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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Capítulo 2 — A Década dos Buzzwords

Bellacosa Mainframe invente um nome um jargao e mate o mainframe

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 2 — A Década dos Buzzwords

Quando Bastava Inventar um Nome Bonito para Declarar a Morte do Mainframe

Uma análise histórica e bem-humorada dos buzzwords dos anos 1990, como Client/Server, Downsizing, Open Systems, RISC e Windows NT, que prometiam substituir o mainframe enquanto COBOL, CICS, Db2, JCL, z/OS e IBM Z continuavam evoluindo.

Por

A Década dos Buzzwords e as previsões sobre a morte do mainframe 

"Toda geração acredita ter inventado a computação. Toda geração descobre, alguns anos depois, que ainda existe um COBOL pagando salários."
— Bellacosa Mainframe


Bem-vindo aos anos 90

Se você é um Padawan COBOL e nasceu depois dos anos 2000, talvez seja difícil imaginar o clima que existia na indústria de tecnologia durante a década de 1990.

Hoje estamos acostumados a ouvir expressões como:

  • IA Generativa

  • LLM

  • Agentic AI

  • RAG

  • MCP

  • AI Native

  • Platform Engineering

  • Data Mesh

  • Cloud Native

Mas, naquela época, esses nomes ainda nem existiam.

Em compensação...

Os corredores das empresas eram inundados por outra coleção de palavras mágicas.

Client/Server.

Open Systems.

Downsizing.

Distributed Computing.

Workgroups.

LAN Computing.

Enterprise Networking.

Network Computing.

Object-Oriented.

Visual Programming.

Windows NT.

RISC.

Cada uma dessas expressões era apresentada como a solução definitiva para todos os problemas da computação corporativa.

Se um fabricante queria vender um servidor...

Colocava "Open" no nome.

Se queria vender uma ferramenta...

Chamava de "Client/Server".

Se queria convencer o diretor financeiro...

Prometia "Downsizing".

Se queria impressionar investidores...

Falava em "Distributed Computing".

Era a época em que o marketing tecnológico descobriu que uma boa buzzword podia vender mais do que um bom benchmark.


A religião do Client/Server

Nenhum termo foi tão poderoso quanto Client/Server.

Hoje ele parece apenas uma arquitetura comum.

Mas, no início dos anos 90, era quase uma religião.

Consultores viajavam o mundo inteiro mostrando diagramas semelhantes.

          [PC]
            |
          [Servidor]

Depois olhavam para um desenho de um mainframe.

          [IBM Mainframe]

E diziam:

— Está vendo?

Esse modelo é antigo.

Centralizado.

Monolítico.

O futuro é distribuído.

A ideia parecia excelente.

Dividir a carga.

Comprar servidores menores.

Dar autonomia às áreas.

Substituir um computador gigantesco por centenas de máquinas menores.

Na teoria...

Tudo fazia sentido.

Na prática...

As empresas descobriram algo curioso.

Um servidor pequeno é barato.

Quinhentos servidores pequenos...

Nem tanto.


Downsizing: a promessa de economizar milhões

Outra palavra extremamente popular era Downsizing.

O discurso era sedutor.

"Por que comprar um computador enorme quando podemos comprar dezenas de computadores baratos?"

A lógica parecia impecável.

O problema era um pequeno detalhe.

Ninguém havia calculado o custo de administrar centenas de computadores.

De repente apareceram problemas novos.

Mais backups.

Mais discos.

Mais sistemas operacionais.

Mais patches.

Mais licenças.

Mais administradores.

Mais falhas.

Mais consumo de energia.

Mais refrigeração.

Mais monitoramento.

Mais suporte.

O CPD não desapareceu.

Ele apenas ficou espalhado por vários racks.


Open Systems

Outra expressão quase obrigatória era:

Open Systems

Era impossível abrir uma revista técnica sem encontrar esse termo.

O curioso é que poucas pessoas conseguiam definir exatamente o que significava.

Na prática, "Open" podia significar qualquer coisa.

UNIX.

POSIX.

TCP/IP.

X/Open.

Padrões.

Interoperabilidade.

Ou simplesmente...

Marketing.

Parecia existir uma regra informal:

Se o produto fosse chamado de "Open", automaticamente ficava moderno.

Enquanto isso...

O IBM já executava protocolos abertos, TCP/IP, UNIX (AIX), SNA, APPC e diversas tecnologias de interoperabilidade, embora raramente recebesse esse crédito.


O medo do "grande computador"

Havia também um componente psicológico.

Mainframes eram enormes.

Caros.

Impressionantes.

Ficavam em salas refrigeradas.

Tinham operadores.

Consoles.

Fitas magnéticas.

Grandes discos.

Para muitos executivos, aquilo parecia representar uma tecnologia "do passado".

Os servidores menores transmitiam outra sensação.

Modernidade.

Agilidade.

Liberdade.

Só havia um problema.

A física não liga para marketing.

Nem a teoria das filas.

Nem a consistência transacional.

Nem o CAPEX.

Nem o OPEX.

Nem a Lei de Amdahl.


O nascimento da guerra comercial

Pouca gente comenta isso.

