| Bellacosa Mainframe e a lei seca do algoritmo ia moderna um jogo do absurdo |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
A Lei Seca do Algoritmo — ou como comecei lendo uma lei brasileira e duas semanas depois a ONU cercava minha ilha
Uma pequena história sobre leis, IA, jurisdições, Port Royal, mercenários, dilemas de segurança e a extraordinária capacidade humana de transformar um IF de quatro linhas numa crise internacional
Tudo começou de maneira perfeitamente inocente.
Eu estava lendo uma notícia sobre uma lei brasileira.
Qual lei?
Não importa.
Aliás, é melhor nem dizer, porque o objeto específico da lei é muito menos interessante do que o fenômeno que ela despertou nos aproximadamente um milhão de chimpanzés que administram meu cérebro, supervisionados, naturalmente, por Tico e Teco.
A notícia explicava uma evolução legislativa bastante curiosa.
Primeiro havia o humano.
O humano fazia alguma coisa, sofria alguma coisa ou aparecia em alguma coisa.
A sociedade dizia:
— Isso não pode.
O legislador concordava:
— Realmente não pode.
E escrevia uma lei.
Muito bem.
Caso encerrado.
Só que então apareceu uma situação nova.
A lei não previa exatamente aquilo.
Então alguém colocou um puxadinho.
Depois apareceu outra situação.
Novo puxadinho.
Depois veio a Internet.
Mais um puxadinho.
Depois atravessaram fronteiras.
Puxadinho internacional.
Depois chegaram algoritmos capazes de produzir coisas que anteriormente exigiam participação humana.
E o legislador descobriu horrorizado que agora existia algo que parecia com o objeto originalmente proibido, mas que havia sido criado sem que nenhum ser humano tivesse participado daquilo como matéria-prima.
Era sintético.
Artificial.
Quase uma carne vegana jurídica.
Parecia carne.
Tinha formato de carne.
Era consumida como carne.
Mas nenhuma vaca havia participado da reunião.
E meus chimpanzés imediatamente interromperam suas atividades normais.
🧠 O primeiro IF era simples
Imagino que a versão 1.0 da legislação fosse conceitualmente parecida com isto:
IF EXISTE-HUMANO
AND OCORREU-ATO-PROIBIDO
MOVE "CRIME" TO RESULTADO
END-IFElegante.
Legível.
Cabe numa tela 3270.
O problema é que seres humanos são excelentes em encontrar situações que o programador original não imaginou.
Logo apareceu:
IF EXISTE-HUMANO
OR EXISTE-REPRESENTACAO-DO-HUMANODepois:
OR EXISTE-GRAVACAO
OR EXISTE-FOTOGRAFIA
OR EXISTE-AUDIODepois chegou a Internet:
OR FOI-DISTRIBUIDO
OR FOI-COMPARTILHADO
OR FOI-TRANSMITIDODepois alguém colocou o servidor em outro país.
Novo ELSE.
Depois apareceu IA generativa.
E finalmente chegamos ao maravilhoso:
OR NAO-EXISTE-HUMANO
BUT-PARECE-QUE-EXISTENesse momento o velho programador COBOL dentro de mim olhou para aquilo e pensou:
isso virou sistema legado.
A intenção original continua lá.
Só que quarenta change requests depois ninguém mais sabe exatamente onde termina a regra original e começa o remendo colocado numa sexta-feira às 17h43 porque produção precisava subir naquele fim de semana.
🤖 Então o humano desapareceu
Essa foi a parte que realmente me chamou atenção.
Durante muito tempo havia uma cadeia relativamente compreensível:
humano → ato → registro → distribuição → dano.
Mas a tecnologia tornou possível outra:
algoritmo → geração → arquivo → distribuição.
O humano que originalmente justificava boa parte da proteção simplesmente poderia não existir naquela cadeia.
Não houve modelo.
Não houve fotografia original.
Não houve gravação.
Não houve determinada pessoa fazendo aquilo.
O objeto nasceu sinteticamente.
Naturalmente, a sociedade respondeu:
— Continua não podendo.
E surgiu outro puxadinho.
Perfeitamente compreensível.
Só que meus chimpanzés fizeram a pergunta que jamais se deve permitir que chimpanzés façam:
E se em outro país puder?
Silêncio.
Tico olhou para Teco.
Teco abriu um atlas.
Temos quase duzentos países no planeta.
É estatisticamente difícil conseguir fazer quase duzentos governos concordarem até sobre a temperatura adequada do café.
