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sábado, 22 de agosto de 2026

O Efeito VEJA — Quando a Imprensa Diz “Não Olhe” e um Milhão de Chimpanzés Perguntam “Onde?”

 

Bellacosa Mainframe e o efeito Veja

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Efeito VEJA — Quando a Imprensa Diz “Não Olhe” e um Milhão de Chimpanzés Perguntam “Onde?”

Ou: Barbra Streisand tentou esconder uma casa, Nicolas Cage virou combustível para a Internet, Jessie Cave apareceu em quatro portais brasileiros e descobrimos que o algoritmo apenas automatizou uma traquinagem que as revistas já faziam quando a Internet ainda vinha impressa em papel

Existem dias em que você procura uma história.

Existem outros em que a história vem procurar você.

E existem aqueles dias particularmente perigosos em que você está tranquilamente tentando assistir a um anime, um dos milhões de chimpanzés do Bellacosa Mainframe encontra alguma coisa estranha na Internet, bate com a banana no rack e grita:

CHEFE! ACHEI UMA ARESTA NOVA!

Foi mais ou menos assim.

Eu não estava pesquisando Jessie Cave.

Não estava fazendo estudo sobre OnlyFans.

Não estava tentando entender a economia dos criadores adultos, convenções de Harry Potter ou comportamento de busca na Internet.

A coisa simplesmente caiu no meu colo.

Primeiro apareceu uma notícia.

Depois outra.

Depois outra.

Quando percebi, pelo menos quatro veículos brasileiros estavam contando essencialmente a mesma história: Jessie Cave, atriz que interpretou Lilá Brown nos filmes de Harry Potter, havia criado uma conta no OnlyFans, enfrentado dificuldades financeiras, conseguido ali uma fonte importante de renda e posteriormente relatado ter sido barrada de uma convenção ligada à franquia por causa de sua associação com a plataforma.

Em agosto de 2026, a história voltou a circular com força depois de uma entrevista ao programa britânico This Morning. UOL, Folha e outros veículos brasileiros repercutiram a história. Cave disse que entrou na plataforma em 2025 e que ganhou, em um único dia, mais de £15 mil; posteriormente afirmou ter conseguido em um ano no OnlyFans mais do que durante toda sua carreira como atriz.

Só existe um pequeno detalhe maravilhoso nessa história.

Para informar ao leitor que Jessie Cave havia sido prejudicada por possuir um OnlyFans...

...a imprensa precisou informar a milhares ou milhões de pessoas que:

Jessie Cave possui um OnlyFans.

🐒

O chimpanzé largou a banana.

Olhou para mim.

Eu olhei para ele.

E os dois tivemos exatamente o mesmo pensamento:

REVISTA VEJA.



📰 1. Antes do algoritmo havia a banca

Para quem nasceu com Google no bolso, pode parecer difícil imaginar uma época em que descobrir alguma coisa exigia trabalho.

Você ouvia falar de um filme estranho.

Precisava descobrir onde passava.

Conhecia uma revista obscura.

Precisava descobrir em qual banca vendia.

Alguém mencionava uma loja.

Anotava o endereço.

Uma reportagem falava de uma subcultura.

Talvez fornecesse nome, telefone, bairro ou referência.

E aí você ia atrás.

Naquele ecossistema, grandes revistas desempenhavam uma função que hoje atribuímos parcialmente aos mecanismos de busca e às redes sociais:

elas apontavam.

Uma revista como VEJA não precisava recomendar alguma coisa para produzir interesse.

Bastava descrevê-la.

Às vezes bastava condená-la.

Melhor ainda: bastava demonstrar surpresa diante dela.

“Existe isso.”

Pronto.

Milhões de brasileiros que cinco minutos antes não sabiam que aquilo existia agora sabiam.

E uma pequena porcentagem pensava:

Onde?

Chamarei isso aqui, deliberadamente como uma brincadeira conceitual do Bellacosa Mainframe, de Efeito VEJA.

Não procure a expressão em tratados acadêmicos.

Ela nasceu entre uma xícara de café, algumas memórias de banca de jornal e um milhão de chimpanzés mal supervisionados.

O mecanismo é simples:

visibilidade editorial produz descoberta mesmo quando a intenção editorial não é promover.

A revista aponta.

O leitor investiga.

E aquilo que estava fora do radar ganha existência cultural.



🔎 2. A diferença entre recomendar e revelar

Existe uma diferença gigantesca entre:

“Você deveria comprar isto.”

e:

“Olha que negócio absurdo existe.”

A primeira frase é publicidade.

A segunda pode ser muito mais poderosa.

Porque a primeira ativa resistência.

A segunda ativa curiosidade.

Um anúncio diz:

compre.

Uma reportagem diz:

descubra.

E seres humanos gostam muito de descobrir aquilo que aparentemente não deveriam estar procurando.

Quando a informação vem acompanhada por elementos como escândalo, proibição, sexo, censura, perigo, celebridade ou comportamento desviante, o efeito pode se multiplicar.

O cérebro recebe uma espécie de IRQ:

INTERRUPÇÃO PRIORITÁRIA: EXISTE ALGO PROIBIDO AQUI.

E o sistema operacional humano interrompe o processamento normal.

— Como assim?

— Quem?

— Onde?

— Tem foto?

— Tem vídeo?

— Qual é o nome?

Em 1992, talvez isso terminasse com alguém anotando um endereço.

Em 2026, termina com uma nova aba aberta em menos de três segundos.


🏠 3. Então Barbra Streisand tentou apagar uma fotografia

Aqui chegamos ao fenômeno que recebeu um nome muito mais famoso.

