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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Alan Turing, John McCarthy e o Delorean da Inteligência Artificial

 

Bellacosa Mainframe em uma homenagem a Alan Turing John McCarthy e os primordios da IA

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Alan Turing, John McCarthy e o Delorean da Inteligência Artificial

Ou: o professor Brown trouxe uma Máquina de Turing de 1936, John McCarthy apareceu com Lisp de 1958, Igor tentou instalar um LLM num cartão perfurado — e o programador COBOL descobriu que a pergunta “máquinas podem pensar?” é bem mais antiga que o ChatGPT, o Wi-Fi e aquele colega que diz que IA vai substituir todo mundo na segunda-feira

DOC BROWN — ALERTA TEMPORAL!
“Vagner, se você colocar 1,21 gigawatts nesta fita perfurada, podemos voltar a 1936!”

IGOR: “Excelente, doutor! E depois a gente pede para a máquina preencher a SYSOUT!”

DOC BROWN: “Não, Igor. Primeiro precisamos definir o que a máquina sabe. Depois vemos se ela sabe que não sabe.”

PROGRAMADOR COBOL: “Professor, isso dá um S0C7?”

DOC BROWN: “Pior. Dá um problema filosófico.”

Há uma confusão muito comum quando se fala de Inteligência Artificial: parece que ela nasceu quando alguém abriu um chat, escreveu “faça um resumo deste PDF” e recebeu uma resposta tão convincente que resolveu perguntar se a máquina tinha alma, CPF ou direito a férias.

Não nasceu.

A conversa atual sobre IA — modelos de linguagem, agentes, automação, chatbots, geração de imagens, assistentes de código e previsões sobre AGI — tem raízes em perguntas feitas décadas antes de alguém sonhar com um smartphone. Duas figuras ajudam a entender o tamanho da estrada: Alan Turing e John McCarthy.

Turing ajudou a responder uma pergunta fundamental: o que uma máquina pode calcular? McCarthy pegou a próxima: como fazemos uma máquina exibir inteligência?

Não são a mesma pergunta. Mas, sem a primeira, a segunda talvez nem tivesse uma sala, uma placa na porta e um orçamento de pesquisa.

Para quem está começando em COBOL, isso importa mais do que parece. Afinal, COBOL, mainframe, IA, regras de negócio, automação e segurança pertencem ao mesmo universo: o universo em que seres humanos tentam transformar decisões, processos e conhecimento em algo que uma máquina consiga executar sem entrar em ABEND — ou, no mínimo, sem gerar um incidente que faça o gerente aparecer com a expressão de quem acabou de ver o Great Scott do professor Brown.



1. Antes de a IA existir, Turing desenhou a sala de máquinas

Em 1936, Alan Turing publicou um trabalho que se tornou uma das fundações da ciência da computação. Nele, apresentou a ideia que hoje chamamos de Máquina de Turing.

Não era um notebook. Não era um mainframe. Não tinha monitor, teclado, mouse, GPU, RGB, copiloto nem assistente perguntando se você deseja salvar alterações. Era uma máquina abstrata, matemática, quase ascética: uma fita potencialmente infinita, uma cabeça que lê e escreve símbolos e um conjunto de regras que determina o próximo passo.

Parece simples porque é simples. E justamente por isso é genial.

Imagine uma fita enorme com células. Cada célula pode conter um símbolo. A máquina lê uma célula, verifica seu estado atual e segue uma instrução do tipo:

“Se eu estiver no estado A e ler 0, escreva 1, mova uma posição à direita e vá para o estado B.”

Essa descrição não parece tão distante de um programa. Em COBOL, você escreve algo como:

IF SALDO-DISPONIVEL >= VALOR-SOLICITADO
    MOVE "APROVADO" TO STATUS-OPERACAO
ELSE
    MOVE "NEGADO" TO STATUS-OPERACAO
END-IF.

A diferença é que COBOL é uma linguagem de alto nível, feita para seres humanos descreverem regras de negócio. A Máquina de Turing é uma espécie de esqueleto teórico: uma forma de demonstrar o que significa executar uma sequência de instruções.

O ponto não é que seu programa de folha de pagamento seja literalmente uma Máquina de Turing com fita de papel. O ponto é que existe uma base conceitual por baixo de todo programa: dados, estados, instruções, memória e transições.

Turing mostrou que uma máquina suficientemente geral poderia simular qualquer outra máquina de cálculo, desde que recebesse a descrição correta do procedimento. Nascia a ideia de máquina universal.

E aqui o professor Brown derruba uma caixa de cartões no chão:

“Marty! Não precisamos construir uma máquina nova para cada problema. Precisamos construir uma máquina geral e trocar o programa!”

Esse raciocínio é a alma do computador moderno. O mesmo computador pode rodar um sistema bancário, calcular a folha, tratar uma imagem médica, executar um jogo, fazer uma planilha ou treinar um modelo de IA. O hardware é uma plataforma; o programa define o comportamento.

Para o programador COBOL iniciante, esta é a primeira lição: não pense em programação apenas como escrever comandos. Pense em descrever um processo de maneira precisa o suficiente para uma máquina executá-lo.



