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sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

O Café com Gosto de Saudade Enquanto o Tempo Voa

Bellacosa Mainframe e saudade enquanto vejo o tempo passar

 ☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Café com Gosto de Saudade Enquanto o Tempo Voa

Ou: quando o ano da infância demorava uma eternidade, a vida adulta virou processamento em lote, os boletos assumiram o calendário — e uma velha amiga chamada Lili continuou chamando seu capitão muito depois de o canal ter sido encerrado

Há uma conspiração envolvendo o tempo que ninguém nos explica quando somos crianças.

Talvez porque nenhuma criança acreditasse.

Aos oito anos, um ano não era uma unidade de medida. Era uma cordilheira. Um território imenso, dividido por acontecimentos que pareciam separados por eras geológicas: aniversário, Páscoa, férias de julho, Dia das Crianças e Natal.

Quando janeiro começava, dezembro ficava do outro lado do universo conhecido.

Era preciso atravessar uma nova série escolar, conhecer outra professora, encapar cadernos, copiar matéria, fazer lição de casa, estudar para provas, montar trabalhos em grupo e descobrir que “trabalho em grupo” significava uma criança trabalhando enquanto quatro colegas contribuíam com cartolina, cola, confusão e desaparecimento estratégico.

Cada bimestre parecia uma administração presidencial completa.

A professora anunciava:

— A prova será na próxima semana.

E a próxima semana levava aproximadamente três anos para chegar.

Depois vinha a espera pelo aniversário. Os dias eram riscados no calendário um a um. Faltavam vinte, dezenove, dezoito… O relógio parecia carregado por funcionários públicos romanos, transportando cada minuto em carrinhos individuais.

A ampulheta trabalhava honestamente.

Grão por grão.

Então crescemos.

Em algum momento, sem qualquer comunicado oficial, alguém substituiu a ampulheta por um processador paralelo.

Piscamos os olhos e chegaram as férias.

Piscamos novamente e apareceu o décimo terceiro.

Entramos num projeto, participamos do kickoff, discutimos escopo, cronograma, riscos e dependências. Alguém abriu uma apresentação com quarenta e sete slides explicando que tínhamos tempo suficiente.

Duas reuniões depois, o líder surgiu com os olhos arregalados:

— Gente, gente, precisamos dar um gás. A implantação é na semana que vem.

Como assim, semana que vem?

O kickoff não foi ontem?

Não. O kickoff aconteceu seis meses atrás. Entre uma conferência, uma homologação, três mudanças de requisito e quarenta reuniões que poderiam ter sido e-mails, o tempo executou um SORT FIELDS=COPY e transferiu metade do ano para algum volume que ninguém consegue mais localizar.

Na meia-idade, a transformação finalmente se completa.

O calendário deixa de ser marcado por festas, férias ou projetos.

Passa a ser controlado por boletos.

Dia 1.

Dia 15.

Dia 20.

Dia 25.

Dia 27.

Eles aparecem com tamanha frequência que às vezes olhamos para uma conta e pensamos:

— Porra, mas eu já paguei isso.

Durante meio segundo, imaginamos uma cobrança duplicada, um erro bancário ou uma fraude sofisticada envolvendo uma organização criminosa especializada em contas de energia.

Então consultamos o aplicativo e descobrimos a verdade mais ofensiva:

Nós realmente pagamos.

Mas foi no mês passado.

Outro mês inteiro passou enquanto estávamos olhando para outro lado.

O relógio cuco do capitalismo

O boleto é o relógio cuco da vida adulta.

Periodicamente, ele põe a cabeça para fora da parede e anuncia:

CUCO! VOCÊ CONSUMIU MAIS UM PEDAÇO DA SUA EXISTÊNCIA!

Não interessa se o mês teve trinta ou trinta e um dias. Não interessa se enfrentamos uma crise, concluímos um curso, escrevemos um artigo, começamos uma dieta ou juramos que finalmente organizaríamos aquela gaveta.

O boleto retorna.

Pontual, impassível e rejuvenescido.

