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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

NÃO ENTRE EM PÂNICO: Doctor Who, Doomwatch, COBOL e o Guia do Programador Mainframe para Sobreviver ao Futuro

Bellacosa Mainframe e o nao entre em panico como os britanicos e suas series viam o futuro

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NÃO ENTRE EM PÂNICO: Doctor Who, Doomwatch, COBOL e o Guia do Programador Mainframe para Sobreviver ao Futuro

Ou: como a ficção científica britânica dos anos 1970 descobriu AI Governance, resiliência, pandemias, vigilância e incidentes cinquenta anos antes de inventarmos os nomes bonitos

Por Vagner Bellacosa


Existe uma regra fundamental para sobreviver no universo.

Douglas Adams resumiria isso em letras grandes e amigáveis:

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

No mundo mainframe, entretanto, convém acrescentar algumas observações:

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Não cancele o job sem saber o que ele está fazendo.

Não dê PURGE apenas porque alguém importante está gritando ao telefone.

Não altere produção diretamente porque “é só uma coisinha”.

E, pelo amor de todos os compiladores COBOL existentes na galáxia, descubra primeiro por que o sistema funciona antes de decidir modernizá-lo.

Pegue sua toalha.

Pegue seu café.

Abra o SDSF.

Nossa nave está prestes a sair da órbita.

Destino:

Reino Unido, década de 1970.

Porque, escondidas entre cenários de papelão, monstros de borracha, computadores cheios de luzes piscantes e naves construídas em miniatura, algumas séries britânicas estavam fazendo perguntas que continuam assustadoramente atuais.

A matéria que serviu de ponto de partida para esta viagem considera os anos 1970 uma espécie de “era de ouro” da ficção científica televisiva britânica. A principal razão não era simplesmente a quantidade de alienígenas apresentados na televisão, mas a profundidade dos temas: problemas políticos, sociais, ambientais e tecnológicos começaram a ocupar o centro das histórias.

Eis a primeira coisa que um jovem programador COBOL precisa entender:

ficção científica de verdade raramente fala sobre o futuro.

Ela fala sobre o presente usando o futuro como máscara.


1. O planeta Reino Unido estava com problemas

Antes de encontrarmos Daleks, Cybermen, vírus mortais e governos totalitários, precisamos verificar o log do sistema operacional chamado Reino Unido.

Nos anos 1970, a situação estava longe de ser tranquila.

O país enfrentava problemas econômicos, greves, restrições de investimento e crise energética. Entre 1973 e 1974, a situação chegou ao ponto de haver restrições na operação das emissoras BBC e ITV durante a noite.

Agora imagine um roteirista sentado diante da televisão.

Ele vê:

greves;

desemprego;

problemas energéticos;

desconfiança política;

ameaças da Guerra Fria;

poluição;

crescimento tecnológico;

medo nuclear.

E pergunta:

“E se isso piorar?”

Pronto.

Temos ficção científica.

Uma das grandes virtudes dos britânicos foi transformar problemas concretos em experimentos narrativos.

As diferenças entre classes sociais, o totalitarismo e as preocupações ambientais tornaram-se temas recorrentes dessas produções.

O roteiro deixou de ser apenas:

ALIENÍGENA CHEGA
      ↓
HERÓI DESCOBRE
      ↓
HERÓI LUTA
      ↓
ALIENÍGENA EXPLODE
      ↓
FIM

e começou a ser algo parecido com:

SOCIEDADE CRIA TECNOLOGIA
          ↓
TECNOLOGIA CRIA BENEFÍCIOS
          ↓
ALGUÉM IGNORA OS RISCOS
          ↓
INCENTIVOS POLÍTICOS INTERFEREM
          ↓
SISTEMA SAI DO CONTROLE
          ↓
PESSOAS DESCOBREM QUE DEPENDIAM DELE
          ↓
PROBLEMA

Se você trabalha com tecnologia há alguns anos, isso provavelmente lhe parece menos ficção científica do que deveria.


2. Antes de Doctor Who havia Quatermass

Voltemos um pouco no tempo.

Em 1953 a BBC exibiu The Quatermass Experiment.

A história mostrava astronautas contaminados por uma forma de vida alienígena após uma missão espacial. O material que analisamos identifica a produção como uma das experiências da BBC que misturavam drama, terror, fantasia e ciência antes do nascimento de Doctor Who.

Observe a arquitetura da história.

O perigo não aparece simplesmente porque “alienígenas são maus”.

O problema surge porque:

HOMEM
 ↓
EXPLORA
 ↓
DESCONHECIDO
 ↓
TRAZ ALGO DE VOLTA
 ↓
NÃO ENTENDE O QUE TROUXE

Isso é uma estrutura importantíssima da ficção científica moderna.

E também da segurança da informação.

Se substituirmos “organismo extraterrestre” por:

biblioteca desconhecida
pacote npm
imagem Docker
modelo de IA
arquivo recebido
dependência open source

a história continua funcionando.

O monstro muda.

O problema permanece.


3. 1955: surge concorrência no datacenter televisivo

Durante muitos anos, a BBC dominou praticamente sozinha a televisão britânica.

Então surgiu a ITV.

De repente, existia competição.

A ITV trouxe programação mais popular e produções estrangeiras. A BBC precisou reagir aumentando sua capacidade de oferecer entretenimento sem abandonar sua tradição educacional e cultural.

Aqui encontramos uma lição de arquitetura empresarial.

Um sistema raramente evolui sozinho.

Ele evolui porque o ambiente muda.

Concorrência muda produto.

Regulação muda produto.

Usuários mudam produto.

Tecnologia muda produto.

Custo muda produto.

Até COBOL muda.

O COBOL que você encontra hoje em um IBM Z moderno não é simplesmente uma peça arqueológica que alguém esqueceu ligada desde 1968.

É resultado de décadas de evolução.

Da mesma forma, a BBC precisava preservar aquilo que funcionava e adaptar aquilo que já não respondia ao ambiente.

Guarde essa ideia.

Ela voltará quando falarmos de modernização mainframe.


4. 1963: chega Doctor Who

Então entra Sydney Newman.

A missão era quase impossível:

manter o conteúdo inteligente da BBC e, ao mesmo tempo, torná-lo popular.

A resposta foi uma série chamada:

Doctor Who.

A concepção original tinha forte propósito educacional. História, ciência, tecnologia, espaço e viagens temporais seriam apresentados aos jovens através de aventuras.

Parece simples hoje.

Mas pense na elegância da arquitetura.

Você quer ensinar história?

Leve os personagens para o passado.

Quer falar sobre tecnologia?

Viaje para o futuro.

Quer discutir ética?

Crie uma civilização alienígena.

Quer discutir racismo?

Crie duas espécies que se odeiam.

Quer falar sobre autoritarismo?

Invente um governo galáctico.

Quer discutir guerra?

Crie Daleks.

Doctor Who transformou ficção científica em uma espécie de laboratório moral portátil.

A TARDIS podia levar o espectador para qualquer problema.


