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quinta-feira, 13 de março de 2025

Sokushi Cheat — O Anime que Instalou um Gacha no Roteiro e Matou a Coerência Antes dos Créditos

 

Um Café no Bellacosa Mainframe

Sokushi Cheat — O Anime que Instalou um Gacha no Roteiro e Matou a Coerência Antes dos Créditos

Ou: Yogiri queria apenas dormir, mas o universo enviou um ônibus, uma sábia vampira, zumbis, tentáculos, bunny girls, deuses-gatos, uma inteligência artificial, um Battle Royale, mechas, Leonardo da Vinci, uma capa do Batman e um harém para interromper sua soneca

Existem animes bons. Existem animes ruins. Existem animes tão ruins que a gente abandona no segundo episódio e nunca mais fala sobre eles. E existe uma categoria muito mais rara: obras que atravessam a fronteira do fracasso convencional, acumulam tamanha quantidade de decisões improváveis e acabam retornando do outro lado como pérolas radioativas da cultura pop.

Sokushi Cheat ga Saikyou sugite, Isekai no Yatsura ga Marude Aite ni Naranai n desu ga. pertence orgulhosamente a essa última categoria.

O título internacional, My Instant Death Ability Is So Overpowered, No One in This Other World Stands a Chance Against Me!, já funciona como contrato, sinopse e aviso de segurança. Yogiri Takatou consegue matar praticamente qualquer coisa com uma ordem. Não importa se o alvo é guerreiro, monstro, dragão, deus, espírito, máquina, entidade conceitual ou o responsável remoto por um miasma. Havendo ameaça, a autoridade do garoto percorre a cadeia causal e encerra o processo na origem.

Em termos de mainframe, Yogiri não luta. Ele possui RACF SPECIAL no universo e executa CANCEL em produção.

O resultado deveria ser monótono. Um protagonista invencível, sem obstáculos reais, costuma matar a tensão, o drama e a paciência do espectador. Só que Sokushi Cheat percebe essa falha e toma uma decisão de mestre — ou de chimpanzé embriagado diante de uma roleta: se nenhuma batalha pode durar, então serão introduzidos personagens, gêneros e conceitos em velocidade suficiente para que o público nem consiga registrar os nomes antes do próximo absurdo.

Foi assim que um anime aparentemente genérico virou uma das experiências mais desavergonhadamente divertidas que passaram pelo Bellacosa Mainframe.


O ônibus escolar onde o gênero foi atropelado

A aventura começa com uma turma transportada para outro mundo. É o kit básico do isekai: estudantes, sistema de poderes, uma sábia distribuindo habilidades e a promessa de que alguns adolescentes se transformarão em heróis. Mas a obra não espera sequer a instalação terminar. Parte da classe abandona os colegas considerados inúteis como iscas, criaturas atacam o ônibus e o professor e o motorista mal conseguem abrir a boca antes de se tornarem mortinhos da Silva.

A cena estabelece a verdadeira política de recursos humanos da série: ninguém possui estabilidade. Um personagem pode chegar com cabelo exclusivo, armadura detalhada, voz de protagonista e uma história que renderia oito volumes. Tudo isso significa apenas que o departamento de action figures trabalhou mais naquela manhã.

Yogiri, entretanto, reage ao caos com a energia de um funcionário acordado durante a madrugada por um chamado de baixa prioridade. Ele mata a ameaça, pergunta quando poderão seguir viagem e volta a dormir.

Esse hábito se torna a melhor piada recorrente do anime. Enquanto todos desejam conquistar reinos, superar níveis, reunir seguidores ou tornar-se deuses, Yogiri deseja comida, transporte, um quarto silencioso e oito horas regulamentares de sono. O personagem mais perigoso do universo passa boa parte da história cochilando no banco traseiro.

O verdadeiro erro dos vilões não é subestimar seu poder. É interromper sua soneca.


Deixe o vilão terminar de se transformar

A frase que melhor resume o espírito da obra surge quando Tomochika Dannoura sugere que Yogiri espere um inimigo terminar a transformação. Em qualquer anime convencional, a transformação é um sacramento. O herói respeita o ritual, o vilão ganha asas, a música sobe e o orçamento da animação é queimado em vinte segundos de luzes coloridas.

Em Sokushi Cheat, esperar a transformação terminar não é honra. É curiosidade mórbida.

“Deixa ele terminar de se transformar primeiro.”

O sujeito passa por todas as etapas, apresenta a forma suprema, começa o monólogo e morre. A transformação não altera o resultado; apenas permite que o público veja a segunda versão da action figure antes de Yogiri encerrar o contrato do dublador.

É aí que percebemos que o anime não está apenas usando clichês. Está desmontando os protocolos que protegem esses clichês. Chefões não possuem imunidade durante discursos. Transformações não criam invulnerabilidade temporária. Divindades não recebem prioridade. Ter um passado trágico não garante arco de redenção. Parecer importante não significa sobreviver até o intervalo.


O catálogo infinito de action figures

Um anime comum apresenta vinte personagens vendáveis. Sokushi Cheat parece ter decidido apresentar mil. Cada figurante possui design de protagonista porque cada figurante pode virar figure, acrílico, chaveiro ou miniatura 3D numa Comic Con.

Temos sábios, dominadores, guerreiros, vampiros, dragões, mortos-vivos, cavaleiros, entidades cósmicas, deuses repetidos, assassinos, colegas de classe, inteligência artificial, robôs gigantes e garotas com acessórios cuidadosamente selecionados pelo departamento de merchandising.

Átila representa o auge dessa filosofia industrial. Um dragão dourado gigantesco transforma-se numa pequenina garota kawaii chamada Átila. A História dos hunos foi consultada, dobrada, temperada com dois barris premium de saquê e convertida em três SKUs: dragão, garota e edição especial “Flagelo Kawaii de Deus”.

Em outra série, essa criatura ganharia origem secreta, saga própria e amizade com os protagonistas. Aqui, a forma humana mal termina de carregar antes de a personagem entrar no programa de desligamento acelerado.

A morte, aliás, melhora o catálogo. É possível vender a versão viva, a versão transformada e a edição póstuma com olhos apagados e base exclusiva “Yogiri passou por aqui”.

O verdadeiro sistema de poder nunca foi o Instant Death. É o SKU infinito.

O gacha narrativo

Em determinado momento, finalmente encontramos a explicação para a estrutura da obra: os autores usam um gacha. Antes de cada capítulo, alguém gira a roleta e tudo o que sai precisa entrar na história.

R   — zumbi genérico
SR  — sábia vampira
SR  — hotel cinco estrelas
SSR — robô gigante
SSR — tentáculos
UR  — dragão dourado Átila kawaii
UR  — bunny girls do cassino
??? — Lorde das Trevas morto por procuração via miasma

O roteiro recebe o resultado e possui vinte minutos para conectar tudo com um ônibus, uma estrada, uma torre ou alguma entidade tentando matar Yogiri.

Isso explica por que o cenário alterna ruínas medievais, cidades semelhantes ao Japão moderno, tecnologia avançada, hotéis de luxo, cassinos, inteligência artificial e mechas. Não é exatamente construção de mundo. É um inventário onde todas as expansões foram instaladas ao mesmo tempo.

A Tomochika é a jogadora free-to-play tentando entender por que o inventário está cheio de criaturas UR. Yogiri é o veterano que nem assiste à animação da invocação: pressiona skip, converte o personagem duplicado em recurso e volta a dormir.

Chance de obter coerência narrativa: 0,6%. Garantia após noventa episódios. A temporada possui doze.

Deuses das Trevas com contrato temporário

A inflação divina é uma das melhores piadas involuntárias. Surgem Lordes das Trevas, deuses sombrios, entidades seladas, avatares, descendentes divinos e seres que destruíram mundos inteiros. Em qualquer outra obra, cada um seria o antagonista final. Aqui, “Deus das Trevas” parece cargo de telemarketing com alta rotatividade.

20:41:07 — Deus das Trevas conectado
20:41:11 — intenção assassina detectada
20:41:12 — processo encerrado
20:41:13 — próximo deus aguardando na fila

Os nomes são tão longos e as passagens tão rápidas que o espectador não consegue indexá-los. No mangá é possível voltar uma página; na web novel, consultar o parágrafo anterior. No anime, precisamos pausar a tela como funcionários do IML tentando preencher corretamente o atestado de óbito.