Nós envelhecemos. Ele não.

Talvez os boletos sejam os únicos objetos conhecidos capazes de atravessar o espaço-tempo sem sofrer dilatação relativística. Einstein deveria ter incluído uma conta de condomínio em seus experimentos mentais.

Mas essa aceleração não acontece apenas porque ficamos mais velhos.

Quando temos dez anos, um ano representa 10% de toda a vida que conhecemos. Aos cinquenta, corresponde a menos de 2%. A mesma duração ocupa uma proporção muito menor da nossa biografia.

Existe também a maneira como o cérebro arquiva os acontecimentos.

A infância é cheia de primeiras vezes: a primeira professora, o primeiro amigo, a primeira excursão, a primeira bicicleta, o primeiro beijo, o primeiro cachorro, a primeira vez em que somos escolhidos por último para o time e descobrimos que a meritocracia termina quando alguém entrega uma bola a duas crianças populares.

Novidade produz memória.

Memória produz marcos.

Marcos fazem o passado parecer extenso.

A rotina adulta, entretanto, é um gigantesco processamento em lote:

LER E-MAIL
TRABALHAR
PAGAR CONTA
COMPRAR CAFÉ
PARTICIPAR DE REUNIÃO
DORMIR
REPEAT UNTIL FIM-DOS-TEMPOS

Como muitos dias se parecem, o cérebro não os conserva individualmente. Ele aplica compactação.

Trinta dias entram no arquivo.

Três lembranças saem.

Depois consultamos o diretório da memória, encontramos poucos registros e concluímos:

— Este mês passou voando.

O tempo talvez não tenha acelerado.

Fomos nós que deixamos de enxergar seus grãos.

As pessoas que saíram antes do fechamento

Mas existe outra mudança muito mais difícil de aceitar.

Na infância, quase todas as pessoas parecem permanentes.

Pais, professores, vizinhos, colegas, tios, avós e amigos habitam o mundo como se fossem parte de sua infraestrutura. Mesmo quando alguém muda de escola, de bairro ou de cidade, imaginamos que continua vivendo normalmente em algum bastidor, aguardando uma próxima aparição.

É como uma personagem que saiu de cena, mas permanece contratada pela série.

Na meia-idade, começamos a compreender que nem todos retornarão na próxima temporada.

Algumas pessoas desaparecem aos poucos. Mudam de emprego, vão morar longe, deixam de telefonar. A amizade não termina numa briga nem numa cerimônia. Apenas passa a ocupar intervalos maiores.

Outras continuam próximas apesar da distância.

E algumas partem definitivamente.

O aspecto mais cruel é que quase nunca sabemos quando estamos diante de alguém pela última vez.

Não há música triste.

Não há câmera lenta.

Nenhum operador envia uma mensagem:

WTOR IEC999I
ATENÇÃO, CAPITÃO:
ESTA É A ÚLTIMA CONVERSA.
DESEJA PROSSEGUIR? S/N

A última vez chega disfarçada de dia comum.

Uma ligação.

Um café.

Uma mensagem de aniversário.

Uma risada no WhatsApp.

Somente depois ela recebe esse nome.

Lili entra no programa

Lilian Yumi — a Lili — entrou nesta história em 1997, nos corredores do programa de trainees do Banco Real, depois de um sorteio de amigo secreto e por fim trabalhando quase 4 anos juntos num mesmo sistema.

Certas amizades começam com grandes afinidades filosóficas.

Outras começam porque alguém colocou dois nomes em pedaços de papel.

A amizade atravessou quase três décadas.

Durante cerca de cinco anos, trabalhamos frente a frente, no meio da turbulência envolvendo Banco Real e ABN AMRO. Era um período de sistemas, pressões, mudanças, café, decisões, conversas e aquela sensação muito conhecida de que uma organização inteira estava sendo modificada enquanto as pessoas tentavam continuar trabalhando como se tudo estivesse perfeitamente normal.

Lili era intensa.

Escorpiana no modo ON FIRE.

