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terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

📺 Os 12 Macacos, COBOL e a Revista que Ensinou o Nome do Vírus ARCO I — CAPÍTULO II

  

Bellacosa Mainframe e os perigos da internet

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

📺 Os 12 Macacos, COBOL e a Revista que Ensinou o Nome do Vírus

ARCO I — CAPÍTULO II

“Não procure isto na Internet” — e milhões descobriram o que procurar

Às vezes, a informação mais poderosa não é a resposta. É descobrir qual pergunta deve ser feita.


🕰️ 00:01 — O manual estava sobre a mesa

No capítulo anterior, nosso COBOLzeiro tentou fazer aquilo que qualquer profissional sensato faria diante de uma epidemia informacional:

DELETE INTERNET

O sistema respondeu:

COMMAND REJECTED

REASON:
INFORMATION EXISTS
ON REMOTE NODES.

Tentou RACF.

Não funcionou.

Tentou descobrir o proprietário da Internet.

Também não funcionou.

Tentou encontrar o paciente zero.

Pior ainda.

Quando o terminal finalmente apagou, Bruce Willis apontou para uma velha revista sobre a mesa.

Nosso programador perguntou:

— Encontramos o culpado?

— Não.

— O paciente zero?

— Também não.

— Então o que encontramos?

Bruce Willis respondeu:

— O manual.

Agora precisamos entender o que isso significa.

E antes que alguém prepare a fogueira para jornalistas, revistas, televisão ou qualquer outro meio de comunicação, uma advertência:

este capítulo não é uma acusação contra a imprensa.

É justamente algo muito mais interessante.

É sobre um paradoxo da comunicação:

Para alertar alguém sobre uma coisa desconhecida, frequentemente precisamos primeiro contar que essa coisa existe.

E, no instante em que fazemos isso, modificamos o universo de possibilidades daquela pessoa.

Antes:

CONHECIMENTO = 0

Depois:

CONHECIMENTO = 1
CURIOSIDADE  = ???

O problema está nesses três pontos de interrogação.


📰 1. A velha revista encontrada no futuro

Voltemos aos anos 1990.

Internet brasileira.

Modem cantando músicas que apenas os sobreviventes daquela era conseguem identificar:

PIIIIIIIIIIIII
KRRRRRRRRRR
TCHHHHHHHH
KRRRRRRRRRR

Alguém na casa grita:

— DESLIGA A INTERNET QUE EU PRECISO USAR O TELEFONE!

Os jovens de 2026 podem acreditar que isso é ficção científica.

Não é.

Nós vivemos isso.

E, naquele mundo, descobrir alguma coisa na Internet era bastante diferente de hoje.

Não existia um algoritmo onipresente examinando cada movimento e dizendo:

"Você ficou 3,7 segundos olhando esse assunto. Aqui estão outros 427 conteúdos semelhantes."

Frequentemente era necessário conhecer:

  • o nome;

  • o endereço;

  • o programa;

  • a comunidade;

  • o servidor;

  • o canal;

  • a palavra-chave.

Em outras palavras:

era necessário possuir um mapa.

E muitas vezes esse mapa vinha de fora da Internet.

Revistas.

Jornais.

Programas de televisão.

Amigos.

Livros.

Cursos.

CD-ROMs.

Bancas de jornal.

E aqui entra uma lembrança fascinante daquela época: reportagens que pretendiam explicar os perigos da Internet.


🔎 2. O paradoxo da palavra-chave

Imagine alguém que jamais ouviu determinada expressão.

Vamos chamá-la simplesmente de:

PALAVRA-X

A pessoa possui um computador.

Possui Internet.

Possui curiosidade.

Mas não possui PALAVRA-X.

Então procura:

SEARCH "COISAS INTERESSANTES"

Recebe qualquer coisa.

Agora uma revista publica:

"Especialistas alertam para um fenômeno conhecido como PALAVRA-X."

Pronto.

Algo extraordinário aconteceu.

A revista não entregou necessariamente o conteúdo.

Não forneceu necessariamente acesso.

Não criou necessariamente a comunidade.

Mas entregou uma coisa extremamente valiosa:

o identificador.

Para um mainframeiro, isso é quase óbvio.

Você pode possuir acesso a milhões de datasets.

Mas existe uma diferença gigantesca entre:

PROCURE ALGUMA COISA

e:

PROD.FATURAMENTO.CLIENTES.HIST

O nome reduz o universo de busca.

A palavra funciona como índice.


🗝️ 3. Conhecer o nome é possuir metade da chave

Existe uma velha ideia na computação:

naming is hard.

Dar nomes é difícil.

Mas encontrar coisas sem conhecer os nomes pode ser ainda pior.

Na velha Internet, palavras tinham uma importância quase cartográfica.

Imagine:

INTERNET
 |
 +-- milhões de páginas
 |
 +-- milhares de fóruns
 |
 +-- servidores
 |
 +-- FTP
 |
 +-- IRC
 |
 +-- Usenet
 |
 +-- comunidades
 |
 +-- arquivos

Você está aqui:

             ?
             |
             v
           VOCÊ

Então alguém entrega:

KEYWORD = "XYZ"

Subitamente:

             XYZ
              |
              v
           SEARCH
              |
              v
          RESULTADOS
              |
              v
         COMUNIDADE

A palavra não criou o caminho.

Ela tornou o caminho pesquisável.

Essa distinção será importante durante toda nossa série.


☕ 4. O adolescente, a revista e o café do pai

Imagine a cena.

Ano: 1998.

Horário: 23h47.

Computador:

Pentium qualquer coisa.

Windows 95 ou 98.

Monitor CRT ocupando aproximadamente metade do território nacional.

Modem 33.6 ou 56k.

Internet tarifada.

Sobre a mesa existe uma revista.

A reportagem diz:

OS PERIGOS DA INTERNET

Nosso jovem leitor está profundamente preocupado.

Naturalmente.

Ele lê:

"Especialistas alertam que usuários..."

Interessante.

Continua.

"...utilizam determinados termos..."

Termos?

Ele aproxima a revista.

Pega uma caneta.

Anota.

01 WS-TERMOS.
   05 WS-TERMO-01 PIC X(20).
   05 WS-TERMO-02 PIC X(20).
   05 WS-TERMO-03 PIC X(20).

A reportagem continua explicando que determinados ambientes existem.

O jovem anota.

A reportagem talvez esteja pensando:

estamos alertando.

O adolescente talvez esteja pensando:

estou recebendo documentação técnica.

É aqui que Terry Gilliam entra pela janela.


🐒 5. A informação altera o passado

Em Os 12 Macacos, existe uma obsessão com causalidade.

O que aconteceu?

Quem provocou?

Pode ser impedido?

Uma tentativa de modificar determinado acontecimento pode participar da própria cadeia que levou até ele?

Na comunicação acontece algo conceitualmente semelhante.

Um jornalista observa um fenômeno.

Publica uma reportagem.

A reportagem aumenta o conhecimento público sobre o fenômeno.

Novas pessoas pesquisam.

Algumas entram nas comunidades.

O fenômeno cresce.

Então uma segunda reportagem diz:

"Fenômeno cresce assustadoramente."

Mais pessoas descobrem.

Temos:

FENÔMENO
   |
   v
REPORTAGEM
   |
   v
CONHECIMENTO
   |
   v
CURIOSIDADE
   |
   v
NOVOS USUÁRIOS
   |
   v
FENÔMENO MAIOR
   |
   v
NOVA REPORTAGEM

Isso é um feedback loop.

