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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Mainframe History : Especial VIII A — Tommy Flowers: O Pai Esquecido da Computação Eletrônica

 

Bellacosa Mainframe e outro computador z especial complemento parte viii a

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Muito Antes do IBM Z Existia Outro "Z"

Especial VIII A — Tommy Flowers: O Pai Esquecido da Computação Eletrônica

O Homem que Acendeu 2.500 Válvulas, Encurtou a Segunda Guerra Mundial e Depois Voltou para Casa Como um Anônimo

"A História costuma celebrar quem aparece nos jornais. A Engenharia costuma ser construída por aqueles que permanecem escondidos nos laboratórios."

Se você perguntar a um grupo de profissionais de TI quem foi Konrad Zuse, alguns responderão corretamente.

Se perguntar quem foi John von Neumann, muitos lembrarão da famosa arquitetura que domina praticamente todos os computadores modernos.

Se mencionar Alan Turing, provavelmente ouvirá referências à Enigma, à inteligência artificial e ao famoso Teste de Turing.

Agora faça outra pergunta.

Quem foi Tommy Flowers?

É bem provável que boa parte das pessoas permaneça em silêncio.

E isso é profundamente injusto.

Porque, sem Tommy Flowers, talvez a computação eletrônica tivesse demorado muito mais para conquistar a confiança da comunidade científica e da indústria.

Hoje vamos conhecer um engenheiro que nunca buscou fama.

Nunca escreveu autobiografias.

Nunca apareceu em campanhas publicitárias.

Nunca recebeu o reconhecimento proporcional ao tamanho de sua contribuição.

Mesmo assim, ajudou a mudar o destino da Segunda Guerra Mundial e da própria computação.


Um Engenheiro dos Correios

Thomas Harold Flowers nasceu em Londres, em 1905.

Sua formação não aconteceu em uma universidade famosa de matemática.

Nem em um laboratório de física.

Flowers era engenheiro de telecomunicações.

Trabalhava no General Post Office (GPO), o serviço postal britânico, que também era responsável pela infraestrutura telefônica do país.

Hoje isso pode parecer estranho.

Mas, naquela época, telefonia e telecomunicações estavam entre as áreas mais avançadas da engenharia.

Ali, Flowers aprendeu algo que mudaria sua vida.

Como construir equipamentos eletrônicos capazes de funcionar continuamente.


O Mundo das Centrais Telefônicas

Imagine uma central telefônica da década de 1930.

Milhares de ligações.

Relés abrindo e fechando contatos.

Operadoras conectando chamadas manualmente.

Depois, sistemas automáticos assumindo essa função.

A confiabilidade era essencial.

Uma falha interrompia centenas de comunicações.

Flowers especializou-se justamente em tornar esses sistemas mais rápidos e mais confiáveis.

Enquanto muitos engenheiros ainda confiavam apenas em mecanismos eletromecânicos, ele acreditava que o futuro estava nas válvulas eletrônicas.

Essa convicção seria colocada à prova poucos anos depois.


☕ Café com Naftalina

Quando hoje falamos em "alta disponibilidade", pensamos em clusters, replicação síncrona, Parallel Sysplex ou GDPS.

Na década de 1930, alta disponibilidade significava manter milhares de chamadas telefônicas funcionando sem interrupção.

Os princípios são os mesmos.

Mudaram apenas as tecnologias.


Um Convite para Bletchley Park

Com o início da Segunda Guerra Mundial, o governo britânico reuniu cientistas, matemáticos e engenheiros em um lugar que permaneceria secreto por décadas.

Seu nome era Bletchley Park.

Ali trabalhavam alguns dos maiores talentos da época.

Entre eles estava Alan Turing.

O objetivo era simples de explicar e extremamente difícil de executar:

Ler mensagens inimigas sem que o inimigo percebesse.

No início, os esforços concentraram-se na famosa máquina Enigma.

Mas havia um desafio ainda maior.

O sistema criptográfico Lorenz SZ40/42, utilizado para comunicações do alto comando alemão.

Era muito mais complexo que a Enigma.

Resolver esse problema manualmente era praticamente impossível.

Era necessário construir uma máquina.