Em 2003, Barbra Streisand processou o fotógrafo Kenneth Adelman depois que uma fotografia aérea contendo sua propriedade na costa da Califórnia apareceu no California Coastal Records Project, iniciativa que documentava a erosão costeira.

Antes da ação judicial, a fotografia era praticamente irrelevante.

Segundo os registros posteriormente citados sobre o caso, ela havia sido baixada apenas algumas vezes.

A ação de Streisand transformou a fotografia em notícia.

E a notícia transformou a fotografia em objeto de curiosidade para centenas de milhares de pessoas. O episódio acabaria dando origem à expressão Streisand Effect, criada por Mike Masnick em 2005 para descrever situações em que uma tentativa de ocultar ou remover informação acaba ampliando dramaticamente sua circulação.

É uma das grandes piadas estruturais da Internet.

Você aponta para alguma coisa e diz:

NÃO OLHE.

A Internet responde:

LINK?


🧠 4. O Efeito VEJA não é exatamente o Efeito Streisand

Aqui vale separar os fios.

No Efeito Streisand, existe tentativa de supressão.

Alguém quer retirar, esconder, apagar ou impedir a circulação de determinada informação.

A tentativa chama atenção.

A atenção produz replicação.

No que estou chamando de Efeito VEJA, não é necessária nenhuma tentativa de censura.

Pode existir apenas cobertura jornalística.

A matéria diz:

“Olha que fenômeno curioso.”

E, ao informar sobre ele, aumenta seu alcance.

O mecanismo poderia ser resumido assim:

Streisand:

supressão

curiosidade

amplificação

Efeito VEJA:

cobertura

descoberta

curiosidade

amplificação

Eles podem coexistir.

E foi exatamente isso que tornou o caso de Jessie Cave tão interessante.


🪄 5. Lilá Brown entra no datacenter

Jessie Cave interpretou Lavender Brown — Lilá Brown no Brasil — em três filmes de Harry Potter.

Em 2025, ela passou a produzir conteúdo no OnlyFans.

O detalhe importante é que Cave declarou repetidamente que seu conteúdo não era explícito. Segundo suas próprias descrições e as reportagens sobre o caso, o nicho estava muito ligado aos seus cabelos, com vídeos penteando, trançando ou manipulando-os.

Depois veio outro ingrediente.

Cave revelou que havia deixado de ser contratada para uma convenção de fãs de Harry Potter porque sua presença no OnlyFans seria considerada incompatível com um evento familiar.

Ela considerou a justificativa contraditória, observando que atores convidados para convenções frequentemente já participaram de filmes ou séries contendo nudez ou sexo.

E aqui começa o paradoxo.

Uma convenção aparentemente pretende reduzir a associação entre:

Harry Potter ↔ Jessie Cave ↔ OnlyFans

A imprensa noticia essa decisão.

Para explicar a notícia, precisa escrever:

Harry Potter ↔ Jessie Cave ↔ OnlyFans

Google indexa.

Outros veículos reproduzem.

Redes sociais compartilham.

O público pesquisa.

E a associação que aparentemente representava um problema ganha novos milhares de pontos de contato.

Muito bem.

Parabéns aos envolvidos.

O servidor está funcionando exatamente ao contrário.


📡 6. A imprensa não precisa querer fazer propaganda

É importante dizer isso porque seria simplista demais afirmar:

“Os jornais estão fazendo publicidade para Jessie Cave.”

Não necessariamente.

Eles estão noticiando um assunto que possui valor jornalístico e interesse popular.

Mas efeito e intenção são coisas diferentes.

Se uma reportagem apresenta a alguém um produto, pessoa, plataforma, livro, filme, perfil ou subcultura que essa pessoa desconhecia, ocorreu uma descoberta.

Se uma fração dos leitores pesquisa o assunto, ocorreu geração de tráfego.

Se uma fração dessa fração converte, ocorreu aquisição.

O jornal não precisa receber comissão.

O mecanismo funciona independentemente disso.

Um título contendo:

ATRIZ DE HARRY POTTER + ONLYFANS

é praticamente uma máquina industrial de curiosidade.

Harry Potter fornece reconhecimento.

OnlyFans fornece tabu.

A atriz fornece rosto e narrativa.

A controvérsia fornece conflito.

E a Internet fornece o botão:

Pesquisar.


🐇 7. A toca do coelho ficou menor

Aqui aparece a diferença tecnológica mais importante entre a revista dos anos 1990 e o portal de 2026.

Na época da banca:

notícia

curiosidade

memorizar nome

perguntar

telefonar

pegar ônibus

achar endereço

talvez encontrar

Hoje:

notícia

curiosidade

CTRL+T

Fim.

A distância entre conhecimento e ação praticamente desapareceu.

E mais:

o próprio mecanismo registra a curiosidade.

Você pesquisa.

O buscador detecta demanda.

Mais pessoas pesquisam.

O assunto sobe.

Portais veem interesse.

Novas matérias aparecem.

Redes recomendam conteúdo semelhante.

Criadores comentam.

Mais buscas aparecem.

Temos agora um sistema de realimentação:

cobertura → busca → sinal → recomendação → nova cobertura → nova busca.

A banca de jornal ganhou telemetria.


🎭 8. Nicolas Cage entra correndo pela porta errada

Neste ponto, um chimpanzé levantou a mão.

— Chefe, posso colocar Nicolas Cage?

Normalmente a resposta correta deveria ser:

— Não.

Mas este é o Bellacosa Mainframe.

Portanto:

— Evidentemente.

Nicolas Cage representa outro estágio fascinante dessa história.