2. “Máquinas podem pensar?” — a pergunta que ainda não fechou o chamado

Em 1950, Turing publicou o artigo Computing Machinery and Intelligence. Em vez de tentar resolver logo a palavra “pensar” — uma palavra perigosamente grande, que arrasta consciência, linguagem, criatividade, emoção, filosofia, religião e um boteco inteiro de discussões — ele propôs uma alternativa prática.

Em vez de perguntar:

“Uma máquina pensa?”

Turing sugeriu perguntar algo próximo de:

“Uma máquina consegue conversar de tal modo que um avaliador humano não consiga distingui-la de uma pessoa?”

Essa ideia ficou conhecida como Teste de Turing.

Na versão simplificada, um humano conversa por texto com dois participantes escondidos: uma pessoa e uma máquina. Se não conseguir identificar de modo confiável quem é quem, a máquina demonstrou um tipo importante de comportamento inteligente.

Agora vem a parte que Igor costuma estragar quando lê apenas a manchete:

Passar ou não passar no Teste de Turing não resolve definitivamente a questão da inteligência.

Um sistema pode escrever de forma fluida, imitar emoções, reproduzir estilos e manter uma conversa impressionante. Isso prova que ele se comporta, naquele contexto, de maneira parecida com um humano? Talvez. Prova que ele entende o mundo do mesmo modo que você entende? Não necessariamente.

Um papagaio pode repetir uma frase sem entender economia. Um sistema pode produzir um parágrafo excelente sobre Db2 e, duas linhas depois, inventar uma opção de JCL que nunca existiu com a confiança de um gerente apresentando slide em reunião de diretoria.

Os modelos atuais são fantásticos em linguagem. Eles resumem, traduzem, escrevem código, classificam informações, explicam conceitos e ajudam a explorar ideias. Mas fluência não é garantia de verdade; texto bonito não é auditoria; resposta segura não é evidência.

Este é um ensinamento valioso para quem trabalha com sistemas corporativos:

  • valide regras;

  • valide fontes;

  • mantenha trilha de auditoria;

  • não deixe um modelo decidir sozinho algo sensível sem controles;

  • trate a IA como um componente de software, não como um oráculo.

Em outras palavras: se uma IA disser que o lote terminou bem, ainda abra o SDSF.



3. Bletchley Park: inteligência não é só resolver charadas, é construir método

Durante a Segunda Guerra Mundial, Turing trabalhou em Bletchley Park, no esforço britânico de criptoanálise contra comunicações alemãs codificadas, incluindo mensagens protegidas pela Enigma. Ele não foi um “gênio solitário que venceu a guerra com uma máquina”, como alguns filmes e manchetes resumem. Fez parte de uma rede enorme de matemáticos, linguistas, operadores, engenheiros e criptanalistas.

Mas sua contribuição foi decisiva. O trabalho envolvia lógica, probabilidade, máquinas eletromecânicas, hipóteses, busca de padrões e disciplina operacional. Nada muito diferente, em espírito, do que hoje se chama de análise de dados, engenharia de sistemas e segurança cibernética.

Há uma ponte direta aqui para o analista de segurança e para o programador de sistemas críticos: inteligência útil não é adivinhação. É método para reduzir incerteza.

Quando você recebe um log, por exemplo, não basta olhar uma linha e concluir que houve ataque. Você precisa de contexto:

  • qual usuário executou a ação?

  • de onde veio a conexão?

  • qual era o horário esperado?

  • houve falhas de autenticação antes?

  • o volume de operações fugiu do padrão?

  • qual ativo foi acessado?

  • existe impacto real?

A máquina pode ajudar a encontrar padrões. O humano precisa formular hipóteses, validar evidências e tomar decisões responsáveis.

Turing também nos lembra de algo trágico: genialidade técnica não protege ninguém da crueldade social. Ele foi perseguido pelo Estado britânico por ser homossexual e morreu em 1954, aos 41 anos. Quando celebramos sua obra, não devemos transformar sua vida em uma curiosidade decorativa de biografia. Devemos lembrar que ciência, tecnologia e instituições são feitas por pessoas — e podem falhar moralmente mesmo quando avançam tecnicamente.

Uma IA poderosa construída por uma organização sem ética não vira sábia. Vira apenas uma máquina mais eficiente para escalar decisões ruins.


4. John McCarthy: o homem que deu nome ao monstro

Se Turing ajudou a estabelecer os fundamentos da computação e colocou a pergunta na mesa, John McCarthy ajudou a dar nome ao campo que tentaria respondê-la.

Em 1955, ao escrever a proposta para o Dartmouth Summer Research Project on Artificial Intelligence — realizado no verão de 1956 — McCarthy usou a expressão Artificial Intelligence. O termo pegou, embora “inteligência de máquina” talvez fosse menos carregado de ficção científica.

A proposta era ousada: reunir pesquisadores para investigar a hipótese de que aspectos da aprendizagem e da inteligência poderiam ser descritos com precisão suficiente para serem simulados por uma máquina.

Repare na ambição. Não era “vamos fazer uma calculadora mais rápida”. Era:

“Vamos entender partes da inteligência de forma suficientemente clara para construí-las.”

