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terça-feira, 5 de julho de 2016

Mainframe History : Parte VII — Cartões Perfurados, Hollerith e a IBM: Quando Dois Mundos Caminhavam para o Mesmo Futuro

 

Bellacosa Mainframe e o outro computador z parte vii

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Muito Antes do IBM Z Existia Outro "Z"

Parte VII — Cartões Perfurados, Hollerith e a IBM: Quando Dois Mundos Caminhavam para o Mesmo Futuro

"Nem toda revolução nasce da mesma ideia. Às vezes, duas estradas completamente diferentes acabam chegando ao mesmo destino."

Até aqui acompanhamos a extraordinária trajetória de Konrad Zuse.

Vimos um engenheiro transformar a sala de estar de seus pais em um laboratório improvisado.

Construir o Z1 utilizando milhares de peças mecânicas.

Trocar engrenagens por relés no Z2.

Criar o Z3, considerado por muitos o primeiro computador digital programável totalmente funcional.

Levar o Z4 até a ETH Zürich.

E, por fim, conceber o Plankalkül, uma linguagem tão avançada que o mundo levaria décadas para compreendê-la.

Mas existe uma pergunta inevitável.

Onde estava a IBM enquanto tudo isso acontecia?

A resposta costuma surpreender.

Porque a IBM não estava construindo computadores iguais aos de Konrad Zuse.

Na verdade, estava resolvendo um problema completamente diferente.

E talvez seja justamente por isso que ambas mudaram a história.


Dois Sonhos Diferentes

Imagine duas oficinas trabalhando no mesmo período.

Na primeira, em Berlim, Konrad Zuse tenta construir uma máquina capaz de executar qualquer algoritmo.

Na segunda, espalhada por escritórios, fábricas e órgãos governamentais ao redor do mundo, a IBM aperfeiçoa máquinas capazes de organizar milhões de registros administrativos.

Uma busca flexibilidade.

A outra busca produtividade.

Uma atende engenheiros.

A outra atende empresas.

Uma quer resolver equações diferenciais.

A outra quer processar folhas de pagamento, censos populacionais, seguros e estatísticas.

À primeira vista parecem tecnologias incompatíveis.

Na verdade, ambas eram indispensáveis.


Antes da IBM Existia Herman Hollerith

Toda boa história possui um prólogo.

A da IBM começa muito antes de Thomas J. Watson.

Começa com um engenheiro chamado Herman Hollerith.

No final do século XIX, os Estados Unidos enfrentavam um enorme problema.

O Censo de 1880 levou quase oito anos para ser totalmente processado.

O país crescia rapidamente.

Havia o risco de que o próximo censo terminasse apenas quando o seguinte já estivesse começando.

Era necessário acelerar drasticamente o processamento dos dados.

Hollerith teve uma ideia brilhante.

Representar informações por meio de furos em cartões de papel.

Cada posição representava uma característica.

Sexo.

Idade.

Estado civil.

Profissão.

Nacionalidade.

Os cartões eram lidos por máquinas eletromecânicas capazes de contar e classificar registros em uma velocidade inédita.

O resultado foi espetacular.

O Censo de 1890 foi concluído em uma fração do tempo esperado.

Nascia ali uma nova indústria.


☕ Café com Naftalina

Quando hoje executamos um SORT FIELDS=COPY em um IBM Z, é difícil imaginar que existe uma linhagem histórica ligando essa operação às antigas máquinas classificadoras de cartões perfurados.

O princípio continua o mesmo.

Organizar informação.

A tecnologia é que mudou.


Da CTR à IBM

A empresa criada por Hollerith evoluiu ao longo dos anos e participou de diversas fusões.

Em 1911 surgiu a Computing-Tabulating-Recording Company (CTR).

Poucos anos depois, um executivo extremamente ambicioso assumiu sua liderança.

Seu nome era Thomas John Watson Sr.

Foi Watson quem percebeu que aquela empresa poderia tornar-se muito mais do que uma fabricante de máquinas.

Em 1924, a CTR passou a chamar-se International Business Machines.

Ou simplesmente:

IBM.

O nome já revelava a ambição.

Não era uma empresa local.

Nem nacional.