O Lorde das Trevas morto indiretamente por causa do miasma é a demonstração definitiva da autoridade de Yogiri. Ele não precisa conhecer o inimigo. A ameaça funciona como um processo filho; o poder percorre a dependência e encerra o proprietário remoto. O Lorde provavelmente estava no trono ensaiando “humanos insignificantes, durante mil anos eu aguardei” quando recebeu um KILL -9 sem direito a reunião de despedida.

Nem os deuses-gatos foram poupados. Isso deveria provocar a ira de Bastet, de Sekhmet e de toda a Internet. O Conselho do Boteco de Itatiba tolera o extermínio de entidades cósmicas, mas considera gatinhos, cachorrinhos e bunny girls protegidos por cláusula pétrea.

A gatinha, as bunny girls e a ISO 9001 do fanservice

A gatinha do começo foi uma crueldade editorial. Bonitinha, colecionável e aparentemente pronta para entrar no grupo, ela precisava, é claro, ser vilã e cair do telhado no rio. Em Sokushi Cheat, quanto mais simpático o design, maior a probabilidade de psicopatia, desaparecimento ou acidente arquitetônico.

Depois vieram os tentáculos, porque algum auditor japonês aparentemente exige sua presença em qualquer obra que reúna fantasia, garotas e ausência de fiscalização. Finalmente apareceram as deliciosas bunny girls, completando o banner sazonal do cassino.

O ecchi, porém, nunca conclui a instalação. Yogiri é indiferente demais para colaborar. Outro protagonista tropeçaria, cairia sobre uma garota e passaria três minutos sangrando pelo nariz. Yogiri abriria um olho, perguntaria se aquilo pretende matá-lo e retornaria ao modo de economia de energia.

As orelhinhas não melhoram a coerência, mas aumentam em trezentos por cento nossa disposição para perdoar o roteiro.

A torre movida pelo Motor de Improbabilidade Infinita

A torre é o ponto em que Douglas Adams parece invadir clandestinamente a produção. Aquilo não é uma dungeon. É um depósito de ideias recusadas por outras séries: armadilhas, tecnologia, inteligência artificial, personagens antigos, desafios, comida criminosa e situações que jamais deveriam compartilhar o mesmo endereço.

O Motor de Improbabilidade Infinita foi ligado e ninguém encontrou o botão de desligar.

Euphemia reaparece nesse caos como a funcionária terceirizada mais resistente do isekai. Ela escapou do Dominador, caiu sob o controle da Sábia Vampira, atravessou diferentes organogramas e continuou respirando. Seu segredo não é poder absoluto; é governança de risco. Euphemia identifica o lunático da vez, adapta-se ao novo empregador e, sobretudo, nunca transforma Yogiri em objetivo de missão.

Enquanto candidatos a protagonista anunciam classe, linhagem e habilidade suprema antes de morrer, Euphemia permanece no canto, cumpre o expediente e renova o contrato. Sobreviver tempo suficiente para o público memorizar seu nome já é uma habilidade UR.

A torre também profana o último santuário dos animes: a refeição coletiva. Normalmente, mesmo durante o apocalipse, o arroz brilha, a sopa fumega e a omelete parece produzida para um comercial. A comida representa lar, amizade e normalidade. Na torre, servem uma gororoba com aparência de comida de prisão vencida há seis meses.

Yogiri consegue matar qualquer coisa, mas não pode mandar a comida morrer porque ela aparentemente já chegou morta ao prato.

Douglas Adams colocou um restaurante no fim do universo. Sokushi Cheat colocou um restaurante capaz de provocar o fim do universo.

Battle Royale: processamento batch de obituários

Quando o anime anuncia um Battle Royale, a cartela de bingo praticamente se fecha. O gênero depende de alianças, traições, estratégia e dúvida sobre quem sobreviverá. Mas colocar Yogiri nessa competição equivale a organizar os Jogos Vorazes com um participante capaz de matar os tributos, os organizadores, as câmeras e o conceito abstrato de competição sem levantar da cadeira.

REGRAS DO EVENTO
1. Apenas um participante poderá sobreviver.
2. Alianças e traições são permitidas.
3. Cada competidor possui uma habilidade exclusiva.
4. Yogiri não leu as regras.
5. O evento termina quando interromperem sua soneca.

Não é Battle Royale. É processamento batch de obituários.

E, contrariando toda previsão, o gordinho chega ao final vivinho da Silva e ainda deseja montar o próprio harém. Ele compreendeu melhor o sistema do que todas as divindades: ambição cósmica reduz a expectativa de vida; ambição romântica aparentemente oferece imunidade narrativa.

Não enfrentar Yogiri foi a melhor decisão estratégica da temporada.

O porão onde a piada ficou triste

No meio desse carnaval, o anime revela a infância de Yogiri e muda temporariamente de temperatura. O garoto não foi criado; foi contido. Passou a infância tratado como anomalia, arma ou risco existencial armazenado num porão. Enquanto outras crianças aprendiam a brincar e confiar, ele aprendia a limitar o contato com o mundo.

A cuidadora que se aproxima dele e o cãozinho são comoventes justamente porque representam coisas banais: companhia, afeto sem interesse, alguém que não o enxerga somente como entidade. O cachorro não conhece protocolos de contenção nem classificações apocalípticas. Reconhece apenas uma criança e oferece amizade.

Por alguns instantes, Yogiri não é o fim de todas as coisas. É um menino com um cãozinho.

Essa memória reorganiza o personagem. Seu sono, silêncio e aparente desinteresse não são somente efeitos do poder absoluto. A contenção externa transformou-se em autocontenção emocional. Criar vínculos, reagir impulsivamente ou demonstrar medo sempre poderia produzir consequências terríveis.

Todos no isekai acreditam que Yogiri recebeu um cheat. Mas aquilo nunca foi presente ou recompensa. Ele sempre foi assim e pagou com a infância.

O ser mais perigoso do universo não precisava apenas de contenção. Precisava que alguém o tratasse como criança.

O porão é mais assustador que a torre porque a torre é absurda. O porão é plausível.

Da Vinci, Batman, mechas e o harém de encerramento

Quando imaginamos que o gacha já entregou tudo, chegam os últimos minutos. Primeiro, mechas. O anime começou num ônibus escolar e termina encostando em Gundam, porque aparentemente restavam quatro minutos de orçamento e nenhum robô gigante havia recebido o formulário de participação.

Antes dos créditos aparece ainda uma máquina voadora de madeira que homenageia os projetos de Leonardo da Vinci. O roteiro atravessou fantasia medieval, horror, ficção científica, videogame, cassino, Battle Royale e fez escala em Florença no século XV.

Logo depois, uma capa ampla e recortada surge com energia suficiente para lembrar Batman e os quadrinhos da DC. Faltava o super-herói ocidental na feira universal de referências; o departamento responsável resolveu a pendência antes que os créditos fechassem o sistema.

E, naturalmente, tudo termina com aparência de harém.

Yogiri talvez seja o protagonista menos interessado em harém de toda a história dos haréns. Ele não seduziu ninguém, não realizou discursos românticos e provavelmente nem percebeu a formação do grupo. As garotas não foram conquistadas: sobreviveram perto dele por tempo suficiente para aparecer na fotografia final.

SELEÇÃO AFETIVA DE SOKUSHI CHEAT
Tentou matar Yogiri? SIM → mortinha da Silva
Tentou matar Yogiri? NÃO → candidata ao elenco final

Não é um harém. É a foto dos sobreviventes do RH.

Mel Brooks encontrou Douglas Adams no depósito das Organizações Tabajara

Ao terminar a série, fica difícil evitar duas assinaturas espirituais. A primeira é Mel Brooks: a disposição para ridicularizar figuras de autoridade, furar cerimônias e reduzir personagens grandiosos a vítimas de uma piada física. A segunda é Douglas Adams: o absurdo cósmico tratado com naturalidade burocrática, como se a coisa mais improvável do universo fosse apenas um inconveniente de viagem.

