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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Availability Heuristic: Doctor Who, COBOL e o Dia em que o Último Incidente Virou a Explicação para Tudo

Bellacosa Mainframe e o availabitity heuristic

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Availability Heuristic: Doctor Who, COBOL e o Dia em que o Último Incidente Virou a Explicação para Tudo

Uma viagem pela TARDIS dos incidentes para entender por que aquilo que lembramos com facilidade parece acontecer com mais frequência do que realmente acontece

08:03.

Segunda-feira.

Café quente.

War Room vazia.

Produção aparentemente tranquila.

Até que surge:

WARNING

PAYMENT RESPONSE TIME
ABOVE BASELINE

O operador olha.

— Ih.

O programador COBOL iniciante pergunta:

— O quê?

— Está parecendo aquele incidente de sexta.

Silêncio.

Sexta-feira havia sido memorável.

Fila MQ crescendo.

Timeouts.

Clientes reclamando.

Gerente ligando.

Diretor entrando na War Room.

Quatro horas de incidente.

Muito café.

Pouca dignidade.

Então o operador olha novamente para o warning.

— É MQ de novo.

Nosso jovem pergunta:

— Já verificou?

— Não precisa. Está com a mesma cara.

08:07.

DBA entra.

— O que temos?

— MQ.

— De novo?

— De novo.

08:09.

Gerente:

— Já acionaram middleware?

— Sim.

08:12.

Quatro pessoas estão investigando MQ.

Ninguém percebe que:

MQ QUEUE DEPTH: NORMAL

Mas existe:

DB2 LOCK WAIT: +640%

VWORP.

VWORP.

VWORP.

A TARDIS materializa-se ao lado da máquina de café.

A porta abre.

O Doctor sai.

Olha para a War Room.

Depois para os gráficos.

Depois para a equipe.

— Por que todos estão olhando MQ?

O operador responde:

— Porque sexta-feira foi MQ.

O Doctor ergue uma sobrancelha.

— E hoje é sexta-feira?

— Segunda.

— Então por que sexta-feira está dirigindo a investigação?

Silêncio.

O Doctor sorri.

— Ah.

Pausa.

— Vocês não estão investigando o incidente de hoje.

Aponta para a cabeça do operador.

— Estão investigando a memória do último.

Bem-vindo ao:



Availability Heuristic

Ou:

Heurística da Disponibilidade

A tendência de estimar a frequência, probabilidade ou importância de um evento com base na facilidade com que exemplos desse evento vêm à nossa mente.


🌀 Recapitulando a nossa TARDIS dos incidentes

Nossa coleção já está ficando respeitável.

Conhecemos:

Swiss Cheese Model — várias barreiras podem falhar juntas.

Normalization of Deviance — desvios viram rotina.

Hindsight Bias — depois do incidente tudo parece óbvio.

Confirmation Bias — buscamos evidências que confirmem nossas crenças.

Anchoring Bias — a primeira informação pesa demais.

Groupthink — o grupo converge cedo demais.

Authority Gradient — hierarquia silencia sinais importantes.

Plan Continuation Bias — continuamos porque já começamos.

Alarm Fatigue — alertas demais viram ruído.

Automation Bias — confiamos demais na máquina.

Drift Into Failure — pequenas adaptações empurram o sistema para a borda.

Diffusion of Responsibility — todos veem e ninguém assume.

Normalcy Bias — esperamos que tudo volte ao normal.

Survivorship Bias — estudamos quem sobreviveu e esquecemos os ausentes.

Base Rate Neglect — ignoramos a frequência real dos eventos.

Agora encontramos um parceiro natural do Base Rate Neglect:

Availability Heuristic

Porque muitas vezes não usamos a taxa real.

Usamos:

“o que lembro mais facilmente.”


🧠 O que é uma heurística?

Primeiro, uma palavra importante.

Heurística é um atalho mental.

Nosso cérebro precisa tomar milhares de decisões.

Não calcula tudo estatisticamente.

Não abre planilha.

Não roda regressão.

Não faz Bayes conscientemente antes de escolher se atravessa a rua.

Ele usa atalhos.

Isso é útil.

Muito útil.

Sem heurísticas, viveríamos paralisados.

O problema começa quando:

atalho vira substituto da realidade.


🧠 A pergunta real e a pergunta substituta

Imagine a pergunta difícil:

“Qual é a probabilidade real de o problema ser MQ?”