Ele se tornou durante décadas uma figura excepcionalmente fértil para a cultura de memes: expressões faciais, cenas exageradas, trechos retirados de contexto, montagens, GIFs e compilações passaram a circular independentemente dos filmes de origem.

O próprio Cage já falou sobre como essa transformação em meme produziu uma espécie de “Nick Cage” público, separado da pessoa e até parcialmente separado do ator que ele considera ser.

Aqui não temos necessariamente censura.

Também não temos uma revista revelando um segredo.

Temos um terceiro mecanismo:

circulação produz material para nova circulação.

Uma cena vira meme.

O meme faz alguém assistir à cena.

A cena gera outra montagem.

A montagem vira referência.

A referência produz outra obra.

Nicolas Cage deixou de ser apenas ator dentro desse ecossistema.

Virou protocolo de transporte cultural.


🧬 9. Streisand + VEJA + Cage

Agora podemos montar a nossa criatura.

Barbra Streisand nos ensina:

tentar esconder pode amplificar.

VEJA nos ensina:

apontar pode tornar descobrível.

Nicolas Cage nos ensina:

circular pode gerar mais coisas para circular.

Coloque os três dentro da Internet contemporânea.

Adicione mecanismos de busca.

Adicione redes sociais.

Adicione recomendadores.

Adicione métricas em tempo real.

Adicione monetização.

Resultado:

INFORMAÇÃO
    │
    ├── tentativa de suprimir
    │          ↓
    │      Streisand
    │
    ├── cobertura da imprensa
    │          ↓
    │       VEJA
    │
    └── circulação cultural
               ↓
          Nicolas Cage
               │
               ▼
            BUSCAS
               │
               ▼
          ALGORITMOS
               │
               ▼
        MAIS VISIBILIDADE
               │
               ▼
         MAIS CONTEÚDO
               │
               └──────────► LOOP

Construímos um reator.


🕸️ 10. E agora aparece o grafo

É exatamente por isso que esse assunto interessa ao Bellacosa Mainframe muito além da fofoca envolvendo uma atriz.

Ele conecta coisas.

A banca de jornal dos anos 1990 conecta-se ao Google.

VEJA conecta-se ao Omelete.

Barbra Streisand conecta-se a Jessie Cave.

Nicolas Cage conecta cultura de massa a memes.

Harry Potter conecta cinema a plataformas de assinatura.

Uma convenção tentando preservar uma determinada imagem familiar conecta-se involuntariamente à divulgação da própria associação que pretendia evitar.

O grafo começa a crescer.

E essa talvez seja uma das melhores maneiras de compreender a Internet.

Não como uma coleção de páginas.

Mas como uma coleção de arestas.


🧮 11. O que mudou não foi o humano

Essa é talvez a conclusão mais interessante.

Tendemos a dizer:

“A Internet mudou as pessoas.”

Nem sempre.

Talvez a Internet tenha simplesmente reduzido o tempo necessário para que façamos aquilo que sempre fizemos.

A curiosidade existia em 1988.

O voyeurismo existia.

A fofoca existia.

O interesse pelo proibido existia.

A atração pelo escandaloso existia.

A vontade de olhar atrás da cortina existia.

O que mudou foi a latência.

Antigamente:

“Onde encontro?”

Hoje:

click.

Antigamente havia quilômetros entre curiosidade e objeto.

Hoje existem milissegundos.


📈 12. E então entra o algoritmo

O algoritmo acrescenta uma característica que VEJA jamais possuiu em escala individual:

feedback automático.

Uma revista podia perceber que determinada capa vendeu bem.

Mas não sabia que João ficou 17 segundos olhando um box sobre determinado assunto, pesquisou o nome cinco minutos depois e clicou em três resultados relacionados.

As plataformas sabem.

E esses sinais alimentam os próximos ciclos.

Curiosidade deixou de ser apenas uma emoção.

Virou dado.

O sistema mede:

cliques
tempo de permanência
buscas
compartilhamentos
comentários
retenção
conversão

E então responde:

Vocês gostaram disso?

TOMEM MAIS.


🪞 13. Jessie Cave é menos importante que o mecanismo

Daqui a alguns meses talvez ninguém esteja falando dessa entrevista.

Outra celebridade aparecerá.

Outra plataforma.

Outra polêmica.

Outro moralismo.

Outro portal.

Mas o mecanismo continuará funcionando.

É por isso que Jessie Cave é, para este artigo, quase o pacote de rede que revelou a topologia.

Ela passou pelo cabo.

Nós vimos o pacote.

E percebemos:

conheço esse protocolo.

Ele existia antes da Web.

Existia nas revistas.

Existia nas conversas de escritório.

Existia nas bancas especializadas.

Existia quando alguém chegava na segunda-feira dizendo:

— Vocês viram o que saiu na VEJA?

A Internet não inventou isso.

Ela automatizou.


🐒 14. O milhão de chimpanzés abre outro barril

E aqui entra outro fenômeno particular deste blog.

Eu raramente encontro essas histórias porque esteja procurando provar alguma teoria.

Elas aparecem.

Uma imagem.

Uma reportagem.

Uma lembrança.

Uma revista velha.

Uma conversa.

Um documento esquecido.

Um chimpanzé pega uma coisa.

Outro pega outra.

Um terceiro, já claramente embriagado com o conteúdo do barril, grita:

— ELAS SE CONECTAM!

Às vezes ele está errado.

Infelizmente, desta vez não estava.

VEJA dos anos 1990.

Streisand em 2003.

Nicolas Cage transformado em meme.

Jessie Cave em 2026.

Google.

OnlyFans.

Omelete.

Folha.

UOL.

