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sábado, 8 de fevereiro de 2025

O Salaryman que Virou Shitennō — Quando Uchimura Saiu do Escritório, Entrou no Exército do Rei Demônio e Descobriu que o Verdadeiro Boss Final Era a Gestão de Pessoas

 

Bellacosa Mainframe apresenta Sararīman ga Isekai ni Ittara Shitennō ni Natta Hanashi

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Salaryman que Virou Shitennō — Quando Uchimura Saiu do Escritório, Entrou no Exército do Rei Demônio e Descobriu que o Verdadeiro Boss Final Era a Gestão de Pessoas

Ou: por que um homem sem espada sagrada, sem status LV 9999 e sem harém de princesas resolveu problemas de guerra usando negociação, logística, respeito pelo time e uma espécie de RACF emocional

Sararīman ga Isekai ni Ittara Shitennō ni Natta Hanashi
(サラリーマンが異世界に行ったら四天王になった話)

Título ocidental: Headhunted to Another World: From Salaryman to Big Four!
Tradução livre: Quando um assalariado foi para outro mundo e se tornou um dos Quatro Generais.

ItemInformação
Obra originalManga
Autor da históriaBenigashira
Arte do mangaMuramitsu
PublicaçãoComic Gardo / Overlap, desde 27 de dezembro de 2019
Direção do animeMichio Fukuda
EstúdiosGEEKTOYS e CompTown
Estreia6 de janeiro de 2025
Encerramento24 de março de 2025
Episódios12
GênerosIsekai, fantasia, comédia, aventura, ambiente corporativo, romance leve
Classificação de conteúdoViolência fantasiosa moderada, tensão política, escravidão como tema narrativo; perfil aproximado de 12+/13+, conforme a plataforma e o país
SituaçãoAnime concluído em uma temporada; manga continua em publicação

A adaptação teve 12 episódios e foi produzida pela GEEKTOYS com a CompTown. O site oficial também lista o manga em pelo menos 10 volumes; a editora anunciou que a série superou 600 mil cópias em circulação, contando físico e digital. Site oficial do anime e Overlap — volume 11


Sinopse: o onboarding mais perigoso do universo

Dennosuke Uchimura é um salaryman japonês que foi retirado da rota de ascensão e enviado para trabalhar numa fábrica no exterior. Não é um jovem prodígio, nem um guerreiro reencarnado, nem alguém que descobriu uma skill chamada INFINITE CREATION.

Ele é só um profissional que conheceu chefes ruins, metas absurdas, trabalho invisível e aquela sensação clássica de que competência nem sempre vira reconhecimento.

Então o Rei Demônio aparece com uma proposta: ser recrutado como o quarto membro de sua cúpula militar.

Não é uma convocação do tipo “salve a humanidade”. É um headhunting. Há entrevista, salário simbólico, cargo executivo, resistência da equipe antiga e uma lista de entregas capaz de dar ABEND em qualquer gestor: crise de abastecimento, disputa entre povos, negociação internacional, monstros descontentes, comerciantes predatórios e guerras que ninguém consegue resolver apenas com força bruta.

Uchimura aceita porque, pela primeira vez, alguém olha para sua experiência e diz: “eu sei o que você sabe fazer; venha trabalhar comigo”.

Para um salaryman, isso é mais poderoso que magia de fogo.


A história: do “entrevistado” ao administrador do Reino Demoníaco

A temporada começa como uma sátira de recrutamento. O Rei Demônio não quer Uchimura porque ele é valente: quer porque observou sua capacidade de trabalhar sob pressão, negociar em ambiente hostil e sobreviver a uma operação estrangeira.

A primeira aventura é quase uma prova técnica. Os outros generais não entendem por que um humano, sem força física e sem magia, merece aquela cadeira. Uchimura precisa provar que não foi contratado por amizade de LinkedIn do Rei Demônio.


Daí a série abre seu verdadeiro motor: cada arco parece uma demanda de negócio disfarçada de fantasia.

  • Uma comunidade tem produção, mas não tem canal de venda.

  • Um grupo tem força militar, mas sua cultura interna bloqueia reformas.

  • Um reino vizinho tem recursos, mas não confiança.

  • Um mercador manipula escassez e usa informação assimétrica como arma.

  • Uma cidade é governada por quem trata pessoas como custo descartável.

Em qualquer isekai convencional, o protagonista derrubaria a porta, derrotaria o vilão e receberia aplausos. Uchimura primeiro pergunta:

Quem produz? Quem perde? Onde está o gargalo? Quem tem medo de mudar? E quem está lucrando com o problema?

É o sujeito que chega ao incidente e, antes de executar CANCEL, abre o log, verifica o job anterior, confere a dependência e pergunta por que aquele processo existia.


Os personagens: a empresa onde o organograma tem chifres

Dennosuke Uchimura

Uchimura é o protagonista adulto que falta em muitos isekais. Sua habilidade não é uma magia escondida: é experiência acumulada, escuta, capacidade de formular acordos e, sobretudo, coragem de assumir responsabilidade.

Mas há um detalhe humano: ele carrega trauma de uma vida corporativa que o ensinou a duvidar da própria competência. Quando o Rei Demônio lhe oferece reconhecimento, Uchimura não vira imediatamente um comandante confiante. Ele estranha. Ele suspeita. Ele teme falhar de novo.

O anime entende uma coisa que muito material de autoajuda ignora: promoção não cura automaticamente a ferida causada por anos de desprezo.

O Rei Demônio

Dublado por Akio Ōtsuka, o Rei Demônio é talvez o maior golpe de humor e de crítica da obra. Ele é o “vilão” com postura de líder ideal: identifica talento, distribui responsabilidades, conhece as limitações dos subordinados e cria ambiente para que eles cresçam.

O Rei Demônio é menos Sauron e mais o gerente que você gostaria de ter encontrado antes de decidir trabalhar remoto e evitar reuniões.

O próprio material oficial descreve-o como o chefe ideal de Uchimura. Ficha oficial dos personagens

Ulmandra

Ulmandra é uma dos Quatro Generais e a maior força de combate do exército. Ela resolve problemas com o método mais antigo do mundo: socar primeiro e atualizar o documento depois.

Só que o anime não a reduz a “garota forte que se apaixona pelo protagonista”. Ela é leal, é respeitada pela tropa e representa a competência operacional. Uchimura pensa, Ulmandra executa, e a dupla funciona porque cada um reconhece a especialidade do outro.

Ela é o colega de produção que não escreve o PowerPoint mais bonito, mas mantém o ambiente de pé quando todos os dashboards estão verdes e o cliente está ligando.

Sylphid e Genome

Sylphid é a especialista técnica da cúpula: domina a tecnologia mágica, protege sua identidade e funciona como aquela pessoa que conhece o sistema legado inteiro, mas só aparece quando a situação já virou RC=16.

Genome comanda tropas de demi-humanos, é disciplinada e vive em atrito com Ulmandra. A rivalidade entre elas ajuda a mostrar que organização não é uma família de propaganda: equipes podem ser competentes, leais e ainda assim divergir de método, origem e prioridades.

Orle, Neia e os personagens dos arcos

Orle, filha do líder ogro, introduz o tema da modernização de uma sociedade sem apagar sua cultura. Neia leva a narrativa a encarar escravidão, exploração e abuso de poder. Já comerciantes como Butagarian e autoridades locais corruptas fazem o papel de antagonistas que não têm aura demoníaca: têm monopólio, influência e a certeza de que ninguém vai auditar o processo.

Eis uma verdade bellacosiana: o dragão pode destruir uma vila, mas quem controla estoque, taxa e informação consegue destruir dez sem usar uma unha.

O que este isekai tem de diferente?

Ele troca a fantasia do poder individual pela fantasia, bem mais rara, de ser tratado com dignidade no trabalho.

Uchimura não recebe uma espada que corta montanhas. Ele recebe confiança. E, ainda mais importante, aprende a devolver essa confiança ao time.

O anime também evita uma armadilha comum: não diz que toda habilidade corporativa é boa. Seu herói traz marcas de uma empresa tóxica; ele precisa desaprender a lógica de que sofrimento é prova de valor. A experiência dele serve quando vira empatia, planejamento e diplomacia — não quando vira exploração com estética de produtividade.

A diferença pode ser resumida assim:

Isekai de poder clássicoSalaryman Shitennō
“Sou especial porque fui escolhido”“Tenho algo útil porque vivi, errei e aprendi”
Vitória pela habilidade máximaVitória por diagnóstico, acordo e execução
Rei Demônio como inimigo finalRei Demônio como líder que reconhece pessoas
Aventura centrada no heróiProblemas resolvidos com comunidade e equipe
Status, nível e magiaConfiança, logística, política e gestão

Aventuras e as mensagens ocultas

1. A entrevista no outro mundo

O primeiro teste não é de combate: é de legitimidade. Uchimura enfrenta preconceito de cargo. Foi contratado “por cima”, logo precisa provar que não é indicação indevida.

A mensagem é ótima: quando alguém entra em uma equipe numa posição elevada, competência não basta. É preciso conquistar confiança sem humilhar quem já estava ali.

2. O problema da produção e do mercado

A obra mostra comunidades capazes de produzir, mas incapazes de transformar esforço em prosperidade porque faltam canal, informação, transporte ou acordo justo.

A mensagem não é “comércio resolve tudo”. É que trabalho sem acesso, sem organização e sem poder de negociação tende a enriquecer o intermediário mais forte.

3. Povos monstruosos, culturas diferentes

Uchimura não chega mandando ogros ou demi-humanos abandonarem quem são. Ele tenta entender quais valores são importantes para eles e só então desenha uma solução.

Aqui há uma pequena aula de mudança organizacional: transformação imposta de cima costuma virar resistência; transformação que respeita o grupo pode virar adesão.

