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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

O Livro que Queria Ser Texto : A Extraordinária História do OCR — Das Máquinas que Confundiam "Computador" com "Cornputad0r" até a Era da Inteligência Artificial

 

Bellacosa Mainframe e a origem dos ocrs parte I

☕📠 Um Café no Bellacosa Mainframe

O Livro que Queria Ser Texto

A Extraordinária História do OCR — Das Máquinas que Confundiam "Computador" com "Cornputad0r" até a Era da Inteligência Artificial

Existe uma ironia maravilhosa na história da computação.

Hoje o mundo inteiro fala sobre Inteligência Artificial Generativa.

ChatGPT.

Claude.

Gemini.

Llama.

Copilot.

Mas existe uma tecnologia muito mais antiga, discreta e silenciosa, que trabalhou durante mais de meio século preparando o terreno para tudo isso.

Ela não escrevia poemas.

Não respondia perguntas.

Não criava imagens.

Seu trabalho era infinitamente mais humilde.

Olhar para uma folha de papel e dizer:

"Isso aqui é a letra A."

Parece simples.

Na realidade foi uma das tarefas mais difíceis que a informática já tentou resolver.

Porque antes de ensinar um computador a pensar...

foi necessário ensiná-lo a ler.


O Sonho de Transformar Papel em Informação

Imagine um banco em 1965.

Milhões de cheques.

Formulários.

Notas fiscais.

Contratos.

Tudo em papel.

Cada documento precisava ser digitado novamente por operadores.

Era lento.

Caro.

Propenso a erros.

A grande pergunta surgiu naturalmente:

"E se uma máquina pudesse ler isso sozinha?"

Nascia uma área inteira da ciência chamada OCR — Optical Character Recognition (Reconhecimento Óptico de Caracteres).

Seu objetivo parecia simples.

Transformar pixels em letras.

Mas havia um pequeno detalhe.

Os computadores ainda mal conseguiam desenhar um círculo.


As Primeiras Tentativas (Décadas de 1910–1950)

Curiosamente, a ideia antecede os computadores eletrônicos.

Ainda no início do século XX surgiram dispositivos eletromecânicos para auxiliar pessoas cegas, convertendo caracteres impressos em sons ou sinais táteis. Inventores como Edmund Fournier d'Albe e, décadas depois, Emanuel Goldberg, criaram equipamentos capazes de identificar caracteres extremamente padronizados.

Essas máquinas não "entendiam" letras.

Elas comparavam formas.

Era quase um quebra-cabeça mecânico.


David Shepard e o Nascimento do OCR Comercial

Nos anos 1950, um engenheiro chamado David H. Shepard mudou tudo.

Ele criou um dos primeiros sistemas comerciais de OCR.

Sua empresa, a Intelligent Machines Research Corporation (IMR), mostrou que era possível automatizar a leitura de documentos.

A IBM rapidamente percebeu o potencial.

Pouco tempo depois comprou a tecnologia.

Era o começo de uma nova indústria.


O Primo Mais Famoso: MICR

Curiosamente, o primeiro grande sucesso comercial nem foi exatamente OCR.

Foi o MICR (Magnetic Ink Character Recognition).

Os números impressos na parte inferior dos cheques bancários eram escritos com tinta magnética.

Assim, mesmo documentos sujos ou carimbados podiam ser lidos.

Até hoje milhões de bancos utilizam descendentes diretos dessa tecnologia.

Era um OCR especializado.

Mas extremamente eficiente.


A IBM e a Automação de Escritórios

Na década de 1960 a IBM passou a investir pesado em automação documental.

Leitores ópticos começaram a aparecer em grandes empresas.

Os equipamentos custavam pequenas fortunas.

Mesmo assim compensavam.

Uma máquina podia substituir dezenas de digitadores.


O Grande Problema

O OCR da época possuía uma limitação enorme.

Ele precisava conhecer previamente a fonte utilizada.

Cada tipo de letra exigia treinamento específico.

Mudou a fonte?

Tudo quebrava.

Mudou o tamanho?

Recomece.

Mudou a inclinação?

Boa sorte.

Era quase como ensinar um aluno a reconhecer apenas uma única caligrafia.


Xerox PARC e a Revolução Silenciosa

Enquanto todos lembram do mouse e da interface gráfica criados no lendário Xerox PARC, poucas pessoas sabem que os laboratórios também impulsionaram pesquisas em digitalização de documentos, processamento de imagens e reconhecimento de padrões.

