| Bellacosa Mainframe e o pernil de natal |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🍖 Pernil de Natal à El Jefe — Quando uma Ceia Comunitária Fez o Eremita Sair da Toca
Itatiba, Natal de 2013. Um tacho enorme, um pernil cozinhando lentamente durante toda a tarde e mais de vinte pessoas mostrando que, em uma comunidade do interior, às vezes você pode até querer ficar sozinho — mas seus vizinhos não deixam.
Existem fotografias e vídeos antigos que parecem registrar apenas coisas banais.
Uma panela.
Alguns tomates.
Cebolas.
Pimentões.
Carne de porco.
Uma mão mexendo nos ingredientes.
O fogo trabalhando lentamente.
Durante anos podemos olhar para aquilo e pensar:
— Era apenas uma receita.
Mas não era.
Esse pequeno vídeo de um pernil de Natal preparado à moda El Jefe, publicado nos primórdios do blog, acabou preservando algo muito maior.
Ele registrou um daqueles momentos genuínos do El Jefe Midnight Lunch na cozinha.
E, principalmente, registrou uma tarde muito particular da minha vida.
Precisamos voltar para 2013.
🇮🇹 O homem que tinha acabado de voltar da Itália
Eu havia retornado recentemente da Itália para Itatiba.
Depois de tantos anos vivendo fora, retornar não significava simplesmente desembarcar, abrir uma mala e continuar a vida exatamente de onde ela havia parado.
Quem passa muito tempo longe descobre uma coisa curiosa:
você volta para casa, mas a casa que deixou também mudou.
As pessoas seguiram suas vidas.
As rotinas mudaram.
Você também mudou.
E naquele Natal eu estava em casa.
Sozinho.
Nada necessariamente dramático.
Era simplesmente a situação daquele momento.
Eu sempre tive algo de eremita.
Consigo passar horas sozinho, inventando alguma coisa, mexendo em computador, pesquisando, escrevendo, desmontando ideias ou, como naquele dia, entrando na cozinha e transformando ingredientes em alguma experiência gastronômica.
Provavelmente teria passado aquele Natal dessa maneira sem grandes problemas.
Mas existe uma característica deliciosa das comunidades do interior:
às vezes elas simplesmente não permitem que você fique sozinho.
🏘️ José Brunelli Filho
Eu morava na região da Rua JOSÉ Brunelli Filho no Jardim Arizona, em Itatiba.
E foi ali que apareceu o convite.
Luciana e seus familiares perceberam que aquele sujeito recém-retornado da Itália passaria o Natal sozinho.
Então veio algo muito simples:
— Venha passar o Natal conosco.
Não era uma festa formal.
Não havia convite impresso.
Não havia lista sofisticada de convidados.
Era uma ceia comunitária entre vizinhos.
Mais de vinte pessoas.
E havia uma regra implícita maravilhosa:
cada pessoa levaria alguma coisa.
Um preparava um prato.
Outro levava uma sobremesa.
Alguém aparecia com bebida.
Outro trazia alguma receita tradicional da família.
E pouco a pouco uma mesa que não pertencia a ninguém acabava pertencendo a todos.
Eu precisava levar alguma coisa.
E pensei:
vou fazer um pernil.
Mas, naturalmente, sendo El Jefe Midnight Lunch, não poderia simplesmente colocar um pernil inteiro no forno e esperar.
Tinha que inventar moda.
🍖 Pernil suíno à moda portuguesa
A ideia começou com um tacho enorme.
Daqueles que, quando colocados sobre o fogão, já deixam claro que alguma coisa séria vai acontecer.
Em vez de preparar a peça inteira, cortei o pernil em pedaços, quase como grandes bifes.
A intenção era fazer com que a carne cozinhasse lentamente junto com os vegetais e absorvesse os sabores durante horas.
E então começou a montagem.
Camada após camada.
Carne.
Cebola.
Tomate.
Pimentões.
Alho.
Salsinha.
Cebolinha.
Orégano.
Pimenta-preta.
Temperos.
Mais carne.
Mais vegetais.
Outra camada.
E outra.
Até aquele enorme recipiente começar a parecer menos uma panela e mais uma pequena obra de engenharia culinária.
🧅 Camada por camada
Essa talvez seja justamente a imagem que mais gosto de recordar.
Eu estava sozinho em casa naquela tarde de Natal.
Mas estava preparando comida para mais de vinte pessoas.
Existe alguma coisa estranhamente bonita nisso.
Cada ingrediente colocado dentro daquele tacho era destinado a pessoas que, algumas horas depois, estariam reunidas em torno de uma mesa.
A cebola começaria a liberar água.
O tomate lentamente se desfaria.
Os pimentões entregariam sabor ao caldo.
A gordura do próprio porco ajudaria a construir o molho.
E o líquido atravessaria as diferentes camadas.
Não precisava correr.
Pelo contrário.
Fogo baixo.
E tempo.
Muito tempo.
🔥 A tarde inteira cozinhando
O pernil ficou cozinhando lentamente durante praticamente toda a tarde.
Esse era o segredo.
Não havia necessidade de violência gastronômica.