Isso exige:

dados;

histórico;

telemetria;

base rates;

evidências.

Nosso cérebro pode substituí-la por uma pergunta mais fácil:

“Consigo lembrar rapidamente de um problema de MQ?”

Sim.

Sexta-feira.

Foi traumático.

Pronto.

MQ parece muito provável.

Esse mecanismo é Availability Heuristic.


🔥 Eventos dramáticos ficam disponíveis

Memória não armazena tudo igualmente.

Eventos:

recentes;

emocionais;

dramáticos;

visuais;

dolorosos;

incomuns

ficam mais acessíveis.

Então parecem mais frequentes.

Exemplo clássico fora da TI:

pessoas podem superestimar riscos de eventos muito noticiados e subestimar riscos cotidianos menos dramáticos.

Nosso cérebro mede:

facilidade de lembrança

como se fosse:

frequência estatística.

Mas não é.


☕ Bellacosa Mainframe: o trauma da sexta-feira

Sexta:

incidente MQ.

Quatro horas.

Segunda:

lentidão.

Automaticamente:

MQ.

Por quê?

Porque o incidente anterior está fresco.

Isso é chamado também de efeito de recency dentro desse contexto.

Eventos recentes ficam cognitivamente disponíveis.


🧠 Recência não é frequência

Essa frase vale ouro:

O que aconteceu recentemente não é necessariamente o que acontece frequentemente.

Histórico real:

Últimos 100 incidentes de lentidão

DB2:        38
Aplicação:  27
MQ:         12
Rede:       11
Storage:     7
Outros:      5

MQ aconteceu sexta.

Mas taxa histórica:

12%.

Ainda relevante.

Não dominante.


🌀 Base Rate Neglect + Availability Heuristic

Aqui os dois monstros se abraçam.

Base Rate Neglect:

esqueço que MQ ocorre em 12%.

Availability:

lembro muito bem do MQ de sexta.

Resultado:

“É quase certeza que é MQ.”

Perceba.

Nada técnico mudou.

A memória alterou a probabilidade percebida.


👻 Easter Egg nº 1 — Daleks de novo

O Doctor encontra uma porta destruída.

Companion:

— Dalek.

Doctor:

— Por quê?

— Porque vimos Daleks ontem.

— Isso é evidência?

— Não.

— Então é o quê?

— Trauma?

— Exatamente.

Pausa.

— E também uma heurística.


🚨 Incidente recente domina a mente

Depois de um grande incidente de segurança, toda anomalia pode parecer ataque.

Depois de uma falha de storage:

tudo parece storage.

Depois de um problema de certificado:

qualquer erro TLS vira:

certificado novamente.

Isso é compreensível.

Mas precisa ser controlado.


🔐 Segurança cibernética e headlines mentais

Imagine que ransomware esteja nas notícias.

Toda organização conversa sobre ransomware.

Surge lentidão.

Alguém diz:

— Estamos sendo atacados?

Talvez.

Mas existem dezenas de causas mais comuns.

Notícias tornam determinado evento cognitivamente disponível.

Não necessariamente estatisticamente provável naquele ambiente.


🧠 O noticiário vira dashboard mental

Se você assiste cinco reportagens sobre falha X, seu cérebro começa a pensar:

X acontece muito.

Mas talvez X apenas seja notícia boa.

Eventos banais e frequentes não viram manchete.

Isso conecta Availability Heuristic com Survivorship Bias e seleção de dados.


📺 Newsworthiness Bias

Eventos dramáticos recebem cobertura.

Eventos comuns não.

Logo:

memória pública fica enviesada.

Na TI:

post-mortems épicos são lembrados.

Pequenos incidentes repetitivos são esquecidos.

Mas os pequenos talvez causem mais impacto acumulado.


💻 COBOL e o último S0C7

Imagine que ontem houve:

ABEND S0C7
CAUSE: INVALID PACKED DECIMAL

Hoje novo S0C7.

Programador:

— Dado inválido de novo.

Provável?

Talvez.

Mas pode ser:

copybook inconsistente;

overlay;

REDEFINES mal usado;

índice errado;

campo truncado.

O fato de ontem ter sido dado inválido não prova hoje.


🧠 Experiência ajuda e atrapalha

Veteranos possuem memória rica.

Isso é fantástico.

Reconhecem padrões rapidamente.

Mas memórias fortes também podem puxar demais.

Uma situação pode “parecer” com outra.