Esses estudos influenciaram diretamente os futuros scanners comerciais, impressoras a laser e sistemas documentais.

Sem essas pesquisas talvez o desktop publishing nunca tivesse existido.


Os Anos 80

Os scanners começaram a chegar às universidades.

Ainda eram lentos.

Caríssimos.

Monocromáticos.

Mas funcionavam.

Mais ou menos.

Os computadores já possuíam capacidade suficiente para comparar milhares de padrões.

Mesmo assim os erros eram frequentes.


Então Chegaram os Anos 90...

E milhares de geeks viveram exatamente a mesma aventura.

Scanner doméstico.

Windows 3.11.

Depois Windows 95.

OCR instalado a partir de vários disquetes.

E finalmente...

o momento mágico.

Digitalizar uma revista.

Esperar vários minutos.

Ver surgir um arquivo de texto.

Ou algo parecido com um arquivo de texto.


As Primeiras Alucinações da Informática

Quem viveu essa época nunca esquece.

O OCR americano simplesmente não entendia português.

Ç?

Alienígena.

Ã?

Objeto voador não identificado.

Ê?

Talvez fosse um F.

Ó?

Quem sabe um O.

Uma frase como:

"Computador"

virava

"Cornputad0r"

Porque "rn" parecia um "m".

O "o" virava zero.

O "l" virava um.

O "B" virava oito.

O resultado parecia uma mistura de português, inglês, latim e hieróglifos.

Era obrigatório revisar tudo manualmente.

Nascia uma expressão clássica:

"Catar milho."


As Empresas que Marcaram Época

Quem viveu os anos 90 certamente encontrou alguns destes nomes:

  • Caere OmniPage – talvez o OCR doméstico mais famoso do mundo.

  • Xerox TextBridge – excelente para documentos corporativos.

  • Kurzweil Recognition Systems – pioneira em OCR para acessibilidade.

  • Readiris – muito popular na Europa.

  • ABBYY FineReader – referência em precisão desde os anos 1990.

  • IRIS – forte no mercado profissional.

  • ExperVision TypeReader – bastante utilizado em universidades.

  • HP PrecisionScan OCR – distribuído com diversos scanners HP.

  • Canon ScanGear OCR – integrado aos scanners da Canon.

  • Epson Smart Panel OCR – comum entre usuários domésticos.

Cada um tinha personalidade própria.

E seus próprios surtos psicóticos.


O Milagre Chamado ABBYY

Quando o FineReader apareceu, muita gente achou que era magia.

Ele reconhecia:

  • colunas;

  • tabelas;

  • múltiplas fontes;

  • idiomas;

  • imagens inclinadas.

Hoje parece trivial.

Na época parecia ficção científica.


O Problema Nunca Foi Ler Letras

A verdadeira dificuldade era entender contexto.

Imagine:

CASA

C4SA

CA5A

CAS4

Um OCR clássico apenas comparava pixels.

Já um OCR moderno pergunta:

"Qual dessas palavras faz sentido na língua portuguesa?"

Foi aí que Linguística Computacional e Estatística começaram a caminhar juntas.


Então Veio o Machine Learning

A partir dos anos 2000 o OCR deixou de depender apenas de regras.

Passou a aprender.

Redes neurais começaram a reconhecer padrões invisíveis.

Depois vieram CNNs (Convolutional Neural Networks).

Mais tarde Transformers.

Hoje um OCR consegue reconhecer:

  • manuscritos;

  • páginas rasgadas;

  • documentos tortos;

  • fotografias de celular;

  • recibos amassados;

  • livros centenários;

  • placas de rua;

  • textos parcialmente apagados.


O OCR Alimentou a Inteligência Artificial

Existe um detalhe que poucas pessoas percebem.

Antes de treinar um LLM era necessário possuir bilhões de páginas digitais.

Mas onde conseguir isso?

Livros.

Revistas.

Jornais.

Artigos científicos.

Bibliotecas inteiras foram digitalizadas.

Projetos como Google Books, Internet Archive, Project Gutenberg, HathiTrust e iniciativas nacionais de bibliotecas digitais converteram acervos gigantescos em texto pesquisável.

Sem OCR...

grande parte desse conhecimento permaneceria presa ao papel.