Isso inclui aprendizado, linguagem, abstração, raciocínio, percepção, planejamento e senso comum. Sessenta e tantos anos depois, boa parte dessas palavras continua na pauta. Algumas avançaram absurdamente; outras continuam com aquele status clássico de projeto: “dependência externa aguardando definição”.

McCarthy apostava muito em IA simbólica: usar fatos, regras e relações explícitas para o computador raciocinar. Algo parecido com:

SE cliente possui limite
E valor solicitado é menor que limite
E não há bloqueio de fraude
ENTÃO aprovar operação.

Para um programador COBOL, isso soa familiar. Sistemas empresariais vivem de regras: alçadas, cálculos, validações, exceções, status, processos de aprovação e rastreabilidade.

A diferença é que a IA simbólica queria ir além de um conjunto fixo de IFs. Ela queria representar conhecimento sobre o mundo e tirar conclusões novas a partir dele.

O sonho era elegante. O mundo, porém, é cheio de exceções.

Você pode escrever uma regra simples:

Pássaros voam.

Mas pinguins não voam. Aves feridas podem não voar. Um pássaro dentro de uma gaiola pode saber voar e não estar voando. E se Igor colocar um frango congelado na mesa e perguntar se ele é um pássaro, o sistema precisa de mais café e menos certeza.

Esse tipo de problema — lidar com conhecimento incompleto, exceções e contexto — foi um dos grandes desafios da IA clássica. McCarthy trabalhou com raciocínio não monotônico, isto é, formas de raciocínio em que uma conclusão pode precisar ser revista quando surge uma informação nova.

Parece abstrato, mas você faz isso todo dia.

“A transação parece legítima.”
“Espere: o IP é novo, o valor é atípico e houve quinze tentativas de senha.”
“Atualize a conclusão.”

Em segurança, em auditoria e em operações, mudar de opinião diante de evidências novas não é fraqueza. É inteligência.



5. Lisp: a linguagem que ensinou a IA a mexer em ideias

Em 1958, McCarthy criou Lisp, abreviação de List Processing. A linguagem ganhou forma pública em seu famoso artigo de 1960 e se tornou uma das linguagens mais influentes da história da IA.

Lisp tratava listas e expressões simbólicas como elementos naturais do programa. Isso era muito poderoso para manipular estruturas de conhecimento, árvores, regras, fórmulas e linguagem.

Um exemplo muito simplificado de Lisp pode parecer assim:

(if (fraude-suspeita transacao)
    (bloquear transacao)
    (aprovar transacao))

Não é COBOL, claro. Mas a intenção deve lhe soar familiar: testar uma condição e tomar um caminho.

A diferença cultural é interessante. COBOL foi desenhado para tornar regras de negócio legíveis e duráveis. Lisp nasceu em um ambiente que queria representar símbolos, relações e transformações conceituais. Um é o funcionário experiente que conhece todas as contas do fechamento mensal; o outro é o professor maluco do laboratório que pergunta se uma expressão pode modificar outra expressão e se isso nos aproxima da mente.

Os dois têm lugar no mundo.

Aliás, Lisp não está morto. Ideias que ele popularizou — funções como valores, recursão, coleta automática de memória, manipulação de listas e metaprogramação — influenciaram muitas linguagens posteriores. A história da computação é cheia de “tecnologias antigas” que, na verdade, eram ideias adiantadas demais para o hardware e o mercado de sua época.

Mainframe também conhece essa piada. Quando alguém diz que COBOL é velho, o programador experiente responde:

“Velho é o sistema que ainda movimenta dinheiro, processa seguro, paga salário e não cai quando o hype troca de nome.”



6. A aposta de 2039: previsão, palpite ou bilhete para o Delorean?

Em uma entrevista de 1989, McCarthy falou sobre o tempo necessário para programas se tornarem tão inteligentes quanto seres humanos. Ele reconheceu que poderia levar duzentos ou quinhentos anos, dependendo dos avanços conceituais necessários. Mas disse que se inclinaria a apostar em algo como cinquenta anos — acrescentando, com humor seco, que era extremamente improvável que estivesse vivo para ver.

1989 + 50 nos leva aproximadamente a 2039.

McCarthy morreu em 2011. Ele acertou, de forma triste e literal, que não viveria para testemunhar a resposta. Mas é importante não transformar isso em profecia com data marcada no calendário.

2039 não é uma garantia de “AGI em produção”. Não haverá necessariamente um painel no Data Center dizendo:

AGI-2039 — STATUS: DISPONÍVEL
PRESS <ENTER> PARA ATIVAR CONSCIÊNCIA

A própria expressão “inteligência humana” é difícil de medir. Um sistema pode ser melhor que uma pessoa em xadrez, tradução, cálculo, reconhecimento de imagens e geração de código, mas falhar em tarefas banais que exigem contexto, bom senso, memória confiável ou compreensão física do mundo.

Foi isso que aconteceu no xadrez. Em 1968, o mestre internacional escocês David Levy apostou que nenhum computador o venceria em dez anos. Em 1978, o programa CHESS 4.7 perdeu por 2 a 1 — uma derrota humana, mas uma aproximação notável.