Era uma empresa que pretendia atender o mundo.


Muito Antes do Mainframe

Quando ouvimos "IBM", imediatamente pensamos em System/360, z/OS, Db2, CICS, RACF e IBM Z.

Mas, nas décadas de 1920 e 1930, a realidade era outra.

A IBM produzia principalmente:

  • perfuradoras de cartões;

  • verificadoras;

  • classificadoras;

  • tabuladores;

  • calculadoras eletromecânicas;

  • máquinas de contabilidade.

Esses equipamentos dominavam o processamento administrativo.

Não eram computadores de propósito geral.

Mas eram extraordinariamente eficientes para seu objetivo.


Como Funcionava um Centro de Processamento de Dados em 1935?

Imagine entrar em um CPD daquela época.

Nada de racks.

Nada de fibras ópticas.

Nada de SAN.

Você encontraria enormes equipamentos metálicos.

Mesas repletas de cartões perfurados.

Operadores cuidadosamente alimentando máquinas.

Funcionárias especializadas em perfuração de cartões.

Classificadoras organizando milhares de registros.

Tabuladores imprimindo relatórios.

O ambiente era barulhento.

Cheio de engrenagens.

Motores elétricos.

E o característico som dos cartões deslizando por mecanismos de leitura.

Era um datacenter.

Só que feito de papel.


🔧 Oficina do Engenheiro

O cartão perfurado tornou-se um padrão porque reunia três características fundamentais:

  • era barato;

  • podia ser transportado facilmente;

  • permitia armazenar informações de forma relativamente confiável.

Durante décadas, milhões de programas COBOL também seriam distribuídos em cartões perfurados.

A mídia mudou.

O conceito de representar dados de forma padronizada permaneceu.


Enquanto Isso, em Berlim...

Enquanto a IBM aperfeiçoava suas máquinas administrativas, Konrad Zuse seguia outro caminho.

Ele não queria apenas processar registros.

Queria construir uma máquina universal.

Uma máquina capaz de executar qualquer sequência lógica.

Essa diferença é fundamental.

As máquinas IBM da época eram configuráveis, mas especializadas.

O Z3 era programável para diferentes problemas matemáticos.

Não competiam entre si.

Atendiam mercados distintos.


A Dehomag

Na Alemanha, a IBM atuava por meio de sua subsidiária Dehomag (Deutsche Hollerith-Maschinen Gesellschaft).

A empresa fabricava e mantinha equipamentos baseados na tecnologia Hollerith para clientes alemães.

Como outras empresas multinacionais da época, sua atuação durante os anos do regime nazista continua sendo objeto de intensa pesquisa histórica. Há consenso de que máquinas Hollerith foram utilizadas por órgãos do governo alemão em atividades administrativas, mas historiadores ainda discutem o grau de autonomia da Dehomag, o nível de controle exercido pela matriz da IBM e as responsabilidades corporativas naquele contexto.

Para quem estuda história da computação, é importante separar duas questões distintas:

  • a evolução tecnológica das máquinas;

  • o contexto político em que elas foram utilizadas.

Misturar esses temas sem cuidado costuma gerar interpretações simplificadas.


📦 Baú do Sysprog

Tecnologia é uma ferramenta.

Ela pode ser utilizada para ampliar conhecimento, organizar empresas, desenvolver medicamentos ou administrar sistemas financeiros.

Também pode ser utilizada em contextos profundamente negativos.

Conhecer a história completa ajuda engenheiros e profissionais de TI a refletirem sobre a responsabilidade associada às tecnologias que desenvolvem e administram.


IBM e Zuse Nunca Foram Inimigos

Existe um mito recorrente.

Muitos imaginam que Konrad Zuse e IBM travavam uma corrida direta.

Na realidade, isso nunca aconteceu.

A IBM era líder absoluta em processamento de dados comerciais.

Zuse trabalhava praticamente sozinho desenvolvendo computadores científicos.

Os clientes eram diferentes.

Os objetivos eram diferentes.

As arquiteturas eram diferentes.

Décadas depois, essas duas linhas evolutivas começariam a convergir.

Os computadores deixariam de ser apenas calculadoras científicas.

As empresas passariam a exigir máquinas programáveis para aplicações comerciais.

