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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

Ou: antes do Teams, do escritório inteligente e do RH falar em “engajamento”, já existiam o Clube da Veja, o Clube da Bolacha, a vaquinha do aniversário, o churrasco da firma — e uma certa Rosalaine capaz de fazer um office-boy correr mais rápido que Hermes

Pegue um café.

Hoje não vamos falar de COBOL.

Não haverá CICS, Db2, VSAM, JCL nem abend misterioso esperando no fim do artigo.

Hoje vamos abrir um arquivo muito mais antigo e talvez mais complicado de restaurar.

O backup da memória.

A culpa começou com a revista Veja.

Outro dia, enquanto remexia algumas lembranças envolvendo a revista, aconteceu aquilo que frequentemente ocorre com quem já possui algumas décadas de dados armazenados no HD biológico: você procura um arquivo e descobre um diretório inteiro.

Uma lembrança chamou outra.

Depois outra.

E mais outra.

Quando percebi, não estava mais pensando na revista.

Estava novamente dentro de um escritório da Avenida Paulista, antes do ano 2000, numa época em que palavras como smart office, employee experience, collaboration platform, digital workplace e people analytics ainda não haviam sido inventadas para explicar coisas que nós simplesmente chamávamos de:

trabalhar com gente.

Para otimizar essa memória, convoquei três consultores especializados em observar o comportamento do brasileiro:

Laerte, Glauco e Angeli.

E, naturalmente, deixei o temível Leão de Chácara cuidando da porta.

Porque memória corporativa antiga não é assunto para amadores.


🏢 O escritório antes de virar “workspace”

Quem começou a trabalhar nas últimas duas décadas talvez tenha dificuldade para imaginar o tamanho de alguns departamentos empresariais dos anos 1980 e 1990.

Hoje uma atividade pode passar por ERP, workflow, e-mail, portal corporativo, API, chatbot, RPA, inteligência artificial e meia dúzia de sistemas.

Naquela época, boa parte dessa infraestrutura tinha nome, sobrenome e crachá.

Eram pessoas.

Muitas pessoas.

Departamentos com cinquenta, sessenta, oitenta funcionários não eram particularmente estranhos.

Alguns chegavam perto de uma centena.

Dentro deles havia setores menores, frequentemente três ou quatro, cada qual com sua chefia, suas mesas, seus arquivos, seus telefones e seus pequenos universos.

Existia o organograma oficial:

Diretor → Gerente → Chefes → Setores → Funcionários.

Mas havia outro organograma.

Nunca impresso.

Nunca aprovado pela diretoria.

Nunca enviado ao RH.

E provavelmente muito mais importante para entender como aquela empresa realmente funcionava.


Era o organograma social.

Nele estavam as secretárias, os office-boys, o pessoal que sabia onde ficava determinada pasta, quem conhecia alguém na contabilidade, quem sabia qual gerente estava de bom humor, quem organizava o aniversário, quem cobrava a vaquinha, quem fazia o café e quem sabia onde estava a revista que desaparecera havia três dias.

Era uma rede.

Só não chamávamos de rede social.


👩‍💼 A secretária era o roteador social do departamento

A secretária daquela época merece um capítulo próprio.

Aliás, merece uma homenagem.

Sua função formal podia envolver agenda, telefone, correspondência, documentos, reuniões e suporte administrativo.

Mas sua função real era muito maior.

Ela sabia quem estava de férias.

Quem faltara.

Quem precisava falar com o gerente.

Quem estava esperando uma ligação.

Quem fazia aniversário naquela semana.

Quem ia casar.

Quem acabara de ter filho.

Quem estava prestes a se aposentar.

Quem ainda não havia pago a vaquinha.

E, naturalmente, quem estava enrolando para pagar a assinatura da revista.

Em termos mainframeiros, a secretária era simultaneamente:

Scheduler + Service Desk + Workflow + Event Manager + Social Network + Knowledge Base.

Com uma vantagem importante:

ela conhecia as pessoas.

E existia uma hierarquia entre elas.

Cada setor podia possuir sua secretária e uma secretária departamental ajudava a coordenar aquele pequeno universo.

Não estava escrito no organograma informal.

Não precisava.

Todo mundo sabia.


📰 O Clube da Assinatura

Eis uma instituição praticamente desaparecida:

o Clube da Assinatura.

O departamento assinava uma revista.

No nosso caso, entre elas estava a Veja.

Cada participante contribuía com uma pequena cota e, quando chegava o vencimento, entrava em funcionamento um sofisticadíssimo sistema financeiro.

A secretária.

— Pessoal, chegou a hora da assinatura.

Pronto.

Começava a arrecadação.

Não havia PIX.

Não havia aplicativo.

Não havia link de pagamento.

Havia dinheiro, controle, cobrança e memória.

Especialmente memória.

Porque a secretária sabia perfeitamente quem ainda não tinha pago.

Quando a revista chegava, começava outro protocolo.

Ela circulava.

Alguém lia.

Passava para outro.

Esse levava para o almoço.

Outro perguntava:

— Cadê a Veja?

— Está com o fulano.

Era uma espécie de Token Ring editorial.

O pacote precisava circular pelos nós da rede até completar o percurso.

E ninguém precisava de Wi-Fi.


🍪 O Clube da Bolacha

Mas o verdadeiro sistema crítico ficava dentro de um armário.

O Clube da Bolacha.

Cada participante contribuía com um ticket-almoço e, com os recursos arrecadados, abastecíamos um dos armários do departamento.

Aquilo era um pequeno paraíso da gula.

Bolachas.

Biscoitos.

Doces.

Salgados.

Coisas destinadas a salvar funcionários naquele momento crítico entre o almoço e o fim do expediente.

Hoje talvez alguém criasse um projeto chamado:

Corporate Employee Snack Experience Initiative.

Nós chamávamos de:

armário da bolacha.

Funcionava perfeitamente.

Até alguém comer a última.

Aí tínhamos um incidente de produção.

— QUEM ACABOU COM A BOLACHA E NÃO AVISOU?

Severity 1.

War Room imediatamente.

Laerte, Glauco e Angeli poderiam passar uma semana naquele departamento e sair com material para cinco anos.


🎂 A indústria da vaquinha

Outro componente essencial da infraestrutura corporativa era a:

vaquinha.

Tudo justificava uma.

Aniversário?

Vaquinha.

Casamento?

Vaquinha.

Nascimento de filho?

Vaquinha.

Aposentadoria?

Vaquinha.

Dia da Secretária?

Vaquinha.

