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segunda-feira, 7 de agosto de 2023

💳 KAZUMA SATOU E A DUNGEON DA ASSINATURA ETERNA

 

Bellacosa Mainframe e o golpe das assinaturas

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

💳 KAZUMA SATOU E A DUNGEON DA ASSINATURA ETERNA

Publicidade, assinaturas, trials, renovação automática, autoplay, pop-ups, pageviews, fidelização, dark patterns, atenção, dados, bandwidth — e o dia em que Kazuma descobriu que os 90 dias grátis custavam exatamente o cartão de crédito que ele havia esquecido de cancelar.

Sob a batuta de Kazuma Satou, de KonoSuba: porque, quando alguém em Axel oferece alguma coisa de graça, o aventureiro experiente primeiro procura onde está escrito “renovação automática”.



🎬 PRÓLOGO — KAZUMA, É GRÁTIS!

Aqua entrou correndo pela porta da guilda.

— KAZUMA! KAZUMA! Descobri uma coisa fantástica!

Kazuma nem levantou os olhos.

Depois de conhecer Aqua, aprendera que as palavras “fantástica”, “oportunidade” e “grátis” normalmente eram os primeiros três passos de alguma catástrofe financeira.

— O que você fez?

— Nada!

— Quanto devemos?

— Ainda nada!

Kazuma levantou os olhos.

“Ainda” era uma palavra extremamente preocupante.

Aqua colocou sobre a mesa uma placa:

90 DIAS TOTALMENTE GRÁTIS!

Experimente agora.

Cancele quando quiser.

Cartão necessário para ativação.

Kazuma olhou para ela.

Depois olhou para a placa.

Depois novamente para Aqua.

— Você colocou meu cartão?

— Claro! Era grátis!

Kazuma fechou os olhos.

Em algum lugar distante, provavelmente Megumin preparava uma Explosion.

Mas aquela explosão seria pequena comparada à que aconteceria dali a 90 dias.

Porque Aqua acabara de descobrir uma das magias mais poderosas do capitalismo digital:

a assinatura recorrente baseada no esquecimento humano.

Pegue seu café.

Hoje vamos entrar numa dungeon muito mais perigosa que o castelo do Rei Demônio.

A Dungeon da Assinatura Eterna.



📜 CAPÍTULO 1 — QUANDO PAGÁVAMOS PARA RECEBER PUBLICIDADE

Nossa aventura começa antes de streaming, cookies, aplicativos e autoplay.

Começa nas revistas e jornais.

Durante décadas havia uma relação comercial aparentemente simples:

LEITOR
   |
   +---- paga assinatura
   |
   v
EDITORA
   |
   +---- produz conteúdo
   |
   v
REVISTA

Bonito.

Até descobrirmos que havia outro fluxo:

ANUNCIANTE
    |
    +---- paga publicidade
    |
    v
EDITORA
    |
    +---- coloca anúncio
    |
    v
REVISTA
    |
    v
ASSINANTE

E então aparecia uma pergunta incômoda.

Se eu já estou pagando pela revista, por que uma parcela tão grande dela é publicidade?

Uma ou outra propaganda contextual não necessariamente incomodava.

Aliás, nas antigas revistas de informática, anúncios podiam ser interessantes.

Computadores.

Modems.

Cursos.

Livros.

Compiladores.

Hardware.

Software.

O anúncio fazia parte daquele universo.

O problema começava quando você comprava uma publicação de 150 páginas e percebia que dezenas delas eram publicidade.

Kazuma certamente perguntaria:

— Então eu pago pela revista e vocês também vendem minha atenção?

Sim.

— E meu desconto?

Não existe.

— Então pelo menos me deem alguma coisa.

Também não.

— AQUA! EXPLOSION NESSA EDITORA!

Calma, Kazuma.

Ainda piora.



🎁 CAPÍTULO 2 — O NOVO ASSINANTE GANHA A CANECA

Havia algo particularmente irritante.

Você assinava uma revista durante anos.

Pagava regularmente.

Renovava.

Nunca dava trabalho.

