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sábado, 13 de março de 2021

DotCom : Capítulo XV — Vinte Anos Depois: O Veredito da História Sobre a Bolha da Internet

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo xv

Capítulo XV — Vinte Anos Depois: O Veredito da História Sobre a Bolha da Internet

O que realmente aconteceu com as previsões feitas em 2000 e por que a História absolveu a Internet, mas condenou a especulação

"O tempo é o melhor arquiteto de software e o juiz mais imparcial da economia. Ele remove o código desnecessário, elimina as ilusões e preserva apenas aquilo que realmente cria valor."

Chegamos ao último capítulo desta jornada.

Foram mais de quatrocentos anos de história.

Da Tulipomania às criptomoedas.

Das ferrovias à Inteligência Artificial.

Dos cartões perfurados aos agentes autônomos.

Da bolha das Dot-Com ao renascimento da economia digital.

Mas ainda falta responder uma pergunta.

Afinal... quem estava certo?

Os otimistas?

Ou os pessimistas?

A Internet foi realmente uma bolha?

Ou foi a maior revolução tecnológica da história?

A resposta, como quase tudo na engenharia, não é um simples "sim" ou "não".

Ela é muito mais interessante.


A Internet Nunca Foi a Bolha

Este talvez seja o maior equívoco histórico.

Quando alguém diz:

"A bolha da Internet estourou."

A frase está incompleta.

O que estourou nunca foi a Internet.

O que explodiu foi a expectativa financeira construída ao redor dela.

A Internet continuou funcionando.

Os protocolos TCP/IP continuaram evoluindo.

Os servidores continuaram processando requisições.

Os cabos continuaram transmitindo dados.

Os engenheiros continuaram desenvolvendo software.

As universidades continuaram pesquisando.

A tecnologia permaneceu.

Quem desapareceu foi a especulação.

Essa diferença muda completamente a interpretação da história.


Os Pessimistas Erraram

Após o colapso de 2000 surgiram inúmeras manchetes.

"O fim da Nova Economia."

"A Internet fracassou."

"As empresas digitais foram uma moda."

Hoje sabemos que essas previsões estavam profundamente equivocadas.

A Internet tornou-se a infraestrutura mais importante da economia mundial.

Ela conecta bilhões de pessoas.

Movimenta trilhões de dólares.

Transformou praticamente todos os setores da sociedade.

O problema nunca foi a tecnologia.

Foi o exagero.


Os Otimistas Também Erraram

Curiosamente...

Os maiores entusiastas também cometeram erros.

Eles acreditavam que qualquer empresa ligada à Internet se tornaria automaticamente bem-sucedida.

Isso jamais aconteceu.

A maioria desapareceu.

Não porque a Internet fosse ruim.

Mas porque administrar uma empresa continua sendo extremamente difícil.

Tecnologia reduz barreiras.

Não elimina os desafios fundamentais dos negócios.


A História Escolheu os Construtores

Quando observamos os sobreviventes percebemos um padrão muito claro.

Google.

Amazon.

PayPal.

Salesforce.

Netflix.

Eles não venceram porque eram os mais barulhentos.

Nem porque possuíam os maiores escritórios.

Nem porque faziam mais propaganda.

Venceram porque construíram.

Infraestrutura.

Engenharia.

Processos.

Pessoas.

Conhecimento.

Enquanto outros vendiam sonhos...

Eles construíam fundações.


O Tempo Elimina o Ruído

Existe algo fascinante quando analisamos tecnologia sob uma perspectiva de vinte anos.

O marketing desaparece.

As manchetes desaparecem.

As apresentações desaparecem.

As promessas desaparecem.

O que permanece?

Produtos úteis.

Clientes satisfeitos.

Infraestrutura funcionando.

Empresas sustentáveis.

É como observar um grande sistema legado.

Após décadas, apenas o código realmente importante continua sendo executado.

Todo o restante foi removido.


A Engenharia Sempre Vence

Ao longo deste livro encontramos uma conclusão repetidas vezes.

Marketing chama atenção.

Engenharia sustenta negócios.

A história da Internet comprova isso.

Empresas que investiram apenas em publicidade desapareceram rapidamente.

Empresas que investiram em arquitetura sobreviveram.

Essa continua sendo uma das maiores lições para qualquer profissional de tecnologia.


O Mainframe Nunca Precisou Provar Nada

Existe uma ironia interessante.

