☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta FOMO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta FOMO. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

As Armadilhas Invisíveis dos Games Modernos Quando um Programador COBOL Descobre que o Verdadeiro Boss Nem Sempre Está na Dungeon...

 

Bellacosa Mainframe e as perigosas armadilhas inviseis nos games modernos

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

As Armadilhas Invisíveis dos Games Modernos

Quando um Programador COBOL Descobre que o Verdadeiro Boss Nem Sempre Está na Dungeon... Às Vezes Ele Está no Departamento de Marketing

Há alguns anos, comprar um jogo era uma experiência extremamente simples.

Você entrava em uma loja.

Comprava uma caixa.

Instalava.

Jogava.

Terminava.

Talvez descobrisse alguns segredos.

Emprestava para um amigo.

Fim da história.

Hoje...

A situação mudou completamente.

Muitos jogos deixaram de competir apenas pela qualidade.

Agora competem por algo muito mais valioso.

O seu tempo.

E, principalmente...

Sua atenção.

Para um programador COBOL isso lembra muito a evolução dos sistemas corporativos.

Antigamente um programa fazia apenas uma função.

Hoje ele coleta métricas.

Envia telemetria.

Analisa comportamento.

Sugere novas ações.

Cria notificações.

Tudo cuidadosamente planejado.

Os jogos modernos seguiram exatamente o mesmo caminho.

Nem sempre para o mal.

Mas certamente de maneira muito mais sofisticada.

Pegue seu café.

Hoje vamos entender as maiores armadilhas psicológicas da indústria dos games.


A origem

Durante as décadas de 1980 e 1990, a maioria dos jogos era vendida como um produto completo.

Você comprava.

Jogava.

E pronto.

O lucro do desenvolvedor dependia apenas da venda inicial.

Mas no início dos anos 2000 surgiu uma nova ideia.

E se o jogador continuasse gastando dinheiro...

Mesmo depois da compra?

Assim nasceram diversos modelos de monetização.

Primeiro vieram:

  • expansões;

  • DLCs;

  • assinaturas.

Depois apareceram:

  • microtransações;

  • loot boxes;

  • passes de batalha;

  • moedas virtuais.

A partir desse momento...

O objetivo deixou de ser apenas divertir.

Também passou a ser reter o jogador durante o maior tempo possível.


O que é FOMO?

FOMO significa:

Fear Of Missing Out

Ou em português.

Medo de ficar de fora.

É uma técnica psicológica muito conhecida.

Imagine.

O jogo anuncia.

"Esta roupa lendária desaparecerá em apenas 48 horas."

Você talvez nem goste muito dela.

Mas pensa.

"E se nunca mais voltar?"

Então compra.

Não porque precisava.

Mas porque teve medo de perder.


O FOMO no mundo dos games

Ele aparece de inúmeras formas.

Eventos temporários.

Itens exclusivos.

Passe de batalha.

Temporadas.

Missões limitadas.

Skins comemorativas.

Personagens raros.

Tudo pensado para provocar urgência.

Curiosamente.

A urgência quase nunca melhora o jogo.

Ela melhora apenas a receita financeira.


Battle Pass

Outra invenção moderna.

Funciona assim.

Você compra um passe.

Agora precisa jogar dezenas ou centenas de horas antes que ele expire.

Perceba a mudança.

Antes você jogava porque queria.

Agora joga porque já pagou.

É uma diferença enorme.


Login Diário

Talvez a armadilha mais antiga.

O jogo oferece.

Dia 1.

100 moedas.

Dia 2.

200 moedas.

Dia 7.

Item raro.

Dia 30.

Personagem exclusivo.

O objetivo não é recompensar.

É criar hábito.


Loot Boxes

Imagine comprar uma caixa fechada.

Você não sabe o conteúdo.

Pode vir.

Um item comum.

Ou um lendário.

Isso lembra muito máquinas caça-níqueis.

