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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

NÃO ENTRE EM PÂNICO: Doctor Who, Doomwatch, COBOL e o Guia do Programador Mainframe para Sobreviver ao Futuro

Bellacosa Mainframe e o nao entre em panico como os britanicos e suas series viam o futuro

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NÃO ENTRE EM PÂNICO: Doctor Who, Doomwatch, COBOL e o Guia do Programador Mainframe para Sobreviver ao Futuro

Ou: como a ficção científica britânica dos anos 1970 descobriu AI Governance, resiliência, pandemias, vigilância e incidentes cinquenta anos antes de inventarmos os nomes bonitos

Por Vagner Bellacosa


Existe uma regra fundamental para sobreviver no universo.

Douglas Adams resumiria isso em letras grandes e amigáveis:

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

No mundo mainframe, entretanto, convém acrescentar algumas observações:

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Não cancele o job sem saber o que ele está fazendo.

Não dê PURGE apenas porque alguém importante está gritando ao telefone.

Não altere produção diretamente porque “é só uma coisinha”.

E, pelo amor de todos os compiladores COBOL existentes na galáxia, descubra primeiro por que o sistema funciona antes de decidir modernizá-lo.

Pegue sua toalha.

Pegue seu café.

Abra o SDSF.

Nossa nave está prestes a sair da órbita.

Destino:

Reino Unido, década de 1970.

Porque, escondidas entre cenários de papelão, monstros de borracha, computadores cheios de luzes piscantes e naves construídas em miniatura, algumas séries britânicas estavam fazendo perguntas que continuam assustadoramente atuais.

A matéria que serviu de ponto de partida para esta viagem considera os anos 1970 uma espécie de “era de ouro” da ficção científica televisiva britânica. A principal razão não era simplesmente a quantidade de alienígenas apresentados na televisão, mas a profundidade dos temas: problemas políticos, sociais, ambientais e tecnológicos começaram a ocupar o centro das histórias.

Eis a primeira coisa que um jovem programador COBOL precisa entender:

ficção científica de verdade raramente fala sobre o futuro.

Ela fala sobre o presente usando o futuro como máscara.


1. O planeta Reino Unido estava com problemas

Antes de encontrarmos Daleks, Cybermen, vírus mortais e governos totalitários, precisamos verificar o log do sistema operacional chamado Reino Unido.

Nos anos 1970, a situação estava longe de ser tranquila.

O país enfrentava problemas econômicos, greves, restrições de investimento e crise energética. Entre 1973 e 1974, a situação chegou ao ponto de haver restrições na operação das emissoras BBC e ITV durante a noite.

Agora imagine um roteirista sentado diante da televisão.

Ele vê:

greves;

desemprego;

problemas energéticos;

desconfiança política;

ameaças da Guerra Fria;

poluição;

crescimento tecnológico;

medo nuclear.

E pergunta:

“E se isso piorar?”

Pronto.

Temos ficção científica.

Uma das grandes virtudes dos britânicos foi transformar problemas concretos em experimentos narrativos.

As diferenças entre classes sociais, o totalitarismo e as preocupações ambientais tornaram-se temas recorrentes dessas produções.

O roteiro deixou de ser apenas:

ALIENÍGENA CHEGA
      ↓
HERÓI DESCOBRE
      ↓
HERÓI LUTA
      ↓
ALIENÍGENA EXPLODE
      ↓
FIM

e começou a ser algo parecido com:

SOCIEDADE CRIA TECNOLOGIA
          ↓
TECNOLOGIA CRIA BENEFÍCIOS
          ↓
ALGUÉM IGNORA OS RISCOS
          ↓
INCENTIVOS POLÍTICOS INTERFEREM
          ↓
SISTEMA SAI DO CONTROLE
          ↓
PESSOAS DESCOBREM QUE DEPENDIAM DELE
          ↓
PROBLEMA

Se você trabalha com tecnologia há alguns anos, isso provavelmente lhe parece menos ficção científica do que deveria.


2. Antes de Doctor Who havia Quatermass

Voltemos um pouco no tempo.

Em 1953 a BBC exibiu The Quatermass Experiment.

A história mostrava astronautas contaminados por uma forma de vida alienígena após uma missão espacial. O material que analisamos identifica a produção como uma das experiências da BBC que misturavam drama, terror, fantasia e ciência antes do nascimento de Doctor Who.

Observe a arquitetura da história.

O perigo não aparece simplesmente porque “alienígenas são maus”.

O problema surge porque:

HOMEM
 ↓
EXPLORA
 ↓
DESCONHECIDO
 ↓
TRAZ ALGO DE VOLTA
 ↓
NÃO ENTENDE O QUE TROUXE

Isso é uma estrutura importantíssima da ficção científica moderna.

E também da segurança da informação.

Se substituirmos “organismo extraterrestre” por:

biblioteca desconhecida
pacote npm
imagem Docker
modelo de IA
arquivo recebido
dependência open source

a história continua funcionando.

O monstro muda.

O problema permanece.


3. 1955: surge concorrência no datacenter televisivo

Durante muitos anos, a BBC dominou praticamente sozinha a televisão britânica.

Então surgiu a ITV.

De repente, existia competição.

A ITV trouxe programação mais popular e produções estrangeiras. A BBC precisou reagir aumentando sua capacidade de oferecer entretenimento sem abandonar sua tradição educacional e cultural.

Aqui encontramos uma lição de arquitetura empresarial.

Um sistema raramente evolui sozinho.

Ele evolui porque o ambiente muda.

Concorrência muda produto.

Regulação muda produto.

Usuários mudam produto.

Tecnologia muda produto.

Custo muda produto.

Até COBOL muda.

O COBOL que você encontra hoje em um IBM Z moderno não é simplesmente uma peça arqueológica que alguém esqueceu ligada desde 1968.

É resultado de décadas de evolução.

Da mesma forma, a BBC precisava preservar aquilo que funcionava e adaptar aquilo que já não respondia ao ambiente.

Guarde essa ideia.

Ela voltará quando falarmos de modernização mainframe.


4. 1963: chega Doctor Who

Então entra Sydney Newman.

A missão era quase impossível:

manter o conteúdo inteligente da BBC e, ao mesmo tempo, torná-lo popular.

A resposta foi uma série chamada:

Doctor Who.

A concepção original tinha forte propósito educacional. História, ciência, tecnologia, espaço e viagens temporais seriam apresentados aos jovens através de aventuras.

Parece simples hoje.

Mas pense na elegância da arquitetura.

Você quer ensinar história?

Leve os personagens para o passado.

Quer falar sobre tecnologia?

Viaje para o futuro.

Quer discutir ética?

Crie uma civilização alienígena.

Quer discutir racismo?

Crie duas espécies que se odeiam.

Quer falar sobre autoritarismo?

Invente um governo galáctico.

Quer discutir guerra?

Crie Daleks.

Doctor Who transformou ficção científica em uma espécie de laboratório moral portátil.

A TARDIS podia levar o espectador para qualquer problema.


5. O sistema quase foi cancelado

A primeira aventura de Doctor Who não provocou o sucesso esperado.

Então apareceram os Daleks.

A audiência aumentou dramaticamente, chegando a aproximadamente nove milhões de espectadores segundo o material analisado.

Ironicamente:

os Daleks salvaram Doctor Who.

Isso também contém uma pequena aula de engenharia de produtos.

Você pode criar uma solução tecnicamente brilhante.

Mas se ninguém quiser utilizá-la, temos um problema.

O criador pensa:

“Mas minha arquitetura está perfeita!”

O usuário responde:

“Tá. Mas onde está o botão que resolve meu problema?”

A BBC descobriu algo parecido.

A ideia educacional era boa.

Mas os Daleks forneceram:

ameaça;

identidade;

conflito;

memória;

símbolo.

Em linguagem de produto:

engajamento.


6. 1970: Doomwatch entra na sala

Agora chegamos a uma das partes mais interessantes desta viagem.

Em 1970 estreia Doomwatch.

A série foi criada por Kit Pedler e Gerry Davis. Pedler era cientista e atuava como consultor das situações apresentadas. Segundo o artigo analisado, a produção teve três temporadas e 38 episódios.

Mas observe a premissa.

Existe um departamento chamado:

Department for the Observation and Measurement of Scientific Work.

Missão:

acompanhar pesquisas científicas e verificar se elas poderiam representar ameaça às pessoas ou ao meio ambiente.

Caro viajante galáctico...

Estamos em 1970.

Agora troque:

Scientific Work

por:

Artificial Intelligence.

Temos imediatamente:

DEPARTMENT FOR THE OBSERVATION
AND MEASUREMENT OF
ARTIFICIAL INTELLIGENCE

Parabéns.

Você acabou de reinventar:

AI Governance.


7. A pergunta de Doomwatch

A pergunta fundamental de Doomwatch é maravilhosa:

se podemos fazer alguma coisa, devemos fazê-la?

Na tecnologia normalmente somos treinados para responder:

“Funciona?”

Mas sistemas críticos exigem outras perguntas:

“Devemos fazer?”

“Quem será afetado?”

“Qual é o risco?”

“Como detectaremos erro?”

“Quem pode interromper?”

“Existe rollback?”

“Quem autorizou?”

“Existe evidência?”

“Existe auditoria?”

“Qual é o blast radius?”

Esse é exatamente o ponto em que engenharia deixa de ser simplesmente programação.


8. O programador COBOL encontra Doomwatch

Imagine que alguém lhe entregue uma mudança:

IF CLIENTE-VIP
    MOVE ZERO TO TAXA
END-IF.

Funciona?

Provavelmente.

Compila?

Talvez.

Resolve a solicitação?

Aparentemente.

Mas o programador experiente pergunta:

Quem definiu CLIENTE-VIP?

Essa taxa pode legalmente ser zerada?

Quem autorizou?

Existe trilha de auditoria?

Isso afeta cálculo tributário?

Existem outros programas utilizando esse campo?

É aqui que surge uma regra fantástica:

código correto pode produzir um sistema errado.

Doomwatch já estava discutindo, metaforicamente, exatamente esse problema.


9. 1975: Survivors e o planeta sem produção

Então Terry Nation criou algo muito mais sombrio.

Survivors.

Uma praga provocada por vírus cultivado em laboratório destrói aproximadamente 99% da população mundial. Os sobreviventes precisam reconstruir comunidades praticamente sem infraestrutura moderna.

A produção existiu entre 1975 e 1977 e acumulou 38 episódios.

Hoje, depois de uma pandemia global real, assistir a essa premissa produz outra sensação.

Mas existe uma camada ainda mais interessante.

Survivors não é apenas sobre vírus.

É sobre:

dependência sistêmica.


10. Civilization.exe parou de responder

Imagine que amanhã desapareçam:

energia;

telecomunicações;

sistema bancário;

logística;

produção industrial;

governo;

hospitais;

internet;

combustíveis;

cadeias de suprimento.

Em poucas horas descobriremos algo curioso.

Nossa civilização é uma gigantesca aplicação distribuída.

Ela possui milhares de serviços.

Alguns críticos.

Alguns aparentemente insignificantes.

E todos possuem dependências.

Por exemplo:

SUPERMERCADO
     ↓
LOGÍSTICA
     ↓
COMBUSTÍVEL
     ↓
PAGAMENTO
     ↓
BANCO
     ↓
DATACENTER
     ↓
ENERGIA
     ↓
TELECOM

Agora faça o caminho inverso.