Enquanto jornais anunciavam diariamente "o fim do mainframe", milhões de pessoas utilizavam serviços processados justamente por ele.

Compravam.

Vendiam.

Recebiam salários.

Pagavam impostos.

Realizavam transferências.

Utilizavam cartões.

Tudo isso acontecia silenciosamente.

O IBM Z nunca precisou vencer debates na Internet.

Precisava apenas continuar funcionando.

E continuou.

Talvez essa seja uma das maiores demonstrações de maturidade tecnológica.


A Revolução Não Acontece na Superfície

Quando pensamos em inovação normalmente imaginamos aquilo que aparece.

Aplicativos.

Interfaces.

Sites.

Inteligência Artificial.

Mas as maiores revoluções frequentemente acontecem onde poucos observam.

Data centers.

Protocolos.

Bancos de dados.

Infraestrutura.

Redes.

Segurança.

Mainframes.

Cloud.

APIs.

São esses elementos invisíveis que sustentam toda a economia digital.

Sem eles...

Nenhuma inovação permaneceria em pé.


O Futuro Também Será Invisível

Provavelmente ocorrerá exatamente o mesmo com a Inteligência Artificial.

Hoje falamos muito sobre chatbots.

Geradores de imagens.

Agentes inteligentes.

Mas daqui a vinte anos talvez a IA esteja tão integrada ao cotidiano que quase ninguém falará sobre ela.

Assim como ninguém diz atualmente:

"Estou utilizando TCP/IP."

Ou:

"Estou usando DNS."

Ou:

"Acabei de fazer uma requisição HTTPS."

Essas tecnologias desapareceram da conversa.

Não porque falharam.

Mas porque tiveram sucesso.

A verdadeira inovação deixa de ser novidade.

Torna-se infraestrutura.


O Ciclo Nunca Termina

Talvez daqui a quinze ou vinte anos outra tecnologia ocupe todas as manchetes.

Talvez alguém afirme novamente:

"Agora tudo será diferente."

Novos investidores aparecerão.

Novas startups surgirão.

Novas promessas serão feitas.

E, muito provavelmente...

Alguns repetir-se-ão os mesmos erros.

Porque computadores evoluem rapidamente.

Mas o comportamento humano evolui muito mais devagar.


O Que Nunca Mudará

Independentemente da próxima revolução tecnológica, algumas perguntas continuarão fundamentais.

Existe valor para o cliente?

A solução resolve um problema real?

O sistema é confiável?

Pode crescer?

É seguro?

É sustentável financeiramente?

Existe boa engenharia?

Se essas perguntas forem respondidas positivamente...

As chances de sucesso aumentam enormemente.


O Programador COBOL do Século XXI

Chegamos então ao personagem central desta obra.

O Programador COBOL Padawan.

Durante muito tempo disseram que ele representava o passado.

Hoje percebemos que ele carrega conhecimentos extremamente valiosos para o futuro.

Pensamento estruturado.

Integridade de dados.

Transações.

Disponibilidade.

Confiabilidade.

Governança.

Esses princípios tornaram-se ainda mais importantes na era da Inteligência Artificial.

Talvez o maior diferencial do profissional moderno não seja abandonar o passado.

Mas utilizá-lo como alicerce para construir o futuro.


O Verdadeiro Significado da Bolha

Depois de toda esta análise podemos finalmente responder à pergunta inicial.

O que foi, afinal, a bolha da Internet?

Não foi um fracasso.

Não foi um sucesso.

Foi um processo de seleção.

Uma gigantesca prova de resistência.

Ela eliminou empresas frágeis.

Fortaleceu as sólidas.

Acelerou a maturidade da engenharia.

Transformou investidores.

Mudou universidades.

Preparou profissionais.

Construiu infraestrutura.

Criou gigantes.

E abriu caminho para praticamente todas as revoluções digitais das décadas seguintes.

Poucos acontecimentos produziram consequências tão profundas.


Uma Última Reflexão no Centro de Processamento de Dados

Voltemos uma última vez ao velho CPD.

Os enormes gabinetes continuam funcionando.

As luzes piscam discretamente.

O relógio marca três horas da manhã.

Milhões de transações atravessam silenciosamente os canais de comunicação.

Do lado de fora, pessoas utilizam smartphones.

Conversam com Inteligência Artificial.

Compram pela Internet.

Assistem filmes em streaming.

Realizam Pix.

Chamam carros por aplicativos.

Tudo parece extremamente moderno.

