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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Visitando os leitãozinhos da Festa da Uva de Jundiaí

Uma mini fazendinha para os miúdos da cidade 

Em nossos dias em que os pequenos estão cada vez mais longe da vida no campo, a festa da Uva trouxe alguns animais de sítios, para que as crianças tenham contato e conheçam mais sobre eles, aprendendo sobre os chiqueiros, o cocho ou manjedoura e saiba como era a vida em outros tempos.

E esses leitãozinhos fizeram o maior sucesso os garotos adoraram, ficando em cima, olhando brincando e perguntando tudo e mais alguma coisa sobre eles, pensar que nossas cidades cada vez mais cinzentas e pouco arborizadas esta afastando as pessoas da vida de outros tempos.

Gostaria que dentro da cidade tivessem mais áreas verdes e que o povo pudesse ter mais contato com as criações de antigamente, ver o galinheiro com as poedeiras chocando os pintinhos, conhecerem a ordena da vaca e ver coelheiras e outros animalzinhos da roça. 

Quem sabe um dia os governantes façam mais experimentos para colocar as pessoas em contato com a vida do campo, valorizando os pequenos produtores e abrindo espaço para eles comercializarem seus produtos.







quinta-feira, 30 de junho de 2016

Palmeiras e o brado de guerra

Bellacosa Mainframe e o brado de guerra da torcida do Palmeiras

Um Café no Bellacosa Mainframe

🟢 Palmeiras e o Brado de Guerra — Quando 35 Mil Vozes Viraram Uma

Por alguns minutos, ninguém estava sozinho. Éramos um mar verde, e cada torcedor era apenas uma gota ajudando a formar uma onda gigantesca de vozes.

Este pequeno vídeo é mais um fragmento daquela nossa visita ao Allianz Parque para assistir a um jogo do Palmeiras.

E talvez seja justamente por ser apenas um fragmento que ele conseguiu guardar algo que uma fotografia dificilmente conseguiria preservar.

O som.

Não apenas o barulho de um estádio.

O brado.

Milhares de palmeirenses reunidos, felizes, cantando, gritando e glorificando juntos o seu time de futebol.

Eu estava no meio daquela multidão e, olhando agora para essas imagens tantos anos depois, percebo que havia algo muito maior acontecendo ali.

⚔️ Como vikings avançando sobre uma aldeia

A comparação pode parecer exagerada.

Mas quem já esteve dentro de um estádio lotado provavelmente entende.

Imagine milhares de pessoas começando a cantar praticamente ao mesmo tempo.

Uma voz começa.

Outra acompanha.

Uma arquibancada responde.

Outra aumenta o volume.

E de repente já não conseguimos distinguir quem está cantando ao nosso lado.

Existe apenas uma enorme voz coletiva.

PALMEIRAS!

O concreto parece responder.

O som atravessa as arquibancadas, bate nas estruturas do estádio e retorna.

É quase físico.

Arrepia.

Naquele instante lembrei daqueles filmes em que centenas de vikings avançam gritando contra uma pobre aldeia que provavelmente estava muito tranquila cinco minutos antes.

Só faltavam os escudos, os machados e alguém chamado Ragnar.

😄

Mas existe alguma coisa curiosamente ancestral naquela experiência.


🧠 O indivíduo desaparece por alguns minutos

Passamos praticamente toda a nossa vida sendo indivíduos.

Meu nome.

Minha profissão.

Minha casa.

Meus problemas.

Minhas preocupações.

Minha conta para pagar.

Meu relógio.

Meu telefone.

Minha vida.

Mas existem determinados ambientes onde essa percepção muda.

Um estádio de futebol lotado é um deles.

Durante alguns minutos, o indivíduo deixa de ser solo e passa a fazer parte de um organismo muito maior.

Você não está simplesmente ao lado da torcida.

Você é a torcida.

Uma pessoa levanta os braços.

Milhares levantam.

Uma pessoa começa um canto.

Outras acompanham.

A bola aproxima-se do gol e milhares de corpos inclinam-se quase simultaneamente.

Sai o gol.

E então acontece aquela explosão.