"Isso Nunca Vai Funcionar"

Quando Tommy Flowers apresentou sua proposta, muitos colegas foram céticos.

Sua ideia era utilizar cerca de 2.500 válvulas eletrônicas.

Na época, isso parecia absurdo.

O argumento era sempre o mesmo.

"As válvulas queimam o tempo todo."

"Uma máquina com milhares delas jamais será confiável."

Flowers discordava.

Com base em sua experiência nas centrais telefônicas, sabia que a maior parte das falhas ocorria justamente durante o aquecimento e o resfriamento dos componentes.

Sua solução era surpreendentemente simples.

Nunca desligar a máquina.

As válvulas permaneceriam energizadas continuamente.

Hoje essa estratégia parece familiar.

Datacenters modernos evitam ciclos desnecessários de desligamento justamente para reduzir estresse térmico em diversos componentes.

Mais uma vez, uma boa ideia atravessou décadas.


🔧 Oficina do Engenheiro

Uma válvula termiônica controla o fluxo de elétrons em um ambiente de vácuo. Ela cumpre funções de amplificação e chaveamento semelhantes às que mais tarde seriam desempenhadas pelos transistores.

Embora fossem grandes, consumissem muita energia e gerassem calor, as válvulas permitiam operações muito mais rápidas que os relés eletromecânicos.

O Colossus demonstrou, na prática, que sistemas eletrônicos complexos podiam operar continuamente com alta confiabilidade quando bem projetados.


Nasce o Colossus

Em dezembro de 1943, o primeiro Colossus começou a operar.

Era uma máquina impressionante.

  • Cerca de 2.400 válvulas eletrônicas (na primeira versão).

  • Leitura óptica de fita perfurada em alta velocidade.

  • Processamento eletrônico.

  • Configuração por chaves e painéis.

  • Operação praticamente contínua.

Poucos meses depois surgiu o Colossus Mark II, ainda mais rápido e sofisticado.

Ao final da guerra, havia várias unidades em operação.


Enigma? Não.

Existe um dos maiores equívocos da história da computação.

Muita gente acredita que o Colossus foi construído para quebrar a Enigma.

Na realidade, sua principal missão era analisar mensagens produzidas pela máquina Lorenz, utilizada pelo alto comando alemão.

A Enigma era extremamente importante.

Mas o Lorenz protegia comunicações estratégicas entre Hitler e seus principais comandantes.

Quebrar esse sistema fornecia informações de enorme valor militar.


O Computador Invisível

O Colossus funcionou.

E funcionou muito bem.

Contribuiu para acelerar significativamente o trabalho dos criptanalistas britânicos.

Entretanto, quando a guerra terminou, aconteceu algo extraordinário.

As máquinas foram desmontadas.

Projetos destruídos.

Documentos classificados.

Os engenheiros assinaram compromissos de confidencialidade.

Durante décadas, praticamente ninguém podia comentar sua existência.

Enquanto isso, livros de história apresentavam o ENIAC como a grande revolução eletrônica.

Não porque o ENIAC não fosse extraordinário.

Mas porque quase ninguém sabia que o Colossus havia existido.


📦 Baú do Sysprog

Imagine participar do desenvolvimento de um sistema revolucionário e passar quase trinta anos proibido de mencionar esse trabalho, até mesmo para amigos ou familiares.

Foi exatamente isso que aconteceu com Tommy Flowers e muitos integrantes da equipe de Bletchley Park.


O Que um Sysprog IBM Z Aprende com Tommy Flowers?

Mais do que velocidade, Tommy Flowers nos ensina sobre confiabilidade.

Ele enfrentou um problema que qualquer Sysprog reconhece imediatamente:

Como manter um sistema complexo funcionando continuamente?

Sua resposta foi engenharia.

Testes.

Redundância.

Conhecimento profundo dos componentes.

Operação disciplinada.

É exatamente essa cultura que encontramos hoje nos ambientes IBM Z.

Não basta processar milhões de transações por segundo.

É preciso fazer isso todos os dias, durante anos, com disponibilidade próxima de 100%.


Um Herói Silencioso

Tommy Flowers não buscou reconhecimento.

Depois da guerra voltou ao trabalho em telecomunicações.

Não ficou rico.