Telecom depende de energia.

Energia depende de sistemas informatizados.

Sistemas informatizados dependem de redes.

Redes dependem de telecom.

Bem-vindo ao maravilhoso universo das:

dependências circulares.


11. O batch das 04:37

Um jovem desenvolvedor pode olhar para determinado processamento mainframe e pensar:

“É apenas um job.”

Não.

Pode ser:

liquidação;

folha de pagamento;

posição contábil;

cartões;

compensação;

arrecadação;

seguros;

reservas;

crédito;

tributação.

O job pode terminar às 04:37.

Ninguém vê.

Ninguém aplaude.

Nenhuma animação aparece.

Não existem luzes azuis cinematográficas.

Mas talvez milhões de pessoas acordem de manhã esperando que o resultado daquele processamento exista.

Essa é uma das grandes lições de Survivors.

Infraestrutura só parece invisível enquanto funciona.


12. Resiliência antes de chamarmos de resiliência

Hoje utilizamos termos sofisticados:

Business Continuity.

Disaster Recovery.

Cyber Resilience.

High Availability.

Fault Tolerance.

Redundancy.

RTO.

RPO.

Survivors coloca tudo isso em uma única pergunta:

“O que acontece quando quase tudo deixa de funcionar?”

O exercício parece extremo.

Mas arquitetos fazem versões menores dessa pergunta todos os dias.

Se o Db2 cair?

Se o CICS parar?

Se perdermos um LPAR?

Se perdermos o datacenter?

Se a rede cair?

Se o fornecedor desaparecer?

Se o backup estiver corrompido?

Se o operador errar?

Se o ransomware atingir infraestrutura crítica?

Ficção científica e engenharia compartilham uma ferramenta intelectual maravilhosa:

cenários hipotéticos.


13. 1978: Blake's 7

Chegamos então a Blake's 7.

Também criada por Terry Nation.

A série apresenta um futuro onde uma organização chamada Terran Federation governa diversos mundos através de mecanismos políticos, religiosos, tecnológicos e até genéticos.

Agora mudamos de ameaça.

Em Survivors:

o sistema desapareceu.

Em Blake's 7:

o sistema ficou poderoso demais.

Excelente contraponto.

Um extremo:

SEM CONTROLE

Outro:

CONTROLE TOTAL

A humanidade vive entre os dois.


14. A tecnologia também pode controlar

Na Federação, tecnologia não é apenas ferramenta.

Ela é instrumento de poder.

Essa discussão cresceu enormemente no século XXI.

Quem possui os dados?

Quem controla algoritmos?

Quem define recomendações?

Quem observa usuários?

Quem decide quais informações aparecem?

Quem pode desligar uma conta?

Quem controla sistemas de identidade?

Quem controla a infraestrutura?

Não precisamos imaginar uma Federação Galáctica.

Podemos estudar simplesmente a concentração de infraestrutura digital.


15. Blake não é Luke Skywalker

Outro aspecto interessante é que Blake's 7 não transforma automaticamente a resistência em grupo moralmente perfeito.

Os próprios personagens questionam Blake.

Nem todos compartilham sua ideologia.

A série chega a apresentar acusações de fanatismo contra ele.

Isso é muito importante.

Porque sistemas complexos raramente apresentam:

MOCINHO = CERTO
VILÃO   = ERRADO

Normalmente encontramos:

pressões;

interesses;

incentivos;

erros;

interpretações;

riscos;

informação incompleta.

Quem trabalha em incidentes conhece isso.

Depois que tudo termina, é fácil dizer:

“Era óbvio.”

Antes do incidente?

Nem sempre.


16. Zen, o computador

A nave Liberator possui um computador chamado Zen.

Por décadas a ficção científica imaginou computadores que:

conversam;

aconselham;

controlam;

decidem;

questionam;

enganam;

ajudam.

Durante muito tempo isso parecia apenas recurso narrativo.

Agora chegamos à era dos modelos generativos e agentes.

A fronteira começou a mudar.

Antes:

HOMEM
 ↓
COMANDO
 ↓
COMPUTADOR
 ↓
RESULTADO

Hoje podemos ter:

HOMEM
 ↓
OBJETIVO
 ↓
AGENTE
 ↓
PLANO
 ↓
FERRAMENTA
 ↓
AÇÃO
 ↓
AVALIAÇÃO
 ↓
NOVA AÇÃO

A diferença é gigantesca.

Quanto maior a autonomia, maior a importância de controle, observabilidade e validação.

Doomwatch volta à sala.


17. UFO: a burocracia encontra os alienígenas

Outra produção importante foi UFO, de Gerry e Sylvia Anderson, também mencionada entre as séries relevantes daquele período.

Existe algo particularmente divertido em UFO.

A defesa da Terra não depende simplesmente de um herói com uma arma.

Existe uma organização.

Existem procedimentos.

Bases.

Monitoramento.

Satélites.

Computadores.

Comando.

Comunicação.

Ou seja:

até para combater alienígenas os britânicos imaginaram uma estrutura operacional.

Quase conseguimos ouvir alguém dizendo:

“Antes de interceptar a nave alienígena, abra o ticket.”

Isso talvez seja a coisa mais britânica possível.


18. Espaço: 1999 e o problema chamado consequência

Espaço: 1999 apresenta uma ideia completamente absurda do ponto de vista da física:

uma explosão gigantesca lança a Lua para fora da órbita terrestre.

Tudo bem.

Não entre em pânico.

Ficção não precisa necessariamente funcionar como artigo científico.

O interessante é a causa.

Resíduos nucleares.

Outra vez encontramos:

tecnologia + irresponsabilidade + consequência.

Os anos 1970 estavam profundamente preocupados com energia, poluição e tecnologia nuclear.

A Lua simplesmente serviu como cenário.


19. O detalhe mais importante das Eagles

As naves Eagle tornaram-se talvez um dos designs mais memoráveis da série.

Mas existe uma curiosidade de engenharia escondida nelas.

Elas parecem máquinas.

Não parecem “magia espacial”.

É possível observar:

módulos;

estrutura;

propulsores;

cockpit;

componentes.

Isso produz plausibilidade visual.

A mesma regra vale para software.

Quando mostramos arquitetura como caixas mágicas:

APP → CLOUD → IA → RESULTADO

não explicamos nada.

Um bom arquiteto precisa desmontar a Eagle.

APLICAÇÃO
    ↓
API
    ↓
AUTENTICAÇÃO
    ↓
SERVIÇO
    ↓
BANCO
    ↓
MENSAGERIA
    ↓
MAINFRAME

Agora podemos discutir risco.


20. O impacto no Brasil

A influência dessas produções no Brasil aconteceu de maneira diferente da experiência britânica.

Nem todas as séries tiveram aqui a mesma visibilidade.

Isso significa que memória cultural não depende apenas da qualidade de uma obra.

Depende também de:

distribuição;

emissora;

horário;

dublagem;

reprises;

licenciamento;

alcance.

No Reino Unido, Doctor Who tornou-se parte profunda da cultura popular.

No Brasil, para muitas gerações, outras produções britânicas como UFO, produções de Gerry Anderson e Espaço: 1999 foram referências muito mais imediatamente reconhecíveis.

Essa diferença ensina algo curioso.

Tecnologia também possui distribuição cultural.

Uma invenção pode existir.

Mas se não chega às pessoas, seu impacto é limitado.

Software é igual.


21. O código que ninguém conhece não existe

Imagine criar uma biblioteca fantástica.

Documentação inexistente.

Ninguém sabe utilizá-la.

Ela praticamente não existe.

Agora imagine um programa COBOL de 1989.

Executa todos os dias.

Possui milhares de regras.

Resolve dezenas de exceções.

Pouquíssimas pessoas entendem completamente aquilo.

O código existe.

O conhecimento talvez esteja desaparecendo.

É o problema inverso.

Em um caso:

produto sem distribuição.

No outro:

sistema sem conhecimento distribuído.

Ambos são risco.


22. O que a ficção britânica fez de diferente

Existe uma generalização interessante.

Muita ficção científica americana tradicional perguntou:

“O que encontraremos no futuro?”

A tradição britânica frequentemente perguntou:

“O que o futuro fará conosco?”

Não é uma regra absoluta.

Mas ajuda a compreender essas produções.

Doctor Who pergunta:

como usamos conhecimento?

Doomwatch pergunta:

quem controla ciência?

Survivors pergunta:

o que acontece quando infraestrutura desaparece?

Blake's 7 pergunta:

o que acontece quando controle tecnológico se torna excessivo?

Space: 1999 pergunta:

quais consequências deixamos para o futuro?

Essas perguntas continuam abertas.


23. De 1970 para 2026

Podemos montar uma pequena tradução temporal.

DOOMWATCH
1970: risco científico
2026: AI Governance
SURVIVORS
1975: pandemia e colapso
2026: resiliência sistêmica
BLAKE'S 7
1978: Estado tecnológico
2026: vigilância algorítmica
UFO
1970: infraestrutura de defesa
2026: sistemas distribuídos
SPACE: 1999
1975: lixo nuclear
2026: sustentabilidade tecnológica
DOCTOR WHO
1963+
ciência + ética + história
2026:
inovação responsável

Isso não significa que os roteiristas “previram” exatamente nosso mundo.

Significa algo mais interessante.

Eles identificaram padrões.


24. E padrões sobrevivem

Tecnologias mudam.

Padrões humanos nem tanto.

Temos:

pressa;

ambição;

medo;

competição;

custo;

ego;

autoridade;

conformismo;

pressão por prazo;

excesso de confiança.

Agora misture isso com tecnologia.

Resultado:

incidentes.

É exatamente aqui que nossas discussões sobre Plan Continuation Bias entram na TARDIS.

Um plano começa fazendo sentido.

O ambiente muda.

Surgem sinais de problema.

Mas pessoas continuam seguindo o plano porque já investiram nele.

“Já estamos quase terminando.”

“Não vamos voltar agora.”

“Diretoria já anunciou.”

“O cutover é hoje.”

“Todo mundo está mobilizado.”

Enquanto isso:

alerta.

alerta.

alerta.

alerta.

E ninguém reage.

Bem-vindo à Alarm Fatigue.


25. O episódio perdido de Doomwatch

Imagine.

Doomwatch — episódio 39.

Título:

The Legacy System.

Um grande banco decide substituir um sistema COBOL criado décadas antes.

Uma consultoria garante:

“Dezoito meses.”

Um jovem executivo pergunta:

“Quantas linhas?”

Alguém responde:

“Oito milhões.”

Executivo:

“Então é fácil. Colocamos cinquenta programadores.”

No fundo da sala existe um senhor com cinquenta anos de mainframe.

Ele levanta a mão.

Silêncio.

Pergunta:

“Vocês sabem o que ele faz?”

Executivo:

“Claro. Processa contas.”

O veterano:

“Não. Isso é o que vocês acham que ele faz.”

Música dramática.

Corta para propaganda.


26. A arqueologia do legado

Aqui está outra lição fundamental para quem começa em COBOL.

Sistema legado não significa necessariamente:

sistema ruim.

Significa principalmente:

sistema herdado.

Ele acumulou decisões.

Regras.

Correções.

Mudanças legais.

Tratamentos especiais.

Exceções.

Integrações.