Esse reconhecimento é valioso.

Mas precisa ser tratado como:

hipótese baseada em padrão, não sentença.


🧩 Recognition-Primed Decision

Profissionais experientes frequentemente tomam boas decisões porque reconhecem padrões familiares.

Isso é útil.

Mas existe um risco:

o padrão mais disponível pode não ser o mais adequado.

Pergunta madura:

“Isso realmente corresponde ao caso anterior ou apenas me lembra dele?”


🔍 Compare assinaturas

Em vez de:

“parece MQ”

compare sinais.

Incidente anterior:

MQ queue depth ↑
Consumer rate ↓
Timeouts ↑
DB2 normal

Hoje:

MQ normal
DB2 lock wait ↑
Timeouts ↑

Apenas um sintoma comum:

timeouts.

Não é o mesmo incidente.

Dados quebram o encanto da memória.


⚓ Availability + Anchoring Bias

Alguém lembra de sexta:

“MQ.”

Essa memória vira primeira hipótese.

Agora Anchoring Bias entra.

A investigação passa a girar em torno de MQ.


🔎 Confirmation Bias chega depois

Equipe começa a procurar:

retries;

timeouts;

mensagens MQ.

Encontra qualquer detalhe compatível.

— Viu?

Agora memória virou teoria.

Teoria virou filtro.


👥 Groupthink amplifica

Um veterano diz:

— Está igual sexta-feira.

Outros lembram.

— Verdade.

Agora o grupo inteiro revive o incidente.

Consenso substitui comparação objetiva.


🪜 Authority Gradient

Especialista sênior:

— Aposto em MQ.

Júnior vê lock wait alto.

Mas pensa:

“Ele acabou de resolver um incidente de MQ sexta.”

Silêncio.

Memória + autoridade.

Combinação forte.


🤖 Automation Bias pode também criar disponibilidade

Ferramenta exibe “Top incident causes”.

Último grande caso aparece destacado.

Equipe começa a lembrar desse tipo com maior facilidade.

Dashboards e interfaces influenciam quais eventos ficam mentalmente disponíveis.


🚨 Alarm Fatigue também pode distorcer memória

Milhares de alertas banais são esquecidos.

O único alerta que virou incidente fica na memória.

Depois concluímos:

esse tipo de alerta é sempre grave.

Mas talvez existam 2.000 ocorrências benignas que esquecemos.

Memória seleciona impacto.


🧠 Peak-End Rule

Existe uma ideia relacionada:

experiências são muitas vezes lembradas fortemente pelo pico emocional e pelo final.

Incidente traumático termina com madrugada heroica.

Essa narrativa fica.

As semanas normais desaparecem.

Availability Heuristic ganha material.


🦸 Heroísmo vira memória dominante

Equipe se lembra:

“Naquele incidente Carlos restartou CICS e resolveu.”

Depois, em novo incidente:

— Reinicia CICS.

Por quê?

Porque lembramos da solução heroica.

Mas talvez restart seja irrelevante ou até prejudicial.

Não transforme soluções memoráveis em rituais.


🧙 Cargo cult de incidentes

Caso anterior:

limpamos cache.

Funcionou.

Novo problema:

limpa cache.

Outro:

limpa cache.

Virou encantamento.

Availability Heuristic + correlação histórica mal entendida.

O famoso:

“Have you tried turning it off and on again?”

Às vezes funciona.

Isso não faz dele RCA.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 1

Quando alguém disser:

“Está igual ao incidente da semana passada.”

Pergunte:

“Quais sinais específicos são realmente iguais?”

Muito poderosa.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 2

Outra:

“Esse caso é frequente ou apenas fácil de lembrar?”

Essa é a essência.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 3

Outra:

“Quantas vezes esse sintoma ocorreu sem virar aquele problema?”

Você recupera o denominador.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 4

E:

“O histórico completo confirma a nossa memória?”

Se não:

dados vencem nostalgia operacional.


🧪 Como combater Availability Heuristic

Passo 1 — Use histórico estruturado

Não confie só em lembrança.


Passo 2 — Compare taxas

Quantas vezes realmente aconteceu?


Passo 3 — Liste hipóteses alternativas

Antes de mergulhar no caso memorável.


Passo 4 — Compare assinatura técnica

Sintomas realmente coincidem?


Passo 5 — Separe recência de frequência

Recente não significa comum.


Passo 6 — Separe dramaticidade de probabilidade

Grave não significa provável.