Poucos imaginam que, em algum lugar daquele enorme ecossistema, um programa COBOL escrito anos atrás continua executando exatamente aquilo para que foi criado.

Recebendo novos módulos.

Novas APIs.

Novas integrações.

Novas camadas de Inteligência Artificial.

Mas preservando aquilo que sempre foi sua maior qualidade.

Confiabilidade.

Talvez essa seja a metáfora perfeita para toda a computação.

A inovação não substitui completamente o passado.

Ela constrói novos andares sobre fundações que já provaram seu valor.


Epílogo — O Conselho do Velho Engenheiro

Se este livro pudesse terminar com apenas uma única mensagem para um Programador COBOL Padawan, talvez fosse esta.

Não tenha medo das novas tecnologias.

Aprenda Inteligência Artificial.

Aprenda Python.

Aprenda Cloud.

Aprenda Kubernetes.

Aprenda Agentes.

Aprenda Computação Quântica quando ela chegar.

Mas nunca abandone aquilo que transforma um simples programador em um verdadeiro engenheiro.

Pensar antes de programar.

Projetar antes de implementar.

Testar antes de entregar.

Documentar antes de esquecer.

Medir antes de otimizar.

Questionar antes de acreditar.

No universo da Frota Estelar, existe uma antiga tradição.

Quando um engenheiro conclui sua formação, recebe um pequeno distintivo com uma frase gravada na parte interna, invisível para todos.

Ela diz:

"Tecnologias passam. Princípios permanecem."

Talvez essa seja também a maior lição da bolha da Internet.

E talvez seja exatamente essa lição que continuará guiando os engenheiros que construirão os próximos cinquenta anos da computação.

Porque, no final de toda grande revolução tecnológica, aquilo que realmente permanece não são as manchetes, nem as avaliações bilionárias ou as modas passageiras.

Permanecem as pessoas que aprenderam a construir sistemas capazes de atravessar o tempo.


segunda-feira, 4 de maio de 2020

DotCom : Capítulo V — O Dia em que a Bolha Estourou: Quando Wall Street Acordou do Sonho Digital

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo v

Capítulo V — O Dia em que a Bolha Estourou: Quando Wall Street Acordou do Sonho Digital

Como trilhões de dólares desapareceram, milhares de empresas faliram e a maior euforia tecnológica da história transformou-se em uma das maiores crises do mercado financeiro

"Toda bolha financeira parece indestrutível... até o dia em que alguém faz uma pergunta simples: 'Quanto isso realmente vale?'"

Durante quase cinco anos, o mercado viveu como se a gravidade econômica tivesse deixado de existir.

A Internet crescia.

Os computadores tornavam-se mais rápidos.

As conexões melhoravam.

Milhões de novos usuários entravam na rede.

Empresas anunciavam projetos revolucionários praticamente todos os dias.

Jornais estampavam manchetes otimistas.

Analistas elevavam projeções.

Investidores comemoravam.

Empreendedores eram tratados como visionários.

Parecia que o século XXI havia finalmente chegado.

Mas existia um detalhe que quase ninguém queria discutir.

A maior parte dessas empresas continuava sem apresentar lucro.

Pior.

Muitas nem sequer possuíam um plano claro para obtê-lo.

Durante algum tempo isso foi ignorado.

Até que chegou março de 2000.

E a realidade resolveu cobrar a conta.


O Pico da Euforia

No dia 10 de março de 2000, o índice NASDAQ atingiu aproximadamente 5.048 pontos, seu maior valor até então.

Naquele instante, parecia que nada poderia interromper o crescimento da economia digital.

Empresas recém-criadas valiam bilhões de dólares.

Muitas delas possuíam poucos anos de existência.

Algumas tinham menos funcionários do que uma agência bancária.

Mesmo assim, eram avaliadas acima de corporações industriais construídas ao longo de décadas.

Para muitos investidores, aquele era apenas o começo.

Hoje sabemos que, na realidade, era o topo da montanha.


O Mercado Começou a Fazer Perguntas

É curioso observar que grandes crises raramente começam com um único evento.

Elas normalmente surgem quando várias pequenas dúvidas começam a aparecer ao mesmo tempo.

Investidores passaram a perguntar:

  • Quando essas empresas darão lucro?

  • Quantas realmente sobreviverão?

  • Os usuários continuarão crescendo indefinidamente?

  • O mercado consumidor é grande o suficiente?

  • Essas avaliações fazem sentido?