Não se trata de dizer que Sokushi Cheat possui a precisão satírica desses mestres. Frequentemente ele parece atingir o efeito por excesso, compressão ou completa ausência de freio. Mas a experiência produz a mesma alegria essencial: o reconhecimento de que sistemas, títulos, profecias e autoridades podem ser derrubados por uma frase seca.

A Escola Dannoura parece filial das Organizações Tabajara. A torre roda com o Motor de Improbabilidade Infinita. O hotel cinco estrelas é o showroom das action figures. E o Rei Demônio provavelmente decidiu ir à praia beber um drinque com guarda-chuvinha, até descobrir que já havia morrido indiretamente por causa do miasma.

Quando algo tão ruim se transforma em pérola

Se analisado apenas pelos critérios tradicionais, Sokushi Cheat apresenta problemas evidentes. O ritmo é atropelado. A animação é irregular. O mundo parece montado com peças de caixas diferentes. Personagens surgem e desaparecem antes que o público desenvolva qualquer vínculo. A escala de poder é inútil porque Yogiri está fora dela.

Mas talvez seja justamente essa falta de disciplina que produza seu encanto.

O anime não mistura gêneros: atropela todos com um ônibus, recolhe os sobreviventes, hospeda-os num hotel cinco estrelas, oferece gororoba penitenciária e encerra o passeio dentro de um robô gigante desenhado por Da Vinci enquanto Batman observa de uma torre.

Cada nova bizarrice produz a pergunta “eles não vão colocar isso também, vão?”. Eles colocam. Tentáculos? Sim. Bunny girls? Sim. Inteligência artificial? Sim. Battle Royale? Sim. Deuses-gatos? Sim. Mechas? Sim. Harém? Instalado antes do encerramento.

O espectador deixa de procurar coerência e passa a jogar junto. O prazer não está em descobrir quem vencerá, mas em prever qual clichê será sorteado e quantos segundos sobreviverá diante de Yogiri.

Foi assim que um isekai overpower — categoria que normalmente provoca alergia imediata neste balcão — transformou-se numa joia dos animes bizarros. Não é uma obra-prima clássica. É algo talvez mais difícil de fabricar deliberadamente: um acidente narrativo cujos vagões pertencem a gêneros diferentes, mas que segue produzindo gargalhadas até chegar à estação final.

Veredito do Boteco de Itatiba

Coerência narrativa:          3/10
Animação:                    5/10
Desenvolvimento:             4/10
Rotatividade de deuses:     42/10
Quantidade de maluquice:    42/10
Capacidade de divertir:      9/10
Valor como pérola bizarra:  SSR LENDÁRIA

Sokushi Cheat é tão comprometido com o próprio absurdo que deixa de ser apenas ruim e se transforma em arqueologia cultural instantânea. Uma pérola torta, radioativa e provavelmente amaldiçoada — mas ainda assim uma pérola.

Começamos com um garoto quieto recebendo autoridade para dar CANCEL no universo. Terminamos com Mel Brooks, Douglas Adams, Leonardo da Vinci, Batman, deuses-gatos, action figures, um gacha narrativo e um empreendedor gordinho planejando abrir sua própria franquia de harém.

E Yogiri?

Yogiri provavelmente dormiu durante os créditos.

Que anime completamente imbecil, brilhante e maravilhoso.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Feliz dia da Toalha 2021 - Um tributo ao escritor Douglas Adams

Mais um dia da Toalha chegou. Mais um dia que tiramos para rememorar, divertir-se com as loucas situaçoes do Mochileiro da Galaxia
#diadatoalha #douglasadams #towelsday

sábado, 1 de maio de 2021

Douglas Adams: o Homem que Descobriu que o Universo Rodava em Produção sem Documentação

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Douglas Adams: o Homem que Descobriu que o Universo Rodava em Produção sem Documentação

🌌 Vida, obra, computadores, toalhas, rinocerontes, prazos impossíveis e a curiosa história do escritor que parecia ter escapado de um dos próprios livros

DON'T PANIC.

Há escritores que criam personagens.

Há escritores que criam universos.

E há Douglas Adams, que conseguiu realizar uma façanha consideravelmente mais improvável:

criou um universo tão parecido consigo mesmo que, depois de algum tempo, ficou difícil descobrir onde terminava Douglas Adams e começava O Guia do Mochileiro das Galáxias.

Ele era enorme.

Literalmente.

Tinha quase dois metros de altura.

Gostava de computadores, guitarras, ciência, tecnologia, carros, animais, viagens, ideias absurdas e prazos — embora sua relação com estes últimos fosse comparável à relação de um programa COBOL de 1973 com uma especificação OpenAPI.

Sabia que existiam.

Reconhecia sua importância.

Mas preferia encontrá-los passando rapidamente ao longe.

Douglas Noël Adams nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 11 de março de 1952, estudou em Brentwood e depois literatura inglesa no St John's College, Cambridge. Antes de se tornar mundialmente famoso, passou por uma coleção de empregos e experiências que parecem ter sido escolhidos por um gerador aleatório de profissões: escritor, produtor de rádio, roteirista, performer e, em certos períodos, trabalhos completamente distantes da carreira literária. (Douglas Adams)

Mais tarde escreveria para Monty Python, trabalharia em Doctor Who, criaria Dirk Gently, se apaixonaria por computadores, ajudaria causas ambientais, desenvolveria jogos e acabaria criando uma das obras mais deliciosamente absurdas da cultura pop.

Tudo isso antes de morrer, inesperadamente, em 2001, aos 49 anos.

Mas começar pelo fim seria terrivelmente organizado.

E Douglas Adams provavelmente desconfiaria disso.

Portanto:

pegue sua toalha.

Vamos começar pelo lugar mais apropriado.

No meio do caos.



🌍 CAPÍTULO 1

Um inglês de quase dois metros tentando descobrir o que fazer da vida

Douglas Adams não surgiu magicamente carregando um exemplar do Guia do Mochileiro das Galáxias.

Antes do sucesso houve algo que todo programador conhece muito bem:

tentativa
erro
tentativa
erro
boletos e conta para pagar
tentativa
erro
ideia estranha
tentativa

Em Cambridge, Adams se envolveu com o ambiente de comédia estudantil e com o Footlights, tradicional celeiro britânico de humoristas.

Seu interesse era escrever comédia.

Não exatamente ficção científica.

Essa distinção é importante.

Adams chegou a explicar que se considerava fundamentalmente um escritor de comédia, usando os mecanismos da ficção científica para satirizar praticamente todo o resto. (Enciclopédia)

Isso explica muita coisa.

As naves espaciais são cenário.

Os alienígenas são ferramentas.

Os computadores gigantes são piadas.

O verdadeiro assunto é:

nós.

A burocracia.

A arrogância.

A tecnologia.

O governo.

A religião.

A economia.

Os restaurantes.

As filas.

Os formulários.

Os especialistas.

E principalmente nossa incrível capacidade de construir sistemas complicadíssimos para resolver problemas que talvez não precisassem existir.

Um programador mainframe reconhece imediatamente esse universo.



🐍 CAPÍTULO 2

Antes das galáxias havia Monty Python

Existe uma conexão maravilhosa entre Adams e Monty Python.

Ele trabalhou com Graham Chapman e conseguiu créditos no programa.

Douglas está inclusive entre o pequeno grupo de pessoas externas ao núcleo principal do Python que recebeu crédito de roteiro na série original. Também apareceu rapidamente diante das câmeras em episódios da quarta temporada.

E aqui encontramos parte do código-fonte de seu humor.

Imagine:

Monty Python
     +
ficção científica
     +
rádio BBC
     +
filosofia
     +
burocracia britânica
     +
computadores
     +
chá
     +
um sujeito olhando para o universo e perguntando:

"Mas quem aprovou essa arquitetura?"

Resultado:

Douglas Adams.

Seu nonsense não era simplesmente aleatório.

Essa é uma das grandes lições para quem tenta imitá-lo.

Por trás do absurdo existe lógica.

Uma lógica impecável.

O problema é que a premissa inicial é completamente insana.



📺 CAPÍTULO 3

Doctor Who entra no CPD

Antes e durante a explosão de Hitchhiker's, Adams também trabalhou em outra instituição britânica:

Doctor Who.