Nada de fogo máximo tentando obrigar a carne a ficar pronta rapidamente.
Era preciso deixar acontecer.
O calor penetrava devagar.
Os vegetais liberavam seus líquidos.
A carne começava a amaciar.
Os sabores iam se misturando.
E aquele enorme tacho ia mudando de aparência e perfume conforme as horas passavam.
Hoje, olhando com cabeça de programador, percebo que aquilo tinha muito de processamento batch.
Você prepara os dados.
Organiza as entradas.
Confere os parâmetros.
Submete o JOB.
E então:
WAIT.
😂
Não adianta ficar apertando ENTER.
O processo precisa do seu tempo.
🎥 E alguém resolveu gravar
Em algum momento daquela preparação peguei a câmera.
Era apenas um pequeno registro.
Nada de iluminação profissional.
Nada de roteiro.
Nada de cenário cuidadosamente preparado para redes sociais.
Muito menos a ideia de que, mais de uma década depois, eu estaria novamente olhando para aquelas imagens.
Era simplesmente:
El Jefe Midnight Lunch na cozinha.
Um homem.
Um tacho.
Um pernil.
Uma tarde de Natal.
E uma câmera registrando alguns minutos daquele processo.
Hoje esse vídeo funciona quase como uma pequena cápsula do tempo.
Porque consigo olhar para aquelas imagens e enxergar coisas que não estão propriamente gravadas nelas.
Consigo lembrar por que eu estava preparando aquela comida.
Consigo lembrar para onde ela iria.
Consigo lembrar das pessoas.
E principalmente consigo lembrar do sentimento daquela noite.
🎄 Chegou a hora da ceia
Quando chegou o momento, o enorme tacho deixou minha cozinha.
O pernil que havia passado a tarde inteira cozinhando lentamente foi levado para a ceia.
E lá estava a mesa.
Farta.
Não porque uma pessoa tivesse comprado tudo.
Não porque alguém tivesse contratado buffet.
Era farta porque cada pessoa havia colocado alguma coisa nela.
Esse detalhe muda tudo.
Havia um pouquinho da história de cada família naquela mesa.
Uma receita feita por alguém.
Uma sobremesa preparada por outro.
Uma bebida trazida por um vizinho.
Um prato que provavelmente vinha sendo preparado daquela maneira havia décadas.
E no meio de tudo aquilo:
o meu enorme tacho de pernil suíno à moda portuguesa.
Minha contribuição.
🍽️ Uma mesa construída por muitas mãos
Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas de uma ceia comunitária.
Se vinte pessoas aparecem esperando serem servidas, existe apenas uma festa.
Mas quando vinte pessoas aparecem trazendo alguma coisa, surge uma comunidade.
Cada prato diz silenciosamente:
“Eu também participei.”
Não importa se alguém levou um prato sofisticado ou simplesmente uma garrafa de refrigerante.
A contribuição individual ajuda a construir o todo.
É quase impossível para alguém que trabalha com sistemas não enxergar uma analogia.
Cada componente isoladamente é pequeno.
Mas integrado aos demais produz algo muito maior.
Naquela noite não havia um grande anfitrião.
A própria comunidade era a anfitriã.
❤️ O calor humano do interior
Eu poderia ter passado aquele Natal sozinho.
Talvez tivesse preparado alguma coisa menor.
Ligado a televisão.
Mexido no computador.
Assistido algum filme.
E estaria tudo bem.
Mas Luciana e seus familiares decidiram que não.
Perceberam que eu estava sozinho e fizeram uma coisa extremamente simples:
abriram espaço na mesa.
Não existe tecnologia para substituir isso.
Não existe aplicativo.
Não existe inteligência artificial.
Não existe rede social capaz de reproduzir exatamente o momento em que alguém olha para outra pessoa e diz:
— Você vai passar o Natal sozinho? Então venha para cá.
E pronto.
Problema resolvido.
🧙 O eremita sai da toca
Para alguém com minha tendência natural de eremita, aquilo também era divertido.
Eu poderia ficar tranquilamente no meu pequeno universo.
Mas de repente estava no meio de mais de vinte pessoas.
Conversas.
Risadas.
Pratos circulando.
Gente experimentando a comida dos outros.
Alguém querendo saber quem havia feito determinada receita.
Outro repetindo.
Crianças andando de um lado para outro.
Talheres.
Copos.
Barulho.
Vida.
E aquele pernil que horas antes estava silenciosamente cozinhando na minha casa agora fazia parte da festa.
Talvez cozinhar para outras pessoas tenha justamente essa característica.
A comida carrega um pouco do tempo de quem a preparou.
Durante horas eu havia colocado atenção naquele tacho.
Naquela noite, entreguei aquelas horas para a mesa.
🇵🇹 Por que “à moda portuguesa”?
A inspiração vinha daquela cozinha que aprendi a admirar durante meus anos na Europa.
Não necessariamente uma receita portuguesa ortodoxa, registrada em algum velho livro culinário.
Era muito mais o espírito da coisa.
Carne de porco.
Cebola.
Alho.
Tomate.
Pimentão.
Ervas.
Cozimento demorado.
Comida generosa.