Naturalmente haverá diferenças legislativas.
E alguém encontrará uma.
🌎 Regulation-as-a-Service
Imagine então um pequeno país.
Não precisamos dizer qual.
Chamaremos de República Democrática, Popular, Constitucional, Marítima e Absolutamente Respeitável de Qualquerlândia.
Qualquerlândia analisa o assunto e decide:
— Material envolvendo pessoas reais? Proibido.
— Material inteiramente sintético?
O funcionário consulta o código.
Consulta novamente.
Chama o chefe.
O chefe chama o ministro.
O ministro chama um advogado.
Finalmente alguém responde:
— Aqui não é crime.
Pronto.
Nasceu uma indústria.
Criadores registram empresas em Qualquerlândia.
Servidores aparecem.
Processadores financeiros aparecem.
Advogados aparecem.
Contadores aparecem.
Data centers aparecem.
O resto do mundo continua consumindo exatamente o mesmo produto.
A diferença é que agora a receita termina em Qualquerlândia.
O país que proibiu continua tendo consumidores.
Continua tendo demanda.
Continua tendo dinheiro saindo.
Só deixou de ter a empresa.
O imposto.
O servidor.
O emprego.
E parte da capacidade de fiscalização.
Nesse momento pensei:
isso é uma espécie de Lei Seca digital.
🍺 Al Capone precisava de caminhões
A Lei Seca americana descobriu uma coisa desagradável:
proibir oferta não significa automaticamente eliminar demanda.
Se existe demanda suficientemente grande, alguém tentará atendê-la.
Só que Al Capone tinha um problema logístico.
Álcool pesa.
Precisa de garrafas.
Caixas.
Caminhões.
Navios.
Depósitos.
Motoristas.
Fronteiras.
Policiais subornáveis.
Um arquivo digital não possui nenhuma dessas inconveniências.
Ele pesa aproximadamente:
nada.
Pode atravessar cinquenta fronteiras antes que eu termine esta frase.
E IA generativa acrescentou algo ainda mais divertido.
Talvez nem sequer exista estoque.
O advogado de Qualquerlândia poderia dizer:
— Nós não armazenamos o produto.
— Não importamos o produto.
— Não exportamos o produto.
— Não possuímos o produto.
— O usuário solicita alguma coisa e uma máquina calcula pixels.
Imagino 193 delegações internacionais pedindo intervalo para café.
🏴☠️ Foi quando fundei Port Royal
Aqui meus chimpanzés abandonaram definitivamente qualquer compromisso com a realidade.
Pensei:
Muito bem. Então criarei minha própria Port Royal.
Uma pequena jurisdição marítima.
Centenas de servidores.
Energia própria.
Data center.
Links redundantes.
E uma constituição extremamente simples:
FREE FOR ALL
Não recomendo isso como política pública.
Estamos fazendo ficção satírica.
Mas mentalmente era maravilhoso.
Na entrada:
WELCOME TO PORT ROYAL CLOUD
Free for All Since 2026.
Terms and Conditions: No.
E imediatamente descobrimos o primeiro problema.
Você pode declarar independência.
Seu roteador não.
🌐 O ASN também tem sentimentos
Port Royal precisava de Internet.
Quem anuncia nosso ASN?
Precisávamos de upstream.
Precisávamos de cabos.
Precisávamos de DNS.
Precisávamos importar SSDs.
Precisávamos comprar processadores.
Precisávamos receber pagamentos.
Precisávamos contratar pessoas.
Precisávamos de peças para os geradores.
Ou seja:
às 14h eu havia declarado independência.
Às 14h07 descobri que dependia economicamente de metade do planeta.
Mas meus chimpanzés não desistiram.
Port Royal cresceu.
Criadores começaram a aparecer.
Empresas começaram a registrar suas obras ali.
Dinheiro começou a circular.
E algum governo estrangeiro finalmente disse:
— Chega.
🚤 Primeiro veio a Guarda Costeira
Essa parte é importante.
Na minha imaginação, ninguém começou mandando porta-aviões.
Seria ridículo.
Primeiro veio uma pequena força marítima de fiscalização.
Objetivo limitado.
Entrar.
Interromper determinadas atividades.
Talvez apreender alguma coisa.
Port Royal respondeu:
— Vocês não possuem jurisdição aqui.
Eles responderam:
— Achamos que possuímos.
Port Royal tinha segurança privada.
Mercenários.
Os mercenários impediram a intervenção.
E naquele exato segundo aconteceu algo fundamental:
a discussão deixou de ser sobre arquivos.