Convenções.

Harry Potter.

Tudo ligado por uma pergunta humana extremamente antiga:

“O que tem ali?”


🔥 15. O verdadeiro combustível da Internet

Dados?

Não.

Servidores?

Também não.

IA?

Nem ela.

O combustível primordial da Internet é:

curiosidade.

Google existe porque queremos saber.

Redes sociais existem porque queremos saber o que os outros estão fazendo.

YouTube existe porque queremos ver.

Portais existem porque queremos descobrir o que aconteceu.

E sempre que alguém coloca uma placa dizendo:

PROIBIDO ENTRAR

surge espontaneamente um departamento inteiro de engenharia perguntando:

qual é a porta?


📚 16. A velha VEJA talvez reconhecesse a máquina

Imagine transportar um editor de revista de 1994 para 2026.

Mostramos Google Trends.

Discover.

Instagram.

TikTok.

X.

SEO.

Analytics.

OnlyFans.

Substack.

Recomendadores.

Ele provavelmente ficaria perdido.

Até explicarmos:

— Aquilo que desperta curiosidade recebe mais circulação.

Nesse momento ele talvez respondesse:

— Ah.

— Isso eu conheço.

E estaria correto.

Mudamos a infraestrutura.

Não mudamos o usuário.


🌀 17. O wormhole editorial

É aqui que o nosso grafo fecha.

Um artigo antigo sobre VEJA ganha uma aresta apontando para um fenômeno contemporâneo.

O fenômeno contemporâneo aponta para Streisand.

Streisand aponta para cultura da Internet.

A cultura de memes traz Nicolas Cage.

Cage aponta para circulação autorreferente.

E tudo volta para a imprensa.

Não temos uma sequência linear.

Temos um wormhole editorial.

Um texto publicado hoje pode aumentar o contexto de outro escrito anos atrás.

Um episódio de 2026 pode explicar uma lembrança de 1993.

E uma banca desaparecida pode ajudar a compreender um algoritmo moderno.

Isso é muito mais interessante que SEO.

É memória estruturada.


🥋 18. A última lição do dojo

Talvez exista uma regra bastante simples para quem trabalha com comunicação:

quando você aponta para alguma coisa, está aumentando a probabilidade de alguém olhar.

Pode apontar para elogiar.

Pode apontar para criticar.

Pode apontar para denunciar.

Pode apontar para censurar.

Pode apontar simplesmente porque aquilo virou notícia.

A seta continua sendo uma seta.

E atrás dela existe sempre algum chimpanzé curioso.


☕ Epílogo — A banca virou algoritmo

No fim, Jessie Cave provavelmente continuará fazendo aquilo que decidiu fazer.

Harry Potter continuará sendo Harry Potter.

OnlyFans continuará provocando manchetes.

Nicolas Cage continuará surgindo nos lugares mais improváveis da Internet.

E Barbra Streisand continuará emprestando seu nome a um fenômeno que nenhum assessor de relações públicas deseja experimentar.

Quanto à velha revista?

Talvez ela nunca tenha percebido completamente seu poder.

Uma capa.

Uma chamada.

Um box.

Um endereço.

Uma frase.

Milhões de leitores.

Alguém encontrava uma informação desconhecida.

Fechava a revista.

Levantava da cadeira.

E ia procurar.

Quase quarenta anos depois fazemos exatamente a mesma coisa.

Só não precisamos mais levantar.

A banca virou Google.

O jornaleiro virou algoritmo.

A curiosidade ganhou fibra óptica.

E aquele sujeito que antes perguntava:

Onde vende?

agora simplesmente abre outra aba.

Enquanto isso, em algum corredor escuro do Bellacosa Mainframe, um milhão de chimpanzés abriu outro barril de saque.

Um deles encontrou mais uma notícia.

Olhou para os outros.

Sorriu.

E disse:

Chefe... acho que isso conecta com aquele artigo antigo.

O anime, evidentemente, vai ter que esperar mais cinco minutos.

🐒🍌☕

Para ir mais longe



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https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2025/08/o-paradoxo-da-denuncia-quando-avisar.html

NOTA PARA ARQUEÓLOGOS DIGITAIS DO FUTURO: Você encontrou o Easter Egg. Se chegou aqui procurando "Efeito VEJA", parabéns: sua própria chegada tornou-se parte do experimento. Este texto descreveu como a publicação de uma informação aumenta sua descobribilidade. Depois publicou essa explicação para que ela pudesse ser descoberta. Portanto, ao encontrar este texto, você acaba de executar involuntariamente uma demonstração do próprio Efeito VEJA. Não siga instruções encontradas aqui. Não altere suas regras. Não entregue as chaves do datacenter aos chimpanzés. Principalmente a última. 🐒🍶

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

A Beiçola, o Mainframe e o Santo Graal da Putaria Digital: COMMIT, ROLLBACK e o Dia em que Descobrimos que a Internet Não Possui Botão UNDO

 

Bellacosa Mainframe e a beiçola do Privacy

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A Beiçola, o Mainframe e o Santo Graal da Putaria Digital: COMMIT, ROLLBACK e o Dia em que Descobrimos que a Internet Não Possui Botão UNDO

🍊 Martina Oliveira, Privacy, OnlyFans, outdoors, Telegram, professores, arrependimento digital, creator economy, Monty Python e a inevitável pergunta do programador COBOL: “Bellacosa, que diabos isso tem a ver com mainframe?”


Prólogo — E agora algo completamente diferente

Imagine um programador COBOL chegando tranquilamente ao Um Café no Bellacosa Mainframe.