Comida feita para colocar no centro da mesa.
Comida que pede pão para aproveitar o molho que ficou no fundo do prato.
Era uma receita a modo El Jefe.
E essa talvez seja a definição mais correta.
👨🍳 A receita do Pernil de Natal à El Jefe
Para quem chegou até aqui querendo efetivamente reproduzir aquela experiência, o princípio é bastante simples.
Corte o pernil suíno em pedaços ou bifes relativamente grossos.
Separe cebolas, tomates, pimentões, alho, salsinha, cebolinha, orégano e pimenta-preta.
Tempere a carne conforme seu gosto.
Em um tacho ou panela grande, monte camadas alternando a carne e os vegetais.
Não tenha pressa.
Os vegetais vão liberar líquido durante o cozimento e formar parte do próprio molho.
Mantenha o fogo baixo.
Tampe.
Observe periodicamente.
Mexa ou reorganize cuidadosamente quando necessário para evitar que o fundo queime.
E deixe o tempo trabalhar.
A carne deve ficar macia e impregnada pelo caldo formado pelos próprios ingredientes.
Essa não é uma receita para preparar quinze minutos antes da visita chegar.
Comece à tarde.
Deixe a casa ganhar cheiro de comida.
Isso também faz parte da receita.
🕰️ Treze anos depois...
O mais curioso é que receitas envelhecem de maneira diferente.
Se eu simplesmente tivesse anotado:
“Pernil, cebola, tomate, alho, pimentão, temperos. Cozinhar em fogo baixo.”
teria preservado uma receita.
Mas aquele vídeo preservou uma história.
Quando olho novamente para ele, não vejo somente os ingredientes.
Vejo o homem que havia retornado da Itália.
Vejo a casa em Itatiba.
Vejo aquela tarde.
Vejo o enorme tacho.
Vejo Luciana e sua família.
Vejo os vizinhos.
Vejo mais de vinte pessoas reunidas.
Vejo a mesa cheia.
E lembro que alguém percebeu que havia um vizinho sozinho no Natal.
🎁 Talvez esse tenha sido o verdadeiro presente
Natal costuma ser associado a presentes embrulhados.
Naquele ano, porém, recebi algo muito mais simples.
Um convite.
“Venha ficar conosco.”
E respondi da maneira que sabia:
levando um enorme tacho de comida.
Talvez seja assim que comunidades funcionem.
Alguém oferece uma cadeira.
Outro leva um prato.
Outro traz uma sobremesa.
Outro aparece com uma bebida.
Alguém conta uma história.
Outro provoca uma gargalhada.
E quando percebemos, vinte contribuições aparentemente pequenas construíram uma noite que continuamos lembrando treze anos depois.
🍖 O pernil desapareceu. A memória ficou.
Não sei dizer quantos pedaços havia naquele tacho.
Não sei quem repetiu.
Não sei quem pegou o último pedaço.
Provavelmente ninguém naquela noite imaginou que aquilo acabaria registrado em um blog e seria revisitado tantos anos depois.
Mas é justamente por isso que gosto dessas antigas postagens.
Elas são pequenos checkpoints da vida.
Às vezes extremamente simples.
Uma locomotiva.
Uma estrada.
Um café.
Uma fotografia.
Uma panela.
Um pernil.
O objeto parece banal até descobrirmos tudo aquilo que estava acontecendo ao redor dele.
E aquele Pernil de Natal à El Jefe nunca foi somente um pernil.
Era a contribuição de um sujeito recém-retornado da Itália para uma mesa onde seus vizinhos haviam decidido que ele não passaria o Natal sozinho.
Talvez a receita verdadeira daquela noite tenha sido outra:
20 e tantas pessoas.
Uma mesa grande.
Cada uma trazendo alguma coisa.
Uma cadeira a mais para quem estava sozinho.
Misture tudo.
Acrescente conversa.
Tempere com risadas.
Deixe algumas horas em calor humano.
E sirva enquanto todos ainda estiverem juntos.
Essa receita, felizmente, não precisa de forno.
E funciona até hoje.
☕ Bellacosa Mainframe
Porque algumas memórias ficam armazenadas em fotografias, outras em programas COBOL de quarenta anos... e algumas sobrevivem no fundo de um enorme tacho de pernil.
Easter egg: se algum programador perguntar quanto tempo aquele JOB culinário ficou executando, a resposta continua sendo a mesma desde 2013:
//PERNIL EXEC PGM=ELJEFE
//PARM='LOWHEAT,NOPRESSA'
RC=00.
O processamento terminou.
A mesa ficou cheia.
E o eremita não passou o Natal sozinho.
Pernil Fatiado a modo El Jefe
Estamos no final do ano e nada como preparar algo diferente para a ceia.
Resolvi inovar e preparar um pernil na caçarola em pequenos bifes bem temperados e cozido lentamente em fogo baixo.
Usei tudo o que havia a mão, pimentões, alho, cebola, salsinha, cebolinha, oregano, pimenta preta, tomates. Fui montando camada por camada e distribuindo as especiarias de modo que o caldo durante a fervura alcançasse toda a carne
Veja o video e qualquer duvida é so perguntar.