Até que encontrava um anúncio:

NOVOS ASSINANTES!

Assine agora e ganhe:

mochila + relógio + desconto + três edições extras!

Excelente!

Você ligava para renovar.

— Sou assinante há oito anos.

— Excelente, senhor.

— Quero renovar.

— São R$ 299.

— E a mochila?

— Somente para novos assinantes.

— E o relógio?

— Novos assinantes.

— E o desconto?

— Também.

Fantástico.

A empresa acabava de transmitir uma mensagem involuntária:

Obrigado pela fidelidade. Agora que sabemos que você já é nosso cliente, não precisamos mais conquistá-lo.

Esse é um erro gigantesco.

O presente poderia valer vinte reais.

Não importa.

O valor psicológico estava no reconhecimento.

O cliente antigo queria perceber:

“Minha permanência possui valor.”

Em vez disso, recebia:

IF CLIENTE-NOVO
    MOVE DESCONTO TO PRECO
    MOVE 'SIM' TO BRINDE
ELSE
    MOVE PRECO-CHEIO TO PRECO
    MOVE 'NAO' TO BRINDE
END-IF.

Parabéns.

Compilou.

Entrou em produção.

E criou um bug de relacionamento com o cliente.



🧙 CAPÍTULO 3 — MUDAMOS PARA A INTERNET E LEVAMOS O BUG JUNTO

Então chegou a revolução digital.

Adeus papel.

Olá Internet.

Adeus banca.

Olá aplicativo.

Adeus ficha de assinatura.

Olá cartão armazenado.

Poderíamos ter redesenhado todo o modelo.

Mas alguém aparentemente executou:

COPY BUSINESS-RULES-1987
  TO DIGITAL-ECONOMY.

O brinde para novo assinante virou:

“Primeiros três meses por R$ 9,90.”

Enquanto isso, o assinante de cinco anos:

R$ 49,90.

A velha regra continuava viva.

O consumidor fiel começou então a aprender.

Cancela.

Espera.

Recebe oferta.

Volta.

A empresa treinou justamente o comportamento que não queria.

É quase uma aula de machine learning:

AÇÃO:
permanecer fiel

RECOMPENSA:
nenhuma


AÇÃO:
cancelar

RECOMPENSA:
30% de desconto

Depois de algumas iterações, qual comportamento o modelo aprende?

Cancelar.

Não precisamos nem de IA generativa para descobrir.



💳 CAPÍTULO 4 — OS 90 DIAS GRÁTIS DE AQUA

Agora chegamos à grande magia.

“Experimente gratuitamente durante 90 dias.”

Parece excelente.

Mas existem dois modelos completamente diferentes.

Modelo A:

90 dias grátis
      |
      v
período termina
      |
      v
quer contratar?
   /       \
 SIM       NÃO

Modelo B:

CADASTRE O CARTÃO
       |
       v
90 dias grátis
       |
       v
você esqueceu?
       |
      SIM
       |
       v
COBRANÇA

No primeiro modelo, depois dos 90 dias a empresa precisa convencê-lo novamente.

No segundo, basta você não fazer nada.

A ausência de decisão tornou-se uma decisão comercial.

E 90 dias são perfeitos para isso.

Você testa hoje.

Usa durante quatro dias.

Esquece.

A vida continua.

Trabalho.

Família.

Netflix.

Anime.

Mainframe.

COBOL.

CICS.

Db2.

Três meses depois:

COBRANÇA APROVADA — R$ 399,00.

— AQUA!!!

— Kazuma, eu achei que era grátis!

Eis o problema.

Era.

Durante 90 dias.


🔐 CAPÍTULO 5 — O RACF FINANCEIRO

Depois de cair algumas vezes nessas armadilhas, o consumidor aprende.

Algumas pessoas criam lembretes:

CANCELAR SERVIÇO X
DIA 27
ANTES DA COBRANÇA

Outras utilizam cartões virtuais ou mecanismos bancários de controle.

Há quem periodicamente revise todas as assinaturas.

A ideia é excelente do ponto de vista de governança:

recertificação.