Pode-se dizer que o OCR foi um dos grandes "garimpeiros" da era da IA: ele transformou montanhas de papel em matéria-prima para mecanismos de busca, sistemas de tradução, indexadores, modelos de linguagem e pesquisa acadêmica.


O Outro Lado da História

Nem tudo foi perfeito.

O OCR também gerou problemas.

Livros antigos possuem:

  • manchas;

  • páginas rasgadas;

  • tinta desbotada;

  • ortografia antiga;

  • fontes góticas;

  • caracteres inexistentes hoje.

Cada erro introduzido pelo OCR pode propagar informações incorretas.

Pesquisadores chamam isso de OCR Noise.

Modelos modernos precisam aprender a conviver com esse "ruído".

É um dos motivos pelos quais grandes projetos de digitalização investem tanto em revisão humana, pós-processamento e comparação entre múltiplas digitalizações.


O Retrocesso Inesperado

Curiosamente, o avanço dos smartphones trouxe um novo desafio.

Milhões de documentos passaram a ser fotografados tortos.

Com sombras.

Reflexos.

Perspectiva.

Antes o scanner produzia uma imagem perfeita.

Hoje o OCR precisa corrigir fotografia, iluminação, rotação e distorção antes mesmo de começar a ler.

Ou seja...

ficou mais inteligente.

Mas o problema ficou muito mais difícil.


OCR + IA = Document Understanding

O OCR moderno praticamente deixou de existir como tecnologia isolada.

Hoje ele faz parte de algo muito maior.

Chamado:

Intelligent Document Processing (IDP).

Não basta ler.

É preciso compreender.

Separar CPF.

Identificar CNPJ.

Descobrir assinaturas.

Encontrar valores.

Relacionar contratos.

Extrair tabelas.

Responder perguntas sobre documentos.

Em outras palavras...

o OCR virou apenas os olhos.

A IA tornou-se o cérebro.


Easter Eggs da História

🕵️ O primeiro CAPTCHA era uma vingança elegante. Muitos CAPTCHAs usavam palavras difíceis justamente porque humanos conseguiam ler aquilo que os OCRs antigos não conseguiam.

📚 ReCAPTCHA ajudou a digitalizar livros. Durante anos, quando você provava que não era um robô, também ajudava a confirmar palavras que o OCR não conseguira reconhecer em obras digitalizadas.

🏦 Bancos usavam OCR e MICR juntos. Enquanto a linha magnética identificava o cheque, o OCR podia ler campos adicionais.

📠 O fax ajudou o OCR a evoluir. Documentos de baixa qualidade forçaram algoritmos mais robustos de limpeza e reconstrução de imagem.

🤖 As primeiras "alucinações" vieram antes dos LLMs. Muito antes de modelos generativos inventarem referências, os antigos programas de OCR já inventavam letras, acentos e palavras inteiras.

📖 A caligrafia continua sendo um dos maiores desafios. Apesar dos avanços, letras muito cursivas ou documentos extremamente degradados ainda exigem intervenção humana.


Um Café Antes de Fechar o Scanner

Sempre achei curioso que as pessoas digam que a Inteligência Artificial nasceu quando os computadores aprenderam a conversar.

Discordo.

Ela começou muito antes.

Começou quando uma máquina olhou para uma folha de papel e tentou responder a uma pergunta aparentemente simples:

"O que está escrito aqui?"

Errou milhares de vezes.

Confundiu "rn" com "m".

Transformou "Computador" em "Cornputad0r".

Fez qualquer entusiasta passar horas "catando milho" diante do Word 6.0.

Mas, como toda boa aprendiz, insistiu.

Década após década, scanner após scanner, algoritmo após algoritmo, ela deixou de apenas reconhecer caracteres para compreender páginas, identificar documentos e servir de ponte entre o conhecimento impresso e o mundo digital.

Se hoje uma inteligência artificial consegue responder perguntas sobre milhões de livros, artigos e documentos em poucos segundos, existe um herói quase invisível por trás dessa façanha.

Um velho scanner.

Uma folha de papel.

E um software teimoso que, mesmo tropeçando em cada acento da língua portuguesa, foi a primeira máquina a tentar ensinar um computador a ler.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Quando Shakespeare Ensinou um Computador a Ouvir A incrível história do software da IBM que previu a Inteligência Artificial...