Pessoas que nunca se viram se abraçam.

Gritam juntas.

Pulam juntas.

Durante alguns segundos desaparecem profissões, bairros, idades e histórias pessoais.

Existe somente aquele momento.



🌊 Um mar de pessoas

Talvez essa seja a imagem que melhor descreva aquilo que vi.

Um mar.

Cada pessoa isoladamente é pequena.

Como uma gota.

Mas coloque dezenas de milhares delas juntas e aparecem ondas.

O canto começa em algum ponto da arquibancada.

Cresce.

Viaja.

Outra parte do estádio responde.

A massa se movimenta.

Braços levantam.

Bandeiras balançam.

Corpos pulam.

E uma nova onda atravessa o estádio.

Vista de longe, a torcida parece realmente possuir movimento próprio.

Talvez seja por isso que usamos espontaneamente a expressão:

"mar de gente".

Porque uma multidão possui algo que lembra um oceano.

Existem correntes.

Ondas.

Movimentos.

Ruído.

Momentos de calmaria.

E tempestades.

Naquele dia, dentro do Allianz Parque, o oceano era verde.



🔥 Há alguma coisa muito antiga nisso

E aqui aparece a parte que mais me fascina olhando novamente para o vídeo.

Talvez aquilo não seja simplesmente futebol.

Talvez o futebol esteja apenas acionando alguma coisa muito mais antiga que existe dentro de nós.

Muito antes de existirem estádios, campeonatos, televisão ou Palmeiras, seres humanos já se reuniam ao redor do fogo.

Cantavam juntos.

Dançavam juntos.

Celebravam juntos.

Partiam para caçadas juntos.

Defendiam seus grupos juntos.

Provavelmente nossos antepassados já conheciam perfeitamente a sensação provocada por dezenas ou centenas de vozes produzindo o mesmo som.

O mundo mudou completamente.

O fogo virou refletores.

A clareira virou estádio.

Os guerreiros trocaram escudos por camisas.

O tambor ganhou caixas de som.

E a aldeia adversária agora possui onze jogadores do outro lado do campo.

😂

Mas talvez alguma coisa tenha permanecido exatamente igual.

A necessidade humana de pertencer.

🟢 Não estou assistindo ao Palmeiras. Estou dentro do Palmeiras.

Existe uma diferença gigantesca entre assistir a uma partida pela televisão e estar dentro de um estádio.

Na televisão observamos o evento.

No estádio fazemos parte dele.

A televisão consegue mostrar melhor o lance.

Tem replay.

Close.

Estatísticas.

Comentaristas.

Diferentes câmeras.

Talvez consigamos compreender muito melhor o jogo ficando no sofá.

Mas existe algo que a televisão dificilmente consegue transmitir:

a pressão sonora de milhares de pessoas gritando ao seu redor.

A vibração.

O concreto devolvendo o canto.

A pessoa desconhecida pulando ao seu lado.

O sujeito algumas fileiras abaixo gesticulando para um jogador que jamais conseguirá ouvi-lo.

😂

E principalmente aquela estranha transformação psicológica:

por alguns minutos deixamos de dizer:

"eles estão cantando".

Porque percebemos:

"nós estamos cantando".

Essa pequena mudança de pronome explica muita coisa.

🧬 Talvez nossos ancestrais reconhecessem aquilo

Imagine trazer para aquele estádio um ser humano de milhares de anos atrás.

Ele certamente não entenderia o telão.

Não entenderia os refletores.

Não entenderia por que 22 homens estavam perseguindo uma esfera.

Provavelmente ficaria completamente confuso com os celulares.

Mas quando dezenas de milhares de pessoas começassem a cantar juntas...

Talvez aquilo ele entendesse.

O grupo.

O ritmo.

O brado.

A celebração.

O pertencimento.

Talvez olhasse ao redor e pensasse:

"Ah... isso eu conheço."

💚 A felicidade também pode ser coletiva

Existe outro detalhe importante naquele vídeo.

As pessoas estavam felizes.

Não era apenas barulho.

Era celebração.