No mainframe fazemos algo semelhante com acessos.

Fulano precisava daquela autorização há três anos.

Ainda precisa?

Talvez.

Talvez não.

Então revisamos.

Por que assinaturas não deveriam funcionar conceitualmente assim?

SUBSCRIPTION REVIEW

SERVIÇO A ............ KEEP
SERVIÇO B ............ KEEP
SERVIÇO C ............ CANCEL
TRIAL ESQUECIDO ...... CANCEL
APP USADO 1 VEZ ...... CANCEL

Trocar um cartão, porém, não deve ser considerado equivalente jurídico ou técnico ao cancelamento da assinatura: sistemas de pagamento podem empregar tokens e mecanismos de atualização, e o contrato pode continuar existindo.

Mas o princípio permanece interessante:

não permitir que uma autorização concedida anos atrás viva eternamente sem revisão.

Kazuma aprovaria.

RACF também.


😡 CAPÍTULO 6 — O ÓDIO DE ESTIMAÇÃO

Existe uma consequência que dificilmente aparece imediatamente no dashboard.

A empresa consegue cobrar aquela renovação.

Receita aumentou.

Excelente trimestre.

Mas o cliente pensa:

“Vocês me pegaram.”

Esse sentimento muda tudo.

O produto pode continuar excelente.

O consumidor simplesmente passa a não querer comprar daquela empresa.

Ou posterga.

Procura concorrente.

Espera promoção.

Compra somente quando absolutamente necessário.

Isso é quase uma dívida técnica de marketing.

Hoje:

RECEITA +10

Amanhã:

CONFIANÇA -50

O problema é que receita aparece facilmente no relatório trimestral.

Confiança não.

Até desaparecer.


📺 CAPÍTULO 7 — O CONTROLE REMOTO DEVOLVEU O PODER

Voltemos algumas décadas.

Antes do controle remoto, começou o comercial.

Você poderia levantar e trocar o canal.

Mas isso exigia esforço.

Então veio aquela pequena maravilha tecnológica:

o controle remoto.

Comercial começou?

CLICK.

Outro canal.

CLICK.

Outro.

Nasceu o zapping.

E aconteceu algo engraçado.

Você estava assistindo ao programa A.

Começou o comercial.

Foi ao programa B.

Gostou.

E nunca voltou.

O comercial que deveria financiar o canal A acabou entregando o telespectador ao canal B.

Depois chegaram videocassetes, DVRs e diferentes mecanismos para gravar programação e facilitar o avanço sobre intervalos.

O consumidor estava dizendo:

“Quero o conteúdo. Não necessariamente quero a interrupção.”


🌐 CAPÍTULO 8 — A INTERNET PERDEU O CONTROLE REMOTO

A Internet deveria ser a evolução definitiva desse controle.

Tecnicamente podemos escolher exatamente o que queremos consumir.

Mas surgiu uma guerra.

Publicidade.

Bloqueadores.

Anti-adblock.

Scripts.

Trackers.

Popups.

Vídeos.

Autoplay.

Redirecionamentos.

E lentamente perdemos algo fundamental:

o direito de ignorar.

Na revista bastava virar a página.

Na televisão, trocar o canal.

Na web, às vezes o anúncio literalmente tenta impedir que você chegue ao conteúdo.

Kazuma entra no site.

POPUP.

Fecha.

Outro popup.

Fecha.

Vídeo começa sozinho.

Silencia.

Cookie banner.

Fecha.

Newsletter.

“Não, obrigado.”

Notificação.

“Permitir?”

Não.

“Detectamos que você está utilizando um bloqueador de anúncios.”

Kazuma olha para Aqua.

— Nós ainda não chegamos ao artigo?

— Não.

— Darkness?

— Estou gostando.

Naturalmente.


👹 CAPÍTULO 9 — OS POPUPS DA DUNGEON

Existe publicidade.

E existe agressão à navegação.

Você clica em uma página.

De repente:

CLICK
 |
 +-- artigo
 |
 +-- anúncio
 |
 +-- nova aba
 |
 +-- popup
 |
 +-- pop-under
 |
 +-- redirecionamento
 |
 +-- página completamente aleatória

Você pediu uma coisa.

