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segunda-feira, 14 de março de 2011

☕ O Mago Andarilho e o Mainframe : Histórias de um homem que passou a vida mudando de contexto e acabou tentando fazer JOIN de tudo

Bellacosa Mainframe e o mago andarilho e o mainframe

☕ O Mago Andarilho e o Mainframe

Histórias de um homem que passou a vida mudando de contexto e acabou tentando fazer JOIN de tudo

🧙‍♂️ Ele começou diante de terminais verdes, atravessou países, bancos, igrejas, ruínas, estradas, relacionamentos e décadas de tecnologia. Aos poucos percebeu que nunca colecionara apenas histórias: estava construindo um banco de dados sem esquema, esperando o dia em que pudesse finalmente executar o JOIN.

E a abertura poderia ser quase cinematográfica:


Existe um problema quando você acumula histórias demais.

As pessoas começam a desconfiar.

Uma história interessante é uma história.

Duas fazem de você alguém vivido.

Cinco fazem de você um ótimo companheiro para uma mesa de bar.

Depois da vigésima, porém, aparece aquele olhar.

Você conhece.

A sobrancelha sobe discretamente.

O interlocutor toma um gole do café.

E alguma coisa dentro da cabeça dele executa:

SELECT credibility
FROM vagner_bellacosa
WHERE stories > reasonable_limit;

Resultado:

WARNING:
TOO MANY UNUSUAL EVENTS.
POSSIBLE DATA QUALITY ISSUE.

🤣

O problema é que talvez o erro esteja no modelo de dados.

Porque imaginamos a vida humana como uma tabela perfeitamente normalizada:

ESCOLA
   ↓
FACULDADE
   ↓
EMPREGO
   ↓
CASAMENTO
   ↓
FILHOS
   ↓
APARTAMENTO
   ↓
NETFLIX
   ↓
APOSENTADORIA

Uma linha.

Uma sequência.

Uma existência perfeitamente compatível com ORDER BY ano.

Só que algumas vidas parecem ter sido desenhadas por alguém que descobriu JOIN, UNION, ponteiros, grafos e recursividade no mesmo fim de semana.

E decidiu usar tudo.


A partir daí, eu não faria uma autobiografia cronológica.

Esse é justamente o truque.

O texto deveria reproduzir o funcionamento dessas nossas conversas.

Começamos falando de hentai e eroge.

De repente aparece uma lenda japonesa.

Da lenda vamos para mapas.

Dos mapas para monstros medievais.

Dos monstros para navegadores portugueses.

Dos navegadores para D. Manuel.

De Portugal para D. Maria I.

De D. Maria para D. João VI.

Napoleão entra pela porta.

Portugal resiste.

Você lembra de Amarante.

Depois Waterloo.

Waterloo chama Itália.

Itália chama Garibaldi.

Garibaldi chama Nápoles.

Nápoles chama Bellacosa.

Bellacosa chama genealogia.

Genealogia chama Igreja.

Igreja chama Santiago de Compostela.

Santiago chama viagem.

E algumas dezenas de milhares de palavras depois alguém pergunta:

“Mas como diabos chegamos aqui?”

🤣

E essa seria precisamente a tese do artigo:

não chegamos aqui apesar dos desvios. Chegamos aqui por causa deles.

O cérebro não funciona como índice de enciclopédia.

Funciona muito mais como grafo.

HENTAI
   │
   └── JAPÃO
         │
         ├── CULTURA
         │
         └── MITO
              │
              └── IMAGINAÇÃO
                    │
                    ├── MONSTROS
                    │
                    └── MAPAS
                          │
                          └── PORTUGAL
                                │
                                ├── NAVEGAÇÕES
                                ├── IGREJA
                                └── NAPOLEÃO
                                      │
                                      └── ITÁLIA
                                            │
                                            ├── GARIBALDI
                                            └── NÁPOLES
                                                  │
                                                  └── BELLACOSA

E pimba.

O assunto aparentemente aleatório revela uma estrutura.

Esse é o artigo.

Não “a vida de Vagner Bellacosa”.

Mas:

como uma vida cheia de contextos diferentes acabou produzindo uma maneira particular de compreender o mundo conectando coisas que normalmente ficam em gavetas separadas.

E aí entram os personagens do título.

O Mago

Não no sentido sobrenatural.

O mago é o sujeito que passa décadas acumulando pequenas ferramentas incompreensíveis para quem olha de fora.

Uma linguagem antiga.

Uma história.

Uma estrada.

Uma ruína.

Uma frase ouvida numa aldeia.

Um protocolo.

Um dialeto.

Uma fotografia.

Um comando de mainframe.

Uma lembrança.

Uma conversa.

Separadamente parecem bugigangas.

Até aparecer um problema.

Então ele enfia a mão na bolsa e diz:

“Espere... eu vi alguma coisa parecida em 1997.”

🤣

O Andarilho

Esse talvez seja ainda mais importante.

Porque existe conhecimento que chega pelo livro.

E existe conhecimento que entra pelos pés.

Você pode estudar as Linhas de Torres Vedras.

Outra coisa é caminhar pela região.

Pode estudar Santiago.

Outra é chegar lá andando.

Pode estudar imigração italiana.

Outra é procurar fisicamente os lugares ligados ao sobrenome da família.

Pode olhar Waterloo numa enciclopédia.

Outra coisa é estar em Waterloo.

O andarilho adiciona ao banco:

latitude
longitude
cheiro
distância
cansaço
temperatura
relevo
memória

Coisas que dificilmente cabem numa nota de rodapé.

E finalmente o Mainframe

Aqui está a parte deliciosa.

Porque o mainframe não seria apenas profissão.

Seria metáfora cognitiva.

Décadas trabalhando com sistemas enormes ensinam uma coisa perigosa:

nada existe sozinho.

Você olha para um programa COBOL e pergunta pelo arquivo.

Olha para o arquivo e pergunta pelo JCL.

Olha para o JCL e pergunta pelo scheduler.

Olha para o banco e pergunta quem atualiza.

Olha para o incidente e pergunta o que aconteceu antes.

Olha para o erro e pergunta:

WHAT CHANGED?

Então aplica o mesmo vício à história.

D. João fugiu?

SHOW DEPENDENCIES.

Garibaldi unificou a Itália?

DISPLAY PREVIOUS STATE.