Não fundou uma grande empresa de computadores.

Não se tornou uma celebridade.

Mas deixou uma herança extraordinária.

Demonstrou que computadores eletrônicos podiam ser rápidos, robustos e confiáveis.

Essa certeza influenciou toda a evolução posterior da computação.


O Legado

Konrad Zuse mostrou que computadores programáveis eram possíveis.

Tommy Flowers provou que computadores eletrônicos eram viáveis em larga escala.

Eckert e Mauchly levaram essa tecnologia ao conhecimento do público.

Von Neumann organizou seus princípios arquiteturais.

A IBM transformou tudo isso em plataformas comerciais confiáveis.

Quando um IBM Z processa bilhões de transações por dia, há um pouco de cada um desses pioneiros trabalhando silenciosamente dentro dele.

Inclusive de um engenheiro dos Correios britânicos que acreditou em 2.500 válvulas quando quase ninguém acreditava.

Talvez essa seja a maior lição de Tommy Flowers.

A inovação nem sempre nasce do consenso.

Às vezes, ela nasce da coragem de um engenheiro que insiste em provar que todos os outros estavam errados.

E, de vez em quando...

Ele realmente consegue.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Histórias com Cheiro de Naftalina

O Guia do Viajante do Tempo

Muito Antes do IBM Z Existia Outro “Z”

Viaje pelas origens da computação, conhecendo Konrad Zuse, Herman Hollerith, Tommy Flowers, John von Neumann, o Colossus, o EDVAC, o IBM System/360 e os pioneiros que construíram o caminho até o IBM Z.

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Bellacosa Mainframe — tecnologia, história, COBOL, IBM Z e memória.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Mainframe History : Parte VIII a — Afinal, Quem Inventou o Primeiro Computador?

 

Bellacosa Mainframe e o outro computador z parte viii a

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Muito Antes do IBM Z Existia Outro "Z"

Parte VIII a — Afinal, Quem Inventou o Primeiro Computador?

A Guerra dos Gigantes (Parte I)

"A História raramente é escrita por um único gênio. Ela costuma ser construída por dezenas deles, trabalhando ao mesmo tempo, em lugares diferentes, tentando resolver problemas completamente distintos."

Existe uma pergunta que acompanha praticamente todos os cursos de Ciência da Computação.

Quem inventou o computador?

Parece uma pergunta simples.

Mas qualquer historiador sério provavelmente responderá com outra pergunta.

"O que você chama de computador?"

Pode parecer uma tentativa de fugir da resposta.

Não é.

É justamente aí que começa uma das discussões mais fascinantes da engenharia moderna.

Ao longo desta série conhecemos Konrad Zuse.

Vimos nascer o Z1.

Acompanhamos a evolução para o Z2.

Celebramos o Z3.

Assistimos ao Z4 sobreviver à Segunda Guerra Mundial.

Descobrimos que Zuse também imaginou uma linguagem de programação décadas antes do restante do mundo.

Naturalmente surge a dúvida.

Se ele fez tudo isso...

Por que durante tantos anos aprendemos que o ENIAC foi o primeiro computador?

A resposta nos leva a uma verdadeira reunião de gigantes.

Hoje faremos algo diferente.

Vamos visitar um grande salão imaginário.

Nele estão reunidos alguns dos maiores nomes da História da Computação.

Cada um reivindica um pedaço da mesma invenção.

Curiosamente...

Todos têm razão.


O Avô de Todos Eles

Nossa viagem começa muito antes da eletricidade.

Muito antes dos relés.

Muito antes das válvulas.

Muito antes da IBM.

Muito antes de Konrad Zuse.

Voltamos ao ano de 1822.

Londres.

Um matemático chamado Charles Babbage observava um problema que incomodava cientistas da época.

As tabelas matemáticas utilizadas por engenheiros possuíam inúmeros erros.

Esses erros custavam dinheiro.

Provocavam acidentes.

Comprometiam projetos.

Babbage imaginou então uma máquina capaz de produzir essas tabelas automaticamente.

Nascia a ideia da Difference Engine.

Alguns anos depois ele foi ainda mais longe.

Projetou a Analytical Engine.

E foi nesse momento que a história mudou para sempre.