Por isso diversos países passaram a discutir regulamentações específicas.


Gacha

Muito popular em jogos asiáticos.

Você utiliza moedas.

Realiza um "sorteio".

Recebe personagens aleatórios.

A probabilidade normalmente favorece itens comuns.

Os raros possuem chances extremamente pequenas.

É praticamente um sistema de loteria.


Energia

Outra mecânica bastante comum.

Você possui.

100 pontos.

Cada missão consome energia.

Quando acaba.

Existem duas opções.

Esperar.

Ou pagar.

Perceba.

O obstáculo não é a dificuldade.

É o relógio.


Skin Exclusiva

Em teoria.

Não altera a jogabilidade.

Mas mexe com outro aspecto humano.

Pertencimento.

Status.

Exclusividade.

O jogador deseja mostrar.

"Eu participei daquele evento."


Power Creep

Uma armadilha menos conhecida.

Imagine.

Hoje existe uma espada poderosa.

Na próxima atualização.

Surge outra.

Ainda mais forte.

Depois outra.

Mais poderosa.

Resultado.

Seu equipamento antigo perde valor.

O ciclo nunca termina.


Grinding Artificial

Existe diferença entre progresso.

E repetição.

Alguns jogos aumentam artificialmente o tempo necessário para evoluir.

Não porque seja divertido.

Mas porque isso aumenta o tempo de permanência.


Economia Inflacionada

Outra técnica.

Tudo fica extremamente caro.

Você pode conseguir jogando.

Mas demorará semanas.

Ou...

Comprar moedas.

Em poucos minutos.


Eventos Semanais

A ideia parece excelente.

Mas existe um detalhe.

Se você viajar.

Trabalhar.

Ou simplesmente descansar.

Perde recompensas.

Novamente.

FOMO.


Missões Diárias

Elas existem para criar rotina.

Não necessariamente diversão.

Muitos jogadores deixam de escolher o que desejam fazer.

Passam apenas a cumprir uma lista de tarefas.

Quase como um segundo emprego.


Notificações

Celular.

E-mail.

Push.

Lembretes.

Tudo tentando dizer.

"Seu personagem sente sua falta."

Na realidade.

Quem sente falta é o algoritmo de retenção.


A psicologia por trás disso

Os desenvolvedores estudam profundamente áreas como.

  • psicologia comportamental;

  • economia comportamental;

  • reforço variável;

  • recompensas imprevisíveis.

O objetivo.

Fazer você voltar amanhã.


Mas isso significa que todos os jogos fazem isso?

Não.

Felizmente não.

Existem inúmeros jogos criados para serem apenas...

Jogos.

Como por exemplo.

  • Stardew Valley

  • Core Keeper

  • Outward

  • Kynseed

  • Dinkum

  • Len's Island

  • Necesse

  • Terraria

  • Valheim

  • Factorio

Você compra.

Instala.

E joga.

Sem ansiedade.


Curiosidades

Existe uma estatística interessante.

Muitos jogadores passam mais tempo organizando inventários.

Do que realmente explorando.

Outro fato curioso.

Alguns jogos possuem equipes inteiras dedicadas exclusivamente à economia virtual.

Maior que a equipe responsável pela história.


Easter Egg

Uma curiosidade divertida.

Os primeiros Easter Eggs surgiram justamente como uma forma de premiar a curiosidade.

Não havia dinheiro envolvido.

Nem DLC.

Nem loja.

Era apenas um presente escondido.

O termo "Easter Egg" ficou famoso após o jogo Adventure, lançado para o Atari 2600 em 1979. O programador Warren Robinett escondeu uma sala secreta contendo seu próprio nome, algo incomum para a época, já que os desenvolvedores normalmente não recebiam crédito nos jogos. Desde então, Easter Eggs passaram a simbolizar pequenos segredos deixados pelos criadores para os jogadores mais curiosos.