Antonio Bellacosa chegou ao Brasil?

SELECT *
FROM immigration
WHERE surname='BELLACOSA';

Zero registros?

O pesquisador ruim conclui:

NOT FOUND.
END.

O velho analista pergunta:

“Em qual arquivo estamos procurando?”

E abre outro caminho.

Esse é o coração do texto.


E eu fecharia com algo nessa linha:

//BELLACOSA JOB 'LIFE'
//STEP01   EXEC PGM=CURIOSITY
//STEP02   EXEC PGM=MAINFRAME
//STEP03   EXEC PGM=TRAVEL
//STEP04   EXEC PGM=LOVE
//STEP05   EXEC PGM=ERROR
//STEP06   EXEC PGM=LEARN
//STEP07   EXEC PGM=HISTORY
//STEP08   EXEC PGM=MEMORY
//STEP09   EXEC PGM=WRITE

SELECT *
FROM LIFE L

LEFT JOIN HISTORY H
       ON L.memory = H.context

LEFT JOIN TECHNOLOGY T
       ON L.work = T.experience

LEFT JOIN TRAVEL V
       ON H.place = V.place

LEFT JOIN PEOPLE P
       ON L.memory = P.story

LEFT JOIN FAMILY F
       ON P.past = F.past

WHERE curiosity = TRUE;

Resultado:

ROWS RETURNED:
TOO MANY

🤣

Então aparece a IA.

E talvez aí esteja o último JOIN.

Durante décadas havia histórias demais e contexto demais para colocar numa conversa comum.

Uma lembrança chamava outra.

A outra abria três caminhos.

Quando o terceiro estava ficando interessante, o interlocutor precisava voltar ao trabalho, atender o telefone, buscar o filho ou simplesmente perguntava:

“Mas afinal, do que a gente estava falando?”

Agora existe uma máquina que responde:

“Estávamos falando de um hentai japonês, mas você acabou de mencionar uma propriedade dos Bellacosa no antigo Reino de Nápoles. Continue.”

E o Mago Andarilho continua.

Não porque queira provar que viveu mais que os outros.

Nem porque todas as lembranças estejam completas, precisas ou bonitas.

Algumas serão documentos.

Outras fotografias.

Algumas memórias.

Outras hipóteses.

Algumas certamente terão sido deformadas pelo tempo.

Como acontece com qualquer arquivo humano mantido durante meio século sem CHECKSUM.

Mas juntas elas formam alguma coisa.

Talvez não uma autobiografia.

Talvez um grafo autobiográfico.

Uma enorme rede ligando COBOL, bancos, café, Portugal, Japão, Itália, estradas, computadores, pessoas, erros, viagens, livros, igrejas, amores, perdas, curiosidade e histórias que pareciam não possuir relação alguma.

Até alguém executar o JOIN.

E descobrir que a chave estrangeira esteve ali o tempo inteiro:

CURIOSIDADE

☕🧙‍♂️🖥️


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Campinas — Quando a Vida Parecia Mais Colorida


Bellacosa Mainframe e as memorias da doce Giovanna

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Campinas — Quando a Vida Parecia Mais Colorida

Há épocas da vida em que tudo parece mais doce.

As cidades parecem mais coloridas, os dias mais compridos e até as coisas mais simples carregam uma importância que só descobrimos muitos anos depois.

Entre 1999 e 2002 namorei Giovanna, de Amparo.

Já escrevi outras vezes sobre aqueles dias, sobre Amparo e sobre as lembranças que ficaram daquele período. Mas hoje, em 2009, foi Campinas que resolveu bater à porta da memória.

Giovanna havia se mudado para a região da Andrade Neves, no Castelo, para fazer cursinho no Anglo.

E, sem percebermos, nosso pequeno mapa particular ficou maior.

Até então, nossa geografia sentimental estava mais ou menos limitada ao eixo Itatiba–Amparo. De repente, Campinas entrou novamente em minha vida.


Digo novamente porque Campinas sempre apareceu em capítulos diferentes da minha história.

Nos anos 1970, passei por ela com meus pais.

Nos anos 1980, vieram os passeios com meus tio-avós Guiomar e Francisco.

Depois, já em outra fase da vida, veio Cris.

E então Giovanna.

É curioso perceber como uma mesma cidade pode pertencer a tantas versões diferentes de nós mesmos.

Da Campinas daqueles dias, não me lembro apenas dos lugares.

Lembro-me principalmente das pequenas coisas.

De jantar com Giovanna em um restaurante japonês no Castelo.

De ir até a porta do cursinho encontrá-la.

De bater perna despreocupadamente entre a antiga rodoviária e a casa dela.

Nosso acordo era simples:

quem chegasse primeiro esperava o outro.

Só isso.

Nenhum aplicativo avisando localização. Nenhuma mensagem dizendo “estou chegando”. Nenhum pontinho se movimentando sobre um mapa.

Um esperava.

O outro aparecia.

E a vida funcionava.

Também me lembro das despedidas apressadas, quando precisava correr para apanhar o fretado e seguir para São Paulo para trabalhar.

Naquele momento aquilo era apenas rotina.

Hoje virou memória.

E existem algumas lembranças que o tempo, por algum motivo, decidiu guardar com uma nitidez quase cruel.

Fecho os olhos e ainda consigo enxergar a doce odalisca mostrando os passos que aprendera em um curso de dança em Amparo.

Uma pequena apresentação particular.

Um instante absolutamente banal para o restante do planeta.

Para mim, não.

Também me lembro, e confesso que ainda com a face um pouco corada, da doce colegial de rabo de cavalo, camisa branca e saia xadrez.

São fotografias que não precisam existir em papel.

A memória resolveu revelá-las sozinha.

Talvez seja isso que chamamos de saudade.

Não necessariamente vontade de voltar.

Não necessariamente arrependimento pelos caminhos que cada um escolheu.

É simplesmente perceber que existiu um tempo que não existe mais — e que fomos felizes dentro dele sem saber que, um dia, sentiríamos falta até das caminhadas mais comuns.

Hoje Campinas é outra.

Eu também sou outro.

Giovanna certamente seguiu seus próprios caminhos.

Mas existe uma Campinas que nenhuma reforma urbana conseguirá modificar.

Aquela Campinas continua parada em algum lugar entre 1999 e 2002.