Passo 7 — Registre incidentes pequenos

Senão memória fica dominada pelos épicos.


Passo 8 — Use base rates

Nosso capítulo anterior volta aqui.


Passo 9 — Faça revisão fria depois

Com emoção menor, compare percepção e dados.


Passo 10 — Pergunte pela evidência contrária

O que mostra que este incidente não é igual ao último?


📊 Incident Taxonomy

Uma base de incidentes ajuda muito.

Exemplo:

SYMPTOM: RESPONSE TIME

CAUSES:
DB2 lock        38%
Application     27%
MQ              12%
Network         11%
Storage          7%
Other            5%

Agora memória vira suplemento.

Não fonte única.


🧠 Taxonomia evita histórias soltas

Sem classificação:

“lembro de um incidente.”

Com classificação:

“temos 243 incidentes semelhantes.”

Muda completamente.


💾 O mainframe adora histórico

E aqui o mainframeiro tem vantagem.

SMF.

Logs.

Scheduler history.

DB2 stats.

CICS stats.

MQ metrics.

Temos uma mina de dados.

Use.

Não dependa da frase:

“Tenho impressão que...”

Impressão é hipótese.

SMF é testemunha.


😄 Easter Egg nº 2 — SMF não tem nostalgia

O operador:

— Tenho certeza que CPU sempre fica assim.

SMF:

NO, IT DOESN'T.

Talvez o melhor psicólogo do mainframe seja o histórico de métricas.


📈 Frequência versus intensidade

Outra nuance.

Um tipo de incidente pode ser raro, mas muito grave.

Availability faz parecer frequente porque foi traumático.

Isso não significa ignorá-lo.

Você precisa separar:

probabilidade

de:

impacto.

O evento pode merecer forte controle mesmo sendo raro.

Mas não precisa ser diagnosticado toda segunda-feira.


🧠 Risco = probabilidade + impacto

Em termos conceituais:

evento raro e catastrófico:

controle.

evento comum e leve:

gestão.

Mas diagnóstico deve respeitar evidência atual.

Não medo histórico.


🔐 Segurança depois de ataque

Após um ataque real, organizações podem entrar em hiperalerta.

Isso é compreensível.

Mas podem gastar meses perseguindo falsos indícios do mesmo ataque e negligenciar vetores mais prováveis.

O incidente recente vira filtro.


🏦 Fraude recente

Banco sofre fraude por engenharia social.

Semana seguinte:

qualquer transação suspeita parece engenharia social.

Mas ataques mudam.

Criminosos também aprendem.

A memória do último método não deve impedir olhar para o próximo.


🌀 Drift Into Failure e memórias antigas

Availability Heuristic pode funcionar ao contrário também.

Talvez a equipe lembre facilmente de incidentes antigos típicos.

Mas sistema mudou.

Novos tipos de falha apareceram.

O repertório mental continua preso no passado.

Drift arquitetural cria incidentes novos.

Memória oferece causas velhas.


🧠 “Fighting the Last War”

Existe uma expressão famosa:

lutar a guerra anterior.

Organizações se preparam para aquilo que acabou de acontecer.

Fortalecem a barreira anterior.

Mas próximo incidente pode vir por outro caminho.

Depois do desastre:

criam 20 controles para exatamente aquele caso.

Isso pode ser Availability Heuristic organizacional.


🧀 Swiss Cheese e o remendo hiper-específico

Incidente:

data 00000000.

Correção:

bloquear 00000000.

Próximo:

99999999.

Lição real deveria ser:

validar data.

Se memória do caso específico domina, corrigimos o sintoma histórico, não a classe de falha.


🔁 Pattern versus instance

Essa distinção é crucial.

Instance:

sexta-feira foi MQ consumer.

Pattern:

dependência downstream sem backpressure adequado.

Aprender pattern protege melhor que memorizar instance.


🧠 Hindsight Bias ajuda a consolidar memória

Depois do incidente:

criamos narrativa limpa.

Ela fica fácil de lembrar.

“Foi MQ.”

Mas realidade talvez tenha sido:

capacity;

consumer;

retries;

configuração;

mudança;

timeouts.

Narrativa simplificada aumenta disponibilidade mental.

Por isso post-mortem deve preservar complexidade suficiente.


📚 Histórias são excelentes — com dados

Bellacosa Mainframe ama histórias.

E isso é ótimo.