5. O sistema quase foi cancelado

A primeira aventura de Doctor Who não provocou o sucesso esperado.

Então apareceram os Daleks.

A audiência aumentou dramaticamente, chegando a aproximadamente nove milhões de espectadores segundo o material analisado.

Ironicamente:

os Daleks salvaram Doctor Who.

Isso também contém uma pequena aula de engenharia de produtos.

Você pode criar uma solução tecnicamente brilhante.

Mas se ninguém quiser utilizá-la, temos um problema.

O criador pensa:

“Mas minha arquitetura está perfeita!”

O usuário responde:

“Tá. Mas onde está o botão que resolve meu problema?”

A BBC descobriu algo parecido.

A ideia educacional era boa.

Mas os Daleks forneceram:

ameaça;

identidade;

conflito;

memória;

símbolo.

Em linguagem de produto:

engajamento.


6. 1970: Doomwatch entra na sala

Agora chegamos a uma das partes mais interessantes desta viagem.

Em 1970 estreia Doomwatch.

A série foi criada por Kit Pedler e Gerry Davis. Pedler era cientista e atuava como consultor das situações apresentadas. Segundo o artigo analisado, a produção teve três temporadas e 38 episódios.

Mas observe a premissa.

Existe um departamento chamado:

Department for the Observation and Measurement of Scientific Work.

Missão:

acompanhar pesquisas científicas e verificar se elas poderiam representar ameaça às pessoas ou ao meio ambiente.

Caro viajante galáctico...

Estamos em 1970.

Agora troque:

Scientific Work

por:

Artificial Intelligence.

Temos imediatamente:

DEPARTMENT FOR THE OBSERVATION
AND MEASUREMENT OF
ARTIFICIAL INTELLIGENCE

Parabéns.

Você acabou de reinventar:

AI Governance.


7. A pergunta de Doomwatch

A pergunta fundamental de Doomwatch é maravilhosa:

se podemos fazer alguma coisa, devemos fazê-la?

Na tecnologia normalmente somos treinados para responder:

“Funciona?”

Mas sistemas críticos exigem outras perguntas:

“Devemos fazer?”

“Quem será afetado?”

“Qual é o risco?”

“Como detectaremos erro?”

“Quem pode interromper?”

“Existe rollback?”

“Quem autorizou?”

“Existe evidência?”

“Existe auditoria?”

“Qual é o blast radius?”

Esse é exatamente o ponto em que engenharia deixa de ser simplesmente programação.


8. O programador COBOL encontra Doomwatch

Imagine que alguém lhe entregue uma mudança:

IF CLIENTE-VIP
    MOVE ZERO TO TAXA
END-IF.

Funciona?

Provavelmente.

Compila?

Talvez.

Resolve a solicitação?

Aparentemente.

Mas o programador experiente pergunta:

Quem definiu CLIENTE-VIP?

Essa taxa pode legalmente ser zerada?

Quem autorizou?

Existe trilha de auditoria?

Isso afeta cálculo tributário?

Existem outros programas utilizando esse campo?

É aqui que surge uma regra fantástica:

código correto pode produzir um sistema errado.

Doomwatch já estava discutindo, metaforicamente, exatamente esse problema.


9. 1975: Survivors e o planeta sem produção

Então Terry Nation criou algo muito mais sombrio.

Survivors.

Uma praga provocada por vírus cultivado em laboratório destrói aproximadamente 99% da população mundial. Os sobreviventes precisam reconstruir comunidades praticamente sem infraestrutura moderna.

A produção existiu entre 1975 e 1977 e acumulou 38 episódios.

Hoje, depois de uma pandemia global real, assistir a essa premissa produz outra sensação.

Mas existe uma camada ainda mais interessante.

Survivors não é apenas sobre vírus.

É sobre:

dependência sistêmica.


10. Civilization.exe parou de responder

Imagine que amanhã desapareçam:

energia;

telecomunicações;

sistema bancário;

logística;

produção industrial;

governo;

hospitais;

internet;

combustíveis;

cadeias de suprimento.

Em poucas horas descobriremos algo curioso.

Nossa civilização é uma gigantesca aplicação distribuída.

Ela possui milhares de serviços.

Alguns críticos.

Alguns aparentemente insignificantes.

E todos possuem dependências.

Por exemplo:

SUPERMERCADO
     ↓
LOGÍSTICA
     ↓
COMBUSTÍVEL
     ↓
PAGAMENTO
     ↓
BANCO
     ↓
DATACENTER
     ↓
ENERGIA
     ↓
TELECOM

Agora faça o caminho inverso.

Telecom depende de energia.

Energia depende de sistemas informatizados.

Sistemas informatizados dependem de redes.

Redes dependem de telecom.

Bem-vindo ao maravilhoso universo das:

dependências circulares.


11. O batch das 04:37

Um jovem desenvolvedor pode olhar para determinado processamento mainframe e pensar:

“É apenas um job.”

Não.

Pode ser:

liquidação;

folha de pagamento;

posição contábil;

cartões;

compensação;

arrecadação;

seguros;

reservas;

crédito;

tributação.

O job pode terminar às 04:37.

Ninguém vê.

Ninguém aplaude.

Nenhuma animação aparece.

Não existem luzes azuis cinematográficas.

Mas talvez milhões de pessoas acordem de manhã esperando que o resultado daquele processamento exista.

Essa é uma das grandes lições de Survivors.

Infraestrutura só parece invisível enquanto funciona.


12. Resiliência antes de chamarmos de resiliência

Hoje utilizamos termos sofisticados:

Business Continuity.

Disaster Recovery.

Cyber Resilience.

High Availability.

Fault Tolerance.

Redundancy.

RTO.

RPO.

Survivors coloca tudo isso em uma única pergunta:

“O que acontece quando quase tudo deixa de funcionar?”

O exercício parece extremo.

Mas arquitetos fazem versões menores dessa pergunta todos os dias.

Se o Db2 cair?

Se o CICS parar?

Se perdermos um LPAR?

Se perdermos o datacenter?

Se a rede cair?

Se o fornecedor desaparecer?

Se o backup estiver corrompido?

Se o operador errar?

Se o ransomware atingir infraestrutura crítica?

Ficção científica e engenharia compartilham uma ferramenta intelectual maravilhosa:

cenários hipotéticos.


13. 1978: Blake's 7

Chegamos então a Blake's 7.

Também criada por Terry Nation.

A série apresenta um futuro onde uma organização chamada Terran Federation governa diversos mundos através de mecanismos políticos, religiosos, tecnológicos e até genéticos.

Agora mudamos de ameaça.

Em Survivors:

o sistema desapareceu.

Em Blake's 7:

o sistema ficou poderoso demais.

Excelente contraponto.

Um extremo:

SEM CONTROLE

Outro:

CONTROLE TOTAL

A humanidade vive entre os dois.


14. A tecnologia também pode controlar

Na Federação, tecnologia não é apenas ferramenta.

Ela é instrumento de poder.

Essa discussão cresceu enormemente no século XXI.

Quem possui os dados?

Quem controla algoritmos?

Quem define recomendações?