Décadas depois, computadores venceriam campeões mundiais. Isso não significou que eles haviam resolvido a inteligência geral. Significou que resolveram — brilhantemente — um domínio formal, com regras claras e objetivo definido.

A lição é ouro:

Ser excelente em uma tarefa não torna automaticamente um sistema inteligente em tudo.

Um modelo que escreve COBOL pode ajudar muito. Ainda assim, ele pode não conhecer as regras específicas do seu banco, não saber que um campo contém informação sensível, não entender uma convenção interna, não ter acesso ao contexto de produção e não perceber que aquela “melhoria” quebra um processo regulatório.

Por isso, IA corporativa madura precisa de humano no circuito, testes, limites de acesso, logs, aprovação e recuperação.

Igor, naturalmente, acha que basta dar UPDATE na tabela de pagamentos e perguntar para o robô “faz um PIX aí”. Não seja Igor.



7. LLMs, IA simbólica e o grande encontro no bar

A IA que domina a conversa atual é fortemente baseada em aprendizado de máquina: grandes modelos neurais treinados com enormes volumes de texto, código, imagens e outros dados. Eles aprendem padrões estatísticos e conseguem gerar respostas surpreendentemente úteis.

Esse caminho é diferente da visão mais simbólica de McCarthy. Em vez de alguém escrever explicitamente todas as regras, o modelo aprende regularidades a partir de exemplos.

Há vantagens enormes:

  • adaptação a linguagem natural;

  • capacidade de lidar com variedade de textos;

  • geração de rascunhos e código;

  • sumarização;

  • classificação;

  • tradução;

  • apoio ao atendimento;

  • descoberta de padrões.

Mas há riscos igualmente reais:

  • alucinação: inventar fatos ou referências;

  • vieses presentes nos dados;

  • falta de explicabilidade;

  • vazamento de informações;

  • prompt injection;

  • automação de decisões sem revisão;

  • confiança excessiva do usuário.

A tendência mais interessante não é escolher uma religião — “só redes neurais” ou “só regras simbólicas”. É combinar abordagens.

Um sistema empresarial pode usar um LLM para entender a solicitação em português, uma base de conhecimento validada para buscar políticas corretas, regras explícitas para decisões obrigatórias e um humano para aprovar ações de alto impacto.

Pense assim:

Pessoa faz pergunta
        ↓
LLM entende a linguagem
        ↓
RAG busca documentos autorizados
        ↓
Regras de negócio validam condições
        ↓
Humano aprova decisão sensível
        ↓
Log registra tudo

Isso está muito mais perto de uma arquitetura responsável do que soltar um modelo numa rede corporativa e torcer para ele ter juízo.

Máquinas não têm juízo moral por padrão. Elas têm permissões, dados, instruções, limitações e consequências.



8. Um roteiro para o programador COBOL entrar na conversa da IA sem virar passageiro do tempo

Você não precisa abandonar COBOL, virar cientista de dados em uma semana ou comprar uma camiseta escrito “AGI IS COMING” para participar desse futuro.

Comece de modo prático.

Passo 1 — Entenda o processo antes de automatizá-lo

Escolha uma rotina de negócio conhecida: validação de cadastro, classificação de chamados, triagem de documentos, explicação de mensagens de erro ou consulta de procedimento.

Pergunte:

  • qual é a entrada?

  • qual é a saída?

  • quais regras são obrigatórias?

  • quais exceções existem?

  • que dados são sensíveis?

  • quem é responsável pela decisão?

  • como registrar auditoria?

Se você não consegue explicar o processo, não está pronto para entregar o processo a uma IA.

Passo 2 — Separe linguagem de decisão

Um LLM pode ser ótimo para receber uma pergunta como:

“Por que meu pagamento foi bloqueado?”

Mas a decisão real de bloqueio deve continuar apoiada por regras, dados transacionais e controles.

A IA pode traduzir o tecnês. O motor de regras decide. O analista responde pelo caso. Essa separação evita que um texto bonito vire uma decisão perigosa.

Passo 3 — Use a IA como par de programação, não como piloto automático

Peça para ela:

  • explicar um programa COBOL;

  • sugerir casos de teste;

  • comentar uma PROCEDURE DIVISION;

  • gerar documentação inicial;

  • converter uma regra de negócio em pseudocódigo;

  • ajudar a encontrar campos usados em uma rotina;

  • produzir uma primeira versão de teste unitário.

Mas revise tudo. Principalmente nomes de campos, arquivos VSAM, commits, SQL, regras de arredondamento, formatos de data e operações financeiras.

A IA pode ser um ótimo estagiário que trabalha rápido. Você continua sendo o responsável pela mudança em produção.

Passo 4 — Segurança não é rodapé

Nunca envie código proprietário, dados de clientes, credenciais, dumps, arquivos de produção ou detalhes operacionais para ferramentas públicas sem autorização.

Pergunte sempre:

  • onde o dado será processado?

  • ele será retido?

  • quem pode acessá-lo?

  • há contrato e política corporativa?

  • o conteúdo pode virar treinamento?

  • existe mascaramento?

  • há trilhas de auditoria?