Foi roteirista e chegou a atuar como script editor da série.

Entre suas contribuições estão histórias relacionadas a:

  • The Pirate Planet;

  • City of Death;

  • Shada;

  • e trabalhos na temporada 17.

Isso é importantíssimo para entender Adams.

Porque Doctor Who permitia exatamente aquilo de que ele gostava:

pegar uma ideia filosófica absurda...

...transformá-la em problema tecnológico...

...colocar personagens britânicos no meio...

...e observar a civilização entrar em pane.

Em outras palavras:

produção.


🚀 CAPÍTULO 4

O Guia nasceu no rádio

Aqui existe uma curiosidade maravilhosa para uma geração acostumada a pensar primeiro em livros.

O Guia do Mochileiro das Galáxias não nasceu como livro.

Nasceu como programa de rádio da BBC Radio 4.

A primeira transmissão aconteceu em março de 1978. (Douglas Adams)

Depois veio praticamente tudo:

RÁDIO
 ↓
LIVROS
 ↓
TV
 ↓
DISCOS
 ↓
TEATRO
 ↓
JOGO DE COMPUTADOR
 ↓
FILME
 ↓
mais adaptações
 ↓
fãs discutindo cronologia
 ↓
42

O próprio site dedicado à obra de Adams registra essa extraordinária multiplicação de formatos. (Douglas Adams)

Portanto, chamar Hitchhiker's simplesmente de "uma série de livros" é quase como chamar z/OS de editor de texto.

Tecnicamente há texto envolvido.

Mas estamos omitindo alguns detalhes.


🌍 CAPÍTULO 5

Arthur Dent: o homem que só queria sua casa

E aqui encontramos nosso primeiro suspeito de ser Douglas Adams disfarçado.

Arthur Dent.

Arthur não é Luke Skywalker.

Não quer salvar a galáxia.

Não possui poderes.

Não tem treinamento Jedi.

Não descobriu ser herdeiro de nenhuma dinastia.

Arthur gostaria basicamente de:

ter sua casa
tomar chá
entender o que está acontecendo

Infelizmente, o universo possui outros planos.

Sua casa será demolida para construir uma estrada.

Pouco depois...

a Terra será demolida para construir uma via expressa hiperespacial.

E essa simetria contém Douglas Adams inteiro.

O indivíduo é esmagado pela burocracia local.

A humanidade inteira é esmagada pela burocracia cósmica.

A escala muda.

A estupidez administrativa permanece perfeitamente compatível.


📋 CAPÍTULO 6

Vogons: o verdadeiro terror do universo

Esqueça monstros.

Esqueça Daleks.

Esqueça invasões alienígenas.

Adams compreendeu algo muito mais assustador.

O formulário.

Os Vogons representam uma das maiores contribuições da literatura para a compreensão da burocracia.

Eles não precisam odiar você.

Isso seria pessoal demais.

Eles possuem:

procedimentos.

regulamentos.

autorizações.

protocolos.

E provavelmente algum equivalente galáctico do:

TICKET STATUS: CLOSED
REASON:
WORKING AS DESIGNED

A Terra será destruída?

Lamentável.

Os planos estavam disponíveis.

Você não consultou?

Problema seu.

Qualquer pessoa que já tenha enfrentado uma mudança corporativa aprovada por quinze departamentos reconhecerá imediatamente a espécie.


📚 CAPÍTULO 7

A trilogia de cinco livros

Douglas Adams também conseguiu melhorar a matemática.

Sua famosa "trilogia" acabou composta por cinco romances escritos por ele:

1. The Hitchhiker's Guide to the Galaxy

1979

2. The Restaurant at the End of the Universe

1980

3. Life, the Universe and Everything

1982

4. So Long, and Thanks for All the Fish

1984

5. Mostly Harmless

1992

O site oficial registra a sequência e suas datas, incluindo o sucesso comercial extraordinário da série. (Douglas Adams)

Uma trilogia com cinco livros.

Porque quando você criou uma piada cósmica sobre a incapacidade humana de organizar a realidade, seria decepcionante começar obedecendo à aritmética.


🧠 CAPÍTULO 8

Deep Thought

Então chegamos ao computador.

Naturalmente.

Uma civilização deseja descobrir a resposta para:

A Vida, o Universo e Tudo Mais.

Portanto constrói um supercomputador chamado:

Deep Thought

Ele calcula.

Durante aproximadamente:

7,5 milhões de anos.

Finalmente encontra a resposta.

E a resposta é:

42

(The Guardian)

Maravilhoso.

Mas existe um pequeno problema.

Ninguém sabe exatamente qual era a pergunta.

E essa talvez seja uma das melhores piadas já escritas sobre computação.

Porque qualquer veterano de TI reconhece imediatamente:

RESULTADO CORRETO
+
REQUISITO ERRADO
=
PROJETO CORPORATIVO

💾 CAPÍTULO 9

Deep Thought era um mainframe?

Douglas nunca precisou chamá-lo assim.

Mas permita que Bellacosa abra uma Change Request absolutamente não autorizada.

Deep Thought possui:

  • processamento centralizado;

  • workload gigantesco;

  • disponibilidade medida em eras geológicas;

  • usuários que não entendem os requisitos;

  • documentação aparentemente insuficiente;

  • projeto com duração de milhões de anos;

  • resposta tecnicamente correta;

  • cliente insatisfeito.

Senhoras e senhores:

isso é enterprise computing.

Só faltou:

IEF142I DEEPTHOT STEP42 - STEP WAS EXECUTED - COND CODE 0000

E algum gerente perguntar:

— Então podemos desligar?

Não.

Porque agora precisamos calcular a pergunta.


🌎 CAPÍTULO 10

A Terra era o segundo computador

E aqui Adams melhora ainda mais a piada.

Para descobrir a pergunta correspondente à resposta 42, é construído um computador ainda mais sofisticado.

Chamado:

Terra.

Sim.

Nós.

O planeta inteiro.

Um sistema computacional gigantesco.

Executando durante milhões de anos.

Até que...

pouco antes de terminar o processamento...

os Vogons destroem a máquina.

Se isso não parece um projeto de TI cancelado três semanas antes do go-live depois de oito anos de desenvolvimento, você ainda não trabalhou tempo suficiente em uma grande organização.


🐟 CAPÍTULO 11

Babel Fish

Outra criação genial:

Babel Fish.

Um pequeno peixe capaz de permitir comunicação entre idiomas.

Décadas depois, "Babel Fish" tornou-se referência cultural para sistemas de tradução automática; serviços tecnológicos chegaram a adotar diretamente o nome inspirado na criação de Adams. (Estante Virtual)

Hoje olhamos para tradução automática e IA generativa e pensamos:

Douglas provavelmente passaria quinze minutos fascinado.

Depois perguntaria:

— Muito interessante. Agora quantos bilhões gastamos construindo máquinas para podermos finalmente discutir com estrangeiros em tempo real?

E sairia procurando café.


🕵️ CAPÍTULO 12

Dirk Gently

Mas reduzir Adams ao Guia seria injusto.

Ele também criou outro personagem extraordinário:

Dirk Gently.

As principais obras são:

  • Dirk Gently's Holistic Detective Agency — 1987;

  • The Long Dark Tea-Time of the Soul — 1988.

(Simon & Schuster)

Dirk acredita na:

interconectividade fundamental de todas as coisas.

O método investigativo dele poderia ser resumido assim:

tudo está conectado
 ↓
portanto qualquer pista pode importar
 ↓
inclusive aquela completamente absurda
 ↓
especialmente aquela completamente absurda

Qualquer analista investigando um incidente em produção às três da manhã entende perfeitamente.

O Db2 está lento.

Por quê?

Porque houve alteração no storage.

Por quê?

Porque um processo batch mudou.

Por quê?

Porque alguém alterou um parâmetro.

Por quê?

Porque houve migração seis meses atrás.

Por quê?

Porque...

Dirk sorri.

Interconectividade fundamental de todas as coisas.


🌳 CAPÍTULO 13

Last Chance to See

Existe ainda outro Douglas Adams.

Menos conhecido.

E talvez ainda mais interessante.

O ambientalista.