Ela me chamava de Capitão, como era conhecido pelos colegas trainnes, pois brincavamos de USS Enterprise em meios aqueles velhos 3270 na Rua 24 de Maio no centro de São Paulo.

E possuía um método próprio de gerenciamento de estresse que provavelmente não seria aprovado por nenhum departamento moderno de Recursos Humanos.

Às vezes aplicava um cascudo.

Em outras ocasiões, um beliscão no braço.

Havia também reguadas e até chutes na canela registrados na documentação histórica.

Tudo acompanhado por um lindo sorriso e pela explicação técnica:

— Precisava descomprimir.

Eu era, aparentemente, uma espécie de válvula humana para alívio de pressão operacional.

Hoje, uma consultoria chamaria aquilo de “estratégia presencial de liberação rápida de tensão em ambiente de missão crítica”. Na época, era simplesmente Lili castigando o capitão e voltando satisfeita ao trabalho.

Mas nossa amizade não vivia apenas dessas pequenas agressões afetivas.

Havia a máquina de café.

Os origamis.

A surpresa dela ao me ver usando hashi.

A enorme bola de wasabi — um artefato culinário capaz de abrir todos os canais respiratórios e talvez estabelecer contato direto com os antepassados.

Havia o Buscopan em gotas e o aviso de mau humor.

A brincadeira dos quase vinte “porquês”.

A troca de livros.

E aquelas conversas malucas que parecem não ter importância quando acontecem, mas décadas depois se revelam parte fundamental da arquitetura de uma vida.

Nós raramente percebemos quais momentos estão sendo gravados no arquivo permanente.

Do processamento on-line para o assíncrono

Depois do Banco Real, não deixamos simplesmente de existir um para o outro.

Ainda nos encontramos algumas vezes antes de ela partir para o Canadá.

Depois vieram os e-mails.

Mais tarde, as conversas pelo WhatsApp.

A amizade mudou de infraestrutura, mas o canal continuou aberto.

Saímos do processamento on-line — cinco anos trabalhando frente a frente — para uma comunicação assíncrona atravessando fronteiras. As mensagens podiam levar algum tempo. Os encontros tornaram-se raros. Mas bastavam algumas palavras para recuperar aquela intimidade construída no banco.

Amizades verdadeiras possuem compatibilidade retroativa.

Você pode trocar de cidade, país, emprego, cabelo, telefone, sistema operacional e até opinião sobre algumas coisas. Quando a conversa recomeça, o protocolo ainda funciona.

No ano em que Lili partiu, conversamos no meu aniversário.

Demos risada.

Era apenas mais uma conversa entre duas pessoas que haviam atravessado décadas carregando uma coleção particular de histórias.

Quem poderia imaginar que, meses depois, chegaria a triste notícia?

O cérebro volta à última conversa procurando algum sinal.

Uma frase diferente.

Uma pausa.

Um presságio escondido entre as palavras.

Qualquer aviso de que aquela janela não seria aberta novamente.

Mas provavelmente não havia nada.

Havia somente uma conversa de aniversário e duas pessoas rindo porque ambas imaginavam, como naturalmente imaginamos, que outras conversas aconteceriam.

A última vez só se torna a última vez retroativamente.

Enquanto acontece, é apenas a vida.

Nenhum botão para salvar a sessão

Talvez essa seja uma das descobertas mais brutais da maturidade: frequentemente nos despedimos sem saber que estamos nos despedindo.

Dizemos “até mais” quando não haverá mais.

Fechamos uma janela acreditando que poderemos abri-la novamente.

Deixamos uma mensagem para responder depois.

Adíamos uma visita.

Não porque não amamos aquela pessoa, mas porque o futuro sempre parece conter espaço suficiente.

O amanhã é o maior fornecedor de capacidade computacional imaginária da humanidade.

Amanhã telefonamos.

Amanhã encontramos.

Amanhã tomamos café.

Amanhã contamos aquela história.

Até o dia em que o sistema informa que o recurso não está mais disponível.

Não existe botão para restaurar a sessão.