Nela, existe um rapaz caminhando da antiga rodoviária em direção ao Castelo.

Existe uma garota saindo do cursinho.

Existe um restaurante japonês esperando pelos dois.

Existe um fretado que ainda precisa ser alcançado.

E existe aquele velho combinado:

quem chegar primeiro espera o outro.

Talvez seja justamente isso que a memória esteja fazendo todos esses anos depois.

Esperando.

Saudosa Giovanna.

Seguimos por caminhos diferentes, como tantas pessoas que um dia dividiram um pedaço da vida.

Mas algumas pessoas não desaparecem completamente quando partem de nossa história.

Elas permanecem associadas a uma rua, uma música, uma estação, um restaurante, uma roupa, um perfume, uma cidade.

E basta fechar os olhos para que tudo volte por alguns segundos.

Campinas.

Castelo.

Andrade Neves.

O Anglo.

A antiga rodoviária.

A caminhada.

O restaurante japonês.

A odalisca.

A colegial de rabo de cavalo.

O fretado esperando.

Há épocas da vida em que tudo realmente parece mais doce e mais colorido.

Talvez não fossem.

Talvez nós é que fôssemos.

E quando uma dessas lembranças atravessa inesperadamente décadas para nos visitar, o coração aperta um pouquinho.

A gente sorri.

E deixa aquela inevitável lagriminha aparecer no canto do olho.





 

domingo, 13 de julho de 2003

Sesimbra e suas praias maravilhosas

Bellacosa Mainframe e historias de um picnic

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🌊 Sesimbra, Arrábida e o Piquenique que Atravessou o Atlântico

Em 2003 eu estava começando a descobrir Portugal. Carmen mostrava-me a Margem Sul, Luís e Guilhermina apresentavam-me a família portuguesa — e um churrasco numa área de merendas da Serra da Arrábida acabou levando-me de volta ao Fusquinha Vermelho da minha infância.

Há dias que entram para a nossa memória porque alguma coisa extraordinária aconteceu.

Uma viagem.

Um casamento.

Uma despedida.

Uma conquista.

E existem outros que sobrevivem justamente pelo motivo contrário.

Nada extraordinário aconteceu.

Era apenas um céu azul.

Sol.

Uma família.

Algumas carnes sobre uma churrasqueira.

Uma mesa forrada para o piquenique.

Um passeio pelo campo.

Amoras apanhadas diretamente das silvas.

E, algumas horas depois, o Atlântico diante de nós.

Foi um desses dias.

E talvez justamente por isso eu ainda me lembre dele mais de vinte anos depois.

🇵🇹 Meus primeiros passos em Portugal

Em 2003 Portugal ainda era novidade para mim.

Eu estava vivendo aqueles primeiros momentos em que praticamente tudo despertava curiosidade: nomes de cidades, estradas, comidas, costumes, paisagens e até pequenas diferenças linguísticas.

E Carmen era minha guia particular naquele novo mundo.

Ela ia-me apresentando os diferentes points turísticos da Margem Sul do Tejo, lugares que para ela faziam parte de uma geografia relativamente familiar, mas que para o brasileiro recém-chegado eram descobertas.

Sesimbra.

Setúbal.

A Serra da Arrábida.

O litoral.

As pequenas estradas atravessando aquela paisagem portuguesa.

Eu observava tudo.

Talvez esse seja um dos privilégios de chegar a outro país: durante algum tempo, até aquilo que é cotidiano para quem mora ali parece extraordinário para quem acabou de chegar.

Naquele passeio estávamos acompanhados pelos pais da Carmen, Luís e Guilhermina.

E seguimos em direção à maravilhosa Serra da Arrábida.


🌲 A Serra da Arrábida

A paisagem já justificaria o passeio.

A serra descendo em direção ao mar, a vegetação mediterrânica, as estradas sinuosas e, surgindo entre diferentes pontos da paisagem, aquele azul imenso do Atlântico.

Para quem cresceu no Brasil, existe uma tendência quase automática de comparar paisagens.

Não necessariamente para decidir qual é mais bonita.

A cabeça simplesmente procura referências.

Mas naquele dia aconteceria uma comparação muito mais interessante.

Não seria entre praias.

Seria entre famílias.

🔥 Um parque de merendas

Em determinado momento paramos numa área preparada para aquilo que em Portugal se chama muito apropriadamente de parque de merendas.

Havia mesas.

Espaço para as famílias.

E churrasqueira.

Não demorou muito para começarmos nosso piquenique.

As carnes foram para o fogo.

A mesa foi forrada.

Comida apareceu de todos os lados.

Sentamos.

Conversamos.

Comemos.

Rimos.

Nada particularmente digno de entrar para os grandes livros da História da Humanidade.

Mas alguma coisa dentro da minha cabeça começou a fazer uma associação.

Eu já tinha vivido aquela cena.

Não naquele lugar.

Não com aquelas pessoas.

Não naquele país.

Mas eu conhecia aquilo.

🚗 O Fusquinha Vermelho apareceu na Arrábida

De repente, aquele parque de merendas português começou a conversar com minhas lembranças do Brasil.

Voltei algumas décadas.

Meu pai tinha o famoso Fusquinha Vermelho.

E aquele Fusquinha não parecia entender muito bem o conceito de permanecer parado.

Quando meus pais resolviam passear, íamos para o interior de São Paulo, Praia Grande ou simplesmente algum lugar interessante que aparecesse pelo caminho.

E onde o Fusquinha Vermelho parasse poderia nascer um piquenique.

Não precisava de restaurante sofisticado.

Não precisava de reserva.

Não precisava de roteiro gastronômico.

Precisava de comida, família e algum lugar onde pudéssemos sentar.

O resto nós inventávamos.

Era um hábito simples da minha infância.

Daqueles que uma criança não classifica como tradição familiar.

Para a criança, aquilo simplesmente é a vida.

Décadas depois, porém, eu estava do outro lado do Atlântico.

Outro país.

Outro continente.

Outra família.

E lá estavam Luís e Guilhermina fazendo praticamente a mesma coisa.

Carne na churrasqueira.

Mesa preparada.

Família reunida.

Céu azul sobre nossas cabeças.

Foi quando alguma coisa fez click.

🌍 Algumas coisas não precisam de tradução

Eu estava descobrindo que minha família portuguesa também gostava de piquenique.