Com o zoólogo Mark Carwardine, Adams participou do projeto que resultaria em:

Last Chance to See

Uma viagem para encontrar espécies ameaçadas de extinção.

Não era simplesmente comédia.

Era conservação.

Era ciência.

Era encantamento diante da biodiversidade.

Adams tornou-se patrono fundador da Save the Rhino e chegou, em 1994, a participar de uma subida ao Kilimanjaro envolvendo uma fantasia de rinoceronte para ajudar a arrecadar dinheiro e conscientização. (Save the Rhino)

Pare por alguns segundos.

O homem que escreveu sobre um peixe tradutor universal...

subiu uma montanha...

vestido de rinoceronte...

para tentar salvar rinocerontes reais.

Douglas Adams não precisava inventar um personagem chamado Douglas Adams.

A produção já estava suficientemente absurda.


🍎 CAPÍTULO 14

Douglas Adams, o nerd

Aqui nossa história fica particularmente interessante.

Douglas Adams adorava tecnologia.

Computadores não eram apenas ferramentas de escrita para ele.

Eram brinquedos intelectuais.

O Macintosh o fascinou.

Ele foi um dos primeiros entusiastas britânicos da plataforma e manteve enorme interesse por computadores pessoais e tecnologias digitais. (Wikipedia)

Lembre-se da época.

Estamos falando dos anos 1980 e 1990.

Quando dizer:

"computadores vão mudar nossa maneira de comunicar, criar e pensar"

ainda não era frase obrigatória de keynote.

Adams percebeu cedo que computadores poderiam ser meios culturais.

Não apenas calculadoras.


🎮 CAPÍTULO 15

E naturalmente ele fez jogos

Em 1984 surgiu o jogo baseado em:

The Hitchhiker's Guide to the Galaxy.

Adams participou também de projetos como:

  • Bureaucracy;

  • Starship Titanic.

Seu catálogo oficial inclui esses experimentos tecnológicos ao lado dos livros e trabalhos audiovisuais. (Douglas Adams)

E Bureaucracy merece aplausos.

Porque transformar burocracia em videogame é reconhecer que o verdadeiro survival horror sempre foi preencher documentos corretamente.


🎸 CAPÍTULO 16

Pink Floyd aparece porque naturalmente aparece

Douglas Adams também era amigo de David Gilmour, do Pink Floyd.

E há uma conexão deliciosa.

Adams sugeriu o título:

The Division Bell

para o álbum de 1994 da banda. (The Christian Science Monitor)

Porque aparentemente escrever uma das séries mais famosas da ficção científica não era suficiente.

Era necessário deixar Easter eggs também na história do rock.


⏰ CAPÍTULO 17

O homem que amava deadlines

Existe uma frase famosa associada a Douglas Adams sobre gostar de prazos principalmente pelo som que fazem quando passam voando.

E ela combina perfeitamente com sua reputação.

Adams era notoriamente complicado quando precisava terminar textos.

Isso cria uma maravilhosa contradição.

Ele possuía:

imaginação       100
humor            100
inteligência     100
criatividade     100
curiosidade      100
deadline          03

Mas existe uma lição importante nisso.

O próprio material oficial de Adams, ao aconselhar aspirantes a escritores, enfatiza duas coisas bastante menos românticas:

escrever alguma coisa e possuir determinação para continuar. (Douglas Adams)

A inspiração é maravilhosa.

O problema é que eventualmente alguém precisa salvar o arquivo.


✍️ CAPÍTULO 18

O segredo técnico do humor de Adams

Se você escreve artigos, histórias ou documentação e quer aprender alguma coisa com Douglas Adams, não copie apenas as piadas.

Copie a arquitetura.

1. Comece com algo normal

Uma casa será demolida.

2. Aumente absurdamente a escala

Agora a Terra será demolida.

3. Mantenha a lógica administrativa

Existe documentação.

4. Faça o personagem reagir como uma pessoa comum

— Como assim?

5. Trate o absurdo como rotina

— Os documentos estavam disponíveis.

Essa é a mágica.

O narrador nunca precisa gritar que aquilo é engraçado.

O universo considera tudo perfeitamente razoável.


☕ CAPÍTULO 19

Douglas Adams aplicado ao mainframe

Imagine um diálogo.

— Por que esse programa existe?

— Porque processa o arquivo XPTO.

— Por que o arquivo XPTO existe?

— Porque alimenta o sistema ABC.

— Por que ABC precisa disso?

— Não sabemos.

— Quem escreveu?

— Aposentou em 1994.

— Existe documentação?

— Sim.

— Onde?

— Num dataset arquivado.

— Qual?

— Não sabemos.

— Então como sabemos que funciona?

— O job termina RC=0.

Arthur Dent provavelmente perguntaria:

— Isso é normal?

Ford Prefect responderia:

— Em sistemas enterprise, aparentemente sim.


🥚 CAPÍTULO 20

Easter eggs para carregar na toalha

Algumas pequenas delícias do universo Adams:

42 escapou dos livros e virou referência cultural gigantesca, aparecendo repetidamente em tecnologia, matemática recreativa e cultura hacker. (Douglas Adams)

O asteroide 18610 Arthurdent recebeu o nome inspirado no protagonista do Guia. (The Christian Science Monitor)

O nome Babel Fish atravessou a ficção e foi parar em tecnologia de tradução. (Estante Virtual)

O nome Deep Thought também encontrou ecos no mundo da computação. (Douglas Adams)

E existe ainda o objeto mais importante que um viajante pode carregar:

a toalha.

Porque uma pessoa que sabe onde está sua toalha claramente possui controle da situação.

Mesmo quando absolutamente não possui.


🧺 CAPÍTULO 21

Towel Day

Depois da morte de Adams, fãs transformaram a toalha em homenagem.

Todo 25 de maio, admiradores celebram o Towel Day carregando uma toalha.

Parece ridículo.

Naturalmente.

Por isso funciona.

Um monumento tradicional provavelmente seria inadequado.

Douglas criou uma mitologia em que um objeto banal tornou-se símbolo de preparação diante do caos.

Talvez seja justamente por isso que a ideia sobreviveu.



🧬 CAPÍTULO 22

Douglas Adams era um personagem de Douglas Adams

E finalmente chegamos à suspeita inicial.

Observe este homem.

Quase dois metros de altura.

Escritor de comédia.

Passa por Monty Python.

Vai trabalhar em Doctor Who.

Inventa um livro eletrônico fictício décadas antes de carregarmos enciclopédias no bolso.

Apaixona-se por computadores.

Escreve videogames.

Convive com músicos.

Batiza álbum do Pink Floyd.

Viaja pelo planeta procurando espécies ameaçadas.

Participa de uma aventura envolvendo uma fantasia de rinoceronte.

Tem problemas com deadlines.

Escreve sobre um inglês confuso tentando compreender um universo incompreensível.

E morre cedo demais, aos 49 anos, em 11 de maio de 2001, em Santa Barbara, Califórnia. (Wikipedia)

Agora imagine que você encontrou essa descrição dentro de um romance de Douglas Adams.

Você acreditaria imediatamente.


📖 CAPÍTULO 23

O Salmão da Dúvida

Após sua morte surgiu:

The Salmon of Doubt

publicado em 2002.

A coletânea reuniu textos, ensaios e material relacionado ao romance que Adams deixou inacabado. (Wikipedia)

O título parece adequado.

Porque terminar tudo perfeitamente seria pouco característico.

Douglas deixou processos rodando.

Alguns nunca chegaram ao:

END-OF-JOB

Talvez isso também faça parte do encanto.


🧠 CAPÍTULO 24

O que um programador pode aprender com Douglas Adams

Muito.

Primeiro:

questione requisitos.

Deep Thought encontrou a resposta correta para uma pergunta que ninguém conhecia.

Segundo:

sistemas existem dentro de sistemas.

Dirk Gently aprovaria qualquer investigação séria de incidente.

Terceiro:

tecnologia também é cultura.

Adams percebeu isso cedo.

Quarto:

complexidade não significa inteligência.

Os Vogons possuem processos extremamente sofisticados.

Continuam sendo Vogons.

Quinto:

documentação importa.

Especialmente antes de demolir planetas.

Sexto:

nunca confunda sucesso técnico com sucesso real.

