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segunda-feira, 27 de setembro de 2021

☕⚙️💣 O PROGRAMADOR QUE CRIOU ROBÔS NO TEMPO DOS SAMURAIS — TANAKA HISASHIGE E O MAINFRAME MECÂNICO QUE ANTECEDEU A TOSHIBA

 

Bellacosa Mainframe o samurai dos robots Tanaka Hisashige

☕⚙️💣 O PROGRAMADOR QUE CRIOU ROBÔS NO TEMPO DOS SAMURAIS — TANAKA HISASHIGE E O MAINFRAME MECÂNICO QUE ANTECEDEU A TOSHIBA

Existe uma curiosidade fascinante na história da tecnologia que poucos profissionais de TI conhecem.

Quando pensamos nos grandes nomes da engenharia, normalmente lembramos de Alan Turing, Thomas Edison, Nikola Tesla, Grace Hopper ou dos pioneiros da IBM. Mas existe um personagem extraordinário que viveu no Japão do século XIX e que, sob a ótica de um profissional de mainframe, parece ter vindo diretamente do futuro.

Seu nome era Tanaka Hisashige.

E se você observar atentamente sua trajetória, perceberá algo impressionante:

Tanaka estava criando sistemas automatizados quando o mundo sequer imaginava a existência de computadores.

Para entender sua importância, precisamos voltar ao Japão do início do século XIX.

Naquela época, o país ainda vivia sob o xogunato Tokugawa. Os samurais dominavam a sociedade, a industrialização praticamente não existia e boa parte do conhecimento tecnológico europeu demorava anos para chegar ao arquipélago.

Foi nesse ambiente que nasceu Tanaka Hisashige, em 1799.

Desde criança, ele demonstrava uma curiosidade quase obsessiva por mecanismos.

Enquanto outras pessoas observavam um relógio para saber as horas, Tanaka queria desmontá-lo para entender como funcionava.

Enquanto outras pessoas admiravam uma máquina, ele queria descobrir como construí-la.

Esse comportamento é familiar para qualquer programador experiente.

Afinal, quantos profissionais de TI começaram suas carreiras desmontando equipamentos apenas para descobrir o que existia dentro deles?

Ainda jovem, Tanaka tornou-se conhecido pela criação dos famosos Karakuri Ningyō.

Os Karakuri eram autômatos mecânicos extremamente sofisticados para a época.

Imagine um robô.

Agora remova a eletricidade.

Remova os motores.

Remova os circuitos.

Remova os microprocessadores.

O que sobra?

Engrenagens, molas, pesos e mecanismos cuidadosamente projetados.

Foi exatamente isso que Tanaka utilizou para construir máquinas capazes de realizar tarefas aparentemente inteligentes.

Seu autômato mais famoso servia chá aos convidados.

O boneco caminhava sozinho, transportava a bandeja, aguardava que a xícara fosse retirada e retornava ao ponto inicial quando o convidado terminava de beber.

Para um observador moderno, isso parece uma simples curiosidade histórica.

Para um profissional de automação, porém, a interpretação é diferente.

Aquilo era um workflow.

Um processo automatizado.

Uma rotina programada.

Um job batch mecânico executando instruções pré-definidas.

Em outras palavras, Tanaka estava criando automação muito antes da palavra automação existir.

Mas o verdadeiro salto tecnológico viria anos depois.

Entre suas criações mais impressionantes está o lendário Man-nen Dokei, conhecido internacionalmente como o Myriad Year Clock.

Talvez este seja o equipamento que mais desperte admiração entre engenheiros modernos.

À primeira vista, parece apenas um relógio ornamentado.

Na prática, era um sistema mecânico de extrema complexidade.

O equipamento era capaz de controlar simultaneamente diversos calendários, indicar fases da Lua, acompanhar ciclos astronômicos e adaptar-se ao peculiar sistema japonês de medição do tempo utilizado na época.

Tudo isso sem eletrônica.

Sem software.

Sem firmware.

Sem banco de dados.

Sem energia elétrica.

Quando observamos seus mecanismos internos, a sensação é semelhante à de analisar um programa COBOL escrito por um desenvolvedor brilhante.

Cada componente possui uma função específica.

Cada engrenagem depende de outra.

Cada movimento desencadeia uma cadeia de eventos cuidadosamente planejada.

