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sábado, 7 de maio de 2016

Mainframe History : Parte V — Z4: O Computador que Sobreviveu à Guerra e Ensinou a Europa a Computar

 

Bellacosa Mainframe e o outro computador z parte v

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Muito Antes do IBM Z Existia Outro "Z"

Parte V — Z4: O Computador que Sobreviveu à Guerra e Ensinou a Europa a Computar

"Algumas máquinas são aposentadas. Outras tornam-se peças de museu. O Z4 atravessou uma guerra, cruzou montanhas e inaugurou uma nova era da computação científica."

Até aqui acompanhamos a extraordinária jornada de Konrad Zuse.

Conhecemos o apartamento transformado em laboratório.

Vimos nascer o Z1, praticamente um relógio mecânico capaz de calcular.

Assistimos ao surgimento do Z2, quando os relés telefônicos começaram a substituir parte da mecânica.

Depois testemunhamos o Z3, considerado por muitos historiadores o primeiro computador digital programável totalmente funcional do mundo.

Mas a história ainda reservaria um capítulo digno de um romance de aventura.

Porque o próximo computador de Zuse não seria apenas mais rápido.

Ele precisaria sobreviver.

Não a um erro de programação.

Não a um ABEND.

Não a uma pane elétrica.

Precisaria sobreviver à maior guerra que a humanidade já havia conhecido.

Seu nome era Z4.

E, de certa forma, ele foi o primeiro computador europeu a provar que uma máquina programável podia deixar o laboratório e tornar-se uma ferramenta indispensável para a ciência.


Quando a História Invade a Engenharia

No início da década de 1940, a Segunda Guerra Mundial já havia transformado completamente a Europa.

Berlim deixara de ser apenas uma grande capital industrial.

Era também alvo constante de bombardeios.

Laboratórios desapareciam.

Universidades interrompiam pesquisas.

Fábricas eram destruídas.

A infraestrutura alemã começava a ruir.

Nesse ambiente caótico, continuar construindo computadores parecia uma tarefa quase impossível.

Mesmo assim, Konrad Zuse continuou trabalhando.

Talvez porque engenheiros possuam uma característica peculiar.

Eles costumam enxergar problemas onde outros enxergam apenas caos.

E gostam de resolvê-los.


O Fim do Z3

O Z3, orgulho da engenharia alemã, não teve um destino feliz.

Durante um bombardeio aliado sobre Berlim, em 1943, o computador foi destruído juntamente com o prédio onde estava instalado.

Não existiam backups.

Não havia replicação geográfica.

Nada parecido com um GDPS moderno.

Quando o prédio desapareceu, boa parte daquele trabalho pioneiro desapareceu junto.

Hoje falamos em Disaster Recovery.

Na década de 1940, o desastre era real.

E frequentemente irreversível.


☕ Café com Naftalina

Imagine um Sysprog ouvindo que seu único datacenter foi completamente destruído.

Sem cópia de segurança.

Sem outro site.

Sem storage espelhado.

Sem nuvem.

Foi exatamente isso que aconteceu com o Z3.

A computação corporativa moderna aprendeu, muitas vezes da forma mais difícil, que disponibilidade começa muito antes da tecnologia.

Começa no planejamento.


O Projeto Não Morreu

Se há algo que diferencia grandes engenheiros é a capacidade de recomeçar.

A destruição do Z3 não significou o fim da visão de Konrad Zuse.

Muito antes do bombardeio, ele já trabalhava em um sucessor.

Esse novo computador deveria corrigir limitações observadas nos projetos anteriores.

Mais memória.

Mais estabilidade.

Maior flexibilidade.

Mais recursos para cálculos científicos.

Assim nasceu o projeto do Z4.


Um Computador em Tempos de Escassez

Construir um computador em plena guerra exigia criatividade.

Componentes eletrônicos eram raros.

Relés eram disputados pela indústria militar.

Materiais metálicos tinham prioridade para armamentos.

Nada era simples.

Cada componente precisava ser reaproveitado.

Cada peça exigia planejamento.

Hoje reclamamos quando um fornecedor atrasa um SSD.

Konrad Zuse precisava convencer autoridades a liberar pequenas quantidades de relés.

Era outra realidade.


A Arquitetura Evolui

Embora mantivesse muitas ideias do Z3, o Z4 representava um importante amadurecimento.

A máquina foi projetada para oferecer maior confiabilidade e ampliar o conjunto de operações disponíveis para cálculos científicos.

Seu foco continuava sendo a engenharia.

Pontes.

Estruturas.

Aerodinâmica.

Matemática aplicada.

Mas agora havia também uma preocupação crescente com produtividade.

Quanto menos tempo um pesquisador gastasse calculando manualmente, mais tempo teria para pensar.

É uma filosofia que permanece viva na automação moderna.


🔧 Oficina do Engenheiro

Quando falamos em evolução arquitetural, não devemos imaginar apenas aumento de velocidade.

Arquitetura também significa:

  • facilidade de operação;

  • confiabilidade;

  • manutenção;

  • expansão;

  • organização lógica dos componentes.

Esses princípios continuam norteando o desenvolvimento dos atuais processadores IBM Z.


Um Computador em Fuga

À medida que a guerra se aproximava do fim, tornava-se evidente que Berlim não era mais um lugar seguro para um equipamento tão valioso.

O Z4 precisava desaparecer.

Literalmente.