Mas boa parte daquela narrativa foi impulsionada por uma disputa extremamente agressiva entre fabricantes.

IBM.

DEC.

Sun Microsystems.

HP.

Compaq.

Silicon Graphics.

Data General.

Tandem.

Se uma empresa conseguisse convencer o mercado de que o mainframe estava morrendo...

Automaticamente venderia mais servidores.

Não havia nada de ilegal nisso.

Era competição.

Mas muitas análises técnicas começaram a misturar engenharia com marketing.

E essa mistura quase nunca produz boas previsões.


A guerra das arquiteturas

Outro grande "vilão" da época era o processador CISC.

Segundo muitos especialistas, o futuro pertencia aos processadores RISC.

As apresentações eram quase sempre iguais.

RISC era simples.

Elegante.

Rápido.

CISC era complexo.

Antigo.

Lento.

O detalhe curioso?

Enquanto essa discussão acontecia, os engenheiros da IBM continuavam evoluindo silenciosamente sua arquitetura, introduzindo novas gerações de processadores, cache, canais de I/O e mecanismos sofisticados de paralelismo.

No mundo real...

O cliente queria saber apenas uma coisa.

"Meu banco continua funcionando?"


Quando o PowerPoint venceu a engenharia

Existe uma piada antiga entre arquitetos.

"Quanto mais bonito o slide, maior a chance de esconder um benchmark incompleto."

Nos anos 90 isso acontecia frequentemente.

Os gráficos mostravam:

⬆️ Crescimento dos PCs.

⬆️ Crescimento das LANs.

⬆️ Crescimento do UNIX.

⬇️ Queda do preço dos servidores.

E então aparecia a conclusão inevitável:

"O mainframe acabou."

Só que os gráficos raramente mostravam:

  • disponibilidade;

  • MTBF;

  • MTTR;

  • throughput;

  • custo operacional ao longo de dez anos;

  • consistência transacional;

  • segurança;

  • auditoria;

  • produtividade por administrador;

  • custo de migração.

Era como comparar um caminhão com uma motocicleta apenas pelo preço de compra.


O Padawan COBOL observa tudo isso...

Imagine nosso Padawan viajando no tempo.

Ele entra em uma feira de tecnologia de 1993.

Escuta uma palestra.

"COBOL acabou."

Ele sorri.

Passa em outro estande.

"CICS morreu."

Ele continua andando.

Mais adiante.

"Db2 será substituído."

Ele pega um café.

Mais um corredor.

"O futuro é sem mainframe."

Ele olha discretamente para o relógio.

Naquele exato momento...

Milhões de cartões de crédito estão sendo autorizados.

Bilhões de dólares estão sendo transferidos.

Companhias aéreas continuam emitindo passagens.

Governos processam impostos.

Seguradoras calculam riscos.

Tudo em plataformas que, segundo os palestrantes, já deveriam estar mortas.

Nosso Padawan apenas pensa:

"Esse defunto trabalha bastante..."


Buzzwords envelhecem. Engenharia permanece.

Existe uma diferença fundamental entre uma moda e uma arquitetura.

A moda vende expectativa.

A arquitetura entrega resultado.

Durante mais de cinquenta anos, dezenas de buzzwords apareceram prometendo substituir completamente o mainframe.

Algumas realmente trouxeram avanços importantes.

Outras desapareceram tão rapidamente quanto surgiram.

A computação distribuída venceu?

Sim.

Cloud existe?

Claro.

Containers revolucionaram o desenvolvimento?

Sem dúvida.

Mas nenhuma dessas tecnologias eliminou automaticamente a necessidade de plataformas transacionais altamente confiáveis.

Elas passaram a coexistir.

E o IBM Z evoluiu para integrar-se a esse novo ecossistema.


A primeira lição para um Padawan COBOL

Quando você ouvir alguém afirmar que uma tecnologia "vai morrer em dois anos", faça três perguntas simples:

  1. Quem está dizendo isso?

  2. Quem ganha dinheiro se isso acontecer?

  3. Os maiores bancos do mundo concordam?

Se a terceira resposta for "não"...

Talvez seja apenas mais uma buzzword.


O verdadeiro inimigo nunca foi o mainframe

O maior erro da década de 1990 não foi apostar em novas arquiteturas.

Elas eram necessárias e transformaram a indústria.

O erro foi acreditar que inovação exige destruição completa do que veio antes.

A história mostrou exatamente o contrário.

Os sistemas corporativos evoluíram por integração, não por substituição.

O IBM Z incorporou Linux, Java, APIs REST, OpenShift, DevOps, Zowe, watsonx, IA embarcada, COBOL moderno, Db2 13 e CICS TS, enquanto as arquiteturas distribuídas amadureceram ao seu redor.

O resultado não foi a vitória de um lado sobre o outro.

Foi um ecossistema híbrido, onde cada tecnologia ocupa o espaço em que entrega mais valor.

E talvez essa seja a maior ironia da década dos buzzwords:

Enquanto muitos gastavam energia tentando enterrar o mainframe, os engenheiros da IBM estavam ocupados fazendo algo muito menos chamativo...

Preparando a próxima geração.

Bellacosa Mainframe e a serie Funeral que nunca aconteceu