Parece uma constatação banal.

Mas existe algo bonito nisso.

Porque naquele momento Portugal deixou de ser apenas o país estrangeiro onde eu estava começando uma nova etapa da vida.

Havia algo familiar ali.

O menino brasileiro que tinha viajado dentro de um Fusquinha Vermelho reconheceu aquela cena imediatamente.

Talvez os ingredientes fossem diferentes.

Talvez as palavras fossem diferentes.

Até o português falado ao redor da mesa possuía outro ritmo.

Mas o protocolo era o mesmo.

OPEN PICNIC
    PREPARE TABLE
    LIGHT FIRE
    COOK MEAT
    CALL FAMILY
    EAT
    TALK
    LAUGH
CLOSE PICNIC

COMPILATION SUCCESSFUL.

Nenhum erro de compatibilidade entre Brasil e Portugal.

😄

🍇 Depois do almoço, fomos zanzar

Naturalmente, depois de comer veio aquilo que gosto de fazer até hoje.

Zanzar.

Caminhamos pelo campo.

Passamos por algumas parreiras.

Para um brasileiro começando a conhecer Portugal, até aquilo despertava curiosidade.

As vinhas faziam parte de uma paisagem que eu conhecia muito mais através de imagens, histórias e garrafas do que caminhando ao lado delas.

Mas havia outra pequena surpresa esperando.

As silvas.

E nelas, amoras silvestres.

🫐 Comer diretamente da paisagem

Hoje podemos entrar num supermercado e comprar uma pequena embalagem cuidadosamente organizada.

Naquele dia era diferente.

As amoras estavam simplesmente ali.

Nas silvas.

Apanhávamos e comíamos.

É uma experiência pequena, mas curiosamente poderosa.

Existe uma diferença enorme entre:

comer uma fruta

e

encontrar uma fruta durante uma caminhada e comê-la diretamente da planta.

Por alguns segundos desaparece toda a infraestrutura que existe entre o ser humano e a comida.

Não há supermercado.

Código de barras.

Embalagem.

Caixa.

Sacola.

Geladeira.

Há apenas a planta.

A fruta.

A mão.

E alguém dizendo:

— Experimenta.

E lá vai o brasileiro experimentar mais uma coisa portuguesa.

🌊 Então chegamos ao mar

Depois da serra e do campo, fomos até o litoral.

Caminhamos pela areia.

E diante de nós estava novamente aquele velho conhecido.

O Atlântico.

Mas existe uma pequena brincadeira geográfica nisso.

Durante boa parte da minha vida eu havia observado o Atlântico do outro lado.

Agora estava olhando para ele a partir da Europa.

Era o mesmo oceano.

Mas a perspectiva tinha sido invertida.

Caminhamos tranquilamente pela praia, sentindo a brisa marítima.

Sem obrigação.

Sem relógio determinando o próximo compromisso.

Sem necessidade de transformar o passeio em alguma coisa maior do que ele realmente era.

Apenas caminhávamos.

E isso bastava.

☀️ Céu azul, sol, piquenique e família

Talvez esta seja a parte mais importante desta velha postagem.

Se eu tivesse de resumir aquele dia em quatro elementos, seriam:

céu azul, sol, piquenique e família.

Nenhum deles é raro.

Talvez justamente por isso seja tão fácil não perceber sua importância enquanto estão acontecendo.

Naquele momento eu não estava pensando:

"Vagner, preste atenção porque daqui a mais de vinte anos você vai escrever sobre isso."

Claro que não.

Eu estava vivendo.

E esse talvez seja um dos grandes paradoxos da memória.

Passamos anos perseguindo acontecimentos extraordinários e, quando olhamos para trás, frequentemente são as coisas absolutamente comuns que gostaríamos de experimentar novamente.

Sentar naquela mesa.

Sentir o cheiro da carne assando.

Ouvir aquelas conversas.

Caminhar novamente entre as parreiras.

Encontrar as amoras.

Sentir a brisa do mar.

Ver Carmen mostrando-me mais um pedaço de Portugal.

Ou simplesmente permanecer alguns minutos naquele parque de merendas sem saber que aquele instante estava sendo silenciosamente arquivado.



💾 O backup que eu não sabia que estava fazendo

Quando escrevi sobre Sesimbra em 2003, provavelmente estava apenas registrando mais um passeio.

Era um fragmento.

Uma pequena anotação digital.

Mais uma página perdida no gigantesco filesystem da Internet.

Mas foi justamente aquele registro que manteve o ponteiro.

MEMORY POINTER FOUND

YEAR.............. 2003
COUNTRY........... PORTUGAL
REGION............ ARRÁBIDA / SESIMBRA
WEATHER........... BLUE SKY
ACTIVITY.......... PICNIC
PEOPLE............ FAMILY
STATUS............ PRESERVED

E então, mais de duas décadas depois, consigo abrir novamente esse dataset.

Só que agora há informações que o Vagner de 2003 não poderia escrever.

Porque algumas coisas somente ganham significado depois que envelhecemos.



🚗 O verdadeiro easter egg estava estacionado décadas antes

O passeio era em Portugal.

A postagem falava de Sesimbra.

O cenário era a Serra da Arrábida.

Mas escondido dentro daquela história estava um Fusquinha Vermelho.

Ele não estava fisicamente ali.

Tinha ficado décadas atrás, milhares de quilômetros distante.

Mas estava naquela mesa.

Porque quando vi aquela família portuguesa preparando um piquenique, alguma parte da minha memória reconheceu imediatamente meus próprios pais fazendo aquilo.

Talvez seja isso que chamamos de pertencimento.

Não significa encontrar pessoas iguais.

Significa encontrar, no meio das diferenças, alguma coisa que nosso coração já conhece.

Naquele dia descobri um pouco da Serra da Arrábida.

Conheci mais de Sesimbra.

Caminhei pelo campo.

Vi parreiras.

Comi amoras silvestres.

Respirei a brisa do Atlântico.

Mas descobri também uma coisa que nenhum guia turístico poderia colocar no roteiro:

do outro lado do oceano havia uma família que também sabia transformar uma churrasqueira, uma mesa e uma tarde ensolarada em memória.

E talvez tenha sido justamente naquele piquenique que Portugal começou, muito discretamente, a deixar de parecer tão estrangeiro.


