| Bellacosa Mainframe quando a magia da migração via ia do mainframe falha |
☕ O ABEND da Migração Mágica: Quando a IA Generativa Descobre que o Mainframe Não é Apenas um Arquivo COBOL
O Dia em que o Mercado Percebeu que o ChatGPT Não Conhece o Batch das 02h17
Existe um momento na carreira de todo profissional de Mainframe em que ele aprende uma lição importante.
A primeira é que JCL não foi criado para ser bonito.
A segunda é que ninguém documenta adequadamente um scheduler.
A terceira é que sempre haverá alguém chegando com um PowerPoint dizendo:
— Vamos aposentar o Mainframe em doze meses.
Nos últimos vinte anos ouvi essa frase tantas vezes quanto mensagens $HASP373, IEC161I ou aquele clássico telefonema de sexta-feira às 18h:
— Bellacosa, caiu a produção.
Recentemente, entretanto, surgiu um ingrediente novo nessa antiga receita corporativa.
A Inteligência Artificial Generativa.
E, junto dela, uma nova promessa digna dos antigos alquimistas digitais:
"Nossa IA converte milhões de linhas COBOL para Java automaticamente."
"Seu CICS vira microsserviços em poucos cliques."
"Seu VSAM agora é PostgreSQL."
"Seu batch vira Kubernetes."
"Seu legado desaparece em seis meses."
Foi justamente nesse contexto que a Gartner publicou uma análise que talvez represente um dos maiores banhos de água fria já aplicados no mercado de migração de Mainframe.
Segundo a consultoria, mais de 70% dos projetos de saída do Mainframe iniciados em 2026 não entregarão os benefícios esperados.
E o motivo é simples.
As pessoas estão superestimando o que a IA realmente sabe fazer.
E subestimando brutalmente o que um ambiente IBM Z realmente é.
O Maior Equívoco da Década: Achar que Mainframe é Apenas COBOL
Quando alguém diz:
— Temos cinquenta milhões de linhas COBOL.
Meu primeiro pensamento nunca é sobre COBOL.
Meu primeiro pensamento é:
Quantos schedulers existem?
Quantos GDGs?
Quantos catálogos?
Quantos exits?
Quantos produtos ISV?
Quantos jobs dependem de um único arquivo VSAM aberto em RLS?
Porque o código é apenas a ponta visível do iceberg.
Abaixo da linha d'água vivem criaturas muito mais antigas e perigosas.
CA-7.
Control-M.
ESP.
Zeke.
NetView.
RACF.
DFSMS.
SMF.
RMF.
MQ.
WLM.
CICSplex.
IMS.
DB2 Packages.
Plan Stability.
PassTickets.
SAF.
Exit routines escritas em Assembler por alguém que se aposentou em 2009 e hoje cultiva orquídeas em Campinas.
A IA consegue interpretar um trecho como:
IF SALDO > LIMITE
MOVE 'BLOQUEAR' TO ACAO
END-IF
Ela pode até gerar um Java elegante.
Mas dificilmente responderá perguntas como:
Por que esse programa executa apenas às terças-feiras?
Por que ele depende do fechamento do SMF?
Por que aguarda um arquivo SWIFT vindo da Bélgica?
Por que existe um passo IEBGENER aparentemente inútil?
Por que um job precisa terminar antes das 02h17?
E principalmente:
Quem será responsabilizado se o PIX parar durante duas horas?
O Conhecimento Tribal: A Tecnologia Mais Difícil de Migrar
Costumo dizer aos alunos do Bellacosa Mainframe:
O ativo mais caro de um banco não é o hardware.
Não é o software.
Nem mesmo os dados.
É o conhecimento acumulado por pessoas.
José está há trinta e dois anos na instituição.
Maria administra o RACF desde 1997.
Carlos conhece cada mensagem DFSxxxx de cabeça.
João sabe exatamente qual dataset pode ser apagado e qual causará um desastre regulatório.
Nenhum deles está em um repositório Git.
Nenhum deles está em um Wiki.
Nenhum deles aparece em um prompt.
Esse conhecimento mora na memória das pessoas.
