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domingo, 1 de abril de 2007

O que é Cartão Perfurado em Mainframe?

 

Bellacosa Mainframe apresenta o cartão perfurado

O que é Cartão Perfurado em Mainframe?

Muito antes de existirem:

  • teclados;

  • monitores;

  • mouse;

  • terminais 3270;

  • notebooks.

Os programas eram escritos em um pedaço de papelão.

Pode parecer estranho hoje, mas durante décadas essa foi uma das principais formas de programar computadores.

Esse pedaço de papel era chamado de:

Cartão Perfurado (Punch Card)

Ele foi uma das tecnologias que deram origem à computação moderna e marcou profundamente a história do mainframe.


Definição simples

O cartão perfurado era um cartão de papel rígido onde as informações eram representadas por furos.

Cada furo correspondia a:

  • letras;

  • números;

  • símbolos;

  • comandos;

  • instruções de programas.

Em vez de digitar um programa em uma tela, o programador entregava uma pilha de cartões ao computador.


Uma analogia simples

Imagine escrever um livro.

Hoje você usa:

  • Word;

  • VS Code;

  • Notepad.

Na década de 1960 você escreveria cada linha em um cartão diferente.

Se o livro tivesse 500 linhas...

Você teria 500 cartões.

E se um deles caísse no chão...

Era preciso reorganizar toda a sequência.


Origem dos cartões perfurados

Curiosamente, os cartões perfurados não nasceram para computadores.

Sua história começou na indústria têxtil.

Em 1804, o inventor francês Joseph Marie Jacquard criou um tear automático controlado por cartões perfurados.

Cada cartão dizia ao tear como produzir um determinado desenho no tecido.

Pela primeira vez, uma máquina era "programada" por meio de instruções armazenadas em cartões.

Décadas depois, essa ideia inspirou a computação.


Herman Hollerith e a IBM

No final do século XIX, o engenheiro Herman Hollerith desenvolveu máquinas capazes de ler cartões perfurados.

Elas foram utilizadas no Censo dos Estados Unidos de 1890.

O sucesso foi tão grande que Hollerith fundou uma empresa chamada Tabulating Machine Company.

Essa empresa evoluiu até se tornar a:

IBM

Por isso os cartões perfurados fazem parte da origem da própria IBM.


Como funcionava um cartão?

Cada cartão possuía normalmente:

80 colunas

Cada coluna representava um caractere.

Cada caractere era identificado por uma combinação de furos.


O famoso cartão de 80 colunas

Esse padrão tornou-se tão importante que influenciou diversas linguagens.

Por exemplo:

No COBOL antigo era comum:

Coluna 1 a 6   Sequência
Coluna 7       Indicador
Coluna 8 a 72  Código
Coluna 73 a 80 Numeração

Essa organização existe justamente porque cada linha correspondia a um cartão.


Como um programa era criado?

O processo era bem diferente do atual.

1. Escrever o código

O programador escrevia o programa em papel.


2. Digitação

Um operador utilizava uma máquina perfuradora.

Cada linha gerava um cartão.


3. Pilha de cartões

O programa ficava assim:

=========
=========
=========
=========
=========
=========

Centenas de cartões empilhados.


4. Leitura

Os cartões eram colocados em um leitor.

O computador lia um por um.


5. Compilação

O programa era compilado.

Caso existisse erro...

Era necessário perfurar um novo cartão.


Como eram feitas as correções?

Imagine encontrar um erro na linha 357.

Você precisava:

  • criar outro cartão;

  • substituir apenas aquele cartão;

  • manter toda a ordem correta.

Era um processo extremamente cuidadoso.


O pesadelo dos programadores

Se uma caixa com mil cartões caísse no chão...

Todo o programa poderia perder sua sequência.

Por isso muitos cartões possuíam um número de identificação nas colunas finais.

Assim era possível reorganizá-los.


O que era um Card Reader?

Era o equipamento responsável por ler cartões perfurados.

Ele fazia a leitura mecânica dos furos e enviava os dados ao computador.

Era uma das principais portas de entrada de dados para os primeiros mainframes.


O que era um Keypunch?

Era a máquina usada para perfurar os cartões.

O operador digitava no teclado.

A máquina fazia os furos automaticamente.

Era o equivalente ao editor de texto da época.


Onde os cartões eram utilizados?

Os cartões perfurados eram usados para:

  • programas COBOL;

  • programas FORTRAN;

  • programas RPG;

  • JCL;

  • entrada de dados;

  • processamento batch.


Por que deixaram de ser usados?

Apesar de revolucionários para sua época, os cartões apresentavam limitações:

  • ocupavam muito espaço;

  • eram frágeis;

  • exigiam armazenamento físico;

  • tinham capacidade limitada;

  • dificultavam alterações.

Com a chegada dos terminais, discos e fitas magnéticas, foram gradualmente substituídos.