4. Conflitos internacionais

A série trabalha diplomacia como algo mais difícil que vencer batalha. Acordo não é fazer todos saírem felizes; é fazer todos saírem com algo suficiente para não voltar à guerra amanhã.

Para quem conhece mainframe, é a diferença entre “o job terminou com RC=0” e “a cadeia inteira fechou, os arquivos estão consistentes e ninguém terá de reprocessar tudo na segunda-feira”.

5. O trauma do protagonista

O último movimento da temporada volta à questão essencial: Uchimura pode assumir uma responsabilidade maior sem repetir a vida que o destruiu?

A pergunta escondida não é “ele será rei?”. É “uma pessoa treinada por um ambiente ruim consegue voltar a desejar crescer sem achar que será punida por isso?”

Essa é a parte mais adulta da obra.

Temas centrais

  • Reconhecimento profissional sem bajulação.

  • Liderança que conhece talentos e limites.

  • Trabalho como ferramenta de comunidade, não só de status.

  • Diplomacia acima da força bruta.

  • Transformação cultural sem colonialismo disfarçado.

  • Trauma corporativo, síndrome do impostor e reconstrução de autoestima.

  • Relações entre chefe, equipe e responsabilidade.

O anime é leve, mas não é vazio. Ele brinca com o desejo muito japonês — e muito universal — de que alguém finalmente diga: “você trabalha bem; eu vejo isso”.

Qualidade, classificação e para quem funciona

Minha classificação Bellacosa seria 7,5/10.

Não é uma obra revolucionária em animação, nem entrega batalhas no nível de Mushoku Tensei, Frieren ou Re:Zero. A produção é funcional, por vezes econômica, e alguns conflitos têm resolução mais rápida do que mereciam.

Mas é um anime honesto, simpático e bem posicionado dentro do próprio escopo. Ele não promete épico de mil anos e depois entrega reunião de condomínio. Ele promete uma fantasia corporativa e cumpre: um protagonista experiente, um chefe bom, uma equipe estranha e problemas que não se resolvem gritando “mais poder”.

É recomendado para quem gosta de:

  • isekai com protagonista adulto e competente;

  • fantasia com economia, comércio e diplomacia;

  • romance leve, sem transformar tudo em harém;

  • humor de escritório;

  • histórias em que conversar é uma habilidade real;

  • obras como The Genius Prince’s Guide, Maoyuu ou episódios mais econômicos de Spice and Wolf.

Talvez frustre quem procura ação contínua, vilões puramente malignos ou o protagonista dominando o mundo por cheat skill.

Censura: houve corte ou polêmica?

Não há registro público relevante de censura específica do anime, de retirada de episódios ou de uma edição conhecida por cortes entre a transmissão japonesa e o lançamento internacional.

A série traz violência de fantasia, ameaças, guerra e um arco que envolve escravidão, mas não constrói seu apelo em gore, erotização extrema ou choque visual. O tratamento é relativamente contido para o padrão de fantasia noturna japonesa.

Portanto, o ponto correto não é “foi censurado”; é: a obra já nasceu mais moderada em tom e imagem. Caso uma plataforma aplique classificação indicativa diferente no Brasil, ela pode variar por política local — isso não significa que exista uma versão mutilada da série.

Manga, novel e games

Aqui existe um pequeno bug de catálogo que vale corrigir.

A obra não nasceu como light novel. Ela começou como trabalho de manga/web manga de Benigashira e ganhou a versão serializada ilustrada por Muramitsu no Comic Gardo, da Overlap. O autor, inclusive, declarou trabalhar como salaryman enquanto escrevia a história — o que ajuda a explicar por que as dores corporativas parecem observadas, não copiadas de uma lista de clichês. Equipe e comentários oficiais

Até setembro de 2026:

  • Manga: em publicação; pelo menos 12 volumes japoneses anunciados/publicados pela Overlap.

  • Light novel: não há linha principal de light novels conhecida da obra.

  • Anime: uma temporada de 12 episódios.

  • Game próprio: não há anúncio confiável de jogo dedicado, mobile game ou visual novel da franquia.

  • Áudio promocional: a produção teve o programa web Izakaya Radio, com os dubladores de Uchimura e Ulmandra, reforçando o humor de “bar depois do expediente”. Página oficial do programa

Impacto cultural: modesto em escala, certeiro no alvo

Não foi um fenômeno global que parou a internet, nem virou uma nova indústria de bonecos. Seu impacto é menor, porém específico: deu forma de fantasia a uma frustração muito reconhecível por adultos trabalhadores.

No Japão, o salaryman é um arquétipo cultural fortíssimo. O personagem não está só cansado; ele representa o trabalhador preso entre lealdade, hierarquia, medo de falhar e a sensação de que sua competência pode passar a vida inteira sem ser vista.

O Rei Demônio ser o chefe mais saudável da história é, ao mesmo tempo, piada e crítica social.

Em outras palavras: o anime pergunta por que tantos trabalhadores prefeririam receber uma proposta de emprego de um soberano demoníaco a continuar onde estão.

E, francamente, há muita gente que já teve uma segunda-feira suficiente para entender a resposta.

Veredito final

Sararīman ga Isekai ni Ittara Shitennō ni Natta Hanashi não é o isekai que vai derrubar o castelo com animação de cinema. É o isekai que chega com uma prancheta, conversa com o ogro, identifica o gargalo, desmonta a chantagem do fornecedor, organiza a operação e depois toma uma cerveja imaginária para processar o trauma.

Uchimura não é um herói porque pode matar um dragão. Ele é herói porque olha para uma crise e consegue enxergar pessoas, interesses, medos e saídas.

No Bellacosa Mainframe, ele seria o sujeito convocado para um incidente crítico às 2h da manhã sem conhecer o sistema — e que, em vez de fingir que sabe, reúne quem conhece, escuta o operador, protege o júnior, negocia a janela, recupera o serviço e deixa documentação para a próxima madrugada.

Isso, meus caros, é uma habilidade lendária.



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Lista (mais contemporânea) — 10 obras que tocam em deriheru / acompanhantes / fūzoku (2020–2025 — ou próximas) +18

 

Bellacosa Mainframe e as acompanhantes do job no anime

Lista (mais contemporânea) — 10 obras que tocam em deriheru / acompanhantes / fūzoku (2020–2025 — ou próximas)

Observação importante: nem todas mostram deriheru explicitamente; muitas exploram o mesmo universo (host clubs, aluguel de companhia, Kabukichō, exploração de artistas/ídolos). Indiquei curiosidades e comentários críticos para cada uma.


1) Kanojo, Okarishimasu / Rent-A-Girlfriend (彼女、お借りします)

  • Ano (adaptação): 2019 (1ª temporada) — continua com temporadas em 2022/2024.

  • Autor: Reiji Miyajima (mangá) — anime produzido por TMS Entertainment.

  • Por que entra na lista: foca num serviço moderno de aluguel de namorada (rental girlfriend) — conceito muito próximo de “companhia paga” (não é deriheru, mas compartilha a lógica comercial do afeto por contrato).

  • Curiosidade: franquia teve várias temporadas e grande atenção internacional; mostra os limites entre atuação profissional e sentimentos reais.

  • Dica / comentário: ótimo ponto de partida para entender como a cultura japonesa adapta a ideia de companhia paga de forma “aceitável” para TV. Wikipedia


2) Oshi no Ko (推しの子)

  • Ano: 2023 (anime; S2 2024; franquia ativa até 2025+)

  • Autores: Aka Akasaka & Mengo Yokoyari (mangá); anime recente de grande impacto.

  • Por que entra na lista: não é sobre deriheru, mas aborda indústria do entretenimento, exploração, e relações transacionais entre fãs/ídolos e o mercado, incluindo a sexualização e pressões que ligam fūzoku e show business.

  • Curiosidade: ganhou grande repercussão e prêmios; mostra os bastidores cruéis da fama.

  • Dica / comentário: leitura/assistir essencial para quem quer ver como a mercantilização do afeto é retratada na ficção contemporânea. Wikipedia


3) Case File nº221: Kabukichō (歌舞伎町シャーロック / Kabukichō Sherlock)

  • Ano: 2019–2020 (anime)

  • Autor / Prod.: Original, Production I.G.

  • Por que entra na lista: ambientado em Kabukichō, o famoso distrito noturno de Tóquio — o anime mostra o submundo onde casas de entretenimento, host/hostess e serviços de acompanhantes (incl. deriheru no ecossistema) convivem.

  • Curiosidade: mistura mistério e retratos de vida noturna; bom para entender o contexto urbano onde deriheru acontece.

  • Dica / comentário: procure episódios que mostram bares e clubes — ótima ambientação sociocultural. Wikipedia


4) Everyday Host Club (エブリデイ ホストクラブ) — curta adaptação anunciada

  • Ano: curta anime anunciada para 2025 (adaptação do mangá).

  • Por que entra na lista: trata diretamente do mundo dos host clubs (companhia paga, performance emocional) — o host/hostess é um parente próximo do deriheru no espectro do entretenimento pago.

  • Curiosidade: adaptação curta planejada para 2025; é uma obra recente que foca no cotidiano desse ofício.

  • Dica / comentário: acompanhar essa produção ajuda a ver como a indústria de companhia (não sexual) é romantizada/humanizada atualmente. Crunchyroll+1


5) Shinjuku Swan (新宿スワン) — adaptações posteriores e mídia relacionada

  • Ano (mangá): 2005–2013; adaptações em live-action e mídia continuada (mídia relacionada permanece relevante).

  • Autor: Ken Wakui

  • Por que entra na lista: clássico moderno sobre scouts (recrutadores) que traz uma visão explícita do mercado de acompanhantes e clubes noturnos de Kabukichō — sua narrativa influenciou obras recentes sobre o submundo.

  • Curiosidade: baseado em experiências de rua; muito referenciado quando se fala do lado negro do entretenimento noturno.

  • Dica / comentário: mesmo sendo início dos anos 2000, continua sendo leitura/visualização referencial para entender a indústria atual.