Turing trabalhou com segredo criptográfico. McCarthy pensava em representação de conhecimento. Em 2026, os dois provavelmente olhariam para um CSV de clientes colado num chatbot público e pediriam para desligar o Delorean.


Epílogo — A pergunta ainda está na fita

Alan Turing nos deu a linguagem conceitual para pensar máquinas que executam procedimentos gerais. Ele nos deixou uma pergunta que resiste a cada nova geração tecnológica: “máquinas podem pensar?”

John McCarthy pegou essa inquietação e deu a ela um nome, um campo de pesquisa, uma agenda e ferramentas para tentar respondê-la. Criou Lisp, ajudou a moldar a IA simbólica e, em 1989, arriscou um palpite que nos aponta para 2039 — não como destino garantido, mas como um marcador fascinante no mapa.

Hoje, temos sistemas capazes de conversar, programar, traduzir, enxergar, resumir e sugerir. Alguns parecem mágicos até o momento em que erram algo óbvio. Isso não diminui sua importância; apenas nos obriga a sair do hype e entrar na engenharia.

Talvez a pergunta não seja mais apenas “a máquina pensa?”.

Talvez seja:

“Ela entende? Ela pode agir? Ela pode errar? Quem confere? Quem responde pelo dano? E por que Igor recebeu acesso de administrador?”

O programador COBOL tem uma vantagem preciosa nesta era. Já conhece sistemas longos, críticos, regulados, cheios de exceções e onde um pequeno erro pode fazer uma conta muito grande deixar de fechar. Esse olhar vale ouro quando a IA sai do laboratório e entra no banco, no governo, na saúde, na segurança e no mainframe.

No fim, Turing construiu a estrada. McCarthy colocou a placa: Inteligência Artificial. E nós, passageiros do Delorean de 2026, estamos dirigindo rumo a 2039 com uma mão no volante, outra no manual de segurança e o professor Brown gritando do banco de trás:

“Para onde vamos, não precisamos de estradas… mas vamos precisar de logs, testes, backup e um plano de rollback!”



 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Mainframe History : Especial VIII A — Tommy Flowers: O Pai Esquecido da Computação Eletrônica

 

Bellacosa Mainframe e outro computador z especial complemento parte viii a

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Muito Antes do IBM Z Existia Outro "Z"

Especial VIII A — Tommy Flowers: O Pai Esquecido da Computação Eletrônica

O Homem que Acendeu 2.500 Válvulas, Encurtou a Segunda Guerra Mundial e Depois Voltou para Casa Como um Anônimo

"A História costuma celebrar quem aparece nos jornais. A Engenharia costuma ser construída por aqueles que permanecem escondidos nos laboratórios."

Se você perguntar a um grupo de profissionais de TI quem foi Konrad Zuse, alguns responderão corretamente.

Se perguntar quem foi John von Neumann, muitos lembrarão da famosa arquitetura que domina praticamente todos os computadores modernos.

Se mencionar Alan Turing, provavelmente ouvirá referências à Enigma, à inteligência artificial e ao famoso Teste de Turing.

Agora faça outra pergunta.

Quem foi Tommy Flowers?

É bem provável que boa parte das pessoas permaneça em silêncio.

E isso é profundamente injusto.

Porque, sem Tommy Flowers, talvez a computação eletrônica tivesse demorado muito mais para conquistar a confiança da comunidade científica e da indústria.

Hoje vamos conhecer um engenheiro que nunca buscou fama.

Nunca escreveu autobiografias.

Nunca apareceu em campanhas publicitárias.

Nunca recebeu o reconhecimento proporcional ao tamanho de sua contribuição.

Mesmo assim, ajudou a mudar o destino da Segunda Guerra Mundial e da própria computação.


Um Engenheiro dos Correios

Thomas Harold Flowers nasceu em Londres, em 1905.

Sua formação não aconteceu em uma universidade famosa de matemática.

Nem em um laboratório de física.

Flowers era engenheiro de telecomunicações.

Trabalhava no General Post Office (GPO), o serviço postal britânico, que também era responsável pela infraestrutura telefônica do país.

Hoje isso pode parecer estranho.

Mas, naquela época, telefonia e telecomunicações estavam entre as áreas mais avançadas da engenharia.

Ali, Flowers aprendeu algo que mudaria sua vida.

Como construir equipamentos eletrônicos capazes de funcionar continuamente.


O Mundo das Centrais Telefônicas

Imagine uma central telefônica da década de 1930.

Milhares de ligações.

Relés abrindo e fechando contatos.

Operadoras conectando chamadas manualmente.

Depois, sistemas automáticos assumindo essa função.

A confiabilidade era essencial.

Uma falha interrompia centenas de comunicações.

Flowers especializou-se justamente em tornar esses sistemas mais rápidos e mais confiáveis.

Enquanto muitos engenheiros ainda confiavam apenas em mecanismos eletromecânicos, ele acreditava que o futuro estava nas válvulas eletrônicas.

Essa convicção seria colocada à prova poucos anos depois.


☕ Café com Naftalina

Quando hoje falamos em "alta disponibilidade", pensamos em clusters, replicação síncrona, Parallel Sysplex ou GDPS.

Na década de 1930, alta disponibilidade significava manter milhares de chamadas telefônicas funcionando sem interrupção.

