exista mais.

Um carro vendido décadas atrás.

Um cachorro.

Uma mesa.

Um aniversário.

Uma viagem.

Um almoço qualquer.

E pessoas.

Principalmente pessoas.

🕰️ A verdadeira máquina do tempo

Hoje possuímos câmeras tecnologicamente inimagináveis para aquele jovem de 1991.

Carregamos no bolso equipamentos capazes de produzir imagens extraordinárias.

Fazemos centenas de fotografias durante uma única viagem.

Armazenamos milhares delas.

Mas existe algo nos antigos negativos que continua me fascinando.

Eu ainda tenho muitos deles.

Pequenas tiras escuras guardando pedaços da minha existência.

E existe algo quase filosófico nisso.

A luz daquele dia entrou pela lente da minha câmera.

Atingiu aquela película.

Produziu uma transformação química.

E deixou ali uma marca física.

Décadas depois aquela marca continua existindo.

Aquele fóton fez backup.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Por isso minha primeira câmera não foi simplesmente uma compra realizada no Mappin em 1991.

Ela fazia parte de uma história muito mais antiga.

Começou com meu pai.

Com um retratista.

Com um fotógrafo mais velho que lhe transmitiu conhecimento.

Com o avô de Fabio.

Com uma amizade que atravessou gerações.

Com um menino curioso mexendo nas embalagens dos filmes.

Com negativos preto e branco.

Com diapositivos.

Com pequenos binoclinhos.

Com um laboratório improvisado dentro de casa.

Depois aquele menino cresceu.

Começou a trabalhar.

O salário melhorou.

A vida deu um LEVEL UP.

Vieram mais passeios.

Mais viagens.

Alguns cartuchos de Nintendinho.

E finalmente dinheiro suficiente para comprar uma câmera própria.

A primeira veio com defeito.

A segunda também.

O azar me levou até Santa Cecília.

Santa Cecília me levou ao senhor Akira.

E o senhor Akira colocou uma AW890 em minhas mãos.

Naquele momento ninguém poderia saber quantas histórias ainda passariam por aquela lente.

Muito menos que, mais de três décadas depois, algumas daquelas fotografias seriam preciosas justamente porque as pessoas nelas retratadas já não estariam aqui para criar novas imagens.

Talvez essa tenha sido a maior lição que aprendi com meu pai sem que ele precisasse ensiná-la:

fotografamos o presente para uma pessoa que ainda não conhecemos — nós mesmos, no futuro.

Em 1991 eu achava que tinha comprado uma câmera.

Estava enganado.

Eu tinha comprado uma máquina do tempo.



Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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