Um programa pode conter algo assim:

IF DATA-MOVIMENTO < WS-DATA-1997
   PERFORM CALCULO-ANTIGO
ELSE
   PERFORM CALCULO-NOVO
END-IF.

O jovem pergunta:

“Por que 1997?”

Resposta:

“Ninguém sabe.”

Cuidado.

Isso não significa automaticamente que podemos apagar.

Talvez exista legislação.

Conversão histórica.

Contrato antigo.

Migração.

Compatibilidade.

A primeira ferramenta do mantenedor não é DELETE.

É:

curiosidade.


27. Guia galáctico para mexer em COBOL antigo

Antes de modificar código crítico:

Passo 1 — Descubra quem chama

JCL?

CICS?

IMS?

Outro programa?

Scheduler?

MQ?

API?

Passo 2 — Descubra o que entra

Arquivo?

VSAM?

Db2?

COMMAREA?

Fila?

Passo 3 — Descubra o que sai

Outro arquivo?

Tabela?

Relatório?

Transação?

Passo 4 — Procure dependências

COPYBOOKS.

CALLs.

PROCs.

SORTs.

Utilitários.

Passo 5 — Entenda a regra de negócio

Não pergunte apenas:

“O que esse IF faz?”

Pergunte:

“Por que o negócio precisa desse IF?”

Passo 6 — Teste o cenário feliz

Depois teste justamente o contrário.

Passo 7 — Crie rollback

Porque:

MOVE PROD TO TEST

é ficção científica.

MOVE TEST TO PROD

sem controle é terror.


28. O verdadeiro vilão quase nunca é o computador

Essa talvez seja a grande síntese.

Nas boas histórias de ficção científica, a máquina raramente é o problema inteiro.

Normalmente existe:

TECNOLOGIA
     +
DECISÃO HUMANA
     +
CONTEXTO
     +
INCENTIVO
     +
FALHA DE CONTROLE

= desastre.

Isso vale para:

IA;

mainframe;

aviação;

energia;

medicina;

bancos;

redes sociais;

automação.


29. Curiosidade: Daleks e Cybermen são diferentes

Para um iniciante em Doctor Who, existe uma diferença filosófica divertida.

Daleks representam uma espécie de pureza ideológica extrema.

Cybermen representam transformação tecnológica que elimina progressivamente características humanas.

Ou seja:

um teme o “outro”.

O outro elimina o “humano”.

Em tecnologia moderna isso permite uma metáfora interessante.

Um sistema pode falhar porque rejeita diversidade.

Ou pode falhar porque automatiza tudo sem preservar julgamento humano.

Qualquer semelhança com debates contemporâneos sobre IA é bastante conveniente.


30. Easter egg COBOL galáctico

Se Arthur Dent fosse programador COBOL, provavelmente seu código começaria assim:

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. DONT-PANIC.

       PROCEDURE DIVISION.

       0000-MAIN.

           PERFORM UNTIL UNIVERSE-END
               DISPLAY "DON'T PANIC"
               PERFORM CHECK-BATCH
               PERFORM DRINK-COFFEE
           END-PERFORM.

           STOP RUN.

O problema está em:

UNIVERSE-END

porque ninguém documentou o formato da variável.

Há rumores de que seja PIC 9(8).

Outros afirmam que é PIC X(42).

Naturalmente, 42.


31. Segunda curiosidade: a resposta não serve sem a pergunta

Em O Guia do Mochileiro das Galáxias, 42 é apresentado como resposta à Grande Questão da Vida, do Universo e de Tudo.

Mas existe um detalhe genial:

ninguém sabe exatamente qual era a pergunta.

Isso é uma metáfora perfeita para tecnologia.

Quantas vezes alguém aparece com uma solução?

“Cloud!”

“Blockchain!”

“Microserviços!”

“IA!”

“Kubernetes!”

“Agentes!”

Você pergunta:

“Qual problema estamos resolvendo?”

Silêncio.

Temos a resposta.

Esquecemos a pergunta.

Arquitetura boa começa pelo problema.


32. O mainframe é a TARDIS da computação empresarial

Exteriormente, alguém olha e diz:

“Isso ainda existe?”

Por dentro encontramos:

processamento massivo;

virtualização;

criptografia;

bancos de dados;

mensageria;

Linux;

APIs;

Java;

Python;

COBOL;

containers;

automação;

IA;

DevOps.

Talvez não seja literalmente maior por dentro.

Mas é suficientemente grande para assustar qualquer desenvolvedor que achava que “mainframe = COBOL + tela verde”.


33. O que realmente aprendemos

Depois de atravessar Quatermass, Doctor Who, Doomwatch, Survivors, Blake's 7, UFO e Espaço: 1999, podemos finalmente voltar para nosso café.

Essas séries ensinaram algo essencial.

Tecnologia não existe isolada.

Ela existe dentro de:

sociedade;

economia;

política;

organizações;

pessoas;

valores.

Portanto, nenhuma discussão tecnológica séria deveria terminar em:

“Funcionou.”

Precisamos perguntar também:

Funcionou para quem?

Com qual risco?

Sob qual controle?

Quem observa?

Quem audita?

Quem interrompe?

Quem responde?

Quem entende?


34. A pergunta que o jovem programador deve aprender

Quando receber sua primeira alteração em um sistema COBOL crítico, talvez você queira mostrar serviço.

Excelente.

Mas existe uma pergunta extremamente poderosa:

“O que pode dar errado?”

Depois:

“Como saberemos que deu errado?”

Depois:

“O que faremos se der errado?”

Essas três perguntas transformam um programador em engenheiro.


35. Não entre em pânico

Um ABEND acontece.

Não entre em pânico.

Veja o código.

Uma transação CICS falha.

Não entre em pânico.

Veja o contexto.

Um job fica preso.

Não entre em pânico.

Veja dependências.

Um usuário liga gritando.

Principalmente:

não entre em pânico.

O pânico reduz investigação.

E incidentes exigem investigação.


36. Observe antes de agir

Talvez Doomwatch pudesse ter como lema:

observar antes de intervir.

Isso é fantástico para produção.

Primeiro:

colete evidência.

Depois:

forme hipótese.

Depois:

valide.

Depois:

aja.

Em pseudo-COBOL:

PERFORM OBSERVE
PERFORM UNDERSTAND
PERFORM VALIDATE
PERFORM AUTHORIZE
PERFORM CHANGE
PERFORM VERIFY

Jamais:

PERFORM CHANGE
PERFORM PRAY

Embora esse segundo modelo tenha sido utilizado com surpreendente frequência na história da informática.


37. A grande lição da ficção científica britânica

Não foram as naves.

Não foram os monstros.

Não foram os figurinos.

Não foram os computadores piscantes.

A grande contribuição foi perceber que o problema fundamental do futuro seria:

como viver com as consequências das tecnologias que criamos.

Essa discussão aparece repetidamente nas obras analisadas: a matéria destaca explicitamente que essas produções dos anos 1970 utilizaram ficção científica para discutir questões sociais, políticas, ambientais e de poder.

Isso continua conosco.

IA.

Biotecnologia.

Computação quântica.

Cybersecurity.

Automação.

Redes sociais.

Mainframes.

Cloud.

Agentes autônomos.

A tecnologia continua avançando.

A pergunta continua praticamente a mesma.


38. Epílogo: o último operador do universo

Imagine o fim do universo.

As estrelas apagaram.

Os planetas desapareceram.

Os Daleks foram embora.

A Federação caiu.

A Lua finalmente encontrou uma órbita decente.

Arthur Dent terminou seu chá.

Restou apenas um datacenter IBM Z perdido no vazio cósmico.

Uma luz verde pisca.

No console aparece:

IEF404I JOB DAILY42 ENDED

Um velho operador olha para o relógio.

04:37.

Sorri.

O batch terminou.

O universo pode acabar tranquilo.

Porque em algum lugar nos últimos registros da civilização existe uma linha dizendo:

MAXCC=0000

E talvez essa seja a maior definição possível de sucesso operacional.

Não evitar todo problema.

Não possuir tecnologia perfeita.

Não prever exatamente o futuro.

Mas construir sistemas suficientemente compreendidos, observáveis, resilientes e responsáveis para continuar funcionando quando o inesperado finalmente aparecer.

Os britânicos descobriram isso enquanto colocavam monstros de borracha diante das câmeras.

Nós descobrimos novamente em cada war room.

Então, jovem programador COBOL, quando alguém aparecer diante de sua mesa dizendo:

“É só uma alteraçãozinha...”

segure sua toalha.

Beba seu café.

Abra o código.

Pergunte quem autorizou.

Descubra as dependências.

Prepare o rollback.

E lembre-se das palavras mais importantes já impressas em qualquer guia realmente útil para sobreviver à tecnologia:

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Principalmente em produção.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Blast Radius: Por Que um Pequeno Erro Pode Derrubar um Banco Inteiro

 

Bellacosa Mainframe e o blast radius em desenvolvimento de software

Blast Radius: Por Que um Pequeno Erro Pode Derrubar um Banco Inteiro

Uma das perguntas mais importantes da engenharia moderna

Imagine que você acabou de entrar em uma grande instituição financeira.

Você é um desenvolvedor COBOL Jr.

Recebe uma tarefa aparentemente simples.

Alterar uma rotina de validação em um programa batch.

O código possui apenas algumas linhas.

A mudança é pequena.

O teste passou.

O deploy foi aprovado.

Tudo parece sob controle.

Dois dias depois surge uma reunião de crise.

Executivos estão reunidos.

Gerentes estão nervosos.

Equipes de infraestrutura trabalham durante a madrugada.

Milhões de registros foram processados incorretamente.

O prejuízo é enorme.

E então alguém faz uma pergunta que todo arquiteto experiente conhece:

Qual era o Blast Radius dessa mudança?

Essa pergunta vale mais do que qualquer revisão de código.

Mais do que qualquer ferramenta de monitoramento.

Mais do que qualquer framework moderno.

Porque ela determina o tamanho potencial do desastre.


O que significa Blast Radius?

A tradução literal seria:

Raio de Explosão.

O termo vem do universo militar.

Quando ocorre uma explosão, existe uma área diretamente afetada.

Quanto maior a explosão, maior o raio de destruição.

A engenharia de software adotou exatamente a mesma ideia.

Quando um sistema falha, uma pergunta precisa ser respondida:

Quantas pessoas, sistemas, operações ou clientes serão impactados?

Essa área de impacto é chamada Blast Radius.


O erro que afeta um cliente

Imagine um programa COBOL responsável por atualizar dados cadastrais.

Um erro afeta:

1 cliente

Problema?

Sim.

Crise?

Provavelmente não.

O impacto é localizado.

O Blast Radius é pequeno.


O erro que afeta um banco inteiro

Agora imagine um programa responsável pela compensação financeira nacional.

Um erro afeta:

30 milhões de clientes

Mesma quantidade de linhas alteradas.

Mesmo programador.

Mesmo tipo de erro.

Resultado completamente diferente.

Por quê?

Porque o Blast Radius mudou.


A pergunta que diferencia um programador de um engenheiro

O desenvolvedor iniciante normalmente pergunta:

Meu código funciona?

O engenheiro experiente pergunta:

O que acontece se ele falhar?

Essa mudança de mentalidade é uma das maiores evoluções na carreira de tecnologia.

Porque sistemas críticos não são avaliados apenas pelo sucesso.