Ocasião especial?

Evidentemente:

vaquinha.

Nos aniversariantes do mês, juntava-se dinheiro para comprar bolo e alguma lembrancinha.

E então surgia outro artefato arqueológico maravilhoso:

o cartão.

O cartão circulava clandestinamente pelo departamento.

Todo mundo precisava assinar sem que o homenageado percebesse.

Era uma operação de inteligência.

— Passa para o João.

— Mas não deixa a Maria ver.

— O Carlos ainda não assinou.

— Cadê o cartão?

— Está no financeiro.

No final apareciam dezenas de assinaturas.

Algumas simplesmente:

Parabéns!

Outras:

Muitas felicidades!

Outras continham piadas internas que provavelmente seriam completamente indecifráveis para qualquer arqueólogo digital de 2126.

Mas aquele cartão tinha uma coisa que nenhum botão de 👍 conseguiu substituir completamente.

Ele havia passado pelas mãos das pessoas.



❤️ A empresa entrava um pouco na vida

É preciso tomar cuidado para não transformar nostalgia em história cor-de-rosa.

Os escritórios antigos também tinham problemas.

Hierarquias pesadas.

Burocracia.

Chefias ruins.

Fofocas.

Favoritismos.

Conflitos.

Tecnologia limitada.

Processos que hoje consideraríamos absurdamente ineficientes.

Não estou propondo ressuscitar tudo aquilo.

Mas havia uma característica interessante:

a fronteira entre vida profissional e convivência social era diferente.

Quando alguém casava, o departamento comemorava.

Quando nascia um filho, comemorava.

Quando alguém fazia aniversário, comemorava.

Quando se aposentava depois de décadas, aquilo era um acontecimento.

E quando algo ruim acontecia, aquela mesma rede também aparecia.

Éramos colegas de trabalho.

Mas frequentemente funcionávamos como uma espécie de família estendida.

Com todas as vantagens e todos os defeitos que famílias estendidas possuem.


🏃 E no meio disso tudo havia o office-boy

Agora chegamos ao personagem que vos escreve.

O office-boy.

Hoje talvez seja difícil explicar a importância daquele sujeito correndo de um lado para outro.

O office-boy atravessava a empresa inteira.

Levava documentos.

Buscava assinaturas.

Ia ao banco.

Passava pelo protocolo.

Entregava correspondência.

Subia.

Descia.

Entrava no elevador.

Saía do prédio.

Atravessava a Paulista.

Voltava.

Levava outro documento.

Recebia outra missão.

Era uma espécie de:

TCP/IP humano.

Os pacotes eram envelopes.

O roteamento era feito de memória.

E o traceroute podia envolver quinze andares e uma agência bancária.

Como office-boy, tive a sorte de conhecer muita gente.

E entre as pessoas que marcaram aqueles primeiros tempos estavam algumas das primeiras secretárias com quem trabalhei.

Elizabeth, nossa Bethinha.

Ana Maria.

Terezinha.

Cecilia.

Depois vieram Maria Aparecida, Nilce, Eliza, Benzão, Debora, Cristina, Adriana e tantas outras mulheres com quem tive a honra de trabalhar.

E havia...

Rosalaine.


🐺 “É o lobo... é o lobo!”

Rosalaine tinha uma característica impossível de registrar num currículo.

A voz.

Era uma voz de fada.

Angelical.

Leve.

Quase adolescente.

Mas Rosalaine era uma mulher adulta.

E havia um antigo personagem de desenho animado cuja fala eu adorava ouvi-la imitar.

Eu chegava perto.

— Rosalaine...

Ela provavelmente já sabia.

— O quê, Vagner?

— Fala.

— Falar o quê?

Eu insistia.

Até que vinha aquela voz:

— É o lobo... é o lobo!

Pronto.

Podia acabar o expediente.

O dia já tinha valido a pena.

Para aquele office-boy, ouvir Rosalaine dizendo “é o lobo, é o lobo” era praticamente um benefício corporativo não declarado.

E havia outro pequeno problema.

Eu era apaixonado por ela.

Consequentemente, o sistema de prioridades do office-boy apresentava uma pequena vulnerabilidade conhecida pelas demais secretárias.


⚡ SLA ROSALAINE

As outras perceberam rapidamente.

Pedido normal?

Vagner executava.

Pedido urgente?

Vagner corria.

Pedido da Rosalaine?

O espaço-tempo sofria uma pequena deformação.

E naturalmente começaram as piadas.

Uma delas ficou na memória:

“Se for a Rosalaine a pedir para o Vagner, ele faz mais rápido que Hermes.”

Eu provavelmente protestava.

— Nada a ver!

E elas:

— Sei...

— Eu faço rápido para todo mundo!

— Claro, Vagner.

— Faço mesmo!

Bastaria então alguém chamar:

— Rosalaine, pede você para ele.

Fim da discussão.

Porque provavelmente, antes que ela terminasse:

— Vagner, você poderia...

FUUUUSH!

Cadê o office-boy?

Já estava no elevador.


🪽 Mais rápido que Hermes

Décadas depois percebo que a piada era melhor do que talvez imaginássemos.

Hermes, na mitologia grega, era justamente o mensageiro dos deuses.

E o que fazia o office-boy?

Levava mensagens.

Documentos.

Envelopes.

Ordens.

Papéis.

Atravessava territórios carregando informação.

Eu era praticamente um Hermes corporativo da Avenida Paulista.

Só havia uma diferença.

Hermes tinha velocidade divina.

Eu tinha Rosalaine dizendo:

— Vagner...

Nesse momento, meu caro Hermes:

saia da frente.


🎄 O churrasco e a festa da firma

E então chegávamos ao encerramento anual daquele grande organismo social.

O churrasco.

Às vezes viajávamos para uma pousada da própria empresa.

Em outras ocasiões alugávamos uma chácara.

E lá ia o departamento.

Chefes.

Funcionários.

Secretárias.

Famílias.

Namorados.

Maridos.

Esposas.

Filhos.

O sujeito que durante onze meses aparecia impecavelmente vestido surgia de bermuda diante da churrasqueira.

O gerente encontrava seus subordinados fora do habitat corporativo.

As famílias finalmente conheciam aquelas pessoas cujos nomes ouviam durante o ano inteiro.

— Ahhh, então VOCÊ é o fulano!

Frase perigosíssima.

Dependendo da quantidade de cerveja consumida, segredos corporativos podiam começar a vazar.

E então havia a grande instituição:

A Festa de Final de Ano da Empresa

Comentadíssima.