Um Computador no Século XIX

A Analytical Engine nunca foi concluída.

Mas seu projeto possuía conceitos impressionantes.

Memória.

Unidade de processamento.

Entrada.

Saída.

Controle de execução.

Programação por cartões perfurados.

Parece familiar?

Claro que parece.

A arquitetura conceitual já estava praticamente pronta.

Faltava apenas uma tecnologia capaz de construí-la.

Às vezes a Engenharia tem esse comportamento curioso.

As ideias chegam antes da indústria.


Ada Lovelace

Ao lado de Charles Babbage surgiu outra personagem extraordinária.

Augusta Ada King.

Mais conhecida como Ada Lovelace.

Enquanto muitos enxergavam a máquina apenas como uma enorme calculadora, Ada fez uma observação revolucionária.

Ela escreveu que, caso números representassem outras coisas além de valores matemáticos, aquela máquina poderia manipular música, texto e símbolos.

Em outras palavras.

Ada compreendeu que computadores processariam informação.

Não apenas cálculos.

Hoje parece óbvio.

Em 1843 era quase ficção científica.

Por esse motivo, muitos historiadores a consideram a primeira programadora da História.


☕ Café com Naftalina

Se Charles Babbage projetou o primeiro "hardware" moderno, Ada Lovelace foi provavelmente a primeira pessoa a compreender o verdadeiro potencial do "software".

Mais de um século antes do IBM Z.


Herman Hollerith

Pulamos agora para o final do século XIX.

Enquanto Babbage sonhava com computadores universais, Herman Hollerith resolvia um problema completamente diferente.

Como processar milhões de registros do Censo norte-americano?

Sua resposta ficou famosa.

Cartões perfurados.

Leitores eletromecânicos.

Classificadores.

Tabuladores.

Essas máquinas não eram computadores de propósito geral.

Mas inauguraram a era do processamento automatizado de grandes volumes de dados.

Décadas depois, dariam origem à IBM.


Konrad Zuse

Chegamos novamente ao nosso protagonista.

Entre 1936 e 1941, Konrad Zuse construiu:

Z1.

Z2.

Z3.

Cada um representando um enorme avanço.

O Z3 reunia características impressionantes.

Era:

  • digital;

  • binário;

  • programável;

  • automático;

  • baseado em ponto flutuante.

Para muitos pesquisadores, isso basta para considerá-lo o primeiro computador programável funcional da História.

Mas ele não estava sozinho.


Howard Aiken

Enquanto Zuse trabalhava em Berlim, outro engenheiro também perseguia um sonho.

Howard Aiken.

Nos Estados Unidos.

Seu projeto ficou conhecido como Harvard Mark I.

Concluído em 1944.

Era gigantesco.

Mais de quinze metros de comprimento.

Centenas de quilômetros de fios.

Milhares de componentes eletromecânicos.

Assim como o Z3, utilizava relés.

Era extremamente confiável.

Muito utilizado para cálculos científicos e militares.

A IBM participou diretamente de sua construção.

Foi uma das primeiras grandes colaborações entre universidade e indústria na área de computação.


🔧 Oficina do Engenheiro

Embora o Harvard Mark I e o Z3 utilizassem relés, existiam diferenças importantes.

O Z3 trabalhava em binário.

O Mark I utilizava representação decimal.

Essa decisão influenciava toda a arquitetura interna da máquina.

Mais uma vez percebemos que não existia um único caminho para construir computadores.


Tommy Flowers

Enquanto Alemanha e Estados Unidos desenvolviam computadores programáveis, outra revolução acontecia silenciosamente na Inglaterra.

O engenheiro Tommy Flowers liderava um projeto extremamente secreto.

Seu objetivo não era calcular folhas de pagamento.

Nem resolver equações diferenciais.

Era ajudar a decifrar mensagens criptografadas produzidas pelo alto comando alemão.

O resultado recebeu o nome de Colossus.

Durante décadas sua existência permaneceu praticamente desconhecida.

Era segredo de Estado.


O Computador Invisível

O Colossus utilizava milhares de válvulas eletrônicas.

Durante muito tempo acreditou-se que válvulas seriam pouco confiáveis para operação contínua.