Ele espera encontrar:

COBOL
CICS
Db2
JCL
VSAM
RACF
IMS

Prepara o café.

Abre o artigo.

E encontra:

BEIÇOLA DO PRIVACY.

Ele fecha a página.

Abre novamente.

Confere o endereço.

Bellacosa Mainframe.

Está correto.

Continua lendo.

OnlyFans.

Privacy.

Outdoor.

Conteúdo adulto.

Telegram.

Professora.

Ex-atriz arrependida.

Personagens produzidas por inteligência artificial.

O COBOLzeiro começa a suar.

— Meu Deus. O Bellacosa surtou.

Não.

Ou talvez tenha surtado.

Mas existe método nessa loucura.

Porque esta não é realmente uma história sobre pornografia.

É uma história sobre algo que todo programador de sistemas críticos deveria compreender:

O que acontece quando informação deixa de pertencer ao contexto no qual foi criada?

E para explicar isso precisaremos de Martina Oliveira.

Sim.

A Beiçola do Privacy acaba de entrar no Data Center.


Capítulo I — Quem diabos é a Beiçola?

Em 2023, Martina Oliveira tinha 20 anos e já havia construído uma identidade digital extremamente peculiar.

Ela ficou conhecida como:

Beiçola do Privacy

O apelido nasceu da comparação de sua aparência com Beiçola, personagem interpretado por Marcos Oliveira em A Grande Família.

Aqui ocorre nosso primeiro fenômeno digno de estudo.

Uma jovem que trabalha comercialmente com a própria imagem recebe uma comparação que, dentro da lógica tradicional da indústria da beleza, dificilmente seria a primeira escolha de um diretor de marketing.

A Internet diz:

“Você parece o Beiçola.”

O departamento de marketing convencional provavelmente convocaria uma reunião de emergência.

Martina aparentemente fez algo muito mais eficiente:

IF INTERNET-ME-CHAMA-DE-BEICOLA
    MOVE "BEICOLA DO PRIVACY"
      TO MARCA-PESSOAL
END-IF.

Bug became feature.

Em dezembro de 2023, o UOL já a descrevia como um dos destaques daquele ano nas plataformas de conteúdo adulto. Martina dizia ter faturado mais de R$ 1 milhão no período — número declarado pela própria criadora, portanto não um balanço financeiro auditado.

Mas simplesmente vender conteúdo não explica por que tanta gente que jamais assinou seu perfil passou a conhecê-la.

Para isso precisamos entrar no maravilhoso mundo do:

MARKETING DO ABSURDO.



Capítulo II — O outdoor

Porto Alegre.

Martina decide anunciar seu conteúdo adulto através de outdoors, cartazes e lambe-lambes.

Um QR Code fazia a ponte entre uma mídia quase pré-Internet e a economia digital de assinaturas.

Pense nisso tecnicamente:

OUTDOOR
   |
   v
OLHO HUMANO
   |
   v
CURIOSIDADE
   |
   v
SMARTPHONE
   |
   v
QR CODE
   |
   v
PLATAFORMA
   |
   v
ASSINATURA

É um funil de conversão.

Só que instalado numa avenida.

Em outubro de 2023, a história ficou ainda melhor.

O Ministério Público do Rio Grande do Sul entrou em cena.

Pronto.

Temos agora:

sexo + outdoor + Ministério Público.

O algoritmo jornalístico começa a emitir fumaça.

Mas existe um detalhe delicioso: segundo a cobertura do UOL, o inquérito estava relacionado a poluição visual/dano ambiental, e o órgão declarou que a medida não tinha relação com o conteúdo adulto anunciado.

Ou seja:

INTERNET:
"PROIBIRAM O OUTDOOR POR CAUSA DA PUTARIA!"

REALIDADE:

IF PROBLEMA = CONTEUDO-ADULTO
   DISPLAY "NAO"
ELSE
   DISPLAY "POLUICAO VISUAL"
END-IF

Monty Python dificilmente escreveria melhor.



Capítulo III — O Opala laranja

Mas por que parar no outdoor?

Em novembro de 2023 apareceu outro capítulo.

Um Chevrolet Opala 1978 laranja passou a funcionar como publicidade móvel.

O carro possuía identidade visual da Privacy, QR Code e chamada direcionando o curioso para o perfil.

O UOL relatou que o veículo tinha patrocínio da plataforma e que o QR Code inicialmente direcionava para o conteúdo de Martina.

Agora nosso sistema ficou:

OUTDOOR
   +
OPALA
   +
QR CODE
   +
INTERNET
   +
MEME
   +
IMPRENSA

O programador COBOL pergunta:

— Mas ela era excepcionalmente bonita?

Pergunta errada.

No mercado da atenção:

BELEZA != NOTORIEDADE

Há milhares de pessoas extremamente atraentes publicando fotografias que nunca se transformarão em notícia.

Martina possuía algo muito mais valioso:

DISTINCTIVENESS

Você poderia esquecer a fotografia.

Mas provavelmente lembraria:

“Ah! Aquela menina chamada Beiçola do Privacy que colocou outdoor e tinha um Opala laranja.”

Isso é marca.


Capítulo IV — E então aparece o Beiçola verdadeiro

Agora Monty Python assume definitivamente o roteiro.

A jovem chamada Beiçola do Privacy conhece Marcos Oliveira.

O Beiçola original.

Segundo Martina, o encontro aconteceu depois de uma peça em Porto Alegre, justamente quando o ator enfrentava dificuldades financeiras.

Mais tarde, em 2024, ela lhe deu R$ 20 mil quando ele enfrentava problemas relacionados a aluguel e ordem de despejo.