6) Títulos e OVAs adultos (curta lista) — obras que citam delivery health mais literalmente

Aviso: são produções de mercado adulto/nível erótico — não são animes TV-mainstream. Incluo para fins informativos caso queira buscar material que trate deriheru de forma explícita.

  • When I called for a delivery health girl, my friend came — existe registro de DVD/OVA comercial (produto listado em lojas especializadas online). É um exemplo direto de mídia que usa deriheru como premissa. zenplus.jp

  • Kusuriyubi / Delivery Health Island (OVA / 1st person) — vídeos/OVAs curtinhos encontrados em canais/lojas de nicho (ex.: uploads recentes no YouTube/lojas de DVDs). YouTube

Comentário: esses títulos aparecem em lojas especializadas (Akiba-style/mercados otaku) e são o principal meio onde deriheru é representado diretamente — mas são conteúdo adulto.


7) Titulos que trazem hostess/companheirismo em episódios recentes (2020–2024)

(coleção de séries que, mesmo não sendo centradas no tema, trazem episódios/recorrências de hostess, clubes e acompanhantes):

  • Tokyo Revengers (2019→) — tem cenas de vida noturna e hostesses em arcos urbanos.

  • Kotaro Lives Alone (2022) — tem episódios com personagens ligados ao entretenimento noturno.

  • Nota: esses animes ajudam a ver o cotidiano do cliente e a presença social dos clubes/serviços no Japão contemporâneo.

(estas referências são mais episódicas — procure episódios específicos sobre vida noturna).


8) Animes que tratam de “companhia por contrato” / enjo kōsai ou encontros pagos (2018–2023)

  • Scum’s Wish (Kuzu no Honkai) — 2017 (um pouco mais antigo, mas relevante) — trata relações transacionais e sexo sem afeto.

  • Nana (2006) e Colorful (2010) (filme) — continuam relevantes por sua abordagem humana do afeto comercializado (já citadas antes).
    Comentário: muitos títulos que discutem transação emocional foram lançados nos últimos anos em formas derivadas; procure nos catálogos de 2020–2024 por termos “compensated dating / enjo kōsai / hostess”.


9) Por que é difícil achar “animes sobre Deriheru (2020–2025)” explicitamente?

  • O tema é sensível para TV e plataformas mainstream (censura/standards).

  • Produções que tratam explicitamente deriheru tendem a ser OVAs/mercado adulto ou mangás não adaptados.

  • Quando aparece em TV, aparece disfarçado (host clubs, rental girlfriends, clubes noturnos) — portanto é necessário ler subtexto e contexto urbano para identificar. Japan Feelgood.com

Rokudou no Onna-tachi – A redenção através do caos feminino

Bellacosa Mainframe explica o rokudou no onna tachi

Rokudou no Onna-tachi – A redenção através do caos feminino

Ano de lançamento: 2023
Autor: Yuuji Nakamura
Gênero: Comédia, ação, vida escolar, sobrenatural

Sinopse:
Tousuke Rokudou é um garoto frágil e constantemente intimidado pelos valentões da escola. Um dia, ele herda de seu avô um pergaminho mágico com um feitiço antigo capaz de “proteger os justos”. No entanto, a magia tem um efeito peculiar: faz com que todas as mulheres de coração maligno se apaixonem perdidamente por ele. A partir daí, Rokudou passa a viver um cotidiano insano — cercado por delinquentes femininas que, entre brigas e paixões violentas, acabam transformando seu destino.

Resumo ao estilo Bellacosa:
Rokudou no Onna-tachi é um retrato exagerado e satírico da juventude japonesa rebelde, um mosaico de jaquetas de couro, cicatrizes emocionais e redenção inesperada. A história parece uma comédia bizarra, mas por trás dos socos e corações apaixonados há um questionamento sobre moralidade e transformação — até que ponto o bem precisa da força para ser ouvido?
Rokudou é o símbolo do idealista frágil em um mundo que premia o caos. Seu poder não é o da dominação, mas o da influência do afeto — mesmo que involuntário. À sua volta, delinquentes que vivem nas sombras da sociedade encontram nele o reflexo daquilo que nunca tiveram: alguém que as enxerga sem medo.

Personagens principais:

  • Tousuke Rokudou: o protagonista tímido e bondoso, que aprende a lidar com a atenção indesejada de garotas perigosas.

  • Rana Himawari: a mais temida e carismática delinquente, cuja força física contrasta com a pureza que Rokudou desperta nela.

  • Sayuri Osanada, Tsubaki e Azami: cada uma representa um arquétipo de rebeldia feminina — vaidade, lealdade, e fúria — canalizados de forma redentora.

  • Avô de Rokudou: a voz ancestral que recorda que o “bem” nem sempre é passivo — às vezes, precisa ser protegido com coragem e fé.

Mensagem filosófica:
O anime nos convida a pensar sobre o poder do olhar gentil em um mundo endurecido. A magia de Rokudou, que faz o mal se apaixonar pelo bem, é uma metáfora para o impacto transformador da empatia. Ele não vence as lutas — ele vence o ódio. No caos das ruas e nas cicatrizes das delinquentes, há um lembrete de que ninguém é totalmente perdido; basta um olhar sincero para reacender a humanidade que dorme dentro de cada um.

💭 “Rokudou no Onna-tachi” é o caos que se apaixona pela pureza — uma parábola moderna sobre a salvação que nasce onde ninguém mais acredita na bondade.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

🧭 Etapas do plano de conversa

 

Bellacosa mainframe e as etapas para conversar

🧭 Etapas do plano de conversa

☕ Antes de conversar, é preciso aprender a chegar

Conversar parece uma das coisas mais simples do mundo. Fazemos isso todos os dias: no café, no trabalho, dentro de casa, pelo telefone, no WhatsApp ou durante uma caminhada. Mas existe uma enorme diferença entre falar com alguém e realmente conseguir alcançar essa pessoa.

Principalmente quando percebemos que alguém próximo está cansado, frustrado, reclamando constantemente ou preso em situações que parecem se repetir.

Nessas horas surge uma tentação quase automática: oferecer a solução.

“Você precisa fazer isso.”

“Por que não muda aquilo?”

“Você deveria parar de…”

O problema é que aquilo que parece perfeitamente lógico para quem observa de fora pode soar como julgamento para quem está vivendo o problema por dentro.

E então acontece algo curioso: quanto mais tentamos ajudar, mais a pessoa se fecha.

Foi pensando nisso que organizei estas etapas para uma conversa.

Não se trata de um roteiro rígido, muito menos de tentar manipular alguém para que pense como nós. A ideia é justamente o contrário: criar condições para que a outra pessoa possa falar, organizar os próprios pensamentos e talvez enxergar possibilidades que antes estavam escondidas pelo cansaço, pela irritação ou pela rotina.

Existe também uma pequena lição de mainframe escondida nisso tudo.

Quem trabalha com sistemas críticos aprende cedo que não entra em produção alterando parâmetros aleatoriamente porque alguma coisa “parece errada”. Primeiro observamos. Depois coletamos evidências. Entendemos o contexto. Identificamos dependências. E somente então pensamos em alguma intervenção.

Com pessoas deveria existir o mesmo cuidado — talvez até muito mais.

Porque uma conversa mal iniciada pode levantar imediatamente o equivalente humano de um:

ICH408I — ACCESS DENIED.

Por isso, antes de tentar mudar qualquer coisa, talvez o primeiro passo seja muito mais simples:

sentar, tomar um café e aprender a ouvir.

A partir daí, podemos começar a conversar.

1. Escolher o momento certo

Evite conversar quando ela estiver:

  • reclamando de alguém,

  • tensa com o trabalho,

  • ou discutindo sobre as filhas.

Prefira momentos tranquilos, como:

  • tomando um café,

  • caminhando juntas,

  • depois de um comentário neutro (“Hoje o dia está puxado, né?”).

Objetivo: criar um clima de segurança emocional, sem parecer que você quer “corrigir” nada.


2. Começar com empatia, não com crítica

Evite iniciar com “você anda reclamando muito” ou “você precisa mudar”.

Comece validando o sentimento:

“Você tem passado por tanta coisa, né? Às vezes parece que o peso vai todo pro mesmo lado.”
“Eu fico pensando como deve ser difícil segurar tudo — trabalho, casa, filhas…”

Essas frases desarmam a defesa. Mostram que você entende a dor, não que vai julgá-la.


3. Introduzir reflexão sutil

Depois que ela desabafar um pouco, traga leveza e curiosidade:

“Quando você sai tanto, você sente que te faz bem ou mais te cansa?”
“O que costuma te deixar mais tranquila nesses dias mais cheios?”
“Tem algo que você gostaria de mudar na sua rotina, se pudesse?”

Essas perguntas ajudam a pessoa a se ouvir, sem parecer “psicologia barata”.


4. Oferecer alternativas sem impor

Quando perceber abertura, traga sugestões no formato “talvez…” ou “quem sabe…”:

“Talvez participar de um grupo diferente te fizesse bem. Tipo algo mais leve — arte, caminhada, voluntariado…”
“Quem sabe conversar com alguém neutro ajudasse, tipo um psicólogo ou até um grupo de apoio, né?”

Isso evita a resistência típica de quem ouve “você devia”.


5. Reforçar qualidades e propósito

O objetivo é que ela sinta valor pessoal, não culpa.

“Você tem uma energia que muita gente não tem. Só falta encontrar um lugar onde isso volte a te fazer bem.”
“Mesmo com tudo, você continua em movimento — isso mostra uma força enorme.”

Esses reforços mexem na autoestima — um ponto central para pessoas que vivem na insatisfação.


6. Fechar com proximidade e apoio

Encerre sempre com acolhimento, não conselho:

“Se quiser só conversar, me chama. Eu gosto de te ouvir, de verdade.”
“Você não precisa dar conta de tudo sozinha, sabe? A gente pode ir encontrando jeitos juntos.”