Essas perguntas existiam desde o início.

Mas agora começaram a receber atenção.

E, quando investidores começam a duvidar...

Os preços começam a cair.


A Confiança é o Ativo Mais Valioso

Existe algo extremamente interessante sobre mercados financeiros.

O dinheiro é importante.

Mas existe algo ainda mais valioso.

Confiança.

Uma ação representa uma expectativa sobre o futuro.

Enquanto investidores acreditam nesse futuro...

O preço sobe.

Quando essa confiança desaparece...

O valor pode evaporar rapidamente.

Foi exatamente isso que ocorreu.

Não houve um grande desastre natural.

Não ocorreu uma guerra mundial.

Não surgiu uma tecnologia concorrente.

O que mudou foi a percepção coletiva.

E isso foi suficiente para iniciar uma reação em cadeia.


A Primeira Queda Parecia Apenas uma Correção

No início, muitos especialistas minimizaram o problema.

"É apenas uma realização de lucros."

"Uma pequena correção."

"O mercado subiu demais."

Essa interpretação parecia razoável.

Mercados realmente passam por correções periódicas.

Mas aquela não era uma correção comum.

Ela escondia algo muito maior.

Empresas começaram a divulgar resultados decepcionantes.

Projetos foram cancelados.

Captações de investimento ficaram mais difíceis.

Fundos passaram a selecionar melhor onde aplicar seus recursos.

O fluxo de dinheiro começou a diminuir.

E isso era extremamente perigoso para empresas que dependiam exclusivamente de novos investimentos para continuar existindo.


Quando o Capital Secou

Lembre-se do conceito de Burn Rate apresentado no capítulo anterior.

Enquanto investidores continuavam financiando prejuízos...

Tudo funcionava.

Mas agora o cenário havia mudado.

Os fundos começaram a fechar a torneira.

Empresas planejavam captar mais cinquenta milhões de dólares.

Recebiam cinco.

Outras esperavam cem milhões.

Não conseguiam nenhum.

Sem novos aportes...

O caixa começou a desaparecer rapidamente.

E empresas que pareciam gigantes descobriram que possuíam apenas alguns meses de sobrevivência.


O Efeito Dominó

Uma startup fechava.

Centenas de funcionários eram demitidos.

Fornecedores deixavam de receber.

Agências de publicidade perdiam contratos.

Empresas de hospedagem ficavam sem clientes.

Consultorias deixavam de faturar.

Outra empresa também quebrava.

Depois outra.

Depois outra.

O problema deixou de ser individual.

Transformou-se em um fenômeno sistêmico.

Era como uma sequência de dominós.

Cada peça derrubava a seguinte.


O NASDAQ Entrou em Queda Livre

Nos meses seguintes, o índice NASDAQ iniciou uma das maiores quedas da história.

O que antes parecia uma pequena correção transformou-se em um verdadeiro colapso.

Entre março de 2000 e outubro de 2002, o índice perdeu cerca de 78% do seu valor.

Milhões de investidores assistiram, impotentes, ao desaparecimento de boa parte de seu patrimônio.

Para muitos, tratava-se da primeira grande crise tecnológica de suas vidas.

A sensação era de incredulidade.

Como empresas avaliadas em bilhões podiam valer tão pouco em tão pouco tempo?

A resposta era simples.

Grande parte daquele valor existia apenas enquanto existia confiança.


Empresas Sumiram da Noite para o Dia

Algumas startups fecharam em poucas semanas.

Outras tentaram reduzir despesas desesperadamente.

Demitiram funcionários.

Cancelaram projetos.

Venderam equipamentos.

Mudaram de sede.

Renegociaram contratos.

Mesmo assim...

Muitas não conseguiram sobreviver.

É importante entender que nem todas eram empresas ruins.

Diversas possuíam produtos interessantes.

Algumas tinham excelentes engenheiros.

Outras contavam com tecnologias inovadoras.

O problema era que seus modelos financeiros dependiam de investimentos constantes.

Quando o dinheiro acabou...

A operação tornou-se inviável.


Pets.com Tornou-se um Símbolo

Nenhuma empresa simboliza melhor esse período do que a Pets.com.

Seu famoso mascote aparecia em comerciais de televisão.

Era uma marca conhecida nacionalmente.

Parecia estar em todos os lugares.

Entretanto...

A empresa fechou poucos meses após abrir capital.

Seu nome tornou-se praticamente sinônimo da bolha da Internet.