Os princípios são os mesmos.

Mudaram apenas as tecnologias.


Um Convite para Bletchley Park

Com o início da Segunda Guerra Mundial, o governo britânico reuniu cientistas, matemáticos e engenheiros em um lugar que permaneceria secreto por décadas.

Seu nome era Bletchley Park.

Ali trabalhavam alguns dos maiores talentos da época.

Entre eles estava Alan Turing.

O objetivo era simples de explicar e extremamente difícil de executar:

Ler mensagens inimigas sem que o inimigo percebesse.

No início, os esforços concentraram-se na famosa máquina Enigma.

Mas havia um desafio ainda maior.

O sistema criptográfico Lorenz SZ40/42, utilizado para comunicações do alto comando alemão.

Era muito mais complexo que a Enigma.

Resolver esse problema manualmente era praticamente impossível.

Era necessário construir uma máquina.


"Isso Nunca Vai Funcionar"

Quando Tommy Flowers apresentou sua proposta, muitos colegas foram céticos.

Sua ideia era utilizar cerca de 2.500 válvulas eletrônicas.

Na época, isso parecia absurdo.

O argumento era sempre o mesmo.

"As válvulas queimam o tempo todo."

"Uma máquina com milhares delas jamais será confiável."

Flowers discordava.

Com base em sua experiência nas centrais telefônicas, sabia que a maior parte das falhas ocorria justamente durante o aquecimento e o resfriamento dos componentes.

Sua solução era surpreendentemente simples.

Nunca desligar a máquina.

As válvulas permaneceriam energizadas continuamente.

Hoje essa estratégia parece familiar.

Datacenters modernos evitam ciclos desnecessários de desligamento justamente para reduzir estresse térmico em diversos componentes.

Mais uma vez, uma boa ideia atravessou décadas.


🔧 Oficina do Engenheiro

Uma válvula termiônica controla o fluxo de elétrons em um ambiente de vácuo. Ela cumpre funções de amplificação e chaveamento semelhantes às que mais tarde seriam desempenhadas pelos transistores.

Embora fossem grandes, consumissem muita energia e gerassem calor, as válvulas permitiam operações muito mais rápidas que os relés eletromecânicos.

O Colossus demonstrou, na prática, que sistemas eletrônicos complexos podiam operar continuamente com alta confiabilidade quando bem projetados.


Nasce o Colossus

Em dezembro de 1943, o primeiro Colossus começou a operar.

Era uma máquina impressionante.

  • Cerca de 2.400 válvulas eletrônicas (na primeira versão).

  • Leitura óptica de fita perfurada em alta velocidade.

  • Processamento eletrônico.

  • Configuração por chaves e painéis.

  • Operação praticamente contínua.

Poucos meses depois surgiu o Colossus Mark II, ainda mais rápido e sofisticado.

Ao final da guerra, havia várias unidades em operação.


Enigma? Não.

Existe um dos maiores equívocos da história da computação.

Muita gente acredita que o Colossus foi construído para quebrar a Enigma.

Na realidade, sua principal missão era analisar mensagens produzidas pela máquina Lorenz, utilizada pelo alto comando alemão.

A Enigma era extremamente importante.

Mas o Lorenz protegia comunicações estratégicas entre Hitler e seus principais comandantes.

Quebrar esse sistema fornecia informações de enorme valor militar.


O Computador Invisível

O Colossus funcionou.

E funcionou muito bem.

Contribuiu para acelerar significativamente o trabalho dos criptanalistas britânicos.

Entretanto, quando a guerra terminou, aconteceu algo extraordinário.

As máquinas foram desmontadas.

Projetos destruídos.

Documentos classificados.

Os engenheiros assinaram compromissos de confidencialidade.

Durante décadas, praticamente ninguém podia comentar sua existência.

Enquanto isso, livros de história apresentavam o ENIAC como a grande revolução eletrônica.

Não porque o ENIAC não fosse extraordinário.

Mas porque quase ninguém sabia que o Colossus havia existido.


📦 Baú do Sysprog

Imagine participar do desenvolvimento de um sistema revolucionário e passar quase trinta anos proibido de mencionar esse trabalho, até mesmo para amigos ou familiares.

Foi exatamente isso que aconteceu com Tommy Flowers e muitos integrantes da equipe de Bletchley Park.


O Que um Sysprog IBM Z Aprende com Tommy Flowers?

Mais do que velocidade, Tommy Flowers nos ensina sobre confiabilidade.

Ele enfrentou um problema que qualquer Sysprog reconhece imediatamente:

Como manter um sistema complexo funcionando continuamente?

Sua resposta foi engenharia.

Testes.

Redundância.

Conhecimento profundo dos componentes.

Operação disciplinada.

É exatamente essa cultura que encontramos hoje nos ambientes IBM Z.

Não basta processar milhões de transações por segundo.

É preciso fazer isso todos os dias, durante anos, com disponibilidade próxima de 100%.


Um Herói Silencioso

Tommy Flowers não buscou reconhecimento.

Depois da guerra voltou ao trabalho em telecomunicações.

Não ficou rico.

Não fundou uma grande empresa de computadores.

Não se tornou uma celebridade.