Isso não significa que devamos viver aterrorizados, tratando cada conversa como uma despedida fúnebre. Seria impossível e até cruel. A beleza de muitas relações está justamente na naturalidade: poder rir sem imaginar que estamos produzindo uma lembrança histórica.

Mas talvez possamos prestar um pouco mais de atenção.

Responder uma mensagem.

Fazer aquela ligação.

Tomar aquele café.

Dizer o que precisa ser dito enquanto o canal continua aberto.

Não para derrotar o tempo.

Apenas para deixar menos jobs importantes aguardando na fila.

A memória descomprime o arquivo

E aqui aparece uma ironia que parece escrita por algum roteirista especialmente atento aos detalhes.

Lili dizia:

— Precisava descomprimir.

Décadas depois, é exatamente isso que a memória faz.

Ela encontra um arquivo antigo, aparentemente esquecido entre milhares de registros, e começa a descomprimi-lo.

De repente retornam a voz, o sorriso, os origamis, a máquina de café, o wasabi, o hashi, o Buscopan, os “porquês”, os livros, as conversas e o cascudo que provavelmente chegou sem qualquer aviso de segurança.

Por alguns segundos, o Canadá desaparece.

O tempo desaparece.

A notícia triste desaparece.

Estamos novamente no banco.

Ela olha para mim.

— Capitão.

E algum gesto vem logo em seguida.

Não é imaginação no sentido de fabricar algo que nunca existiu. É a memória reconstituindo uma presença a partir dos registros que sobreviveram.

Pessoas importantes deixam pequenos programas residentes em nós.

Elas alteram nosso vocabulário, nossos hábitos, nossas referências e a maneira como reagimos a determinadas palavras. Depois que partem, continuam sendo executadas em situações inesperadas.

Uma música toca.

Um aroma aparece.

Alguém dobra um papel.

Uma pessoa usa hashi.

Outra exagera no wasabi.

E o programa residente acorda.

Lili não existe apenas nas grandes datas. Está preservada na palavra “capitão” de uma maneira que ninguém mais conseguiria pronunciar exatamente igual.

Essa talvez seja a forma mais profunda de permanência disponível aos seres humanos.

O café com gosto de saudade

O café da juventude era combustível.

O café do trabalho era uma pequena rebelião contra o expediente, uma desculpa para abandonar a cadeira e conversar cinco minutos diante de uma máquina que produzia uma bebida de qualidade duvidosa.

O café da maturidade contém outras coisas.

Tem gosto de lugares que mudaram.

De empresas que trocaram de nome.

De salas desmontadas.

De amigos espalhados pelo mundo.

De gente que prometeu aparecer e nunca apareceu.

De pessoas que apareceram na hora errada.

E de pessoas que, mesmo partindo cedo demais, chegaram no momento exato para se tornar parte de nós.

É um café com gosto de saudade.

Saudade não é apenas tristeza. É a evidência de que alguma coisa foi importante o suficiente para deixar uma ausência.

Sentimos saudade porque houve presença.

Porque houve riso.

Porque houve amizade.

Porque alguém nos chamou por um nome que parecia comum na época e se tornou insubstituível depois.

Como impedir que a vida passe sem deixar log

Não podemos fazer o tempo voltar à velocidade da infância.

Os aniversários continuarão chegando mais depressa.

Os projetos continuarão começando com cronogramas confortáveis e terminando com alguém gritando que precisamos “dar um gás”.

Os boletos continuarão surgindo nos dias 1, 15, 20, 25 e 27 com a regularidade de um relógio atômico mal-intencionado.

Também não podemos impedir todas as despedidas.

Mas podemos lutar contra a compactação excessiva da existência.

Podemos aprender alguma coisa nova.

Viajar.

Escrever.

Telefonar.

Ouvir uma história até o fim.

Guardar uma fotografia.

Responder a um amigo.

Criar pequenos marcos que obriguem o cérebro a registrar que aquele mês não foi somente mais uma execução do mesmo job.