Recebeu sete.

Isso deveria violar um princípio básico da interface:

UM CLIQUE = UMA INTENÇÃO.

Se clicou no artigo, abra o artigo.

Se clicou em Play, reproduza.

Se clicou no anúncio, abra o anúncio.

E principalmente:

SE CLICOU NO X, X SIGNIFICA FECHAR.

O X não deveria abrir uma nova aba.

Não deveria registrar interesse.

Não deveria redirecionar.

Deveria simplesmente:

IF USER-ACTION = 'CLOSE'
    MOVE 'CLOSED' TO POPUP-STATUS
END-IF.

Não precisa de inteligência artificial.


🎥 CAPÍTULO 10 — AUTOPLAY: QUEM MANDOU BAIXAR ISSO?

Outro pequeno demônio:

vídeo automático.

Você abriu uma matéria para ler.

O site decidiu baixar vídeo.

Talvez com áudio.

Talvez publicidade.

E quem forneceu os recursos?

Você.

Sua conexão.

Seu dispositivo.

Sua bateria.

Sua memória.

Sua CPU.

Sua eletricidade.

Imagine a versão física.

Você compra uma revista.

Abre a página.

Um representante da empresa entra na sua casa e diz:

— Para imprimir nosso anúncio, podemos usar sua impressora, seu papel e sua tinta?

Absurdo.

Na Internet fazemos algo conceitualmente parecido sem sequer perceber.

O modelo civilizado seria:

THUMBNAIL
    |
 usuário decide
    |
   PLAY
    |
download
    |
 vídeo

Não:

ABRIU A PÁGINA
      |
 DOWNLOAD
      |
 AUTOPLAY
      |
CPU + RAM + BANDWIDTH

📖 CAPÍTULO 11 — NEXT... NEXT... NEXT...

Kazuma finalmente encontra um artigo interessante.

“As 10 maiores armadilhas das assinaturas digitais.”

Começa a ler.

Item 10.

NEXT.

Item 9.

NEXT.

Publicidade.

NEXT.

Item 8.

Kazuma fecha a página.

Fim.

Essa é outra aberração da web.

Uma matéria que poderia ser apresentada continuamente é artificialmente dividida:

PAGE 1
 NEXT
PAGE 2
 NEXT
PAGE 3
 NEXT
PAGE 4

Por quê?

Em alguns casos há razões técnicas ou editoriais legítimas.

Mas também existe um incentivo evidente:

mais páginas = mais oportunidades de pageview e impressões publicitárias.

O dashboard comemora:

PAGEVIEWS ↑
AD IMPRESSIONS ↑

Enquanto uma métrica invisível despenca:

PACIÊNCIA DO LEITOR ↓↓↓↓↓

Scroll existe.

Lazy loading existe.

Capítulos existem.

Índice existe.

Não precisamos transformar uma reportagem em uma dungeon de dez andares.


📺 CAPÍTULO 12 — EU PAGAVA TV. ENTÃO COLOCARAM PUBLICIDADE.

Aqui encontramos outra ruptura importante.

Você contrata um serviço pago.

A relação percebida é:

DINHEIRO
   |
   v
CONTEÚDO + EXPERIÊNCIA

Então a empresa mantém o preço e acrescenta publicidade.

Agora:

DINHEIRO
   |
   +--------+
   |        |
   v        v
SERVIÇO   PUBLICIDADE
            |
            v
          TEMPO

O preço monetário não necessariamente mudou.

Mas o preço total da experiência mudou.

Agora você também paga com atenção.

E tempo.

Se uma hora de programação tiver doze minutos adicionais de publicidade, você não gastou apenas uma hora.

Gastou 72 minutos.

Faça isso repetidamente durante o ano e começamos a falar de muitas horas da vida dedicadas a algo que você não solicitou diretamente.

Kazuma perguntaria:

— Meu plano ficou mais barato?

Não.

— Ganhei conteúdo adicional?