Milhares de pessoas tinham deixado suas casas, atravessado a cidade e vestido as mesmas cores para participar daquele ritual moderno.

E quando o canto começava, aquela felicidade individual parecia somar-se às outras.

Uma espécie de processamento paralelo emocional.

Se eu estivesse escrevendo isso como programador de mainframe, diria que milhares de pequenos processos independentes entraram temporariamente em sincronismo.

😁

Cada torcedor continuava sendo uma pessoa.

Mas naquele instante todos executavam aproximadamente o mesmo JOB:

//TORCIDA JOB PALMEIRAS
//STEP01 EXEC PGM=GRITAR
//SYSIN DD *
PALMEIRAS!
PALMEIRAS!
PALMEIRAS!
/*

E aparentemente ninguém queria cancelar aquele batch.

🥚 Easter egg — o mainframe humano

Décadas trabalhando com computadores talvez tenham estragado definitivamente meu cérebro, porque hoje olho para aquela torcida e enxergo algo curiosamente familiar.

Milhares de unidades independentes.

Cada uma com sua própria história.

Cada uma processando informações individualmente.

Mas todas temporariamente coordenadas em torno de uma tarefa comum.

Quase um gigantesco sistema distribuído biológico.

Só existe uma diferença importante.

Na informática passamos décadas tentando eliminar ruído.

Na arquibancada...

o objetivo era justamente produzir o máximo possível.

😂

🎥 E então sobra este pequeno vídeo

Talvez seja por isso que gosto tanto desses fragmentos antigos.

Naquele momento eu provavelmente apenas saquei a câmera e gravei.

Sem imaginar grandes significados.

Era somente:

"Olha que legal a torcida."

Dez anos depois, porém, encontro outra coisa escondida ali.

Não vejo apenas um estádio.

Vejo milhares de indivíduos experimentando durante alguns minutos uma das sensações mais antigas da humanidade:

pertencer a alguma coisa maior que nós mesmos.

Uma voz sozinha pode desaparecer no ambiente.

Trinta mil vozes juntas fazem concreto vibrar.

Uma pessoa é uma gota.

Uma arquibancada é uma onda.

Um estádio inteiro...

é um oceano.

E naquele dia o Allianz Parque estava em maré alta.

🟢⚪


☕ Epílogo — Quando voltamos a ser indivíduos

Então o jogo termina.

As pessoas começam a sair.

A grande criatura verde lentamente se desmonta.

Cada torcedor recupera sua própria direção.

Um vai procurar o metrô.

Outro procura o carro.

Alguém pensa no jantar.

Outro verifica o celular.

Outro comenta o gol.

A multidão vai desaparecendo pelas ruas.

E aqueles milhares de componentes daquele enorme organismo coletivo voltam novamente às suas pequenas vidas individuais.

Até o próximo jogo.

Até o próximo gol.

Até alguém começar novamente um canto em algum canto da arquibancada.

E milhares de desconhecidos responderem.

Naquele instante, por alguns minutos...

o mar volta a existir.

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A torcida alvi-verde expressa seu triunfo.


Imagine uma turba feliz e contente, após seu time assumir a liderança do campeonato com um diferença de 3 pontos e ainda golear um adversário numa partida.



A alegria corria solta pelos corredores do Arena Parque, a casa do Palmeiras toda reformada, na saída do jogo os quase 35000 torcedores gritavam e bradavam.

Seus gritos vibravam e ecoavam pelos corredores, o eco amplificava e a acústica perfeita aumentava ainda mais a emoção dos gritos.



☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🟢 Palmeiras, Palestra Italia e Memórias Bellacosa

Uma pequena viagem por histórias de família, futebol, arquibancadas, Palestra Italia, Allianz Parque e pelo mar verde da torcida palmeirense.

01

A alegria da torcida durante o jogo

Palmeiras x Figueirense no Allianz Parque: torcida cantando, estádio vibrando, quatro gols e a experiência de acompanhar o Verdão no meio de milhares de palmeirenses.

02

Palmeiras e o Brado de Guerra

Milhares de torcedores cantando juntos no Allianz Parque: por alguns minutos o indivíduo desaparece e surge uma única voz, um único corpo e um verdadeiro mar verde.