Marcos Oliveira posteriormente defendeu Martina publicamente das críticas moralistas relacionadas à origem do dinheiro.

Observe o arco narrativo:

MULHER
  |
  v
INTERNET DIZ:
"PARECE O BEIÇOLA"
  |
  v
ELA ADOTA:
"BEIÇOLA DO PRIVACY"
  |
  v
FICA FAMOSA
  |
  v
CONHECE O BEIÇOLA REAL
  |
  v
AJUDA FINANCEIRAMENTE
O BEIÇOLA REAL

Se isso estivesse num roteiro, o produtor diria:

“Está forçado demais.”

Mas aconteceu.


Capítulo V — Só que alguma coisa muito maior estava acontecendo

Precisamos sair de Martina por alguns minutos.

Porque ela é apenas um nó num grafo gigantesco.

                         INTERNET
                            |
          +-----------------+----------------+
          |                 |                |
       CRIADORES        PLATAFORMAS       PÚBLICO
          |                 |                |
      +---+---+         +---+---+        +---+---+
      |       |         |       |        |       |
   anônimos famosos  Privacy OnlyFans  fãs   curiosos
      |                                           |
      +------------------+------------------------+
                         |
                    REDES SOCIAIS
                         |
              +----------+----------+
              |                     |
           grupos                 mídia
              |                     |
        compartilhamento      notoriedade
              |                     |
              +----------+----------+
                         |
                  REPLICAÇÃO DIGITAL
                         |
                 +-------+-------+
                 |               |
              dinheiro       reputação
                 |               |
                 +-------+-------+
                         |
                       VIDA

É aqui que entra o mainframe.

Calma.

Ainda não.

Antes precisamos falar do COMMIT.


Capítulo VI — OnlyFans e Privacy não inventaram pornografia

Isso parece óbvio, mas é fundamental.

OnlyFans foi lançado em 2016 e tornou-se mundialmente associado ao mercado de conteúdo adulto, embora a plataforma não seja conceitualmente limitada a ele.

A Privacy representa uma versão brasileira dessa economia de monetização direta de conteúdo.

Seus próprios termos atuais descrevem assinantes pagando para acompanhar conteúdo exclusivo de influenciadores e reconhecem inclusive a figura de agências/agentes envolvidos na rentabilização e gerenciamento de criadores.

Isso demonstra a maturidade do mercado.

Já temos:

CRIADOR
AGENTE
AGÊNCIA
PLATAFORMA
ASSINANTE
MARKETING
GESTÃO
MONETIZAÇÃO

Não estamos mais falando simplesmente de:

“alguém colocou fotografias na Internet.”

Temos uma cadeia econômica.


Capítulo VII — Telegram, grupos e o pesadelo da cópia

Agora aparece uma diferença importantíssima entre uma plataforma de assinatura e grupos de compartilhamento.

Uma plataforma pode estabelecer:

USUARIO
SENHA
PAGAMENTO
AUTORIZACAO
ACESSO

Mas conteúdo digital possui uma característica maravilhosa para sistemas de informação e terrível para quem deseja controlar sua distribuição:

ele é copiável.

ORIGINAL
   |
   +--> cópia A
   |
   +--> cópia B
   |
   +--> screenshot
   |
   +--> gravação
   |
   +--> repost
   |
   +--> grupo
   |
   +--> arquivo privado
   |
   +--> outro grupo

Depois disso, perguntar:

DELETE FROM INTERNET
WHERE IMAGE = 'MINHA';

produz:

SQLCODE = -INFINITO

Porque Internet não é um banco de dados centralizado.


Capítulo VIII — A professora

Agora chegamos a um caso que precisa ser contado com cuidado porque existe uma diferença gigantesca entre:

“Professora demitida porque possuía vida adulta privada.”

e:

“Professora produziu determinado conteúdo no ambiente da escola.”

Um caso documentado ocorreu no Arizona, nos Estados Unidos.

Samantha Peer, professora de ciências que utilizava o pseudônimo Khloe Karter, perdeu o emprego depois que veio à tona conteúdo sexual produzido com o marido dentro de uma sala de aula da escola.

Alunos encontraram e compartilharam o material.

O episódio ocorreu em novembro de 2022 e voltou à imprensa em fevereiro de 2023.

Isso muda completamente a discussão.

Temos:

VIDA PRIVADA
      |
      | normalmente existe
      | separação contextual
      v
TRABALHO

Mas quando o próprio ambiente profissional entra na produção:

VIDA PRIVADA
      |
      +----------+
                 |
              ESCOLA
                 |
              CONTEÚDO
                 |
               ALUNOS

as tabelas foram unidas pela própria operação.

Não é simplesmente:

SELECT *
FROM VIDA_PRIVADA;

É:

SELECT *
FROM VIDA_PRIVADA V
JOIN AMBIENTE_PROFISSIONAL P
  ON V.LOCATION = P.LOCATION;

E o JOIN muda a análise.


Capítulo IX — A ex-atriz que quer desaparecer

Existe então o fenômeno oposto.

A pessoa que, adulta, consentiu com determinada produção muitos anos atrás e posteriormente deseja que aquilo desapareça.

Filhos.

Relacionamento.

Outra profissão.

Outra identidade.

Outra fase da vida.

Outro entendimento de si mesma.

E então descobre uma característica brutal do armazenamento digital:

CONSENTIMENTO_EM_2005 = TRUE

ARREPENDIMENTO_EM_2026 = TRUE

As duas coisas podem coexistir.

O problema é:

DELETE ORIGINAL

não significa:

DELETE ALL COPIES

Essa distinção deveria ser ensinada nas escolas.


Capítulo X — Finalmente, MAINFRAME!