Os cuidados que um gamer iniciante deve ter

1. Nunca compre por impulso

Espere.

Leia avaliações.

Assista gameplay.


2. Não caia no FOMO

Se um item desaparece amanhã...

Provavelmente outro aparecerá depois.


3. Evite gastar dinheiro emocionalmente

Frustração.

Ansiedade.

Competição.

São péssimos momentos para comprar.


4. Aprenda a diferença entre diversão e obrigação

Se o jogo parece trabalho.

Talvez esteja na hora de descansar.


5. Valorize jogos completos

Eles normalmente envelhecem melhor.


6. Fuja do Pay-to-Win

Quando dinheiro compra vantagem competitiva.

O equilíbrio desaparece.


7. Controle o tempo

Nem todo progresso precisa acontecer hoje.


8. Cuidado com influenciadores

Nem toda recomendação é totalmente imparcial.

Pesquise antes.


O Caminho do Padawan Gamer

No Bellacosa Mainframe existe uma filosofia.

Primeiro.

Aprenda.

Depois.

Otimize.

Nunca o contrário.

Para um jogador iniciante.

Isso significa.

✔ descubra o mundo;

✔ aproveite a história;

✔ explore;

✔ converse com NPCs;

✔ leia documentos;

✔ descubra Easter Eggs;

✔ divirta-se.

Não transforme imediatamente um hobby em uma corrida por eficiência.


A maior curiosidade de todas

Os jogos que costumam permanecer vivos por décadas...

São justamente aqueles que não tentam controlar o jogador.

Pense em:

  • Minecraft

  • Terraria

  • Stardew Valley

  • RollerCoaster Tycoon

  • Age of Empires II

  • Doom

  • Half-Life

  • Baldur's Gate

  • Diablo II

Nenhum deles obrigava login diário.

Nenhum exigia passe de batalha.

Nenhum fazia contagem regressiva para uma skin.

Eles permaneceram relevantes porque eram, antes de tudo, divertidos.


Conclusão

Quando um programador COBOL analisa a indústria dos games, percebe uma semelhança curiosa com a evolução dos sistemas corporativos.

No passado, um programa existia para resolver um problema.

Hoje, muitos sistemas também medem comportamento, coletam métricas e tentam influenciar decisões. Nos jogos, isso se traduz em notificações, recompensas temporárias, moedas virtuais e eventos limitados. Essas ferramentas não são necessariamente ruins por si só, mas podem transformar a diversão em obrigação quando usadas de forma excessiva.

A boa notícia é que ainda existem inúmeros títulos que seguem outra filosofia. Jogos como Stardew Valley, Outward, Core Keeper, Kynseed, Necesse, Dinkum e Moonstone Island demonstram que é possível criar experiências profundas, relaxantes e recompensadoras sem depender de ansiedade ou urgência artificial.

Talvez essa seja a maior lição desta conversa.

O melhor jogo nunca é aquele que consegue prender você.

É aquele que faz você esquecer do relógio porque está realmente se divertindo.

E isso vale tanto para um aventureiro explorando uma dungeon quanto para um veterano diante de um terminal 3270.

Os melhores sistemas são aqueles que trabalham a seu favor.

Nunca aqueles que tentam controlar o seu tempo.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

DotCom: Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo iv

Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

Como investidores, analistas, imprensa e empresários construíram uma ilusão que parecia impossível de dar errado

"O maior perigo de uma bolha financeira não é o excesso de dinheiro. É quando pessoas inteligentes começam a acreditar que as leis da realidade deixaram de existir."

Até este ponto da nossa jornada vimos como a Internet deixou os laboratórios, conquistou empresas, encantou a sociedade e atraiu bilhões de dólares em investimentos.

Mas ainda falta responder uma pergunta fundamental.

Como milhares de investidores extremamente experientes conseguiram acreditar em negócios que claramente não paravam de pé?

Será que ninguém percebeu os problemas?