Mas deixou uma herança extraordinária.

Demonstrou que computadores eletrônicos podiam ser rápidos, robustos e confiáveis.

Essa certeza influenciou toda a evolução posterior da computação.


O Legado

Konrad Zuse mostrou que computadores programáveis eram possíveis.

Tommy Flowers provou que computadores eletrônicos eram viáveis em larga escala.

Eckert e Mauchly levaram essa tecnologia ao conhecimento do público.

Von Neumann organizou seus princípios arquiteturais.

A IBM transformou tudo isso em plataformas comerciais confiáveis.

Quando um IBM Z processa bilhões de transações por dia, há um pouco de cada um desses pioneiros trabalhando silenciosamente dentro dele.

Inclusive de um engenheiro dos Correios britânicos que acreditou em 2.500 válvulas quando quase ninguém acreditava.

Talvez essa seja a maior lição de Tommy Flowers.

A inovação nem sempre nasce do consenso.

Às vezes, ela nasce da coragem de um engenheiro que insiste em provar que todos os outros estavam errados.

E, de vez em quando...

Ele realmente consegue.

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Histórias com Cheiro de Naftalina

O Guia do Viajante do Tempo

Muito Antes do IBM Z Existia Outro “Z”

Viaje pelas origens da computação, conhecendo Konrad Zuse, Herman Hollerith, Tommy Flowers, John von Neumann, o Colossus, o EDVAC, o IBM System/360 e os pioneiros que construíram o caminho até o IBM Z.

ARTIGO SELECIONADO

O Guia do Viajante do Tempo

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Bellacosa Mainframe — tecnologia, história, COBOL, IBM Z e memória.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Mainframe History : Parte VIII a — Afinal, Quem Inventou o Primeiro Computador?

 

Bellacosa Mainframe e o outro computador z parte viii a

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Muito Antes do IBM Z Existia Outro "Z"

Parte VIII a — Afinal, Quem Inventou o Primeiro Computador?

A Guerra dos Gigantes (Parte I)

"A História raramente é escrita por um único gênio. Ela costuma ser construída por dezenas deles, trabalhando ao mesmo tempo, em lugares diferentes, tentando resolver problemas completamente distintos."

Existe uma pergunta que acompanha praticamente todos os cursos de Ciência da Computação.

Quem inventou o computador?

Parece uma pergunta simples.

Mas qualquer historiador sério provavelmente responderá com outra pergunta.

"O que você chama de computador?"

Pode parecer uma tentativa de fugir da resposta.

Não é.

É justamente aí que começa uma das discussões mais fascinantes da engenharia moderna.

Ao longo desta série conhecemos Konrad Zuse.

Vimos nascer o Z1.

Acompanhamos a evolução para o Z2.

Celebramos o Z3.

Assistimos ao Z4 sobreviver à Segunda Guerra Mundial.

Descobrimos que Zuse também imaginou uma linguagem de programação décadas antes do restante do mundo.

Naturalmente surge a dúvida.

Se ele fez tudo isso...

Por que durante tantos anos aprendemos que o ENIAC foi o primeiro computador?

A resposta nos leva a uma verdadeira reunião de gigantes.

Hoje faremos algo diferente.

Vamos visitar um grande salão imaginário.

Nele estão reunidos alguns dos maiores nomes da História da Computação.

Cada um reivindica um pedaço da mesma invenção.

Curiosamente...

Todos têm razão.


O Avô de Todos Eles

Nossa viagem começa muito antes da eletricidade.

Muito antes dos relés.

Muito antes das válvulas.

Muito antes da IBM.

Muito antes de Konrad Zuse.

Voltamos ao ano de 1822.

Londres.

Um matemático chamado Charles Babbage observava um problema que incomodava cientistas da época.

As tabelas matemáticas utilizadas por engenheiros possuíam inúmeros erros.

Esses erros custavam dinheiro.

Provocavam acidentes.

Comprometiam projetos.

Babbage imaginou então uma máquina capaz de produzir essas tabelas automaticamente.

Nascia a ideia da Difference Engine.

Alguns anos depois ele foi ainda mais longe.

Projetou a Analytical Engine.

E foi nesse momento que a história mudou para sempre.


Um Computador no Século XIX

A Analytical Engine nunca foi concluída.

Mas seu projeto possuía conceitos impressionantes.

Memória.

Unidade de processamento.

Entrada.

Saída.

Controle de execução.

Programação por cartões perfurados.

Parece familiar?

Claro que parece.

A arquitetura conceitual já estava praticamente pronta.

Faltava apenas uma tecnologia capaz de construí-la.

Às vezes a Engenharia tem esse comportamento curioso.

As ideias chegam antes da indústria.


Ada Lovelace

Ao lado de Charles Babbage surgiu outra personagem extraordinária.

Augusta Ada King.

Mais conhecida como Ada Lovelace.

Enquanto muitos enxergavam a máquina apenas como uma enorme calculadora, Ada fez uma observação revolucionária.

Ela escreveu que, caso números representassem outras coisas além de valores matemáticos, aquela máquina poderia manipular música, texto e símbolos.

Em outras palavras.

Ada compreendeu que computadores processariam informação.

