| Bellacosa Mainframe e o sanfoneiro da festa junina do colégio são Jose |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🪗 Formiga e o Sanfoneiro na Quadrilha — Quando o Vaguinho Saiu das Histórias
Uma festa junina no Colégio São José, um sanfoneiro tocando, dezenas de pequenos caipiras correndo pelo pátio e um analista de sistemas descobrindo que, para os amigos do Formiga, ele não era exatamente um adulto: era um personagem das histórias.
Existem vídeos que registram acontecimentos importantes.
Casamentos.
Formaturas.
Viagens.
Aniversários.
E existem aqueles pequenos vídeos que aparentemente não registram absolutamente nada de extraordinário.
São justamente esses que, anos depois, tornam-se extraordinários.
Este é um deles.
Estamos novamente na Festa Junina do Colégio São José, em Campinas.
O pátio está tomado por crianças vestidas de caipirinhas, famílias observando as apresentações, professores tentando manter alguma organização no meio daquela maravilhosa confusão e, nos bastidores de tudo isso, a festa continua acontecendo.
Barracas.
Comes e bebes.
Conversas.
Risadas.
Crianças correndo.
Pais fotografando.
E música.
Muita música.
No meio daquele pequeno universo junino havia um personagem fundamental:
o sanfoneiro.
🪗
Sentado com seu instrumento, ele fazia aquilo que gerações de músicos fizeram antes dele nas festas populares brasileiras.
Abriu a sanfona.
Fechou a sanfona.
E deixou o ar atravessar os foles transformando movimento em música.
Ao redor dele, a festa acontecia.
Mas havia outro personagem naquela história.
🐜 O Formiga estava impossível
Nosso pequeno Formiga encontrava-se em estado de absoluta euforia.
E quem conhece criança em festa escolar sabe exatamente o que isso significa.
Ele queria correr.
Brincar.
Conversar.
Encontrar os amigos.
Mostrar alguma coisa.
Sumir durante alguns segundos.
Aparecer do outro lado.
Voltar correndo.
Contar uma história começando pelo final.
E imediatamente desaparecer novamente porque alguma coisa muito mais importante acabara de acontecer a cinco metros dali.
Era o processamento paralelo infantil funcionando em sua capacidade máxima.
Se colocássemos aquilo num monitor de performance, provavelmente encontraríamos:
CPU: 100%
Threads: incontáveis
Prioridade: todas
Tempo de resposta: imediato
Controle de mudanças: inexistente
😂
Mas naquele dia aconteceu uma coisa particularmente divertida.
O Formiga resolveu apresentar o Vaguinho aos amigos.
👨💻 "Esse é o Vaguinho!"
E aqui a história fica interessante.
Porque existe o Vagner que eu conheço.
Analista de sistemas.
Programador.
Homem dos bits.
Um sujeito que já havia atravessado aeroportos, cidades, países e continentes.
Um sujeito que trabalhou com computadores enormes, sistemas corporativos e aquelas maravilhosas geringonças tecnológicas que fazem bancos, empresas e governos continuarem funcionando enquanto praticamente ninguém percebe.
Um brasileiro que já havia percorrido uma boa parte deste planeta.
Mas nada disso tinha muita importância naquele pátio.
Para aquelas crianças eu possuía uma credencial muito mais importante:
eu era o Vaguinho.
😂
O personagem das histórias do Formiga.
De repente aqueles pequenos seres humanos vestidos de caipirinhas estavam conhecendo em carne e osso aquele adulto meio amalucado que aparecia nas histórias contadas por ele.
Provavelmente alguma coisa como:
— Esse é o Vaguinho!
E pronto.
Currículo apresentado.
Não precisava de LinkedIn.
Não precisava de crachá.
Não precisava explicar profissão.
Muito menos mostrar certificados.
Para aquela turma, minha reputação profissional era construída sobre qualificações muito mais importantes.
🎮 Um adulto suspeitamente incompatível com o cargo
Eu era o adulto que jogava videogame.
Montava LEGO.
Assistia desenhos animados.
Inventava brincadeiras.
Fazia zoeira.
Contava histórias.
E, principalmente, não parecia considerar que brincar fosse uma atividade exclusiva das crianças.
Isso provavelmente causava certa incompatibilidade lógica.
Adultos deveriam fazer coisas de adultos.
Conversar sobre assuntos incompreensíveis.
Mandar crianças não correrem.
Perguntar sobre notas.
Dizer:
— Cuidado para não sujar a roupa!