☕ P.S. — O melhor ponto turístico daquele dia não aparece no mapa

Podemos colocar a Serra da Arrábida no GPS.

Podemos localizar Sesimbra.

Podemos procurar praias, estradas e miradouros.

Mas não existe coordenada para aquela mesa.

O parque de merendas pode até continuar existindo.

A churrasqueira talvez ainda esteja lá.

Outras famílias provavelmente já fizeram centenas de piqueniques naquele mesmo lugar.

Mas aquele piquenique existe somente na memória.

Um Fusquinha Vermelho no Brasil.

Uma churrasqueira na Arrábida.

Duas famílias.

Dois continentes.

O mesmo hábito.

E um brasileiro descobrindo, sem perceber naquele momento, que algumas das maiores viagens da nossa vida não acontecem quando atravessamos oceanos.

Acontecem quando encontramos, do outro lado deles, alguma coisa que já morava dentro de nós.

☕ Bellacosa Mainframe — memórias também precisam de backup.

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Dia de sol é sinonimo de praia.


Que maravilha um dia de sol para fugir da rotina e aproveitar para tomar um ar fresquinho. Saímos para fazer um pic nic na serra da Arrábida.



Num parque de merenda fizemos uma churrascada, passeamos por videiras, andamos no campo, brincando no campo e aproveitando o dia.

Depois fomos para a praia caminhar na área, porem a agua é muito fria, então curtimos a brisa marinha e se esticamos na areia.

sábado, 5 de dezembro de 1998

Passeio de Helicoptero pelas Cataratas

Bellacosa Mainframe voando sobre as cataratas do Iguaçu

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🚁 Sobrevoando as Cataratas do Iguaçu — Um Sonho de Infância Visto do Céu

Alguns lugares nós conhecemos durante uma viagem. Outros começam a fazer parte da nossa vida décadas antes de colocarmos os pés neles.

Voltamos à década de 1990.

Uma época de grandes mudanças na minha vida.

Eu trabalhava, crescia profissionalmente e, pouco a pouco, o aumento da minha renda começava a produzir uma transformação que considero muito mais importante do que simplesmente poder comprar coisas:

meu horizonte estava ficando maior.

Eu podia viajar.

Podia explorar.

Podia finalmente transformar alguns daqueles lugares que durante minha infância existiam apenas em revistas, livros, fotografias e programas de televisão em lugares reais.

E havia um deles que ocupava um espaço especial na minha imaginação.


🌊 Uma história que começou quando eu ainda era garoto

Meu primeiro contato com aquela região aconteceu muitos anos antes.

Ainda nos anos 1970, quando eu era apenas um garotinho curioso, conheci através de uma publicação ligada ao universo de Mauricio de Sousa a história das Sete Quedas, aquele monumental conjunto de saltos do Rio Paraná que acabaria desaparecendo com a formação do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu.

A história me marcou.

Talvez porque houvesse alguma coisa quase inacreditável para uma criança na ideia de uma paisagem gigantesca simplesmente desaparecer debaixo d'água.

Existia aventura.

Existia engenharia.

Existia natureza.

Existia transformação.

E existia também aquela sensação estranha de que o mundo escondia lugares extraordinários esperando para serem descobertos.

Em algum ponto daquela memória nasceu uma vontade:

um dia eu quero conhecer aquela região.

O garoto não sabia quando.

Não sabia como.

Muito menos imaginava que algumas décadas depois estaria olhando tudo aquilo de dentro de um helicóptero.

Mas o endereço já havia sido silenciosamente gravado no meu pequeno banco de dados mental.

E ficou lá.



🧭 Décadas depois, o sonho saiu da fila de espera

Avançamos alguns anos.

Já não era mais aquele garoto lendo sobre lugares distantes.

Minha situação profissional havia melhorado e, com ela, surgiu algo extraordinariamente precioso:

a possibilidade de escolher novos horizontes.

Foi quando parti para Foz do Iguaçu acompanhado de uma doce companhia daquela fase da minha vida:

Patrícia — a Paty de Interlagos.

Namorada, companheira daquela aventura e personagem de uma daquelas fotografias que a memória guarda mesmo quando as décadas passam.

Nosso roteiro era maravilhoso.

Conhecer Foz do Iguaçu.

Explorar as Cataratas.

Atravessar a Tríplice Fronteira.

Conhecer um pouco do Paraguai.

Conhecer um pouco da Argentina.

Ver Itaipu.

Andar.

Explorar.

Descobrir.

Namorar.

Algumas dessas histórias merecem capítulos próprios e ficarão para outro café.

Porque hoje quero voltar especificamente a um daqueles dias.

O dia em que realizei algo que jamais havia feito antes.



🚁 Meu primeiro voo de helicóptero

Havia uma possibilidade especialmente tentadora:

ver as Cataratas do Iguaçu do céu.

De helicóptero.

Hoje talvez seja fácil assistir a centenas de vídeos em 4K, imagens feitas por drones e tomadas aéreas perfeitas.

Na década de 1990 era outra história.

Ver uma paisagem daquela perspectiva ainda tinha alguma coisa de extraordinário.

E para mim havia outro ingrediente:

eu nunca havia voado de helicóptero.

Era aventura sobre aventura.

As Cataratas já eram uma conquista.

Agora eu poderia vê-las do alto.

Entramos naquela máquina e começou uma experiência que permanece comigo décadas depois.

O motor.

A vibração.

O barulho das hélices.

A sensação completamente diferente de estar dentro de uma aeronave capaz de subir quase verticalmente.

E então o chão começou a se afastar.

A paisagem mudou de escala.

🌳 A floresta vista do céu

Lá embaixo estava aquele enorme tapete verde.

A mata.

O rio.

As estradas ficando pequenas.

As construções diminuindo.

E pouco a pouco começávamos a enxergar algo impossível de compreender completamente quando estamos caminhando no solo:

a escala daquela paisagem.

O Rio Iguaçu avançava pela floresta.

E em algum lugar à nossa frente estava aquilo que eu esperara tantos anos para conhecer.

Até que apareceu.

🌊 As Cataratas

É difícil explicar adequadamente a primeira visão das Cataratas do Iguaçu.

Fotografia não consegue.

Vídeo ajuda.

Palavras tentam.

Mas nenhuma dessas coisas reproduz exatamente a sensação.