A influência no COBOL

Mesmo hoje, vários padrões do COBOL refletem a época dos cartões perfurados.

Exemplos:

  • limite tradicional de 72 colunas para código;

  • numeração de sequência;

  • organização rígida das colunas.

Essas convenções surgiram porque cada linha precisava caber em um cartão de 80 colunas.


Curiosidades incríveis

1. Um programa grande podia ocupar milhares de cartões

Alguns sistemas corporativos eram literalmente caixas cheias de cartões.


2. O cartão perfurado influenciou diversas linguagens

COBOL, FORTRAN e RPG herdaram conceitos dessa tecnologia.


3. A IBM fabricou milhões de cartões

Durante décadas eles foram consumíveis essenciais nos centros de processamento de dados.


4. Muitos museus de computação ainda preservam cartões perfurados

Eles são considerados símbolos da origem da informática moderna.


Erros comuns de iniciantes

"Os cartões armazenavam programas para sempre"

Não.

Eles eram apenas uma forma física de entrada de dados e programas.


"Só o mainframe usava cartões"

Não.

Diversos computadores de grande porte e minicomputadores também utilizaram essa tecnologia.


"Cartões perfurados desapareceram sem deixar legado"

Muito pelo contrário.

Eles influenciaram o desenvolvimento de linguagens, compiladores, sistemas operacionais e até o formato de código utilizado durante décadas.


Por que aprender sobre cartões perfurados?

Mesmo não sendo mais utilizados, eles ajudam a compreender:

  • a origem da programação;

  • a evolução dos mainframes;

  • por que o COBOL possui determinadas convenções;

  • como nasceu o processamento batch;

  • a história da IBM e da computação corporativa.


Conclusão

O cartão perfurado foi uma das tecnologias mais importantes da história da computação.

Durante décadas, ele foi o principal meio de inserir programas e dados em computadores, incluindo os primeiros mainframes da IBM.

Embora tenha sido substituído por terminais, discos e redes, seu legado permanece vivo. Muitas características do COBOL, do processamento batch e da arquitetura dos mainframes modernos têm suas raízes na época em que uma simples pilha de cartões representava um sistema inteiro.


sábado, 1 de abril de 2006

☕📠 As Primeiras Alucinações da Inteligência Artificial : Quando um Scanner Convencia um Computador de que "Computador" Era "Cornputad0r"

Bellacosa Mainframe e as aventuras nos primordios da computacao domestica



☕📠 As Primeiras Alucinações da Inteligência Artificial

Quando um Scanner Convencia um Computador de que "Computador" Era "Cornputad0r"

Há uma curiosidade divertida sobre a Inteligência Artificial moderna.

Hoje reclamamos quando um LLM inventa uma referência bibliográfica.

Em 1995...

...os computadores inventavam palavras inteiras.

E ninguém chamava isso de IA.

Chamávamos apenas de...

OCR.


Lembro perfeitamente daquele período.

Depois do Programa de Demissão Voluntária da Fundação CESP, pouco antes da privatização do setor elétrico, recebi uma indenização que mudou completamente minha vida.

Não era apenas dinheiro.

Era liberdade para realizar dois sonhos que carregava havia anos.

O primeiro era definitivo.

Comprar um terreno em Santana de Parnaíba.

Na época muitos amigos diziam:

"Investe tudo em aplicações."

"Compra um carro."

"Viaja."

Mas eu pensava diferente.

A casa seria o castelo do meu futuro clã.

Um lugar onde nenhuma crise econômica poderia expulsar minha família por causa do aluguel.

Foi uma decisão muito mais emocional do que financeira.

Hoje vejo que foi uma das melhores decisões da minha vida.

O segundo sonho era completamente diferente.

Entrar finalmente na era dos 16/32 bits.


Bellacosa Mainframe e a primeira Camilla

Até então minha história havia sido construída em máquinas de 8 bits.

O TK85.

O HotBit.

O gigantesco CP 500.

O inesquecível MSX.

E no trabalho os lendarios terminais 3270 e os primeiros microcomputadores PC e XT.

Cheguei a brincar algum tempo com um XT emprestado.

Mas nunca havia possuído um computador realmente poderoso.

Então aconteceu.

Comprei aquilo que, para qualquer apaixonado por informática de 1995, era praticamente o Santo Graal.

Um AT 486 DX4-100 MHz.

100 MHz!

Hoje isso parece ridículo.

Naquela época parecia tecnologia alienígena.


Ele vinha equipado com algo igualmente revolucionário.

Uma placa multimídia.

Placa de video colorida com 16 cores.

Drive de CD-ROM.

Uma Sound Blaster.

E uma impressora HP DeskJet.

Era impossível explicar para alguém nascido depois de 2005 a sensação de ouvir um CD de dados girando pela primeira vez.