Quem observa usuários?

Quem decide quais informações aparecem?

Quem pode desligar uma conta?

Quem controla sistemas de identidade?

Quem controla a infraestrutura?

Não precisamos imaginar uma Federação Galáctica.

Podemos estudar simplesmente a concentração de infraestrutura digital.


15. Blake não é Luke Skywalker

Outro aspecto interessante é que Blake's 7 não transforma automaticamente a resistência em grupo moralmente perfeito.

Os próprios personagens questionam Blake.

Nem todos compartilham sua ideologia.

A série chega a apresentar acusações de fanatismo contra ele.

Isso é muito importante.

Porque sistemas complexos raramente apresentam:

MOCINHO = CERTO
VILÃO   = ERRADO

Normalmente encontramos:

pressões;

interesses;

incentivos;

erros;

interpretações;

riscos;

informação incompleta.

Quem trabalha em incidentes conhece isso.

Depois que tudo termina, é fácil dizer:

“Era óbvio.”

Antes do incidente?

Nem sempre.


16. Zen, o computador

A nave Liberator possui um computador chamado Zen.

Por décadas a ficção científica imaginou computadores que:

conversam;

aconselham;

controlam;

decidem;

questionam;

enganam;

ajudam.

Durante muito tempo isso parecia apenas recurso narrativo.

Agora chegamos à era dos modelos generativos e agentes.

A fronteira começou a mudar.

Antes:

HOMEM
 ↓
COMANDO
 ↓
COMPUTADOR
 ↓
RESULTADO

Hoje podemos ter:

HOMEM
 ↓
OBJETIVO
 ↓
AGENTE
 ↓
PLANO
 ↓
FERRAMENTA
 ↓
AÇÃO
 ↓
AVALIAÇÃO
 ↓
NOVA AÇÃO

A diferença é gigantesca.

Quanto maior a autonomia, maior a importância de controle, observabilidade e validação.

Doomwatch volta à sala.


17. UFO: a burocracia encontra os alienígenas

Outra produção importante foi UFO, de Gerry e Sylvia Anderson, também mencionada entre as séries relevantes daquele período.

Existe algo particularmente divertido em UFO.

A defesa da Terra não depende simplesmente de um herói com uma arma.

Existe uma organização.

Existem procedimentos.

Bases.

Monitoramento.

Satélites.

Computadores.

Comando.

Comunicação.

Ou seja:

até para combater alienígenas os britânicos imaginaram uma estrutura operacional.

Quase conseguimos ouvir alguém dizendo:

“Antes de interceptar a nave alienígena, abra o ticket.”

Isso talvez seja a coisa mais britânica possível.


18. Espaço: 1999 e o problema chamado consequência

Espaço: 1999 apresenta uma ideia completamente absurda do ponto de vista da física:

uma explosão gigantesca lança a Lua para fora da órbita terrestre.

Tudo bem.

Não entre em pânico.

Ficção não precisa necessariamente funcionar como artigo científico.

O interessante é a causa.

Resíduos nucleares.

Outra vez encontramos:

tecnologia + irresponsabilidade + consequência.

Os anos 1970 estavam profundamente preocupados com energia, poluição e tecnologia nuclear.

A Lua simplesmente serviu como cenário.


19. O detalhe mais importante das Eagles

As naves Eagle tornaram-se talvez um dos designs mais memoráveis da série.

Mas existe uma curiosidade de engenharia escondida nelas.

Elas parecem máquinas.

Não parecem “magia espacial”.

É possível observar:

módulos;

estrutura;

propulsores;

cockpit;

componentes.

Isso produz plausibilidade visual.

A mesma regra vale para software.

Quando mostramos arquitetura como caixas mágicas:

APP → CLOUD → IA → RESULTADO

não explicamos nada.

Um bom arquiteto precisa desmontar a Eagle.

APLICAÇÃO
    ↓
API
    ↓
AUTENTICAÇÃO
    ↓
SERVIÇO
    ↓
BANCO
    ↓
MENSAGERIA
    ↓
MAINFRAME

Agora podemos discutir risco.


20. O impacto no Brasil

A influência dessas produções no Brasil aconteceu de maneira diferente da experiência britânica.

Nem todas as séries tiveram aqui a mesma visibilidade.

Isso significa que memória cultural não depende apenas da qualidade de uma obra.

Depende também de:

distribuição;

emissora;

horário;

dublagem;

reprises;

licenciamento;

alcance.

No Reino Unido, Doctor Who tornou-se parte profunda da cultura popular.

No Brasil, para muitas gerações, outras produções britânicas como UFO, produções de Gerry Anderson e Espaço: 1999 foram referências muito mais imediatamente reconhecíveis.

Essa diferença ensina algo curioso.

Tecnologia também possui distribuição cultural.

Uma invenção pode existir.

Mas se não chega às pessoas, seu impacto é limitado.

Software é igual.


21. O código que ninguém conhece não existe

Imagine criar uma biblioteca fantástica.

Documentação inexistente.

Ninguém sabe utilizá-la.

Ela praticamente não existe.

Agora imagine um programa COBOL de 1989.

Executa todos os dias.

Possui milhares de regras.

Resolve dezenas de exceções.

Pouquíssimas pessoas entendem completamente aquilo.

O código existe.

O conhecimento talvez esteja desaparecendo.

É o problema inverso.

Em um caso:

produto sem distribuição.

No outro:

sistema sem conhecimento distribuído.

Ambos são risco.


22. O que a ficção britânica fez de diferente

Existe uma generalização interessante.

Muita ficção científica americana tradicional perguntou:

“O que encontraremos no futuro?”

A tradição britânica frequentemente perguntou:

“O que o futuro fará conosco?”

Não é uma regra absoluta.

Mas ajuda a compreender essas produções.

Doctor Who pergunta:

como usamos conhecimento?

Doomwatch pergunta:

quem controla ciência?

Survivors pergunta:

o que acontece quando infraestrutura desaparece?

Blake's 7 pergunta:

o que acontece quando controle tecnológico se torna excessivo?

Space: 1999 pergunta:

quais consequências deixamos para o futuro?

Essas perguntas continuam abertas.


23. De 1970 para 2026

Podemos montar uma pequena tradução temporal.

DOOMWATCH
1970: risco científico
2026: AI Governance
SURVIVORS
1975: pandemia e colapso
2026: resiliência sistêmica
BLAKE'S 7
1978: Estado tecnológico
2026: vigilância algorítmica
UFO
1970: infraestrutura de defesa
2026: sistemas distribuídos
SPACE: 1999
1975: lixo nuclear
2026: sustentabilidade tecnológica
DOCTOR WHO
1963+
ciência + ética + história
2026:
inovação responsável

Isso não significa que os roteiristas “previram” exatamente nosso mundo.

Significa algo mais interessante.

Eles identificaram padrões.


24. E padrões sobrevivem

Tecnologias mudam.

Padrões humanos nem tanto.

Temos:

pressa;

ambição;

medo;

competição;

custo;

ego;

autoridade;

conformismo;

pressão por prazo;

excesso de confiança.