O Vaguinho aparentemente tinha recebido outro manual de operação.
Se havia LEGO:
vamos montar.
Se havia videogame:
liga isso aí.
Se havia desenho animado:
qual episódio?
E entre os desenhos que faziam parte daquele nosso pequeno universo estava uma criatura que se tornaria praticamente patrimônio cultural da casa:
🐑 Shaun the Sheep
Ou, como ficou eternamente registrada em nosso vocabulário:
a famosa Ovelha Xone.
😂
A maravilhosa Shaun the Sheep.
Aquela ovelha extremamente inteligente, cercada por outras ovelhas nem sempre tão inteligentes, vivendo aventuras absurdas enquanto o pobre cachorro Bitzer tenta desesperadamente impedir que a fazenda entre em colapso.
Pensando bem...
Talvez fosse um treinamento precoce para trabalhar com sistemas corporativos.
Shaun cria o incidente.
As outras ovelhas ampliam o incidente.
Bitzer tenta administrar o incidente.
O fazendeiro não sabe que existe um incidente.
E no final todos trabalham desesperadamente para que o ambiente volte ao normal antes que o responsável descubra.
Isso é praticamente um War Room rural.
🐑💻
Talvez por isso eu gostasse tanto.
🪗 Enquanto isso, a sanfona continuava tocando
No fundo daquele pequeno caos perfeitamente organizado, estava o sanfoneiro.
E isso hoje chama minha atenção muito mais do que provavelmente chamou naquele momento.
Porque ele não era simplesmente alguém fornecendo música ambiente.
Era parte essencial daquela experiência.
A festa poderia ter caixas de som.
Poderia ter músicas gravadas.
Poderia simplesmente apertar PLAY.
Mas havia ali um músico.
Uma pessoa.
Um instrumento.
Um fole respirando.
Dedos percorrendo teclas e botões.
A música sendo criada naquele instante.
Cada execução era ligeiramente diferente da anterior.
Nenhum algoritmo.
Nenhum MP3.
Nenhum streaming.
Nenhum buffer.
Apenas músico e instrumento.
Uma tecnologia maravilhosamente analógica.
E ao som daquela sanfona, as crianças realizavam suas coreografias.
🌽 Os pequenos caipiras entram em produção
Cada turma havia preparado sua apresentação.
Durante semanas professores provavelmente organizaram passos, músicas, posições e entradas.
Crianças ensaiaram.
Erraram.
Riram.
Esqueceram.
Tentaram novamente.
Até chegar o grande momento.
Os pequenos entravam vestidos de caipirinhas.
Camisas xadrez.
Vestidos coloridos.
Chapéus de palha.
Pintinhas no rosto.
Bigodes desenhados.
Trancinhas.
Remendos propositalmente costurados nas roupas.
Então começava a música.
E do outro lado estava uma plateia completamente parcial.
Os genitores maravilhados.
😂
Não importava se uma criança virasse para o lado errado.
Se outra esquecesse a coreografia.
Se duas começassem a conversar durante a apresentação.
Se alguém simplesmente parasse no meio da dança procurando a mãe na plateia.
Para os pais aquilo era Broadway.
Era o Scala de Milão.
Era uma apresentação histórica.
Celulares e câmeras eram levantados.
Fotografias eram tiradas.
Vídeos eram gravados.
E aplausos surgiam ao final.
📹 E eu também estava fazendo meu pequeno backup
Naquele momento eu apenas registrava cenas.
Um pequeno vídeo aqui.
Outro ali.
Sem qualquer grande pretensão documental.
Era simplesmente:
REC.
Alguns minutos.
STOP.
Próxima cena.
O que eu não percebia era que estava executando um backup.
Não de arquivos.
Não de programas.
Não de bancos de dados.
Estava fazendo backup de uma época.
Da voz das crianças.
Das roupas.
Das brincadeiras.
Do sanfoneiro.
Do pátio.
Daquele Formiga pequeno e eufórico.
E até daquele Vagner que existia naquele momento.
Porque ele também mudou.
💾 O backup contém versões antigas de nós mesmos
Existe uma coisa curiosa nos vídeos antigos.
Quando assistimos novamente, normalmente prestamos atenção nas pessoas que filmamos.
Mas existe alguém invisível dentro de todo vídeo:
a pessoa que segurava a câmera.
Ela também ficou gravada ali.
Não aparece necessariamente na imagem.
Mas está presente.
Na escolha do enquadramento.
Naquilo que chamou sua atenção.