A observação passou a participar do sistema observado.


📺 6. Quando o Jornal Nacional encontra o mecanismo de busca

A televisão possui uma característica que a velha Internet não tinha:

alcance imediato.

Imagine um assunto conhecido por dez mil pessoas.

Um grande telejornal fala sobre ele para milhões.

Mesmo que 99% dos espectadores pensem:

"Que horror."

Ainda resta uma pequena fração pensando:

"Nunca ouvi falar disso."

Uma fração ainda menor pensa:

"Como funciona?"

Outra fração:

"Onde isso acontece?"

E uma fração microscópica:

"Vou procurar."

Agora multiplique "microscópica" por milhões.

Temos um problema de escala.

COBOLzeiros conhecem isso.

Um erro de 0,01% parece irrelevante.

Até processarmos:

100.000.000 TRANSAÇÕES

Então:

0,01% = 10.000

Bem-vindo à Internet.


📊 7. O problema não é porcentagem — é cardinalidade

Essa é uma das grandes lições das redes sociais.

Considere uma reportagem vista por:

10.000.000 pessoas

Vamos inventar apenas um exemplo didático, não uma estatística real.

Suponha:

99,0% ignoram
 0,9% ficam curiosas
 0,1% procuram

Apenas 0,1%.

Parece nada.

Mas:

10.000.000 * 0,001 = 10.000

Dez mil novas buscas.

Agora imagine cem milhões.

100.000.000 * 0,001 = 100.000

A televisão não precisa convencer a maioria.

Às vezes basta apresentar uma palavra a uma minoria estatisticamente pequena dentro de uma audiência gigantesca.


📰 8. Veja, revistas semanais e a Internet explicada aos mortais

Para compreender aquele período precisamos lembrar o poder das revistas semanais brasileiras.

Antes de feeds, newsletters digitais, portais atualizados minuto a minuto e redes sociais, revistas tinham enorme capacidade de definir assuntos.

Uma capa podia transformar algo desconhecido em conversa nacional.

Tecnologia era particularmente interessante porque grande parte da população não entendia aquele novo universo.

Internet parecia simultaneamente:

  • biblioteca;

  • brinquedo;

  • revolução;

  • território sem lei;

  • oportunidade;

  • ameaça;

  • futuro.

Então surgiam matérias tentando explicar:

O que seus filhos estão fazendo na Internet?

Quais são os perigos da rede?

O que existe nos chats?

Quem você encontra online?

Como funcionam essas comunidades?

Isso possuía valor jornalístico legítimo.

O problema estava na granularidade.


🔬 9. Granularidade: a palavra que salva este capítulo

Existe diferença entre dizer:

"Existem comunidades online que distribuem conteúdo ilegal."

e explicar:

"Elas utilizam exatamente estes termos, estes mecanismos, estes caminhos e esta sequência."

A primeira frase informa sobre o risco.

A segunda pode começar a reduzir a fricção necessária para localizar o fenômeno.

Essa diferença é:

granularidade informacional.

Quanto detalhe é necessário?

Segurança cibernética enfrenta exatamente a mesma pergunta.

Imagine descobrir uma vulnerabilidade.

Podemos publicar:

"Existe uma falha crítica. Atualize imediatamente."

Podemos também publicar uma análise técnica suficiente para pesquisadores compreenderem o problema.

Ou podemos entregar instruções operacionalmente completas para exploração imediata.

São níveis diferentes.

Informação não é binária.

Existe resolução.


🧨 10. O telejornal que mostra demais

Existe uma cena clássica em reportagens sobre tecnologia.

O repórter diz:

"Com poucos cliques..."

Pronto.

O sysadmin começa a suar.

A câmera mostra uma tela.

Depois outra.

Um especialista demonstra.

A intenção:

mostrar como é fácil e alertar.

Mas alguém em casa pode estar pensando:

volta a imagem.

Hoje essa pessoa nem precisa voltar.

Pause.

Screenshot.

OCR.

Busca reversa.

IA.

Pesquisa.

Aquilo que em 1997 desaparecia em três segundos de televisão pode ser congelado indefinidamente em 2026.

Isso modifica completamente a responsabilidade editorial sobre detalhes visuais.


🧠 11. Curiosidade não significa intenção criminosa

Aqui precisamos evitar outro erro.

Uma pessoa procurar alguma coisa porque ouviu falar dela não significa automaticamente intenção criminosa.

Curiosidade existe.

Pesquisa acadêmica existe.

Jornalismo existe.

Investigação existe.

Educação existe.

Segurança existe.

História existe.

E existe simplesmente:

"Que diabos é isso?"

A Internet transformou essa pergunta numa ação instantânea.

Antes:

QUE DIABOS É ISSO?
        |
        v
BIBLIOTECA?
ENCICLOPÉDIA?
PERGUNTAR ALGUÉM?
ESQUECER?

Hoje:

QUE DIABOS É ISSO?
        |
        v
SEARCH

O intervalo entre curiosidade e descoberta caiu de horas ou dias para segundos.

Essa redução de fricção é revolucionária.

Para o bem.

E para o mal.


🍎 12. O fruto proibido recebeu SEO

Existe ainda outro mecanismo.

Proibição chama atenção.

Não sempre.

Não para todos.

Mas suficientemente para merecer estudo.

Quando alguém diz:

"Este livro foi proibido."

algumas pessoas imediatamente querem lê-lo.

Quando alguém diz:

"Este filme foi censurado."

surge:

por quê?

Quando alguém diz:

"Não procure isso."

o cérebro humano possui um bug maravilhoso:

IF INSTRUCTION = "DO NOT SEARCH X"
   MOVE "X" TO SEARCH-FIELD
END-IF

Freud provavelmente teria algo a dizer.

O Google certamente tem logs.


🔥 13. O efeito Streisand entra na história

Anos depois, a Internet ganharia uma expressão famosa para um fenômeno relacionado:

Efeito Streisand.

A ideia geral é simples.

Uma tentativa de suprimir determinada informação pode, em certas circunstâncias, chamar ainda mais atenção para ela.

Importante:

pode.

Não significa:

EVERY REMOVAL = MORE VIRAL

Isso seria bobagem.

Muita coisa é removida e efetivamente perde alcance.

Mas alguns casos possuem ingredientes perfeitos:

  • pessoa famosa;

  • tentativa visível de remoção;

  • conflito;

  • curiosidade;

  • comunidade interessada;

  • imprensa;

  • facilidade de cópia.

Então ocorre:

TENTATIVA DE REMOVER
        |
        v
NOTÍCIA SOBRE REMOÇÃO
        |
        v
"MAS O QUE ESTAVAM REMOVENDO?"
        |
        v
BUSCAS
        |
        v
CÓPIAS
        |
        v
MAIOR VISIBILIDADE

O incêndio ganhou cobertura ao vivo.


🧯 14. Isso significa que não devemos remover nada?

Não.

Absolutamente não.

Essa conclusão seria tão equivocada quanto tentar corrigir um S0C7 desligando o mainframe.

Existem conteúdos e condutas cuja remoção é necessária.

Existem obrigações jurídicas.

Existem vítimas.

Existem crimes.

Existem riscos reais.

Existem ambientes que precisam ser moderados.

O ponto é outro:

remover conteúdo e administrar a comunicação sobre a remoção são problemas diferentes.

Você pode precisar remover alguma coisa.

Mas talvez não precise publicar um tutorial involuntário explicando exatamente como encontrar quinze cópias alternativas.

