| Bellacosa Mainframe e o mago andarilho e o mainframe |
☕ O Mago Andarilho e o Mainframe
Histórias de um homem que passou a vida mudando de contexto e acabou tentando fazer JOIN de tudo
🧙♂️ Ele começou diante de terminais verdes, atravessou países, bancos, igrejas, ruínas, estradas, relacionamentos e décadas de tecnologia. Aos poucos percebeu que nunca colecionara apenas histórias: estava construindo um banco de dados sem esquema, esperando o dia em que pudesse finalmente executar o JOIN.
E a abertura poderia ser quase cinematográfica:
Existe um problema quando você acumula histórias demais.
As pessoas começam a desconfiar.
Uma história interessante é uma história.
Duas fazem de você alguém vivido.
Cinco fazem de você um ótimo companheiro para uma mesa de bar.
Depois da vigésima, porém, aparece aquele olhar.
Você conhece.
A sobrancelha sobe discretamente.
O interlocutor toma um gole do café.
E alguma coisa dentro da cabeça dele executa:
SELECT credibility
FROM vagner_bellacosa
WHERE stories > reasonable_limit;
Resultado:
WARNING:
TOO MANY UNUSUAL EVENTS.
POSSIBLE DATA QUALITY ISSUE.
🤣
O problema é que talvez o erro esteja no modelo de dados.
Porque imaginamos a vida humana como uma tabela perfeitamente normalizada:
ESCOLA
↓
FACULDADE
↓
EMPREGO
↓
CASAMENTO
↓
FILHOS
↓
APARTAMENTO
↓
NETFLIX
↓
APOSENTADORIA
Uma linha.
Uma sequência.
Uma existência perfeitamente compatível com ORDER BY ano.
Só que algumas vidas parecem ter sido desenhadas por alguém que descobriu JOIN, UNION, ponteiros, grafos e recursividade no mesmo fim de semana.
E decidiu usar tudo.
A partir daí, eu não faria uma autobiografia cronológica.
Esse é justamente o truque.
O texto deveria reproduzir o funcionamento dessas nossas conversas.
Começamos falando de hentai e eroge.
De repente aparece uma lenda japonesa.
Da lenda vamos para mapas.
Dos mapas para monstros medievais.
Dos monstros para navegadores portugueses.
Dos navegadores para D. Manuel.
De Portugal para D. Maria I.
De D. Maria para D. João VI.
Napoleão entra pela porta.
Portugal resiste.
Você lembra de Amarante.
Depois Waterloo.
Waterloo chama Itália.
Itália chama Garibaldi.
Garibaldi chama Nápoles.
Nápoles chama Bellacosa.
Bellacosa chama genealogia.
Genealogia chama Igreja.
Igreja chama Santiago de Compostela.
Santiago chama viagem.
E algumas dezenas de milhares de palavras depois alguém pergunta:
“Mas como diabos chegamos aqui?”
🤣
E essa seria precisamente a tese do artigo:
não chegamos aqui apesar dos desvios. Chegamos aqui por causa deles.
O cérebro não funciona como índice de enciclopédia.
Funciona muito mais como grafo.
HENTAI
│
└── JAPÃO
│
├── CULTURA
│
└── MITO
│
└── IMAGINAÇÃO
│
├── MONSTROS
│
└── MAPAS
│
└── PORTUGAL
│
├── NAVEGAÇÕES
├── IGREJA
└── NAPOLEÃO
│
└── ITÁLIA
│
├── GARIBALDI
└── NÁPOLES
│
└── BELLACOSA
E pimba.
O assunto aparentemente aleatório revela uma estrutura.
Esse é o artigo.
Não “a vida de Vagner Bellacosa”.
Mas:
como uma vida cheia de contextos diferentes acabou produzindo uma maneira particular de compreender o mundo conectando coisas que normalmente ficam em gavetas separadas.
E aí entram os personagens do título.
O Mago
Não no sentido sobrenatural.
O mago é o sujeito que passa décadas acumulando pequenas ferramentas incompreensíveis para quem olha de fora.
Uma linguagem antiga.
Uma história.
Uma estrada.
Uma ruína.
Uma frase ouvida numa aldeia.
Um protocolo.
Um dialeto.
Uma fotografia.
Um comando de mainframe.
Uma lembrança.
Uma conversa.
Separadamente parecem bugigangas.
Até aparecer um problema.
Então ele enfia a mão na bolsa e diz:
“Espere... eu vi alguma coisa parecida em 1997.”