Era exatamente o ponto onde a experiência da IBM encontraria as ideias pioneiras de Zuse e de outros pesquisadores.


O Que um Sysprog Aprende?

Todo Sysprog conhece a importância de escolher a ferramenta certa.

Não utilizamos um utility de REORG para fazer um BACKUP.

Não usamos um SORT para administrar segurança.

Cada componente possui um propósito.

A história da computação ensina exatamente a mesma lição.

As máquinas Hollerith eram extraordinárias para organizar grandes volumes de dados administrativos.

Os computadores de Zuse eram extraordinários para cálculos científicos programáveis.

Ambos estavam corretos.

Ambos resolveram problemas reais.

E ambos deixaram contribuições fundamentais para aquilo que décadas depois se transformaria nos modernos ambientes IBM Z.


O Encontro de Dois Mundos

No início dos anos 1960, quando a IBM apresentou o System/360, algo extraordinário aconteceu.

Pela primeira vez, uma arquitetura comercial reunia:

  • processamento científico;

  • processamento administrativo;

  • programação de propósito geral;

  • compatibilidade entre modelos;

  • expansão contínua.

De certa forma, era a convergência das duas grandes correntes que acompanhamos nesta série.

A visão universal de Konrad Zuse.

E a experiência empresarial construída pela IBM desde Herman Hollerith.

O resultado dessa união moldaria toda a computação corporativa das décadas seguintes.


No Próximo Café...

Até agora acompanhamos a evolução da computação alemã e o crescimento silencioso da IBM.

Mas existiam outros protagonistas espalhados pelo mundo.

Na Inglaterra, uma máquina ajudava a decifrar mensagens secretas.

Nos Estados Unidos, universidades desenvolviam computadores eletromecânicos gigantescos.

Na próxima parte responderemos uma pergunta que até hoje desperta debates apaixonados:

Quem realmente inventou o primeiro computador?

Conheceremos o Colossus, o Harvard Mark I, o ENIAC, o EDVAC e veremos por que a resposta depende muito mais da definição de "computador" do que da data em que cada máquina entrou em funcionamento.

Prepare outro café.

A viagem pela história da computação está apenas começando.

Esse capítulo faz a ponte entre a linha evolutiva de Herman Hollerith → IBM → System/360 → IBM Z e a linha de Konrad Zuse → computadores programáveis, preparando o terreno para o grande debate histórico da próxima parte: afinal, quem merece o título de "primeiro computador"?

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Histórias com Cheiro de Naftalina

O Guia do Viajante do Tempo

Muito Antes do IBM Z Existia Outro “Z”

Viaje pelas origens da computação, conhecendo Konrad Zuse, Herman Hollerith, Tommy Flowers, John von Neumann, o Colossus, o EDVAC, o IBM System/360 e os pioneiros que construíram o caminho até o IBM Z.

ARTIGO SELECIONADO

O Guia do Viajante do Tempo

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☕ Quem não conhece o passado não entende o código do futuro.

Bellacosa Mainframe — tecnologia, história, COBOL, IBM Z e memória.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

O que é Fita Perfurada em Mainframe?

 

Bellacosa Mainframe apresenta a fita perfurada no mainframe

O que é Fita Perfurada em Mainframe?

Muito antes dos discos rígidos, SSDs e até mesmo dos cartões perfurados se popularizarem nos computadores, outra tecnologia foi utilizada para armazenar programas e dados:

A Fita Perfurada (Paper Tape)

Ela foi uma das primeiras mídias de entrada de dados da história da computação e da automação industrial.

Embora tenha sido pouco utilizada nos grandes mainframes IBM em comparação com os cartões perfurados, a fita perfurada teve um papel importante na evolução da informática.


Definição simples

A fita perfurada era uma longa tira de papel onde informações eram representadas por furos.

Cada conjunto de furos correspondia a:

  • letras;

  • números;

  • símbolos;

  • comandos;

  • instruções de programas.

Assim como o cartão perfurado, os furos eram lidos por máquinas especiais.


Uma analogia simples

Imagine um rolo de papel de calculadora.

Agora imagine que, em vez de tinta, ele possui pequenos furos.