É possível combater sem fazer publicidade.

Difícil?

Muito.

Impossível?

Não.


🗞️ 15. Pânico moral: quando todo adolescente vira suspeito

Agora entra outra criatura.

Moral panic.

Toda geração acredita, em algum momento, que a geração seguinte encontrou a tecnologia definitiva para destruir a civilização.

Quadrinhos.

Rock.

Televisão.

Videogames.

RPG.

Internet.

Chat.

Redes sociais.

Smartphones.

TikTok.

IA.

Algumas preocupações eram ridículas.

Outras eram legítimas.

Muitas misturavam as duas coisas.

Esse é justamente o problema do pânico moral:

ele reduz fenômenos complexos a narrativas simples.

Exemplo:

TECNOLOGIA NOVA
       +
ADOLESCENTES
       +
CASO EXTREMO
       +
TELEVISÃO
       =
"UMA GERAÇÃO EM PERIGO?"

Observe o ponto de interrogação.

É uma tecnologia editorial extraordinariamente resistente ao tempo.


📡 16. A diferença entre risco e espetáculo

Jornalismo precisa tornar assuntos compreensíveis.

Televisão precisa contar histórias.

Histórias precisam de personagens.

Personagens precisam de conflito.

Então um fenômeno estatisticamente raro pode produzir uma narrativa extremamente poderosa.

O problema aparece quando o espectador conclui:

VISIBILIDADE = FREQUÊNCIA

Mas isso não é necessariamente verdade.

Algo pode aparecer muito na mídia justamente porque é extraordinário.

Por outro lado, algo comum pode receber pouca cobertura porque não produz novidade.

Essa diferença será fundamental quando falarmos de crimes em redes sociais.

Um caso chocante não descreve automaticamente toda a plataforma.

Mas também não deve ser descartado simplesmente porque é raro.

Precisamos de contexto.

Mainframeiros chamariam isso de:

olhar o dataset inteiro antes de concluir pela primeira ocorrência.


💾 17. Então chegou o eMule

E agora nossa história fica interessante.

Porque a informação ensinada pela mídia encontrou uma arquitetura que gostava pouco de centros.

P2P.

Peer-to-peer.

Em vez de:

USUÁRIO
   |
   v
SERVIDOR CENTRAL

temos conceitualmente:

     USER-A
      /   \
     /     \
USER-B --- USER-C
   \         /
    \       /
     USER-D

Arquivos podiam existir distribuídos entre usuários.

Isso alterou a lógica da remoção.

Derrubar um servidor central não necessariamente resolvia tudo.

O velho COBOLzeiro pergunta:

— Onde está o MASTER?

Resposta:

— Depende.

Ele começa a ficar irritado.


🫏 18. O burro digital carregando arquivos

O eMule tornou-se um símbolo curioso daquela era.

Para muitos usuários, significava uma transformação profunda.

Você procurava alguma coisa.

Encontrava referências.

Entrava numa fila.

Esperava.

Esperava.

Esperava.

Esperava mais.

Ia dormir.

Acordava.

23%.

Ia trabalhar.

Voltava.

47%.

Dois dias depois:

DOWNLOAD COMPLETE

Abre o arquivo.

Não era aquilo.

Uma geração inteira aprendeu resiliência psicológica dessa maneira.

Mas havia uma revolução por trás da piada.

Distribuição.

Identificadores.

Hashes.

Compartilhamento.

Comunidades.

O arquivo não precisava estar numa única empresa.


🗺️ 19. A imprensa fornecia o mapa; o P2P fornecia a estrada

Agora podemos juntar as peças.

A revista diz:

EXISTE X

O leitor aprende:

X

O mecanismo de busca mostra:

X → Y

O fórum explica:

Y → Z

O P2P oferece:

Z → FILE

Observe que nenhum ator necessariamente controla a cadeia inteira.

Temos:

REVISTA
   |
   v
PALAVRA
   |
   v
BUSCADOR
   |
   v
FÓRUM
   |
   v
P2P
   |
   v
USUÁRIO

É exatamente esse tipo de cadeia distribuída que torna a ideia de "paciente zero" tão sedutora — e frequentemente insuficiente.


📺 20. A televisão denuncia o P2P

Então a televisão descobre o P2P.

Reportagem:

"Milhões de pessoas compartilham arquivos diretamente pela Internet."

Milhões de espectadores:

Diretamente?

"Programas permitem localizar arquivos..."

Programas?

"Entre eles..."

O adolescente pega a caneta novamente.

Bruce Willis bate a cabeça na parede.

O COBOLzeiro pergunta:

— Eles estão fazendo isso de novo?

Sim.

Mas lembre:

eles também estão informando pais, autoridades, empresas, artistas e cidadãos sobre uma transformação tecnológica real.

Esse é o paradoxo.

Não existe solução confortável.


⚖️ 21. Informar ou esconder?

Se a imprensa não fala:

"Estão escondendo!"

Se fala pouco:

"Reportagem superficial!"

Se fala muito:

"Ensinou como fazer!"

Se usa termos técnicos:

"Ninguém entende!"

Se simplifica:

"Sensacionalismo!"

Bem-vindo à produção.

É como documentação.

Ninguém lê.

Até acontecer o incidente.

Então todos perguntam por que ela não tinha 700 páginas.


🔐 22. Responsible disclosure para jornalistas?

Aqui surge uma ideia interessante.

Segurança cibernética desenvolveu práticas de divulgação responsável.

Quando uma vulnerabilidade é descoberta, existe frequentemente uma reflexão sobre:

  • quem precisa saber;

  • quando;

  • quanto detalhe;

  • como corrigir;

  • quando publicar tecnicamente.

Talvez exista uma analogia útil para jornalismo sobre determinados riscos digitais.

Perguntas editoriais poderiam incluir:

01 REPORTAGEM-RISCO.
   05 PUBLIC-INTEREST       PIC X VALUE 'Y'.
   05 NECESSARY-DETAIL      PIC X VALUE 'Y'.
   05 OPERATIONAL-DETAIL    PIC X VALUE 'N'.
   05 COPYCAT-RISK          PIC X VALUE 'Y'.
   05 PROTECTION-GUIDANCE   PIC X VALUE 'Y'.

Não é censura.

É engenharia da informação.


🤔 23. A pergunta que deveria acompanhar cada detalhe

Antes de publicar determinada informação operacional:

O público precisa conhecer este detalhe para compreender ou se proteger?

Se sim, ótimo.

Se não:

Por que estamos publicando?

Para provar que investigamos?

Para tornar a matéria dramática?

Porque a imagem é interessante?

Porque o concorrente mostrou?

Porque gera audiência?

Porque alguém acha que "transparência" significa necessariamente publicar tudo?

Essas perguntas não possuem respostas universais.

Mas precisam existir.


🧑‍🏫 24. O professor enfrenta o mesmo problema

E aqui faço uma confissão profissional coletiva.

Nós, professores de tecnologia, enfrentamos exatamente o mesmo dilema.

Queremos ensinar segurança.

Para ensinar segurança precisamos explicar ataques.

Para explicar ataques precisamos demonstrar vulnerabilidades.

Para demonstrar vulnerabilidades podemos inadvertidamente ensinar técnicas utilizáveis de maneira indevida.

Então existe uma diferença entre:

ensinar o conceito

e

entregar capacidade operacional perigosa sem necessidade.

Essa fronteira muda conforme o assunto.

É por isso que contexto importa.