Será que todos foram enganados?

A resposta é muito mais interessante.

Na maioria dos casos...

As pessoas não estavam sendo irracionais.

Elas estavam olhando para uma tecnologia verdadeiramente revolucionária.

O erro foi concluir que uma revolução tecnológica também significava uma revolução nas leis da economia.

E isso nunca aconteceu.


Quando a Internet Parecia Magia

Volte mentalmente para 1998.

Imagine que você nunca viu um site.

Nunca enviou um e-mail.

Nunca comprou nada pela Internet.

De repente alguém mostra um computador conectado ao mundo inteiro.

Você consegue conversar com pessoas de outro país.

Ler jornais internacionais.

Pesquisar universidades.

Comprar um livro sem sair de casa.

Tudo isso parecia tão extraordinário que muitas pessoas passaram a acreditar que estavam diante da maior transformação econômica desde a Revolução Industrial.

Na verdade...

Talvez estivessem.

Mas uma revolução tecnológica não elimina conceitos básicos como receita, despesa e fluxo de caixa.

Ela apenas muda a forma como esses conceitos são aplicados.


A "Nova Economia"

Poucas expressões foram tão repetidas entre 1998 e 2000 quanto:

New Economy.

A Nova Economia.

Livros foram publicados.

Congressos discutiam o tema.

Revistas estampavam capas afirmando que o capitalismo havia entrado em uma nova fase.

Segundo muitos especialistas da época, empresas digitais deveriam ser avaliadas de maneira completamente diferente das empresas tradicionais.

Por quê?

Porque elas cresceriam infinitamente.

Como seus custos marginais seriam pequenos, bastaria conquistar usuários.

O lucro viria naturalmente.

Essa teoria possuía uma parte verdadeira.

Empresas digitais realmente conseguem escalar muito mais rapidamente.

Entretanto...

Ela ignorava algo essencial.

Nenhum crescimento é infinito.


O Mercado Começou a Precificar Sonhos

Uma empresa tradicional era avaliada principalmente pelo que já havia construído.

Uma empresa da Internet passou a ser avaliada pelo que talvez construísse algum dia.

É uma diferença gigantesca.

Imagine dois restaurantes.

O primeiro possui clientes, lucro e vinte anos de funcionamento.

O segundo acabou de abrir.

Não possui faturamento.

Mas promete que, daqui a dez anos, será a maior rede do planeta.

Qual deles deveria valer mais?

Durante a bolha da Internet, muitas vezes era o segundo.

Porque o mercado deixou de comprar resultados.

Passou a comprar expectativas.


O Papel dos Analistas Financeiros

Outro personagem importante dessa história foi o analista de mercado.

Seu trabalho consiste em estudar empresas e recomendar compra, venda ou manutenção de ações.

Em períodos normais, essas análises costumam ser bastante conservadoras.

Durante a bolha...

Muitos relatórios passaram a utilizar hipóteses extremamente otimistas.

Algumas previsões assumiam que determinadas empresas cresceriam acima de 50% ao ano durante uma década inteira.

Hoje sabemos como isso era improvável.

Naquele momento parecia plausível.

Afinal...

A Internet realmente crescia em ritmo impressionante.


A Mídia Descobriu os Novos Heróis

Os jornais também tiveram papel importante.

Até então, empresários famosos normalmente eram industriais.

Banqueiros.

Executivos.

Presidentes de grandes corporações.

De repente surgia uma nova geração.

Empreendedores de vinte e poucos anos.

Usando camiseta.

Tênis.

Sem gravata.

Criando empresas em garagens.

Eles se tornaram ícones culturais.

As capas das revistas estampavam frases como:

"O próximo Bill Gates."

"O jovem que mudará o mundo."

"A empresa que revolucionará tudo."

Criava-se um ambiente onde sucesso parecia inevitável.

Fracassar deixava de ser considerado uma possibilidade.