 

Bellacosa Mainframe e os primeiros comandos de voz

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando Shakespeare Ensinou um Computador a Ouvir

A incrível história do software da IBM que previu a Inteligência Artificial... vinte anos antes de ela conquistar o mundo

"Algumas tecnologias não fracassam. Apenas chegam cedo demais."

Existem lembranças que permanecem guardadas em algum setor curioso da memória. Não porque tenham mudado o mundo naquele instante, mas porque, décadas depois, percebemos que estávamos testemunhando o nascimento silencioso de algo gigantesco.

Esta é uma dessas histórias.

Voltemos ao final de 1999.

O mundo inteiro estava preocupado com o Bug do Milênio.

Nos CPDs, programadores COBOL revisavam milhões de linhas de código.

Os bancos faziam testes intermináveis.

A Internet ainda era um território meio selvagem.

O Windows 98 reinava absoluto.

A maioria dos computadores possuía entre 64 e 128 MB de memória.

Discos rígidos de 6 GB pareciam praticamente infinitos.

E foi justamente nesse cenário que aconteceu uma das experiências tecnológicas mais curiosas que vivi como funcionário do Banco Real.

Recebemos um simples...

disquete.

Não um CD.

Não um DVD.

Muito menos um download.

Um humilde disquete de 3½ polegadas contendo um software experimental desenvolvido pela IBM para testes internos.

Na época ninguém imaginava que aquele pequeno pedaço de plástico carregava uma visão do futuro.


O computador queria aprender a ouvir

A instalação era relativamente simples.

Depois de concluída, o programa fazia um pedido curioso.

Era necessário colocar um microfone na frente da boca...

e ler um trecho de Shakespeare.

Em português.

Não apenas uma vez.

Nem duas.

Três vezes.

Lembro perfeitamente da sensação estranha.

Parecia um ritual.

Enquanto lia, uma barra de progresso mostrava que o computador estava "aprendendo".

Na época imaginei que ele estivesse apenas gravando minha voz.

Hoje sei que estava fazendo algo muito mais sofisticado.

Ele tentava construir um modelo matemático do meu jeito de falar.

Meu ritmo.

Meu timbre.

Minha velocidade.

Meu sotaque.

Minha pronúncia.

Era como ensinar um bebê eletrônico a reconhecer exclusivamente a voz de uma pessoa.

Terminada essa etapa...

vinha a mágica.


"Computador... abrir programa."

Para os padrões de 1999...

funcionava surpreendentemente bem.

Claro que cometia erros.

Muitos.

Mas reconhecia diversos comandos simples.

Naquele instante tive uma certeza quase absoluta.

"O teclado está com os dias contados."

Afinal...

quem iria querer continuar digitando quando bastaria conversar com a máquina?

Na minha cabeça aquilo parecia inevitável.

Assim como muitos acreditavam que os carros voadores chegariam antes de 2010.

O futuro parecia muito próximo.

Só que...

ele resolveu atrasar quase vinte anos.


A ilusão de que a tecnologia havia fracassado

Os anos passaram.

O assunto simplesmente desapareceu.

Nenhuma revolução.

Nenhum escritório comandado por voz.

Nenhum computador obedecendo naturalmente às pessoas.

A impressão era de que tudo aquilo havia sido apenas mais uma promessa da informática.

Como tantas outras.

Na época existiam inclusive alguns jogos que aceitavam comandos simples de voz.

Era divertido.

Mas logo tudo sumiu das revistas de tecnologia.

Parecia uma ideia abandonada.

Hoje sabemos que não era.

Ela apenas havia nascido cedo demais.


O computador não entendia absolutamente nada

O maior engano daquela época era imaginar que o software "compreendia" o que dizíamos.

Não compreendia.

Nem perto disso.

Ele fazia estatística.

Imagine ouvir uma palavra e compará-la com milhares de padrões previamente gravados.

Algo como:

"Existe 82% de chance dessa onda sonora representar a palavra 'abrir'."

Era isso.

Não havia compreensão.

Não havia contexto.

Não havia intenção.

Muito menos linguagem natural.

Se eu dissesse:

"Transferir cem reais para João."

O computador tentaria reconhecer palavras isoladas.

Hoje uma IA entende o significado da frase inteira.

Naquela época...

ela apenas tentava adivinhar sons.