🤖 25. Em 2026 o problema ficou absurdamente maior

Agora imagine aquela velha reportagem da revista.

Antes, o leitor precisava:

  1. ler;

  2. entender;

  3. anotar;

  4. acessar o computador;

  5. conectar o modem;

  6. procurar;

  7. interpretar resultados.

Hoje:

Screenshot.

Pergunta para uma IA:

"O que significa isso?"

Resposta.

Outra pergunta:

"Qual é o contexto histórico?"

Resposta.

Busca.

Vídeo.

Reddit.

Discord.

Telegram.

Arquivo.

Em minutos.

A distância entre:

NÃO SEI

e:

AGORA SEI O SUFICIENTE PARA CONTINUAR

despencou.

Isso torna a decisão sobre granularidade ainda mais importante.


🧬 26. A informação aprendeu a se recombinar

Outra diferença moderna:

um conteúdo não precisa permanecer no formato original.

Uma matéria vira:

  • tweet;

  • post;

  • vídeo;

  • short;

  • reel;

  • meme;

  • screenshot;

  • thread;

  • comentário;

  • podcast;

  • reação;

  • resumo por IA.

Cada transformação remove alguma coisa.

Acrescenta outra.

Contexto evapora.

A informação sofre mutação.

Lembra do Capítulo I?

O vírus voltou.


🐒 27. O Exército dos 12 Macacos talvez esteja assistindo televisão

Nosso programador finalmente acha que compreendeu.

Ele pergunta:

— Então a mídia é o Exército dos 12 Macacos?

Não.

Seria simples demais.

A imprensa pode ser:

OBSERVADOR

e também:

AMPLIFICADOR

Pode ser:

ALERTA

e acidentalmente:

DISCOVERY MECHANISM

Pode reduzir dano.

Pode aumentar curiosidade.

Pode expor criminosos.

Pode gerar pânico moral.

Pode ensinar proteção.

Pode ensinar uma palavra que ninguém conhecia.

Tudo depende de contexto.


☕ 28. O café esfriou novamente

03:41.

O COBOLzeiro está diante do terminal.

A velha revista continua sobre a mesa.

Ele digita:

TRACE INFORMATION SOURCE

Resposta:

SOURCE FOUND: MAGAZINE

Ele sorri.

Finalmente.

IDENTIFY PATIENT ZERO

Resposta:

ERROR.

MAGAZINE DID NOT CREATE PHENOMENON.

Ele franze a testa.

THEN WHAT DID IT DO?

Silêncio.

Depois:

IT CREATED A DISCOVERY PATH.

Ele olha para Bruce Willis.

— Qual é a diferença?

Bruce responde:

— Toda.


🖥️ 29. O mapa aparece

O terminal começa a desenhar:

              BBS
               |
             USENET
               |
              IRC
               |
              ICQ
               |
            FÓRUNS
               |
             P2P
               |
             BLOGS
               |
          REDES SOCIAIS
          /     |      \
         /      |       \
 FACEBOOK    TWITTER    REDDIT
     |           |         |
 INSTAGRAM    TWITCH     DISCORD
     |           |         |
 WHATSAPP    TELEGRAM -----+

O programador pergunta:

— Isso é uma arquitetura?

Resposta:

NO.

— Um fluxo?

NO.

— Uma topologia?

PARTIALLY.

— Então o que é?

A tela responde:

MIGRATION HISTORY
OF DIGITAL TRIBES.

Bruce Willis pega o café.

Agora entendemos para onde vamos.


🧭 30. A comunidade não morreu — ela mudou de endereço

Essa talvez seja a maior pista do Capítulo II.

Quando determinada plataforma desaparece, suas comunidades não necessariamente desaparecem.

Elas migram.

Quando determinado vocabulário é bloqueado, ele pode mudar.

Quando um fórum fecha, seus usuários podem procurar outro.

Quando uma tecnologia perde popularidade, comportamentos podem reaparecer em outra arquitetura.

BBS não é Discord.

IRC não é Telegram.

eMule não é Reddit.

Facebook não é WhatsApp.

Mas existem linhas culturais atravessando essas gerações.

A humanidade leva consigo:

  • curiosidade;

  • identidade;

  • conflito;

  • amizade;

  • sexualidade;

  • crime;

  • humor;

  • criatividade;

  • tribalismo;

  • cooperação;

  • desejo de pertencimento.

Mudamos o protocolo.

Não necessariamente o usuário.


🐒 31. Easter egg: o paciente zero estava lendo

O terminal mostra uma última mensagem:

BELLACOSA INFORMATION CONTROL FACILITY
--------------------------------------

INCIDENT: INFORMATION OUTBREAK

SOURCE TRACE:

MAGAZINE............. CONFIRMED
TELEVISION........... CONFIRMED
WORD OF MOUTH........ CONFIRMED
SEARCH............... CONFIRMED

PATIENT ZERO......... NOT FOUND

WARNING:

MEDIA DID NOT NECESSARILY
CREATE THE PHENOMENON.

MEDIA MAY HAVE:

1. OBSERVED IT
2. NAMED IT
3. EXPLAINED IT
4. AMPLIFIED IT
5. WARNED ABOUT IT
6. MADE IT SEARCHABLE

--------------------------------------

Nosso programador pensa por alguns segundos.

Então pergunta:

CAN INFORMATION ABOUT A DANGER
BECOME PART OF THE DANGER?

A resposta demora.

Muito.

Finalmente:

YES.

BUT HIDING THE DANGER
CAN ALSO CREATE DANGER.

Silêncio.

Agora ele entende o tamanho do problema.

Não existe:

IF REPORT = GOOD
ELSE REPORT = BAD

Existe contexto.

Granularidade.

Proporcionalidade.

Responsabilidade.

Interesse público.

Consequências.

E seres humanos.

Sempre eles.


🔮 32. Próxima parada: as tribos

Nosso COBOLzeiro fecha a revista.

Acha que finalmente poderá dormir.

O terminal pisca.

Nova mensagem:

NEW INCIDENT DETECTED.

COMMUNITY MIGRATION IN PROGRESS.

SOURCE....... IRC
DESTINATION.. UNKNOWN

SEARCHING...

ICQ
FORUM
EMULE
FACEBOOK
INSTAGRAM
WHATSAPP
REDDIT
TWITTER
TWITCH
TELEGRAM
DISCORD

WARNING:

SAME HUMANS.
NEW ARCHITECTURE.
NEW RULES.
NEW PROBLEMS.

Ele olha para Bruce Willis.

— Discord?

— Sim.

**— É tipo IRC?

Bruce pensa.

— Imagine o IRC ganhando canais persistentes, voz, vídeo, bots, permissões, comunidades gigantes e vinte anos de evolução.

O COBOLzeiro fica animado.

— Então finalmente organizaram tudo!

Bruce Willis começa a rir.

O terminal mostra:

ERROR:
OPTIMISM NOT SUPPORTED.

🖥️ FINAL DO CAPÍTULO II

BELLACOSA MAINFRAME
INFORMATION CONTROL FACILITY
------------------------------------

ARC I STATUS

CHAPTER I
INFORMATION OUTBREAK........ COMPLETE

CHAPTER II
DISCOVERY PATH.............. COMPLETE

PATIENT ZERO................ NOT FOUND

NEW OBJECTIVE:

TRACE DIGITAL TRIBES

BBS......................... DETECTED
USENET...................... DETECTED
IRC......................... DETECTED
ICQ......................... DETECTED
P2P......................... DETECTED
FORUMS...................... DETECTED
SOCIAL NETWORKS............. DETECTED
DISCORD..................... DETECTED

WARNING:

DO NOT ASSUME
NEW PLATFORM = NEW BEHAVIOR.