MAXCC=0

não significa:

PROBLEMA RESOLVIDO

Deep Thought provavelmente retornaria RC=0.

E ainda assim ninguém saberia a pergunta.


🚀 CAPÍTULO 25

E talvez esta seja sua maior obra

Douglas Adams escreveu sobre o espaço.

Mas seu assunto nunca foi realmente o espaço.

Escreveu sobre alienígenas.

Mas estava falando de humanos.

Escreveu sobre computadores.

Mas estava falando sobre nossa fé em respostas automáticas.

Escreveu sobre burocratas alienígenas.

Mas todos já encontramos Vogons.

Escreveu sobre Arthur Dent perdido no universo.

Mas Arthur somos nós.

Acordamos.

Tomamos café.

Abrimos o notebook.

Recebemos um ticket.

Descobrimos que alguém mudou alguma coisa durante a madrugada.

Perguntamos por quê.

Ninguém sabe.

Descobrimos que existe documentação.

Não temos acesso.

Encontramos o responsável.

Ele saiu da empresa.

Finalmente encontramos a resposta.

42.

Perguntamos qual era a pergunta.

E nesse instante, em algum lugar além do Restaurante no Fim do Universo, um inglês gigantesco provavelmente começa a rir.


☕ EPÍLOGO

DON'T PANIC

Talvez essa seja a melhor homenagem possível a Douglas Adams.

Não transformá-lo numa estátua.

Ele provavelmente acharia extremamente constrangedor.

Melhor imaginá-lo chegando ao CPD do Bellacosa Mainframe.

Observando um IBM Z.

Perguntando:

— Há quanto tempo isso está funcionando?

— Algumas aplicações, décadas.

Douglas olha para o operador.

— E vocês sabem exatamente tudo o que elas fazem?

Silêncio.

Ele observa os milhares de jobs.

Os programas COBOL.

As transações CICS.

Os datasets.

Os logs.

As interfaces.

As APIs.

As regras comerciais escritas por pessoas que talvez já tenham se aposentado.

Então sorri.

— Fascinante.

Pega sua toalha.

Abre o terminal.

E pergunta:

READY

LISTCAT

O sistema responde.

Douglas pensa alguns segundos.

— Bellacosa...

— Sim?

— Acho que finalmente descobri o computador que deveria calcular a pergunta.

E em algum lugar do JES2 aparece:

JOB DEEPTHOT SUBMITTED

$HASP373 DEEPTHOT STARTED

Estimativa de conclusão:

7.500.000 anos.

Prioridade:

NORMAL.

SLA:

segunda-feira.

E o operador, sem sequer levantar os olhos da tela, responde:

— Normal. É fechamento.

Douglas pega sua toalha.

Sorri.

E vai procurar o Restaurante no Fim do Universo.


🐬 Até mais, Douglas.

Obrigado pelos livros.

Obrigado pelos computadores.

Obrigado pelos rinocerontes.

Obrigado por Arthur, Ford, Marvin, Zaphod, Trillian e Dirk.

Obrigado por demonstrar que filosofia e besteirol podem compartilhar a mesma biblioteca.

Obrigado por ensinar que a resposta pode estar correta e ainda assim ser completamente inútil.

E, sobretudo...

obrigado por todos os peixes.

DON'T PANIC.

KNOW WHERE YOUR TOWEL IS.

E jamais aceite MAXCC=0 como resposta para a Vida, o Universo e Tudo Mais.


Para explorar a obra: site oficial de Douglas Adams

Outras maluquices











terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Deir el-Medina: Greve, Cerveja, Fofoca, Paneb e o Escorpião que Inventou o RH

Bellacosa Mainframe e a divertida historia de Deir El Medina ostracos fofoqueiros

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Deir el-Medina: Greve, Cerveja, Fofoca, Paneb e o Escorpião que Inventou o RH

🏺 Há 3.200 anos o faraó tinha trabalhadores especializados, folha de presença, chefes problemáticos, salário atrasado, greve e desculpas para faltar ao serviço. Em outras palavras: inventamos muito pouco desde então.

Existe uma mentira confortável que contamos sobre o passado.

Imaginamos que os antigos eram antigos.

Homens solenes olhando para o horizonte.

Sacerdotes caminhando entre colunas.

Faraós contemplando a eternidade.

Escribas registrando os movimentos das estrelas.

Construtores erguendo monumentos destinados a desafiar os milênios.

Tudo acompanhado por alguma música épica de documentário.

Então aparece um pedaço de calcário de Deir el-Medina e diz:

O sujeito não veio trabalhar porque foi picado por um escorpião.

Pronto.

Acabaram-se três milênios de distância histórica.

Conhecemos esse sujeito.

Provavelmente já trabalhamos com ele.

E, considerando a quantidade de escorpiões no Egito, existe uma possibilidade bastante razoável de que o pobre coitado estivesse dizendo a mais absoluta verdade.

Mas isso não importa.

Porque em algum momento ocorreu uma conversa que, traduzida livremente para o idioma universal da burocracia, deve ter sido mais ou menos assim:

— Cadê o funcionário?

— Não veio.

— Motivo?

— Escorpião.

— CID?

— Ainda não inventaram.

— Atestado?

— Também não.

— Testemunha?

— O escorpião.

— Onde ele está?

— Foi promovido a falecido.

— Certo. Escreva na pedra.

E escreveram.



🦂 O escorpião entrou para a História

O British Museum conserva o óstraco EA5634, datado aproximadamente de 1250 a.C., durante o reinado de Ramsés II.

Não é uma piada moderna.

É essencialmente uma folha de presença.

São nomes de trabalhadores, dias e razões pelas quais determinadas pessoas não compareceram ao serviço.

O registro cobre nada menos que 280 dias.

E entre os motivos de ausência estão doenças, problemas nos olhos e a gloriosa anotação:

“The scorpion stung him.”

O escorpião o picou.

Há mais de cem registros relacionados a doença. Também aparecem trabalhadores afastados porque estavam acompanhando superiores para realizar trabalhos particulares — prática que, segundo o próprio British Museum, não era necessariamente proibida quando mantida dentro de certos limites.

Portanto, outra grande tradição corporativa já existia:

— Cadê Nakhtmin?

— O chefe levou.

— Para a obra?

— Não.

— Para onde?

— Resolver um negócio particular.

— Durante o expediente?

— Sim.

— Isso pode?

— Se não abusar.

Consultoria interna não faturável, versão Ramsés II.



🍺 Um brinde ao homem que estava fazendo cerveja

Entre as justificativas preservadas em registros de Deir el-Medina aparecem tarefas domésticas e atividades relacionadas à preparação de cerveja.

Antes de julgarmos nosso herói, porém, é necessário lembrar que cerveja no Egito antigo não era simplesmente o equivalente faraônico de alguém faltar ao escritório porque resolveu produzir uma IPA artesanal na garagem.

Era alimento.

Era parte da economia doméstica.

Era importante na vida cotidiana.

Portanto, “fazer cerveja” podia ser uma atividade perfeitamente legítima.

Mas não estraguemos uma ótima história com contexto histórico demais.

Ergamos nossos copos ao desconhecido trabalhador que, três milênios depois, continua involuntariamente representando todos aqueles que olharam para o trabalho numa segunda-feira e pensaram:

Hoje não.

🍺

Um brinde também ao escriba que registrou aquilo.

Porque fazer cerveja é temporário.

Documentar que alguém faltou para fazer cerveja é eternidade.



👽 Então chegaram os Vogons

Ou talvez eles já estivessem lá.

Douglas Adams imaginou uma raça alienígena tão burocrática que seria capaz de destruir a Terra porque os planos para uma via expressa interestelar estavam disponíveis para consulta em algum arquivo impossível de encontrar.

Mas Deir el-Medina sugere outra hipótese:

os Vogons fizeram estágio no Egito.

Imagine o Ministério das Tumbas Reais.