Não necessariamente.

— Então por que tenho anúncios agora?

Porque conseguimos.

Essa talvez seja a pior resposta possível para um cliente.


💡 CAPÍTULO 13 — EU COMPREI A TV!

E chegamos a uma das partes mais interessantes da dungeon.

O consumidor já forneceu grande parte da infraestrutura.

Comprou a televisão.

Comprou o computador ou celular.

Comprou o roteador.

Paga eletricidade.

Paga Internet.

Paga assinatura.

Depois disso, eventualmente recebe publicidade utilizando justamente esses recursos.

Temos então:

CONSUMIDOR
 |
 +-- TV ..................... pago
 +-- computador/celular ..... pago
 +-- eletricidade ........... pago
 +-- Internet ............... pago
 +-- assinatura ............. pago
 +-- tempo .................. fornecido
 +-- atenção ................ fornecida
 +-- dados/telemetria ....... dependendo do serviço

É importante reconhecer que produzir, licenciar e distribuir conteúdo também possui custos enormes.

Publicidade pode financiar conteúdo.

O problema não é sua mera existência.

A pergunta correta é:

QUAL É A TROCA?

Serviço gratuito financiado por publicidade?

Compreensível.

Plano barato explicitamente financiado por anúncios?

Escolha comercial clara.

Plano premium sem publicidade?

Também.

Mas quando o consumidor paga e posteriormente recebe uma experiência pior sem compensação perceptível, a relação muda.


📊 CAPÍTULO 14 — O PREÇO QUE NÃO APARECE NA FATURA

Talvez o maior erro seja pensar que preço significa apenas dinheiro.

Na economia digital existem vários preços:

preço financeiro;

preço em tempo;

preço em atenção;

preço em dados;

preço em banda;

preço computacional;

preço energético;

e preço em irritação.

Um serviço de R$ 30 pode subjetivamente parecer mais caro que um de R$ 50 quando o primeiro exige fechar popups, assistir publicidade, enfrentar autoplay e lutar para cancelar.

É o equivalente digital de comprar uma passagem barata e descobrir depois vinte tarifas adicionais.


📏 CAPÍTULO 15 — O CÓDIGO DE CONDUTA DOS 25%

E aqui surge uma proposta interessante.

Publicidade não precisa desaparecer.

Precisa de governança.

Imagine um código de conduta segundo o qual uma página editorial não pudesse dedicar mais de aproximadamente 25% de sua experiência visual à publicidade.

Mas espaço seria apenas uma dimensão.

Precisaríamos de um verdadeiro SLA publicitário.

ESPAÇO

A publicidade não deveria dominar a área útil destinada ao conteúdo.

BANDWIDTH

Vídeos publicitários não deveriam consumir grandes quantidades de dados antes de uma decisão do usuário.

CPU E MEMÓRIA

Scripts publicitários não deveriam transformar uma página simples em um benchmark de processador.

AUTOPLAY

Mídia deveria depender de consentimento explícito, especialmente quando envolve som ou transferência significativa de dados.

POPUPS

Nenhuma avalanche de janelas não solicitadas.

NAVEGAÇÃO

Um clique deveria corresponder à ação prometida.

LAYOUT

O artigo não deveria ficar pulando porque anúncios apareceram posteriormente.

INTEGRIDADE EDITORIAL

Uma matéria não deveria ser artificialmente fragmentada apenas para multiplicar pageviews.

Isso não seria uma guerra contra publicidade.

Seria uma tentativa de torná-la civilizada.


🧠 CAPÍTULO 16 — O DASHBOARD ESTÁ VERDE, KAZUMA!

Aqui está talvez a lição mais Mainframe desta história.

Podemos otimizar a métrica errada.

Imagine:

AD IMPRESSIONS ........ +22%
PAGEVIEWS .............. +31%
TRIAL CONVERSION ....... +14%
AUTO-RENEWAL ........... +18%
REVENUE/USER ........... +9%

Tudo verde.

Champagne!