------------------------------------

NEXT DESTINATION:

FROM EMULE TO DISCORD

COMMAND ===> _

E, em algum lugar de 1998, um adolescente termina de ler uma reportagem sobre os perigos da Internet.

Fecha a revista.

Liga o computador.

O modem começa:

PIIIIIIIIIIIIIII... KRRRRRRRRRR...

Ele coloca ao lado do teclado o papel onde anotou uma palavra que desconhecia quinze minutos antes.

Em algum lugar de 2026, o terminal do Bellacosa Mainframe registra:

NEW SEARCH DETECTED.

Bruce Willis olha para a tela.

— Começou.

CONTINUA...


🐒 Próximo capítulo

ARCO I — CAPÍTULO III

🌐 Do eMule ao Discord — as tribos mudaram de endereço, não desapareceram

BBS, Usenet, IRC, mIRC, ICQ, fóruns, P2P, Facebook, Instagram, WhatsApp, Reddit, Twitter/X, Twitch, Telegram e Discord — uma viagem arqueológica pelas subculturas digitais e pela perturbadora descoberta de que trocamos protocolos, interfaces e algoritmos, mas continuamos levando os mesmos seres humanos dentro da rede.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

🐒 Os 12 Macacos, COBOL e o Vírus que Não Cabia no RACF

 

Bellacosa Mainframe e os 12 macacos cobol virus coisas q nao cabiam no racf

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🐒 Os 12 Macacos, COBOL e o Vírus que Não Cabia no RACF

ARCO I — CAPÍTULO I

Quando a informação começou a se comportar como epidemia

Não era exatamente um vírus. Não destruía arquivos, não formatava discos e não provocava um S0C7. Era muito pior para quem pretendia controlá-lo: era uma ideia.


🕰️ 00:00 — Algum lugar entre 1996 e 2026

Imagine que você é um programador COBOL.

Não um desses personagens cinematográficos que digitam furiosamente:

ACCESS MAINFRAME
HACK PENTAGON
PASSWORD ACCEPTED

Não.

Você é um COBOLzeiro legítimo.

Você acredita em coisas civilizadas.

Dataset tem nome.

Programa tem versão.

Usuário tem identificação.

Arquivo tem catálogo.

Transação tem log.

Acesso tem autorização.

Produção tem RACF.

Problema tem chamado.

E, se Deus, JES2 e o storage permitirem, aquilo que foi gravado em algum lugar pode ser encontrado novamente.

Existe uma certa beleza nisso.

O mainframe é uma civilização construída sobre a ideia de que controle importa.

Então alguém coloca você diante da Internet.

Você olha.

Ela olha de volta.

E pergunta:

— Onde está o catálogo?

Ninguém responde.

— Quem é o administrador?

Silêncio.

— Qual é o nó principal?

Risadas.

— Quem autorizou esse usuário?

Mais risadas.

Então você faz a pergunta definitiva:

— Como eu deleto isso de todos os lugares?

Nesse momento Bruce Willis aparece no corredor, olha para você com aquela expressão cansada de quem já tentou salvar o futuro algumas vezes e responde:

— Você não deleta.

Bem-vindo ao primeiro capítulo.

Coloque café.

Vai piorar.


🐒 1. O Exército dos 12 Macacos entra no CPD

Os 12 Macacos (12 Monkeys, 1995), dirigido por Terry Gilliam, é uma das melhores metáforas possíveis para conversarmos sobre Internet, censura, liberdade, subculturas digitais e circulação de informação.

No filme, a humanidade vive as consequências de uma catástrofe biológica.

Existe um passado.

Existe um futuro devastado.

Existe uma tentativa de descobrir a origem.

Existe informação fragmentada.

Existem interpretações erradas.

Existem pistas.

Existem pessoas tentando impedir acontecimentos que talvez já façam parte da própria história.

E, acima de tudo, existe uma obsessão:

encontrar o paciente zero.

Na Internet fazemos isso o tempo inteiro.

Uma coisa aparece.

Um meme explode.

Uma teoria se espalha.

Uma palavra estranha começa a ser utilizada.

Uma comunidade desconhecida torna-se notícia.

Um comportamento considerado perigoso aparece entre adolescentes.

Uma plataforma é acusada.

Um telejornal pergunta:

"De onde veio isso?"

O governo pergunta.

Os pais perguntam.

A polícia pergunta.

Os jornalistas perguntam.

As plataformas perguntam.

E o velho programador COBOL pergunta algo ainda mais pragmático:

QUAL FOI O JOB QUE GEROU ESSA PORCARIA?

Porque no mainframe essa pergunta faz sentido.

Na Internet, nem sempre.


🦠 2. Informação não é vírus — mas às vezes se comporta como um

Precisamos estabelecer uma diferença importante.

Uma informação não é literalmente um organismo.

Um meme não possui metabolismo.

Uma postagem não tem DNA.

Um vídeo não espirra.

Entretanto, existe uma semelhança fascinante na maneira como conteúdos circulam.

Uma pessoa recebe.

Ela transmite.

Outra modifica.

A terceira retransmite.

Uma comunidade adapta.

Outra comunidade traduz.

Alguém transforma em imagem.

Outro cria uma piada.

Outro inventa uma abreviação.

Outro faz um vídeo.

Alguém denuncia.

Um jornalista publica uma matéria sobre a denúncia.

Milhares de pessoas que jamais tinham ouvido falar do assunto descobrem que ele existe.

Temos então algo parecido com:

PESSOA A
   |
   v
INFORMAÇÃO
   |
   +------> PESSOA B
   |           |
   |           +------> PESSOA D
   |
   +------> PESSOA C
               |
               +------> COMUNIDADE
                           |
                           +------> OUTRA REDE

Só que existe uma diferença terrível.

Durante a transmissão, a informação pode sofrer mutação.

Quem já trabalhou décadas com sistemas conhece perfeitamente o problema.

É o telefone sem fio transformado em arquitetura distribuída.


🧬 3. A mutação digital

Considere uma frase:

"Aconteceu X."

Alguém repassa:

"Parece que aconteceu X."

Outro:

"Confirmaram que aconteceu X."

Outro:

"Estão escondendo que aconteceu X."

Outro:

"A imprensa não quer que você saiba que aconteceu X."

Finalmente aparece:

"URGENTE!!! COMPARTILHE ANTES QUE APAGUEM!!!"

Pronto.

O dado inicial pode ter desaparecido completamente.

O que circula agora não é mais o registro original.

É uma linhagem.

Para um COBOLzeiro isso é perturbador.

Imagine atualizar um cadastro bancário assim:

MOVE WS-SALDO TO CLIENTE-SALDO

mas cada sistema intermediário pudesse decidir:

IF EU-ACHO-QUE-EH-ISSO
   ADD 20 TO CLIENTE-SALDO
END-IF

Seríamos todos milionários aproximadamente quinze minutos antes da intervenção do Banco Central.

Na cultura digital, entretanto, essa transformação acontece continuamente.

Memes são mutações.

Gírias são mutações.

Recortes são mutações.

Remixes são mutações.

Screenshots são mutações de contexto.

Vídeos curtos retirados de vídeos longos podem produzir novas interpretações.

Uma informação deixa de possuir apenas conteúdo.