FORMULÁRIO DEM-27B — JUSTIFICATIVA DE AUSÊNCIA

Nome: ______________________

Equipe: ☐ esquerda ☐ direita

Motivo:

☐ doença
☐ problema ocular
☐ obrigação familiar
☐ serviço particular solicitado pelo chefe
☐ fabricação de cerveja
☐ atividade religiosa
☐ escorpião
☐ outros — anexar óstraco complementar

Em caso de escorpião, informar:

☐ picada confirmada
☐ tentativa de picada
☐ escorpião indisponível para depoimento
☐ escorpião morto durante o incidente

Assinatura do supervisor: __________________

Assinatura do escorpião: __________________



🏘️ Mas Deir el-Medina não era uma cidade qualquer

A graça da história fica ainda maior quando entendemos quem eram essas pessoas.

Deir el-Medina abrigava trabalhadores altamente especializados responsáveis pela construção e decoração das tumbas reais da região tebana.

Pedreiros.

Desenhistas.

Escultores.

Pintores.

Escribas.

Capatazes.

Artesãos.

Gente que trabalhava em um dos projetos tecnologicamente e artisticamente mais sofisticados de sua civilização.

E justamente porque aquela comunidade possuía um nível incomum de documentação, ela nos deixou algo extraordinário:

o cotidiano.

Os grandes monumentos dizem o que o Estado queria dizer.

Os óstracos dizem o que aconteceu enquanto o Estado estava olhando para outro lado.



🗣️ FOFOCA

Porque nenhuma tecnologia humana jamais superou a fofoca.

Antes da imprensa.

Antes do telefone.

Antes do WhatsApp.

Antes do Facebook.

Antes do Slack.

Antes do Teams.

Já existia:

“Você soube o que fulana fez?”

Deir el-Medina preservou cartas, reclamações, disputas domésticas, acusações e conflitos entre pessoas que viveram lado a lado durante gerações.

Era uma comunidade relativamente pequena.

Todo mundo conhecia todo mundo.

Filhos trabalhavam com filhos dos colegas.

Famílias casavam entre si.

Vizinhos discutiam.

Dívidas existiam.

Casamentos davam errado.

Autoridades eram chamadas para resolver conflitos.

Alguém inevitavelmente sabia alguma coisa sobre alguém.

Portanto, podemos propor com razoável segurança antropológica que o primeiro protocolo de comunicação distribuída realmente tolerante a falhas foi:

GOSSIP/1.0

FULANA disse
   ↓
para SICRANA
   ↓
que BELTRANA ouviu
   ↓
de outra pessoa
   ↓
que PANEB fez merda.

E então chegamos a Paneb.


😈 PANEB

Toda boa comunidade precisa de um personagem sobre o qual ninguém consegue contar uma história curta.

Deir el-Medina tinha Paneb.

O principal documento é o chamado Papiro Salt 124.

E aqui precisamos colocar um enorme:

⚠️ ALLEGEDLY

Paneb foi objeto de uma denúncia extraordinária.

As acusações atribuídas a Amennakht incluem suborno, roubo, violência, abuso de poder, irregularidades sexuais e outras condutas.

Mas existe uma questão maravilhosa para o historiador:

o denunciante tinha seus próprios interesses.

Paneb ocupava uma posição importante como chefe de trabalhadores, e o documento deve ser lido como uma acusação — não como sentença judicial moderna contendo fatos definitivamente comprovados.

Um estudo dedicado ao caso alerta justamente para possíveis exageros, distorções, boatos e parcialidade na denúncia.

Em outras palavras:

temos política de escritório.

Há 3.200 anos.

Paneb pode ter sido um canalha extraordinário.

Pode ter sido um canalha moderado com um inimigo extraordinariamente competente em produzir documentação.

Ou alguma combinação dos dois.

Mas a lista de acusações é tão impressionante que Paneb parece ter descoberto o conceito de compliance apenas para poder violá-lo sistematicamente.


📋 INCIDENT REPORT — PANEB

USER................ PANEB
ROLE................ CHIEF WORKMAN
ENVIRONMENT......... DEIR-EL-MEDINA
SEVERITY............. SEV-1
STATUS............... INVESTIGATING

ALLEGATIONS:

[!] abuso de autoridade
[!] violência
[!] apropriação indevida
[!] suborno
[!] uso irregular de trabalhadores
[!] comportamento sexual impróprio
[!] tretas diversas

ROOT CAUSE:
Pending investigation.

RECOMMENDED ACTION:
Do not give Paneb administrative privileges.

O mais fascinante é que o caso não nos revela apenas Paneb.

Revela conflito de interesse.

Quem acusa?

Por quê?

Quem ganha se o acusado perder o cargo?

Quanto da acusação é fato?

Quanto é interpretação?

Quanto é fofoca?

Quanto foi acrescentado porque, já que estamos denunciando o sujeito, podemos colocar aquela história do ano passado também?

Isso não é apenas arqueologia.

É uma reunião de RH.


⚖️ O primeiro princípio universal da política

Aqui Deir el-Medina ensina algo delicioso:

Duas pessoas podem observar exatamente o mesmo acontecimento e produzir narrativas completamente diferentes.

E nada demonstra isso melhor que a famosa greve.

No reinado de Ramsés III, problemas políticos e econômicos afetaram o fornecimento das rações que constituíam pagamento dos trabalhadores.

Eles trabalharam.

A remuneração não chegou adequadamente.

E os trabalhadores fizeram uma coisa revolucionariamente moderna:

pararam de trabalhar.

O chamado Papiro da Greve, hoje conservado pelo Museo Egizio de Turim, registra o conflito. O museu confirma que os trabalhadores interromperam suas atividades por causa das rações não entregues e que o conflito com as autoridades se prolongou.

E então podemos fazer uma experiência.

O mesmo acontecimento.

Dois jornais.


📰 THE THEBES CONSERVATIVE

🚨 RADICAIS PARALISAM PROJETO ESTRATÉGICO DO FARAÓ

Grupo organizado abandona postos, atravessa área de controle e pressiona autoridades em meio à delicada situação econômica do reino

Tebas — Trabalhadores envolvidos em projeto estratégico do Estado interromperam unilateralmente suas atividades e realizaram concentração nas proximidades de instalações religiosas.

O movimento ocorre em momento delicado para a administração de Ramsés III.

Representantes dos trabalhadores alegam problemas no fornecimento de rações.

Críticos, porém, questionam:

seria realmente necessário abandonar o trabalho?

Fontes próximas à administração lembram que dificuldades logísticas podem ocorrer em qualquer grande empreendimento.

Especialistas alertam que ceder às reivindicações poderá criar perigoso precedente:

Hoje querem grãos.

Amanhã quem sabe o quê?

Um cidadão ouvido pelo The Thebes Conservative, que pediu anonimato por trabalhar no Ministério dos Obeliscos, declarou:

— No meu tempo, se faltasse peixe, a gente trabalhava com fome.

Questionado sobre sua idade, respondeu:

— 24.


✊ A VOZ DO NILO

HERÓIS DO POVO CRUZAM OS BRAÇOS: “ESTAMOS COM FOME!”

Trabalhadores que constroem a eternidade do faraó exigem algo radical: receber pelo trabalho realizado

DEIR EL-MEDINA — Enquanto autoridades vivem cercadas pelas riquezas do reino, trabalhadores responsáveis pelas tumbas reais foram obrigados a interromper suas atividades após atrasos nas provisões essenciais.

Eles não exigiram palácios.

Não exigiram ouro.

Não exigiram carruagens.

Exigiram:

COMIDA.

Os trabalhadores atravessaram o posto de controle e fizeram uma espécie de ocupação pacífica próxima aos templos.

A mensagem dirigida às autoridades foi inequívoca:

“Estamos com fome!”

A administração, confrontada com a inédita possibilidade de que pessoas precisam comer para continuar trabalhando, iniciou negociações.


😂 MESMO INCIDENTE. DUAS TIMELINES.

E é justamente aí que a brincadeira deixa de ser apenas brincadeira.

O Museo Egizio preserva palavras extraordinárias dos trabalhadores.

Eles atravessaram o posto de controle dizendo:

“Estamos com fome!”

O documento informa que já haviam transcorrido 18 dias naquele mês e que os homens foram sentar-se atrás do templo funerário de Tutmés III. Diante das autoridades, explicaram que fome e sede os haviam levado àquela situação e pediram que suas palavras fossem transmitidas ao faraó e ao vizir.