Esperada.

Patrocinada pela empresa.

Não era simplesmente um evento no calendário.

Era um ritual.

Porque naquela época existia uma regra não escrita:

Não bastava ser funcionário. Tinha que participar.


🧠 A empresa que não aparecia no organograma

Quarenta anos depois, algo curioso acontece.

Eu não consigo lembrar de todos os documentos que transportei.

Não lembro de todos os protocolos.

Não lembro de cada assinatura que busquei.

Não lembro de cada tarefa considerada urgentíssima.

Muitas coisas pelas quais alguém provavelmente disse:

“Vagner, isso precisa estar pronto HOJE!”

desapareceram completamente.

Urgentíssimas em 1980 e tantos.

Irrelevantes em 2026.

Mas lembro do Clube da Assinatura.

Lembro do armário da bolacha.

Lembro das vaquinhas.

Lembro dos cartões.

Lembro dos aniversários.

Lembro dos churrascos.

Lembro das festas.

Lembro das secretárias.

E lembro de uma voz dizendo:

“É o lobo... é o lobo!”

Talvez exista uma lição interessante nisso.

A memória humana possui seu próprio algoritmo de retenção.

E aparentemente ele não respeita as prioridades corporativas.


🤖 Então chegou o escritório inteligente

Nas décadas seguintes fizemos uma coisa extraordinária.

Automatizamos.

Digitalizamos.

Otimizamos.

Reduzimos departamentos.

Criamos workflows.

ERPs.

CRMs.

Portais.

Self-service.

E-mail.

Mensagens instantâneas.

Videoconferência.

Automação.

Inteligência artificial.

Hoje equipes muito menores conseguem realizar trabalhos que antigamente exigiam dezenas de pessoas.

Isso é progresso.

Não tenho saudade de carregar papel porque alguém precisava fisicamente transportar informação entre dois pontos.

Não quero trocar APIs por office-boys.

Não quero substituir workflow por pastas circulando de mesa em mesa.

Seria absurdo.

Mas talvez tenhamos cometido um pequeno erro conceitual.

Ao eliminar a ineficiência, às vezes eliminamos junto coisas que não eram ineficiência.

O armário da bolacha não era workflow.

O cartão de aniversário não era processo.

A vaquinha do casamento não era produtividade.

O churrasco não era KPI.

A secretária sabendo que alguém estava vivendo uma semana difícil não era people analytics.

A piada sobre Rosalaine e Hermes não aparecia em nenhuma métrica de desempenho.

Mas tudo isso criava uma coisa dificílima de medir:

pertencimento.


🏭 Quando eficiência demais transforma gente em recurso

Hoje projetamos escritórios fantásticos.

Estações compartilhadas.

Hot desks.

Sensores.

Reserva automática de mesa.

Salas inteligentes.

Dashboards.

Indicadores de ocupação.

Colaboração remota.

Processos digitais.

Tudo muito eficiente.

Tudo muito funcional.

Mas existe uma pergunta que talvez devesse aparecer em algum desses dashboards:

As pessoas ainda conhecem umas às outras?

Não apenas o cargo.

Não apenas o avatar.

Não apenas o nome no Teams.

Conhecem?

Sabem quem está fazendo aniversário?

Sabem quem acabou de ter filho?

Sabem quem vai se aposentar?

Sabem quem conta a pior piada?

Sabem quem sempre rouba a última bolacha?

Existe algum equivalente moderno daquela secretária que percebia o departamento como um organismo humano?

Porque uma empresa pode otimizar perfeitamente o fluxo de trabalho e, ao mesmo tempo, transformar seres humanos em unidades intercambiáveis de capacidade.

E aí talvez tenhamos criado o escritório mais inteligente da história...

para tratar pessoas como gado com extraordinária eficiência.


🎨 Laerte, Glauco, Angeli e o departamento invisível

É justamente por isso que gosto de imaginar Laerte, Glauco e Angeli caminhando por aquele escritório.

Eles sabiam observar o Brasil que não aparece nos documentos oficiais.

O Brasil da conversa lateral.

Da piada.

Da fila.

Do cafezinho.

Do sujeito tentando escapar da vaquinha.

Da secretária que sabe tudo.

Do funcionário que esconde a revista.

Do armário comunitário.

Do chefe que muda completamente depois da segunda cerveja no churrasco.

E o Leão de Chácara?

Naturalmente ficaria na entrada.

Talvez cobrando:

— Você pagou a cota da bolacha?

— Ainda não.

— Então volta.

Governança.


☕ Epílogo — O mainframe social

Talvez aquela empresa antiga tivesse dois sistemas funcionando simultaneamente.

O primeiro processava negócios.

Pedidos.

Contas.

Contratos.

Documentos.

Pagamentos.

Relatórios.

O segundo processava gente.

Aniversários.

Casamentos.

Nascimentos.

Paixões.

Amizades.

Piadas.

Brigas.

Reconciliações.

Festas.

Café.

Bolachas.

O primeiro sistema foi substituído inúmeras vezes.

Mainframes, minis, PCs, cliente-servidor, web, cloud, APIs, inteligência artificial.

O segundo nunca teve documentação.

E talvez por isso tenhamos perdido partes dele durante a migração.

Esta história é uma pequena tentativa de restaurar o backup.

E principalmente uma homenagem carinhosa a Elizabeth, a Bethinha; Ana Maria; Terezinha; Cecilia; Maria Aparecida; Nilce; Eliza; Benzão; Debora; Cristina; Adriana e tantas outras secretárias com quem tive a honra de trabalhar.

Mulheres que provavelmente jamais aparecerão no organograma histórico dessas empresas, mas que ajudaram a fazer aqueles departamentos funcionarem como comunidades.

E, claro, uma lembrança especial para Rosalaine.

A mulher de voz de fada que, sem saber, descobriu uma vulnerabilidade crítica no sistema operacional de determinado office-boy. Sabe que vendo hoje, descobri de onde gosto das vozes das personagens de anime, talvez Freud explique, mas agora entendo um pouco melhor a magia da voz feminina dos animes, o efeito que me provoque e a pessoa que iniciou esse processo.

Bastava chamar:

— Vagner...

E qualquer prioridade anterior era imediatamente reavaliada.

Se depois viesse:

— É o lobo... é o lobo!

pronto.

O expediente estava ganho.

Hoje temos máquinas capazes de processar bilhões de instruções por segundo.

Temos inteligência artificial.

Temos escritórios inteligentes.