Eles são avaliados pela forma como falham.


O mito do pequeno erro

Existe uma crença perigosa em ambientes corporativos.

"Foi só uma alteração pequena."

O tamanho do código raramente determina o tamanho do impacto.

Um único caractere já derrubou sistemas inteiros.

Um único parâmetro incorreto já gerou perdas milionárias.

Uma única configuração errada já interrompeu operações globais.

O impacto depende do Blast Radius.

Não da quantidade de código.


O universo COBOL e o poder invisível

Desenvolvedores COBOL trabalham em uma situação peculiar.

Muitas vezes manipulam sistemas que movimentam bilhões de reais diariamente.

Mas a interface parece simples.

Uma tela verde.

Alguns arquivos.

JCLs.

Datasets.

Rotinas batch.

Tudo parece tranquilo.

Até que alguém descobre que aquele programa processa:

  • contas correntes;

  • cartões;

  • empréstimos;

  • investimentos;

  • liquidações;

  • compensações.

De repente o código ganha outra dimensão.


O efeito dominó

Imagine uma falha em um cadastro.

Cliente incorreto.

Esse dado alimenta:

  • CRM;

  • antifraude;

  • cobrança;

  • compliance;

  • atendimento;

  • relatórios regulatórios.

Agora uma pequena falha inicial se transforma em dezenas de falhas secundárias.

Isso é amplificação de Blast Radius.


O conceito de dependências

Sistemas modernos não vivem isolados.

Um programa chama outro.

Que chama outro.

Que alimenta outro.

Que gera arquivos para outro.

O resultado é uma rede gigantesca.

Quando um componente falha, o impacto se propaga.

Como peças de dominó.


O exemplo do CPF inválido

Imagine uma rotina simples.

Um CPF inválido passa pela validação.

O erro parece pequeno.

Mas esse dado segue adiante.

Abre conta.

Gera cartão.

Produz relatórios.

Entra em auditorias.

Alimenta modelos analíticos.

Meses depois ninguém sabe mais onde o problema começou.

O Blast Radius cresceu silenciosamente.


O incidente do Nubank como estudo de caso

O episódio envolvendo o falso aviso de liquidação trouxe uma lição interessante.

Independentemente dos detalhes internos, a pergunta arquitetural é:

Qual era o Blast Radius daquele processo?

Se a mensagem atingisse:

10 clientes

O incidente seria pequeno.

Se atingir milhões:

O cenário muda completamente.

A mesma falha produz consequências exponencialmente maiores.


Blast Radius e ambientes de produção

Uma regra simples:

Quanto mais próximo da produção, maior o Blast Radius.

Ambiente de desenvolvimento:

Impacto quase zero.

Homologação:

Impacto limitado.

Produção:

Impacto real.

Produção financeira:

Impacto potencialmente gigantesco.

É por isso que instituições financeiras possuem tantos controles.

Não por burocracia.

Mas porque o custo do erro é enorme.


O perigo dos batches

O mundo COBOL é dominado por processamento em massa.

Um programa pode executar durante horas.

Processando milhões de registros.

O problema é simples.

Se houver um erro:

Ele será repetido milhões de vezes.

Um erro individual torna-se um erro industrializado.


O erro multiplicado

Imagine:

1 registro incorreto

Sem batch:

impacto pequeno.

Agora imagine:

50 milhões de registros

Processados pela mesma lógica defeituosa.

O erro não mudou.

O Blast Radius mudou.


Como arquitetos pensam

Arquitetos raramente perguntam:

"Qual tecnologia usamos?"

Eles perguntam:

"Qual o pior cenário possível?"

Essa pergunta direciona toda a arquitetura.

Porque sistemas críticos são construídos para sobreviver a falhas.

Não apenas para funcionar.


Blast Radius e permissões

Um desenvolvedor possui acesso de leitura.

Blast Radius reduzido.

Um desenvolvedor possui acesso irrestrito.

Blast Radius elevado.

É por isso que ambientes maduros trabalham com:

  • menor privilégio;

  • segregação;

  • controle de acesso;

  • aprovações.

Tudo isso é gestão de Blast Radius.


Blast Radius e banco de dados

Imagine um comando SQL.

Primeiro cenário:

UPDATE CLIENTES
SET STATUS='A'
WHERE ID=100;

Impacto:

um cliente.

Segundo cenário:

UPDATE CLIENTES
SET STATUS='A';

Impacto:

todos os clientes.

A diferença visual é mínima.

A diferença operacional é gigantesca.


O princípio da contenção

Existe uma palavra muito importante.

Contenção.

Todo sistema moderno deveria conter falhas.

Não espalhá-las.

Por isso empresas investem em:

  • segmentação;

  • isolamento;

  • partições;

  • zonas independentes.

O objetivo é impedir que uma falha local se torne global.


O conceito de células

Empresas como Amazon popularizaram a ideia de Cell Architecture.

Em vez de uma estrutura única gigante.

Criam-se células menores.

Se uma célula falhar:

As demais continuam operando.

Isso reduz drasticamente o Blast Radius.


Mainframe já fazia isso há décadas

Curiosamente, ambientes mainframe utilizavam conceitos semelhantes muito antes da computação em nuvem.

Exemplos:

  • LPARs;

  • regiões CICS;

  • filas separadas;

  • ambientes segregados;

  • jobs independentes.

A filosofia era exatamente a mesma.

Conter impactos.


O problema do compartilhamento excessivo

Quanto mais sistemas compartilham recursos, maior o Blast Radius.

Banco compartilhado.

Fila compartilhada.

Storage compartilhado.

Processamento compartilhado.

Tudo isso cria pontos únicos de falha.

Um problema em um componente afeta dezenas de outros.


O conceito de Blast Radius Humano

Pouca gente fala sobre isso.

Mas pessoas também possuem Blast Radius.

Imagine:

Um único operador consegue executar qualquer comando em produção.

Blast Radius enorme.

Agora imagine:

Necessidade de aprovação dupla.

Blast Radius reduzido.

A governança existe para limitar o alcance dos erros humanos.


O papel dos Guard Rails

Blast Radius e Guard Rails caminham juntos.

Guard Rails tentam impedir erros.

Blast Radius tenta limitar consequências.

Exemplo:

Guard Rail:

impedir exclusão acidental.

Blast Radius:

caso a exclusão ocorra, limitar o impacto.

São conceitos complementares.


Rollout gradual

Uma das formas mais modernas de controlar Blast Radius é o rollout progressivo.

Em vez de liberar uma mudança para todos.

Liberamos para poucos.

Por exemplo:

1%.

Depois 5%.

Depois 10%.

Depois 100%.

Se houver erro, ele será detectado cedo.

O impacto permanece pequeno.


O medo saudável da produção

Existe uma característica interessante nos profissionais experientes de mainframe.

Eles respeitam produção.

Não porque tenham medo da tecnologia.

Mas porque entendem o Blast Radius.

Produção concentra:

  • clientes;

  • dinheiro;

  • contratos;

  • obrigações regulatórias;

  • reputação.

Uma pequena falha pode produzir consequências gigantescas.


Observabilidade e Blast Radius

Você não controla aquilo que não consegue enxergar.

Por isso monitoramento é fundamental.

Imagine um batch que normalmente processa:

500 mil registros

Hoje processou:

50 milhões

Algo claramente está errado.

Um sistema observável detecta rapidamente.

Quanto mais cedo o problema é identificado, menor o Blast Radius.


O custo da reputação

Em bancos existe um ativo invisível.

Confiança.

Quando uma falha afeta poucos clientes, a recuperação costuma ser simples.

Quando afeta milhões, surge um problema adicional.

Reputação.

O Blast Radius passa a incluir:

  • imprensa;

  • investidores;

  • reguladores;

  • mercado.

O dano deixa de ser apenas tecnológico.


O exercício mental que todo COBOL Jr deveria fazer

Antes de qualquer alteração, pergunte:

Se eu errar:

  • Quantos clientes serão impactados?

  • Quantos sistemas dependem disso?

  • Existe rollback?

  • Existe monitoramento?

  • Existe plano de contingência?

  • Existe limite operacional?

  • Existe validação?

  • Existe segregação?

Essas perguntas valem mais do que qualquer linha de código.


A verdadeira maturidade profissional

Existe um momento em que o desenvolvedor deixa de ser apenas um programador.

Ele passa a enxergar sistemas.

Passa a enxergar operações.

Passa a enxergar negócios.

Passa a enxergar riscos.

Nesse momento surge uma nova pergunta.

Não mais:

O programa funciona?

Mas sim:

Qual é o Blast Radius se ele parar de funcionar?

Essa mudança de perspectiva transforma a forma de desenvolver software.


Conclusão

Blast Radius é um dos conceitos mais importantes da engenharia moderna porque nos obriga a pensar além do código.

Ele nos força a enxergar impacto.

A enxergar consequências.

A enxergar riscos.

Para um desenvolvedor COBOL Jr, compreender Blast Radius significa entender que o tamanho de uma alteração não determina sua importância.

Uma linha de código pode alterar milhões de contas.

Um único parâmetro pode interromper operações nacionais.

Uma pequena falha pode se propagar por dezenas de sistemas.

Os melhores engenheiros não são aqueles que acreditam que nunca errarão.

São aqueles que projetam sistemas assumindo que erros inevitavelmente acontecerão.

E quando eles acontecerem, o objetivo não será impedir a explosão.

Será garantir que o raio da explosão seja o menor possível.

Esse é o verdadeiro significado de Blast Radius.


domingo, 3 de maio de 2026

⚡💣 LAB CICS — MEM CRÍTICO 🚨 “QUANDO A MEMÓRIA ACABA… O CICS PEDE SOCORRO” 🚨

 

Bellacosa Mainframe memoria critica no CICS

⚡💣 LAB CICS — MEM CRÍTICO

🚨 “QUANDO A MEMÓRIA ACABA… O CICS PEDE SOCORRO” 🚨

👉 Tema: SOS (Short on Storage) + degradação + decisão de failover


🎬 🎯 CENÁRIO

Você está operando uma região do
IBM CICS

🕐 14:32 — horário crítico
📍 Região: CICSPRD1
📍 Ambiente: Produção


💥 ALERTAS INICIAIS

  • Tempo de resposta subindo
  • Tasks WAITING
  • CPU irregular
  • Storage aumentando rápido

💣 LOGS (CSMT)

DFHSM0133 Short on storage condition detected
DFHSM0606 Storage violation detected

👉 Tradução Bellacosa:

“O CICS está ficando sem memória — e isso escala rápido.”


🧠🔥 FASE 1 — DIAGNÓSTICO INICIAL

🔎 Comando:

CEMT I SYS

🔥 Resultado típico:

  • Storage > 90%
  • Tasks acumulando
  • Sistema degradando

❓ O que você faz?

A) Reinicia CICS
B) Ignora
C) Analisa storage
D) Derruba tudo


✅ RESPOSTA: C

👉 Reiniciar agora pode piorar
👉 Você precisa entender quem está consumindo storage


🔍 FASE 2 — INVESTIGAÇÃO DE STORAGE

🔎 Ver tasks:

CEMT I TASK

👉 Procure:

  • Tasks longas
  • Muitas instâncias
  • Status WAITING

💡 Padrão clássico:

  • Programa não liberando storage
  • Loop com GETMAIN
  • Leak de memória

📊 FASE 3 — IDENTIFICAR VILÃO

🔎 Filtro:

CEMT I TASK TRA(ORDR)

👉 Resultado:

  • Muitas tasks
  • Alto consumo
  • Crescendo continuamente

❓ Diagnóstico provável:

A) CPU
B) Storage leak
C) Rede
D) MQ


✅ RESPOSTA: B

🔥 Você está vendo um memory leak em CICS


☠️💣 FASE 4 — CONTENÇÃO IMEDIATA

Agora vem decisão crítica.