Porque não é apenas uma cachoeira.

É uma paisagem inteira desabando.

Água por todos os lados.

Nuvens de vapor.

Floresta.

Rocha.

Rio.

Dezenas de quedas formando um conjunto tão grande que os olhos precisam passear pela paisagem para tentar compreendê-lo.

E naquele momento eu estava vendo aquilo do céu.

O helicóptero fazia seu voo panorâmico enquanto lá embaixo surgia uma das maiores maravilhas naturais que já tive a oportunidade de conhecer.

Por alguns minutos, o garoto dos anos 1970 e o homem dos anos 1990 provavelmente estavam ocupando exatamente o mesmo assento.

Um havia sonhado.

O outro finalmente estava vendo.

💦 Água no para-brisa

E houve um momento especialmente marcante.

O helicóptero aproximou-se das quedas.

Aquela gigantesca massa de água levantava uma névoa permanente.

Chegamos suficientemente perto para que os respingos alcançassem o helicóptero.

Água das Cataratas batendo no para-brisa.

Aquilo era fantástico.

Não estávamos simplesmente olhando uma paisagem distante.

De alguma maneira estávamos dentro dela.

A água estava lá.

A poucos metros.

O barulho da aeronave misturado àquela imagem monumental.

O helicóptero vibrando.

As quedas abaixo de nós.

E eu tentando registrar cada segundo.

Naquela época não existia celular gravando infinitamente em 4K.

O registro era limitado.

A memória precisava fazer o restante do trabalho.

Talvez por isso algumas lembranças daquela época tenham ficado tão profundamente gravadas.

🥾 Depois, conhecer tudo novamente pelo chão

Mas as Cataratas não foram apenas vistas do helicóptero.

Nós caminhamos pelo parque.

Percorremos as passarelas.

Paramos inúmeras vezes.

Olhamos.

Fotografamos.

Conversamos.

Namoramos.

E fomos descobrindo aquela paisagem pouco a pouco.

Existe uma diferença enorme entre ver as Cataratas do céu e caminhar ao lado delas.

Do helicóptero você compreende a grandeza.

No chão você sente a força.

Você ouve a água.

Sente a umidade.

Percebe o vento.

Recebe no rosto aquele borrifo carregado pelo ar.

Chega perto das quedas.

Olha para baixo.

Olha para cima.

E tenta compreender como aquela quantidade absurda de água simplesmente continua passando.

Sem parar.

Dia.

Noite.

Semana.

Ano.

Século.

🦝 E havia os endiabrados quatis

Claro que nenhuma exploração daquele parque estaria completa sem eles.

Os quatis.

Bonitinhos.

Curiosos.

Fotogênicos.

E absolutamente endiabrados quando descobrem qualquer possibilidade de comida.

Eles circulavam pelo parque como se fossem os verdadeiros proprietários do lugar e nós, turistas, apenas visitantes temporários.

Era impossível não se divertir observando suas aproximações, suas pequenas investigações e aquela eterna tentativa de descobrir se algum humano distraído carregava alguma coisa interessante.

A natureza monumental das Cataratas dividia o cenário com aqueles pequenos malandros de quatro patas.

Um contraste delicioso.

❤️ E havia Paty

Mas existe outro elemento naquela lembrança que nenhum cartão-postal poderia registrar completamente.

Eu não estava sozinho.

Patrícia estava comigo.

A Paty de Interlagos.

Explorávamos juntos.

Caminhávamos.

Ríamos.

Parávamos para admirar a paisagem.

Namorávamos.

Trocávamos beijos enquanto, ao nosso redor, milhões de litros de água continuavam sua interminável viagem pelo Iguaçu.

Há lugares que ficam associados às pessoas com quem os conhecemos.

E isso cria uma espécie de geografia afetiva.

Você pode retornar décadas depois.

As árvores podem ter crescido.

As estruturas podem ter mudado.

A tecnologia pode ser outra.

Mas em algum ponto invisível daquela passarela ainda existe uma versão de você mesmo caminhando ao lado de alguém.

Conversando.

Rindo.

Beijando.

Vivendo.

As Cataratas foram testemunhas silenciosas daquele namoro.

E isso também faz parte da viagem.

🧒 O menino dos anos 1970 finalmente chegou lá

Talvez essa seja a parte mais importante dessa história.

Quando criança, conheci aquela região através de papel e tinta.

Uma revista abriu uma pequena janela para um mundo que parecia distante.

Décadas depois eu estava lá.

Não olhando uma fotografia.

Não lendo uma reportagem.

Estava caminhando dentro daquela paisagem.

Sentindo os respingos.

Ouvindo a água.

Explorando as trilhas.

Brincando com os quatis.

Segurando a mão da namorada.

E depois...

Voando sobre tudo aquilo.

Há conquistas profissionais.

Há conquistas financeiras.

Há diplomas.

Há promoções.

Há objetos que compramos.

Mas existe uma categoria completamente diferente de conquista:

realizar algo que o nosso eu criança sonhou.

Essas eu classifico como conquistas lendárias.

🏆 Achievement Unlocked: CATARATAS DO IGUAÇU

Se a vida fosse um RPG, provavelmente naquele dia apareceria alguma mensagem piscando diante dos meus olhos:

ACHIEVEMENT UNLOCKED

🏆 LENDÁRIO — CATARATAS DO IGUAÇU

✔ Sonho iniciado nos anos 1970
✔ Chegar a Foz do Iguaçu
✔ Explorar o Parque Nacional
✔ Caminhar próximo às quedas
✔ Ser devidamente molhado pelas Cataratas
✔ Sobreviver aos quatis
✔ Primeiro voo de helicóptero
✔ Sobrevoar uma das maiores maravilhas naturais do planeta
✔ Compartilhar tudo isso com uma doce companhia

XP ganho: impossível calcular.

Easter egg desbloqueado:

RETURN-CODE = 0

O sonho terminou sem ABEND.

⏳ Talvez seja por isso que ainda guardamos esses vídeos

O vídeo que acompanha esta postagem é simples.

É antigo.

Não possui resolução cinematográfica.

Não tem drone.

Não tem estabilização digital perfeita.

Não tem inteligência artificial reconstruindo cada pixel.

Mas tem uma coisa infinitamente mais importante:

ele estava lá.