Temos automação suficiente para eliminar departamentos inteiros.

Mas até hoje ninguém conseguiu construir um sistema capaz de reproduzir perfeitamente aquele estranho protocolo social que fazia cinquenta pessoas assinarem escondidas um cartão de aniversário.

Talvez porque aquilo nunca tenha sido tecnologia.

Era simplesmente gente vivendo parte da vida junto.

E quando alguém perguntar como eram aqueles escritórios antes do ano 2000, talvez eu não precise explicar organogramas, máquinas de escrever, arquivos de aço ou processos administrativos.

Posso simplesmente responder:

Havia um armário cheio de bolachas.

Uma Veja circulando pelo departamento.

Um cartão esperando a última assinatura.

Uma secretária cobrando a vaquinha.

Um churrasco sendo planejado.

E um office-boy atravessando a Avenida Paulista mais rápido que Hermes porque, em algum lugar do escritório, Rosalaine havia acabado de chamá-lo.

Bons tempos.

Bons e imperfeitos tempos.

Agora pegue mais uma bolacha.

Mas, pelo amor de Deus:

se pegar a última, avise.

☕🐺


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terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

📺 Os 12 Macacos, COBOL e a Revista que Ensinou o Nome do Vírus ARCO I — CAPÍTULO II

  

Bellacosa Mainframe e os perigos da internet

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

📺 Os 12 Macacos, COBOL e a Revista que Ensinou o Nome do Vírus

ARCO I — CAPÍTULO II

“Não procure isto na Internet” — e milhões descobriram o que procurar

Às vezes, a informação mais poderosa não é a resposta. É descobrir qual pergunta deve ser feita.


🕰️ 00:01 — O manual estava sobre a mesa

No capítulo anterior, nosso COBOLzeiro tentou fazer aquilo que qualquer profissional sensato faria diante de uma epidemia informacional:

DELETE INTERNET

O sistema respondeu:

COMMAND REJECTED

REASON:
INFORMATION EXISTS
ON REMOTE NODES.

Tentou RACF.

Não funcionou.

Tentou descobrir o proprietário da Internet.

Também não funcionou.

Tentou encontrar o paciente zero.

Pior ainda.

Quando o terminal finalmente apagou, Bruce Willis apontou para uma velha revista sobre a mesa.

Nosso programador perguntou:

— Encontramos o culpado?

— Não.

— O paciente zero?

— Também não.

— Então o que encontramos?

Bruce Willis respondeu:

— O manual.

Agora precisamos entender o que isso significa.

E antes que alguém prepare a fogueira para jornalistas, revistas, televisão ou qualquer outro meio de comunicação, uma advertência:

este capítulo não é uma acusação contra a imprensa.

É justamente algo muito mais interessante.

É sobre um paradoxo da comunicação:

Para alertar alguém sobre uma coisa desconhecida, frequentemente precisamos primeiro contar que essa coisa existe.

E, no instante em que fazemos isso, modificamos o universo de possibilidades daquela pessoa.

Antes:

CONHECIMENTO = 0

Depois:

CONHECIMENTO = 1
CURIOSIDADE  = ???

O problema está nesses três pontos de interrogação.


📰 1. A velha revista encontrada no futuro

Voltemos aos anos 1990.

Internet brasileira.

Modem cantando músicas que apenas os sobreviventes daquela era conseguem identificar:

PIIIIIIIIIIIII
KRRRRRRRRRR
TCHHHHHHHH
KRRRRRRRRRR

Alguém na casa grita:

— DESLIGA A INTERNET QUE EU PRECISO USAR O TELEFONE!

Os jovens de 2026 podem acreditar que isso é ficção científica.

Não é.

Nós vivemos isso.

E, naquele mundo, descobrir alguma coisa na Internet era bastante diferente de hoje.

Não existia um algoritmo onipresente examinando cada movimento e dizendo:

"Você ficou 3,7 segundos olhando esse assunto. Aqui estão outros 427 conteúdos semelhantes."

Frequentemente era necessário conhecer:

  • o nome;

  • o endereço;

  • o programa;

  • a comunidade;

  • o servidor;

  • o canal;

  • a palavra-chave.

Em outras palavras:

era necessário possuir um mapa.

E muitas vezes esse mapa vinha de fora da Internet.

Revistas.

Jornais.

Programas de televisão.

Amigos.

Livros.

Cursos.

CD-ROMs.

Bancas de jornal.

E aqui entra uma lembrança fascinante daquela época: reportagens que pretendiam explicar os perigos da Internet.


🔎 2. O paradoxo da palavra-chave

Imagine alguém que jamais ouviu determinada expressão.

Vamos chamá-la simplesmente de:

PALAVRA-X

A pessoa possui um computador.

Possui Internet.

Possui curiosidade.

Mas não possui PALAVRA-X.

Então procura:

SEARCH "COISAS INTERESSANTES"

Recebe qualquer coisa.

Agora uma revista publica:

"Especialistas alertam para um fenômeno conhecido como PALAVRA-X."

Pronto.

Algo extraordinário aconteceu.

A revista não entregou necessariamente o conteúdo.

Não forneceu necessariamente acesso.

Não criou necessariamente a comunidade.

Mas entregou uma coisa extremamente valiosa:

o identificador.

Para um mainframeiro, isso é quase óbvio.

Você pode possuir acesso a milhões de datasets.

Mas existe uma diferença gigantesca entre:

PROCURE ALGUMA COISA

e:

PROD.FATURAMENTO.CLIENTES.HIST

O nome reduz o universo de busca.

A palavra funciona como índice.


🗝️ 3. Conhecer o nome é possuir metade da chave

Existe uma velha ideia na computação:

naming is hard.

Dar nomes é difícil.

Mas encontrar coisas sem conhecer os nomes pode ser ainda pior.

Na velha Internet, palavras tinham uma importância quase cartográfica.

Imagine:

INTERNET
 |
 +-- milhões de páginas
 |
 +-- milhares de fóruns
 |
 +-- servidores
 |
 +-- FTP
 |
 +-- IRC
 |
 +-- Usenet
 |
 +-- comunidades
 |
 +-- arquivos

Você está aqui:

             ?
             |
             v
           VOCÊ

Então alguém entrega:

KEYWORD = "XYZ"

Subitamente:

             XYZ
              |
              v
           SEARCH
              |
              v
          RESULTADOS
              |
              v
         COMUNIDADE

A palavra não criou o caminho.

Ela tornou o caminho pesquisável.

Essa distinção será importante durante toda nossa série.