Não apenas cálculos.

Hoje parece óbvio.

Em 1843 era quase ficção científica.

Por esse motivo, muitos historiadores a consideram a primeira programadora da História.


☕ Café com Naftalina

Se Charles Babbage projetou o primeiro "hardware" moderno, Ada Lovelace foi provavelmente a primeira pessoa a compreender o verdadeiro potencial do "software".

Mais de um século antes do IBM Z.


Herman Hollerith

Pulamos agora para o final do século XIX.

Enquanto Babbage sonhava com computadores universais, Herman Hollerith resolvia um problema completamente diferente.

Como processar milhões de registros do Censo norte-americano?

Sua resposta ficou famosa.

Cartões perfurados.

Leitores eletromecânicos.

Classificadores.

Tabuladores.

Essas máquinas não eram computadores de propósito geral.

Mas inauguraram a era do processamento automatizado de grandes volumes de dados.

Décadas depois, dariam origem à IBM.


Konrad Zuse

Chegamos novamente ao nosso protagonista.

Entre 1936 e 1941, Konrad Zuse construiu:

Z1.

Z2.

Z3.

Cada um representando um enorme avanço.

O Z3 reunia características impressionantes.

Era:

  • digital;

  • binário;

  • programável;

  • automático;

  • baseado em ponto flutuante.

Para muitos pesquisadores, isso basta para considerá-lo o primeiro computador programável funcional da História.

Mas ele não estava sozinho.


Howard Aiken

Enquanto Zuse trabalhava em Berlim, outro engenheiro também perseguia um sonho.

Howard Aiken.

Nos Estados Unidos.

Seu projeto ficou conhecido como Harvard Mark I.

Concluído em 1944.

Era gigantesco.

Mais de quinze metros de comprimento.

Centenas de quilômetros de fios.

Milhares de componentes eletromecânicos.

Assim como o Z3, utilizava relés.

Era extremamente confiável.

Muito utilizado para cálculos científicos e militares.

A IBM participou diretamente de sua construção.

Foi uma das primeiras grandes colaborações entre universidade e indústria na área de computação.


🔧 Oficina do Engenheiro

Embora o Harvard Mark I e o Z3 utilizassem relés, existiam diferenças importantes.

O Z3 trabalhava em binário.

O Mark I utilizava representação decimal.

Essa decisão influenciava toda a arquitetura interna da máquina.

Mais uma vez percebemos que não existia um único caminho para construir computadores.


Tommy Flowers

Enquanto Alemanha e Estados Unidos desenvolviam computadores programáveis, outra revolução acontecia silenciosamente na Inglaterra.

O engenheiro Tommy Flowers liderava um projeto extremamente secreto.

Seu objetivo não era calcular folhas de pagamento.

Nem resolver equações diferenciais.

Era ajudar a decifrar mensagens criptografadas produzidas pelo alto comando alemão.

O resultado recebeu o nome de Colossus.

Durante décadas sua existência permaneceu praticamente desconhecida.

Era segredo de Estado.


O Computador Invisível

O Colossus utilizava milhares de válvulas eletrônicas.

Durante muito tempo acreditou-se que válvulas seriam pouco confiáveis para operação contínua.

Flowers demonstrou exatamente o contrário.

Mantendo-as permanentemente aquecidas, a taxa de falhas diminuía drasticamente.

Esse conhecimento influenciaria gerações futuras de computadores eletrônicos.

Entretanto, havia uma limitação.

O Colossus era especializado.

Não era um computador de propósito geral.

Sua missão era extremamente específica.

Quebrar códigos criptográficos.

Cumpriu essa missão com enorme sucesso.

Mas não podia simplesmente ser reprogramado para executar qualquer algoritmo.


📦 Baú do Sysprog

Na computação corporativa ainda convivemos com essa distinção.

Existem equipamentos de propósito geral, como o IBM Z.

E existem aceleradores especializados, como criptoprocessadores, NPUs e processadores dedicados à Inteligência Artificial.

A especialização continua sendo uma poderosa estratégia arquitetural.


Então... Quem Vence?

Até aqui conhecemos cinco candidatos.

Charles Babbage.

Ada Lovelace.

Herman Hollerith.

Konrad Zuse.

Howard Aiken.

Tommy Flowers.

Cada um resolveu um problema diferente.

Cada um inaugurou uma tecnologia diferente.

Cada um merece um capítulo próprio na História.

E ainda nem chegamos ao ENIAC.

Nem ao EDVAC.

Nem a John von Neumann.

Mas isso ficará para o próximo café.

Porque a verdadeira revolução eletrônica ainda está prestes a começar...

No próximo capítulo entraremos no ENIAC, EDVAC e na Arquitetura de Von Neumann, mostrando por que esses nomes dominaram os livros durante décadas e como eles se conectam diretamente ao IBM System/360 e, finalmente, ao IBM Z. É nesse ponto que todas as linhas da história começam a convergir.

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Viaje pelas origens da computação, conhecendo Konrad Zuse, Herman Hollerith, Tommy Flowers, John von Neumann, o Colossus, o EDVAC, o IBM System/360 e os pioneiros que construíram o caminho até o IBM Z.

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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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