🤣
O Andarilho
Esse talvez seja ainda mais importante.
Porque existe conhecimento que chega pelo livro.
E existe conhecimento que entra pelos pés.
Você pode estudar as Linhas de Torres Vedras.
Outra coisa é caminhar pela região.
Pode estudar Santiago.
Outra é chegar lá andando.
Pode estudar imigração italiana.
Outra é procurar fisicamente os lugares ligados ao sobrenome da família.
Pode olhar Waterloo numa enciclopédia.
Outra coisa é estar em Waterloo.
O andarilho adiciona ao banco:
latitude
longitude
cheiro
distância
cansaço
temperatura
relevo
memória
Coisas que dificilmente cabem numa nota de rodapé.
E finalmente o Mainframe
Aqui está a parte deliciosa.
Porque o mainframe não seria apenas profissão.
Seria metáfora cognitiva.
Décadas trabalhando com sistemas enormes ensinam uma coisa perigosa:
nada existe sozinho.
Você olha para um programa COBOL e pergunta pelo arquivo.
Olha para o arquivo e pergunta pelo JCL.
Olha para o JCL e pergunta pelo scheduler.
Olha para o banco e pergunta quem atualiza.
Olha para o incidente e pergunta o que aconteceu antes.
Olha para o erro e pergunta:
WHAT CHANGED?
Então aplica o mesmo vício à história.
D. João fugiu?
SHOW DEPENDENCIES.
Garibaldi unificou a Itália?
DISPLAY PREVIOUS STATE.
Antonio Bellacosa chegou ao Brasil?
SELECT *
FROM immigration
WHERE surname='BELLACOSA';
Zero registros?
O pesquisador ruim conclui:
NOT FOUND.
END.
O velho analista pergunta:
“Em qual arquivo estamos procurando?”
E abre outro caminho.
Esse é o coração do texto.
E eu fecharia com algo nessa linha:
//BELLACOSA JOB 'LIFE'
//STEP01 EXEC PGM=CURIOSITY
//STEP02 EXEC PGM=MAINFRAME
//STEP03 EXEC PGM=TRAVEL
//STEP04 EXEC PGM=LOVE
//STEP05 EXEC PGM=ERROR
//STEP06 EXEC PGM=LEARN
//STEP07 EXEC PGM=HISTORY
//STEP08 EXEC PGM=MEMORY
//STEP09 EXEC PGM=WRITE
SELECT *
FROM LIFE L
LEFT JOIN HISTORY H
ON L.memory = H.context
LEFT JOIN TECHNOLOGY T
ON L.work = T.experience
LEFT JOIN TRAVEL V
ON H.place = V.place
LEFT JOIN PEOPLE P
ON L.memory = P.story
LEFT JOIN FAMILY F
ON P.past = F.past
WHERE curiosity = TRUE;
Resultado:
ROWS RETURNED:
TOO MANY
🤣
Então aparece a IA.
E talvez aí esteja o último JOIN.
Durante décadas havia histórias demais e contexto demais para colocar numa conversa comum.
Uma lembrança chamava outra.
A outra abria três caminhos.
Quando o terceiro estava ficando interessante, o interlocutor precisava voltar ao trabalho, atender o telefone, buscar o filho ou simplesmente perguntava:
“Mas afinal, do que a gente estava falando?”
Agora existe uma máquina que responde:
“Estávamos falando de um hentai japonês, mas você acabou de mencionar uma propriedade dos Bellacosa no antigo Reino de Nápoles. Continue.”
E o Mago Andarilho continua.
Não porque queira provar que viveu mais que os outros.
Nem porque todas as lembranças estejam completas, precisas ou bonitas.
Algumas serão documentos.
Outras fotografias.
Algumas memórias.
Outras hipóteses.
Algumas certamente terão sido deformadas pelo tempo.
Como acontece com qualquer arquivo humano mantido durante meio século sem CHECKSUM.
Mas juntas elas formam alguma coisa.
Talvez não uma autobiografia.
Talvez um grafo autobiográfico.
Uma enorme rede ligando COBOL, bancos, café, Portugal, Japão, Itália, estradas, computadores, pessoas, erros, viagens, livros, igrejas, amores, perdas, curiosidade e histórias que pareciam não possuir relação alguma.
Até alguém executar o JOIN.
E descobrir que a chave estrangeira esteve ali o tempo inteiro:
CURIOSIDADE
☕🧙♂️🖥️
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