E podemos contar histórias sobre quem partiu.

Não para transformar pessoas em personagens perfeitos, mas para preservar justamente suas imperfeições maravilhosas: o cascudo, o beliscão, o chute na canela, o excesso de wasabi, o mau humor anunciado pelo Buscopan e a necessidade absolutamente inexplicável de descomprimir em cima do capitão.

Enquanto essas histórias forem contadas, o tempo não terá conseguido levar tudo.

Epílogo — Ainda em execução

Talvez o verdadeiro problema da meia-idade não seja perceber que o tempo passa depressa.

É descobrir que ele sempre esteve passando e que, durante muitos anos, acreditamos possuir uma quantidade ilimitada dele.

Na infância, esperávamos o Natal.

Na juventude, esperávamos o futuro.

Na vida profissional, esperávamos a implantação.

Agora esperamos o próximo boleto — e tentamos lembrar se já pagamos o anterior.

Mas, entre um vencimento e outro, às vezes uma pessoa retorna.

Não fisicamente.

Retorna em uma frase, numa risada, numa lembrança que atravessa décadas e abre a porta do datacenter sem apresentar crachá.

Lili apareceu novamente enquanto falávamos sobre a velocidade do tempo.

Veio do Banco Real, passou pelo Canadá, atravessou e-mails, mensagens, aniversários e anos inteiros. Aproximou-se do console, olhou para aquele homem de meia-idade tentando entender para onde foram todos os meses e chamou:

— Capitão.

Talvez tenha dado um cascudo.

Talvez apenas tenha sorrido.

A memória nem sempre precisa escolher.

O importante é que, por alguns instantes, ela esteve aqui.

O boleto marca o mês que chegou.

A saudade marca a pessoa que não volta.

E o café, esfriando ao lado do teclado, guarda os dois: a pressa absurda do tempo e a permanência inexplicável do afeto.

No fim, talvez não exista uma maneira de desacelerar a viagem.

Mas existe uma forma de não desaparecer completamente durante o percurso:

deixar histórias nos outros.

Lili deixou.

O job terminou há algum tempo.

O programa continua em execução.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Quando Shakespeare Ensinou um Computador a Ouvir A incrível história do software da IBM que previu a Inteligência Artificial...

 

Bellacosa Mainframe e os primeiros comandos de voz

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando Shakespeare Ensinou um Computador a Ouvir

A incrível história do software da IBM que previu a Inteligência Artificial... vinte anos antes de ela conquistar o mundo

"Algumas tecnologias não fracassam. Apenas chegam cedo demais."

Existem lembranças que permanecem guardadas em algum setor curioso da memória. Não porque tenham mudado o mundo naquele instante, mas porque, décadas depois, percebemos que estávamos testemunhando o nascimento silencioso de algo gigantesco.

Esta é uma dessas histórias.

Voltemos ao final de 1999.

O mundo inteiro estava preocupado com o Bug do Milênio.

Nos CPDs, programadores COBOL revisavam milhões de linhas de código.

Os bancos faziam testes intermináveis.

A Internet ainda era um território meio selvagem.

O Windows 98 reinava absoluto.

A maioria dos computadores possuía entre 64 e 128 MB de memória.

Discos rígidos de 6 GB pareciam praticamente infinitos.

E foi justamente nesse cenário que aconteceu uma das experiências tecnológicas mais curiosas que vivi como funcionário do Banco Real.

Recebemos um simples...

disquete.

Não um CD.

Não um DVD.

Muito menos um download.

Um humilde disquete de 3½ polegadas contendo um software experimental desenvolvido pela IBM para testes internos.

Na época ninguém imaginava que aquele pequeno pedaço de plástico carregava uma visão do futuro.


O computador queria aprender a ouvir

A instalação era relativamente simples.

Depois de concluída, o programa fazia um pedido curioso.

Era necessário colocar um microfone na frente da boca...

e ler um trecho de Shakespeare.

Em português.

Não apenas uma vez.

Nem duas.

Três vezes.