☕ 4. O adolescente, a revista e o café do pai

Imagine a cena.

Ano: 1998.

Horário: 23h47.

Computador:

Pentium qualquer coisa.

Windows 95 ou 98.

Monitor CRT ocupando aproximadamente metade do território nacional.

Modem 33.6 ou 56k.

Internet tarifada.

Sobre a mesa existe uma revista.

A reportagem diz:

OS PERIGOS DA INTERNET

Nosso jovem leitor está profundamente preocupado.

Naturalmente.

Ele lê:

"Especialistas alertam que usuários..."

Interessante.

Continua.

"...utilizam determinados termos..."

Termos?

Ele aproxima a revista.

Pega uma caneta.

Anota.

01 WS-TERMOS.
   05 WS-TERMO-01 PIC X(20).
   05 WS-TERMO-02 PIC X(20).
   05 WS-TERMO-03 PIC X(20).

A reportagem continua explicando que determinados ambientes existem.

O jovem anota.

A reportagem talvez esteja pensando:

estamos alertando.

O adolescente talvez esteja pensando:

estou recebendo documentação técnica.

É aqui que Terry Gilliam entra pela janela.


🐒 5. A informação altera o passado

Em Os 12 Macacos, existe uma obsessão com causalidade.

O que aconteceu?

Quem provocou?

Pode ser impedido?

Uma tentativa de modificar determinado acontecimento pode participar da própria cadeia que levou até ele?

Na comunicação acontece algo conceitualmente semelhante.

Um jornalista observa um fenômeno.

Publica uma reportagem.

A reportagem aumenta o conhecimento público sobre o fenômeno.

Novas pessoas pesquisam.

Algumas entram nas comunidades.

O fenômeno cresce.

Então uma segunda reportagem diz:

"Fenômeno cresce assustadoramente."

Mais pessoas descobrem.

Temos:

FENÔMENO
   |
   v
REPORTAGEM
   |
   v
CONHECIMENTO
   |
   v
CURIOSIDADE
   |
   v
NOVOS USUÁRIOS
   |
   v
FENÔMENO MAIOR
   |
   v
NOVA REPORTAGEM

Isso é um feedback loop.

A observação passou a participar do sistema observado.


📺 6. Quando o Jornal Nacional encontra o mecanismo de busca

A televisão possui uma característica que a velha Internet não tinha:

alcance imediato.

Imagine um assunto conhecido por dez mil pessoas.

Um grande telejornal fala sobre ele para milhões.

Mesmo que 99% dos espectadores pensem:

"Que horror."

Ainda resta uma pequena fração pensando:

"Nunca ouvi falar disso."

Uma fração ainda menor pensa:

"Como funciona?"

Outra fração:

"Onde isso acontece?"

E uma fração microscópica:

"Vou procurar."

Agora multiplique "microscópica" por milhões.

Temos um problema de escala.

COBOLzeiros conhecem isso.

Um erro de 0,01% parece irrelevante.

Até processarmos:

100.000.000 TRANSAÇÕES

Então:

0,01% = 10.000

Bem-vindo à Internet.


📊 7. O problema não é porcentagem — é cardinalidade

Essa é uma das grandes lições das redes sociais.

Considere uma reportagem vista por:

10.000.000 pessoas

Vamos inventar apenas um exemplo didático, não uma estatística real.

Suponha:

99,0% ignoram
 0,9% ficam curiosas
 0,1% procuram

Apenas 0,1%.

Parece nada.

Mas:

10.000.000 * 0,001 = 10.000

Dez mil novas buscas.

Agora imagine cem milhões.

100.000.000 * 0,001 = 100.000

A televisão não precisa convencer a maioria.

Às vezes basta apresentar uma palavra a uma minoria estatisticamente pequena dentro de uma audiência gigantesca.


📰 8. Veja, revistas semanais e a Internet explicada aos mortais

Para compreender aquele período precisamos lembrar o poder das revistas semanais brasileiras.

Antes de feeds, newsletters digitais, portais atualizados minuto a minuto e redes sociais, revistas tinham enorme capacidade de definir assuntos.

Uma capa podia transformar algo desconhecido em conversa nacional.

Tecnologia era particularmente interessante porque grande parte da população não entendia aquele novo universo.

Internet parecia simultaneamente:

  • biblioteca;

  • brinquedo;

  • revolução;

  • território sem lei;

  • oportunidade;

  • ameaça;

  • futuro.

Então surgiam matérias tentando explicar:

O que seus filhos estão fazendo na Internet?

Quais são os perigos da rede?

O que existe nos chats?

Quem você encontra online?

Como funcionam essas comunidades?

Isso possuía valor jornalístico legítimo.

O problema estava na granularidade.


🔬 9. Granularidade: a palavra que salva este capítulo

Existe diferença entre dizer:

"Existem comunidades online que distribuem conteúdo ilegal."

e explicar:

"Elas utilizam exatamente estes termos, estes mecanismos, estes caminhos e esta sequência."

A primeira frase informa sobre o risco.

A segunda pode começar a reduzir a fricção necessária para localizar o fenômeno.

Essa diferença é:

granularidade informacional.

Quanto detalhe é necessário?

Segurança cibernética enfrenta exatamente a mesma pergunta.

Imagine descobrir uma vulnerabilidade.

Podemos publicar:

"Existe uma falha crítica. Atualize imediatamente."

Podemos também publicar uma análise técnica suficiente para pesquisadores compreenderem o problema.

Ou podemos entregar instruções operacionalmente completas para exploração imediata.

São níveis diferentes.

Informação não é binária.

Existe resolução.


🧨 10. O telejornal que mostra demais

Existe uma cena clássica em reportagens sobre tecnologia.

O repórter diz:

"Com poucos cliques..."

Pronto.

O sysadmin começa a suar.

A câmera mostra uma tela.

Depois outra.

Um especialista demonstra.

A intenção:

mostrar como é fácil e alertar.

Mas alguém em casa pode estar pensando:

volta a imagem.

Hoje essa pessoa nem precisa voltar.

Pause.

Screenshot.

OCR.

Busca reversa.

IA.

Pesquisa.

Aquilo que em 1997 desaparecia em três segundos de televisão pode ser congelado indefinidamente em 2026.

Isso modifica completamente a responsabilidade editorial sobre detalhes visuais.


🧠 11. Curiosidade não significa intenção criminosa

Aqui precisamos evitar outro erro.

Uma pessoa procurar alguma coisa porque ouviu falar dela não significa automaticamente intenção criminosa.