Cada conjunto de furos representa uma informação.

A máquina "lê" esses furos e interpreta os dados.


Origem da fita perfurada

A fita perfurada surgiu muito antes dos computadores modernos.

Ela começou a ser utilizada no século XIX em equipamentos como:

  • telégrafos;

  • teletipos;

  • sistemas ferroviários;

  • equipamentos industriais.

Mais tarde foi adaptada para computadores.


Como ela funcionava?

Cada posição da fita podia conter furos em diferentes colunas.

Esses furos representavam códigos binários.

Exemplo simplificado:

● ○ ● ○ ○ ● ○ ○

Cada combinação representava um caractere.


O padrão de 8 canais

O modelo mais conhecido utilizava:

8 trilhas (8 canais)

Cada coluna correspondia a um byte.

Existiam também fitas de:

  • 5 canais;

  • 6 canais;

  • 7 canais;

  • 8 canais.

Dependendo da aplicação.


Como os programas eram gravados?

O processo era semelhante ao dos cartões.

1. Digitação

O operador utilizava um perfurador.


2. Perfuração

A máquina fazia os furos na fita.


3. Leitura

Um leitor óptico ou mecânico interpretava os furos.


4. Execução

O computador recebia as informações.


Como era uma fita perfurada?

Visualmente parecia uma longa faixa de papel.

========================================

○ ● ○ ○ ● ○ ● ○ ○ ● ○

========================================

Ela podia ter:

  • poucos centímetros;

  • dezenas de metros.

Dependendo do programa.


Equipamentos utilizados

Paper Tape Punch

Máquina responsável por perfurar a fita.

Era equivalente ao Keypunch dos cartões.


Paper Tape Reader

Equipamento responsável por ler a fita.

Os sensores identificavam os furos e enviavam os dados ao computador.


Vantagens da fita perfurada

Contínua

Não havia limite de 80 colunas como nos cartões.


Baixo custo

Era barata de fabricar.


Fácil transporte

Ocupava menos espaço que milhares de cartões.


Simples

Tecnologia relativamente barata para a época.


Desvantagens

Muito frágil

O papel rasgava facilmente.


Difícil correção

Um erro normalmente exigia refazer parte da fita.


Desgaste

Após muitas leituras podia sofrer danos.


Baixa capacidade

Armazenava poucos dados comparada às tecnologias posteriores.


A fita perfurada foi usada em Mainframes IBM?

Sim, mas com uma ressalva importante.

Nos grandes mainframes IBM, especialmente a partir da linha System/360, a mídia dominante passou a ser o cartão perfurado de 80 colunas.

A fita perfurada foi mais comum em:

  • computadores científicos;

  • minicomputadores;

  • equipamentos industriais;

  • CNC;

  • laboratórios;

  • teleprocessamento;

  • sistemas militares.

Nos mainframes IBM ela existiu principalmente nos primeiros anos da computação, mas acabou sendo rapidamente substituída pelos cartões perfurados, que eram mais robustos e mais adequados ao processamento em lote (batch).


Fita perfurada x Cartão perfurado

Fita PerfuradaCartão Perfurado
Papel contínuoCartões individuais
Comprimento variável80 colunas por cartão
Mais compactaMais organizada
Mais frágilMais resistente
Muito usada em teleimpressoresMuito usada em mainframes IBM

Curiosidades incríveis

1. A fita perfurada nasceu antes dos computadores

Ela já era utilizada em sistemas telegráficos no século XIX.


2. Máquinas CNC utilizaram fitas perfuradas por muitos anos

Antes dos pendrives e redes industriais.


3. Muitos computadores das décadas de 1950 e 1960 aceitavam tanto cartões quanto fitas perfuradas

Dependendo do fabricante e da aplicação.


4. Hoje elas são peças de museu

Fitas perfuradas podem ser encontradas em museus de computação e engenharia.


Erros comuns de iniciantes

"Fita perfurada é a mesma coisa que fita magnética"

Não.

A fita perfurada é feita de papel com furos.

A fita magnética utiliza material magnético para gravar dados.


"Mainframes IBM usavam somente fita perfurada"

Não.

Os cartões perfurados tornaram-se a principal mídia de entrada de programas nos grandes mainframes IBM.