Mas escondido em algum dataset:

TRUST .................. -35%
GOODWILL ............... -40%
BRAND AFFINITY ......... -28%
PACIÊNCIA .............. ABEND

O problema é que confiança é muito mais difícil de medir que pageview.

Então administramos aquilo que conseguimos enxergar.

É exatamente como olhar somente CPU em um mainframe e concluir:

“Está tudo ótimo.”

Enquanto CICS está esperando Db2.

Db2 está esperando lock.

MQ está formando fila.

E o cliente está esperando quatro segundos.

Dashboard verde não significa usuário feliz.


🧹 CAPÍTULO 17 — A EMPRESA ENSINOU O CLIENTE A LUTAR CONTRA ELA

Esse talvez seja o resultado mais irônico.

Publicidade excessiva criou demanda por bloqueadores.

Renovação automática criou lembretes de cancelamento.

Promoção exclusiva para novos clientes ensinou clientes antigos a cancelar.

Trials agressivos estimularam cartões virtuais.

Sites hostis ensinaram usuários a fechar páginas.

Paginação artificial ensinou leitores a abandonar artigos.

A empresa treinou seu próprio adversário.

Em linguagem de RPG:

MONSTRO:
Publicidade agressiva

DROP:
Ad blocker

😂

Ou em COBOL:

IF EXPERIENCIA = 'HOSTIL'
    ADD 1 TO USER-RESISTANCE
END-IF.

Depois as empresas ficam surpresas:

— Por que nossos clientes estão fazendo isso?

Porque vocês os treinaram.


🏰 CAPÍTULO 18 — O VERDADEIRO REI DEMÔNIO É A AUSÊNCIA DE ESCOLHA

Publicidade contextual pode ser útil.

Assinaturas são excelentes modelos comerciais.

Renovação automática é extremamente conveniente quando desejada.

Trials são ótimos para conhecer produtos.

Vídeos enriquecem artigos.

Paginação pode ser adequada em determinados conteúdos.

Nenhuma dessas coisas é necessariamente vilã.

O problema aparece quando desaparece a agência do usuário.

Não posso ignorar.

Não posso fechar.

Não posso cancelar facilmente.

Não posso ler continuamente.

Não posso impedir o autoplay.

Não posso conhecer claramente o preço futuro.

Não posso permanecer cliente fiel recebendo as mesmas condições do recém-chegado.

Então o problema não é a tecnologia.

É a arquitetura da relação.


🥚 EASTER EGG — INCIDENTE 03:17

03:17 da manhã.

Kazuma acorda.

O celular acende.

TRANSACTION APPROVED

ANNUAL SUBSCRIPTION
R$ 799,90

Silêncio.

Kazuma olha para Aqua dormindo.

Olha novamente para o celular.

— Aqua...

Nenhuma resposta.

— AQUA...

— Hmmm?

— Você lembra daquele trial gratuito?

Silêncio.

— Kazuma... tecnicamente ele ERA gratuito.

Ao longe:

EXPLOSION!

Megumin sorri.

Finalmente alguém encontrou uma utilização adequada para renovação automática.


☕ EPÍLOGO — DEVOLVAM O CONTROLE REMOTO

Talvez toda esta conversa possa ser resumida numa tecnologia extremamente simples inventada décadas atrás.

O controle remoto.

Ele representava uma coisa maravilhosa:

controle.

Não quero assistir?

CLICK.

Quero silenciar?

CLICK.

Quero outro canal?

CLICK.

A Internet deveria ter ampliado esse poder.

Em muitos casos fez exatamente isso.

Em outros, porém, construímos sistemas extraordinariamente sofisticados para impedir o equivalente digital daquele CLICK.

E aí começamos uma guerra desnecessária entre consumidor, anunciante, plataforma e produtor de conteúdo.

Talvez o futuro não precise eliminar publicidade.

Talvez precise simplesmente recuperar um princípio antigo:

PUBLICIDADE DEVE PODER SER IGNORADA.

Uma boa relação comercial não deveria depender de aprisionar atenção.

Uma boa assinatura não deveria depender do esquecimento.

Um bom produto não deveria punir fidelidade.