Curiosidade existe.

Pesquisa acadêmica existe.

Jornalismo existe.

Investigação existe.

Educação existe.

Segurança existe.

História existe.

E existe simplesmente:

"Que diabos é isso?"

A Internet transformou essa pergunta numa ação instantânea.

Antes:

QUE DIABOS É ISSO?
        |
        v
BIBLIOTECA?
ENCICLOPÉDIA?
PERGUNTAR ALGUÉM?
ESQUECER?

Hoje:

QUE DIABOS É ISSO?
        |
        v
SEARCH

O intervalo entre curiosidade e descoberta caiu de horas ou dias para segundos.

Essa redução de fricção é revolucionária.

Para o bem.

E para o mal.


🍎 12. O fruto proibido recebeu SEO

Existe ainda outro mecanismo.

Proibição chama atenção.

Não sempre.

Não para todos.

Mas suficientemente para merecer estudo.

Quando alguém diz:

"Este livro foi proibido."

algumas pessoas imediatamente querem lê-lo.

Quando alguém diz:

"Este filme foi censurado."

surge:

por quê?

Quando alguém diz:

"Não procure isso."

o cérebro humano possui um bug maravilhoso:

IF INSTRUCTION = "DO NOT SEARCH X"
   MOVE "X" TO SEARCH-FIELD
END-IF

Freud provavelmente teria algo a dizer.

O Google certamente tem logs.


🔥 13. O efeito Streisand entra na história

Anos depois, a Internet ganharia uma expressão famosa para um fenômeno relacionado:

Efeito Streisand.

A ideia geral é simples.

Uma tentativa de suprimir determinada informação pode, em certas circunstâncias, chamar ainda mais atenção para ela.

Importante:

pode.

Não significa:

EVERY REMOVAL = MORE VIRAL

Isso seria bobagem.

Muita coisa é removida e efetivamente perde alcance.

Mas alguns casos possuem ingredientes perfeitos:

  • pessoa famosa;

  • tentativa visível de remoção;

  • conflito;

  • curiosidade;

  • comunidade interessada;

  • imprensa;

  • facilidade de cópia.

Então ocorre:

TENTATIVA DE REMOVER
        |
        v
NOTÍCIA SOBRE REMOÇÃO
        |
        v
"MAS O QUE ESTAVAM REMOVENDO?"
        |
        v
BUSCAS
        |
        v
CÓPIAS
        |
        v
MAIOR VISIBILIDADE

O incêndio ganhou cobertura ao vivo.


🧯 14. Isso significa que não devemos remover nada?

Não.

Absolutamente não.

Essa conclusão seria tão equivocada quanto tentar corrigir um S0C7 desligando o mainframe.

Existem conteúdos e condutas cuja remoção é necessária.

Existem obrigações jurídicas.

Existem vítimas.

Existem crimes.

Existem riscos reais.

Existem ambientes que precisam ser moderados.

O ponto é outro:

remover conteúdo e administrar a comunicação sobre a remoção são problemas diferentes.

Você pode precisar remover alguma coisa.

Mas talvez não precise publicar um tutorial involuntário explicando exatamente como encontrar quinze cópias alternativas.

É possível combater sem fazer publicidade.

Difícil?

Muito.

Impossível?

Não.


🗞️ 15. Pânico moral: quando todo adolescente vira suspeito

Agora entra outra criatura.

Moral panic.

Toda geração acredita, em algum momento, que a geração seguinte encontrou a tecnologia definitiva para destruir a civilização.

Quadrinhos.

Rock.

Televisão.

Videogames.

RPG.

Internet.

Chat.

Redes sociais.

Smartphones.

TikTok.

IA.

Algumas preocupações eram ridículas.

Outras eram legítimas.

Muitas misturavam as duas coisas.

Esse é justamente o problema do pânico moral:

ele reduz fenômenos complexos a narrativas simples.

Exemplo:

TECNOLOGIA NOVA
       +
ADOLESCENTES
       +
CASO EXTREMO
       +
TELEVISÃO
       =
"UMA GERAÇÃO EM PERIGO?"

Observe o ponto de interrogação.

É uma tecnologia editorial extraordinariamente resistente ao tempo.


📡 16. A diferença entre risco e espetáculo

Jornalismo precisa tornar assuntos compreensíveis.

Televisão precisa contar histórias.

Histórias precisam de personagens.

Personagens precisam de conflito.

Então um fenômeno estatisticamente raro pode produzir uma narrativa extremamente poderosa.

O problema aparece quando o espectador conclui:

VISIBILIDADE = FREQUÊNCIA

Mas isso não é necessariamente verdade.

Algo pode aparecer muito na mídia justamente porque é extraordinário.

Por outro lado, algo comum pode receber pouca cobertura porque não produz novidade.

Essa diferença será fundamental quando falarmos de crimes em redes sociais.

Um caso chocante não descreve automaticamente toda a plataforma.

Mas também não deve ser descartado simplesmente porque é raro.

Precisamos de contexto.

Mainframeiros chamariam isso de:

olhar o dataset inteiro antes de concluir pela primeira ocorrência.


💾 17. Então chegou o eMule

E agora nossa história fica interessante.

Porque a informação ensinada pela mídia encontrou uma arquitetura que gostava pouco de centros.

P2P.

Peer-to-peer.

Em vez de:

USUÁRIO
   |
   v
SERVIDOR CENTRAL

temos conceitualmente:

     USER-A
      /   \
     /     \
USER-B --- USER-C
   \         /
    \       /
     USER-D

Arquivos podiam existir distribuídos entre usuários.

Isso alterou a lógica da remoção.

Derrubar um servidor central não necessariamente resolvia tudo.

O velho COBOLzeiro pergunta:

— Onde está o MASTER?

Resposta:

— Depende.

Ele começa a ficar irritado.


🫏 18. O burro digital carregando arquivos

O eMule tornou-se um símbolo curioso daquela era.

Para muitos usuários, significava uma transformação profunda.

Você procurava alguma coisa.

Encontrava referências.

Entrava numa fila.

Esperava.

Esperava.

Esperava.

Esperava mais.

Ia dormir.

Acordava.

23%.

Ia trabalhar.

Voltava.

47%.

Dois dias depois:

DOWNLOAD COMPLETE

Abre o arquivo.

Não era aquilo.

Uma geração inteira aprendeu resiliência psicológica dessa maneira.

Mas havia uma revolução por trás da piada.

Distribuição.

Identificadores.

Hashes.

Compartilhamento.

Comunidades.