"Ela armazenava grandes quantidades de dados"

Sua capacidade era bastante limitada quando comparada às fitas magnéticas que surgiram depois.


Evolução das mídias de entrada de dados

Fita Perfurada
        ↓
Cartão Perfurado
        ↓
Fita Magnética (Reel)
        ↓
Cartridge
        ↓
Tape Library
        ↓
Storage em Disco
        ↓
Flash Storage
        ↓
Cloud Storage

Por que aprender sobre fita perfurada?

Mesmo sendo uma tecnologia histórica, ela ajuda a entender:

  • como surgiram os primeiros computadores;

  • a evolução das mídias de armazenamento e entrada de dados;

  • por que os cartões perfurados dominaram os mainframes IBM;

  • a origem do processamento batch e da automação industrial.


Conclusão

A fita perfurada foi uma das primeiras mídias utilizadas para inserir programas e dados em computadores e sistemas automatizados.

Embora tenha sido ofuscada pelos cartões perfurados no universo dos grandes mainframes IBM, ela desempenhou um papel fundamental na história da computação. Sua simplicidade abriu caminho para tecnologias mais robustas, como as fitas magnéticas, os cartridges e as modernas Tape Libraries, mostrando como a evolução do armazenamento sempre buscou mais capacidade, confiabilidade e eficiência.


domingo, 1 de abril de 2007

O que é Cartão Perfurado em Mainframe?

 

Bellacosa Mainframe apresenta o cartão perfurado

O que é Cartão Perfurado em Mainframe?

Muito antes de existirem:

  • teclados;

  • monitores;

  • mouse;

  • terminais 3270;

  • notebooks.

Os programas eram escritos em um pedaço de papelão.

Pode parecer estranho hoje, mas durante décadas essa foi uma das principais formas de programar computadores.

Esse pedaço de papel era chamado de:

Cartão Perfurado (Punch Card)

Ele foi uma das tecnologias que deram origem à computação moderna e marcou profundamente a história do mainframe.


Definição simples

O cartão perfurado era um cartão de papel rígido onde as informações eram representadas por furos.

Cada furo correspondia a:

  • letras;

  • números;

  • símbolos;

  • comandos;

  • instruções de programas.

Em vez de digitar um programa em uma tela, o programador entregava uma pilha de cartões ao computador.


Uma analogia simples

Imagine escrever um livro.

Hoje você usa:

  • Word;

  • VS Code;

  • Notepad.

Na década de 1960 você escreveria cada linha em um cartão diferente.

Se o livro tivesse 500 linhas...

Você teria 500 cartões.

E se um deles caísse no chão...

Era preciso reorganizar toda a sequência.


Origem dos cartões perfurados

Curiosamente, os cartões perfurados não nasceram para computadores.

Sua história começou na indústria têxtil.

Em 1804, o inventor francês Joseph Marie Jacquard criou um tear automático controlado por cartões perfurados.

Cada cartão dizia ao tear como produzir um determinado desenho no tecido.

Pela primeira vez, uma máquina era "programada" por meio de instruções armazenadas em cartões.

Décadas depois, essa ideia inspirou a computação.


Herman Hollerith e a IBM

No final do século XIX, o engenheiro Herman Hollerith desenvolveu máquinas capazes de ler cartões perfurados.

Elas foram utilizadas no Censo dos Estados Unidos de 1890.

O sucesso foi tão grande que Hollerith fundou uma empresa chamada Tabulating Machine Company.

Essa empresa evoluiu até se tornar a:

IBM

Por isso os cartões perfurados fazem parte da origem da própria IBM.


Como funcionava um cartão?

Cada cartão possuía normalmente:

80 colunas

Cada coluna representava um caractere.

Cada caractere era identificado por uma combinação de furos.


O famoso cartão de 80 colunas

Esse padrão tornou-se tão importante que influenciou diversas linguagens.

Por exemplo:

No COBOL antigo era comum:

Coluna 1 a 6   Sequência
Coluna 7       Indicador
Coluna 8 a 72  Código
Coluna 73 a 80 Numeração

Essa organização existe justamente porque cada linha correspondia a um cartão.


Como um programa era criado?