Um bom trial não deveria torcer para que você esqueça a data.

Um bom site não deveria transformar leitura em prova de resistência.

E um cliente que paga não deveria descobrir que, além de pagar pelo conteúdo, forneceu a televisão, eletricidade, Internet, processador, memória, banda, dados, tempo e atenção necessários para alguém monetizá-lo novamente.

No Mainframe aprendemos uma lição fundamental:

recursos possuem dono, acesso possui regra e autorização não deveria significar autorização eterna.

Talvez a Internet precise aprender um pouco de RACF.

ICH408I

ADVERTISEMENT ACCESS DENIED

RESOURCE: USER.ATTENTION
ACCESS INTENT: UNLIMITED
REQUESTED: CONTROL

REASON:
USER NEVER GRANTED PERMISSION.

Kazuma finalmente termina seu café.

Aqua pergunta:

— Então você não quer os 90 dias grátis?

Kazuma olha para o formulário.

Olha para o campo:

CARTÃO DE CRÉDITO — OBRIGATÓRIO.

Levanta-se.

— Aqua...

— Sim?

— Vamos enfrentar o Rei Demônio.

— Mas por quê?!

Kazuma aponta para o formulário.

— Parece menos perigoso.

☕💳😂


☕ MORAL DO BELLACOSA MAINFRAME

Tecnologia mudou.

O papel virou tela.

O jornal virou portal.

A revista virou aplicativo.

O canal virou streaming.

A mala direta virou notificação.

O comercial virou publicidade programática.

A ficha de assinatura virou cartão tokenizado.

O videocassete virou cloud.

O controle remoto virou interface.

Mas algumas regras de negócio continuam executando como programas esquecidos há décadas.

E talvez esteja justamente aí o verdadeiro problema.

Fizemos a transformação digital da tecnologia.

Esquecemos de fazer a transformação digital do respeito ao cliente.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Anuncie: Bellacosa Index Page

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Aqui, cada material divulgado passa por um olhar atento, que busca qualidade, relevância e personalidade. O objetivo é facilitar o acesso a conteúdos que informam, provocam reflexão e despertam curiosidade, seja no campo cultural, tecnológico, criativo ou em temas alternativos que raramente encontram espaço nos canais tradicionais. A proposta é clara: organizar o caos informacional e oferecer ao leitor caminhos confiáveis para explorar novos interesses.

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terça-feira, 5 de julho de 2011

🥤 Gini – O Refri do “Yes!” que Virou Lenda

 

Bellacosa Mainframe e o lendario refrigerante gini

🥤 Gini – O Refri do “Yes!” que Virou Lenda

Uma crônica Bellacosa Mainframe para o El Jefe Midnight Lunch

Existem sabores que não são apenas bebidas — são checkpoints de memória, como se o cérebro desse um $HASP373 e liberasse um job de infância direto no spool do coração. Entre esses sabores, um nome brilha como uma mensagem WTOR chamando atenção: Gini.

Sim, Gini, o refrigerante francês de limão que chegou ao Brasil com a ousadia de quem sabia que ia virar clássico. Um refri tão icônico que parecia ter sido montado em assembler gustativo: rápido, direto, ácido na medida e com um aftertaste que dizia “pede mais um”.




🟢 Origem – Da França para o Mundo (e para o seu boteco preferido)

Gini nasceu na França, fabricado originalmente pela Perrier, a mesma gigante dos refrigerantes gaseificados. Foi lançado nos anos 1950, com o slogan ousado para época:

“La plus chaude des boissons froides”
(“A mais quente das bebidas frias” — olha o charme europeu.)

O nome Gini vem de uma brincadeira com “Genie”, o gênio da garrafa — aquela entidade mística que concede desejos. E, convenhamos, uma garrafinha gelada em tarde de verão era praticamente um desejo realizado.




🟡 História – Do frescor europeu à febre brasileira

Gini aportou no Brasil entre os anos 60 e 70, num mercado em ebulição. Aqui, virou rapidamente sinônimo de:

  • bebida leve,

  • sabor forte de limão,

  • e um charme gringo que poucos refrigerantes tinham.