Na risada atrás da câmera.
Na voz.
Na maneira como observava o mundo.
Por isso, quando revejo um fragmento como este, não estou apenas vendo o Formiga criança.
Estou encontrando uma versão anterior de mim mesmo.
O Vagner daquele dia.
O Vaguinho.
🐜 O personagem aparece em carne e osso
Talvez este seja meu detalhe favorito dessa lembrança.
Para mim, eu simplesmente estava acompanhando o Formiga numa festa escolar.
Para ele, entretanto, havia outra coisa acontecendo.
Ele estava apresentando um pedaço do mundo dele aos amigos.
As crianças provavelmente já tinham ouvido histórias.
O Vaguinho que jogava.
O Vaguinho que brincava.
O Vaguinho que montava LEGO.
O Vaguinho das zoeiras.
O adulto que assistia Ovelha Xone.
Então, subitamente:
lá estava o sujeito.
Materializado no pátio.
😂
É quase como encontrar pessoalmente um personagem sobre o qual alguém vive contando histórias.
E existe algo muito bonito nisso.
Porque significa que, naquele pequeno universo infantil, eu havia conquistado uma categoria diferente de adulto.
Não era simplesmente:
"um adulto".
Era:
"o Vaguinho".
🥚 Easter egg — quem estava apresentando quem?
Durante muitos anos pensei naquela cena como:
o Formiga apresentando o Vaguinho aos amigos.
Hoje não tenho tanta certeza.
Talvez estivesse acontecendo exatamente o contrário.
Talvez o Formiga estivesse me apresentando ao mundo dele.
Aqueles eram os amigos dele.
A escola dele.
As brincadeiras dele.
Os códigos sociais dele.
As histórias dele.
Eu era o visitante.
Por alguns minutos recebi uma credencial temporária para entrar naquele universo.
E o responsável pelo meu acesso era um pequeno administrador chamado Formiga.
USERID: VAGUINHO
ACCESS: FRIENDS
RESOURCE: FESTA.JUNINA.SAOJOSE
PERMISSION: READ / PLAY / ZOEIRA
RACF emocional: ACCESS GRANTED
😂
🕰️ E então o tempo executou seu JOB
A festa terminou.
As barracas foram desmontadas.
O sanfoneiro guardou sua sanfona.
As roupas caipiras voltaram para armários e caixas.
Professores foram para casa.
Pais descarregaram centenas de fotografias.
As crianças cresceram.
Aquelas pequenas figuras que aparecem correndo pelo vídeo hoje são adolescentes ou jovens adultos.
Algumas talvez ainda sejam amigas.
Outras provavelmente nunca mais se encontraram.
Talvez algumas nem se lembrem daquele dia.
Mas existe um pequeno arquivo perdido num canto do universo digital.
E quando apertamos PLAY...
a sanfona toca novamente.
As crianças voltam a dançar.
Os pais voltam a olhar maravilhados.
O Formiga volta a ficar eufórico.
E durante alguns minutos aquele pátio do Colégio São José volta a existir exatamente como era.
Até o Vaguinho retorna.
Um pouco mais jovem.
Provavelmente fazendo alguma zoeira.
🐜🪗
E talvez seja exatamente para isso que servem esses pequenos vídeos aparentemente sem importância.
Eles não impedem que o tempo passe.
Mas deixam alguns checkpoints pelo caminho.
Lugares onde podemos voltar ocasionalmente e dizer:
"Caramba... nós estivemos aqui."
E estivemos mesmo.
O Formiga.
Seus amigos.
Os pequenos caipirinhas.
Os pais orgulhosos.
O sanfoneiro.
E aquele estranho analista de sistemas que percorreu meio mundo para descobrir que, naquele pequeno pátio de Campinas, sua credencial mais importante era simplesmente:
Vaguinho.
☕🐜🪗
Bellacosa Mainframe
Porque algumas memórias não precisam de milhões de bytes.
Precisam apenas sobreviver ao próximo backup.
Sanfoneiro começou a festa.
O sanfoneiro iniciou a festa, o acordeão dá suas iniciais, afinando o instrumento e chamando os dançarinos para o centro da quadra e as crianças obedecem preparando-se para a dança.As crianças do primeiro ano dançando ao ritmo do sanfoneiro e fazendo a maior festa quando o sanfoneiro da roça só tocava isso.... batendo palmas, batendo o pé e fazendo o balanceeeee.
A diversão esta correndo solta e dançam para la e dançam para cá...