Histórias ensinam.

Mas precisamos evitar que uma boa história vire estatística.

A regra:

Use histórias para lembrar padrões. Use dados para estimar frequência.


👨‍💻 Dica para COBOL iniciante

Veterano diz:

— Esse S0C7 é sempre dado.

Responda:

“Provável. Vou começar por dados e confirmar no dump.”

Perfeito.

Você usa experiência.

Sem entregar sua independência.


🧠 A palavra “sempre” merece breakpoint

Quando ouvir:

sempre;

nunca;

toda vez;

é igual ao último;

geralmente é X;

pare e pergunte:

“temos histórico?”

Essas palavras podem esconder heurísticas.


🔬 Counterexamples

Procure casos que contradigam memória.

“Lembra de quando esse mesmo sintoma era Db2?”

Isso reduz certeza.

Não para confundir.

Para ampliar espaço de hipóteses.


🧠 Debiasing por frequência natural

Em vez de porcentagens abstratas:

“12% dos casos são MQ.”

diga:

“de cada 100 casos parecidos, aproximadamente 12 foram MQ.”

Frequências naturais são cognitivamente mais intuitivas.


📊 War Room Board

Você pode ter:

SYMPTOM:
Timeout

HISTORICAL BASE:
DB2 38%
App 27%
MQ 12%
Network 11%

CURRENT EVIDENCE:
MQ normal
DB2 wait high

Agora a sala fica menos dependente de memórias fortes.


🧠 Availability Heuristic na gestão

Executivo lê notícia:

empresa perdeu milhões por ataque de ransomware.

Dia seguinte:

— Precisamos investir tudo em ransomware.

Pode ser importante.

Mas quais são os maiores riscos da empresa?

Talvez:

fraude interna;

configuração;

indisponibilidade;

backup;

terceiros.

Eventos recentes podem deslocar orçamento desproporcionalmente.


💰 Risk Budget e memória

Organizações podem gastar baseado em medo recente.

Maturidade:

usar cenário + frequência + impacto.

Não apenas headline.


📺 “Todo mundo está falando”

Isso não é taxa base.

É disponibilidade social.

Se tema está popular:

parece importante.

Talvez seja.

Mas:

popularidade ≠ probabilidade.

No mundo da IA isso acontece constantemente.


🤖 IA e Availability Heuristic

Um modelo pode também refletir padrões frequentes nos dados de treinamento ou contexto fornecido.

Mas o usuário pode alimentar apenas incidentes recentes.

Então IA responde enviesada pela amostra contextual.

Exemplo:

últimos cinco casos fornecidos são MQ.

Pergunta:

“Qual provável causa?”

IA:

MQ.

Talvez não porque seja globalmente provável.

Mas porque foi o contexto mais disponível.

Interessante, não?


🧠 Context Window também cria disponibilidade

Para humanos:

memória recente.

Para modelos:

contexto recente.

Isso é uma analogia útil.

O que está mais “perto” ganha influência.

Por isso datasets e contexto precisam ser representativos.


🔍 RAG e amostra enviesada

Sistema de IA recupera documentos.

Se busca retorna apenas incidentes de MQ:

resposta provavelmente enfatiza MQ.

O problema pode estar na recuperação.

Automation Bias pode fazer humano aceitar.

Availability Heuristic agora foi terceirizada para retrieval.


🧠 Ferramenta de RCA precisa de diversidade

Um sistema de RCA automático deveria buscar:

casos similares;

mas também alternativas.

Caso contrário:

“similaridade” pode virar prisão.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 5

Para IA:

“Você está sugerindo isso porque é realmente mais provável ou porque os exemplos recuperados são desse tipo?”

Excelente pergunta para 2026.


🛡️ Como construir processos melhores

Uma boa triagem pode usar:

  1. sintomas atuais;

  2. base rates;

  3. incidentes similares;

  4. sinais discriminantes;

  5. hipóteses alternativas.

Não apenas:

“qual caso lembro?”


🧠 Similaridade não é identidade

Dois incidentes podem compartilhar:

timeout.

Mas um:

MQ.

Outro:

Db2.

O sintoma superficial pode ser igual.

A assinatura profunda não.

Use múltiplas dimensões.


📋 Checklist anti-Availability Heuristic

Antes de concluir:

[ ] Estou lembrando de um caso recente?

[ ] Esse caso foi especialmente dramático?

[ ] Estou confundindo facilidade de lembrar com frequência?