Era uma diferença gigantesca.


O verdadeiro culpado era o hardware

Hoje carregamos no bolso celulares milhares de vezes mais poderosos que os computadores daquela época.

Mas em 1999...

o cenário era outro.

Processadores Pentium II ou Pentium III.

Pouquíssima memória.

Discos lentos.

Microfones baratos.

Placas de som extremamente simples.

Tudo precisava ser processado em tempo real por um computador que mal conseguia abrir o Word rapidamente.

Era pedir um milagre.


Os microfones eram quase inimigos

Outro detalhe curioso.

Muita gente culpa apenas o software.

Mas esquece do restante.

O escritório tinha pessoas conversando.

Ar-condicionado.

Telefone tocando.

Ventilador.

Impressoras matriciais.

Monitores CRT emitindo ruídos elétricos.

Tudo isso era capturado pelo microfone.

Hoje nossos celulares possuem vários microfones trabalhando juntos para eliminar ruídos usando algoritmos extremamente sofisticados.

Na época...

o computador simplesmente ouvia toda a bagunça.


A internet ainda era lenta demais para ajudar

Hoje Siri, Alexa, Google Assistant e até o ChatGPT enviam boa parte do processamento para enormes datacenters espalhados pelo planeta.

Em 1999 isso seria ficção científica.

Conexões de 33 ou 56 kbps mal conseguiam carregar uma fotografia.

Enviar áudio continuamente para um servidor remoto era impraticável.

Portanto...

todo o reconhecimento precisava acontecer dentro do próprio computador.

Era como pedir para uma bicicleta competir com um trem-bala.


A revolução ficou adormecida

Entre 2000 e 2010 quase ninguém falava mais em reconhecimento de voz.

Parecia uma tecnologia derrotada.

Mas, silenciosamente, quatro revoluções aconteciam ao mesmo tempo.

Primeiro vieram enormes bancos de dados contendo milhões de horas de fala humana.

Depois surgiram GPUs capazes de realizar bilhões de cálculos paralelos.

Em seguida o Deep Learning mudou completamente a forma como computadores aprendiam.

E finalmente os smartphones colocaram microfones, internet rápida e sensores no bolso de bilhões de pessoas.

Somente quando essas quatro peças se encaixaram...

a velha ideia renasceu.


Siri, Alexa e o retorno de um velho sonho

Quando a Siri apareceu em 2011...

senti uma estranha sensação de déjà vu.

Aquilo me lembrava imediatamente o software que havia testado anos antes.

Depois veio a Alexa.

O Google Assistant.

E tantos outros.

A diferença?

Agora o computador não tentava apenas reconhecer palavras.

Tentava entender intenções.

Era exatamente a peça que faltava.


Então por que ainda digitamos?

Essa talvez seja a pergunta mais interessante.

Porque descobrimos algo que parecia óbvio...

mas só percebemos décadas depois.

Nem toda tarefa é melhor usando voz.

Imagine programar COBOL dizendo:

"Escreva IF WS-SALDO MAIOR QUE ZERO MOVE VERDADEIRO PARA WS-AUTORIZADO..."

Boa sorte.

Agora imagine pedir:

"Tocar jazz."

Ou:

"Qual a previsão do tempo?"

Ou:

"Acender a luz da sala."

A voz vence com enorme facilidade.

O teclado não morreu.

Encontrou seu lugar.

A voz também.

Cada ferramenta passou a ocupar o espaço onde realmente faz sentido.


Um pequeno experimento... que talvez tenha ajudado a construir o futuro

Hoje acredito que aquele software distribuído pela IBM para grandes empresas não era apenas um produto.

Era também um enorme laboratório.

Cada funcionário que lia Shakespeare fornecia novos dados.

Novos sotaques.

Novas entonações.

Novas formas de pronunciar palavras.

Talvez sem perceber...

tenhamos ajudado a treinar uma geração inteira de tecnologias que somente décadas depois se transformariam na base da computação moderna.

É curioso pensar nisso.

Enquanto eu lia Shakespeare diante de um Pentium, imaginando que estava apenas fazendo um teste corporativo, talvez estivesse contribuindo — ainda que de forma minúscula — para o longo caminho que levaria aos assistentes inteligentes, aos modelos de linguagem e às conversas naturais com máquinas.


☕ Epílogo no Bellacosa Mainframe

Existe uma ironia deliciosa nessa história.