Flowers demonstrou exatamente o contrário.

Mantendo-as permanentemente aquecidas, a taxa de falhas diminuía drasticamente.

Esse conhecimento influenciaria gerações futuras de computadores eletrônicos.

Entretanto, havia uma limitação.

O Colossus era especializado.

Não era um computador de propósito geral.

Sua missão era extremamente específica.

Quebrar códigos criptográficos.

Cumpriu essa missão com enorme sucesso.

Mas não podia simplesmente ser reprogramado para executar qualquer algoritmo.


📦 Baú do Sysprog

Na computação corporativa ainda convivemos com essa distinção.

Existem equipamentos de propósito geral, como o IBM Z.

E existem aceleradores especializados, como criptoprocessadores, NPUs e processadores dedicados à Inteligência Artificial.

A especialização continua sendo uma poderosa estratégia arquitetural.


Então... Quem Vence?

Até aqui conhecemos cinco candidatos.

Charles Babbage.

Ada Lovelace.

Herman Hollerith.

Konrad Zuse.

Howard Aiken.

Tommy Flowers.

Cada um resolveu um problema diferente.

Cada um inaugurou uma tecnologia diferente.

Cada um merece um capítulo próprio na História.

E ainda nem chegamos ao ENIAC.

Nem ao EDVAC.

Nem a John von Neumann.

Mas isso ficará para o próximo café.

Porque a verdadeira revolução eletrônica ainda está prestes a começar...

No próximo capítulo entraremos no ENIAC, EDVAC e na Arquitetura de Von Neumann, mostrando por que esses nomes dominaram os livros durante décadas e como eles se conectam diretamente ao IBM System/360 e, finalmente, ao IBM Z. É nesse ponto que todas as linhas da história começam a convergir.

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Bellacosa Mainframe — tecnologia, história, COBOL, IBM Z e memória.

sábado, 7 de maio de 2016

Mainframe History : Parte V — Z4: O Computador que Sobreviveu à Guerra e Ensinou a Europa a Computar

 

Bellacosa Mainframe e o outro computador z parte v

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

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Parte V — Z4: O Computador que Sobreviveu à Guerra e Ensinou a Europa a Computar

"Algumas máquinas são aposentadas. Outras tornam-se peças de museu. O Z4 atravessou uma guerra, cruzou montanhas e inaugurou uma nova era da computação científica."

Até aqui acompanhamos a extraordinária jornada de Konrad Zuse.

Conhecemos o apartamento transformado em laboratório.

Vimos nascer o Z1, praticamente um relógio mecânico capaz de calcular.

Assistimos ao surgimento do Z2, quando os relés telefônicos começaram a substituir parte da mecânica.

Depois testemunhamos o Z3, considerado por muitos historiadores o primeiro computador digital programável totalmente funcional do mundo.

Mas a história ainda reservaria um capítulo digno de um romance de aventura.

Porque o próximo computador de Zuse não seria apenas mais rápido.

Ele precisaria sobreviver.

Não a um erro de programação.

Não a um ABEND.

Não a uma pane elétrica.

Precisaria sobreviver à maior guerra que a humanidade já havia conhecido.

Seu nome era Z4.

E, de certa forma, ele foi o primeiro computador europeu a provar que uma máquina programável podia deixar o laboratório e tornar-se uma ferramenta indispensável para a ciência.


Quando a História Invade a Engenharia

No início da década de 1940, a Segunda Guerra Mundial já havia transformado completamente a Europa.

Berlim deixara de ser apenas uma grande capital industrial.

Era também alvo constante de bombardeios.

Laboratórios desapareciam.

Universidades interrompiam pesquisas.

Fábricas eram destruídas.

A infraestrutura alemã começava a ruir.

Nesse ambiente caótico, continuar construindo computadores parecia uma tarefa quase impossível.

Mesmo assim, Konrad Zuse continuou trabalhando.

Talvez porque engenheiros possuam uma característica peculiar.

Eles costumam enxergar problemas onde outros enxergam apenas caos.

E gostam de resolvê-los.


O Fim do Z3

O Z3, orgulho da engenharia alemã, não teve um destino feliz.

Durante um bombardeio aliado sobre Berlim, em 1943, o computador foi destruído juntamente com o prédio onde estava instalado.