O arquivo não precisava estar numa única empresa.


🗺️ 19. A imprensa fornecia o mapa; o P2P fornecia a estrada

Agora podemos juntar as peças.

A revista diz:

EXISTE X

O leitor aprende:

X

O mecanismo de busca mostra:

X → Y

O fórum explica:

Y → Z

O P2P oferece:

Z → FILE

Observe que nenhum ator necessariamente controla a cadeia inteira.

Temos:

REVISTA
   |
   v
PALAVRA
   |
   v
BUSCADOR
   |
   v
FÓRUM
   |
   v
P2P
   |
   v
USUÁRIO

É exatamente esse tipo de cadeia distribuída que torna a ideia de "paciente zero" tão sedutora — e frequentemente insuficiente.


📺 20. A televisão denuncia o P2P

Então a televisão descobre o P2P.

Reportagem:

"Milhões de pessoas compartilham arquivos diretamente pela Internet."

Milhões de espectadores:

Diretamente?

"Programas permitem localizar arquivos..."

Programas?

"Entre eles..."

O adolescente pega a caneta novamente.

Bruce Willis bate a cabeça na parede.

O COBOLzeiro pergunta:

— Eles estão fazendo isso de novo?

Sim.

Mas lembre:

eles também estão informando pais, autoridades, empresas, artistas e cidadãos sobre uma transformação tecnológica real.

Esse é o paradoxo.

Não existe solução confortável.


⚖️ 21. Informar ou esconder?

Se a imprensa não fala:

"Estão escondendo!"

Se fala pouco:

"Reportagem superficial!"

Se fala muito:

"Ensinou como fazer!"

Se usa termos técnicos:

"Ninguém entende!"

Se simplifica:

"Sensacionalismo!"

Bem-vindo à produção.

É como documentação.

Ninguém lê.

Até acontecer o incidente.

Então todos perguntam por que ela não tinha 700 páginas.


🔐 22. Responsible disclosure para jornalistas?

Aqui surge uma ideia interessante.

Segurança cibernética desenvolveu práticas de divulgação responsável.

Quando uma vulnerabilidade é descoberta, existe frequentemente uma reflexão sobre:

  • quem precisa saber;

  • quando;

  • quanto detalhe;

  • como corrigir;

  • quando publicar tecnicamente.

Talvez exista uma analogia útil para jornalismo sobre determinados riscos digitais.

Perguntas editoriais poderiam incluir:

01 REPORTAGEM-RISCO.
   05 PUBLIC-INTEREST       PIC X VALUE 'Y'.
   05 NECESSARY-DETAIL      PIC X VALUE 'Y'.
   05 OPERATIONAL-DETAIL    PIC X VALUE 'N'.
   05 COPYCAT-RISK          PIC X VALUE 'Y'.
   05 PROTECTION-GUIDANCE   PIC X VALUE 'Y'.

Não é censura.

É engenharia da informação.


🤔 23. A pergunta que deveria acompanhar cada detalhe

Antes de publicar determinada informação operacional:

O público precisa conhecer este detalhe para compreender ou se proteger?

Se sim, ótimo.

Se não:

Por que estamos publicando?

Para provar que investigamos?

Para tornar a matéria dramática?

Porque a imagem é interessante?

Porque o concorrente mostrou?

Porque gera audiência?

Porque alguém acha que "transparência" significa necessariamente publicar tudo?

Essas perguntas não possuem respostas universais.

Mas precisam existir.


🧑‍🏫 24. O professor enfrenta o mesmo problema

E aqui faço uma confissão profissional coletiva.

Nós, professores de tecnologia, enfrentamos exatamente o mesmo dilema.

Queremos ensinar segurança.

Para ensinar segurança precisamos explicar ataques.

Para explicar ataques precisamos demonstrar vulnerabilidades.

Para demonstrar vulnerabilidades podemos inadvertidamente ensinar técnicas utilizáveis de maneira indevida.

Então existe uma diferença entre:

ensinar o conceito

e

entregar capacidade operacional perigosa sem necessidade.

Essa fronteira muda conforme o assunto.

É por isso que contexto importa.


🤖 25. Em 2026 o problema ficou absurdamente maior

Agora imagine aquela velha reportagem da revista.

Antes, o leitor precisava:

  1. ler;

  2. entender;

  3. anotar;

  4. acessar o computador;

  5. conectar o modem;

  6. procurar;

  7. interpretar resultados.

Hoje:

Screenshot.

Pergunta para uma IA:

"O que significa isso?"

Resposta.

Outra pergunta:

"Qual é o contexto histórico?"

Resposta.

Busca.

Vídeo.

Reddit.

Discord.

Telegram.

Arquivo.

Em minutos.

A distância entre:

NÃO SEI

e:

AGORA SEI O SUFICIENTE PARA CONTINUAR

despencou.

Isso torna a decisão sobre granularidade ainda mais importante.


🧬 26. A informação aprendeu a se recombinar

Outra diferença moderna:

um conteúdo não precisa permanecer no formato original.

Uma matéria vira:

  • tweet;

  • post;

  • vídeo;

  • short;

  • reel;

  • meme;

  • screenshot;

  • thread;

  • comentário;

  • podcast;

  • reação;

  • resumo por IA.

Cada transformação remove alguma coisa.

Acrescenta outra.

Contexto evapora.

A informação sofre mutação.

Lembra do Capítulo I?

O vírus voltou.


🐒 27. O Exército dos 12 Macacos talvez esteja assistindo televisão

Nosso programador finalmente acha que compreendeu.

Ele pergunta:

— Então a mídia é o Exército dos 12 Macacos?

Não.

Seria simples demais.

A imprensa pode ser:

OBSERVADOR

e também:

AMPLIFICADOR

Pode ser:

ALERTA

e acidentalmente:

DISCOVERY MECHANISM

Pode reduzir dano.

Pode aumentar curiosidade.

Pode expor criminosos.

Pode gerar pânico moral.

Pode ensinar proteção.

Pode ensinar uma palavra que ninguém conhecia.

Tudo depende de contexto.


☕ 28. O café esfriou novamente

03:41.

O COBOLzeiro está diante do terminal.

A velha revista continua sobre a mesa.

Ele digita:

TRACE INFORMATION SOURCE

Resposta:

SOURCE FOUND: MAGAZINE

Ele sorri.

Finalmente.

IDENTIFY PATIENT ZERO

Resposta:

ERROR.

MAGAZINE DID NOT CREATE PHENOMENON.

Ele franze a testa.