O IPO Virou um Evento Nacional

As ofertas públicas de ações transformaram-se em verdadeiros espetáculos.

No dia em que uma startup estreava na bolsa de valores, milhares de investidores corriam para comprar ações.

Pouco importava quanto a empresa faturava.

O importante era entrar antes que o preço subisse.

Em muitos casos...

Subia mesmo.

Ações dobravam.

Triplicavam.

Quadruplicavam em poucos dias.

Isso criava uma sensação extremamente perigosa.

Parecia impossível perder dinheiro.


O Ciclo da Euforia

Toda bolha financeira costuma seguir um padrão bastante semelhante.

Primeiro surgem empresas inovadoras.

Depois aparecem investidores pioneiros.

Esses investidores obtêm grandes retornos.

Os jornais começam a divulgar essas histórias.

Novos investidores chegam.

Os preços aumentam ainda mais.

Mais reportagens são publicadas.

Mais pessoas entram.

Forma-se um ciclo de retroalimentação.

O próprio aumento dos preços passa a ser utilizado como prova de que os preços continuarão aumentando.

É um fenômeno psicológico conhecido como feedback positivo.

Quanto mais sobe...

Mais pessoas acreditam que continuará subindo.


O Medo de Ficar de Fora

Existe um sentimento extremamente poderoso nos mercados financeiros.

O medo de perder uma oportunidade.

Hoje chamamos isso de FOMO (Fear of Missing Out).

Imagine dois colegas de trabalho.

Um deles comprou ações de uma startup.

Em poucos meses dobrou seu patrimônio.

O outro não investiu.

Quem provavelmente começará a sentir ansiedade?

Exatamente.

O segundo.

Esse mecanismo psicológico faz com que investidores deixem de analisar racionalmente os riscos.

Eles passam a comprar apenas porque todos estão comprando.

A lógica desaparece.

A emoção assume o controle.


O Efeito Manada

Na psicologia existe um conceito chamado comportamento de manada.

É a tendência natural de seguir o grupo.

Durante milhares de anos essa característica ajudou nossa espécie a sobreviver.

Se todos corriam...

Provavelmente havia um predador.

Na bolsa de valores esse mesmo mecanismo pode se tornar perigoso.

Se todos estão comprando...

Talvez ninguém esteja pensando.

A bolha das Dot-Com foi um dos maiores exemplos desse comportamento.

Investidores compravam ações porque outros investidores estavam comprando.

Não porque compreendiam profundamente o negócio.


O Viés da Confirmação

Outro fenômeno psicológico apareceu com força.

As pessoas passaram a procurar apenas informações que confirmassem aquilo em que já acreditavam.

Quando uma empresa anunciava crescimento de usuários...

Todos comemoravam.

Quando anunciava prejuízo...

Diziam que isso era normal.

Quando outra startup quebrava...

Afirmavam que era um caso isolado.

Poucos percebiam que dezenas de empresas apresentavam exatamente os mesmos problemas.

Esse fenômeno é chamado de viés de confirmação.

Selecionamos apenas as evidências que reforçam nossas convicções.

Ignoramos o restante.


"Desta Vez é Diferente"

Talvez nenhuma frase seja tão perigosa na história da economia quanto esta:

"Desta vez é diferente."

Ela apareceu na Tulipomania.

Na Railway Mania.

Na bolha imobiliária japonesa.

Na crise das hipotecas de 2008.

E também na bolha da Internet.

Sempre existe alguém afirmando que as regras antigas deixaram de valer.

Que a tecnologia mudou tudo.

Que agora o crescimento será infinito.

Infelizmente...

As leis da matemática continuam exatamente as mesmas.


Enquanto Isso... Dentro de um CPD

Agora imagine um gerente de operações de um grande banco em 1999.

Enquanto Wall Street discutia bilhões em startups, ele precisava responder perguntas muito diferentes.

O backup terminou?

O batch fechou?