03

Tio Queijo e o Reino da Fartura

Uma crônica familiar que resgata memórias, infância, parentes e fragmentos da história dos Bellacosa em São Paulo.

04

Os Bellacosa do Palestra Italia e Futebol Paulista

Uma viagem pelas conexões entre a família Bellacosa, o antigo Palestra Italia, o Palmeiras e a história do futebol paulista.

🖥️ Arquivo Bellacosa Abrir em nova aba ↗
☕ Bellacosa Mainframe — histórias reais preservadas em tempos digitais.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Pernil de Natal receita a El Jefe

 

Bellacosa Mainframe e o pernil de natal

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🍖 Pernil de Natal à El Jefe — Quando uma Ceia Comunitária Fez o Eremita Sair da Toca

Itatiba, Natal de 2013. Um tacho enorme, um pernil cozinhando lentamente durante toda a tarde e mais de vinte pessoas mostrando que, em uma comunidade do interior, às vezes você pode até querer ficar sozinho — mas seus vizinhos não deixam.

Existem fotografias e vídeos antigos que parecem registrar apenas coisas banais.

Uma panela.

Alguns tomates.

Cebolas.

Pimentões.

Carne de porco.

Uma mão mexendo nos ingredientes.

O fogo trabalhando lentamente.

Durante anos podemos olhar para aquilo e pensar:

— Era apenas uma receita.

Mas não era.

Esse pequeno vídeo de um pernil de Natal preparado à moda El Jefe, publicado nos primórdios do blog, acabou preservando algo muito maior.

Ele registrou um daqueles momentos genuínos do El Jefe Midnight Lunch na cozinha.

E, principalmente, registrou uma tarde muito particular da minha vida.

Precisamos voltar para 2013.



🇮🇹 O homem que tinha acabado de voltar da Itália

Eu havia retornado recentemente da Itália para Itatiba.

Depois de tantos anos vivendo fora, retornar não significava simplesmente desembarcar, abrir uma mala e continuar a vida exatamente de onde ela havia parado.

Quem passa muito tempo longe descobre uma coisa curiosa:

você volta para casa, mas a casa que deixou também mudou.

As pessoas seguiram suas vidas.

As rotinas mudaram.

Você também mudou.

E naquele Natal eu estava em casa.

Sozinho.

Nada necessariamente dramático.

Era simplesmente a situação daquele momento.

Eu sempre tive algo de eremita.

Consigo passar horas sozinho, inventando alguma coisa, mexendo em computador, pesquisando, escrevendo, desmontando ideias ou, como naquele dia, entrando na cozinha e transformando ingredientes em alguma experiência gastronômica.

Provavelmente teria passado aquele Natal dessa maneira sem grandes problemas.

Mas existe uma característica deliciosa das comunidades do interior:

às vezes elas simplesmente não permitem que você fique sozinho.


🏘️ José Brunelli Filho

Eu morava na região da Rua JOSÉ Brunelli Filho no Jardim Arizona, em Itatiba.

E foi ali que apareceu o convite.

Luciana e seus familiares perceberam que aquele sujeito recém-retornado da Itália passaria o Natal sozinho.

Então veio algo muito simples:

— Venha passar o Natal conosco.

Não era uma festa formal.

Não havia convite impresso.

Não havia lista sofisticada de convidados.

Era uma ceia comunitária entre vizinhos.

Mais de vinte pessoas.

E havia uma regra implícita maravilhosa:

cada pessoa levaria alguma coisa.

Um preparava um prato.

Outro levava uma sobremesa.

Alguém aparecia com bebida.

Outro trazia alguma receita tradicional da família.

E pouco a pouco uma mesa que não pertencia a ninguém acabava pertencendo a todos.

Eu precisava levar alguma coisa.

E pensei:

vou fazer um pernil.

Mas, naturalmente, sendo El Jefe Midnight Lunch, não poderia simplesmente colocar um pernil inteiro no forno e esperar.

Tinha que inventar moda.



🍖 Pernil suíno à moda portuguesa

A ideia começou com um tacho enorme.