Não existiam backups.

Não havia replicação geográfica.

Nada parecido com um GDPS moderno.

Quando o prédio desapareceu, boa parte daquele trabalho pioneiro desapareceu junto.

Hoje falamos em Disaster Recovery.

Na década de 1940, o desastre era real.

E frequentemente irreversível.


☕ Café com Naftalina

Imagine um Sysprog ouvindo que seu único datacenter foi completamente destruído.

Sem cópia de segurança.

Sem outro site.

Sem storage espelhado.

Sem nuvem.

Foi exatamente isso que aconteceu com o Z3.

A computação corporativa moderna aprendeu, muitas vezes da forma mais difícil, que disponibilidade começa muito antes da tecnologia.

Começa no planejamento.


O Projeto Não Morreu

Se há algo que diferencia grandes engenheiros é a capacidade de recomeçar.

A destruição do Z3 não significou o fim da visão de Konrad Zuse.

Muito antes do bombardeio, ele já trabalhava em um sucessor.

Esse novo computador deveria corrigir limitações observadas nos projetos anteriores.

Mais memória.

Mais estabilidade.

Maior flexibilidade.

Mais recursos para cálculos científicos.

Assim nasceu o projeto do Z4.


Um Computador em Tempos de Escassez

Construir um computador em plena guerra exigia criatividade.

Componentes eletrônicos eram raros.

Relés eram disputados pela indústria militar.

Materiais metálicos tinham prioridade para armamentos.

Nada era simples.

Cada componente precisava ser reaproveitado.

Cada peça exigia planejamento.

Hoje reclamamos quando um fornecedor atrasa um SSD.

Konrad Zuse precisava convencer autoridades a liberar pequenas quantidades de relés.

Era outra realidade.


A Arquitetura Evolui

Embora mantivesse muitas ideias do Z3, o Z4 representava um importante amadurecimento.

A máquina foi projetada para oferecer maior confiabilidade e ampliar o conjunto de operações disponíveis para cálculos científicos.

Seu foco continuava sendo a engenharia.

Pontes.

Estruturas.

Aerodinâmica.

Matemática aplicada.

Mas agora havia também uma preocupação crescente com produtividade.

Quanto menos tempo um pesquisador gastasse calculando manualmente, mais tempo teria para pensar.

É uma filosofia que permanece viva na automação moderna.


🔧 Oficina do Engenheiro

Quando falamos em evolução arquitetural, não devemos imaginar apenas aumento de velocidade.

Arquitetura também significa:

  • facilidade de operação;

  • confiabilidade;

  • manutenção;

  • expansão;

  • organização lógica dos componentes.

Esses princípios continuam norteando o desenvolvimento dos atuais processadores IBM Z.


Um Computador em Fuga

À medida que a guerra se aproximava do fim, tornava-se evidente que Berlim não era mais um lugar seguro para um equipamento tão valioso.

O Z4 precisava desaparecer.

Literalmente.

Sua trajetória tornou-se quase cinematográfica.

O computador foi desmontado.

Transportado em partes.

Escondido em diferentes locais.

Protegido sempre que possível.

Durante meses, permaneceu longe dos grandes centros urbanos para escapar da destruição.

Cada relé salvo representava anos de trabalho.

Cada módulo preservado aumentava a esperança de que aquele projeto sobrevivesse ao conflito.

Hoje movimentamos uma imagem virtual entre LPARs em poucos segundos.

Na década de 1940, mover um computador significava carregar centenas de quilos de equipamentos por estradas precárias, sob o risco constante da guerra.


A Guerra Acaba

Quando o conflito terminou em 1945, a Europa encontrava-se devastada.

Mas o Z4 havia sobrevivido.

Essa simples frase já seria suficiente para colocá-lo entre as máquinas mais extraordinárias da história.

Entretanto, sua jornada estava apenas começando.

Konrad Zuse compreendeu que o futuro da computação dependeria menos de demonstrações experimentais e mais da utilização prática dessas máquinas.

Era preciso encontrar usuários.

Pesquisadores.

Universidades.

Instituições dispostas a investir nessa nova tecnologia.