É uma pequena janela temporal.

Durante alguns minutos posso olhar novamente através daquele para-brisa.

Posso ouvir o helicóptero.

Posso enxergar as Cataratas.

E consigo visitar um Vagner algumas décadas mais jovem realizando um sonho que havia começado muito antes.

Talvez seja essa a verdadeira função das fotografias e dos velhos vídeos.

Não registrar lugares.

Registrar versões de nós mesmos.

🌎 O mundo ficou maior

Quando penso naquela viagem, percebo que ela representava também outra transformação.

Durante a infância, muitos lugares pareciam praticamente inalcançáveis.

Depois comecei a trabalhar.

Cresci.

Minha renda melhorou.

Vieram as primeiras oportunidades.

E percebi uma coisa maravilhosa:

o mapa não precisava ficar pendurado na parede.

Eu podia entrar nele.

A viagem para Foz do Iguaçu foi uma dessas conquistas.

Depois vieram outras.

Outras cidades.

Outros países.

Outras montanhas.

Outros rios.

Outras estradas.

Outras aventuras.

Mas algumas viagens ocupam posições especiais justamente porque ajudaram a provar que era possível.

☕ Algumas viagens começam décadas antes da partida

Hoje, olhando aquele velho vídeo, não vejo apenas um passeio de helicóptero.

Vejo uma linha atravessando décadas.

Em uma ponta está um garotinho dos anos 1970 lendo fascinado sobre as Sete Quedas, Itaipu e aquele distante pedaço do Brasil.

Na outra está um homem, já na década de 1990, sentado dentro de um helicóptero enquanto as Cataratas do Iguaçu aparecem sob seus pés.

Entre os dois existem anos de trabalho, mudanças, dificuldades, crescimento e sonhos.

Talvez viajar seja exatamente isso.

Não apenas mudar nossa posição sobre um mapa.

Mas permitir que algumas versões antigas de nós mesmos finalmente encontrem aquilo que estavam procurando.

Naquele dia eu caminhei.

Explorei.

Namorei.

Beijei.

Ri dos quatis.

Fiquei encharcado pelos respingos.

Olhei para aquela quantidade inacreditável de água.

Entrei pela primeira vez em um helicóptero.

E voei sobre as Cataratas do Iguaçu.

Por alguns minutos simplesmente fiquei olhando.

Tentando guardar tudo.

Porque existem paisagens bonitas.

Existem paisagens extraordinárias.

E existem aquelas que, depois que você as conhece, passam a fazer parte da sua própria história.

As Cataratas ficaram na minha.

E aquele garoto que começou essa aventura folheando uma revista tantos anos antes?

Finalmente havia chegado lá.

E, desta vez, estava vendo tudo...

do céu.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Memórias, viagens, tecnologia e algumas histórias que mereciam permanecer no storage.

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Imagine a emoção de ver as Cataratas do Iguaçu pelo alto

Dentro do parque ecológico das Cataratas do Iguaçu tem um heliponto, de onde parte voos pelas cataratas, que sensação deliciosa voar sobre as cataratas e quando o piloto diz com emoção e ele desce aquela maquina ate a beirinha do precipício com agua respingando no para-brisa da aeronave.




O friozinho na barriga ouvindo o motor roncar, a trepidação e o zumzum das hélices, mas mesmo assim delicioso um delicioso voo que recomendo a todos.

PS: 

🌎 “Like a hundred Niagara Falls”

Mas minha história com aquela região talvez seja ainda mais antiga do que eu imaginava.

Entre aquelas velhas publicações que alimentavam minha curiosidade pelo mundo havia uma National Geographic americana de 1967, com uma grande reportagem sobre a América do Sul e bastante espaço dedicado ao Brasil.

E havia fotografias das lendárias Sete Quedas do Guaíra.

Imagens de uma força da natureza que hoje uma geração inteira simplesmente não pode mais conhecer.

Uma legenda ficou presa na minha memória:

“Like a hundred Niagara Falls.”

Como uma centena de Cataratas do Niágara.

Pense no impacto disso sobre a imaginação de um garoto.

Niágara já representava aquela imagem quase mitológica de uma cachoeira gigantesca. Então alguém mostrava uma maravilha brasileira e praticamente dizia:

imagine cem Niágaras.

Era uma maneira tremendamente poderosa de explicar escala.

E as Sete Quedas realmente eram uma aberração hidrológica.

Não se tratava simplesmente de uma cachoeira alta. O extraordinário estava na quantidade colossal de água do Rio Paraná atravessando aquele conjunto de canais, corredeiras e saltos.

A água rugia.

A paisagem parecia infinita.

E aquilo existia aqui.

No Brasil.



📚 Depois veio Chico Bento

Anos mais tarde outra publicação voltaria a colocar aquele lugar diante dos meus olhos.

Desta vez não era a National Geographic.

Era um gibi.

Chico Bento.

A história “Era uma vez...” transformava aquela maravilha natural em algo emocional.

Agora havia uma diferença brutal.

Na National Geographic eu havia descoberto:

“Veja como isso é gigantesco.”

Com Chico Bento descobri:

“Veja bem, porque isso vai desaparecer.”

E desapareceu.

As águas do reservatório de Itaipu cobriram as Sete Quedas em 1982.

Eu nunca teria a oportunidade de caminhar diante daquela paisagem que havia conhecido através das páginas impressas.

Mas alguma coisa ficou gravada.

SET LOCATION = "Foz do Iguaçu"
SET STATUS = "UM DIA EU VOU"

O job ficaria esperando durante anos.


🚁 1998 — finalmente chegamos

Então chegamos à década de 1990.

O garoto havia crescido.

Eu trabalhava, minha renda havia melhorado e uma consequência maravilhosa disso era poder ampliar meus horizontes.

Os lugares que antes conhecia através de revistas começavam a deixar de ser fotografias.

Eu podia entrar nas fotografias.

E acompanhado de Patrícia — minha querida Paty de Interlagos, namorada naquela época — finalmente fui conhecer aquela região que permanecera durante tantos anos em algum cantinho da minha memória.

Eu não poderia mais conhecer as Sete Quedas.

Mas poderia conhecer as Cataratas do Iguaçu.