O curioso é que a ideia nunca foi ruim.

Hoje milhões de pessoas compram produtos para animais online.

O problema era outro.

A logística.

Os custos.

O momento histórico.

A empresa estava certa.

O mercado ainda não.


A Tragédia Humana

Quando estudamos crises econômicas costumamos analisar gráficos.

Índices.

Percentuais.

Bilhões de dólares.

Mas existe um lado humano que frequentemente é esquecido.

Milhares de profissionais perderam seus empregos.

Programadores.

Analistas.

Designers.

Administradores.

Executivos.

Famílias inteiras precisaram reorganizar suas vidas.

Muitos haviam trocado empregos estáveis por startups promissoras.

Outros haviam investido todas as suas economias em ações de tecnologia.

A bolha não destruiu apenas empresas.

Ela destruiu sonhos.


O Mainframe Continuou Trabalhando

Enquanto Wall Street enfrentava o caos, uma cena curiosa acontecia silenciosamente nos centros de processamento de dados.

O batch da madrugada continuava sendo executado.

Os sistemas bancários permaneciam autorizando cartões.

Folhas de pagamento continuavam sendo processadas.

Caixas eletrônicos permaneciam funcionando.

As bolsas de valores continuavam liquidando operações.

Nada disso aparecia nas manchetes.

Mas mostrava uma verdade importante.

Infraestrutura crítica não pode depender do humor do mercado.

Ela precisa continuar funcionando mesmo durante crises.

Talvez essa seja uma das maiores virtudes do universo mainframe.

Ele foi projetado justamente para operar quando tudo ao redor parece instável.


A Internet Não Morreu

Esse talvez seja o maior equívoco histórico sobre a bolha.

Muitos acreditam que a Internet fracassou.

Não.

Quem fracassou foram determinados modelos de negócios.

A tecnologia continuou evoluindo.

As conexões ficaram mais rápidas.

Os computadores tornaram-se mais baratos.

Novos navegadores apareceram.

O comércio eletrônico amadureceu.

Serviços online continuaram crescendo.

A bolha não destruiu a Internet.

Ela eliminou os excessos.

Foi um processo de seleção natural empresarial.


O Mercado Aprendeu da Forma Mais Difícil

Depois da crise, investidores passaram a fazer perguntas muito diferentes.

Quanto essa empresa realmente fatura?

Existe fluxo de caixa positivo?

Qual é sua margem?

Ela consegue sobreviver sem novos aportes?

Existe um caminho claro para a lucratividade?

Essas perguntas parecem óbvias hoje.

Mas foram aprendidas a um custo extremamente elevado.


O Paralelo com Outras Crises

Se observarmos a história econômica, veremos que praticamente todas as grandes bolhas seguem um roteiro semelhante.

Primeiro surge uma inovação legítima.

Depois aparece entusiasmo.

Em seguida, excesso de investimento.

Logo depois, especulação.

Então vem a euforia.

Por fim...

A realidade.

Esse padrão aconteceu com:

  • as tulipas na Holanda;

  • as ferrovias inglesas;

  • o mercado imobiliário japonês;

  • as hipotecas americanas;

  • as criptomoedas mais especulativas;

  • diversos projetos de NFTs.

O comportamento humano permanece surpreendentemente constante.

Mudam apenas os personagens.


O Que um Padawan COBOL Deve Aprender

Quando um programa COBOL executa um cálculo incorreto, cedo ou tarde o erro aparece.

Pode levar minutos.

Horas.

Dias.

Mas a inconsistência será encontrada.

Na economia acontece exatamente a mesma coisa.

Uma empresa pode operar durante algum tempo sustentada por expectativas.

Pode sobreviver graças a investimentos.

Pode esconder prejuízos atrás de crescimento acelerado.

Mas, em algum momento, os resultados reais aparecem.

É por isso que profissionais de sistemas críticos valorizam tanto conceitos como:

  • consistência;

  • previsibilidade;

  • auditoria;

  • confiabilidade;

  • planejamento.

Esses princípios parecem conservadores.

Na verdade, são justamente eles que permitem atravessar tempestades.


Lições para o Padawan COBOL

Na Academia da Frota Estelar existe uma máxima que poderia perfeitamente resumir a bolha da Internet:

"Nunca confunda velocidade com estabilidade."

Durante alguns anos, as empresas Dot-Com pareciam as naves mais rápidas da galáxia.