Isso mantém a ponte aberta para futuras conversas.


💡 Dica geral

Essas pessoas não mudam rápido.
Mas pequenas interações repetidas com empatia podem, aos poucos, mudar o tom geral: menos crítica, mais confiança, mais abertura.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

IBM: Uma Odisseia de 1911 à Inteligência Artificial Quando um Programador COBOL Descobre que o Mainframe Não é um Monólito Esquecido,

 

Bellacosa Mainframe e uma odisseia da IBM

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

IBM: Uma Odisseia de 1911 à Inteligência Artificial

Quando um Programador COBOL Descobre que o Mainframe Não é um Monólito Esquecido, mas o Computador de Bordo de uma Civilização Digital

No princípio, não havia nuvem.

Não havia Kubernetes, APIs REST, modelos fundacionais, agentes de inteligência artificial ou pipelines de integração contínua. Não existiam smartphones, redes sociais nem reuniões em que alguém dissesse, com absoluta convicção, que bastava “colocar tudo na cloud”.

Havia papel.

Havia engrenagens.

Havia cartões perfurados.

Havia máquinas eletromecânicas que contavam, classificavam e registravam informações com uma disciplina quase alienígena para uma sociedade que ainda descobria como administrar grandes volumes de dados.

Em 1911, diferentes empresas de tecnologia de registro e processamento foram reunidas em uma organização que, alguns anos depois, adotaria o nome International Business Machines: IBM.

Mais de um século se passou.

A humanidade pousou na Lua, construiu redes globais, criou computadores de bolso, armazenou bilhões de documentos em centros de dados e começou a conversar com inteligências artificiais. Durante todo esse percurso, a IBM não permaneceu imóvel como um artefato abandonado em órbita.

Ela se transformou.

Mudou de máquinas de tabulação para computadores eletrônicos. De computadores isolados para famílias compatíveis. De hardware para software. De software para serviços. De serviços para consultoria. De data centers fechados para nuvem híbrida. De sistemas determinísticos para inteligência artificial empresarial.

E, no centro dessa odisseia, permanece uma plataforma que muitos consideraram antiga, mas que continua processando algumas das operações mais importantes da civilização moderna:

o mainframe IBM Z.

Para um programador COBOL iniciante, compreender o chamado “Império IBM” é perceber que seu programa não vive sozinho dentro de uma tela verde. Ele faz parte de uma nave gigantesca, composta por infraestrutura, sistemas operacionais, bancos de dados, mensageria, segurança, automação, nuvem híbrida, consultoria e inteligência artificial.

Aperte os cintos.

O café está servido.

A viagem vai começar.


Capítulo I — O monólito de 1911

Imagine um jovem programador observando um enorme monólito negro.

Ele não sabe exatamente para que serve. Apenas percebe que aquela estrutura representa alguma coisa antiga, poderosa e fundamental.

A IBM ocupa posição semelhante na história da computação.

Ela não inventou todos os computadores, todas as linguagens ou todos os sistemas operacionais. Entretanto, participou de algumas das mudanças que definiram como a computação empresarial seria construída.

Antes dos computadores eletrônicos, grandes organizações precisavam processar censos, folhas de pagamento, estoques, seguros e registros financeiros. Fazer isso manualmente exigia milhares de pessoas e produzia atrasos gigantescos.

As máquinas de tabulação ajudaram a mecanizar esse trabalho.

Os dados eram representados por perfurações em cartões. Cada posição do cartão possuía significado. Um furo poderia representar um número, uma letra ou uma categoria.

Para um programador COBOL, esse detalhe histórico não é apenas uma curiosidade.

A preocupação quase obsessiva do mainframe com formatos, posições e estruturas de dados nasceu nesse universo. Quando você encontra um arquivo com registros de comprimento fixo, campos posicionais e códigos cuidadosamente definidos, está vendo uma descendência direta daquela forma de processamento.

Um registro como:

00012345VAGNER BELLACOSA        00000125000A

pode parecer primitivo, mas carrega uma filosofia poderosa:

  • cada campo possui posição definida;

  • cada byte possui significado;

  • cada registro segue um contrato;

  • qualquer desvio pode ser detectado.

No COBOL, essa estrutura poderia ser descrita assim:

01  REGISTRO-CLIENTE.
    05 CLIENTE-ID          PIC 9(8).
    05 CLIENTE-NOME        PIC X(25).
    05 CLIENTE-SALDO       PIC 9(9)V99.
    05 CLIENTE-STATUS      PIC X.

Não é apenas uma declaração de variáveis.

É o mapa estrutural de uma informação de negócio.

O primeiro ensinamento da odisseia IBM é este:

Antes de existir inteligência artificial, já existia a necessidade de representar corretamente a realidade.


Capítulo II — O System/360 e a grande mudança de órbita

Durante os primeiros anos da computação eletrônica, muitos computadores eram incompatíveis entre si.

Uma empresa comprava uma máquina. Depois, ao adquirir um modelo maior, descobria que seus programas precisavam ser reescritos. O hardware, o sistema operacional, os dispositivos e os formatos podiam mudar completamente.

Era como construir uma nave cuja tripulação precisasse reaprender todas as operações sempre que o motor fosse substituído.

Em 1964, a IBM apresentou o System/360.

O nome não era casual. A ideia era oferecer uma família de computadores capaz de atender a um círculo completo de necessidades empresariais e científicas.

Modelos menores e maiores deveriam compartilhar princípios arquitetônicos. O cliente poderia crescer sem abandonar todo o seu investimento em software.

Essa foi uma mudança profunda.

O valor já não estava apenas na máquina. Estava na compatibilidade, na continuidade e no ecossistema.

Para o programador COBOL iniciante, isso explica por que aplicações escritas décadas atrás ainda podem continuar relevantes. Elas não sobreviveram por acidente. Sobreviveram porque foram construídas em uma plataforma que valoriza compatibilidade.

Isso não significa que o mesmo executável de 1965 esteja rodando sem alterações em 2026. Significa que a arquitetura evoluiu tentando preservar investimentos, linguagens, dados e comportamentos.

O COBOL foi padronizado no final dos anos 1950 e se tornou uma linguagem fundamental para aplicações comerciais. Sua sintaxe foi pensada para expressar regras empresariais de forma relativamente legível:

IF SALDO-DISPONIVEL >= VALOR-SOLICITADO
    PERFORM AUTORIZAR-TRANSACAO
ELSE
    PERFORM RECUSAR-TRANSACAO
END-IF

Esse código não descreve pixels, animações ou jogos.

Ele descreve uma decisão de negócio.

É por isso que COBOL permaneceu importante em bancos, seguradoras, governos, indústrias e grandes corporações. O coração dessas organizações não é composto apenas por telas modernas. É composto por regras.

Quem pode receber?

Quanto deve pagar?

Qual contrato está vigente?

Qual taxa será aplicada?

A transação é válida?

O COBOL vive onde a organização transforma regras em execução.


Capítulo III — IBM Z: o computador de bordo da economia

Na imagem do “Império IBM”, a área de infraestrutura apresenta IBM Z, Power Systems, Storage e software z/OS.

Para quem está começando, é comum pensar que IBM Z é apenas um servidor muito grande.

Essa definição é insuficiente.

O IBM Z é uma plataforma desenvolvida para cargas de trabalho empresariais críticas. Seu objetivo não é somente executar programas rapidamente. É executar volumes gigantescos de trabalho com segurança, previsibilidade, isolamento e alta disponibilidade.

Pense em um banco durante um dia comum.

Milhões de clientes:

  • consultam saldos;

  • usam cartões;

  • fazem transferências;

  • pagam contas;

  • recebem salários;

  • sacam dinheiro;

  • contratam empréstimos;

  • acessam aplicativos;

  • realizam operações empresariais.

Cada ação pode atravessar diferentes componentes.

Uma transferência, por exemplo, pode envolver:

  1. autenticação do usuário;

  2. validação da conta;

  3. verificação de saldo;

  4. análise de limites;

  5. prevenção contra fraude;

  6. registro contábil;

  7. atualização de dados;

  8. geração de mensagens;

  9. auditoria;

  10. comunicação com outros sistemas.

Tudo isso precisa acontecer sem duplicar valores, perder registros ou deixar o saldo em estado inconsistente.

Em um sistema crítico, “quase correto” é completamente errado.

O papel do z/OS

O z/OS é o principal sistema operacional da plataforma IBM Z.

Mas chamá-lo apenas de sistema operacional também simplifica demais sua função. Ele coordena um vasto ecossistema de processamento.

Dentro dele encontramos tecnologias como:

  • JES2, responsável pelo gerenciamento de trabalhos batch;

  • CICS, voltado ao processamento transacional online;

  • Db2, banco de dados relacional;

  • IMS, plataforma transacional e banco hierárquico;

  • IBM MQ, mensageria confiável;

  • RACF, segurança e controle de acesso;

  • DFSMS, gerenciamento de armazenamento;

  • WLM, gerenciamento inteligente de cargas;

  • SMF, registros de atividade e auditoria;

  • USS, ambiente UNIX dentro do z/OS.

Cada componente é como um subsistema da nave.

O programador COBOL normalmente não controla tudo isso diretamente, mas seu programa interage com essas áreas.

Um batch COBOL pode ser iniciado por JCL, ler um arquivo VSAM, consultar uma tabela Db2, produzir um relatório e gerar informações para outra aplicação.

Um programa online pode ser chamado pelo CICS, receber uma solicitação, consultar dados e responder em frações de segundo.


Capítulo IV — Batch e CICS: os dois ritmos da nave

No mainframe, dois modelos de processamento aparecem frequentemente: batch e online.

Processamento batch

Batch é o processamento de conjuntos de trabalhos.