Agora misture isso com tecnologia.

Resultado:

incidentes.

É exatamente aqui que nossas discussões sobre Plan Continuation Bias entram na TARDIS.

Um plano começa fazendo sentido.

O ambiente muda.

Surgem sinais de problema.

Mas pessoas continuam seguindo o plano porque já investiram nele.

“Já estamos quase terminando.”

“Não vamos voltar agora.”

“Diretoria já anunciou.”

“O cutover é hoje.”

“Todo mundo está mobilizado.”

Enquanto isso:

alerta.

alerta.

alerta.

alerta.

E ninguém reage.

Bem-vindo à Alarm Fatigue.


25. O episódio perdido de Doomwatch

Imagine.

Doomwatch — episódio 39.

Título:

The Legacy System.

Um grande banco decide substituir um sistema COBOL criado décadas antes.

Uma consultoria garante:

“Dezoito meses.”

Um jovem executivo pergunta:

“Quantas linhas?”

Alguém responde:

“Oito milhões.”

Executivo:

“Então é fácil. Colocamos cinquenta programadores.”

No fundo da sala existe um senhor com cinquenta anos de mainframe.

Ele levanta a mão.

Silêncio.

Pergunta:

“Vocês sabem o que ele faz?”

Executivo:

“Claro. Processa contas.”

O veterano:

“Não. Isso é o que vocês acham que ele faz.”

Música dramática.

Corta para propaganda.


26. A arqueologia do legado

Aqui está outra lição fundamental para quem começa em COBOL.

Sistema legado não significa necessariamente:

sistema ruim.

Significa principalmente:

sistema herdado.

Ele acumulou decisões.

Regras.

Correções.

Mudanças legais.

Tratamentos especiais.

Exceções.

Integrações.

Um programa pode conter algo assim:

IF DATA-MOVIMENTO < WS-DATA-1997
   PERFORM CALCULO-ANTIGO
ELSE
   PERFORM CALCULO-NOVO
END-IF.

O jovem pergunta:

“Por que 1997?”

Resposta:

“Ninguém sabe.”

Cuidado.

Isso não significa automaticamente que podemos apagar.

Talvez exista legislação.

Conversão histórica.

Contrato antigo.

Migração.

Compatibilidade.

A primeira ferramenta do mantenedor não é DELETE.

É:

curiosidade.


27. Guia galáctico para mexer em COBOL antigo

Antes de modificar código crítico:

Passo 1 — Descubra quem chama

JCL?

CICS?

IMS?

Outro programa?

Scheduler?

MQ?

API?

Passo 2 — Descubra o que entra

Arquivo?

VSAM?

Db2?

COMMAREA?

Fila?

Passo 3 — Descubra o que sai

Outro arquivo?

Tabela?

Relatório?

Transação?

Passo 4 — Procure dependências

COPYBOOKS.

CALLs.

PROCs.

SORTs.

Utilitários.

Passo 5 — Entenda a regra de negócio

Não pergunte apenas:

“O que esse IF faz?”

Pergunte:

“Por que o negócio precisa desse IF?”

Passo 6 — Teste o cenário feliz

Depois teste justamente o contrário.

Passo 7 — Crie rollback

Porque:

MOVE PROD TO TEST

é ficção científica.

MOVE TEST TO PROD

sem controle é terror.


28. O verdadeiro vilão quase nunca é o computador

Essa talvez seja a grande síntese.

Nas boas histórias de ficção científica, a máquina raramente é o problema inteiro.

Normalmente existe:

TECNOLOGIA
     +
DECISÃO HUMANA
     +
CONTEXTO
     +
INCENTIVO
     +
FALHA DE CONTROLE

= desastre.

Isso vale para:

IA;

mainframe;

aviação;

energia;

medicina;

bancos;

redes sociais;

automação.


29. Curiosidade: Daleks e Cybermen são diferentes

Para um iniciante em Doctor Who, existe uma diferença filosófica divertida.

Daleks representam uma espécie de pureza ideológica extrema.

Cybermen representam transformação tecnológica que elimina progressivamente características humanas.

Ou seja:

um teme o “outro”.

O outro elimina o “humano”.

Em tecnologia moderna isso permite uma metáfora interessante.

Um sistema pode falhar porque rejeita diversidade.

Ou pode falhar porque automatiza tudo sem preservar julgamento humano.

Qualquer semelhança com debates contemporâneos sobre IA é bastante conveniente.


30. Easter egg COBOL galáctico

Se Arthur Dent fosse programador COBOL, provavelmente seu código começaria assim:

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. DONT-PANIC.

       PROCEDURE DIVISION.

       0000-MAIN.

           PERFORM UNTIL UNIVERSE-END
               DISPLAY "DON'T PANIC"
               PERFORM CHECK-BATCH
               PERFORM DRINK-COFFEE
           END-PERFORM.

           STOP RUN.

O problema está em:

UNIVERSE-END

porque ninguém documentou o formato da variável.

Há rumores de que seja PIC 9(8).

Outros afirmam que é PIC X(42).

Naturalmente, 42.


31. Segunda curiosidade: a resposta não serve sem a pergunta

Em O Guia do Mochileiro das Galáxias, 42 é apresentado como resposta à Grande Questão da Vida, do Universo e de Tudo.

Mas existe um detalhe genial:

ninguém sabe exatamente qual era a pergunta.

Isso é uma metáfora perfeita para tecnologia.

Quantas vezes alguém aparece com uma solução?

“Cloud!”

“Blockchain!”

“Microserviços!”

“IA!”

“Kubernetes!”

“Agentes!”

Você pergunta:

“Qual problema estamos resolvendo?”

Silêncio.

Temos a resposta.

Esquecemos a pergunta.

Arquitetura boa começa pelo problema.


32. O mainframe é a TARDIS da computação empresarial

Exteriormente, alguém olha e diz:

“Isso ainda existe?”

Por dentro encontramos:

processamento massivo;

virtualização;

criptografia;

bancos de dados;

mensageria;

Linux;

APIs;

Java;

Python;

COBOL;

containers;

automação;

IA;

DevOps.

Talvez não seja literalmente maior por dentro.

Mas é suficientemente grande para assustar qualquer desenvolvedor que achava que “mainframe = COBOL + tela verde”.


33. O que realmente aprendemos

Depois de atravessar Quatermass, Doctor Who, Doomwatch, Survivors, Blake's 7, UFO e Espaço: 1999, podemos finalmente voltar para nosso café.

Essas séries ensinaram algo essencial.

Tecnologia não existe isolada.

Ela existe dentro de:

sociedade;

economia;

política;

organizações;

pessoas;

valores.

Portanto, nenhuma discussão tecnológica séria deveria terminar em:

“Funcionou.”

Precisamos perguntar também:

Funcionou para quem?

Com qual risco?

Sob qual controle?

Quem observa?

Quem audita?

Quem interrompe?

Quem responde?

Quem entende?


34. A pergunta que o jovem programador deve aprender

Quando receber sua primeira alteração em um sistema COBOL crítico, talvez você queira mostrar serviço.