Ela ganha uma história de transmissão.


🏛️ 4. O mainframe acredita em autoridade

Vamos voltar ao nosso habitat natural.

Imagine um ambiente z/OS.

Existe segurança.

Existe identidade.

Existe autenticação.

Existe autorização.

Existe auditoria.

Temos RACF ou outro produto equivalente trabalhando dentro de uma arquitetura em que recursos podem ser protegidos.

O conceito fundamental é simples:

nem todo usuário pode fazer qualquer coisa.

Se BELLACOSA tentar acessar algo para o qual não possui autorização, podemos encontrar algo conceitualmente semelhante a:

ICH408I USER(BELLACOS)
         ACCESS INTENT(READ)
         ACCESS ALLOWED(NONE)

É frustrante?

Às vezes.

Mas existe lógica.

Existe uma autoridade capaz de dizer:

não.

Agora transportemos esse raciocínio para uma rede mundial formada por bilhões de dispositivos, empresas, governos, redes privadas, servidores, aplicações, protocolos e pessoas.

Quem possui o SPECIAL?

Resposta:

ninguém possui o SPECIAL da Internet inteira.

Esse detalhe muda tudo.


🌐 5. A Internet não nasceu como um grande Facebook

Para as gerações que chegaram depois, é fácil imaginar a Internet como uma coleção de aplicativos.

Instagram.

WhatsApp.

YouTube.

TikTok.

Discord.

Reddit.

Telegram.

X.

Mas a cultura digital é mais antiga que essas interfaces.

Antes dos feeds infinitos existiram comunidades muito mais rudimentares.

BBS.

Usenet.

IRC.

Listas de discussão.

FTP.

Newsgroups.

Fóruns.

Chats.

E posteriormente ICQ, mIRC e inúmeros mecanismos improvisados de encontro.

A Internet daquela época tinha uma característica importantíssima:

você precisava procurar.

Hoje um algoritmo pode decidir:

"Você assistiu sete segundos disso. Talvez queira mais."

Naquela Internet, frequentemente você precisava saber:

  • que determinada comunidade existia;

  • onde ela estava;

  • como chegar;

  • qual programa utilizar;

  • quais palavras eram utilizadas;

  • como conversar;

  • quais regras informais existiam.

Era quase geografia.

Existiam continentes invisíveis.

E as palavras eram coordenadas.


🔤 6. A palavra como endereço

Aqui começa uma das partes mais interessantes de nossa história.

Antes de algoritmos sofisticados compreenderem aproximadamente o que você deseja, saber o vocabulário correto era poder.

Você poderia procurar durante horas por uma coisa sem encontrá-la simplesmente porque não conhecia a palavra usada por aquela comunidade.

Então alguém ensinava o termo.

E tudo mudava.

É como entrar no ISPF sem saber o nome do dataset.

Você sabe que alguma coisa existe.

Mas tente procurar:

'ALGUMA.COISA.QUE.NAO.SEI'

Boa sorte.

Agora alguém cochicha:

HLQ.PROJETO.ARQUIVO

Pronto.

A porta apareceu.

É por isso que vocabulários, códigos, abreviações e gírias possuem tanta importância nas subculturas digitais.

Eles funcionam simultaneamente como:

identidade, filtro, senha cultural e mecanismo de descoberta.

E aqui começa nosso primeiro grande paradoxo.


📰 7. O jornalista quer alertar

Imagine um telejornal dos anos 1990.

Ou uma revista semanal.

A pauta é:

"Os perigos da Internet."

A intenção pode ser absolutamente legítima.

Pais precisam conhecer riscos.

Professores precisam compreender novos comportamentos.

Autoridades precisam saber que determinados fenômenos existem.

O público precisa ser informado.

Então a reportagem explica:

"Existe uma nova prática chamada X."

O espectador em casa pensa:

X?

A reportagem continua:

"Usuários encontram esse material procurando pela expressão Y."

O espectador pega uma caneta.

Y.

"Eles utilizam programas como Z."

Anotado.

Temos agora um fenômeno curioso.

Antes da reportagem:

USUARIO-CONHECE-ASSUNTO = 'N'
USUARIO-CONHECE-TERMO   = 'N'
USUARIO-CONHECE-MEIO    = 'N'

Depois:

USUARIO-CONHECE-ASSUNTO = 'S'
USUARIO-CONHECE-TERMO   = 'S'
USUARIO-CONHECE-MEIO    = 'S'
CURIOSIDADE             = 100

O alerta também transmitiu conhecimento operacional.


☢️ 8. Informação sobre perigo também é informação

Isso não significa que a imprensa deva esconder perigos.

Muito pelo contrário.

Existe interesse público em informar.

O problema é mais sofisticado:

quanto detalhe é necessário para explicar um risco sem transformar a explicação em mecanismo de descoberta?

Essa pergunta existia antes da Internet.

Mas a Internet multiplicou sua importância.

Imagine um telejornal dizendo:

"Existe um golpe bancário."

Ótimo.

Agora imagine que, para demonstrar o perigo, ele descreva detalhadamente cada etapa operacional necessária para reproduzi-lo.

Em determinado ponto, educação e exposição operacional começam a se aproximar perigosamente.

Segurança da informação conhece esse dilema há décadas.

Divulgação responsável de vulnerabilidades existe justamente porque:

conhecimento pode proteger e atacar.

Tudo depende de contexto, detalhe, intenção e capacidade.


🔥 9. O fruto proibido recebeu hyperlink

Existe ainda uma característica profundamente humana.

Diga:

"Não abra aquela porta."

O cérebro responde:

"O que existe atrás daquela porta?"

Diga:

"Não pesquise essa palavra."

E acabamos de ensinar uma palavra nova.

Diga:

"Esse site é tão absurdo que deveria desaparecer."

E algumas pessoas perguntarão:

"Qual site?"

Isso não significa que toda proibição aumente necessariamente a circulação de conteúdo.

Esse seria um erro importante.

Remoções podem funcionar.

Moderação pode reduzir exposição.

Desindexação pode dificultar descoberta.

Investigações podem desmontar redes criminosas.

Controles podem proteger vítimas.

Mas existe uma variável que nenhum IF elimina completamente:

01 HUMAN-CURIOSITY PIC 9(03) VALUE 999.

E ela participa de praticamente toda a história da comunicação.


🚨 10. Censura, moderação e crime não são sinônimos

Precisamos colocar uma placa enorme neste capítulo:

NÃO JOGUE TUDO NO MESMO OCCURS.

Quando alguém diz:

"Isso é censura!"

precisamos perguntar:

Quem removeu?

Foi o Estado?

Foi uma ordem judicial?

Foi uma empresa privada aplicando suas regras?

Foi o administrador de uma comunidade?

Foi um moderador?

Foi um sistema automático?

Houve crime?

Houve apenas violação dos termos de serviço?

São situações diferentes.

Um administrador expulsar alguém de um servidor Discord não possui automaticamente o mesmo significado jurídico de um Estado proibir determinada manifestação.

Uma plataforma remover conteúdo segundo suas políticas também não é automaticamente equivalente a uma condenação criminal.

E uma investigação policial sobre uma conduta prevista em lei não pode ser reduzida simplesmente a:

"Estão censurando a Internet."

Essa distinção será fundamental quando chegarmos ao ECA.

Porque existe uma fronteira em que nossa conversa deixa de tratar apenas de liberdade e passa a tratar também de proteção de pessoas vulneráveis e condutas criminalizadas pela legislação brasileira.