O processo era bem diferente do atual.

1. Escrever o código

O programador escrevia o programa em papel.


2. Digitação

Um operador utilizava uma máquina perfuradora.

Cada linha gerava um cartão.


3. Pilha de cartões

O programa ficava assim:

=========
=========
=========
=========
=========
=========

Centenas de cartões empilhados.


4. Leitura

Os cartões eram colocados em um leitor.

O computador lia um por um.


5. Compilação

O programa era compilado.

Caso existisse erro...

Era necessário perfurar um novo cartão.


Como eram feitas as correções?

Imagine encontrar um erro na linha 357.

Você precisava:

  • criar outro cartão;

  • substituir apenas aquele cartão;

  • manter toda a ordem correta.

Era um processo extremamente cuidadoso.


O pesadelo dos programadores

Se uma caixa com mil cartões caísse no chão...

Todo o programa poderia perder sua sequência.

Por isso muitos cartões possuíam um número de identificação nas colunas finais.

Assim era possível reorganizá-los.


O que era um Card Reader?

Era o equipamento responsável por ler cartões perfurados.

Ele fazia a leitura mecânica dos furos e enviava os dados ao computador.

Era uma das principais portas de entrada de dados para os primeiros mainframes.


O que era um Keypunch?

Era a máquina usada para perfurar os cartões.

O operador digitava no teclado.

A máquina fazia os furos automaticamente.

Era o equivalente ao editor de texto da época.


Onde os cartões eram utilizados?

Os cartões perfurados eram usados para:

  • programas COBOL;

  • programas FORTRAN;

  • programas RPG;

  • JCL;

  • entrada de dados;

  • processamento batch.


Por que deixaram de ser usados?

Apesar de revolucionários para sua época, os cartões apresentavam limitações:

  • ocupavam muito espaço;

  • eram frágeis;

  • exigiam armazenamento físico;

  • tinham capacidade limitada;

  • dificultavam alterações.

Com a chegada dos terminais, discos e fitas magnéticas, foram gradualmente substituídos.


A influência no COBOL

Mesmo hoje, vários padrões do COBOL refletem a época dos cartões perfurados.

Exemplos:

  • limite tradicional de 72 colunas para código;

  • numeração de sequência;

  • organização rígida das colunas.

Essas convenções surgiram porque cada linha precisava caber em um cartão de 80 colunas.


Curiosidades incríveis

1. Um programa grande podia ocupar milhares de cartões

Alguns sistemas corporativos eram literalmente caixas cheias de cartões.


2. O cartão perfurado influenciou diversas linguagens

COBOL, FORTRAN e RPG herdaram conceitos dessa tecnologia.


3. A IBM fabricou milhões de cartões

Durante décadas eles foram consumíveis essenciais nos centros de processamento de dados.


4. Muitos museus de computação ainda preservam cartões perfurados

Eles são considerados símbolos da origem da informática moderna.


Erros comuns de iniciantes

"Os cartões armazenavam programas para sempre"

Não.

Eles eram apenas uma forma física de entrada de dados e programas.


"Só o mainframe usava cartões"

Não.

Diversos computadores de grande porte e minicomputadores também utilizaram essa tecnologia.


"Cartões perfurados desapareceram sem deixar legado"

Muito pelo contrário.

Eles influenciaram o desenvolvimento de linguagens, compiladores, sistemas operacionais e até o formato de código utilizado durante décadas.


Por que aprender sobre cartões perfurados?

Mesmo não sendo mais utilizados, eles ajudam a compreender:

  • a origem da programação;

  • a evolução dos mainframes;

  • por que o COBOL possui determinadas convenções;

  • como nasceu o processamento batch;

  • a história da IBM e da computação corporativa.


Conclusão

O cartão perfurado foi uma das tecnologias mais importantes da história da computação.

Durante décadas, ele foi o principal meio de inserir programas e dados em computadores, incluindo os primeiros mainframes da IBM.

Embora tenha sido substituído por terminais, discos e redes, seu legado permanece vivo. Muitas características do COBOL, do processamento batch e da arquitetura dos mainframes modernos têm suas raízes na época em que uma simples pilha de cartões representava um sistema inteiro.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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