Durante anos ouvimos que o teclado iria desaparecer.

Não desapareceu.

Depois disseram que o mouse morreria.

Também não morreu.

Mais recentemente afirmaram que a Inteligência Artificial substituiria toda forma de programação.

Os programadores sabem que a realidade costuma ser menos dramática e muito mais interessante.

A tecnologia raramente elimina a anterior.

Ela a transforma.

Foi assim com o terminal 3270.

Com o COBOL.

Com o mainframe.

Com a internet.

Com os smartphones.

E foi exatamente assim com o reconhecimento de voz.

Aquele disquete recebido no Banco Real não foi um fracasso tecnológico.

Foi apenas uma mensagem enviada pelo futuro.

Uma mensagem que precisou de quase vinte anos para finalmente ser compreendida.

E pensar que tudo começou com um computador pedindo, educadamente, que um analista de sistemas lesse Shakespeare três vezes diante de um microfone.

Às vezes, as maiores revoluções da tecnologia começam da forma mais silenciosa possível.

Ou melhor...

com uma voz humana tentando ensinar uma máquina a escutar.

sábado, 1 de abril de 2006

☕📠 As Primeiras Alucinações da Inteligência Artificial : Quando um Scanner Convencia um Computador de que "Computador" Era "Cornputad0r"

Bellacosa Mainframe e as aventuras nos primordios da computacao domestica



☕📠 As Primeiras Alucinações da Inteligência Artificial

Quando um Scanner Convencia um Computador de que "Computador" Era "Cornputad0r"

Há uma curiosidade divertida sobre a Inteligência Artificial moderna.

Hoje reclamamos quando um LLM inventa uma referência bibliográfica.

Em 1995...

...os computadores inventavam palavras inteiras.

E ninguém chamava isso de IA.

Chamávamos apenas de...

OCR.


Lembro perfeitamente daquele período.

Depois do Programa de Demissão Voluntária da Fundação CESP, pouco antes da privatização do setor elétrico, recebi uma indenização que mudou completamente minha vida.

Não era apenas dinheiro.

Era liberdade para realizar dois sonhos que carregava havia anos.

O primeiro era definitivo.

Comprar um terreno em Santana de Parnaíba.

Na época muitos amigos diziam:

"Investe tudo em aplicações."

"Compra um carro."

"Viaja."

Mas eu pensava diferente.

A casa seria o castelo do meu futuro clã.

Um lugar onde nenhuma crise econômica poderia expulsar minha família por causa do aluguel.

Foi uma decisão muito mais emocional do que financeira.

Hoje vejo que foi uma das melhores decisões da minha vida.

O segundo sonho era completamente diferente.

Entrar finalmente na era dos 16/32 bits.


Bellacosa Mainframe e a primeira Camilla

Até então minha história havia sido construída em máquinas de 8 bits.

O TK85.

O HotBit.

O gigantesco CP 500.

O inesquecível MSX.

E no trabalho os lendarios terminais 3270 e os primeiros microcomputadores PC e XT.

Cheguei a brincar algum tempo com um XT emprestado.

Mas nunca havia possuído um computador realmente poderoso.

Então aconteceu.

Comprei aquilo que, para qualquer apaixonado por informática de 1995, era praticamente o Santo Graal.

Um AT 486 DX4-100 MHz.

100 MHz!

Hoje isso parece ridículo.

Naquela época parecia tecnologia alienígena.


Ele vinha equipado com algo igualmente revolucionário.

Uma placa multimídia.

Placa de video colorida com 16 cores.

Drive de CD-ROM.

Uma Sound Blaster.

E uma impressora HP DeskJet.

Era impossível explicar para alguém nascido depois de 2005 a sensação de ouvir um CD de dados girando pela primeira vez.

Ou instalar um programa sem trocar vinte disquetes.

Mas ainda havia um equipamento que me fascinava muito mais.

O scanner.


Bellacosa Mainframe e os primeiros textos scanneados e o uso do ocr

Hoje qualquer celular faz isso em segundos.

Na época...

Digitalizar uma fotografia parecia magia.

Colocar uma página de revista sobre aquele vidro.

Fechar lentamente a tampa.

Ouvir o motor começar a movimentar o conjunto óptico.

Aquela luz branca atravessando lentamente o papel...