🎯 Objetivo:

  • parar consumo
  • evitar colapso

💥 Ações:

1. Derrubar tasks críticas:

CEMT SET TASK(501) PURGE

Se necessário:

CEMT SET TASK(501) FORCEPURGE

2. Bloquear transação:

CEMT SET TRAN(ORDR) DISABLED

👉 Isso é essencial.


🧬 FASE 5 — SITUAÇÃO PIORA 😈

Mesmo após purge:

  • Storage não libera totalmente
  • Região continua degradando

👉 Isso acontece porque:

  • Fragmentação
  • Storage preso
  • Controle interno comprometido

🚨 FASE 6 — DECISÃO CRÍTICA (NÍVEL SYSPROG)

❓ O que fazer agora?

A) Continuar purge
B) Reiniciar região
C) Acionar failover
D) Ignorar


✅ RESPOSTA IDEAL: C

👉 Você entra no modo resiliência


🌍⚡ FAILOVER COM GDPS

Utilizando:

IBM GDPS


💥 Ação:

  • Transferir workload
  • Ativar região standby
  • Redirecionar usuários

🎯 Resultado esperado:

  • Continuidade de serviço
  • Zero downtime perceptível (ou mínimo)

🧯 FASE 7 — ESTABILIZAÇÃO

Após failover:

  • Região secundária assume
  • Sistema normaliza
  • Usuários voltam

🔬 FASE 8 — ANÁLISE PROFUNDA

Agora você investiga a causa real.

🔎 Ferramentas:

  • IBM IPCS
  • IBM Fault Analyzer

💣 Descoberta:

  • Programa COBOL com loop de GETMAIN
  • Sem FREEMAIN
  • Leak progressivo

🔧 FASE 9 — CORREÇÃO DEFINITIVA

📋 Ações:

  • Corrigir código
  • Garantir FREEMAIN
  • Revisar uso de storage
  • Testar em QA

🧠💡 LIÇÕES DE OURO

👉 SOS nunca é “só performance”
👉 É risco de colapso total

👉 Sempre:

  • monitore storage
  • detecte crescimento anormal
  • tenha failover preparado

🧩😄 EASTER EGGS

  • “SOS não avisa duas vezes”
  • “Se chegou no SOS… alguém esqueceu FREEMAIN”
  • “Memory leak em CICS é assassino silencioso”

🏁 SCORE FINAL

CritérioResultado
Diagnóstico🧠 Excelente
Tempo de reação⚡ Crítico
Contenção🎯 Precisa
Resiliência🛡️ Nível enterprise

🎯💬 FECHAMENTO

Esse lab é o divisor de águas.

👉 Aqui você deixa de ser operador
👉 e vira engenheiro de sobrevivência do mainframe



sexta-feira, 6 de junho de 2025

Engenharia Militar : Especial — A Guerra da Ucrânia

 

Bellacosa Mainframe e a engenharia militar especial guerra da ucrania

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Engenharia Militar sem Mistérios para Programadores COBOL

Especial — A Guerra da Ucrânia

Quando um Programador COBOL Descobre que uma Guerra do Século XXI é Travada ao Mesmo Tempo por Drones, Satélites, Software, Logística, Informação e Vontade Humana

Introdução

Quando a Rússia iniciou sua invasão em grande escala da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022, boa parte dos analistas acreditava que o conflito terminaria em poucos dias ou semanas.

A lógica parecia simples.

Uma das maiores potências militares do planeta enfrentaria um país muito menor.

A superioridade numérica parecia esmagadora.

Entretanto...

A História mostrou algo completamente diferente.

A Guerra da Ucrânia rapidamente tornou-se um dos maiores laboratórios militares desde a Segunda Guerra Mundial.

Ela mudou conceitos que existiam havia décadas.

Mudou a forma de utilizar drones.

Mudou a guerra eletrônica.

Mudou o papel da inteligência.

Mudou a logística.

Mudou o emprego da artilharia.

Mudou a importância dos satélites comerciais.

Mudou a guerra de informação.

E talvez tenha mudado para sempre a forma como engenheiros militares projetarão conflitos futuros.

Curiosamente, diversas dessas lições lembram exatamente o trabalho diário de arquitetos IBM Z.

Nem sempre vence quem possui mais hardware.

Frequentemente vence quem entende melhor o sistema.


Antes da Guerra

O conflito não começou em 2022.

Suas raízes remontam a décadas de transformações políticas e estratégicas.

Entre os marcos frequentemente destacados por historiadores estão:

  • dissolução da União Soviética (1991);

  • independência da Ucrânia;

  • disputas sobre orientação política entre aproximação com a Europa e com a Rússia;

  • Revolução da Dignidade (Euromaidan, 2013–2014);

  • anexação da Crimeia pela Rússia (2014);

  • conflito armado no Donbass a partir de 2014;

  • anos de preparação militar, reformas e treinamento das forças ucranianas.

Sob muitos aspectos, 2022 representou uma escalada de um conflito já existente.


O Erro das Previsões

Nos primeiros dias da invasão, inúmeras análises previam uma rápida queda de Kiev.

Isso não ocorreu.

Entre os fatores apontados por especialistas para explicar essa diferença estão:

  • forte resistência das forças ucranianas;

  • problemas logísticos enfrentados pelas forças invasoras;

  • elevada motivação para a defesa nacional;

  • uso eficiente de inteligência;

  • capacidade de adaptação;

  • apoio internacional em equipamentos, treinamento e informações.

A guerra mostrou que números, isoladamente, raramente contam toda a história.


A Resistência Ucraniana

Talvez a maior surpresa do conflito tenha sido a velocidade de adaptação.

Ao invés de enfrentar diretamente todas as capacidades russas em confrontos convencionais, as forças ucranianas frequentemente buscaram explorar vulnerabilidades, proteger áreas críticas e preservar recursos.

Entre os elementos mais discutidos por analistas estão:

  • defesa em profundidade;

  • elevada descentralização de decisões em muitos níveis;

  • integração entre diferentes capacidades militares;

  • emprego intensivo de reconhecimento;

  • uso crescente de drones;

  • grande importância das comunicações.

O resultado foi uma resistência muito superior ao que boa parte dos observadores esperava.


As Grandes Lições da Guerra

1. Logística continua decidindo campanhas

Blindados sem combustível não avançam.

Artilharia sem munição não dispara.

Tropas sem manutenção perdem capacidade.

A máxima atribuída a Omar Bradley continua atual:

"Amadores falam de estratégia. Profissionais falam de logística."


2. Informação vale tanto quanto fogo

Satélites comerciais.

Sensores.

Imagens.

Interceptações.

Drones.

Tudo isso reduziu drasticamente o tempo entre observar um alvo e reagir.


3. Pequenos drones mudaram a guerra

Veículos aéreos não tripulados passaram a desempenhar papéis de observação, reconhecimento, correção de artilharia e outras funções de apoio, transformando a consciência situacional no campo de batalha.


4. Guerra eletrônica voltou ao centro

Interferência em comunicações.

Navegação.

Sensores.

Sinais.

Todo comandante moderno precisa considerar o espectro eletromagnético como parte do campo de batalha.


5. Software tornou-se arma estratégica

Atualizações rápidas.

Integração de sensores.

Compartilhamento de informações.

Planejamento digital.

A velocidade do software passou a influenciar diretamente a velocidade da tomada de decisão.


6. Adaptação supera planejamento rígido

Diversas soluções utilizadas durante o conflito surgiram meses após seu início.

Isso reforçou um princípio clássico:

Quem aprende mais rápido tende a manter vantagem.


O Que um Estrategista Deve Observar

Independentemente do lado analisado, este conflito oferece temas importantes para estudo:

  • integração entre tecnologia e liderança;

  • importância da cadeia logística;

  • inteligência e reconhecimento;

  • adaptação organizacional;

  • resiliência de infraestrutura crítica;

  • guerra de informação;

  • proteção de comunicações;

  • continuidade operacional;

  • cooperação internacional;

  • inovação acelerada sob pressão.

Esses aspectos interessam não apenas a militares, mas também a profissionais de engenharia, gestão de riscos e continuidade de negócios.


Paralelos com IBM Z

Imagine um banco.

Milhares de aplicações.

Centenas de integrações.

MQ.

Db2.

CICS.

VSAM.

APIs.

Cloud.

Agora imagine que parte dessa infraestrutura fique indisponível.

Os arquitetos precisam:

  • identificar rapidamente o problema;

  • manter os serviços essenciais;

  • redirecionar cargas;

  • recuperar componentes;

  • preservar a integridade dos dados;

  • comunicar equipes;

  • continuar operando.

É exatamente isso que arquiteturas IBM Z fazem há décadas.

Não existe apenas potência.

Existe principalmente resiliência.


A Guerra da Informação

A Guerra da Ucrânia também mostrou que a narrativa pública tornou-se um componente importante dos conflitos modernos.

Redes sociais, vídeos, imagens de satélite, jornalistas, comunicados oficiais e plataformas digitais passaram a influenciar a percepção internacional quase em tempo real.

Isso não elimina a necessidade de verificar informações com fontes confiáveis, já que propaganda, desinformação e erros também fazem parte do ambiente informacional em guerras.

Para um profissional de tecnologia, a lição é clara:

Dados são valiosos, mas sua qualidade e verificação continuam sendo essenciais.


Como o Mundo dos Animes Reagiu

Embora poucos animes tratem diretamente da Guerra da Ucrânia, muitos fãs e críticos passaram a revisitar obras sob uma nova perspectiva.

Entre elas:

Legend of the Galactic Heroes

Discussões sobre liderança, diplomacia, desgaste prolongado e escolhas estratégicas ganharam nova relevância.

86 Eighty-Six

A série passou a ser frequentemente citada em debates sobre tecnologia militar, drones, desumanização da guerra e o custo humano dos conflitos.

Mobile Suit Gundam

A franquia voltou a ser lembrada por suas reflexões sobre política, indústria de defesa, rivalidades entre Estados e consequências da guerra para civis.

Saga of Tanya the Evil

Foi reinterpretada por muitos espectadores como uma reflexão sobre burocracia militar, mobilização industrial e escaladas estratégicas.

Attack on Titan

Temas como cercos, sobrevivência, propaganda, ciclos de violência e decisões políticas passaram a ser discutidos de forma ainda mais intensa pela comunidade.

Em geral, a reação do fandom não foi de glorificação do conflito, mas de comparação entre ficção e realidade, destacando como diversas obras já exploravam dilemas éticos e estratégicos presentes em guerras modernas.


Curiosidade

Talvez a maior surpresa tecnológica do conflito tenha sido mostrar que equipamentos sofisticados continuam importantes, mas que integração entre sensores, software, comunicações, logística e treinamento pode ser tão decisiva quanto plataformas individuais.

Em outras palavras, sistemas funcionam melhor quando seus componentes trabalham em conjunto.