Nas lanchonetes, nos bares de bairro, e nas prateleiras com poeira estratégica dos mercadinhos, Gini reinou bonito entre o Guaraná Taí, o Quatro Estações, o Bravo, o Sukita raiz e tantos outros bravos guerreiros carbonatados.

Tinha aquele azedinho distinto, diferente do Sprite e do Soda Limonada. Um sabor que não era para amadores — era para quem curtia uma vibe meio punk, meio disco, meio “vamos descer a rua de chinelo, vento no rosto e Gini na mão”.




🏭 Fabricante – Do império Perrier ao destino atual

Depois de mudanças e fusões no setor (como tudo no mundo corporativo, inclusive no mainframe), a marca Gini acabou ficando sob o guarda-chuva da Nestlé Waters.

No Brasil, a produção e distribuição mudaram bastante ao longo do tempo — até desaparecer do mercado nacional, deixando saudade, controvérsia e debates eternos sobre seu verdadeiro sabor.


🧃 Comentários – Gini era para os fortes

Tomar Gini era uma experiência:
Era ácido, era seco, quase um SORT com opção SUM não documentada.
Ou você amava, ou ele te ensinava a amar.

Gelado, ficava perfeito.
Natural, parecia te bater com uma toalha molhada.
Mas era justamente isso que fazia a personalidade da bebida.

Era o refrigerante que te dava um tapa e depois um abraço.


🥚 Easter-Egg – O Slogan Proibidão

Na França, Gini ficou famoso (e polêmico) por campanhas de marketing extremamente ousadas — bem mais quentes do que o público brasileiro jamais viu.

Em 2006, rolou até uma campanha com um “Gini imoral, mas irresistível” que foi banida em vários países.

No Brasil, pouca gente sabe:
📌 Gini já tentou se reposicionar como bebida “sexy”.
Só não vingou porque aqui, sexy mesmo era o sanduíche de mortadela gigante e uma garrafa de Gini geladíssima na mesa de mármore da padaria.


📉 Situação Atual – Onde está o Gini?

Hoje, Gini ainda existe na Europa, principalmente na França, mas com presença muito menor do que nos seus anos dourados.

No Brasil…
✨ virou lenda urbana gastronômica.

Vez ou outra aparece alguém dizendo:

“Ouvi dizer que voltou!”
“Venderam uma garrafa no Mercado Livre por 200 reais!”
“Meu tio jura que ainda toma no interior!”

Mas oficialmente, Gini não é mais produzido no Brasil.
Só vive nas memórias, nos papos de bar e no coração dos nostálgicos — como um dataset migrado para FIT que ninguém mais acha o backup.


🔍 Curiosidades – Gini no modo Bellacosa

  • 🔹 Foi um dos primeiros refrigerantes no Brasil com “pegada jovem”.
    Antes mesmo do marketing moderno falar em lifestyle.

  • 🔹 Seu sabor limão era mais “adulto” do que o dos concorrentes — próximo de soda italiana.

  • 🔹 No Japão, o nome “Gini” lembra foneticamente “銀” (gin), que significa prata — coincidência curiosa para uma bebida que parecia brilhar.

  • 🔹 Existem colecionadores de garrafas Gini que tratam o objeto como se fosse uma sysres rara.

  • 🔹 Em algumas regiões da França, Gini virou base para drinks com vodka ou rum.

  • 🔹 O mascote original lembrava um “gênio” estilizado — reforçando o trocadilho Genie → Gini.


🥤✨ Conclusão – Gini: o refresco que virou mito

Gini não foi só um refrigerante.
Foi um checkpoint emocional, um arquivo de memória comprimido em vidro verde, um “restore taste” da infância de muita gente.

Era o tipo de bebida que transformava um simples lanche num episódio de vida, com gosto de rua, de verão, de risada e de simplicidade.

E como tudo que marcou época, saiu de linha, mas nunca saiu da história.

Gini existe — na França, nos arquivos da Perrier, e principalmente no spool nostálgico de quem viveu seu sabor.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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