THEN WHAT DID IT DO?

Silêncio.

Depois:

IT CREATED A DISCOVERY PATH.

Ele olha para Bruce Willis.

— Qual é a diferença?

Bruce responde:

— Toda.


🖥️ 29. O mapa aparece

O terminal começa a desenhar:

              BBS
               |
             USENET
               |
              IRC
               |
              ICQ
               |
            FÓRUNS
               |
             P2P
               |
             BLOGS
               |
          REDES SOCIAIS
          /     |      \
         /      |       \
 FACEBOOK    TWITTER    REDDIT
     |           |         |
 INSTAGRAM    TWITCH     DISCORD
     |           |         |
 WHATSAPP    TELEGRAM -----+

O programador pergunta:

— Isso é uma arquitetura?

Resposta:

NO.

— Um fluxo?

NO.

— Uma topologia?

PARTIALLY.

— Então o que é?

A tela responde:

MIGRATION HISTORY
OF DIGITAL TRIBES.

Bruce Willis pega o café.

Agora entendemos para onde vamos.


🧭 30. A comunidade não morreu — ela mudou de endereço

Essa talvez seja a maior pista do Capítulo II.

Quando determinada plataforma desaparece, suas comunidades não necessariamente desaparecem.

Elas migram.

Quando determinado vocabulário é bloqueado, ele pode mudar.

Quando um fórum fecha, seus usuários podem procurar outro.

Quando uma tecnologia perde popularidade, comportamentos podem reaparecer em outra arquitetura.

BBS não é Discord.

IRC não é Telegram.

eMule não é Reddit.

Facebook não é WhatsApp.

Mas existem linhas culturais atravessando essas gerações.

A humanidade leva consigo:

  • curiosidade;

  • identidade;

  • conflito;

  • amizade;

  • sexualidade;

  • crime;

  • humor;

  • criatividade;

  • tribalismo;

  • cooperação;

  • desejo de pertencimento.

Mudamos o protocolo.

Não necessariamente o usuário.


🐒 31. Easter egg: o paciente zero estava lendo

O terminal mostra uma última mensagem:

BELLACOSA INFORMATION CONTROL FACILITY
--------------------------------------

INCIDENT: INFORMATION OUTBREAK

SOURCE TRACE:

MAGAZINE............. CONFIRMED
TELEVISION........... CONFIRMED
WORD OF MOUTH........ CONFIRMED
SEARCH............... CONFIRMED

PATIENT ZERO......... NOT FOUND

WARNING:

MEDIA DID NOT NECESSARILY
CREATE THE PHENOMENON.

MEDIA MAY HAVE:

1. OBSERVED IT
2. NAMED IT
3. EXPLAINED IT
4. AMPLIFIED IT
5. WARNED ABOUT IT
6. MADE IT SEARCHABLE

--------------------------------------

Nosso programador pensa por alguns segundos.

Então pergunta:

CAN INFORMATION ABOUT A DANGER
BECOME PART OF THE DANGER?

A resposta demora.

Muito.

Finalmente:

YES.

BUT HIDING THE DANGER
CAN ALSO CREATE DANGER.

Silêncio.

Agora ele entende o tamanho do problema.

Não existe:

IF REPORT = GOOD
ELSE REPORT = BAD

Existe contexto.

Granularidade.

Proporcionalidade.

Responsabilidade.

Interesse público.

Consequências.

E seres humanos.

Sempre eles.


🔮 32. Próxima parada: as tribos

Nosso COBOLzeiro fecha a revista.

Acha que finalmente poderá dormir.

O terminal pisca.

Nova mensagem:

NEW INCIDENT DETECTED.

COMMUNITY MIGRATION IN PROGRESS.

SOURCE....... IRC
DESTINATION.. UNKNOWN

SEARCHING...

ICQ
FORUM
EMULE
FACEBOOK
INSTAGRAM
WHATSAPP
REDDIT
TWITTER
TWITCH
TELEGRAM
DISCORD

WARNING:

SAME HUMANS.
NEW ARCHITECTURE.
NEW RULES.
NEW PROBLEMS.

Ele olha para Bruce Willis.

— Discord?

— Sim.

**— É tipo IRC?

Bruce pensa.

— Imagine o IRC ganhando canais persistentes, voz, vídeo, bots, permissões, comunidades gigantes e vinte anos de evolução.

O COBOLzeiro fica animado.

— Então finalmente organizaram tudo!

Bruce Willis começa a rir.

O terminal mostra:

ERROR:
OPTIMISM NOT SUPPORTED.

🖥️ FINAL DO CAPÍTULO II

BELLACOSA MAINFRAME
INFORMATION CONTROL FACILITY
------------------------------------

ARC I STATUS

CHAPTER I
INFORMATION OUTBREAK........ COMPLETE

CHAPTER II
DISCOVERY PATH.............. COMPLETE

PATIENT ZERO................ NOT FOUND

NEW OBJECTIVE:

TRACE DIGITAL TRIBES

BBS......................... DETECTED
USENET...................... DETECTED
IRC......................... DETECTED
ICQ......................... DETECTED
P2P......................... DETECTED
FORUMS...................... DETECTED
SOCIAL NETWORKS............. DETECTED
DISCORD..................... DETECTED

WARNING:

DO NOT ASSUME
NEW PLATFORM = NEW BEHAVIOR.

------------------------------------

NEXT DESTINATION:

FROM EMULE TO DISCORD

COMMAND ===> _

E, em algum lugar de 1998, um adolescente termina de ler uma reportagem sobre os perigos da Internet.

Fecha a revista.

Liga o computador.

O modem começa:

PIIIIIIIIIIIIIII... KRRRRRRRRRR...

Ele coloca ao lado do teclado o papel onde anotou uma palavra que desconhecia quinze minutos antes.

Em algum lugar de 2026, o terminal do Bellacosa Mainframe registra:

NEW SEARCH DETECTED.

Bruce Willis olha para a tela.

— Começou.

CONTINUA...


🐒 Próximo capítulo

ARCO I — CAPÍTULO III

🌐 Do eMule ao Discord — as tribos mudaram de endereço, não desapareceram

BBS, Usenet, IRC, mIRC, ICQ, fóruns, P2P, Facebook, Instagram, WhatsApp, Reddit, Twitter/X, Twitch, Telegram e Discord — uma viagem arqueológica pelas subculturas digitais e pela perturbadora descoberta de que trocamos protocolos, interfaces e algoritmos, mas continuamos levando os mesmos seres humanos dentro da rede.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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