Imagine o fechamento financeiro de uma empresa. Durante a noite, milhares de registros precisam ser consolidados. Juros devem ser calculados, extratos produzidos e arquivos enviados.

Um JCL poderia iniciar o programa:

//FECHAMENTO JOB (ACCT),'BELLACOSA',CLASS=A,MSGCLASS=X
//STEP01     EXEC PGM=CBLFECHA
//ENTRADA    DD DSN=BANCO.MOVIMENTO.DIARIO,DISP=SHR
//SAIDA      DD DSN=BANCO.RELATORIO.FECHAMENTO,
//              DISP=(NEW,CATLG,DELETE),
//              SPACE=(CYL,(10,5)),
//              DCB=(RECFM=FB,LRECL=200,BLKSIZE=0)
//SYSOUT     DD SYSOUT=*

Aqui, cada declaração ajuda o sistema a localizar programas, arquivos e saídas.

O batch é excelente para processar grandes volumes de forma controlada.

Processamento online com CICS

Já o CICS trabalha com transações interativas.

Quando um cliente consulta uma conta, não pode esperar o fechamento noturno. A resposta precisa ocorrer imediatamente.

O CICS gerencia:

  • execução de transações;

  • concorrência;

  • comunicação;

  • recuperação;

  • recursos;

  • controle de tarefas;

  • integração com bancos e filas.

Para o iniciante, a diferença essencial é:

  • o batch processa conjuntos de trabalho;

  • o CICS responde a solicitações individuais em tempo quase imediato.

A organização moderna precisa dos dois.

O online recebe os eventos do dia.

O batch consolida, reconcilia, calcula e fecha os ciclos.


Capítulo V — O IBM Z não está sozinho no espaço

Um dos grandes equívocos sobre mainframes é imaginar que eles ficam isolados em uma sala, comunicando-se apenas com terminais antigos.

Isso não corresponde à realidade atual.

Aplicações COBOL podem participar de arquiteturas modernas por meio de APIs, mensageria, eventos, integração com nuvem e automação.

z/OS Connect

O z/OS Connect permite expor ativos do mainframe como APIs REST e também facilitar o consumo de serviços externos.

Imagine que uma empresa possui um programa COBOL confiável para calcular condições de financiamento.

Em vez de reescrever toda a regra em outra linguagem, a organização pode disponibilizá-la por meio de uma API.

Um aplicativo móvel envia:

{
  "cliente": 123456,
  "valor": 50000,
  "parcelas": 48
}

A camada de integração transforma a solicitação, chama o programa no mainframe e devolve uma resposta:

{
  "aprovado": true,
  "taxa": 1.79,
  "valorParcela": 1548.32
}

O usuário vê um aplicativo moderno.

Por trás da interface, o cálculo pode ser realizado por uma regra COBOL testada durante anos.

Modernização, portanto, não significa obrigatoriamente apagar o passado. Significa tornar ativos existentes acessíveis, governáveis e integrados.

IBM MQ

O IBM MQ permite a troca confiável de mensagens entre aplicações.

Em vez de o sistema A depender de uma resposta instantânea do sistema B, ele pode colocar uma mensagem em uma fila.

Por exemplo:

PEDIDO DE PAGAMENTO
        |
        V
FILA MQ
        |
        V
PROCESSADOR COBOL
        |
        V
FILA DE RESULTADO

Se o processador estiver temporariamente indisponível, a mensagem pode permanecer na fila até ser tratada.

Isso reduz acoplamento e aumenta resiliência.


Capítulo VI — Red Hat: o corredor entre mundos

A aquisição da Red Hat representou uma mudança estratégica na trajetória da IBM.

A IBM percebeu que o futuro empresarial não estaria em uma única nuvem ou em um único data center.

As organizações teriam ambientes mistos:

  • mainframes;

  • servidores distribuídos;

  • nuvens públicas;

  • nuvens privadas;

  • sistemas de borda;

  • aplicações antigas;

  • microsserviços;

  • contêineres.

Esse cenário é chamado de nuvem híbrida.

Red Hat Enterprise Linux

O Red Hat Enterprise Linux fornece uma base Linux corporativa para aplicações empresariais.

Linux também pode ser executado em plataformas IBM Z, permitindo que workloads Linux convivam próximos aos dados e serviços do mainframe.

OpenShift

O OpenShift é uma plataforma empresarial baseada em Kubernetes.

Kubernetes orquestra contêineres. Ele ajuda a distribuir, reiniciar, escalar e gerenciar aplicações.

O OpenShift acrescenta recursos corporativos de:

  • segurança;

  • desenvolvimento;

  • operação;

  • observabilidade;

  • automação;

  • governança;

  • integração.

Imagine uma aplicação de seguros.

O cálculo central permanece em COBOL no z/OS.

Uma camada Java executa no OpenShift.

Um aplicativo web utiliza JavaScript.

Um modelo de IA analisa documentos.

O IBM MQ integra etapas assíncronas.

Tudo isso compõe uma única solução de negócio.

Ansible Automation Platform

O Ansible automatiza tarefas operacionais.

Em vez de um profissional realizar manualmente dezenas de comandos, um playbook descreve o estado desejado.

Exemplo conceitual:

- name: Implantar aplicação COBOL
  hosts: zos
  tasks:
    - name: Copiar fonte
      zos_copy:
        src: programa.cbl
        dest: USER.COBOL.SOURCE(PROGRAMA)

    - name: Executar compilação
      zos_job_submit:
        src: USER.JCL(COMPILA)
        location: DATA_SET
        wait_time_s: 120

O valor não está apenas em economizar digitação.

A automação oferece repetibilidade.

O mesmo procedimento pode ser executado em desenvolvimento, teste e produção, respeitando controles e aprovações.

É como substituir uma sequência improvisada de botões por um protocolo de voo documentado.


Capítulo VII — watsonx: quando a nave começa a conversar

A inteligência artificial se tornou uma das grandes prioridades da IBM.

O watsonx representa uma plataforma voltada à criação, operação e governança de soluções de IA empresarial.

O ponto mais importante é a palavra empresarial.

Uma demonstração de IA pode gerar um poema ou resumir um texto. Uma IA usada por um banco precisa atender outras exigências:

  • proteger dados;

  • explicar decisões;

  • registrar versões;

  • controlar acessos;

  • evitar vazamento de informações;

  • monitorar resultados;

  • respeitar regulamentações;

  • identificar desvios;

  • permitir auditoria.

IA generativa no ambiente corporativo

Imagine uma equipe de suporte mainframe.

Durante um incidente, ela recebe:

  • mensagens de ABEND;

  • logs do JES;

  • registros do CICS;

  • consultas Db2;

  • documentação operacional;

  • históricos de incidentes.

Uma solução com IA poderia reunir esses materiais e ajudar a responder:

  • Qual componente provavelmente falhou?

  • Já ocorreu incidente semelhante?

  • Qual procedimento foi usado?

  • Quais riscos existem?

  • Quem deve ser acionado?

A IA não deveria executar mudanças críticas sem controles. Ela atuaria como copiloto.

E aqui encontramos um belo paralelo com 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Um sistema inteligente pode ser extremamente útil, mas precisa possuir objetivos claros, governança e limites.

O problema não é somente construir uma máquina capaz de responder.

É garantir que ela responda dentro das regras da missão.

Easter egg nº 1

Em vez de perguntar:

“HAL, abra a porta do compartimento.”

O operador mainframe talvez diga:

“RACF, autorize o acesso ao dataset.”

E o RACF responderá, metaforicamente:

“Sinto muito, operador. Seu usuário não possui a permissão necessária.”

Diferentemente do cinema, essa recusa é uma excelente notícia.


Capítulo VIII — Apptio: quanto custa manter a nave em órbita?

Em grandes organizações, tecnologia envolve custos difíceis de compreender.

Uma aplicação pode utilizar:

  • processamento de mainframe;

  • armazenamento;

  • licenças;

  • nuvem pública;

  • clusters OpenShift;

  • serviços de consultoria;

  • suporte;

  • redes;

  • bancos de dados.

A Apptio ajuda a relacionar despesas tecnológicas com serviços e resultados empresariais.

Considere uma aplicação de cartões.

O gestor deseja saber:

  • Quanto custa processar cada transação?

  • Qual ambiente consome mais recursos?

  • A migração reduziu custos?

  • O crescimento de consumo corresponde ao crescimento do negócio?

  • Qual produto utiliza determinada infraestrutura?

Sem visibilidade financeira, a empresa pode tomar decisões ruins.

Ela pode tentar remover um sistema considerado caro e descobrir tarde demais que ele processava milhões de operações com eficiência.

Custo absoluto não é suficiente.

É preciso avaliar custo por unidade de trabalho, risco, disponibilidade, segurança e impacto empresarial.

Um mainframe pode parecer caro como equipamento, mas ser competitivo quando analisado pelo volume de transações, pela consolidação e pela confiabilidade oferecida.


Capítulo IX — IBM Consulting: os arquitetos da missão

Tecnologia sozinha não transforma uma empresa.

Comprar servidores, contratar uma nuvem ou instalar uma plataforma de IA não resolve automaticamente processos ruins.

É aí que entra a IBM Consulting.

Ela trabalha com estratégia, transformação de negócios, implantação tecnológica e operações.

Imagine uma seguradora com centenas de sistemas.

A direção quer permitir que um sinistro seja analisado em minutos.

O problema não será resolvido apenas com um novo aplicativo.

Será necessário entender:

  1. como o processo funciona hoje;

  2. quais departamentos participam;

  3. quais dados são necessários;

  4. quais sistemas contêm esses dados;

  5. quais regras devem ser preservadas;

  6. quais etapas podem ser automatizadas;

  7. onde a IA pode ajudar;

  8. quais decisões exigem revisão humana;

  9. como monitorar erros;

  10. como medir o resultado.

A consultoria ajuda a organizar essa jornada.