Excelente.

Mas existe uma pergunta extremamente poderosa:

“O que pode dar errado?”

Depois:

“Como saberemos que deu errado?”

Depois:

“O que faremos se der errado?”

Essas três perguntas transformam um programador em engenheiro.


35. Não entre em pânico

Um ABEND acontece.

Não entre em pânico.

Veja o código.

Uma transação CICS falha.

Não entre em pânico.

Veja o contexto.

Um job fica preso.

Não entre em pânico.

Veja dependências.

Um usuário liga gritando.

Principalmente:

não entre em pânico.

O pânico reduz investigação.

E incidentes exigem investigação.


36. Observe antes de agir

Talvez Doomwatch pudesse ter como lema:

observar antes de intervir.

Isso é fantástico para produção.

Primeiro:

colete evidência.

Depois:

forme hipótese.

Depois:

valide.

Depois:

aja.

Em pseudo-COBOL:

PERFORM OBSERVE
PERFORM UNDERSTAND
PERFORM VALIDATE
PERFORM AUTHORIZE
PERFORM CHANGE
PERFORM VERIFY

Jamais:

PERFORM CHANGE
PERFORM PRAY

Embora esse segundo modelo tenha sido utilizado com surpreendente frequência na história da informática.


37. A grande lição da ficção científica britânica

Não foram as naves.

Não foram os monstros.

Não foram os figurinos.

Não foram os computadores piscantes.

A grande contribuição foi perceber que o problema fundamental do futuro seria:

como viver com as consequências das tecnologias que criamos.

Essa discussão aparece repetidamente nas obras analisadas: a matéria destaca explicitamente que essas produções dos anos 1970 utilizaram ficção científica para discutir questões sociais, políticas, ambientais e de poder.

Isso continua conosco.

IA.

Biotecnologia.

Computação quântica.

Cybersecurity.

Automação.

Redes sociais.

Mainframes.

Cloud.

Agentes autônomos.

A tecnologia continua avançando.

A pergunta continua praticamente a mesma.


38. Epílogo: o último operador do universo

Imagine o fim do universo.

As estrelas apagaram.

Os planetas desapareceram.

Os Daleks foram embora.

A Federação caiu.

A Lua finalmente encontrou uma órbita decente.

Arthur Dent terminou seu chá.

Restou apenas um datacenter IBM Z perdido no vazio cósmico.

Uma luz verde pisca.

No console aparece:

IEF404I JOB DAILY42 ENDED

Um velho operador olha para o relógio.

04:37.

Sorri.

O batch terminou.

O universo pode acabar tranquilo.

Porque em algum lugar nos últimos registros da civilização existe uma linha dizendo:

MAXCC=0000

E talvez essa seja a maior definição possível de sucesso operacional.

Não evitar todo problema.

Não possuir tecnologia perfeita.

Não prever exatamente o futuro.

Mas construir sistemas suficientemente compreendidos, observáveis, resilientes e responsáveis para continuar funcionando quando o inesperado finalmente aparecer.

Os britânicos descobriram isso enquanto colocavam monstros de borracha diante das câmeras.

Nós descobrimos novamente em cada war room.

Então, jovem programador COBOL, quando alguém aparecer diante de sua mesa dizendo:

“É só uma alteraçãozinha...”

segure sua toalha.

Beba seu café.

Abra o código.

Pergunte quem autorizou.

Descubra as dependências.

Prepare o rollback.

E lembre-se das palavras mais importantes já impressas em qualquer guia realmente útil para sobreviver à tecnologia:

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Principalmente em produção.

sábado, 1 de maio de 2021

Douglas Adams: o Homem que Descobriu que o Universo Rodava em Produção sem Documentação

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Douglas Adams: o Homem que Descobriu que o Universo Rodava em Produção sem Documentação

🌌 Vida, obra, computadores, toalhas, rinocerontes, prazos impossíveis e a curiosa história do escritor que parecia ter escapado de um dos próprios livros

DON'T PANIC.

Há escritores que criam personagens.

Há escritores que criam universos.

E há Douglas Adams, que conseguiu realizar uma façanha consideravelmente mais improvável:

criou um universo tão parecido consigo mesmo que, depois de algum tempo, ficou difícil descobrir onde terminava Douglas Adams e começava O Guia do Mochileiro das Galáxias.

Ele era enorme.

Literalmente.

Tinha quase dois metros de altura.

Gostava de computadores, guitarras, ciência, tecnologia, carros, animais, viagens, ideias absurdas e prazos — embora sua relação com estes últimos fosse comparável à relação de um programa COBOL de 1973 com uma especificação OpenAPI.

Sabia que existiam.

Reconhecia sua importância.

Mas preferia encontrá-los passando rapidamente ao longe.

Douglas Noël Adams nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 11 de março de 1952, estudou em Brentwood e depois literatura inglesa no St John's College, Cambridge. Antes de se tornar mundialmente famoso, passou por uma coleção de empregos e experiências que parecem ter sido escolhidos por um gerador aleatório de profissões: escritor, produtor de rádio, roteirista, performer e, em certos períodos, trabalhos completamente distantes da carreira literária. (Douglas Adams)

Mais tarde escreveria para Monty Python, trabalharia em Doctor Who, criaria Dirk Gently, se apaixonaria por computadores, ajudaria causas ambientais, desenvolveria jogos e acabaria criando uma das obras mais deliciosamente absurdas da cultura pop.

Tudo isso antes de morrer, inesperadamente, em 2001, aos 49 anos.

Mas começar pelo fim seria terrivelmente organizado.

E Douglas Adams provavelmente desconfiaria disso.

Portanto:

pegue sua toalha.

Vamos começar pelo lugar mais apropriado.

No meio do caos.



🌍 CAPÍTULO 1

Um inglês de quase dois metros tentando descobrir o que fazer da vida

Douglas Adams não surgiu magicamente carregando um exemplar do Guia do Mochileiro das Galáxias.

Antes do sucesso houve algo que todo programador conhece muito bem:

tentativa
erro
tentativa
erro
boletos e conta para pagar
tentativa
erro
ideia estranha
tentativa

Em Cambridge, Adams se envolveu com o ambiente de comédia estudantil e com o Footlights, tradicional celeiro britânico de humoristas.

Seu interesse era escrever comédia.

Não exatamente ficção científica.

Essa distinção é importante.

Adams chegou a explicar que se considerava fundamentalmente um escritor de comédia, usando os mecanismos da ficção científica para satirizar praticamente todo o resto. (Enciclopédia)

Isso explica muita coisa.

As naves espaciais são cenário.

Os alienígenas são ferramentas.

Os computadores gigantes são piadas.

O verdadeiro assunto é:

nós.

A burocracia.

A arrogância.

A tecnologia.

O governo.

A religião.

A economia.

Os restaurantes.

As filas.

Os formulários.

Os especialistas.

E principalmente nossa incrível capacidade de construir sistemas complicadíssimos para resolver problemas que talvez não precisassem existir.

Um programador mainframe reconhece imediatamente esse universo.