Esse assunto merece capítulo próprio.

E terá.


👶 11. A variável que muda toda a equação

Existe uma diferença enorme entre uma comunidade formada exclusivamente por adultos e ambientes frequentados também por crianças e adolescentes.

Não apenas culturalmente.

Juridicamente.

Eticamente.

Arquitetonicamente.

Um serviço digital pode pensar:

USER = USER

A sociedade não pode simplesmente fazer isso.

Idade importa.

Vulnerabilidade importa.

Assimetria de poder importa.

Exploração importa.

A legislação brasileira estabelece proteção especial a crianças e adolescentes.

Consequentemente, quando começarmos a discutir Discord, Telegram, WhatsApp, fóruns e comunidades digitais, não será suficiente perguntar:

"Existe liberdade de expressão?"

Precisaremos também perguntar:

"Quem está naquele ambiente?"

E:

"O que está acontecendo com essas pessoas?"

Liberdade não transforma crime em opinião.

Da mesma maneira, preocupação com crime não deveria transformar qualquer comportamento estranho, subcultura ou manifestação desagradável automaticamente em crime.

Essa distinção é difícil.

Por isso ela importa.


🧑‍💻 12. Nasce a tribo digital

Agora chegamos às subculturas.

Toda comunidade humana cria linguagem.

Médicos fazem isso.

Advogados fazem.

Militares fazem.

Programadores fazem.

Mainframeiros fazem isso de maneira quase criminosa.

Experimente colocar uma pessoa normal numa conversa:

"O AOR chamou o programa via LINK, pegou AEI9 porque o arquivo estava indisponível, depois vimos no SDSF que o batch tinha quebrado e precisamos conferir o RACF."

A pessoa pergunta:

Vocês são uma seita?

Talvez.

Mas esse vocabulário possui função.

Ele comprime conhecimento.

Quem conhece o contexto entende rapidamente.

Subculturas digitais fazem exatamente a mesma coisa.

Criam:

  • palavras;

  • abreviações;

  • memes;

  • referências;

  • símbolos;

  • piadas internas;

  • códigos;

  • maneiras específicas de escrever.

Isso gera pertencimento.

Mas também pode dificultar a compreensão externa.


🕵️ 13. Quando o moderador aprende a palavra

Imagine uma plataforma tentando impedir determinado comportamento.

Ela descobre que usuários utilizam:

PALAVRA-X

Então cria:

IF MESSAGE CONTAINS PALAVRA-X
    BLOCK MESSAGE
END-IF

Problema resolvido?

Claro que não.

Somos programadores.

Sabemos que nunca termina no primeiro IF.

Os usuários percebem.

Substituem a palavra.

O sistema aprende a nova palavra.

Os usuários inventam outra.

Entram abreviações.

Depois imagens.

Depois memes.

Depois contexto.

Depois ironia.

Depois códigos conhecidos apenas pelos membros.

Temos uma corrida:

FILTRO
   ↓
ADAPTAÇÃO
   ↓
NOVO FILTRO
   ↓
NOVA ADAPTAÇÃO
   ↓
CLASSIFICADOR
   ↓
NOVO DIALETO
   ↓
IA
   ↓
NOVO CONTEXTO

É uma guerra semântica.

E estamos apenas começando.


🐒 14. Onde estão os 12 Macacos?

Essa é a pergunta perfeita.

Quando alguma coisa ruim acontece numa comunidade digital, existe uma tentação enorme de procurar:

O grupo responsável.

Pode existir.

Em crimes organizados, evidentemente pode haver indivíduos, grupos, estruturas e responsabilidades identificáveis.

Mas fenômenos culturais amplos frequentemente não possuem uma única sala secreta onde doze pessoas decidiram:

"A partir de amanhã todos farão isso."

Eles emergem.

Um usuário copia outro.

Uma piada atravessa comunidades.

Um termo migra.

Um algoritmo recomenda.

Um influenciador comenta.

Um jornal noticia.

Um adversário denuncia.

Alguém publica a denúncia.

A denúncia viraliza.

Pessoas descobrem o conteúdo através da própria denúncia.

Agora tente desenhar o diagrama de causa.

Boa sorte.


🧮 15. O COBOLzeiro procura o ROOT CAUSE

Nós fomos treinados para isso.

Produção caiu.

War Room.

Café.

Logs.

Dump.

SMF.

Abend.

Horário.

Mudança.

Programa.

Transação.

Dataset.

ROOT CAUSE.

Encontramos.

Corrigimos.

Documentamos.

Encerramos incidente.

Na cultura digital, frequentemente encontramos isto:

CAUSE-A ---> EVENT
CAUSE-B ---> EVENT
CAUSE-C ---> EVENT
     ^         |
     |         v
     +----- REACTION
              |
              v
            MEDIA
              |
              v
          MORE USERS
              |
              v
           EVENT-2

A consequência alimenta a causa.

É feedback.

A notícia modifica o fenômeno noticiado.

A moderação modifica o comportamento moderado.

A proibição modifica o vocabulário.

O algoritmo modifica aquilo que as pessoas produzem.

As pessoas aprendem a modificar o conteúdo para agradar ao algoritmo.

E o algoritmo aprende com aquilo que as pessoas modificaram para agradá-lo.

Terry Gilliam provavelmente sorriria.


📡 16. Ontem você procurava a subcultura

Existe uma diferença que será essencial nos próximos capítulos.

Na velha Internet, muitas comunidades eram relativamente difíceis de encontrar.

Era preciso conhecer alguém.

Saber um endereço.

Encontrar um fórum.

Descobrir um canal.

Aprender uma palavra.

Instalar determinado programa.

Isso criava fricção.

Fricção é uma coisa subestimada.

Para chegar ao conteúdo você precisava executar:

INTERESSE
   +
CONHECIMENTO
   +
FERRAMENTA
   +
ESFORÇO

Hoje existe outra possibilidade:

INTERESSE = 0

ALGORITHM:
    SHOW CONTENT

Você não encontrou a comunidade.

A comunidade encontrou você.

Essa transformação talvez seja uma das maiores mudanças da história das subculturas digitais.

E será central quando chegarmos às redes sociais.


🤖 17. O algoritmo não precisa gostar de você

Outra confusão frequente:

"O algoritmo quer isso."

Algoritmos não precisam possuir desejos humanos.

Um sistema de recomendação pode simplesmente estar otimizado para algum conjunto de objetivos.

Clique.

Retenção.

Visualização.

Interação.

Engajamento.

Conversão.

Se determinado conteúdo produz reação, ele pode ganhar circulação dependendo da arquitetura e dos critérios utilizados.

E indignação também é interação.

Você vê algo absurdo.

Comenta:

"QUE ABSURDO!"

Compartilha:

"VEJAM QUE ABSURDO!"

Cinco pessoas respondem.

Três brigam.

Alguém faz vídeo respondendo.

Parabéns.

Você talvez tenha acabado de fornecer sinais de interesse ao ecossistema que desejava combater.

É o equivalente digital a tentar apagar incêndio com:

//EXTING JOB
//STEP01 EXEC PGM=IEBGENER
//SYSUT1 DD *
     GASOLINA
/*

📰 18. O paradoxo da denúncia

Isso nos leva novamente à imprensa.

Denunciar é necessário.

Investigar é necessário.

Informar é necessário.

Mas a forma da informação importa.

Existe diferença entre:

"Autoridades identificaram determinada prática perigosa e explicamos como se proteger."

e fornecer detalhes desnecessários que facilitem reprodução ou descoberta.