Depois, especialistas podem implementar:

  • integrações;

  • APIs;

  • plataformas;

  • automações;

  • modelos de dados;

  • processos operacionais;

  • controles de segurança.

Para um programador COBOL, isso ensina que uma alteração de código nunca existe isoladamente.

A solicitação “adicione um campo” pode envolver:

  • copybooks;

  • arquivos;

  • telas;

  • tabelas;

  • relatórios;

  • interfaces;

  • mensagens;

  • programas consumidores;

  • documentação;

  • testes;

  • auditoria.

O código é apenas uma parte da missão.


Capítulo X — IBM Research e Quantum: o próximo monólito

A IBM mantém uma longa tradição de pesquisa.

Nem toda pesquisa produz um produto imediato. Algumas investigações levam anos até se tornarem úteis comercialmente.

É nesse ambiente que aparecem avanços relacionados a:

  • semicondutores;

  • materiais;

  • armazenamento;

  • inteligência artificial;

  • criptografia;

  • computação quântica.

Computação quântica

Computadores quânticos não são mainframes mais rápidos.

Eles operam com princípios diferentes e são estudados para categorias específicas de problemas.

Possíveis áreas de aplicação incluem:

  • simulação molecular;

  • descoberta de materiais;

  • otimização;

  • pesquisa científica;

  • problemas matemáticos especializados.

Eles não substituirão o COBOL no fechamento bancário da próxima madrugada.

Um programa quântico não será chamado para imprimir um extrato ou atualizar um cadastro.

A expectativa mais realista é de cooperação entre diferentes arquiteturas:

  • computadores clássicos executam o fluxo empresarial;

  • aceleradores tratam cargas de IA;

  • sistemas quânticos investigam problemas específicos;

  • mainframes preservam dados e transações críticas.

Cada tecnologia ocupa um papel.

Nenhuma nave utiliza o motor principal para preparar o café da tripulação.


Capítulo XI — Um passo a passo para o iniciante compreender o ecossistema

Ao observar todas essas tecnologias, um programador iniciante pode sentir que precisa aprender tudo ao mesmo tempo.

Não precisa.

A jornada pode ser dividida em órbitas.

Primeira órbita: fundamentos do COBOL

Aprenda:

  • divisions;

  • níveis de dados;

  • cláusula PIC;

  • condições;

  • PERFORM;

  • tabelas;

  • arquivos;

  • tratamento de códigos de retorno.

Pratique programas pequenos.

IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. ODYSSEY1.

DATA DIVISION.
WORKING-STORAGE SECTION.

01  WS-VALOR-A       PIC 9(5) VALUE 100.
01  WS-VALOR-B       PIC 9(5) VALUE 250.
01  WS-TOTAL         PIC 9(6).

PROCEDURE DIVISION.
    ADD WS-VALOR-A WS-VALOR-B
        GIVING WS-TOTAL

    DISPLAY 'TOTAL DA MISSAO: ' WS-TOTAL

    STOP RUN.

Segunda órbita: JCL e batch

Aprenda:

  • JOB;

  • EXEC;

  • DD;

  • DISP;

  • datasets;

  • SYSOUT;

  • códigos de retorno;

  • leitura de spool.

O objetivo é entender como seu programa chega até o processador e como localizar sua saída.

Terceira órbita: dados

Estude:

  • arquivos sequenciais;

  • VSAM;

  • Db2;

  • chaves;

  • índices;

  • transações;

  • commit e rollback.

Um programa empresarial existe para manipular dados de negócio. Sem compreender os dados, você estará navegando sem mapa estelar.

Quarta órbita: ambiente online

Conheça o CICS:

  • transações;

  • programas;

  • COMMAREA;

  • canais e containers;

  • mapas BMS;

  • códigos de resposta;

  • pseudo-conversação.

Quinta órbita: integração

Avance para:

  • IBM MQ;

  • APIs;

  • JSON;

  • z/OS Connect;

  • eventos;

  • serviços.

Nesse ponto, você começará a enxergar o mainframe como participante de uma arquitetura distribuída.

Sexta órbita: automação e DevOps

Explore:

  • Git;

  • pipelines;

  • testes automatizados;

  • Ansible;

  • ferramentas modernas de desenvolvimento;

  • implantação controlada.

O objetivo não é abandonar ISPF. É saber trabalhar em mais de uma cabine de comando.

Sétima órbita: IA e observabilidade

Somente depois dos fundamentos, investigue:

  • IA generativa;

  • RAG;

  • agentes;

  • análise de logs;

  • governança;

  • monitoramento;

  • explicabilidade.

A inteligência artificial amplifica conhecimento. Ela não substitui fundamentos inexistentes.


Capítulo XII — Dicas do comandante Bellacosa

1. Não confunda antigo com obsoleto

Uma ponte construída há décadas pode continuar essencial se for mantida, reforçada e integrada à cidade.

O mesmo vale para aplicações.

Pergunte:

  • O sistema ainda oferece valor?

  • Ele é confiável?

  • Pode ser mantido?

  • Está documentado?

  • Pode ser integrado?

  • O risco é conhecido?

A idade, sozinha, não responde.

2. Leia mensagens como evidências

No mainframe, uma mensagem de erro raramente é mero ruído.

Observe:

  • código do ABEND;

  • step;

  • programa;

  • offset;

  • dataset;

  • return code;

  • mensagens anteriores;

  • contexto da execução.

O erro final pode ser apenas a última consequência de uma falha iniciada muito antes.

3. Respeite os contratos de dados

Alterar um PIC de X(10) para X(12) pode parecer simples.

Porém, a mudança pode afetar:

  • tamanho do registro;

  • copybook;

  • arquivo;

  • programa produtor;

  • programa consumidor;

  • tabela;

  • interface;

  • relatório.

Dois bytes podem iniciar uma viagem interplanetária de incidentes.

4. Automatize depois de compreender

Automatizar um processo ruim apenas permite que o erro aconteça mais rapidamente.

Primeiro entenda.

Depois padronize.

Só então automatize.

5. Faça perguntas de negócio

Não pergunte apenas:

“Qual linha deve ser alterada?”

Pergunte:

“Qual comportamento empresarial precisa mudar?”

Essa pergunta separa o digitador de código do engenheiro de sistemas.


Curiosidades encontradas durante a viagem

A IBM atravessou diferentes eras da computação e teve participação em inúmeros ambientes tecnológicos. Sua marca esteve ligada a tabulação, mainframes, armazenamento, pesquisa, inteligência artificial e serviços empresariais.

O nome “Big Blue”, usado informalmente para se referir à IBM, possui origem discutida. Algumas explicações relacionam o apelido à identidade visual azul da companhia; outras, aos grandes computadores e ao dress code tradicional de seus profissionais. Independentemente da origem exata, o nome se tornou parte do folclore tecnológico.

O mainframe moderno pode executar não apenas COBOL, mas também Java, C, C++, Python, assembler, PL/I e workloads Linux.

Isso significa que o computador que muitos imaginam preso aos anos 1970 pode participar de arquiteturas de APIs, contêineres, inteligência artificial e automação.

Outro detalhe interessante: em ambientes críticos, estabilidade não significa ausência de inovação.

Significa que a inovação precisa acontecer sem interromper a missão.

Trocar uma aplicação que processa milhões de operações não é como atualizar um aplicativo doméstico. A nova solução deve preservar dados, comportamentos, auditoria, desempenho e continuidade.

A dificuldade não está apenas em construir o novo.

Está em garantir que o novo compreenda tudo o que o antigo aprendeu.


Easter egg final — O verdadeiro HAL do mainframe

Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, HAL 9000 observa, conversa, interpreta e controla sistemas da nave.

No mainframe, não existe um único HAL.

Existe uma tripulação de subsistemas:

  • o JES recebe e organiza os trabalhos;

  • o WLM decide prioridades;

  • o RACF controla identidades;

  • o CICS gerencia transações;

  • o Db2 protege dados relacionais;

  • o MQ entrega mensagens;

  • o SMF registra o que aconteceu;

  • o z/OS coordena a missão.

Quando um job falha às 3h17 da manhã, o sistema deixa rastros.

A tarefa do programador é reconstruir a sequência.

O dataset foi encontrado?

O programa recebeu os parâmetros corretos?

O arquivo possuía o formato esperado?

A consulta retornou SQLCODE?

Houve falta de espaço?

O código de retorno de um step anterior foi ignorado?

Essa investigação é quase arqueologia espacial.

Cada mensagem é um fragmento.

Cada log é uma coordenada.

Cada dump é uma caixa-preta.


Conclusão — Além do infinito, existe produção

A IBM não permaneceu viva por mais de um século apenas por fabricar boas máquinas.

Ela sobreviveu porque mudou de forma diversas vezes.

De tabuladores para computadores.

De máquinas individuais para arquiteturas compatíveis.

De hardware para software.

De software para serviços.

De serviços para consultoria.

De data centers para nuvem híbrida.

De automação tradicional para inteligência artificial empresarial.

No entanto, existe uma linha que conecta todas essas eras:

o processamento confiável de informações importantes.

O IBM Z representa essa continuidade. O Red Hat OpenShift conecta ambientes. O Ansible automatiza operações. O IBM MQ transporta mensagens. O watsonx leva inteligência artificial ao mundo empresarial. A IBM Consulting ajuda a transformar estratégia em execução. O IBM Research investiga aquilo que ainda parece ficção científica.

Para o programador COBOL iniciante, a principal revelação é libertadora:

Você não entrou em um museu.

Você entrou em uma nave que está em operação há décadas, foi modernizada diversas vezes e continua viajando.

Seu primeiro programa talvez seja pequeno.

Talvez leia um arquivo, valide um campo e produza uma saída. Mas ele já ensinará os mesmos princípios que sustentam os grandes sistemas:

  • dados precisam de estrutura;

  • regras precisam de clareza;

  • erros precisam ser tratados;

  • resultados precisam ser verificáveis;

  • mudanças precisam ser controladas;

  • sistemas precisam conversar;

  • operações precisam deixar evidências.