Ou instalar um programa sem trocar vinte disquetes.

Mas ainda havia um equipamento que me fascinava muito mais.

O scanner.


Bellacosa Mainframe e os primeiros textos scanneados e o uso do ocr

Hoje qualquer celular faz isso em segundos.

Na época...

Digitalizar uma fotografia parecia magia.

Colocar uma página de revista sobre aquele vidro.

Fechar lentamente a tampa.

Ouvir o motor começar a movimentar o conjunto óptico.

Aquela luz branca atravessando lentamente o papel...

Parecia uma nave espacial examinando um artefato arqueológico.

Cada linha escaneada era um pequeno espetáculo.


Logo surgiu a pergunta inevitável.

"E se eu puder transformar esse papel em texto?"

Foi aí que conheci uma tecnologia quase desconhecida do grande público.

OCR.

Optical Character Recognition.

Reconhecimento Óptico de Caracteres.

A promessa era maravilhosa.

Digitalizar livros.

Revistas.

Artigos.

Documentação técnica.

Manuais.

E transformá-los em texto editável.

Parecia impossível.


Na propaganda funcionava perfeitamente.

Na prática...

Era uma tragédia cômica.

O maior problema era simples.

O software era americano.

E praticamente ignorava a existência da língua portuguesa.


Acentos?

Boa sorte.

Ç?

Quem era esse cidadão?

Ã?

Nunca ouvi falar.

Ê?

Talvez fosse um F deformado.


O resultado parecia uma mistura de português, inglês, latim medieval e alguma língua inventada por um monge bêbado.

Uma frase como:

"Programação COBOL para Sistemas Bancários"

virava algo parecido com:

"Pr0gramaqao C0RNL para S1stemas Bancar1os"

Ou pior.

Às vezes surgiam palavras que simplesmente não existiam em idioma algum.


Era necessário revisar tudo manualmente.

Linha por linha.

Palavra por palavra.

Caçando erros como quem procura milho espalhado no chão.

Na época chamávamos isso de...

"Catar milho."

Nunca uma expressão fez tanto sentido.


O OCR confundia:

O com 0

I com l

B com 8

rn com m

cl com d

S com 5

e qualquer acento era tratado como um fenômeno paranormal.


Hoje chamamos isso de:

Falso positivo.

Falso negativo.

Ambiguidade visual.

Erro de classificação.

Na época...

Chamávamos simplesmente de:

"Esse scanner enlouqueceu."


Curiosamente...

Quando observo os grandes modelos de linguagem atuais, vejo um parentesco distante.

Os LLMs também "enxergam" padrões.

Também tentam reconstruir informação incompleta.

Também inventam conexões quando sua confiança é excessiva.

A diferença é apenas a escala.

O OCR alucinava uma letra.

Os LLMs podem alucinar um artigo científico inteiro.

Mas o mecanismo psicológico que percebemos como usuários é surpreendentemente parecido.


Hoje um OCR baseado em redes neurais reconhece:

  • português;

  • japonês;

  • árabe;

  • chinês;

  • escrita manuscrita;

  • documentos tortos;

  • páginas amareladas;

  • livros antigos;

  • fotografias tremidas.

Tudo em poucos segundos.

Em 1995...

Conseguir reconhecer corretamente um simples "ção" já era motivo de comemoração.


Talvez por isso eu tenha tanta paciência com a Inteligência Artificial atual.

Porque eu vi o começo.

Vi quando as máquinas ainda tropeçavam em cada acento.

Quando confundiam "é" com "ê".

Quando acreditavam que "rn" era "m".

Quando uma página digitalizada exigia uma hora de revisão humana.

Naquele momento ninguém imaginava que aquelas pequenas imperfeições eram os primeiros passos de uma longa jornada.

Antes de aprenderem a conversar conosco...

As máquinas precisaram aprender a ler.

E, como toda criança aprendendo o alfabeto...

Passaram anos pronunciando as palavras completamente erradas.

Talvez aquelas páginas cheias de caracteres malucos não fossem apenas erros de software.

Talvez fossem, sem que percebêssemos, as primeiras e inocentes alucinações da história recente da informática — um prenúncio curioso de um futuro em que computadores deixariam de apenas reconhecer letras para interpretar linguagem, compreender contexto e, às vezes, voltar a inventar respostas com a mesma criatividade desajeitada daqueles antigos programas de OCR.

Quem viveu essa época dificilmente esquece o som do scanner percorrendo lentamente uma folha A4, a ansiedade de abrir o resultado do OCR e a resignação de começar mais uma longa sessão de "catar milho". Hoje basta apontar a câmera do celular para uma página, e em segundos temos um texto quase perfeito. Mas justamente por termos testemunhado essa evolução desde os primeiros tropeços, conseguimos apreciar melhor o milagre tecnológico que parece tão banal para quem já nasceu na era da inteligência artificial.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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