O mesmo problema aparece em:

  • segurança cibernética;

  • golpes;

  • desafios perigosos;

  • extremismo;

  • automutilação;

  • exploração;

  • fraudes;

  • determinadas comunidades criminosas.

Existe um equilíbrio delicado entre:

informar suficientemente para proteger

e

detalhar suficientemente para ensinar.

Não existe algoritmo perfeito para determinar essa fronteira.

Nem jornalista perfeito.

Nem moderador perfeito.

Nem IA perfeita.


🧠 19. A memória humana é o backup que ninguém consegue apagar

Agora chegamos ao detalhe que destrói definitivamente nosso sonho de DELETE.

Suponha que uma informação seja removida.

Servidor apagado.

Postagem removida.

Conta excluída.

Acabou?

Não necessariamente.

Alguém viu.

Alguém lembra.

Alguém anotou.

Alguém tirou screenshot.

Alguém comentou em outro lugar.

Alguém explicou para outra pessoa.

Mesmo que todas as cópias digitais desaparecessem magicamente, existe um dispositivo extremamente inconveniente:

cérebro humano.

Não possui interface REST confiável.

Não aceita DELETE.

Não possui transação distribuída.

E frequentemente altera os registros sem preservar o original.

É provavelmente o pior banco de dados já colocado em produção.

Mesmo assim, continuamos utilizando há alguns milhares de anos.


🦠 20. O verdadeiro vírus

Talvez agora possamos entender nossa metáfora.

O vírus de nossa história não é Facebook.

Não é Discord.

Não é Telegram.

Não é Reddit.

Não é televisão.

Não é jornal.

Não é eMule.

Não é IRC.

Não é algoritmo.

Essas coisas são, dependendo do contexto, ambientes, vetores, amplificadores, filtros ou barreiras.

O elemento que atravessa todos eles é:

INFORMAÇÃO.

E informação possui uma característica extraordinária:

ela pode ser copiada sem que o original desapareça.

Se eu lhe entregar meu relógio, fico sem relógio.

Se eu lhe entregar uma informação, agora somos dois possuindo a informação.

Isso muda completamente a economia da propagação.


☕ 21. Easter egg: o operador recebe uma mensagem

São 03:17.

Nosso programador está sozinho no CPD.

Existe uma caneca de café cuja composição química já não pode ser determinada pelas técnicas disponíveis à ciência.

O terminal 3270 pisca.

Surge uma mensagem que ele não reconhece:

BELLACOSA INFORMATION CONTROL FACILITY
--------------------------------------

SYSTEM TIME....: UNKNOWN
ORIGIN.........: UNKNOWN
NETWORK........: GLOBAL

INCIDENT TYPE..: INFORMATION OUTBREAK

PATIENT ZERO...: NOT FOUND
COPIES.........: UNKNOWN
MUTATIONS......: ACTIVE

ENTER COMMAND ===> _

O programador pensa.

Digita:

DELETE INFORMATION

Resposta:

COMMAND REJECTED

REASON:
INFORMATION EXISTS ON REMOTE NODES.

Ele tenta:

DELETE REMOTE NODES

Resposta:

COMMAND REJECTED

REASON:
REMOTE NODES ARE NOT UNDER YOUR AUTHORITY.

Irritado:

RACF PERMIT INTERNET CLASS(*) ACCESS(NONE)

Silêncio.

Então:

ICH408I INTERNET NOT DEFINED TO RACF

O programador tira os óculos.

Olha para o café.

Olha novamente para a tela.

Finalmente pergunta:

WHO CONTROLS INTERNET?

O cursor permanece parado por alguns segundos.

Então surge:

NO SINGLE OWNER FOUND.

Mais uma linha:

WARNING:
SEARCHING FOR PATIENT ZERO MAY CHANGE THE OUTBREAK.

E outra:

12 MONKEYS STATUS: UNKNOWN

A tela apaga.


🐒 22. E talvez esse seja o verdadeiro problema

Passamos décadas tentando aplicar metáforas do mundo físico ao digital.

Biblioteca.

Página.

Documento.

Lixeira.

Pasta.

Arquivo.

Correio.

Endereço.

Comunidade.

Parede.

Amigo.

Seguidor.

Canal.

Todas ajudam.

Nenhuma explica completamente o fenômeno.

Talvez precisemos acrescentar outra:

epidemiologia da informação.

Não para dizer que ideias são doenças.

Isso seria simplista e perigoso.

Mas para compreender que informação possui:

  • origem;

  • transmissão;

  • alcance;

  • mutação;

  • comunidades;

  • barreiras;

  • vetores;

  • amplificadores;

  • resistência;

  • memória.

E, principalmente, efeitos inesperados das tentativas de intervenção.


🔮 23. O que vem depois

Nosso COBOLzeiro ainda acredita que conseguirá encontrar o paciente zero.

Coitado.

No próximo capítulo vamos colocá-lo diante de algo ainda mais estranho.

Uma revista ou um telejornal deseja proteger o público.

Produz uma reportagem sobre alguma coisa que poucas pessoas conhecem.

Explica o nome.

Mostra o fenômeno.

Apresenta o vocabulário.

Talvez indique até os ambientes nos quais aquilo circula.

No dia seguinte milhares de curiosos sabem uma coisa que não sabiam anteriormente:

o que procurar.

E começaremos a investigar uma pergunta desconfortável:

É possível denunciar alguma coisa sem também aumentar sua visibilidade?

Porque existe uma diferença gigantesca entre dizer:

"Existe uma porta perigosa."

e explicar:

"A porta fica no terceiro corredor, à esquerda, e esta é a palavra escrita nela."


🖥️ FINAL DO CAPÍTULO I

No CPD, o terminal volta a acender sozinho.

BELLACOSA MAINFRAME
------------------------------------

INCIDENT: INFORMATION OUTBREAK

PATIENT ZERO........ NOT FOUND
TRANSMISSION........ ACTIVE
MUTATION............ ACTIVE
HUMAN CURIOSITY..... ACTIVE

NEXT TRACE SOURCE:

   [ ] BBS
   [ ] USENET
   [ ] IRC
   [ ] TELEVISION
   [ ] NEWSPAPER
   [X] MAGAZINE

SOURCE IDENTIFIED:

VEJA

WARNING:

THE SOURCE MAY NOT HAVE CREATED
THE INFORMATION.

IT MAY HAVE DONE SOMETHING
FAR MORE INTERESTING:

TAUGHT PEOPLE WHAT TO SEARCH FOR.

------------------------------------

ARC I
CHAPTER I........... COMPLETE
CHAPTER II.......... WAITING

COMMAND ===> _

Bruce Willis observa o terminal.

O COBOLzeiro pergunta:

— Então no próximo capítulo encontramos o culpado?

Bruce Willis balança a cabeça.

— Não.

— Encontramos pelo menos o paciente zero?

— Também não.

— Então o que encontramos?

Ele olha para uma velha revista sobre a mesa.

— O manual.

CONTINUA...


🐒 Próximo capítulo

ARCO I — CAPÍTULO II

📺 "Não procure isto na Internet" — e milhões descobriram o que procurar

Revista Veja, televisão, jornais, palavras-chave, curiosidade, pânico moral, efeito Streisand e o curioso período da história em que uma reportagem podia tentar ensinar os pais a proteger os filhos — enquanto um adolescente diante do computador anotava cuidadosamente cada palavra nova que aparecia na matéria.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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