Aceleravam continuamente.

Recebiam investimentos gigantescos.

Cresciam em ritmo impressionante.

Mas muitas nunca haviam testado seus motores em uma tempestade.

Quando a turbulência chegou, descobriram que velocidade sem estrutura não garante sobrevivência.

Enquanto isso, velhas naves aparentemente menos glamorosas continuaram suas missões silenciosamente.

Foi exatamente isso que aconteceu com os sistemas corporativos.

Os grandes bancos, seguradoras, governos e companhias aéreas continuaram operando graças a décadas de engenharia sólida, disciplina operacional e arquiteturas resilientes.

A bolha havia estourado.

Mas a história da Internet estava apenas começando.

No próximo capítulo veremos um dos aspectos menos lembrados desse período: como o colapso das Dot-Com transformou profundamente o mercado de trabalho, mudou a carreira de milhares de profissionais de tecnologia e redefiniu o perfil do engenheiro de software para as décadas seguintes.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

DotCom: Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo iv

Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

Como investidores, analistas, imprensa e empresários construíram uma ilusão que parecia impossível de dar errado

"O maior perigo de uma bolha financeira não é o excesso de dinheiro. É quando pessoas inteligentes começam a acreditar que as leis da realidade deixaram de existir."

Até este ponto da nossa jornada vimos como a Internet deixou os laboratórios, conquistou empresas, encantou a sociedade e atraiu bilhões de dólares em investimentos.

Mas ainda falta responder uma pergunta fundamental.

Como milhares de investidores extremamente experientes conseguiram acreditar em negócios que claramente não paravam de pé?

Será que ninguém percebeu os problemas?

Será que todos foram enganados?

A resposta é muito mais interessante.

Na maioria dos casos...

As pessoas não estavam sendo irracionais.

Elas estavam olhando para uma tecnologia verdadeiramente revolucionária.

O erro foi concluir que uma revolução tecnológica também significava uma revolução nas leis da economia.

E isso nunca aconteceu.


Quando a Internet Parecia Magia

Volte mentalmente para 1998.

Imagine que você nunca viu um site.

Nunca enviou um e-mail.

Nunca comprou nada pela Internet.

De repente alguém mostra um computador conectado ao mundo inteiro.

Você consegue conversar com pessoas de outro país.

Ler jornais internacionais.

Pesquisar universidades.

Comprar um livro sem sair de casa.

Tudo isso parecia tão extraordinário que muitas pessoas passaram a acreditar que estavam diante da maior transformação econômica desde a Revolução Industrial.

Na verdade...

Talvez estivessem.

Mas uma revolução tecnológica não elimina conceitos básicos como receita, despesa e fluxo de caixa.

Ela apenas muda a forma como esses conceitos são aplicados.


A "Nova Economia"

Poucas expressões foram tão repetidas entre 1998 e 2000 quanto:

New Economy.

A Nova Economia.

Livros foram publicados.

Congressos discutiam o tema.

Revistas estampavam capas afirmando que o capitalismo havia entrado em uma nova fase.

Segundo muitos especialistas da época, empresas digitais deveriam ser avaliadas de maneira completamente diferente das empresas tradicionais.

Por quê?

Porque elas cresceriam infinitamente.

Como seus custos marginais seriam pequenos, bastaria conquistar usuários.

O lucro viria naturalmente.

Essa teoria possuía uma parte verdadeira.

Empresas digitais realmente conseguem escalar muito mais rapidamente.

Entretanto...

Ela ignorava algo essencial.

Nenhum crescimento é infinito.


O Mercado Começou a Precificar Sonhos

Uma empresa tradicional era avaliada principalmente pelo que já havia construído.

Uma empresa da Internet passou a ser avaliada pelo que talvez construísse algum dia.

É uma diferença gigantesca.

Imagine dois restaurantes.

O primeiro possui clientes, lucro e vinte anos de funcionamento.

O segundo acabou de abrir.

Não possui faturamento.

Mas promete que, daqui a dez anos, será a maior rede do planeta.

Qual deles deveria valer mais?

Durante a bolha da Internet, muitas vezes era o segundo.

Porque o mercado deixou de comprar resultados.

Passou a comprar expectativas.


O Papel dos Analistas Financeiros

Outro personagem importante dessa história foi o analista de mercado.

Seu trabalho consiste em estudar empresas e recomendar compra, venda ou manutenção de ações.

Em períodos normais, essas análises costumam ser bastante conservadoras.