A linguagem COBOL é apenas a primeira porta.

Depois dela existem JCL, CICS, Db2, VSAM, MQ, RACF, APIs, Linux, OpenShift, Ansible, cloud, IA e todo o ecossistema IBM.

Diante desse universo, o iniciante pode perguntar:

“Até onde essa jornada pode chegar?”

A resposta está piscando no painel da nave, em letras verdes:

READY

O mainframe está pronto.

A missão aguarda.

E, em algum lugar silencioso do data center, enquanto milhões de transações atravessam a madrugada, uma luz permanece acesa.

Não é o olho vermelho de HAL 9000.

É o indicador de um job que terminou com:

MAXCC=0000

Missão cumprida.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Übel Blatt : Quando o “vilão” voltou vinte anos depois para executar um DELETE nos heróis do Império

 

Bellacosa Mainframe e o anime ubel  blatt

☕ Bellacosa Anime

Übel Blatt

Quando o “vilão” voltou vinte anos depois para executar um DELETE nos heróis do Império

Há fantasias em que o protagonista precisa salvar o reino.

Há fantasias em que precisa derrotar o Rei Demônio.

E existe Übel Blatt, onde o sujeito olha para os monumentos dos grandes heróis nacionais e pensa:

“Eu conheço esses filhos da puta.”

Porque estava lá.

Porque lutou ao lado deles.

Porque foi traído por eles.

Porque foi assassinado por eles.

E, principalmente:

porque os homens celebrados como heróis construíram sua glória sobre os cadáveres daqueles que realmente cumpriram a missão.

É uma premissa extraordinariamente poderosa.



📜 Ficha técnica

Título: Übel Blatt
Título original: ユーベルブラット
Romanização: Yūberu Buratto
Autor: Etorouji Shiono
Gêneros: dark fantasy, ação, aventura, drama, vingança, seinen
Anime: 2025
Episódios: 12
Direção: Takashi Naoya
Roteiro/composição: Tatsuya Takahashi
Música: Shun Narita
Estúdios: Satelight × Staple Entertainment
Opening: Zainin, GARNiDELiA
Ending: Stella, Hina Tachibana

A equipe oficial confirma Satelight e Staple Entertainment na animação, Takashi Naoya na direção e Etorouji Shiono como autor da obra original. (Satelight)

A transmissão japonesa começou em 10 de janeiro de 2025, com distribuição mundial exclusiva pelo Prime Video. (TVアニメ『Übel Blatt~ユーベルブラット~』公式サイト)

Site oficial de Übel Blatt



⚔️ A história

Estamos no Império de Szaalanden.

Vinte anos antes dos acontecimentos principais, uma ameaça terrível surgiu: Wischtech, a chamada Terra das Sombras.

O imperador reuniu 14 guerreiros e os enviou em uma missão praticamente suicida.

A versão posteriormente ensinada pelo Império ficou mais ou menos assim:

14 GUERREIROS
     |
     +---- 3 morreram durante a jornada
     |
     +---- 4 traíram o Império
     |
     +---- 7 completaram a missão
                |
                V
          SETE HERÓIS

Os sete sobreviventes retornaram triunfantes.

Estátuas.

Prestígio.

Terras.

Poder.

Histórias.

Praticamente viraram os santos fundadores daquela geração.

Só existe um pequeno problema.

A história oficial é uma fraude.

Os quatro chamados Traitorous Lances — Lanças da Traição — não traíram o Império.

Foram os sete futuros heróis que traíram seus companheiros para roubar a glória da missão. (Satelight)

E entre aqueles homens estava um dos maiores espadachins do Império:

Ascheriit

Ele deveria estar morto.

Não está.



🧝 Ascheriit tornou-se Köinzell

Ascheriit sobrevive à traição em condições monstruosas.

Ele consome carne de fada, sofre uma transformação e passa a possuir uma aparência juvenil.

Então desaparece.

Durante aproximadamente vinte anos.

Quando retorna:

Köinzell

nasceu.

Mas aqui existe uma sutileza fantástica.

Köinzell não é exatamente aquele arquétipo:

“Garoto misterioso extremamente poderoso.”

Por trás daquele corpo existe um veterano.

Um homem que participou da guerra.

Que conheceu pessoalmente aqueles que agora possuem estátuas.

Que viu amigos morrerem.

Que teve sua identidade destruída.

Portanto:

APARÊNCIA
   ↓
jovem

MEMÓRIA
   ↓
veterano

EXPERIÊNCIA
   ↓
mestre da espada

TRAUMA
   ↓
20 anos

OBJETIVO
   ↓
VINGANÇA

Essa diferença transforma completamente o personagem.


🗡️ Não é a história de um herói

É a história de alguém que pretende matar os heróis.

E esse é provavelmente o elemento mais interessante de Übel Blatt.

Imagine ser um cidadão daquele mundo.

Desde criança você aprende:

Os Sete Heróis salvaram nosso Império.

Existem monumentos.

Canções.

Livros.

Famílias nobres.

Instituições.

Talvez seu avô tenha contado histórias sobre eles.

Então aparece um pequeno sujeito de cabelos claros dizendo:

“Eles são assassinos.”

Quem você acredita?

No estranho?

Ou em vinte anos de História oficial?


🏛️ O verdadeiro inimigo é a memória

É aqui que Übel Blatt ultrapassa a simples fantasia de vingança.

Köinzell pode matar um homem.

Mas como ele mata uma narrativa?

Os Sete Heróis não passaram vinte anos sentados numa taverna esperando pelo protagonista.

Eles se transformaram em instituições.

Possuem soldados.

Seguidores.

Territórios.

Famílias.

Prestígio.

E, principalmente:

legitimidade.

A mentira virou verdade porque sobreviveu tempo suficiente.

Isso é excelente worldbuilding.


🧠 A documentação virou produção

E aqui entra nosso Bellacosa Mainframe.

Imagine um sistema em produção há vinte anos.

Na documentação está escrito:

      *------------------------------------------------*
      * SISTEMA CRIADO PELOS SETE HEROIS              *
      * SALVARAM O IMPERIO                             *
      *------------------------------------------------*

Então aparece Ascheriit:

      *------------------------------------------------*
      * NAO FOI EXATAMENTE ASSIM...                   *
      *------------------------------------------------*

😂

Só que ninguém acredita nele.

A documentação virou verdade operacional.

É quase como investigar um programa legado e encontrar:

1987 - JSMITH  - rotina criada
1992 - MBROWN  - correção cálculo
1998 - XPTO123 - ajuste emergencial
2004 - ABC009  - alteração legislação
2012 - ??????? - NÃO ALTERAR

Então alguém pergunta:

“Por que NÃO ALTERAR?”

Ninguém sabe.

O programador morreu.

O gerente aposentou.

A empresa terceirizada não existe.

Mas ninguém toca.

Übel Blatt apresenta algo parecido em escala imperial:

a mentira virou legado.


👑 Os Sete Heróis

Esse também é um acerto importante.

Eles não funcionam simplesmente como:

BOSS 1
BOSS 2
BOSS 3
BOSS 4
BOSS 5
BOSS 6
FINAL BOSS

O tempo modificou cada um deles.

Alguns construíram enormes estruturas políticas.

Outros foram consumidos pelos próprios defeitos.

Outros tentam justificar suas decisões.

E existe uma coisa profundamente humana nisso:

depois de vinte anos, o criminoso também escreveu para si uma versão confortável do crime.

A memória não permanece congelada.


👥 Os personagens

⚔️ Köinzell / Ascheriit

O centro absoluto da narrativa.

Espadachim excepcional, sobrevivente e homem carregando a identidade daquele que o mundo chama de traidor.

Sua grande contradição é maravilhosa:

o homem que busca justiça precisa agir como criminoso para alcançá-la.


🧚 Peepi

Inicialmente parece quase deslocada dentro daquela história brutal.

Mas personagens assim cumprem uma função importante.

Peepi funciona como contraste para Köinzell.

Ela permite enxergar que ainda existe alguma humanidade naquele homem dominado pela vingança.


⚔️ Ato

Uma personagem particularmente interessante porque sua relação com Köinzell evolui.

Ela ajuda a história a sair do esquema simples:

protagonista + NPC acompanhante.

Lealdade, perda, admiração e crescimento começam a entrar nessa relação.


🧔 Vid

Outro dos companheiros encontrados durante a jornada.

O grupo também serve para impedir que Köinzell vire simplesmente uma máquina ambulante de assassinatos.


👑 Glenn

Guarde esse nome.

Dentro da estrutura política da história, Glenn torna-se extremamente importante.

E Übel Blatt vai progressivamente mostrando que matar os Sete Heróis não significa necessariamente resolver aquilo que eles criaram.

Porque uma pessoa pode morrer.

Uma estrutura permanece.


🌍 O mundo de Übel Blatt

Aqui está algo que me interessa bastante nessa obra.

Existe memória histórica.

Os acontecimentos anteriores modificaram:

  • fronteiras;

  • classes sociais;

  • famílias;

  • instituições;

  • religião;

  • forças militares;

  • relações políticas;

  • reputações;

  • preconceitos.

O mundo não parece ter sido criado cinco minutos antes do protagonista aparecer.

E isso é justamente uma das diferenças entre uma fantasia interessante e aquele worldbuilding preguiçoso:

CIDADE
 ├── Guilda
 ├── Ferreiro
 ├── Taverna
 ├── Igreja
 └── Floresta com Slime LVL 2

😄

Aqui existe história.


🩸 A violência

Não estamos falando de Frieren.

Übel Blatt pertence à tradição de dark fantasy seinen.

O mangá especialmente apresenta violência gráfica, mutilações, crueldade, sexualidade e abuso.

E isso nos leva a uma questão importantíssima.