E a IA não faz leitura telepática.
Ela apenas processa aquilo que recebeu.
Quando recebe documentação incompleta, devolve respostas incompletas.
Quando recebe caos, produz caos estatisticamente coerente.
O Marketing da Varinha Mágica Digital
Não tenho dúvidas.
Existe muita tecnologia impressionante surgindo.
Copilots.
Agentes autônomos.
Análise semântica.
Descoberta automática de dependências.
RAG.
Embeddings.
Vetorização.
Tudo isso possui enorme potencial.
Mas também estamos vivendo uma epidemia de apresentações corporativas.
Parece que alguns vendedores descobriram a Pedra Filosofal da Computação.
Basta enviar um ZIP contendo quarenta milhões de linhas COBOL.
E, algumas horas depois, nasce uma arquitetura nativa de nuvem.
Observabilidade pronta.
CI/CD configurado.
Microsserviços desacoplados.
Eventos Kafka.
Terraform.
OpenTelemetry.
Kubernetes.
Documentação impecável.
Testes automatizados.
Compliance.
Segurança.
Alta disponibilidade.
Tudo isso sem compreender uma única regra de negócio.
É quase uma versão tecnológica daquele vendedor de elixires do Velho Oeste.
Só que agora utilizando a palavra GenAI.
O Mainframe Continua Evoluindo
Enquanto parte do mercado tenta organizar funerais prematuros para o IBM Z, a IBM continua investindo bilhões de dólares na plataforma.
Hoje temos:
COBOL 6.x;
z/OS Connect;
OpenTelemetry;
Ansible;
Zowe;
Git integrado;
DevOps moderno;
API Economy;
Containers Linux on Z;
IA embarcada;
Criptografia acelerada por hardware;
Processadores especializados.
Ou seja.
O Mainframe não está parado.
O Mainframe está fazendo aquilo que sempre fez melhor.
Adaptando-se.
Em 1964 ele sobreviveu ao surgimento dos minicomputadores.
Nos anos 80 sobreviveu às workstations.
Nos anos 90 sobreviveu ao Client/Server.
Nos anos 2000 sobreviveu à internet.
Nos anos 2010 sobreviveu à cloud.
Nos anos 2020 provavelmente sobreviverá ao hype da IA Generativa.
Porque, no final das contas, bancos continuam precisando fechar o dia.
Companhias aéreas continuam emitindo passagens.
Governos continuam pagando benefícios.
Seguradoras continuam processando milhões de eventos.
E quase ninguém gosta quando esses sistemas param.
Talvez a Pergunta Esteja Errada
A pergunta nunca deveria ser:
"Como saímos do Mainframe?"
A pergunta correta talvez seja:
"Qual workload realmente precisa sair?"
Talvez um portal web de RH possa migrar.
Talvez um batch de impressão possa ser substituído.
Talvez um sistema satélite seja reescrito.
Mas talvez o motor central de compensação bancária deva permanecer exatamente onde está.
Porque engenharia não é religião.
Arquitetura não é ideologia.
Tecnologia não é torcida organizada.
A melhor plataforma é aquela que resolve o problema com menor risco, melhor disponibilidade, maior previsibilidade financeira e retorno sustentável.
Considerações Finais
Suspeito que a Gartner não esteja dizendo:
"Nunca migrem."
Também não está afirmando:
"Mainframe venceu."
A mensagem parece muito mais madura.
A IA Generativa será extraordinariamente útil para documentar, explicar, testar, modernizar e integrar aplicações existentes.
Mas ainda estamos distantes de confiar bilhões de dólares em transações financeiras a um modelo estatístico incapaz de compreender por que um velho JOB chamado FINA987 precisa começar precisamente às 02h17 da madrugada.
E talvez seja justamente aí que esteja a maior ironia desta década.
A tecnologia mais avançada da atualidade descobriu que o Mainframe nunca foi apenas COBOL.
Ele sempre foi memória institucional.
Processos.
Pessoas.
Histórias.
E algumas dezenas de milhares de linhas de JCL escritas por um Sysprog que provavelmente continua tendo razão.