Daqueles que, quando colocados sobre o fogão, já deixam claro que alguma coisa séria vai acontecer.

Em vez de preparar a peça inteira, cortei o pernil em pedaços, quase como grandes bifes.

A intenção era fazer com que a carne cozinhasse lentamente junto com os vegetais e absorvesse os sabores durante horas.

E então começou a montagem.

Camada após camada.

Carne.

Cebola.

Tomate.

Pimentões.

Alho.

Salsinha.

Cebolinha.

Orégano.

Pimenta-preta.

Temperos.

Mais carne.

Mais vegetais.

Outra camada.

E outra.

Até aquele enorme recipiente começar a parecer menos uma panela e mais uma pequena obra de engenharia culinária.


🧅 Camada por camada

Essa talvez seja justamente a imagem que mais gosto de recordar.

Eu estava sozinho em casa naquela tarde de Natal.

Mas estava preparando comida para mais de vinte pessoas.

Existe alguma coisa estranhamente bonita nisso.

Cada ingrediente colocado dentro daquele tacho era destinado a pessoas que, algumas horas depois, estariam reunidas em torno de uma mesa.

A cebola começaria a liberar água.

O tomate lentamente se desfaria.

Os pimentões entregariam sabor ao caldo.

A gordura do próprio porco ajudaria a construir o molho.

E o líquido atravessaria as diferentes camadas.

Não precisava correr.

Pelo contrário.

Fogo baixo.

E tempo.

Muito tempo.


🔥 A tarde inteira cozinhando

O pernil ficou cozinhando lentamente durante praticamente toda a tarde.

Esse era o segredo.

Não havia necessidade de violência gastronômica.

Nada de fogo máximo tentando obrigar a carne a ficar pronta rapidamente.

Era preciso deixar acontecer.

O calor penetrava devagar.

Os vegetais liberavam seus líquidos.

A carne começava a amaciar.

Os sabores iam se misturando.

E aquele enorme tacho ia mudando de aparência e perfume conforme as horas passavam.

Hoje, olhando com cabeça de programador, percebo que aquilo tinha muito de processamento batch.

Você prepara os dados.

Organiza as entradas.

Confere os parâmetros.

Submete o JOB.

E então:

WAIT.

😂

Não adianta ficar apertando ENTER.

O processo precisa do seu tempo.


🎥 E alguém resolveu gravar

Em algum momento daquela preparação peguei a câmera.

Era apenas um pequeno registro.

Nada de iluminação profissional.

Nada de roteiro.

Nada de cenário cuidadosamente preparado para redes sociais.

Muito menos a ideia de que, mais de uma década depois, eu estaria novamente olhando para aquelas imagens.

Era simplesmente:

El Jefe Midnight Lunch na cozinha.

Um homem.

Um tacho.

Um pernil.

Uma tarde de Natal.

E uma câmera registrando alguns minutos daquele processo.

Hoje esse vídeo funciona quase como uma pequena cápsula do tempo.

Porque consigo olhar para aquelas imagens e enxergar coisas que não estão propriamente gravadas nelas.

Consigo lembrar por que eu estava preparando aquela comida.

Consigo lembrar para onde ela iria.

Consigo lembrar das pessoas.

E principalmente consigo lembrar do sentimento daquela noite.


🎄 Chegou a hora da ceia

Quando chegou o momento, o enorme tacho deixou minha cozinha.

O pernil que havia passado a tarde inteira cozinhando lentamente foi levado para a ceia.

E lá estava a mesa.

Farta.

Não porque uma pessoa tivesse comprado tudo.

Não porque alguém tivesse contratado buffet.

Era farta porque cada pessoa havia colocado alguma coisa nela.

Esse detalhe muda tudo.

Havia um pouquinho da história de cada família naquela mesa.

Uma receita feita por alguém.

Uma sobremesa preparada por outro.

Uma bebida trazida por um vizinho.

Um prato que provavelmente vinha sendo preparado daquela maneira havia décadas.

E no meio de tudo aquilo:

o meu enorme tacho de pernil suíno à moda portuguesa.

Minha contribuição.