Uma Nova Casa: ETH Zürich

Em 1950, o Z4 encontrou seu destino definitivo.

Foi instalado na ETH Zürich (Instituto Federal de Tecnologia de Zurique), na Suíça.

Não foi uma escolha qualquer.

A ETH já era uma das mais respeitadas instituições científicas da Europa.

Albert Einstein havia estudado ali décadas antes.

Agora seria a vez de outro protagonista da ciência deixar sua marca.

O Z4 tornou-se uma poderosa ferramenta para pesquisadores que precisavam resolver problemas matemáticos complexos.

Pela primeira vez, um computador programável europeu deixava definitivamente a condição de experimento para assumir papel relevante na produção científica.


📦 Baú do Sysprog

Muito antes dos contratos de outsourcing, dos ambientes compartilhados e do conceito de Computing as a Service, o Z4 já representava algo semelhante.

Em vez de cada pesquisador construir sua própria máquina, diversos grupos utilizavam um único computador para resolver problemas diferentes.

A ideia de compartilhar recursos computacionais começava a nascer.

Décadas depois, ela evoluiria para os mainframes IBM, onde milhares de usuários compartilham simultaneamente o mesmo sistema físico por meio de LPARs, z/VM e outras tecnologias de virtualização.


O Primeiro Computador Comercial da Europa?

Os historiadores costumam discutir essa afirmação com cuidado.

Mas há um consenso importante.

O Z4 foi um dos primeiros computadores programáveis efetivamente comercializados e utilizados por clientes reais na Europa.

Isso muda completamente sua posição histórica.

Ele deixou de ser apenas uma curiosidade de laboratório.

Transformou-se em um produto.

Hoje parece natural comprar servidores.

Na década de 1950, vender um computador era algo quase inimaginável.


Enquanto Isso, a IBM Observava Outro Mercado

É interessante comparar esse momento com a trajetória da IBM.

Enquanto Zuse desenvolvia computadores científicos programáveis, a IBM consolidava sua liderança com equipamentos baseados em cartões perfurados.

Os clientes eram diferentes.

As necessidades também.

A IBM dominava:

  • censos;

  • bancos;

  • seguradoras;

  • governos;

  • contabilidade.

Zuse concentrava-se em:

  • universidades;

  • engenharia;

  • pesquisa científica.

Décadas depois, essas duas correntes tecnológicas convergiriam para formar a indústria da computação moderna.


O Que um Sysprog Aprende com o Z4?

Talvez a maior lição do Z4 seja que tecnologia só muda o mundo quando encontra usuários.

Não basta construir uma máquina extraordinária.

É preciso que alguém a utilize para resolver problemas reais.

Esse princípio continua absolutamente válido.

Não importa se estamos falando de IA generativa, OpenTelemetry, Zowe, DevOps ou IBM Z.

Tecnologia sem aplicação prática é apenas demonstração.

Tecnologia utilizada diariamente transforma empresas, economias e sociedades.

O Z4 foi uma das primeiras máquinas a provar isso.


A Semente da Computação Moderna

O sucesso do Z4 demonstrou que computadores programáveis não eram apenas curiosidades acadêmicas.

Eles poderiam tornar-se ferramentas permanentes de pesquisa.

Poderiam acelerar descobertas científicas.

Poderiam justificar investimentos.

Poderiam evoluir continuamente.

Esse talvez seja seu maior legado.

Mostrar que a computação possuía um futuro.

E que esse futuro seria construído por gerações de engenheiros.


No Próximo Café...

Até agora falamos sobre máquinas.

Na próxima parte conheceremos algo ainda mais revolucionário.

Uma ideia.

Uma linguagem.

Enquanto boa parte do mundo ainda discutia como construir computadores, Konrad Zuse já pensava em como conversar com eles.

Nascia o Plankalkül, considerado por muitos a primeira linguagem de programação de alto nível da história.

Muito antes de FORTRAN.

Muito antes de ALGOL.

Muito antes de COBOL.

Uma linguagem tão avançada que o mundo levaria décadas para entender o que seu criador havia imaginado.

Prepare o café.

Na próxima viagem, descobriremos que Konrad Zuse não inventou apenas computadores.

Ele também ajudou a inventar a forma como programamos.

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