✂️ A censura/adaptação do anime

O anime não reproduziu integralmente o conteúdo adulto do mangá.

O diretor Takashi Naoya comentou decisões de remover material sexual explícito, e a adaptação também deixou de fora partes substanciais do começo da obra. (ComicBook.com)

Alguns arcos e antagonistas iniciais presentes no mangá foram pulados, o que ajuda a explicar uma sensação que vários espectadores tiveram:

“Parece que comecei a assistir no episódio 3.”

Não é apenas impressão.

Material anterior realmente ficou fora da adaptação. (ComicBook.com)

E isso produz um problema sério.

Não é simplesmente:

“tiraram putaria.”

Isso seria relativamente simples.

Ao eliminar arcos inteiros, também desaparecem elementos de:

caracterização + desenvolvimento + contexto + worldbuilding.

Por isso eu diria:

O anime é uma introdução a Übel Blatt.

O mangá é Übel Blatt.


📚 O mangá

E aqui temos uma história longa.

Etorouji Shiono começou Übel Blatt em 2004.

A obra principal terminou em 2019 e possui 24 volumes contando o Volume 0 — oficialmente apresentados como volumes 0 a 23. (TVアニメ『Übel Blatt~ユーベルブラット~』公式サイト)

Isso significa aproximadamente quinze anos de publicação.

Portanto, aqueles 12 episódios estão tentando abrir a porta para um universo muito maior.


😈 E existe Übel Blatt II

Essa foi uma bela surpresa.

A história voltou.

Übel Blatt II: Knights of the Fallen King

Übel Blatt II: Shiseru Ō no Kishidan

A continuação começou sua serialização em 24 de fevereiro de 2024. (Wikipedia)

Ela se passa um ano depois dos acontecimentos finais da obra original.

E aqui não vou estragar a brincadeira entrando nos detalhes, porque a própria descrição oficial da Square Enix contém spoilers gigantescos sobre quem sobrevive e qual é a situação política posterior. (Square Enix Magazine)

Mas existe uma coisa interessante conceitualmente:

Übel Blatt não termina necessariamente quando:

VINGANÇA = COMPLETA

Porque depois da vingança vem:

CONSEQUÊNCIAS

E isso é muito mais raro.


🎮 Games, novels e outras mídias

Übel Blatt nasceu essencialmente como mangá.

O coração da franquia continua sendo a obra de Etorouji Shiono, seguida pelo mangá Übel Blatt II e pela adaptação televisiva de 2025.

Não estamos diante de uma franquia estruturada originalmente como light novel → mangá → anime → gacha → RPG.

E acho isso perceptível.

A história possui muito mais DNA de mangá seinen dos anos 2000 do que de fantasia produzida segundo a fórmula atual das light novels.


🇩🇪 E por que “Übel Blatt”?

Aqui temos uma curiosidade ótima.

O nome é alemão.

Übel carrega sentidos como mau, maligno, desagradável.

Blatt literalmente pode significar folha, página ou lâmina dependendo do contexto; na obra, a interpretação de lâmina é particularmente pertinente. (Wikipedia)

Portanto algo próximo conceitualmente de:

Lâmina Maligna

E isso funciona lindamente porque depende do observador.

Para o Império:

Köinzell é a lâmina maligna.

Para Köinzell:

ele é a lâmina da justiça.


🧐 O que Übel Blatt tem de diferente?

Não é a vingança.

Histórias de vingança existem aos milhares.

O diferencial está em quem controla a História.

Ascheriit não perdeu apenas seus companheiros.

Perdeu:

seu nome.

sua honra.

sua biografia.

Os inimigos roubaram algo ainda mais profundo que sua vida:

roubaram sua versão dos acontecimentos.

E isso cria uma situação fascinante.


🏰 O monumento dos mortos errados

Imagine Köinzell entrando numa cidade.

Na praça existe uma gigantesca estátua.

Uma criança pergunta ao pai:

“Quem é aquele?”

O pai responde:

“Um dos grandes heróis que salvaram nosso povo.”

Köinzell olha.

Ele conheceu aquele homem.

Talvez tenha bebido com ele.

Lutado ao lado dele.

Confiado nele.

E depois recebido sua espada pelas costas.

Isso é muito mais poderoso do que simplesmente:

“Vou matar você porque matou minha família.”

Porque a sociedade inteira participa involuntariamente da humilhação.


🧩 A mensagem escondida

Para mim, uma das perguntas centrais de Übel Blatt é:

O que transforma alguém em herói?

Aquilo que fez?

Ou aquilo que foi registrado sobre o que fez?

Porque:

FATO
 ↓
TESTEMUNHAS
 ↓
REGISTRO
 ↓
PROPAGANDA
 ↓
EDUCAÇÃO
 ↓
MEMÓRIA COLETIVA
 ↓
VERDADE OFICIAL

Depois de algumas gerações:

VERDADE OFICIAL ≠ FATO

Mas quase ninguém vivo consegue perceber.

Isso vale para reinos fictícios.

Vale para empresas.

Vale para projetos de informática.

E vale absurdamente para sistemas legados.


💾 O programador que levou a culpa pelo ABEND

Imagine:

Produção cai.

Alguém modifica emergencialmente um programa COBOL.

O sistema volta.

O verdadeiro problema era outro.

Mas no relatório fica:

CAUSA:
ERRO NO PROGRAMA XPTO

RESPONSÁVEL:
BELLACOSA

😂

Trinta anos depois alguém encontra aquilo.

“Bellacosa derrubou produção em 1989.”

Só que Bellacosa talvez tenha sido justamente o sujeito que salvou produção.

Agora imagine que o gerente que escreveu o relatório foi promovido.

Depois virou diretor.

Depois ganhou prêmio.

Depois escreveu um livro:

Como salvei o CPD em 1989.

Pronto.

Temos Übel Blatt Mainframe Edition.


🧠 A vingança possui outro problema

Köinzell passou vinte anos definido pelos Sete Heróis.

Isso gera uma pergunta perigosíssima:

Quando matar o último deles, quem será Köinzell?

Vingança oferece propósito.

O problema aparece quando o propósito termina.

WHILE HEROI-TRAIDOR-EXISTE
    PERFORM VINGANCA
END-WHILE

Tudo certo.

Até:

HEROI-TRAIDOR-EXISTE = FALSE

Agora execute:

PERFORM VIDA

E descobre que ninguém escreveu essa rotina.


🩹 Trauma

Esse é outro ponto em que a premissa poderia render ainda mais.

Ascheriit não é simplesmente um guerreiro.

Ele é um sobrevivente de:

guerra + tentativa de assassinato + perda dos companheiros + mutilação da própria identidade + isolamento + vinte anos de obsessão.

Uma pessoa assim não deveria sair ilesa psicologicamente.

E mesmo quando a obra não explora tudo isso com a profundidade que poderia, essa camada permanece por baixo do personagem.


🎭 O herói tornou-se o monstro

E aqui Übel Blatt toca naquela ideia deliciosa da fantasia:

quem é o monstro depende de quem está contando a história.

Para os soldados do Império, Köinzell é assassino.

Para as famílias dos homens que ele mata, ele é um demônio.

Para os livros oficiais, é traidor.

Para nós:

sabemos o que aconteceu.

Isso coloca o espectador numa posição desconfortável.

Estamos torcendo para um serial killer de heróis nacionais.

E sabemos por quê.


🎨 O anime

Visualmente, o anime é competente, mas não alcança constantemente a brutalidade e a imponência que o material sugere.

Satelight possui uma história longa em animação, mas Übel Blatt foi uma coprodução com Staple Entertainment. A própria Satelight lista oficialmente a parceria. (Satelight)

O problema maior, para mim, não está no desenho.

Está no ritmo.

Doze episódios são pouco para uma história cujo maior patrimônio é justamente:

contexto.

Cortar contexto numa história sobre memória histórica é quase uma ironia involuntária.


⭐ Classificação Bellacosa

ElementoNota
Premissa⭐⭐⭐⭐⭐
Worldbuilding⭐⭐⭐⭐½
Protagonista⭐⭐⭐⭐½
Política⭐⭐⭐⭐½
Dark fantasy⭐⭐⭐⭐⭐
Personagens secundários⭐⭐⭐⭐
Anime como adaptação⭐⭐⭐½
Mangá⭐⭐⭐⭐⭐
Originalidade conceitual⭐⭐⭐⭐½
Potencial desperdiçado pelo anime💀💀💀💀

Anime: 7,5/10

Conceito/universo: 9/10

Mangá: recomendação fortíssima para quem gostar da premissa.


☕ Veredito Bellacosa

Übel Blatt parece uma história sobre vingança.

Não é apenas isso.

É uma história sobre legado.

Os Sete Heróis cometeram um crime.

Mas o crime mais interessante aconteceu depois.

Eles deixaram o sistema rodando por vinte anos.

//SEVENJOB JOB CLASS=A,MSGCLASS=X
//STEP01 EXEC PGM=PROPAGANDA
//HISTORY DD DSN=IMPERIO.HISTORIA.OFICIAL,
//           DISP=SHR

E funcionou perfeitamente.

A população acredita.

Os livros confirmam.

Os monumentos confirmam.

Os nobres confirmam.

Os soldados confirmam.

As crianças aprendem.

Então aparece um pequeno espadachim diante daquele gigantesco sistema legado.

Ele não possui documentação.

Não possui autoridade.

Não possui RACF.

Seu USER-ID foi revogado vinte anos atrás.

Seu registro diz:

ASCHERIIT
STATUS = TRAITOR

Ele olha para aquilo e responde:

MOVE 'FALSE' TO HISTORIA-OFICIAL.

E desembainha a espada.

Essa é a verdadeira beleza de Übel Blatt: o último sobrevivente não voltou apenas para matar sete homens.

Ele voltou para corrigir produção.

E o problema é que a mentira já estava em produção havia vinte anos. ☕⚔️ (Satelight)

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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