🍽️ Uma mesa construída por muitas mãos

Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas de uma ceia comunitária.

Se vinte pessoas aparecem esperando serem servidas, existe apenas uma festa.

Mas quando vinte pessoas aparecem trazendo alguma coisa, surge uma comunidade.

Cada prato diz silenciosamente:

“Eu também participei.”

Não importa se alguém levou um prato sofisticado ou simplesmente uma garrafa de refrigerante.

A contribuição individual ajuda a construir o todo.

É quase impossível para alguém que trabalha com sistemas não enxergar uma analogia.

Cada componente isoladamente é pequeno.

Mas integrado aos demais produz algo muito maior.

Naquela noite não havia um grande anfitrião.

A própria comunidade era a anfitriã.

Minha saudosa mãezinha lá de cima deve ter ficado feliz, uma mulher festeira que adorava reunir pessoas, ter a casa cheia e compartilhar uma deliciosa refeição, sim sim, uma estrela no céu brilhou feliz por ver suas antigas tradições acontecendo naquela noite de consoada.

❤️ O calor humano do interior

Eu poderia ter passado aquele Natal sozinho.

Talvez tivesse preparado alguma coisa menor.

Ligado a televisão.

Mexido no computador.

Assistido algum filme.

E estaria tudo bem.

Mas Luciana e seus familiares decidiram que não.

Perceberam que eu estava sozinho e fizeram uma coisa extremamente simples:

abriram espaço na mesa.

Não existe tecnologia para substituir isso.

Não existe aplicativo.

Não existe inteligência artificial.

Não existe rede social capaz de reproduzir exatamente o momento em que alguém olha para outra pessoa e diz:

— Você vai passar o Natal sozinho? Então venha para cá.

E pronto.

Problema resolvido.


🧙 O eremita sai da toca

Para alguém com minha tendência natural de eremita, aquilo também era divertido.

Eu poderia ficar tranquilamente no meu pequeno universo.

Mas de repente estava no meio de mais de vinte pessoas.

Conversas.

Risadas.

Pratos circulando.

Gente experimentando a comida dos outros.

Alguém querendo saber quem havia feito determinada receita.

Outro repetindo.

Crianças andando de um lado para outro.

Talheres.

Copos.

Barulho.

Vida.

E aquele pernil que horas antes estava silenciosamente cozinhando na minha casa agora fazia parte da festa.

Talvez cozinhar para outras pessoas tenha justamente essa característica.

A comida carrega um pouco do tempo de quem a preparou.

Durante horas eu havia colocado atenção naquele tacho.

Naquela noite, entreguei aquelas horas para a mesa.


🇵🇹 Por que “à moda portuguesa”?

A inspiração vinha daquela cozinha que aprendi a admirar durante meus anos na Europa.

Não necessariamente uma receita portuguesa ortodoxa, registrada em algum velho livro culinário.

Era muito mais o espírito da coisa.

Carne de porco.

Cebola.

Alho.

Tomate.

Pimentão.

Ervas.

Cozimento demorado.

Comida generosa.

Comida feita para colocar no centro da mesa.

Comida que pede pão para aproveitar o molho que ficou no fundo do prato.

Era uma receita a modo El Jefe.

E essa talvez seja a definição mais correta.


👨‍🍳 A receita do Pernil de Natal à El Jefe

Para quem chegou até aqui querendo efetivamente reproduzir aquela experiência, o princípio é bastante simples.

Corte o pernil suíno em pedaços ou bifes relativamente grossos.

Separe cebolas, tomates, pimentões, alho, salsinha, cebolinha, orégano e pimenta-preta.

Tempere a carne conforme seu gosto.

Em um tacho ou panela grande, monte camadas alternando a carne e os vegetais.

Não tenha pressa.

Os vegetais vão liberar líquido durante o cozimento e formar parte do próprio molho.

Mantenha o fogo baixo.

Tampe.

Observe periodicamente.

Mexa ou reorganize cuidadosamente quando necessário para evitar que o fundo queime.

E deixe o tempo trabalhar.

A carne deve ficar macia e impregnada pelo caldo formado pelos próprios ingredientes.