Parecia uma nave espacial examinando um artefato arqueológico.

Cada linha escaneada era um pequeno espetáculo.


Logo surgiu a pergunta inevitável.

"E se eu puder transformar esse papel em texto?"

Foi aí que conheci uma tecnologia quase desconhecida do grande público.

OCR.

Optical Character Recognition.

Reconhecimento Óptico de Caracteres.

A promessa era maravilhosa.

Digitalizar livros.

Revistas.

Artigos.

Documentação técnica.

Manuais.

E transformá-los em texto editável.

Parecia impossível.


Na propaganda funcionava perfeitamente.

Na prática...

Era uma tragédia cômica.

O maior problema era simples.

O software era americano.

E praticamente ignorava a existência da língua portuguesa.


Acentos?

Boa sorte.

Ç?

Quem era esse cidadão?

Ã?

Nunca ouvi falar.

Ê?

Talvez fosse um F deformado.


O resultado parecia uma mistura de português, inglês, latim medieval e alguma língua inventada por um monge bêbado.

Uma frase como:

"Programação COBOL para Sistemas Bancários"

virava algo parecido com:

"Pr0gramaqao C0RNL para S1stemas Bancar1os"

Ou pior.

Às vezes surgiam palavras que simplesmente não existiam em idioma algum.


Era necessário revisar tudo manualmente.

Linha por linha.

Palavra por palavra.

Caçando erros como quem procura milho espalhado no chão.

Na época chamávamos isso de...

"Catar milho."

Nunca uma expressão fez tanto sentido.


O OCR confundia:

O com 0

I com l

B com 8

rn com m

cl com d

S com 5

e qualquer acento era tratado como um fenômeno paranormal.


Hoje chamamos isso de:

Falso positivo.

Falso negativo.

Ambiguidade visual.

Erro de classificação.

Na época...

Chamávamos simplesmente de:

"Esse scanner enlouqueceu."


Curiosamente...

Quando observo os grandes modelos de linguagem atuais, vejo um parentesco distante.

Os LLMs também "enxergam" padrões.

Também tentam reconstruir informação incompleta.

Também inventam conexões quando sua confiança é excessiva.

A diferença é apenas a escala.

O OCR alucinava uma letra.

Os LLMs podem alucinar um artigo científico inteiro.

Mas o mecanismo psicológico que percebemos como usuários é surpreendentemente parecido.


Hoje um OCR baseado em redes neurais reconhece:

  • português;

  • japonês;

  • árabe;

  • chinês;

  • escrita manuscrita;

  • documentos tortos;

  • páginas amareladas;

  • livros antigos;

  • fotografias tremidas.

Tudo em poucos segundos.

Em 1995...

Conseguir reconhecer corretamente um simples "ção" já era motivo de comemoração.


Talvez por isso eu tenha tanta paciência com a Inteligência Artificial atual.

Porque eu vi o começo.

Vi quando as máquinas ainda tropeçavam em cada acento.

Quando confundiam "é" com "ê".

Quando acreditavam que "rn" era "m".

Quando uma página digitalizada exigia uma hora de revisão humana.

Naquele momento ninguém imaginava que aquelas pequenas imperfeições eram os primeiros passos de uma longa jornada.

Antes de aprenderem a conversar conosco...

As máquinas precisaram aprender a ler.

E, como toda criança aprendendo o alfabeto...

Passaram anos pronunciando as palavras completamente erradas.

Talvez aquelas páginas cheias de caracteres malucos não fossem apenas erros de software.

Talvez fossem, sem que percebêssemos, as primeiras e inocentes alucinações da história recente da informática — um prenúncio curioso de um futuro em que computadores deixariam de apenas reconhecer letras para interpretar linguagem, compreender contexto e, às vezes, voltar a inventar respostas com a mesma criatividade desajeitada daqueles antigos programas de OCR.

Quem viveu essa época dificilmente esquece o som do scanner percorrendo lentamente uma folha A4, a ansiedade de abrir o resultado do OCR e a resignação de começar mais uma longa sessão de "catar milho". Hoje basta apontar a câmera do celular para uma página, e em segundos temos um texto quase perfeito. Mas justamente por termos testemunhado essa evolução desde os primeiros tropeços, conseguimos apreciar melhor o milagre tecnológico que parece tão banal para quem já nasceu na era da inteligência artificial.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988