Easter Egg Bellacosa

Um jovem programador perguntou ao velho arquiteto:

— Qual foi a maior arma desta guerra?

O arquiteto respondeu:

— O sistema.

O rapaz insistiu:

— O senhor quer dizer um míssil?

O veterano balançou a cabeça.

— Não.

Satélites.

Comunicações.

Software.

Logística.

Treinamento.

Engenharia.

Inteligência.

Liderança.

Continuidade.

Tudo conectado.

Assim como um Mainframe.

Quando você olha apenas para um programa COBOL, vê uma aplicação.

Quando olha para todo o ecossistema IBM Z, entende que o verdadeiro poder nunca esteve em uma única máquina.

Sempre esteve na integração entre pessoas, processos e tecnologia.


Conclusão

A Guerra da Ucrânia já ocupa um lugar importante na história militar contemporânea porque demonstrou que muitos conceitos clássicos permanecem válidos, enquanto outros precisaram ser profundamente revisados.

Ela reforçou a importância da logística, da liderança, da inteligência e da adaptação, ao mesmo tempo em que evidenciou o papel crescente do software, das comunicações, da guerra eletrônica e dos sistemas integrados.

Para um programador COBOL, essas lições soam familiares.

Os maiores ambientes IBM Z do mundo continuam operando não apenas porque possuem hardware robusto, mas porque foram concebidos para resistir, adaptar-se e manter serviços críticos funcionando mesmo diante de condições adversas.

Talvez essa seja a principal mensagem deste capítulo.

No século XXI, vencer não significa apenas possuir mais recursos.

Significa compreender melhor o sistema, integrar pessoas e tecnologia com inteligência e construir estruturas capazes de continuar funcionando quando a pressão aumenta.

E essa é uma lição que vale tanto para o campo de batalha quanto para um Data Center que não pode parar.


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Engenharia Militar

Prólogo — O Chamado do Guardião
Quando um Programador COBOL descobre que a maior fortaleza da História nunca foi construída apenas com pedra.

Entrar na fortaleza

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Spy vs. Spy Entra no CPD — O Dia em que o Espião Preto Roubou uma Senha e Descobriu que Não Precisava Hackear o Mainframe

 

Bellacosa Mainframe e o ataque ao CPD

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Spy vs. Spy Entra no CPD — O Dia em que o Espião Preto Roubou uma Senha e Descobriu que Não Precisava Hackear o Mainframe

Ou: por que phishing, ransomware, credenciais roubadas, fornecedores comprometidos, RACF, COBOL e agentes de IA fazem parte da mesma guerra — e por que sobreviver ao ataque vale tanto quanto impedir que ele aconteça



Prólogo — dois espiões, um RACF e uma senha anotada no Post-it

Imagine o CPD.

Ar-condicionado polar. Luzes piscando. Um IBM Z trabalhando silenciosamente enquanto bilhões de transações passam por CICS, Db2, MQ, VSAM e programas COBOL que ninguém ousa desligar numa sexta-feira depois das 17 horas.

O Espião Branco, de Spy vs. Spy, está diante do console.

Tudo verde.

CPU normal.

CICS tranquilo.

Db2 respirando.

JES2 processando.

Nenhum ICH408I.

Nenhum SOC7.

Nenhum operador correndo pelo corredor gritando:

— CAIU PRODUÇÃO!

Logo, estamos seguros.

Certo?

Do outro lado da parede, o Espião Preto observa uma folha de papel.

Nela está escrito:

USERID: XPTO123
PASSWORD: ********

Ele olha para o mainframe.

Olha para a senha.

Olha novamente para o mainframe.

Guarda no bolso o kit de hacker cinematográfico que trouxe.

Hoje ele não precisará "hackear o IBM Z".

Alguém já lhe entregou uma identidade.

E essa pequena cena resume boa parte da segurança cibernética moderna.

A indústria gosta de falar sobre inteligência artificial, zero-days, malware polimórfico, ataques sofisticados e hackers praticamente saídos de um filme.

Tudo isso existe.

Mas uma enorme quantidade de incidentes continua dependendo de problemas bem menos glamorosos:

credenciais comprometidas, vulnerabilidades conhecidas, permissões excessivas, sistemas mal configurados, fornecedores confiáveis comprometidos e seres humanos enganados.

O X-Force Threat Intelligence Index 2026 da IBM encontrou aumento de 44% na exploração de aplicações expostas publicamente; 56% das vulnerabilidades divulgadas analisadas não exigiam autenticação para exploração. O número de grupos ativos de ransomware aumentou 49%. (IBM)

Bem-vindo ao nosso café.

Hoje Spy vai tentar entrar.

Spy vai tentar impedir.

E você, jovem padawan do COBOL, ficará no meio dos dois tentando descobrir por que o programa da folha de pagamento não é necessariamente o elo mais fraco da história.


1. Primeira lição: "cyberattack" não é uma coisa só

O infográfico que iniciou nossa conversa apresenta:

  • phishing;

  • ransomware;

  • malware;

  • DDoS;

  • insider threats;

  • SQL injection;

  • Man-in-the-Middle;

  • zero-day;

  • credential stuffing;

  • supply-chain attacks;

  • social engineering;

  • data exfiltration.

A lista é boa para conscientização.

Tecnicamente, porém, existe uma pegadinha.

As coisas não estão todas na mesma camada.

É como criar uma lista de "coisas do mainframe":

COBOL
Db2
arquivo
abend
CICS
SQLCODE -911
RACF
JCL

Tudo tem relação com mainframe.

Mas claramente não são a mesma espécie de coisa.

Em segurança acontece exatamente isso.

Phishing pode ser vetor inicial.

Social engineering é uma categoria mais ampla de manipulação.

Credential stuffing é uma técnica de tentativa de acesso.

Malware é software malicioso.

Zero-day descreve uma vulnerabilidade ainda sem correção conhecida/disponível no momento relevante.

Ransomware pode ser payload e modelo de extorsão.

DDoS é ataque contra disponibilidade.

Data exfiltration costuma ser uma etapa ou objetivo posterior.

Supply chain descreve um caminho de confiança comprometido.

Portanto, o ataque real pode passar por várias dessas caixas.

Nosso Espião Preto poderia fazer:

PHISHING
   |
   v
CREDENCIAL ROUBADA
   |
   v
ACESSO À VPN
   |
   v
MOVIMENTO LATERAL
   |
   v
ELEVAÇÃO DE PRIVILÉGIO
   |
   v
EXFILTRAÇÃO
   |
   v
RANSOMWARE
   |
   v
EXTORSÃO

Então o gerente pergunta:

— Qual ataque sofremos?

Resposta:

sim.

Foi uma cadeia.

Essa é nossa primeira grande mudança mental.


2. Espião Preto manda um phishing

Antigamente o phishing clássico parecia produzido por alguém usando Google Translate depois de seis cervejas:

"Estimado cliente Banco Favor atualizar urgentemente senha senão conta ser cancelamento."

Ficava relativamente fácil desconfiar.

Agora entra IA generativa.

O criminoso pode produzir mensagens melhores, contextualizadas, no idioma correto e adaptadas ao ambiente da vítima.

Mais interessante ainda: o ataque não precisa chegar por e-mail.

A Mandiant registrou no M-Trends 2026 que exploits continuaram sendo o vetor inicial mais observado em suas investigações, com 32%, mas o phishing por voz chegou a 11%, tornando-se o segundo vetor observado. (Google Cloud)

Imagine nosso programador COBOL recebendo uma ligação:

— Bellacosa, aqui é o suporte. Estamos migrando o MFA. Você recebeu uma solicitação no telefone?

Recebeu.

— Sim.

— Confirme para sincronizarmos.

Clique.

Pronto.

O Espião Preto não quebrou AES.

Não descobriu uma falha no processador.

Não desmontou RACF em hexadecimal.

Ele atacou um componente muito mais antigo:

HUMANO 1.0

Software lançado há aproximadamente 300 mil anos e ainda cheio de comportamento legado.


3. Mas treinamento não resolve tudo

Aqui existe uma ideia perigosa:

"Vamos ensinar os usuários a não clicar."

Devemos ensinar.

Mas alguém clicará.

Imagine uma empresa com 30 mil funcionários.

Mesmo que 99,9% reconheçam determinado ataque, ainda existe uma população potencialmente vulnerável.

Por isso uma arquitetura madura não pode depender exclusivamente de:

NÃO CLIQUE.

Ela precisa perguntar:

E SE CLICAR?

É a mesma mentalidade de programação.

Um programador COBOL iniciante talvez escreva:

DIVIDE WS-A BY WS-B
    GIVING WS-C.

O experiente pergunta:

E se WS-B for zero?

Segurança funciona da mesma maneira.

O iniciante pergunta:

Como impedir phishing?

O arquiteto pergunta:

O que acontecerá se amanhã alguém cair em phishing?

Essa segunda pergunta produz arquitetura defensiva.


4. O RACF entra na história

Agora chegamos ao mainframe.

RACF não é simplesmente "a senha do mainframe".

Ele faz parte da infraestrutura de segurança do z/OS e trabalha fundamentalmente com identidade, autenticação e autorização.

Simplificando brutalmente:

QUEM É VOCÊ?
      |
      v
PODE PROVAR?
      |
      v
O QUE VOCÊ PODE FAZER?

Suponha que o usuário JOAO01 tenha acesso a determinado recurso.

O sistema recebe uma solicitação.

RACF verifica a identidade e as autorizações correspondentes.

Se não houver permissão, podemos encontrar nosso velho conhecido:

ICH408I

E o Espião Branco sorri.

ACCESS DENIED.

Mas existe uma questão muito mais interessante.

E se o Espião Preto estiver usando as credenciais verdadeiras de João?

Para o sistema:

USERID = JOAO01
PASSWORD = CORRETA
MFA = APROVADO

Autenticação bem-sucedida.

Agora entramos no problema moderno:

identidade válida não significa comportamento legítimo.

João pode ter direito a consultar determinado dataset.

Mas João costuma fazer isso às 10h.

Agora aparece às 03:17 tentando consultar 40 mil registros e acessar ambientes que raramente toca.

É aqui que autenticação precisa encontrar:

least privilege, monitoramento, comportamento, auditoria, segregação de funções e controles contextuais.


5. Credential stuffing — Gundam1979 ataca novamente

Nosso Espião Preto descobre num vazamento:

vagner@example.com
Gundam1979!

Testa em outro sistema.

Funciona.

Testa outro.

Funciona.

Outro.

Funciona novamente.

Isso é a essência do credential stuffing: aproveitar combinações de credenciais obtidas anteriormente e testá-las em outros serviços.

Não houve quebra criptográfica da senha.

Houve reutilização.

É um daqueles problemas que parecem pequenos até você perceber o tamanho do ecossistema de identidades atual:

VPN
Microsoft 365
Google Workspace
GitHub
Cloud
SaaS
ServiceNow
portais internos
ferramentas DevOps
ambientes administrativos
IA corporativa

E aqui temos uma curiosidade extremamente 2026.

O X-Force relatou mais de 300 mil conjuntos de credenciais associados a chatbots de IA anunciados na dark web em 2025, em grande parte ligados a infostealers. (IBM)

Isso é importante porque uma conta de IA empresarial pode conter ou alcançar informações interessantes:

prompts, documentos, código, conversas, projetos e eventualmente integrações.