Essa não é uma receita para preparar quinze minutos antes da visita chegar.

Comece à tarde.

Deixe a casa ganhar cheiro de comida.

Isso também faz parte da receita.


🕰️ Treze anos depois...

O mais curioso é que receitas envelhecem de maneira diferente.

Se eu simplesmente tivesse anotado:

“Pernil, cebola, tomate, alho, pimentão, temperos. Cozinhar em fogo baixo.”

teria preservado uma receita.

Mas aquele vídeo preservou uma história.

Quando olho novamente para ele, não vejo somente os ingredientes.

Vejo o homem que havia retornado da Itália.

Vejo a casa em Itatiba.

Vejo aquela tarde.

Vejo o enorme tacho.

Vejo Luciana e sua família.

Vejo os vizinhos.

Vejo mais de vinte pessoas reunidas.

Vejo a mesa cheia.

E lembro que alguém percebeu que havia um vizinho sozinho no Natal.


🎁 Talvez esse tenha sido o verdadeiro presente

Natal costuma ser associado a presentes embrulhados.

Naquele ano, porém, recebi algo muito mais simples.

Um convite.

“Venha ficar conosco.”

E respondi da maneira que sabia:

levando um enorme tacho de comida.

Talvez seja assim que comunidades funcionem.

Alguém oferece uma cadeira.

Outro leva um prato.

Outro traz uma sobremesa.

Outro aparece com uma bebida.

Alguém conta uma história.

Outro provoca uma gargalhada.

E quando percebemos, vinte contribuições aparentemente pequenas construíram uma noite que continuamos lembrando treze anos depois.


🍖 O pernil desapareceu. A memória ficou.

Não sei dizer quantos pedaços havia naquele tacho.

Não sei quem repetiu.

Não sei quem pegou o último pedaço.

Provavelmente ninguém naquela noite imaginou que aquilo acabaria registrado em um blog e seria revisitado tantos anos depois.

Mas é justamente por isso que gosto dessas antigas postagens.

Elas são pequenos checkpoints da vida.

Às vezes extremamente simples.

Uma locomotiva.

Uma estrada.

Um café.

Uma fotografia.

Uma panela.

Um pernil.

O objeto parece banal até descobrirmos tudo aquilo que estava acontecendo ao redor dele.

E aquele Pernil de Natal à El Jefe nunca foi somente um pernil.

Era a contribuição de um sujeito recém-retornado da Itália para uma mesa onde seus vizinhos haviam decidido que ele não passaria o Natal sozinho.

Talvez a receita verdadeira daquela noite tenha sido outra:

20 e tantas pessoas.

Uma mesa grande.

Cada uma trazendo alguma coisa.

Uma cadeira a mais para quem estava sozinho.

Misture tudo.

Acrescente conversa.

Tempere com risadas.

Deixe algumas horas em calor humano.

E sirva enquanto todos ainda estiverem juntos.

Essa receita, felizmente, não precisa de forno.

E funciona até hoje.


Bellacosa Mainframe

Porque algumas memórias ficam armazenadas em fotografias, outras em programas COBOL de quarenta anos... e algumas sobrevivem no fundo de um enorme tacho de pernil.

Easter egg: se algum programador perguntar quanto tempo aquele JOB culinário ficou executando, a resposta continua sendo a mesma desde 2013:

//PERNIL EXEC PGM=ELJEFE

//PARM='LOWHEAT,NOPRESSA'

RC=00.

O processamento terminou.

A mesa ficou cheia.

E o eremita não passou o Natal sozinho.

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Pernil Fatiado a modo El Jefe


Estamos no final do ano e nada como preparar algo diferente para a ceia.

Resolvi inovar e preparar um pernil na caçarola em pequenos bifes bem temperados e cozido lentamente em fogo baixo.

Usei tudo o que havia a mão, pimentões, alho, cebola, salsinha, cebolinha, oregano, pimenta preta, tomates. Fui montando camada por camada e distribuindo as especiarias de modo que o caldo durante a fervura alcançasse toda a carne


Veja o video e qualquer duvida é so perguntar.
Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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