Lembro perfeitamente da sensação estranha.

Parecia um ritual.

Enquanto lia, uma barra de progresso mostrava que o computador estava "aprendendo".

Na época imaginei que ele estivesse apenas gravando minha voz.

Hoje sei que estava fazendo algo muito mais sofisticado.

Ele tentava construir um modelo matemático do meu jeito de falar.

Meu ritmo.

Meu timbre.

Minha velocidade.

Meu sotaque.

Minha pronúncia.

Era como ensinar um bebê eletrônico a reconhecer exclusivamente a voz de uma pessoa.

Terminada essa etapa...

vinha a mágica.


"Computador... abrir programa."

Para os padrões de 1999...

funcionava surpreendentemente bem.

Claro que cometia erros.

Muitos.

Mas reconhecia diversos comandos simples.

Naquele instante tive uma certeza quase absoluta.

"O teclado está com os dias contados."

Afinal...

quem iria querer continuar digitando quando bastaria conversar com a máquina?

Na minha cabeça aquilo parecia inevitável.

Assim como muitos acreditavam que os carros voadores chegariam antes de 2010.

O futuro parecia muito próximo.

Só que...

ele resolveu atrasar quase vinte anos.


A ilusão de que a tecnologia havia fracassado

Os anos passaram.

O assunto simplesmente desapareceu.

Nenhuma revolução.

Nenhum escritório comandado por voz.

Nenhum computador obedecendo naturalmente às pessoas.

A impressão era de que tudo aquilo havia sido apenas mais uma promessa da informática.

Como tantas outras.

Na época existiam inclusive alguns jogos que aceitavam comandos simples de voz.

Era divertido.

Mas logo tudo sumiu das revistas de tecnologia.

Parecia uma ideia abandonada.

Hoje sabemos que não era.

Ela apenas havia nascido cedo demais.


O computador não entendia absolutamente nada

O maior engano daquela época era imaginar que o software "compreendia" o que dizíamos.

Não compreendia.

Nem perto disso.

Ele fazia estatística.

Imagine ouvir uma palavra e compará-la com milhares de padrões previamente gravados.

Algo como:

"Existe 82% de chance dessa onda sonora representar a palavra 'abrir'."

Era isso.

Não havia compreensão.

Não havia contexto.

Não havia intenção.

Muito menos linguagem natural.

Se eu dissesse:

"Transferir cem reais para João."

O computador tentaria reconhecer palavras isoladas.

Hoje uma IA entende o significado da frase inteira.

Naquela época...

ela apenas tentava adivinhar sons.

Era uma diferença gigantesca.


O verdadeiro culpado era o hardware

Hoje carregamos no bolso celulares milhares de vezes mais poderosos que os computadores daquela época.

Mas em 1999...

o cenário era outro.

Processadores Pentium II ou Pentium III.

Pouquíssima memória.

Discos lentos.

Microfones baratos.

Placas de som extremamente simples.

Tudo precisava ser processado em tempo real por um computador que mal conseguia abrir o Word rapidamente.

Era pedir um milagre.


Os microfones eram quase inimigos

Outro detalhe curioso.

Muita gente culpa apenas o software.

Mas esquece do restante.

O escritório tinha pessoas conversando.

Ar-condicionado.

Telefone tocando.

Ventilador.

Impressoras matriciais.

Monitores CRT emitindo ruídos elétricos.

Tudo isso era capturado pelo microfone.

Hoje nossos celulares possuem vários microfones trabalhando juntos para eliminar ruídos usando algoritmos extremamente sofisticados.

Na época...

o computador simplesmente ouvia toda a bagunça.


A internet ainda era lenta demais para ajudar

Hoje Siri, Alexa, Google Assistant e até o ChatGPT enviam boa parte do processamento para enormes datacenters espalhados pelo planeta.

Em 1999 isso seria ficção científica.

Conexões de 33 ou 56 kbps mal conseguiam carregar uma fotografia.

Enviar áudio continuamente para um servidor remoto era impraticável.

