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quinta-feira, 18 de julho de 2013

☕📜 MMMDCCCLXXXIII — Quando os Algarismos Romanos Silenciaram a Tempestade

 

Bellacosa Mainframe em memorias vagnerianas

☕📜 MMMDCCCLXXXIII — Quando os Algarismos Romanos Silenciaram a Tempestade

Existem anos que passam discretamente pela nossa história.

E existem anos que nos quebram.

1983 foi um deles.

Volto muitas vezes àquele período. Não por nostalgia da dor, mas porque foi ali que nasceu uma parte importante da pessoa que sou hoje.

Foi um ano duro.

Talvez o mais duro da minha infância.

A separação dos meus pais.

O incêndio durante a mudança.

As discussões familiares.

A humilhação diante de parentes.

A sensação de que o mundo, até então aparentemente sólido, havia simplesmente desmoronado.

Ainda criança, eu não possuía maturidade para compreender tudo aquilo.

Mas sentia.

E como sentia.

Foi então que minha mãe resolveu voltar para Guaianazes, para a casa da minha avó Alzira.

Era mais um recomeço.

Mais uma mudança.

Mais uma tentativa de reconstruir a vida.

Em meio àquele turbilhão existia um pequeno garoto tentando entender um mundo que parecia ter enlouquecido.

E foi justamente num daqueles dias aparentemente comuns que aconteceu uma pequena revolução silenciosa.

Sem televisão.

Sem videogame.

Sem internet.

Sem celular.

Peguei um caderno.

Sentei.

E comecei a escrever.

Não eram redações.

Não eram desenhos.

Muito menos desabafos.

Comecei a copiar...

Bellacosa Mainframe introdução ao algarismo romano


Algarismos romanos.

I.

II.

III.

IV.

V.

VI.

VII.

VIII.

IX.

X.

Depois vieram as dezenas.

As centenas.

As combinações.

Quando percebi, já estava completamente mergulhado naquele universo.

Continuei escrevendo.

Cem.

Duzentos.

Quinhentos.

Mil.

Dois mil.

Três mil.

Quatro mil.

Cinco mil...

Não sei exatamente até onde cheguei.

Mas lembro perfeitamente da sensação.

Pela primeira vez em muitos meses...

Minha mente ficou em silêncio.

Enquanto desenhava aqueles símbolos antigos, todos os problemas desapareciam.

Não existia separação.

Não existia incêndio.

Não existiam brigas.

Não existia medo.

Existiam apenas letras.

Traços.

Símbolos criados há mais de dois mil anos.

Hoje entendo o que aconteceu.

Na época eu não possuía palavras para explicar.

Mas encontrei, sem saber, uma forma de meditação.

Um exercício de concentração.

Uma maneira de organizar a mente quando o mundo parecia completamente caótico.

Os romanos jamais imaginaram que sua antiga numeração ajudaria um garoto brasileiro a atravessar uma tempestade emocional.

Mas ajudou.

Muito.

Talvez tenha sido naquele dia que descobri algo que me acompanha até hoje.

Sempre que a vida fica barulhenta demais...

Eu estudo.

Sempre que tudo parece perdido...

Eu aprendo alguma coisa nova.

Sempre que a ansiedade tenta assumir o controle...

Mergulho em livros.

Pesquisas.

História.

Tecnologia.

Idiomas.

Mapas.

Ferrovias.

Mainframes.

Animes.

Qualquer assunto que desperte minha curiosidade.

Percebo agora que esse mecanismo nasceu naquele caderno de 1983.

Os algarismos romanos foram apenas o primeiro portal.

Vieram depois COBOL.

História.

Genealogia.

Star Trek.

Portugal.

Mainframe.

Tudo seguindo exatamente o mesmo padrão.

Aprender para sobreviver.

Conhecer para vencer.

Transformar curiosidade em esperança.

Anos mais tarde, quando desembarquei na Europa, pensei por alguns instantes naquele garoto sentado na casa da avó Alzira.

Ele ainda não sabia.

Mas já havia dado o primeiro passo.

A viagem não começou dentro de um avião.

Nem num navio.

Nem num trem.

Começou naquele caderno.

Escrevendo símbolos criados pela Roma Antiga.

Hoje, toda vez que encontro um relógio marcando XII.

Ou um livro indicando o Capítulo XIV.

Ou uma inscrição antiga gravada em pedra.

Automaticamente volto para aquele quarto.

Vejo um menino concentrado.

Silencioso.

Escrevendo.

Enquanto o mundo desmoronava ao seu redor...

Ele reconstruía a própria paz.

Linha após linha.

Símbolo após símbolo.

Como se cada I, cada V e cada X fossem pequenos blocos usados para reconstruir, não apenas uma página de caderno...

Mas também um coração infantil que se recusava a desistir.

Porque às vezes as maiores vitórias da vida não fazem barulho.

Acontecem em silêncio.

Com um lápis na mão.

E um velho caderno aberto sobre a mesa.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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