Agora era sobre soberania.
⚓ Então veio um navio maior
O governo estrangeiro não poderia simplesmente dizer:
— Bem, nossos homens foram expulsos. Vida que segue.
Porque agora havia precedente.
Então enviou força suficiente para garantir que aquilo não acontecesse novamente.
Port Royal observou o horizonte.
Um destróier.
Talvez dois.
Meus chimpanzés convocaram reunião extraordinária.
E foi quando apareceram os amigos.
🤝 A Liga dos Países que Também Não Gostam que Mandem Neles
Algumas nações possuíam relações comerciais com Port Royal.
Outras não davam a mínima para nossos servidores, mas estavam muito interessadas no precedente.
Porque a pergunta havia mudado.
Não era mais:
"Port Royal pode hospedar aquilo?"
Agora era:
"Um país pode entrar militarmente numa jurisdição menor porque discorda das leis dela?"
Isso interessava a muita gente.
Uma pequena liga de países amigos enviou navios para defesa dissuasora.
Não para atacar.
Naturalmente.
Todos estavam ali pela paz.
E essa é uma das frases mais perigosas que a humanidade já inventou:
"Trouxemos armas para garantir a paz."
📈 O algoritmo da dissuasão
O primeiro lado tinha um navio.
O segundo colocou dois.
O primeiro pensou:
— Dois?
Então trouxe quatro.
O segundo percebeu quatro navios hostis e trouxe oito.
Logo:
A = 1
B = 2
A = 4
B = 8
A = 16
B = 32Port Royal:
— Gente... eram uns servidores.
Ninguém estava ouvindo.
Agora havia aeronaves de patrulha.
Guerra eletrônica.
Submarinos.
Defesa aérea.
Navios de apoio.
Satélites observando.
Serviços de inteligência.
E jornalistas transmitindo ao vivo da praia.
💣 O dilema de segurança
Existe uma perversidade maravilhosa nesse mecanismo.
O lado A diz:
— Estou aumentando minhas forças porque B está perigoso.
B responde:
— Estou aumentando minhas forças porque A está aumentando suas forças.
A observa:
— Viu? Eu estava certo sobre B!
B observa:
— Viu? Eu estava certo sobre A!
Ambos podem sinceramente não querer guerra.
Ambos podem sinceramente acreditar que suas forças são defensivas.
E ambos terminam extraordinariamente preparados para travar justamente a guerra que dizem querer evitar.
Port Royal havia se tornado uma demonstração prática do dilema de segurança.
E ninguém pediu autorização aos chimpanzés.
📰 CNN: CRISE DE PORT ROYAL — DIA 12
Nesse ponto imagino a televisão.
Especialistas diante de mapas.
Setinhas vermelhas.
Setinhas azuis.
Fotos de satélite.
Almirantes aposentados.
Professores de relações internacionais.
Economistas.
Advogados.
Um sujeito chamado "especialista em Port Royal" que duas semanas antes provavelmente não sabia que Port Royal existia.
Mercados caindo.
Petróleo subindo.
Seguradoras marítimas suspendendo cobertura.
Companhias desviando rotas.
E em algum estúdio alguém pergunta:
— Como chegamos até aqui?
Ninguém sabe responder em menos de quarenta minutos.
🏛️ Finalmente chegamos à ONU
E foi aí que minha imaginação chegou ao ponto que originalmente contei primeiro.
A ONU entra no circuito.
Conselho de Segurança.
Reuniões extraordinárias.
Propostas de resolução.
Vetos.
Sanções.
Diplomatas entrando e saindo de salas.
Coalizões.
Estados com capacidade nuclear envolvidos indiretamente na crise.
Importante: a ONU não possui uma esquadra nuclear própria esperando alguém apertar o botão vermelho.
Mas isso pouco importava para meus chimpanzés.
Na versão mental cinematográfica, o horizonte de Port Royal já estava cheio de poder naval suficiente para fazer qualquer pessoa reconsiderar seriamente suas escolhas profissionais.
E então percebi algo extraordinário.
❓ Ninguém mais lembrava por que aquilo começou
Essa é provavelmente minha parte favorita.
No começo:
"Precisamos discutir determinado material sintético."
Depois:
"Precisamos discutir jurisdição."
Depois:
"Precisamos discutir Port Royal."
Depois:
"Precisamos discutir violação territorial."
Depois:
"Precisamos discutir o incidente com a Guarda Costeira."
Depois:
"Precisamos discutir a presença da frota."