É difícil encontrar uma reivindicação política mais simples.

Não era:

TRABALHADORES DE TODO O NILO, UNI-VOS!

Karl Marx demoraria aproximadamente outros três milênios para nascer.

Também não era:

ABAIXO O ESTADO FARAÔNICO!

Bakunin estava igualmente indisponível.

Era:

PAGUEM A COMIDA.


🚩 ANARQUISTAS!

Um comentarista conservador imaginário de 1150 a.C. certamente teria dito:

— Isso começa assim.

— Como?

— Primeiro eles reclamam das rações.

— Certo.

— Depois fazem uma paralisação.

— Sim.

— Daqui a pouco querem derrubar o faraó.

— Eles disseram isso?

— Não.

— Então de onde você tirou?

— É óbvio.

Enquanto nosso comentarista popular responderia:

— Esses homens constroem a eternidade do faraó e não conseguem receber o jantar?

E aí está a beleza.

Interesses diferentes produzem leituras diferentes do mesmo acontecimento.

O administrador precisa terminar a tumba.

O trabalhador precisa alimentar a família.

O escriba precisa registrar o problema.

O faraó provavelmente preferia que todo mundo simplesmente voltasse ao trabalho.

E o historiador, três mil anos depois, agradece profundamente porque:

ninguém conseguiu resolver a treta antes que fosse documentada.


🧑‍💼 O verdadeiro herói é o burocrata

Existe, entretanto, um personagem que merece nosso respeito.

O escriba.

Porque pense nisso.

Trabalhadores furiosos.

Administração pressionada.

Rações atrasadas.

Gente sentada no templo.

Negociação.

Reclamação.

Provavelmente todo mundo falando ao mesmo tempo.

E alguém pensou:

“É melhor documentar isso.”

Esse homem é o ancestral espiritual do operador que, no meio de um SEV-1, escreve:

14:37 - users report issue
14:42 - batch stopped
14:51 - management notified
15:03 - workers still hungry
15:07 - Pharaoh informed
15:09 - awaiting response

Graças a ele estamos rindo da situação três milênios depois.


🏺 A verdadeira máquina do tempo

É por isso que um óstraco pode ser mais emocionante do que uma estátua.

Uma estátua de Ramsés diz:

EU SOU RAMSÉS, PODEROSO REI.

Sabemos.

Obrigado, Ramsés.

Você escreveu isso em aproximadamente 40 mil lugares.

Mas o óstraco diz:

Pennub não veio trabalhar hoje.

Imediatamente quero saber:

Por quê?

Onde estava?

A mulher brigou com ele?

Estava doente?

Estava cuidando de alguém?

Foi fazer cerveja?

O chefe levou para algum serviço particular?

Ou...

🦂

foi o sacaninha do escorpião?


🦂 EM DEFESA DO ESCORPIÃO

Também devemos reconhecer que estamos ouvindo apenas um lado dessa história.

Durante aproximadamente 3.200 anos, o escorpião não teve direito de resposta.

O registro diz:

“The scorpion stung him.”

Mas onde está o depoimento do escorpião?

Onde está a perícia?

Havia testemunhas?

O trabalhador provocou o animal?

Tratava-se realmente de um escorpião?

O suspeito foi identificado numa fila?

Portanto, em nome dos princípios fundamentais da justiça:

inocente até prova em contrário.

O escorpião pode ter sido vítima de uma fraude trabalhista faraônica.

Imagine:

— Chefe, não vou conseguir ir.

— Por quê?

— Escorpião.

— De novo?

— Outro.

— Você mora onde?

— Deir el-Medina.

— Certo. Faz sentido.


🍺 E VOLTAMOS À CERVEJA

Talvez seja apropriado terminar exatamente onde começamos.

Com trabalhadores.

Não reis.

Não deuses.

Não generais.

Trabalhadores.

Pessoas que adoeciam.

Pessoas que cuidavam de parentes.

Pessoas que tinham problemas domésticos.

Pessoas que deviam dinheiro.

Pessoas que brigavam.

Pessoas que fofocavam.

Pessoas que acusavam outras pessoas.

Pessoas que tinham chefes.

Pessoas que eram chefes terríveis.

Pessoas que precisavam comer.

Pessoas que, quando não receberam, pararam de trabalhar.

Pessoas que eventualmente precisavam fazer cerveja.

E uma pessoa que, em algum momento, teve um encontro profissionalmente inconveniente com um escorpião.

Essa talvez seja a maior descoberta de Deir el-Medina:

não existe “homem antigo”.

Existe apenas o homem.

Mudam as ferramentas.

Mudam os governos.

Mudam os idiomas.

Mudam as religiões.

Calcário vira papiro.

Papiro vira papel.

Papel vira banco de dados.

Banco de dados vira ServiceNow.

Mas continua existindo:

FUNCIONÁRIO
   ↓
CHEFE
   ↓
PAGAMENTO
   ↓
FOFOCA
   ↓
TRETA
   ↓
FORMULÁRIO

E, ocasionalmente:

ESCORPIÃO
   ↓
INCIDENTE
   ↓
AUSÊNCIA
   ↓
JUSTIFICATIVA
   ↓
ARQUIVAMENTO
   ↓
3200 ANOS
   ↓
INTERNET
   ↓
NÓS RINDO

☕ Um último café em Deir el-Medina

Imagine sentar naquela aldeia ao fim do expediente.

O sol desaparecendo atrás das montanhas de Tebas.

Alguém trazendo pão.

Outro homem reclamando do supervisor.

Uma mulher contando o que a vizinha disse.

Um trabalhador dizendo que as rações continuam atrasadas.

Ao longe, Paneb provavelmente sendo acusado de alguma coisa.

O escriba anotando.

E alguém aparece carregando uma jarra.

— Quem fez a cerveja?

Silêncio.

Um homem levanta a mão.

— Você não deveria estar trabalhando hoje?

— Deveria.

— E por que não estava?

Ele aponta para a jarra.

Justo.

Sirva.

Porque reis morrerão.

Dinastias desaparecerão.

Impérios cairão.

A língua será esquecida.

As tumbas serão saqueadas.

E três milênios depois outros trabalhadores estarão sentados diante de máquinas incompreensíveis, reclamando do chefe, do salário, do colega, do governo e daquela reunião que poderia perfeitamente ter sido um e-mail.

Então levantemos a caneca.

🍺 Ao cervejeiro.

🦂 Ao escorpião — culpado ou injustamente acusado.

📜 Ao escriba que documentou a bagunça.

Aos perigosos revolucionários que cometeram o ato subversivo de querer receber o pagamento.

👔 À administração que provavelmente classificou tudo como problema temporário de logística.

😈 E a Paneb, que nos lembra que o primeiro requisito para existir compliance é alguém suficientemente criativo para tornar compliance necessário.

Mas principalmente:

um brinde às pessoas comuns de Deir el-Medina.

Os faraós gastaram fortunas tentando conquistar a imortalidade.

Construíram tumbas.

Esculpiram montanhas.

Cobriram paredes com seus nomes.

Mandaram escrever que seriam lembrados eternamente.

E funcionou.

Mas um trabalhador desconhecido conseguiu praticamente a mesma coisa faltando ao serviço porque...

um maldito escorpião o picou.

Douglas Adams teria compreendido perfeitamente.

DON'T PANIC.

Preencha o óstraco.

Para ir mais longe

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PS: Construímos arranha-céus, satélites, inteligência artificial, PIX, computadores quânticos e mainframes capazes de processar bilhões de transações.

O escorpião continua conseguindo abrir incidente.

🦂 3.200 anos depois: o escorpião ainda está em produção

O faraó desapareceu.

Deir el-Medina foi abandonada.

O Império Romano acabou.

Os Vogons ainda aguardam aprovação do formulário A38.

COBOL apareceu.

A Internet apareceu.

A inteligência artificial apareceu.

Mas em algum lugar do Brasil um trabalhador manda mensagem:

“Chefe, não vou hoje. Fui picado por um escorpião.”

E, pela primeira vez, o gerente deveria respeitar não apenas o atestado.

Deveria respeitar a tradição histórica da justificativa.

É um processo de negócio com pelo menos 3.200 anos de uptime. 🦂😂



Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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