🐍 CAPÍTULO 2

Antes das galáxias havia Monty Python

Existe uma conexão maravilhosa entre Adams e Monty Python.

Ele trabalhou com Graham Chapman e conseguiu créditos no programa.

Douglas está inclusive entre o pequeno grupo de pessoas externas ao núcleo principal do Python que recebeu crédito de roteiro na série original. Também apareceu rapidamente diante das câmeras em episódios da quarta temporada.

E aqui encontramos parte do código-fonte de seu humor.

Imagine:

Monty Python
     +
ficção científica
     +
rádio BBC
     +
filosofia
     +
burocracia britânica
     +
computadores
     +
chá
     +
um sujeito olhando para o universo e perguntando:

"Mas quem aprovou essa arquitetura?"

Resultado:

Douglas Adams.

Seu nonsense não era simplesmente aleatório.

Essa é uma das grandes lições para quem tenta imitá-lo.

Por trás do absurdo existe lógica.

Uma lógica impecável.

O problema é que a premissa inicial é completamente insana.



📺 CAPÍTULO 3

Doctor Who entra no CPD

Antes e durante a explosão de Hitchhiker's, Adams também trabalhou em outra instituição britânica:

Doctor Who.

Foi roteirista e chegou a atuar como script editor da série.

Entre suas contribuições estão histórias relacionadas a:

  • The Pirate Planet;

  • City of Death;

  • Shada;

  • e trabalhos na temporada 17.

Isso é importantíssimo para entender Adams.

Porque Doctor Who permitia exatamente aquilo de que ele gostava:

pegar uma ideia filosófica absurda...

...transformá-la em problema tecnológico...

...colocar personagens britânicos no meio...

...e observar a civilização entrar em pane.

Em outras palavras:

produção.


🚀 CAPÍTULO 4

O Guia nasceu no rádio

Aqui existe uma curiosidade maravilhosa para uma geração acostumada a pensar primeiro em livros.

O Guia do Mochileiro das Galáxias não nasceu como livro.

Nasceu como programa de rádio da BBC Radio 4.

A primeira transmissão aconteceu em março de 1978. (Douglas Adams)

Depois veio praticamente tudo:

RÁDIO
 ↓
LIVROS
 ↓
TV
 ↓
DISCOS
 ↓
TEATRO
 ↓
JOGO DE COMPUTADOR
 ↓
FILME
 ↓
mais adaptações
 ↓
fãs discutindo cronologia
 ↓
42

O próprio site dedicado à obra de Adams registra essa extraordinária multiplicação de formatos. (Douglas Adams)

Portanto, chamar Hitchhiker's simplesmente de "uma série de livros" é quase como chamar z/OS de editor de texto.

Tecnicamente há texto envolvido.

Mas estamos omitindo alguns detalhes.


🌍 CAPÍTULO 5

Arthur Dent: o homem que só queria sua casa

E aqui encontramos nosso primeiro suspeito de ser Douglas Adams disfarçado.

Arthur Dent.

Arthur não é Luke Skywalker.

Não quer salvar a galáxia.

Não possui poderes.

Não tem treinamento Jedi.

Não descobriu ser herdeiro de nenhuma dinastia.

Arthur gostaria basicamente de:

ter sua casa
tomar chá
entender o que está acontecendo

Infelizmente, o universo possui outros planos.

Sua casa será demolida para construir uma estrada.

Pouco depois...

a Terra será demolida para construir uma via expressa hiperespacial.

E essa simetria contém Douglas Adams inteiro.

O indivíduo é esmagado pela burocracia local.

A humanidade inteira é esmagada pela burocracia cósmica.

A escala muda.

A estupidez administrativa permanece perfeitamente compatível.


📋 CAPÍTULO 6

Vogons: o verdadeiro terror do universo

Esqueça monstros.

Esqueça Daleks.

Esqueça invasões alienígenas.

Adams compreendeu algo muito mais assustador.

O formulário.

Os Vogons representam uma das maiores contribuições da literatura para a compreensão da burocracia.

Eles não precisam odiar você.

Isso seria pessoal demais.

Eles possuem:

procedimentos.

regulamentos.

autorizações.

protocolos.

E provavelmente algum equivalente galáctico do:

TICKET STATUS: CLOSED
REASON:
WORKING AS DESIGNED

A Terra será destruída?

Lamentável.

Os planos estavam disponíveis.

Você não consultou?

Problema seu.

Qualquer pessoa que já tenha enfrentado uma mudança corporativa aprovada por quinze departamentos reconhecerá imediatamente a espécie.


📚 CAPÍTULO 7

A trilogia de cinco livros

Douglas Adams também conseguiu melhorar a matemática.

Sua famosa "trilogia" acabou composta por cinco romances escritos por ele:

1. The Hitchhiker's Guide to the Galaxy

1979

2. The Restaurant at the End of the Universe

1980

3. Life, the Universe and Everything

1982

4. So Long, and Thanks for All the Fish

1984

5. Mostly Harmless

1992

O site oficial registra a sequência e suas datas, incluindo o sucesso comercial extraordinário da série. (Douglas Adams)

Uma trilogia com cinco livros.

Porque quando você criou uma piada cósmica sobre a incapacidade humana de organizar a realidade, seria decepcionante começar obedecendo à aritmética.


🧠 CAPÍTULO 8

Deep Thought

Então chegamos ao computador.

Naturalmente.

Uma civilização deseja descobrir a resposta para:

A Vida, o Universo e Tudo Mais.

Portanto constrói um supercomputador chamado:

Deep Thought

Ele calcula.

Durante aproximadamente:

7,5 milhões de anos.

Finalmente encontra a resposta.

E a resposta é:

42

(The Guardian)

Maravilhoso.

Mas existe um pequeno problema.

Ninguém sabe exatamente qual era a pergunta.

E essa talvez seja uma das melhores piadas já escritas sobre computação.

Porque qualquer veterano de TI reconhece imediatamente:

RESULTADO CORRETO
+
REQUISITO ERRADO
=
PROJETO CORPORATIVO

💾 CAPÍTULO 9

Deep Thought era um mainframe?

Douglas nunca precisou chamá-lo assim.

Mas permita que Bellacosa abra uma Change Request absolutamente não autorizada.

Deep Thought possui:

  • processamento centralizado;

  • workload gigantesco;

  • disponibilidade medida em eras geológicas;

  • usuários que não entendem os requisitos;

  • documentação aparentemente insuficiente;

  • projeto com duração de milhões de anos;

  • resposta tecnicamente correta;

  • cliente insatisfeito.

Senhoras e senhores:

isso é enterprise computing.

Só faltou:

IEF142I DEEPTHOT STEP42 - STEP WAS EXECUTED - COND CODE 0000

E algum gerente perguntar:

— Então podemos desligar?

Não.

Porque agora precisamos calcular a pergunta.


🌎 CAPÍTULO 10

A Terra era o segundo computador

E aqui Adams melhora ainda mais a piada.

Para descobrir a pergunta correspondente à resposta 42, é construído um computador ainda mais sofisticado.