Sua trajetória tornou-se quase cinematográfica.

O computador foi desmontado.

Transportado em partes.

Escondido em diferentes locais.

Protegido sempre que possível.

Durante meses, permaneceu longe dos grandes centros urbanos para escapar da destruição.

Cada relé salvo representava anos de trabalho.

Cada módulo preservado aumentava a esperança de que aquele projeto sobrevivesse ao conflito.

Hoje movimentamos uma imagem virtual entre LPARs em poucos segundos.

Na década de 1940, mover um computador significava carregar centenas de quilos de equipamentos por estradas precárias, sob o risco constante da guerra.


A Guerra Acaba

Quando o conflito terminou em 1945, a Europa encontrava-se devastada.

Mas o Z4 havia sobrevivido.

Essa simples frase já seria suficiente para colocá-lo entre as máquinas mais extraordinárias da história.

Entretanto, sua jornada estava apenas começando.

Konrad Zuse compreendeu que o futuro da computação dependeria menos de demonstrações experimentais e mais da utilização prática dessas máquinas.

Era preciso encontrar usuários.

Pesquisadores.

Universidades.

Instituições dispostas a investir nessa nova tecnologia.


Uma Nova Casa: ETH Zürich

Em 1950, o Z4 encontrou seu destino definitivo.

Foi instalado na ETH Zürich (Instituto Federal de Tecnologia de Zurique), na Suíça.

Não foi uma escolha qualquer.

A ETH já era uma das mais respeitadas instituições científicas da Europa.

Albert Einstein havia estudado ali décadas antes.

Agora seria a vez de outro protagonista da ciência deixar sua marca.

O Z4 tornou-se uma poderosa ferramenta para pesquisadores que precisavam resolver problemas matemáticos complexos.

Pela primeira vez, um computador programável europeu deixava definitivamente a condição de experimento para assumir papel relevante na produção científica.


📦 Baú do Sysprog

Muito antes dos contratos de outsourcing, dos ambientes compartilhados e do conceito de Computing as a Service, o Z4 já representava algo semelhante.

Em vez de cada pesquisador construir sua própria máquina, diversos grupos utilizavam um único computador para resolver problemas diferentes.

A ideia de compartilhar recursos computacionais começava a nascer.

Décadas depois, ela evoluiria para os mainframes IBM, onde milhares de usuários compartilham simultaneamente o mesmo sistema físico por meio de LPARs, z/VM e outras tecnologias de virtualização.


O Primeiro Computador Comercial da Europa?

Os historiadores costumam discutir essa afirmação com cuidado.

Mas há um consenso importante.

O Z4 foi um dos primeiros computadores programáveis efetivamente comercializados e utilizados por clientes reais na Europa.

Isso muda completamente sua posição histórica.

Ele deixou de ser apenas uma curiosidade de laboratório.

Transformou-se em um produto.

Hoje parece natural comprar servidores.

Na década de 1950, vender um computador era algo quase inimaginável.


Enquanto Isso, a IBM Observava Outro Mercado

É interessante comparar esse momento com a trajetória da IBM.

Enquanto Zuse desenvolvia computadores científicos programáveis, a IBM consolidava sua liderança com equipamentos baseados em cartões perfurados.

Os clientes eram diferentes.

As necessidades também.

A IBM dominava:

  • censos;

  • bancos;

  • seguradoras;

  • governos;

  • contabilidade.

Zuse concentrava-se em:

  • universidades;

  • engenharia;

  • pesquisa científica.

Décadas depois, essas duas correntes tecnológicas convergiriam para formar a indústria da computação moderna.


O Que um Sysprog Aprende com o Z4?

Talvez a maior lição do Z4 seja que tecnologia só muda o mundo quando encontra usuários.

Não basta construir uma máquina extraordinária.

É preciso que alguém a utilize para resolver problemas reais.

Esse princípio continua absolutamente válido.

Não importa se estamos falando de IA generativa, OpenTelemetry, Zowe, DevOps ou IBM Z.

Tecnologia sem aplicação prática é apenas demonstração.

Tecnologia utilizada diariamente transforma empresas, economias e sociedades.

O Z4 foi uma das primeiras máquinas a provar isso.


A Semente da Computação Moderna

O sucesso do Z4 demonstrou que computadores programáveis não eram apenas curiosidades acadêmicas.

Eles poderiam tornar-se ferramentas permanentes de pesquisa.

Poderiam acelerar descobertas científicas.

Poderiam justificar investimentos.

Poderiam evoluir continuamente.

Esse talvez seja seu maior legado.

Mostrar que a computação possuía um futuro.

E que esse futuro seria construído por gerações de engenheiros.


No Próximo Café...

Até agora falamos sobre máquinas.

Na próxima parte conheceremos algo ainda mais revolucionário.

Uma ideia.

Uma linguagem.

Enquanto boa parte do mundo ainda discutia como construir computadores, Konrad Zuse já pensava em como conversar com eles.

Nascia o Plankalkül, considerado por muitos a primeira linguagem de programação de alto nível da história.

Muito antes de FORTRAN.

Muito antes de ALGOL.

Muito antes de COBOL.

Uma linguagem tão avançada que o mundo levaria décadas para entender o que seu criador havia imaginado.

Prepare o café.

Na próxima viagem, descobriremos que Konrad Zuse não inventou apenas computadores.

Ele também ajudou a inventar a forma como programamos.

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