Depois:
"Precisamos discutir o tratado entre Port Royal e seus aliados."
Depois:
"Precisamos discutir equilíbrio estratégico regional."
Depois:
"Precisamos impedir uma guerra internacional."
O objeto original?
Esquecido.
Enterrado debaixo de quinze camadas de consequências.
É exatamente como um incidente de produção.
🖥️ INC0000001 — Usuário não consegue abrir arquivo
Se você trabalha há tempo suficiente em mainframe, já viu isso.
Às 9h:
Usuário não consegue acessar arquivo.
Às 10h:
DBA entrou na bridge.
10h15:
Storage.
10h30:
RACF.
11h:
Rede.
11h30:
Middleware.
12h:
Fornecedor.
13h:
Gerência.
14h:
Diretoria.
15h:
Executivo.
16h:
Regulador informado.
17h:
Quarenta e sete pessoas na conference call.
Às 17h12 alguém finalmente pergunta:
— Qual era mesmo o erro original?
Silêncio.
Um velho operador consulta o log.
— Permissão errada num diretório.
Port Royal era exatamente isso.
Só que com submarinos nucleares.
☕ E talvez essa seja a verdadeira história
Comecei lendo uma lei brasileira.
Não importa qual.
Ela apenas serviu como ponto inicial para observar uma característica extraordinariamente humana.
Criamos regras para resolver problemas.
A realidade encontra situações que as regras não previram.
Acrescentamos exceções.
A tecnologia cria outras possibilidades.
Acrescentamos novas regras.
As atividades atravessam fronteiras.
Criamos mecanismos extraterritoriais.
Empresas migram.
Governos reagem.
Jurisdicionalmente permissivos descobrem oportunidades econômicas.
Outros governos pressionam.
A questão econômica torna-se diplomática.
A questão diplomática torna-se estratégica.
E, se ninguém apertar PAUSE, podemos acabar discutindo porta-aviões quando originalmente estávamos discutindo pixels.
A tecnologia não destrói necessariamente a lei.
Ela frequentemente faz algo muito mais divertido:
obriga a lei a persegui-la.
E cada vez que a lei alcança a tecnologia, alguém pergunta:
— E se fizermos deste outro jeito?
Novo puxadinho.
Novo IF.
Novo ELSE.
Nova jurisdição.
Até algum programador jurídico do futuro abrir o código legislativo e perguntar:
— Quem foi o desgraçado que escreveu isso?
E alguém responder:
— Ninguém.
— Como ninguém?
— Começou pequeno em 1998. Depois fomos fazendo manutenção.
O programador fecha o terminal.
Vai buscar café.
E decide não tocar em absolutamente nada.
🏴☠️ Epílogo — Dia 14 em Port Royal
O secretário-geral consegue finalmente reunir todas as partes.
Do lado de fora existem navios suficientes para transformar o oceano num estacionamento.
Ele abre uma pasta de oitocentas páginas.
Ajusta os óculos.
Olha para as delegações.
— Senhores, estamos diante de uma das mais graves crises internacionais das últimas décadas.
Silêncio absoluto.
— Antes de começarmos, gostaria apenas de esclarecer uma coisa.
Folheia os documentos.
Folheia novamente.
Chama um assessor.
Cochicham.
Ele volta ao microfone:
— Alguém poderia explicar por que começou tudo isso?
Silêncio.
Russos olham para americanos.
Americanos olham para europeus.
Europeus olham para chineses.
Chineses olham para Port Royal.
No fundo da sala, levanto timidamente a mão.
— Excelência...
Todos olham.
— Bem...
Pigarreio.
— Eu estava lendo uma notícia sobre uma lei brasileira.
Silêncio.
O secretário-geral fecha os olhos.
— E?
— E achei curioso.
Mais silêncio.
— Então comecei a pensar.
O secretário-geral olha pela janela para três grupos de batalha de porta-aviões.
Depois olha para mim.
Depois para os papéis.
Depois novamente para mim.
— Senhor Bellacosa...
— Sim?
— Da próxima vez...
Longa pausa.
— Leia futebol.
☕ Fim.
Um Café no Bellacosa Mainframe
Onde começamos com legislação, passamos por inteligência artificial, fundamos uma micronação, contratamos mercenários, reinventamos a Lei Seca, descobrimos o dilema de segurança e quase provocamos a Terceira Guerra Mundial.
Tudo porque ninguém colocou um MAX-RETRY = 3 nos chimpanzés.
Para ir mais longe
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