Chamado:

Terra.

Sim.

Nós.

O planeta inteiro.

Um sistema computacional gigantesco.

Executando durante milhões de anos.

Até que...

pouco antes de terminar o processamento...

os Vogons destroem a máquina.

Se isso não parece um projeto de TI cancelado três semanas antes do go-live depois de oito anos de desenvolvimento, você ainda não trabalhou tempo suficiente em uma grande organização.


🐟 CAPÍTULO 11

Babel Fish

Outra criação genial:

Babel Fish.

Um pequeno peixe capaz de permitir comunicação entre idiomas.

Décadas depois, "Babel Fish" tornou-se referência cultural para sistemas de tradução automática; serviços tecnológicos chegaram a adotar diretamente o nome inspirado na criação de Adams. (Estante Virtual)

Hoje olhamos para tradução automática e IA generativa e pensamos:

Douglas provavelmente passaria quinze minutos fascinado.

Depois perguntaria:

— Muito interessante. Agora quantos bilhões gastamos construindo máquinas para podermos finalmente discutir com estrangeiros em tempo real?

E sairia procurando café.


🕵️ CAPÍTULO 12

Dirk Gently

Mas reduzir Adams ao Guia seria injusto.

Ele também criou outro personagem extraordinário:

Dirk Gently.

As principais obras são:

  • Dirk Gently's Holistic Detective Agency — 1987;

  • The Long Dark Tea-Time of the Soul — 1988.

(Simon & Schuster)

Dirk acredita na:

interconectividade fundamental de todas as coisas.

O método investigativo dele poderia ser resumido assim:

tudo está conectado
 ↓
portanto qualquer pista pode importar
 ↓
inclusive aquela completamente absurda
 ↓
especialmente aquela completamente absurda

Qualquer analista investigando um incidente em produção às três da manhã entende perfeitamente.

O Db2 está lento.

Por quê?

Porque houve alteração no storage.

Por quê?

Porque um processo batch mudou.

Por quê?

Porque alguém alterou um parâmetro.

Por quê?

Porque houve migração seis meses atrás.

Por quê?

Porque...

Dirk sorri.

Interconectividade fundamental de todas as coisas.


🌳 CAPÍTULO 13

Last Chance to See

Existe ainda outro Douglas Adams.

Menos conhecido.

E talvez ainda mais interessante.

O ambientalista.

Com o zoólogo Mark Carwardine, Adams participou do projeto que resultaria em:

Last Chance to See

Uma viagem para encontrar espécies ameaçadas de extinção.

Não era simplesmente comédia.

Era conservação.

Era ciência.

Era encantamento diante da biodiversidade.

Adams tornou-se patrono fundador da Save the Rhino e chegou, em 1994, a participar de uma subida ao Kilimanjaro envolvendo uma fantasia de rinoceronte para ajudar a arrecadar dinheiro e conscientização. (Save the Rhino)

Pare por alguns segundos.

O homem que escreveu sobre um peixe tradutor universal...

subiu uma montanha...

vestido de rinoceronte...

para tentar salvar rinocerontes reais.

Douglas Adams não precisava inventar um personagem chamado Douglas Adams.

A produção já estava suficientemente absurda.


🍎 CAPÍTULO 14

Douglas Adams, o nerd

Aqui nossa história fica particularmente interessante.

Douglas Adams adorava tecnologia.

Computadores não eram apenas ferramentas de escrita para ele.

Eram brinquedos intelectuais.

O Macintosh o fascinou.

Ele foi um dos primeiros entusiastas britânicos da plataforma e manteve enorme interesse por computadores pessoais e tecnologias digitais. (Wikipedia)

Lembre-se da época.

Estamos falando dos anos 1980 e 1990.

Quando dizer:

"computadores vão mudar nossa maneira de comunicar, criar e pensar"

ainda não era frase obrigatória de keynote.

Adams percebeu cedo que computadores poderiam ser meios culturais.

Não apenas calculadoras.


🎮 CAPÍTULO 15

E naturalmente ele fez jogos

Em 1984 surgiu o jogo baseado em:

The Hitchhiker's Guide to the Galaxy.

Adams participou também de projetos como:

  • Bureaucracy;

  • Starship Titanic.

Seu catálogo oficial inclui esses experimentos tecnológicos ao lado dos livros e trabalhos audiovisuais. (Douglas Adams)

E Bureaucracy merece aplausos.

Porque transformar burocracia em videogame é reconhecer que o verdadeiro survival horror sempre foi preencher documentos corretamente.


🎸 CAPÍTULO 16

Pink Floyd aparece porque naturalmente aparece

Douglas Adams também era amigo de David Gilmour, do Pink Floyd.

E há uma conexão deliciosa.

Adams sugeriu o título:

The Division Bell

para o álbum de 1994 da banda. (The Christian Science Monitor)

Porque aparentemente escrever uma das séries mais famosas da ficção científica não era suficiente.

Era necessário deixar Easter eggs também na história do rock.


⏰ CAPÍTULO 17

O homem que amava deadlines

Existe uma frase famosa associada a Douglas Adams sobre gostar de prazos principalmente pelo som que fazem quando passam voando.

E ela combina perfeitamente com sua reputação.

Adams era notoriamente complicado quando precisava terminar textos.

Isso cria uma maravilhosa contradição.

Ele possuía:

imaginação       100
humor            100
inteligência     100
criatividade     100
curiosidade      100
deadline          03

Mas existe uma lição importante nisso.

O próprio material oficial de Adams, ao aconselhar aspirantes a escritores, enfatiza duas coisas bastante menos românticas:

escrever alguma coisa e possuir determinação para continuar. (Douglas Adams)

A inspiração é maravilhosa.

O problema é que eventualmente alguém precisa salvar o arquivo.


✍️ CAPÍTULO 18

O segredo técnico do humor de Adams

Se você escreve artigos, histórias ou documentação e quer aprender alguma coisa com Douglas Adams, não copie apenas as piadas.

Copie a arquitetura.

1. Comece com algo normal

Uma casa será demolida.

2. Aumente absurdamente a escala

Agora a Terra será demolida.

3. Mantenha a lógica administrativa

Existe documentação.

4. Faça o personagem reagir como uma pessoa comum

— Como assim?

5. Trate o absurdo como rotina

— Os documentos estavam disponíveis.

Essa é a mágica.

O narrador nunca precisa gritar que aquilo é engraçado.

O universo considera tudo perfeitamente razoável.


☕ CAPÍTULO 19

Douglas Adams aplicado ao mainframe

Imagine um diálogo.

— Por que esse programa existe?

— Porque processa o arquivo XPTO.

— Por que o arquivo XPTO existe?

— Porque alimenta o sistema ABC.

— Por que ABC precisa disso?

— Não sabemos.

— Quem escreveu?

— Aposentou em 1994.

— Existe documentação?

— Sim.

— Onde?

— Num dataset arquivado.

— Qual?

— Não sabemos.

— Então como sabemos que funciona?

— O job termina RC=0.

Arthur Dent provavelmente perguntaria:

— Isso é normal?