Durante a bolha...

Muitos relatórios passaram a utilizar hipóteses extremamente otimistas.

Algumas previsões assumiam que determinadas empresas cresceriam acima de 50% ao ano durante uma década inteira.

Hoje sabemos como isso era improvável.

Naquele momento parecia plausível.

Afinal...

A Internet realmente crescia em ritmo impressionante.


A Mídia Descobriu os Novos Heróis

Os jornais também tiveram papel importante.

Até então, empresários famosos normalmente eram industriais.

Banqueiros.

Executivos.

Presidentes de grandes corporações.

De repente surgia uma nova geração.

Empreendedores de vinte e poucos anos.

Usando camiseta.

Tênis.

Sem gravata.

Criando empresas em garagens.

Eles se tornaram ícones culturais.

As capas das revistas estampavam frases como:

"O próximo Bill Gates."

"O jovem que mudará o mundo."

"A empresa que revolucionará tudo."

Criava-se um ambiente onde sucesso parecia inevitável.

Fracassar deixava de ser considerado uma possibilidade.


O IPO Virou um Evento Nacional

As ofertas públicas de ações transformaram-se em verdadeiros espetáculos.

No dia em que uma startup estreava na bolsa de valores, milhares de investidores corriam para comprar ações.

Pouco importava quanto a empresa faturava.

O importante era entrar antes que o preço subisse.

Em muitos casos...

Subia mesmo.

Ações dobravam.

Triplicavam.

Quadruplicavam em poucos dias.

Isso criava uma sensação extremamente perigosa.

Parecia impossível perder dinheiro.


O Ciclo da Euforia

Toda bolha financeira costuma seguir um padrão bastante semelhante.

Primeiro surgem empresas inovadoras.

Depois aparecem investidores pioneiros.

Esses investidores obtêm grandes retornos.

Os jornais começam a divulgar essas histórias.

Novos investidores chegam.

Os preços aumentam ainda mais.

Mais reportagens são publicadas.

Mais pessoas entram.

Forma-se um ciclo de retroalimentação.

O próprio aumento dos preços passa a ser utilizado como prova de que os preços continuarão aumentando.

É um fenômeno psicológico conhecido como feedback positivo.

Quanto mais sobe...

Mais pessoas acreditam que continuará subindo.


O Medo de Ficar de Fora

Existe um sentimento extremamente poderoso nos mercados financeiros.

O medo de perder uma oportunidade.

Hoje chamamos isso de FOMO (Fear of Missing Out).

Imagine dois colegas de trabalho.

Um deles comprou ações de uma startup.

Em poucos meses dobrou seu patrimônio.

O outro não investiu.

Quem provavelmente começará a sentir ansiedade?

Exatamente.

O segundo.

Esse mecanismo psicológico faz com que investidores deixem de analisar racionalmente os riscos.

Eles passam a comprar apenas porque todos estão comprando.

A lógica desaparece.

A emoção assume o controle.


O Efeito Manada

Na psicologia existe um conceito chamado comportamento de manada.

É a tendência natural de seguir o grupo.

Durante milhares de anos essa característica ajudou nossa espécie a sobreviver.

Se todos corriam...

Provavelmente havia um predador.

Na bolsa de valores esse mesmo mecanismo pode se tornar perigoso.

Se todos estão comprando...

Talvez ninguém esteja pensando.

A bolha das Dot-Com foi um dos maiores exemplos desse comportamento.

Investidores compravam ações porque outros investidores estavam comprando.

Não porque compreendiam profundamente o negócio.


O Viés da Confirmação

Outro fenômeno psicológico apareceu com força.

As pessoas passaram a procurar apenas informações que confirmassem aquilo em que já acreditavam.

Quando uma empresa anunciava crescimento de usuários...

Todos comemoravam.

Quando anunciava prejuízo...

Diziam que isso era normal.

Quando outra startup quebrava...

Afirmavam que era um caso isolado.

Poucos percebiam que dezenas de empresas apresentavam exatamente os mesmos problemas.

Esse fenômeno é chamado de viés de confirmação.

Selecionamos apenas as evidências que reforçam nossas convicções.

Ignoramos o restante.


"Desta Vez é Diferente"

Talvez nenhuma frase seja tão perigosa na história da economia quanto esta:

"Desta vez é diferente."

Ela apareceu na Tulipomania.

Na Railway Mania.

Na bolha imobiliária japonesa.