A identidade digital está ficando muito maior que USERID + PASSWORD.


6. Ransomware — o vírus virou empresa

O Espião Preto coloca um disquete na mesa.

O Espião Branco olha.

— Ransomware?

Não exatamente.

Pensar ransomware apenas como:

INFECTAR
   |
CRIPTOGRAFAR
   |
COBRAR

ficou insuficiente.

Hoje podemos encontrar operações compostas por:

ACESSO INICIAL
      |
      v
PERSISTÊNCIA
      |
      v
CREDENCIAIS
      |
      v
MOVIMENTO LATERAL
      |
      v
DESCOBERTA
      |
      v
EXFILTRAÇÃO
      |
      v
CRIPTOGRAFIA
      |
      v
EXTORSÃO

E às vezes a criptografia nem precisa ser o elemento principal.

Se o atacante já roubou informações altamente sensíveis, pode ameaçar publicá-las.

O ransomware tornou-se também um problema de:

continuidade de negócio.

Isso muda tudo.

O diretor de segurança não deveria perguntar apenas:

Nosso EDR detectará ransomware?

Também precisa perguntar:

Se perdermos sistemas críticos hoje, quanto tempo levaremos para operar novamente?


7. Backup que o atacante consegue apagar não é seu amigo

Spy Preto observa o ambiente.

Encontra produção.

Encontra backup.

E percebe que a mesma estrutura privilegiada consegue atingir ambos.

💣

O M-Trends 2026 chama atenção para atacantes visando infraestrutura de backup, identidade e virtualização justamente para dificultar a recuperação da vítima. (Google Cloud)

Esse detalhe é enorme.

Porque segurança deixa de ser:

PROTEGER PRODUÇÃO

e passa a incluir:

PROTEGER PRODUÇÃO
        +
PROTEGER A CAPACIDADE DE RECUPERAR PRODUÇÃO

É quase a versão cyber da velha sabedoria de CPD:

backup não é aquilo que você gravou.

Backup é aquilo que você conseguiu restaurar.


8. Malware — às vezes Spy nem leva bomba

Spy Preto abre sua mala.

Malware?

Talvez não seja necessário.

O ambiente já possui ferramentas administrativas.

PowerShell.

SSH.

RDP.

Scripts.

Ferramentas remotas.

Utilitários legítimos.

Por que introduzir um executável obviamente suspeito quando é possível abusar de ferramentas que o administrador utiliza todos os dias?

É o universo de técnicas frequentemente chamadas de Living off the Land.

A própria ENISA destaca o uso de ferramentas e serviços legítimos para disfarçar atividade maliciosa. (ENISA)

Essa situação é maravilhosa do ponto de vista defensivo porque destrói uma regra infantil:

PROGRAMA RUIM = ATAQUE
PROGRAMA BOM  = SEGURO

Não.

Uma ferramenta legítima executada:

  • pela pessoa errada;

  • no momento errado;

  • contra o ativo errado;

  • com objetivo errado;

pode participar de um ataque.


9. SQL Injection — o fóssil que ainda morde

Nosso jovem COBOL olha para SQL Injection e pergunta:

— Mas isso não é coisa dos anos 1990?

Spy Preto começa a rir.

Erros antigos não desaparecem porque inventamos Kubernetes.

Imagine uma aplicação que constrói SQL de maneira insegura concatenando entrada externa.

O problema conceitual é:

DADO DO USUÁRIO
      +
COMANDO SQL

acabarem misturados de forma que a entrada consiga alterar a intenção da consulta.

A defesa moderna envolve consultas parametrizadas/prepared statements, validação adequada, privilégios mínimos e práticas seguras de desenvolvimento.

Para o COBOLzeiro trabalhando com Db2, a grande lição não é decorar payloads de SQL injection.

É entender a fronteira:

dados devem continuar sendo dados; instruções devem continuar sendo instruções.

Curiosamente, essa mesma frase reaparece na segurança de IA.

Guarde-a.

É nosso primeiro easter egg.


10. Zero-day — o monstro debaixo da cama

Zero-days assustam.

E devem assustar.

Mas existe um fenômeno engraçado.

A empresa compra 17 ferramentas caríssimas para detectar o ataque do futuro enquanto deixa sem patch uma vulnerabilidade conhecida.

O Espião Preto agradece.

A Mandiant encontrou exploração de vulnerabilidades em 32% das intrusões investigadas em 2025, mantendo exploits como vetor inicial mais observado pelo sexto ano consecutivo. (Google Cloud)

E atenção:

EXPLOIT ≠ ZERO-DAY

Um exploit pode atacar vulnerabilidade conhecida.

Portanto, antes de temer exclusivamente o desconhecido:

inventarie ativos, descubra exposição, priorize vulnerabilidades, aplique patches e monitore aquilo que está olhando para a Internet.

O básico continua sendo surpreendentemente revolucionário.


11. DDoS — Spy não quer entrar; quer impedir você de trabalhar

Até agora estávamos tentando impedir Spy Preto de entrar.

DDoS muda a pergunta.

Ele talvez não queira entrar.

Quer que ninguém consiga entrar.

Bem-vindo à famosa tríade:

        CIA

CONFIDENTIALITY
INTEGRITY
AVAILABILITY

Confidencialidade:

quem não deve ver não vê.

Integridade:

aquilo que deveria ser X não foi transformado secretamente em Y.

Disponibilidade:

o serviço está acessível quando necessário.

DDoS ataca principalmente a terceira.

A ENISA registrou DDoS como cerca de 76,7% dos incidentes de seu conjunto analisado, fortemente influenciado por campanhas hacktivistas. Isso não quer dizer que 76,7% de toda invasão empresarial mundial seja DDoS; significa que ele dominou numericamente aquele dataset e metodologia. (ENISA)

Essa distinção é uma excelente aula sobre estatística em cybersecurity:

número sem contexto também pode atacar você.


12. Supply chain — Spy descobriu a entrada de fornecedores

O CPD possui:

MFA
SIEM
SOC
EDR
PAM
RACF
DLP
segmentação
firewalls

Spy Preto observa tudo.

Impenetrável?

Ele olha para a porta lateral.

FORNECEDORES.

Ah.

A empresa confia em:

bibliotecas,

software,

consultorias,

SaaS,

CI/CD,

MSPs,

APIs,

repositórios,

integradores,

componentes open source.

A pergunta passa a ser:

Quem você autorizou a confiar em nome de você?

O X-Force 2026 relata que grandes incidentes envolvendo supply chain ou terceiros cresceram quase quatro vezes desde 2020, com confiança em identidades de desenvolvimento, CI/CD e integrações SaaS fazendo parte dessa superfície. (IBM)

Portanto:

sua superfície de ataque não termina onde termina seu crachá.

Ela se estende pela cadeia de confiança.


13. Insider threat — Spy Branco também pode causar o incidente

E agora a MAD Magazine nos presenteia com uma inversão.

Spy Preto não faz nada.

Spy Branco envia o arquivo errado para o destinatário errado.

💥

Incidente.

Insider threat não significa necessariamente:

funcionário maligno vendendo segredos numa garagem às 23h.

Também pode envolver erro ou negligência:

permissão excessiva
arquivo enviado errado
segredo em repositório
configuração incorreta
dados copiados para serviço inadequado
credencial compartilhada
phishing

A identidade era legítima.

A ação, não.

Novamente chegamos ao mesmo ponto:

autenticação é necessária, mas não suficiente.


14. Data exfiltration — finalmente encontramos o cofre

Spy Preto passou duas semanas caminhando pela empresa.

O objetivo talvez nunca tenha sido "dominar o servidor".

Ele queria:

dados de clientes
propriedade intelectual
credenciais
código-fonte
documentos financeiros
contratos
segredos comerciais

A exfiltração é frequentemente o momento em que o ativo sai do ambiente controlado.

Por isso DLP, monitoramento, classificação de dados, controle de acesso e telemetria importam.

Mas existe outra palavra fundamental:

visibilidade.

Você não pode responder adequadamente ao que não consegue observar.


15. Spy Preto pode estar tomando café conosco há duas semanas

Essa talvez seja uma das informações mais assustadoras da conversa.

O M-Trends 2026 encontrou aumento da mediana global de dwell time de 11 para 14 dias nas investigações analisadas. Casos envolvendo espionagem e trabalhadores norte-coreanos de TI tiveram mediana de 122 dias. (Google Cloud)

Dwell time é, simplificando, quanto tempo o adversário permanece antes de ser detectado.

Pense nisso.

Spy Preto não está:

ATAQUE!!!
ALARME!!!
EXPLOSÃO!!!

Ele pode estar:

observando
enumerando
aprendendo
coletando
esperando
movendo-se

silenciosamente.

Isso transforma logs em patrimônio.

Porque quando finalmente encontramos Spy Preto, precisamos perguntar:

Quando ele entrou?

Por onde?

O que acessou?

Que credenciais utilizou?

Para onde foi?

O que levou?

Sem telemetria suficiente, começamos a investigação praticamente com:

DISPLAY WTF

Infelizmente esse comando ainda não foi implementado no z/OS.


16. O caminho até o mainframe pode começar muito longe do mainframe

Essa parte é essencial para o COBOLzeiro.

Existe a imagem mental:

HACKER
  |
  v
MAINFRAME

O ataque corporativo pode parecer muito mais com:

NOTEBOOK
   |
   v
IDENTIDADE CORPORATIVA
   |
   v
VPN
   |
   v
SERVIDOR INTERMEDIÁRIO
   |
   v
FERRAMENTA ADMINISTRATIVA
   |
   v
CREDENCIAL
   |
   v
z/OS
   |
   +----> CICS
   |
   +----> Db2
   |
   +----> datasets
   |
   +----> aplicações COBOL

Percebe?

O COBOL talvez não tenha vulnerabilidade nenhuma.

O criminoso chegou usando uma estrada de confiança construída ao redor dele.

Essa é uma das razões pelas quais segurança mainframe não pode viver isolada do restante da cybersecurity empresarial.


17. Least privilege — dê a Spy apenas a chave do banheiro

Imagine:

USER01

precisa consultar cinco datasets.

Por comodidade alguém concede acesso a cinquenta.

Funciona.

Durante cinco anos ninguém reclama.

Até a conta ser comprometida.

Agora o atacante herdou cinquenta acessos.

Esse é o blast radius.

Privilégio mínimo significa:

conceder somente aquilo que a função realmente necessita.

Não é burocracia.

É contenção.

Se uma conta for comprometida, queremos:

COMPROMISSO
    |
    v
PEQUENO RAIO

e não:

COMPROMISSO
    |
    +-------------------------------+
    |       EMPRESA INTEIRA         |
    +-------------------------------+

O objetivo moderno não é apenas impedir o primeiro dominó.

É aumentar a distância entre os dominós.


18. Agora entra uma personagem nova: Inteligência Artificial

Spy Preto olha para o agente de IA.

O agente pode:

ler documentos
consultar sistemas
usar APIs
gerar código
enviar mensagens
acionar ferramentas
processar dados

Spy sorri novamente.

Porque agora aparece uma categoria interessante:

identidades não humanas e agentes com autoridade.

Se uma aplicação tradicional recebe entrada maliciosa, esperamos que ela trate aquilo como dados.

Mas um LLM trabalha justamente interpretando linguagem.