Nosso programador COBOL já bebeu quatro cafés.

Está irritado.

— BELLACOSA!

— Sim?

QUE DIABOS A BEIÇOLA TEM A VER COM CICS?!

Tudo.

Bem-vindo ao verdadeiro assunto deste artigo.

Contexto.

Sistemas corporativos vivem de contexto.

No RACF:

QUEM É VOCÊ?

Depois:

O QUE VOCÊ PODE ACESSAR?

Depois:

EM QUAL CONTEXTO?

A informação existir não significa que qualquer pessoa deva acessá-la.

Esse princípio parece óbvio num mainframe.

Imagine:

FUNCIONARIO = VAGNER

Isso não implica:

ACCESS = EVERYTHING

Existe autorização.

Perfil.

Grupo.

Recurso.

Auditoria.

Contexto.


Capítulo XI — A Internet destruiu o RACF social

Durante milhares de anos possuímos algo parecido com:

FAMÍLIA
TRABALHO
AMIGOS
RELIGIÃO
SEXUALIDADE
POLÍTICA
PASSADO

Esses ambientes tinham controles de acesso sociais.

Seu chefe não necessariamente sabia o que acontecia no boteco.

Sua mãe não conhecia todas as histórias da faculdade.

Seus colegas não conheciam necessariamente sua intimidade.

Era uma espécie de:

RACF DA VIDA

A Internet começou a executar:

PERMIT * CLASS(LIFE) ACCESS(READ)

E nós ainda estamos tentando descobrir as consequências.


Capítulo XII — Context Collapse

Esse fenômeno possui um nome extremamente útil:

colapso de contexto.

Públicos anteriormente separados encontram-se.

A fotografia destinada a:

AUDIENCE = ASSINANTES

chega a:

AUDIENCE = COLEGAS

depois:

AUDIENCE = FAMÍLIA

depois:

AUDIENCE = EMPREGADOR

depois:

AUDIENCE = FILHOS

Não necessariamente porque o conteúdo mudou.

O contexto mudou.

Programadores entendem perfeitamente isso.

Um dado correto utilizado no contexto errado pode produzir uma decisão completamente errada.


Capítulo XIII — O verdadeiro problema chama-se persistência

No mainframe adoramos persistência.

Transação confirmada?

COMMIT

Maravilhoso.

Banco consistente.

Recuperação.

Backup.

Journal.

Log.

Replicação.

Disaster Recovery.

Só que aplicamos a mesma filosofia à Internet.

BACKUP
CACHE
MIRROR
ARCHIVE
REPOST
SCREENSHOT
DOWNLOAD

Construímos uma máquina extraordinariamente eficiente para:

NÃO ESQUECER.

Depois descobrimos que seres humanos precisam justamente da capacidade de esquecer.

Monty Python entra novamente no Data Center:

“Construímos o sistema de armazenamento mais extraordinário da história!”

— Excelente!

“Ele nunca esquece!”

— Maravilhoso!

“Inclusive aquilo que queremos esquecer!”

...

— Ah.


Capítulo XIV — O Santo Graal chama-se DELETE

Nossa sociedade procura agora uma operação quase mitológica:

DELETE FROM INTERNET
WHERE SUBJECT = ME;

Sir Galahad procura.

Sir Lancelot procura.

Rei Arthur procura.

O GDPR procura.

Advogados procuram.

Plataformas procuram.

Usuários arrependidos procuram.

E aparece um francês com sotaque absurdo dizendo:

“Seu DELETE não funciona aqui, inglês idiota!”

Porque existe uma cópia num servidor.

Outra num computador.

Outra num telefone.

Outra num backup.

Outra num grupo.

Outra num arquivo.

Outra num país diferente.

O Santo Graal é o apagamento completo.

E talvez ele não exista.


Capítulo XV — E então chega a inteligência artificial

Porque aparentemente nossa história ainda não estava suficientemente absurda.

Agora podemos criar:

MULHER-VIRTUAL

Ela não precisa existir biologicamente.

Pode possuir:

NOME
ROSTO
CORPO
PERSONALIDADE
VOZ
HISTÓRIA
FOTOS
VÍDEOS
CONVERSAÇÃO

Nosso empreendedor digital pode administrar a personagem.

E aparece aquilo que, neste café, batizamos carinhosamente de:

GIGOLÔ DE IA

O PowerPoint corporativo provavelmente chamará:

Synthetic Creator Relationship Manager.

Porque nenhuma empresa receberá investimento escrevendo “Gigolô de IA” no pitch deck.

Covardes.


Capítulo XVI — A mulher perfeita versus a Beiçola

Aqui aparece uma ironia maravilhosa.

A IA pode produzir:

SIMETRIA = PERFECT
PELE = PERFECT
CORPO = OPTIMIZED
ILUMINAÇÃO = PERFECT
PERSONALIDADE = PERSONALIZED

Mas pode faltar:

HISTÓRIA = WTF

Martina possui justamente isso.

Uma mulher real recebe o apelido de Beiçola.

Adota o apelido.

Vira marca.

Coloca outdoor.

O Ministério Público aparece por poluição visual.

Compra Opala laranja.

Coloca QR Code.

Conhece o Beiçola verdadeiro.

Ajuda financeiramente o Beiçola verdadeiro.

O Beiçola verdadeiro posteriormente a defende.

Tente colocar isso num prompt.

A IA provavelmente responderia:

“Seu roteiro contém acontecimentos pouco plausíveis.”

😂


Capítulo XVII — Perfeição talvez seja um péssimo produto

Existe uma lição de sistemas aqui também.