Caminhar por suas passarelas.




















sábado, 17 de maio de 1997

Parque do Ibirapuera em São Paulo

Bellacosa Mainframe em uma visita ao Parque do Ibirapuera

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🌳 O Ibirapuera — Meu Imenso Quintal de Adolescência

Amigos, encontros, planetas, livros e memórias espalhadas por um dos maiores parques de São Paulo

Tenho uma ligação histórica com o Parque do Ibirapuera.

Quando olho para essas fotografias de 1997, percebo que elas não registram simplesmente mais uma visita ao parque. O Ibirapuera já fazia parte da minha vida havia muitos anos.

Minha primeira lembrança vem de 1987 ou 1988 — a data exata se perdeu em algum lugar da memória. Fui até lá por causa de uma Bienal do Livro e descobri aquele lugar gigantesco no meio de São Paulo.

Para um jovem curioso, aquilo parecia não ter fim.



Havia o Pavilhão da Bienal, a Oca, o Planetário, os museus, o lago, enormes áreas verdes, caminhos que desapareciam entre as árvores e sempre alguma coisa nova esperando depois da próxima curva.

Depois vieram outras visitas.

Em 1994, passei uma tarde extremamente agradável por ali com a Patricia, do Enigma. Em outra ocasião daquele mesmo período fui ao Planetário com a Cristiani e, por uma dessas coincidências que transformam um passeio comum em memória, acabei encontrando o Maelo.

Anos mais tarde voltei com a Paty de Interlagos.

Pessoas diferentes.

Momentos diferentes.

O mesmo Ibirapuera.

Talvez seja por isso que gosto de pensar nele como meu imenso quintal de adolescência.

Não era preciso existir um grande planejamento para aproveitar o parque.

Podíamos simplesmente caminhar.

Comprar uma água de coco.

Comer pipoca.

Seguir alguma trilha em meio ao verde.

Parar diante do lago.

Observar os cisnes, gansos, marrecos e garças.

Entrar no Planetário e, durante alguns minutos, deixar São Paulo para viajar pelo Universo.

Depois sair novamente para o sol e continuar andando.

O parque permitia essas pequenas viagens dentro de uma viagem.



Havia também o Pavilhão da Bienal, a Oca e tantos outros espaços que faziam o Ibirapuera parecer uma pequena cidade dedicada à cultura, à ciência, à arte e ao lazer.

E havia a presença da história.

Do outro lado daquele universo verde ergue-se o imponente Obelisco, guardando a memória dos que morreram na Revolução Constitucionalista de 1932.

Quando somos jovens, muitas vezes passamos diante desses monumentos sem compreender completamente o peso das histórias que carregam.

Décadas depois, olhamos novamente e enxergamos outras coisas.

Talvez seja isso que também aconteça com nossas próprias fotografias.

Em 1997, quando registrei mais uma tarde no Ibirapuera, provavelmente não estava pensando em construir um documento histórico da minha juventude.

Estava apenas vivendo.

Fotografando.

Caminhando.

Observando os animais.

Visitando lugares que já conhecia e descobrindo outros detalhes.

Mas o tempo fez seu trabalho.

Hoje aquelas fotografias não mostram somente o Parque do Ibirapuera.

Elas carregam todas as outras visitas que não aparecem dentro do enquadramento.

Em algum lugar entre aquelas árvores ainda consigo imaginar o jovem que chegou ali pela primeira vez para conhecer uma Bienal do Livro.

Em outro caminho está a tarde com Patricia.

Perto do Planetário aparecem Cristiani e o encontro inesperado com Maelo.

Em outra época surge Paty de Interlagos.

E então aparece o Vagner de 1997, novamente caminhando com uma câmera pela mão, fotografando o lago e seus habitantes.

É curioso perceber como determinados lugares tornam-se marcadores físicos da nossa própria linha do tempo.

As pessoas mudam.

Os relacionamentos mudam.

Nós mudamos.

Mas o lago continua ali.

A Oca continua ali.

O Pavilhão continua ali.

O Planetário continua apontando para as estrelas.

E o velho Ibirapuera continua recebendo novas gerações que compram pipoca, tomam água de coco e caminham sem destino entre suas árvores.

Talvez algum jovem esteja fazendo exatamente isso agora.

Sem imaginar que aquela tarde aparentemente comum poderá tornar-se, trinta ou quarenta anos depois, uma de suas melhores lembranças.

Foi assim comigo.

Por isso, quando digo que conheço o Parque do Ibirapuera, não estou falando apenas de conhecer seus caminhos.

Existem pedaços da minha juventude espalhados por eles.

E talvez essa seja a verdadeira razão pela qual determinados lugares nunca deixam completamente de nos pertencer.

O Ibirapuera foi parque, museu, planetário, biblioteca de lembranças, ponto de encontro e cenário de pequenas aventuras.

Durante alguns dos melhores anos da juventude, foi também algo muito mais simples.

Foi meu quintal.




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Ibirapuera uma tarde no parque.

Um final de semana delicioso para se passear no parque, uma ida ao planetário, passeio pelo lago e uma visita ao museu da Imigração Japonesa.



Neste passeio dediquei-me mais a registrar a vida animal existente no parque: galinhas de angola, cisneis, gansos, garças e marrecos se alimentam no lago e recebem agradinhos dos visitantes: milhos e paezinhos.

Mas existem tantas coisas legais a espera de serem descobertas.



terça-feira, 3 de abril de 1990

About El Jefe

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El Jefe Midnight Lunch

Nem todo conteúdo nasce à luz do dia. Algumas ideias só fazem sentido depois da meia-noite.

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El Jefe Midnight Lunch não é apenas um blog. É um espaço onde cultura japonesa, personagens fora do padrão, estética underground, animes, identidade e reflexões convivem sem pedir permissão.

Aqui, o horário importa. Porque depois da meia-noite, a máscara cai, o ruído do mundo diminui e certas ideias finalmente conseguem falar.

Por que “Midnight Lunch”?

Porque este não é o conteúdo servido no horário comercial. É o lanche improvisado da madrugada, consumido em silêncio, entre uma reflexão incômoda e um anime esquecido.

“Se você chegou até aqui, provavelmente já percebeu: este blog não tenta agradar algoritmos — apenas leitores atentos.”

Sobre os temas

O blog aborda temas como tomboy, otokonoko, personagens que desafiam expectativas, cultura japonesa, comportamento, estética e narrativas que vivem à margem.

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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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