Ford Prefect responderia:

— Em sistemas enterprise, aparentemente sim.


🥚 CAPÍTULO 20

Easter eggs para carregar na toalha

Algumas pequenas delícias do universo Adams:

42 escapou dos livros e virou referência cultural gigantesca, aparecendo repetidamente em tecnologia, matemática recreativa e cultura hacker. (Douglas Adams)

O asteroide 18610 Arthurdent recebeu o nome inspirado no protagonista do Guia. (The Christian Science Monitor)

O nome Babel Fish atravessou a ficção e foi parar em tecnologia de tradução. (Estante Virtual)

O nome Deep Thought também encontrou ecos no mundo da computação. (Douglas Adams)

E existe ainda o objeto mais importante que um viajante pode carregar:

a toalha.

Porque uma pessoa que sabe onde está sua toalha claramente possui controle da situação.

Mesmo quando absolutamente não possui.


🧺 CAPÍTULO 21

Towel Day

Depois da morte de Adams, fãs transformaram a toalha em homenagem.

Todo 25 de maio, admiradores celebram o Towel Day carregando uma toalha.

Parece ridículo.

Naturalmente.

Por isso funciona.

Um monumento tradicional provavelmente seria inadequado.

Douglas criou uma mitologia em que um objeto banal tornou-se símbolo de preparação diante do caos.

Talvez seja justamente por isso que a ideia sobreviveu.



🧬 CAPÍTULO 22

Douglas Adams era um personagem de Douglas Adams

E finalmente chegamos à suspeita inicial.

Observe este homem.

Quase dois metros de altura.

Escritor de comédia.

Passa por Monty Python.

Vai trabalhar em Doctor Who.

Inventa um livro eletrônico fictício décadas antes de carregarmos enciclopédias no bolso.

Apaixona-se por computadores.

Escreve videogames.

Convive com músicos.

Batiza álbum do Pink Floyd.

Viaja pelo planeta procurando espécies ameaçadas.

Participa de uma aventura envolvendo uma fantasia de rinoceronte.

Tem problemas com deadlines.

Escreve sobre um inglês confuso tentando compreender um universo incompreensível.

E morre cedo demais, aos 49 anos, em 11 de maio de 2001, em Santa Barbara, Califórnia. (Wikipedia)

Agora imagine que você encontrou essa descrição dentro de um romance de Douglas Adams.

Você acreditaria imediatamente.


📖 CAPÍTULO 23

O Salmão da Dúvida

Após sua morte surgiu:

The Salmon of Doubt

publicado em 2002.

A coletânea reuniu textos, ensaios e material relacionado ao romance que Adams deixou inacabado. (Wikipedia)

O título parece adequado.

Porque terminar tudo perfeitamente seria pouco característico.

Douglas deixou processos rodando.

Alguns nunca chegaram ao:

END-OF-JOB

Talvez isso também faça parte do encanto.


🧠 CAPÍTULO 24

O que um programador pode aprender com Douglas Adams

Muito.

Primeiro:

questione requisitos.

Deep Thought encontrou a resposta correta para uma pergunta que ninguém conhecia.

Segundo:

sistemas existem dentro de sistemas.

Dirk Gently aprovaria qualquer investigação séria de incidente.

Terceiro:

tecnologia também é cultura.

Adams percebeu isso cedo.

Quarto:

complexidade não significa inteligência.

Os Vogons possuem processos extremamente sofisticados.

Continuam sendo Vogons.

Quinto:

documentação importa.

Especialmente antes de demolir planetas.

Sexto:

nunca confunda sucesso técnico com sucesso real.

MAXCC=0

não significa:

PROBLEMA RESOLVIDO

Deep Thought provavelmente retornaria RC=0.

E ainda assim ninguém saberia a pergunta.


🚀 CAPÍTULO 25

E talvez esta seja sua maior obra

Douglas Adams escreveu sobre o espaço.

Mas seu assunto nunca foi realmente o espaço.

Escreveu sobre alienígenas.

Mas estava falando de humanos.

Escreveu sobre computadores.

Mas estava falando sobre nossa fé em respostas automáticas.

Escreveu sobre burocratas alienígenas.

Mas todos já encontramos Vogons.

Escreveu sobre Arthur Dent perdido no universo.

Mas Arthur somos nós.

Acordamos.

Tomamos café.

Abrimos o notebook.

Recebemos um ticket.

Descobrimos que alguém mudou alguma coisa durante a madrugada.

Perguntamos por quê.

Ninguém sabe.

Descobrimos que existe documentação.

Não temos acesso.

Encontramos o responsável.

Ele saiu da empresa.

Finalmente encontramos a resposta.

42.

Perguntamos qual era a pergunta.

E nesse instante, em algum lugar além do Restaurante no Fim do Universo, um inglês gigantesco provavelmente começa a rir.


☕ EPÍLOGO

DON'T PANIC

Talvez essa seja a melhor homenagem possível a Douglas Adams.

Não transformá-lo numa estátua.

Ele provavelmente acharia extremamente constrangedor.

Melhor imaginá-lo chegando ao CPD do Bellacosa Mainframe.

Observando um IBM Z.

Perguntando:

— Há quanto tempo isso está funcionando?

— Algumas aplicações, décadas.

Douglas olha para o operador.

— E vocês sabem exatamente tudo o que elas fazem?

Silêncio.

Ele observa os milhares de jobs.

Os programas COBOL.

As transações CICS.

Os datasets.

Os logs.

As interfaces.

As APIs.

As regras comerciais escritas por pessoas que talvez já tenham se aposentado.

Então sorri.

— Fascinante.

Pega sua toalha.

Abre o terminal.

E pergunta:

READY

LISTCAT

O sistema responde.

Douglas pensa alguns segundos.

— Bellacosa...

— Sim?

— Acho que finalmente descobri o computador que deveria calcular a pergunta.

E em algum lugar do JES2 aparece:

JOB DEEPTHOT SUBMITTED

$HASP373 DEEPTHOT STARTED

Estimativa de conclusão:

7.500.000 anos.

Prioridade:

NORMAL.

SLA:

segunda-feira.

E o operador, sem sequer levantar os olhos da tela, responde:

— Normal. É fechamento.

Douglas pega sua toalha.

Sorri.

E vai procurar o Restaurante no Fim do Universo.


🐬 Até mais, Douglas.

Obrigado pelos livros.

Obrigado pelos computadores.

Obrigado pelos rinocerontes.

Obrigado por Arthur, Ford, Marvin, Zaphod, Trillian e Dirk.

Obrigado por demonstrar que filosofia e besteirol podem compartilhar a mesma biblioteca.

Obrigado por ensinar que a resposta pode estar correta e ainda assim ser completamente inútil.

E, sobretudo...

obrigado por todos os peixes.

DON'T PANIC.

KNOW WHERE YOUR TOWEL IS.

E jamais aceite MAXCC=0 como resposta para a Vida, o Universo e Tudo Mais.


Para explorar a obra: site oficial de Douglas Adams

Outras maluquices











Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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