Nada é aleatório.

Nada é supérfluo.

Tudo foi projetado para funcionar durante anos com extrema confiabilidade.

Se existisse uma certificação de alta disponibilidade no século XIX, aquele relógio certamente teria sido aprovado.

Com a abertura gradual do Japão ao Ocidente, uma nova oportunidade surgiu.

Tecnologias europeias começaram a chegar ao país.

Máquinas a vapor, telégrafos e equipamentos industriais despertavam a curiosidade dos engenheiros japoneses.

Enquanto muitos observavam aquelas inovações com cautela, Tanaka fazia aquilo que todo grande especialista em tecnologia faz diante de uma novidade.

Ele estudava.

Desmontava mentalmente.

Entendia os conceitos.

E construía sua própria versão.

Em pouco tempo estava envolvido na fabricação de motores, equipamentos industriais e sistemas telegráficos.

É importante compreender o tamanho desse feito.

Hoje qualquer profissional pode assistir a vídeos, participar de cursos online ou consultar documentação técnica instantaneamente.

Tanaka não possuía nada disso.

Muitas vezes precisava interpretar informações incompletas, realizar engenharia reversa e desenvolver soluções praticamente do zero.

Era como receber apenas o dump de um ABEND e reconstruir sozinho toda a aplicação.

Seu talento chamou a atenção do governo japonês durante a Restauração Meiji.

O país precisava modernizar sua infraestrutura rapidamente.

Ferrovias, telecomunicações e sistemas industriais tornaram-se prioridades nacionais.

Tanaka foi convocado para participar dessa transformação.

Em 1875 fundou a Tanaka Seisakusho.

O objetivo inicial era fabricar equipamentos telegráficos para apoiar a expansão das comunicações japonesas.

Parece algo simples.

Mas, sob uma perspectiva histórica, foi um marco gigantesco.

Estamos falando da origem de uma empresa que, décadas depois, evoluiria para uma das maiores corporações tecnológicas do planeta.

O nome moderno dessa organização é conhecido por praticamente qualquer profissional de tecnologia:

Toshiba.

Sim.

A gigantesca Toshiba surgiu das iniciativas de um inventor que começou construindo autômatos mecânicos durante a era dos samurais.

Existe uma lição extremamente valiosa nessa história.

Quando analisamos as realizações de Tanaka Hisashige, percebemos que sua verdadeira genialidade não estava apenas nas máquinas.

Estava na forma de pensar.

Ele observava sistemas.

Identificava processos.

Compreendia dependências.

Criava mecanismos confiáveis.

Automatizava atividades repetitivas.

Reduzia intervenção humana.

Aumentava eficiência.

Em essência, ele aplicava exatamente os mesmos princípios utilizados atualmente por arquitetos de software, especialistas DevOps, engenheiros de automação e profissionais de mainframe.

As tecnologias mudaram.

As ferramentas mudaram.

As linguagens mudaram.

Mas a lógica fundamental continua a mesma.

Resolver problemas por meio de sistemas confiáveis.

Talvez seja por isso que sua história continue tão relevante mais de duzentos anos depois.

Tanaka Hisashige nos lembra que inovação não depende apenas de ferramentas modernas.

Não depende de inteligência artificial.

Não depende de nuvem.

Não depende de processadores avançados.

A verdadeira inovação nasce da curiosidade.

Nasce da observação.

Nasce da vontade de compreender como as coisas funcionam.

E principalmente da coragem de construir algo que ainda não existe.

Por isso, quando alguém afirmar que automação começou com computadores, vale lembrar da figura daquele engenheiro japonês cercado por engrenagens, molas e mecanismos de precisão.

Enquanto o resto do mundo ainda tentava compreender as máquinas do presente, Tanaka Hisashige já estava projetando o futuro.

Ou, como diríamos no Bellacosa Mainframe:

"Quando os outros ainda estavam procurando o manual de operação, Tanaka já tinha colocado o sistema em produção."

☕ Lição Bellacosa Mainframe: Todo grande sistema nasce da mesma pergunta que guiou Tanaka há mais de 200 anos: "Como posso fazer isso funcionar sozinho, de forma confiável e por muito tempo?" A resposta para essa pergunta continua movendo desde autômatos mecânicos até os maiores mainframes do planeta.