A janela noturna foi cumprida?

Os arquivos VSAM ficaram íntegros?

O CICS permaneceu disponível?

O Db2 completou o REORG?

A folha de pagamento será processada amanhã?

Perceba a diferença.

Lá fora...

O mercado discutia expectativas.

Aqui dentro...

O assunto era execução.

Não havia espaço para euforia.

Nem para modismos.

Apenas para resultados concretos.


O NASDAQ Parecia uma Nave em Velocidade de Dobra

Entre 1995 e o início de 2000, o índice NASDAQ tornou-se o principal símbolo do entusiasmo tecnológico.

Empresas de tecnologia valorizavam-se de maneira impressionante.

Cada novo recorde reforçava a ideia de que a Internet havia criado uma riqueza infinita.

Analistas utilizavam gráficos para provar que o crescimento continuaria.

Investidores acreditavam.

Jornalistas repercutiam.

Políticos comemoravam.

Empresários expandiam seus negócios.

Poucos percebiam que boa parte desse crescimento estava sendo sustentada pela própria expectativa de crescimento.

Era uma espécie de motor alimentado pela própria confiança.

Enquanto a confiança existisse...

Tudo funcionava.


O Dia em que a Realidade Bateu à Porta

Existe uma característica curiosa das bolhas financeiras.

Elas não estouram quando todos percebem os problemas.

Elas estouram quando um número suficiente de pessoas começa a fazer perguntas simples.

Como:

Quanto essa empresa realmente fatura?

Ela consegue sobreviver sem novos investidores?

Quando começará a gerar lucro?

Qual seu fluxo de caixa?

Essas perguntas demoraram anos para aparecer.

Mas, quando surgiram...

Mudaram completamente o humor do mercado.

A euforia começou a desaparecer.

E a confiança, que sustentava boa parte da valorização, começou lentamente a evaporar.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Hoje, em 2026, vemos novamente uma enorme onda de entusiasmo em torno da IA.

Modelos generativos impressionam.

Agentes inteligentes prometem transformar empresas.

Investimentos bilionários são anunciados.

Tudo isso é real.

Mas o Padawan COBOL precisa fazer as mesmas perguntas que faltaram durante a bolha da Internet.

Qual problema está sendo resolvido?

Existe um modelo de negócios sustentável?

Quem paga por essa solução?

Ela continuará existindo daqui a dez anos?

Essas perguntas não diminuem a inovação.

Pelo contrário.

Elas ajudam a separar tecnologias duradouras de simples modismos.


Lições para o Padawan COBOL

Existe uma frase muito conhecida entre engenheiros de software:

"O computador executa exatamente aquilo que você programou, não aquilo que você imaginou."

Os mercados financeiros funcionam de maneira semelhante.

Eles podem ignorar a realidade durante algum tempo.

Mas não para sempre.

No final, resultados concretos acabam prevalecendo sobre expectativas.

É exatamente por isso que sistemas corporativos continuam valorizando conceitos como:

  • confiabilidade;

  • auditoria;

  • rastreabilidade;

  • disponibilidade;

  • consistência;

  • governança.

Esses princípios nunca saem de moda.

No universo da Frota Estelar, um capitão experiente não toma decisões olhando apenas para a beleza do mapa estelar. Ele consulta sensores, verifica o combustível, analisa a integridade estrutural da nave e calcula cuidadosamente os riscos antes de entrar em velocidade de dobra. Durante a bolha das Dot-Com, porém, muitos investidores olharam apenas para as estrelas e esqueceram de verificar se a nave realmente possuía motores capazes de chegar ao destino.

E foi exatamente aí que começou o princípio do fim.

No próximo capítulo veremos o momento em que a realidade finalmente venceu a euforia. Bastou uma simples mudança de humor entre investidores para que bilhões de dólares desaparecessem em questão de meses, dando início ao maior colapso tecnológico que o mercado já havia testemunhado até então.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...