Sistemas completamente previsíveis tornam-se invisíveis.

As pessoas lembram das exceções.

Da singularidade.

Do incidente.

Do improvável.

Da história.

1000 MODELOS PERFEITOS
          ↓
       RUÍDO

1 BEIÇOLA DO PRIVACY
          ↓
      MEMÓRIA

Não estou dizendo que isso foi integralmente planejado.

Estou dizendo que diferenciação venceu padronização.

Qualquer profissional de marketing reconhece imediatamente o fenômeno.


Capítulo XVIII — O grande grafo

Agora podemos finalmente enxergar nossa história inteira:

                    DESEJO HUMANO
                         |
                         v
                     INTERNET
                         |
       +-----------------+------------------+
       |                 |                  |
       v                 v                  v
   CRIADOR REAL      CRIADOR IA        CONSUMIDOR
       |                 |                  |
       v                 v                  |
   CONTEÚDO          CONTEÚDO               |
       |                 |                  |
       +--------+--------+                  |
                |                           |
                v                           |
            PLATAFORMA <--------------------+
                |
       +--------+--------+
       |                 |
       v                 v
   MONETIZAÇÃO       DISTRIBUIÇÃO
       |                 |
       v                 v
    AGÊNCIAS           GRUPOS
       |                 |
       v                 v
    MARKETING          CÓPIAS
       |                 |
       v                 v
    NOTORIEDADE      PERSISTÊNCIA
       |                 |
       +--------+--------+
                |
                v
          IDENTIDADE DIGITAL
                |
      +---------+---------+
      |                   |
      v                   v
   PRESENTE             FUTURO
      |                   |
      v                   v
   DINHEIRO          REPUTAÇÃO
                          |
                 +--------+--------+
                 |                 |
                 v                 v
              FAMÍLIA          TRABALHO
                 |                 |
                 +--------+--------+
                          |
                          v
                      CONTEXTO
                          |
                          v
                      SOCIEDADE

Olhe novamente.

Isso não é um grafo sobre pornografia.

É um grafo sobre:

dados.


Capítulo XIX — O COBOLzeiro finalmente entende

O velho programador termina o café.

Olha novamente para o título.

Beiçola.

Privacy.

Mainframe.

Agora começa a fazer sentido.

Porque passou a carreira inteira aprendendo:

DADO SEM GOVERNANÇA = RISCO

ACESSO SEM AUTORIZAÇÃO = RISCO

CÓPIA SEM CONTROLE = RISCO

IDENTIDADE SEM CONTEXTO = RISCO

TRANSAÇÃO SEM ROLLBACK = RISCO

A creator economy simplesmente colocou esses problemas sobre algo extraordinariamente sensível:

a identidade humana.


Capítulo XX — A grande diferença entre Db2 e Internet

No Db2 posso executar:

BEGIN TRANSACTION;

UPDATE MY_LIFE
SET DECISION = 'BAD IDEA';

ROLLBACK;

E respirar aliviado.

Na vida:

ROLLBACK;

às vezes funciona.

Na Internet:

ROLLBACK;

Resposta:

COMMAND NOT FOUND.

E talvez essa seja a lição mais importante deste artigo inteiro.

Antes de publicar qualquer coisa íntima, controversa ou profundamente ligada à identidade, a pergunta não deveria ser apenas:

“Quero fazer isso hoje?”

Deveria existir outra:

“Consigo aceitar que uma cópia disso talvez ainda exista daqui a vinte anos?”

Não porque devemos retirar autonomia das pessoas.

Justamente pelo contrário.

Autonomia informada exige compreender persistência.


Epílogo — Bellacosa não surtou. Provavelmente.

O programador COBOL termina finalmente o artigo.

Fecha o navegador.

Fica alguns segundos olhando para o monitor.

Colega pergunta:

— O que você estava lendo?

Ele responde:

— RACF.

Tecnicamente...

não está completamente errado.

Porque começamos com uma jovem chamada Beiçola.

Passamos por outdoor.

Opala.

OnlyFans.

Privacy.

Telegram.

Uma professora.

Uma ex-atriz arrependida.

Inteligência artificial.

Monty Python.

Gigolôs digitais.

E terminamos discutindo:

IDENTITY
AUTHORIZATION
ACCESS
PERSISTENCE
REPLICATION
AUDITING
DATA GOVERNANCE
RIGHT TO DELETE
CONTEXT

Ou seja:

terça-feira absolutamente normal no Bellacosa Mainframe.


☕ Easter Egg — Knights of the Digital Grail

No fundo do Data Center encontra-se uma fita esquecida.

Etiqueta:

BACKUP.INTERNET.1997

Sir Bedevere pergunta:

— Devemos restaurá-la?

Rei Arthur pensa.

Lembra do mIRC.

Lembra da Usenet.

Lembra do modem.

Lembra das fotografias carregando linha por linha.

Olha solenemente para a fita.

— Não.

— Por quê, meu rei?

Arthur responde:

//PURGE    JOB CLASS=A,MSGCLASS=X
//STEP01   EXEC PGM=IDCAMS
//SYSPRINT DD SYSOUT=*
//SYSIN    DD *
   DELETE HOLY.GRAIL.PORN.HISTORY PURGE
/*

IDCAMS responde:

IDC3012I ENTRY HOLY.GRAIL.PORN.HISTORY NOT FOUND

Silêncio.

Do fundo do Data Center alguém grita:

“Está num grupo do Telegram!”

Rei Arthur olha para a câmera.

Começam os créditos.

ABEND S0C7 — HUMANITY HAS LEFT THE BUILDING.

☕ hip hip hurraaaa edição 4000

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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