Na crise das hipotecas de 2008.

E também na bolha da Internet.

Sempre existe alguém afirmando que as regras antigas deixaram de valer.

Que a tecnologia mudou tudo.

Que agora o crescimento será infinito.

Infelizmente...

As leis da matemática continuam exatamente as mesmas.


Enquanto Isso... Dentro de um CPD

Agora imagine um gerente de operações de um grande banco em 1999.

Enquanto Wall Street discutia bilhões em startups, ele precisava responder perguntas muito diferentes.

O backup terminou?

O batch fechou?

A janela noturna foi cumprida?

Os arquivos VSAM ficaram íntegros?

O CICS permaneceu disponível?

O Db2 completou o REORG?

A folha de pagamento será processada amanhã?

Perceba a diferença.

Lá fora...

O mercado discutia expectativas.

Aqui dentro...

O assunto era execução.

Não havia espaço para euforia.

Nem para modismos.

Apenas para resultados concretos.


O NASDAQ Parecia uma Nave em Velocidade de Dobra

Entre 1995 e o início de 2000, o índice NASDAQ tornou-se o principal símbolo do entusiasmo tecnológico.

Empresas de tecnologia valorizavam-se de maneira impressionante.

Cada novo recorde reforçava a ideia de que a Internet havia criado uma riqueza infinita.

Analistas utilizavam gráficos para provar que o crescimento continuaria.

Investidores acreditavam.

Jornalistas repercutiam.

Políticos comemoravam.

Empresários expandiam seus negócios.

Poucos percebiam que boa parte desse crescimento estava sendo sustentada pela própria expectativa de crescimento.

Era uma espécie de motor alimentado pela própria confiança.

Enquanto a confiança existisse...

Tudo funcionava.


O Dia em que a Realidade Bateu à Porta

Existe uma característica curiosa das bolhas financeiras.

Elas não estouram quando todos percebem os problemas.

Elas estouram quando um número suficiente de pessoas começa a fazer perguntas simples.

Como:

Quanto essa empresa realmente fatura?

Ela consegue sobreviver sem novos investidores?

Quando começará a gerar lucro?

Qual seu fluxo de caixa?

Essas perguntas demoraram anos para aparecer.

Mas, quando surgiram...

Mudaram completamente o humor do mercado.

A euforia começou a desaparecer.

E a confiança, que sustentava boa parte da valorização, começou lentamente a evaporar.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Hoje, em 2026, vemos novamente uma enorme onda de entusiasmo em torno da IA.

Modelos generativos impressionam.

Agentes inteligentes prometem transformar empresas.

Investimentos bilionários são anunciados.

Tudo isso é real.

Mas o Padawan COBOL precisa fazer as mesmas perguntas que faltaram durante a bolha da Internet.

Qual problema está sendo resolvido?

Existe um modelo de negócios sustentável?

Quem paga por essa solução?

Ela continuará existindo daqui a dez anos?

Essas perguntas não diminuem a inovação.

Pelo contrário.

Elas ajudam a separar tecnologias duradouras de simples modismos.


Lições para o Padawan COBOL

Existe uma frase muito conhecida entre engenheiros de software:

"O computador executa exatamente aquilo que você programou, não aquilo que você imaginou."

Os mercados financeiros funcionam de maneira semelhante.

Eles podem ignorar a realidade durante algum tempo.

Mas não para sempre.

No final, resultados concretos acabam prevalecendo sobre expectativas.

É exatamente por isso que sistemas corporativos continuam valorizando conceitos como:

  • confiabilidade;

  • auditoria;

  • rastreabilidade;

  • disponibilidade;

  • consistência;

  • governança.

Esses princípios nunca saem de moda.

No universo da Frota Estelar, um capitão experiente não toma decisões olhando apenas para a beleza do mapa estelar. Ele consulta sensores, verifica o combustível, analisa a integridade estrutural da nave e calcula cuidadosamente os riscos antes de entrar em velocidade de dobra. Durante a bolha das Dot-Com, porém, muitos investidores olharam apenas para as estrelas e esqueceram de verificar se a nave realmente possuía motores capazes de chegar ao destino.

E foi exatamente aí que começou o princípio do fim.

No próximo capítulo veremos o momento em que a realidade finalmente venceu a euforia. Bastou uma simples mudança de humor entre investidores para que bilhões de dólares desaparecessem em questão de meses, dando início ao maior colapso tecnológico que o mercado já havia testemunhado até então.