Portanto...

todo o reconhecimento precisava acontecer dentro do próprio computador.

Era como pedir para uma bicicleta competir com um trem-bala.


A revolução ficou adormecida

Entre 2000 e 2010 quase ninguém falava mais em reconhecimento de voz.

Parecia uma tecnologia derrotada.

Mas, silenciosamente, quatro revoluções aconteciam ao mesmo tempo.

Primeiro vieram enormes bancos de dados contendo milhões de horas de fala humana.

Depois surgiram GPUs capazes de realizar bilhões de cálculos paralelos.

Em seguida o Deep Learning mudou completamente a forma como computadores aprendiam.

E finalmente os smartphones colocaram microfones, internet rápida e sensores no bolso de bilhões de pessoas.

Somente quando essas quatro peças se encaixaram...

a velha ideia renasceu.


Siri, Alexa e o retorno de um velho sonho

Quando a Siri apareceu em 2011...

senti uma estranha sensação de déjà vu.

Aquilo me lembrava imediatamente o software que havia testado anos antes.

Depois veio a Alexa.

O Google Assistant.

E tantos outros.

A diferença?

Agora o computador não tentava apenas reconhecer palavras.

Tentava entender intenções.

Era exatamente a peça que faltava.


Então por que ainda digitamos?

Essa talvez seja a pergunta mais interessante.

Porque descobrimos algo que parecia óbvio...

mas só percebemos décadas depois.

Nem toda tarefa é melhor usando voz.

Imagine programar COBOL dizendo:

"Escreva IF WS-SALDO MAIOR QUE ZERO MOVE VERDADEIRO PARA WS-AUTORIZADO..."

Boa sorte.

Agora imagine pedir:

"Tocar jazz."

Ou:

"Qual a previsão do tempo?"

Ou:

"Acender a luz da sala."

A voz vence com enorme facilidade.

O teclado não morreu.

Encontrou seu lugar.

A voz também.

Cada ferramenta passou a ocupar o espaço onde realmente faz sentido.


Um pequeno experimento... que talvez tenha ajudado a construir o futuro

Hoje acredito que aquele software distribuído pela IBM para grandes empresas não era apenas um produto.

Era também um enorme laboratório.

Cada funcionário que lia Shakespeare fornecia novos dados.

Novos sotaques.

Novas entonações.

Novas formas de pronunciar palavras.

Talvez sem perceber...

tenhamos ajudado a treinar uma geração inteira de tecnologias que somente décadas depois se transformariam na base da computação moderna.

É curioso pensar nisso.

Enquanto eu lia Shakespeare diante de um Pentium, imaginando que estava apenas fazendo um teste corporativo, talvez estivesse contribuindo — ainda que de forma minúscula — para o longo caminho que levaria aos assistentes inteligentes, aos modelos de linguagem e às conversas naturais com máquinas.


☕ Epílogo no Bellacosa Mainframe

Existe uma ironia deliciosa nessa história.

Durante anos ouvimos que o teclado iria desaparecer.

Não desapareceu.

Depois disseram que o mouse morreria.

Também não morreu.

Mais recentemente afirmaram que a Inteligência Artificial substituiria toda forma de programação.

Os programadores sabem que a realidade costuma ser menos dramática e muito mais interessante.

A tecnologia raramente elimina a anterior.

Ela a transforma.

Foi assim com o terminal 3270.

Com o COBOL.

Com o mainframe.

Com a internet.

Com os smartphones.

E foi exatamente assim com o reconhecimento de voz.

Aquele disquete recebido no Banco Real não foi um fracasso tecnológico.

Foi apenas uma mensagem enviada pelo futuro.

Uma mensagem que precisou de quase vinte anos para finalmente ser compreendida.

E pensar que tudo começou com um computador pedindo, educadamente, que um analista de sistemas lesse Shakespeare três vezes diante de um microfone.

Às vezes, as maiores revoluções da tecnologia começam da forma mais silenciosa possível.

Ou melhor...

com uma voz humana tentando ensinar uma máquina a escutar.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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