[ ] Qual é a taxa histórica real?

[ ] Quais outros casos existem?

[ ] Os sinais realmente correspondem?

[ ] O que é diferente desta vez?

[ ] Estou lutando o incidente anterior?

[ ] Minha equipe inteira está presa à mesma memória?

[ ] A ferramenta está recuperando exemplos representativos?

[ ] Existe evidência atual mais forte que a lembrança?

[ ] Estou usando histórias como estatística?

Se a resposta para a última for sim:

volte aos dados.


🧬 Regeneração organizacional

Uma organização madura aprende a:

preservar histórico;

classificar incidentes;

usar base rates;

comparar assinaturas;

registrar casos pequenos;

evitar supercorreção após eventos dramáticos;

revisar controles com calma;

e distinguir:

“isso me lembra X”

de:

“as evidências apontam para X.”

Essa pequena diferença muda tudo.


📓 Diário do Doctor

Se guardar apenas algumas ideias desta viagem, guarde estas:

Availability Heuristic é a tendência de estimar probabilidade com base na facilidade com que exemplos vêm à memória.

Eventos recentes e dramáticos parecem mais frequentes do que realmente são.

Recência não é frequência.

Uma memória forte pode virar âncora.

Confirmation Bias pode transformar essa memória em narrativa dominante.

Groupthink pode transformar a narrativa em consenso.

Base rates corrigem nossa percepção.

Histórico estruturado é melhor que lembrança seletiva.

Casos similares precisam ser comparados por assinatura, não apenas por sensação.

Aprenda o padrão do incidente, não apenas sua última versão.

E principalmente:

O incidente que você lembra melhor não é necessariamente o incidente que acontece mais.


🕰️ De volta às 08:03

A TARDIS retorna.

Primeiro warning.

PAYMENT RESPONSE TIME
ABOVE BASELINE

Operador:

— MQ de novo.

Nosso programador responde:

— Pode ser. Vamos comparar.

Abre o caso de sexta.

SEXTA

MQ QUEUE: +900%
DB2 WAIT: NORMAL

Hoje:

SEGUNDA

MQ QUEUE: NORMAL
DB2 LOCK WAIT: +640%

Ele aponta.

— Não está igual.

O operador fica quieto.

DBA é acionado.

Descobrem uma transação longa segurando locks.

09:02.

Problema corrigido.

Sem quatro horas de investigação errada.

O gerente pergunta:

— Como vocês descobriram tão rápido?

O programador responde:

— Paramos de tentar repetir sexta-feira.

O Doctor sorri.

— Excelente.

— Então experiência é ruim?

— Não.

— Mas quase nos enganou.

— Experiência é mapa.

Pausa.

— Só não confunda o mapa antigo com o planeta novo.

VWORP.

VWORP.

VWORP.


🥚 Easter Egg final

No dia seguinte surge:

BELLACOSA.BIAS(AVAILABLE)

Dentro:

       IF MEMORY = 'VIVID'
           PERFORM CHECK-FREQUENCY
       END-IF.

       IF INCIDENT = 'RECENT'
           MOVE 'HYPOTHESIS'
             TO CONCLUSION-STATUS
       END-IF.

       IF CURRENT-DATA
          NOT = PAST-SIGNATURE
           PERFORM LET-GO-OF-PAST
       END-IF.

Comentário:

* EASY TO REMEMBER
* IS NOT THE SAME AS
* LIKELY TO HAPPEN.

Outro:

* DON'T FIGHT LAST FRIDAY.

E naturalmente:

* BAD WOLF WAS VERY MEMORABLE.

Nosso programador fecha o membro.

Mais tarde o telefone toca.

— Temos timeout.

Ele respira.

Pensa imediatamente:

“Db2.”

Porque foi o incidente desta manhã.

Sorri.

O cérebro já começou de novo.

Ele abre o histórico.

— Quais sinais temos?

O operador responde.

A investigação começa.

Não do caso mais memorável.

Do caso que existe agora.

Em algum lugar:

VWORP.

VWORP.

VWORP.

A TARDIS desaparece.

No quadro da War Room fica uma frase:

Memória é uma excelente biblioteca de hipóteses. É uma péssima tabela de frequências.

☕🌀

Next stop: Outcome Bias — quando uma decisão ruim dá certo e vira “excelente decisão”, enquanto a mesma decisão dá errado e alguém procura um culpado.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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