Lembra do easter egg da SQL Injection?

Dados devem permanecer dados; instruções devem permanecer instruções.

Voltamos ao mesmo problema sob nova forma.

Em SQL injection, dados podem interferir na consulta quando a aplicação é construída inseguramente.

Em sistemas baseados em LLM, conteúdo não confiável pode tentar influenciar o comportamento do modelo.

E quando esse modelo tem ferramentas...

a discussão deixa de ser apenas:

O chatbot respondeu uma bobagem?

e passa a incluir:

Que ações o agente está autorizado a executar?

Isso coloca IA no território de IAM, least privilege, logging, segregação, governança e segurança de aplicações.


19. O verdadeiro perímetro agora é confiança

Durante décadas desenhamos:

        INTERNET
           |
       FIREWALL
           |
       EMPRESA

Fora = perigoso.

Dentro = confiável.

Esse modelo ficou insuficiente.

Agora temos:

usuários
fornecedores
SaaS
cloud
APIs
home office
CI/CD
dispositivos
agentes de IA
service accounts
mainframe

O perímetro tornou-se difuso.

Por isso conceitos de Zero Trust ganharam tanta importância.

A pergunta deixa de ser:

Está dentro da rede?

E passa a ser continuamente:

QUEM?
O QUÊ?
POR QUÊ?
DE ONDE?
QUANDO?
COM QUAL DISPOSITIVO?
COM QUAL PRIVILÉGIO?
COMPORTAMENTO É COMPATÍVEL?

O RACFzeiro provavelmente olha para isso e pensa:

Vocês finalmente descobriram que autorização importa?

😏


20. Prevenir não basta

Spy Branco instalou tudo.

Firewall.

EDR.

MFA.

PAM.

SIEM.

IDS.

IPS.

DLP.

Antivírus.

Spy Preto consegue passar por uma defesa.

Acabou?

Não.

Uma organização madura trabalha com um ciclo:

             PREPARE
                |
                v
PREVENT ---> DETECT
   ^            |
   |            v
LEARN <---- RESPOND
   ^            |
   |            v
   +-------- RECOVER

Prevent — tente impedir.

Detect — perceba rapidamente.

Respond — contenha.

Recover — restaure a operação.

Learn — descubra por que aconteceu.

Prepare — esteja pronto antes do próximo.

É aqui que cybersecurity encontra cyber resilience.


21. O painel estava verde, mas a empresa estava sendo roubada

Outra lição fundamental para quem vem do mainframe:

CPU = OK
CICS = UP
Db2 = UP
MQ = UP
JES2 = OK

não significa:

SECURITY = OK

Um atacante pode preferir manter tudo funcionando.

Por quê?

Porque derrubar sistema produz alerta.

Roubar silenciosamente produz dados.

O melhor ambiente para espionagem não é um servidor quebrado.

É um servidor perfeitamente saudável fazendo exatamente aquilo que o atacante pediu com uma credencial autorizada.

Isso é quase perversamente elegante.


22. Da segurança de sistemas para segurança da operação

Chegamos à melhor ideia do post original:

cybersecurity está migrando de "protecting systems" para "protecting business operations".

Isso não significa abandonar proteção de sistemas.

Significa perceber o objetivo final.

Uma empresa não existe para manter CPU verde.

Existe para:

vender
pagar
receber
produzir
transportar
atender
processar
entregar

No banco:

transacionar.

Na indústria:

produzir.

No hospital:

atender pacientes.

Na companhia aérea:

operar voos.

Portanto, a pergunta do executivo deveria evoluir de:

Quantos ataques bloqueamos?

para:

Se uma defesa falhar, conseguimos continuar entregando o serviço essencial?


23. As quatro letras que o COBOLzeiro deveria conhecer

MTTD

Mean Time to Detect.

Quanto demoramos para perceber?

MTTR

Dependendo do contexto, Mean Time to Respond/Recover.

Quanto demoramos para responder ou recuperar?

RTO

Recovery Time Objective.

Quanto tempo o negócio tolera ficar sem determinado serviço?

RPO

Recovery Point Objective.

Quanto de dados podemos tolerar perder em termos temporais?

Exemplo simplificado:

RPO = 15 minutos
RTO = 2 horas

Isso significa, conceitualmente:

podemos aceitar perder até aproximadamente 15 minutos de dados conforme a estratégia definida, e queremos restaurar o serviço dentro de duas horas.

Não significa que magicamente conseguiremos.

Por isso testes de recuperação importam.


24. Curiosidade Bellacosa — backup não é Disaster Recovery

Esta merece um café.

Ter:

BACKUP

não significa possuir:

DISASTER RECOVERY

Você precisa saber:

onde está,

se está íntegro,

se pode ser acessado,

quem consegue restaurar,

quanto demora,

quais dependências existem,

se credenciais sobreviveram,

se documentação existe,

se o ambiente alternativo funciona.

E, principalmente:

testar.

A primeira vez que você tenta restaurar o ambiente crítico não deveria ser às 03:42 enquanto um diretor pergunta a cada 90 segundos:

— Já voltou?


25. Um pequeno playbook para o COBOLzeiro

Você não precisa virar analista de malware amanhã.

Mas pode começar a pensar como defensor.

Passo 1 — descubra o que seu programa acessa

Pergunte:

Quais datasets?
Quais tabelas?
Quais filas MQ?
Quais transações CICS?
Quais APIs?
Quais arquivos?

Passo 2 — descubra quem executa

Usuário?

Started task?

Batch?

Service account?

Aplicação?

Passo 3 — questione privilégios

Essa identidade realmente precisa de tudo aquilo?

Passo 4 — descubra dependências externas

Seu COBOL recebe dados de:

API?

arquivo distribuído?

MQ?

cloud?

fornecedor?

Passo 5 — pense no dado

Ele contém informação sensível?

Como está protegido?

Quem consegue copiá-lo?

Passo 6 — observe erros e comportamento

Tentativas repetidas?

Horários incomuns?

Volumes estranhos?

Acessos inesperados?

Passo 7 — pergunte pela recuperação

Se isso desaparecer agora:

como voltamos?

Essa pergunta vale ouro.


26. A árvore correta de um ataque

Eu substituiria mentalmente o infográfico original por isto:

              RECONHECIMENTO
                     |
                     v
               ACESSO INICIAL
        _________/   |   \_________
       /             |             \
 phishing        exploit       supply chain
       \             |             /
        \____________|____________/
                     |
                     v
                 IDENTIDADE
                     |
                     v
                 EXECUÇÃO
                     |
                     v
                PERSISTÊNCIA
                     |
                     v
             PRIVILEGE ESCALATION
                     |
                     v
              MOVIMENTO LATERAL
                     |
             +-------+-------+
             |               |
             v               v
        EXFILTRAÇÃO       DISRUPÇÃO
             |               |
             v               v
          EXTORSÃO        RANSOMWARE

Agora conseguimos entender a operação.

Não é uma coleção de monstros.

É uma sequência.


27. Easter egg — ACME Cybersecurity Corporation

O Espião Branco recebe uma caixa:

ACME
ULTIMATE CYBER SECURITY
ZERO TRUST
AI POWERED
QUANTUM READY
MILITARY GRADE

Ele instala.

Painel verde.

SECURITY SCORE: 100%.

Spy Branco vai tomar café.

Spy Preto entra pela porta porque alguém deixou um crachá sobre a mesa.

BOOM.

Fim do quadro.

Essa seria provavelmente a melhor versão Spy vs. Spy de cybersecurity.

Porque ferramentas importam enormemente.

Mas nenhuma ferramenta corrige automaticamente:

governança ruim
privilégio excessivo
ativos desconhecidos
patch atrasado
processo quebrado
backup não testado
visibilidade insuficiente
confiança excessiva

A própria análise do X-Force 2026 enfatiza exatamente essa persistência de lacunas em controles fundamentais apesar da adoção crescente de IA por atacantes e defensores. (IBM)


28. A grande lição para quem está começando em COBOL

Você talvez tenha entrado no mainframe pensando:

Quero aprender PERFORM, PIC, COMP-3, JCL, VSAM, Db2 e CICS.

Perfeito.

Aprenda.

Mas lembre-se:

o programa não vive sozinho.

Ele vive dentro de uma organização.

E essa organização possui:

PESSOAS
   +
IDENTIDADES
   +
APLICAÇÕES
   +
DADOS
   +
REDES
   +
FORNECEDORES
   +
PROCESSOS
   +
CLOUD
   +
MAINFRAME

Cybersecurity conecta tudo isso.

Você não precisa transformar cada programador COBOL em pentester.

Mas um bom desenvolvedor corporativo precisa começar a perguntar:

Quem deveria executar isso?

Quem deveria acessar este dado?

O que acontece se uma entrada for maliciosa?

Estamos registrando aquilo que importa?

O privilégio é realmente necessário?

Qual sistema confia neste?

O que acontece se essa dependência for comprometida?

Como recuperamos?

Essas perguntas transformam um simples codificador em alguém que entende sistemas empresariais.


Epílogo — Spy Preto finalmente encontra o mainframe

Depois de phishing, credenciais, fornecedores, VPN, servidores, APIs, agentes de IA e muita confusão, nosso Espião Preto finalmente chega diante do IBM Z.

Ele prepara a bomba ACME.

Digita:

USERID ===> SPYBLACK
PASSWORD ===> ********

Enter.

O terminal responde:

ICH408I USER(SPYBLACK) GROUP(ACME)
NAME(UNKNOWN SPY)
INSUFFICIENT ACCESS AUTHORITY

Spy Preto olha furioso para a tela.

Spy Branco aparece atrás dele tomando café.

Sorri.

Mas não comemora muito.

Porque sabe uma coisa que aprendemos durante toda esta conversa:

um ICH408I não significa que a guerra terminou.

Significa apenas que aquele caminho foi bloqueado.

A verdadeira segurança está em construir várias camadas:

identidade
+
MFA
+
least privilege
+
patching
+
segmentação
+
logging
+
monitoramento
+
backup protegido
+
resposta a incidentes
+
recuperação
+
governança
+
pessoas treinadas

E aceitar uma verdade incômoda:

algum controle, algum dia, falhará.

A maturidade começa quando essa constatação deixa de produzir pânico e começa a produzir arquitetura.

Por isso a pergunta definitiva de 2026 não é:

"Como podemos impedir todos os ataques?"

É:

"Quando um atacante conseguir ultrapassar uma das nossas defesas, quantas outras encontrará antes de chegar ao negócio — e quão rapidamente conseguiremos detectá-lo, contê-lo e recuperar a operação?"

Esse é o verdadeiro salto de cybersecurity para cyber resilience.

E talvez seja a melhor lição que Spy vs. Spy poderia ensinar dentro de um CPD:

Spy Preto nunca deixará de tentar.

Spy Branco nunca construirá a defesa perfeita.

Mas entre uma bomba ACME, um ICH408I, um backup restaurável e uma xícara de café existe uma coisa chamada engenharia de resiliência.

E no mainframe, onde aplicações COBOL podem continuar executando décadas depois de seus autores terem ido embora, essa palavra deveria soar bastante familiar.

Porque sobreviver ao próximo incidente não é muito diferente de sobreviver aos últimos cinquenta anos de computação corporativa:

não é ausência de mudança.

É a capacidade de continuar operando apesar dela. ☕🖥️💣

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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