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quarta-feira, 15 de julho de 2026

A Corrida pelo Último Megawatt: Nubank, Itaú, Santander, AWS, IA e o Dia em que o Mainframe Descobriu que seu Novo Concorrente Não Era a Cloud — Era a Usina Elétrica

 

Bellacosa Mainframe e a corrida pelo ultimo megawatt

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A Corrida pelo Último Megawatt: Nubank, Itaú, Santander, AWS, IA e o Dia em que o Mainframe Descobriu que seu Novo Concorrente Não Era a Cloud — Era a Usina Elétrica

⚡ AWS, Gravity, Datomic, Kubernetes, IBM Z, LinuxONE, IA, data centers, energia, contingência e o estranho futuro em que milhões de transações bancárias disputam megawatts com GPUs — enquanto o coronel Potter pergunta quem foi o gênio que colocou o plano de DR inteiro na mesma região


São 06h13.

Algum lugar do interior de São Paulo.

Dentro de uma barraca improvisada que inexplicavelmente contém três monitores, um terminal 3270, um cluster Kubernetes e uma cafeteira que certamente reprovaria numa auditoria elétrica, o radar começa a apitar.

BIP.

BIP.

BIP.

Radar O'Reilly entra correndo.

— Coronel! Temos problemas!

Sherman Potter nem levanta os olhos.

— Coreia?

— Pior.

— Produção?

— Muito pior.

— Fale, Radar.

Ele coloca um relatório sobre a mesa.

NUBANK
AWS
ITAÚ
SANTANDER
IA
DATA CENTERS
GPU
MAINFRAME

DEMANDA: ↑↑↑↑↑

ENERGIA DISPONÍVEL: ¯\_(ツ)_/¯

Hawkeye Pierce aparece com uma caneca.

— Quem foi atingido?

Radar responde:

— Ninguém ainda.

— Então por que estamos acordados?

— Porque todos querem construir data centers ao mesmo tempo.

Hawkeye observa o documento.

— Qual o diagnóstico?

Do outro lado da barraca, um velho sysprog que ninguém lembra de ter contratado olha para o RMF e responde:

Falta de megawatt.

Silêncio.

Potter franze a testa.

— Achei que estávamos falando de computadores.

O sysprog toma o café.

— Coronel, chegamos ao ponto em que falar de computadores significa falar de usinas elétricas.

Bem-vindo ao M*A*S*H tecnológico.

Hoje nosso paciente é o sistema bancário brasileiro.

E talvez precisemos operar.


🩺 1. O diagnóstico mudou

Durante décadas, quando discutíamos capacidade bancária, falávamos de:

CPU
MIPS
MSU
MEMÓRIA
I/O
STORAGE
TPS

Depois veio a cloud.

O discurso mudou para:

vCPU
containers
pods
nodes
autoscaling
serverless
regions
availability zones

Parecia que havíamos eliminado a limitação física.

Precisava de mais capacidade?

scale-out

Mais?

scale-out

Mais?

scale-out

Só havia um pequeno problema.

Cada scale-out eventualmente precisa virar:

CPU REAL
RAM REAL
SSD REAL
SWITCH REAL
RACK REAL
ENERGIA REAL
REFRIGERAÇÃO REAL

E eis a grande ironia da cloud:

o computador desapareceu da visão do programador, mas nunca desapareceu do planeta.

A nuvem é uma extraordinária abstração de recursos físicos.

Não uma violação das leis da termodinâmica.


🩺 2. O primeiro paciente: Nubank

O Nubank talvez seja o melhor exemplo brasileiro dessa transformação.

Ele não começou com um grande legado IBM Z para depois migrar.

Nasceu digital.

Sua história tecnológica pública inclui:

AWS
Clojure
Datomic
Kafka
Kubernetes
microservices
machine learning

E chegou a uma escala impressionante.

Em abril de 2025, a engenharia do Nu revelou operar mais de 4.000 microsserviços, processando aproximadamente 72 bilhões de eventos Kafka diariamente e lidando rotineiramente com milhões de requisições por segundo. (Building Nubank)

Em julho de 2026, outra publicação trouxe um número quase surreal:

mais de 21.000 databases em produção, distribuídos entre Brasil, México e Colômbia.

A camada de database é administrada diretamente por apenas cinco engenheiros, graças a automação, self-service e ownership distribuído. (Building Nubank)

O COBOLzeiro lê:

21.000 DATABASES

e pergunta:

— Vocês estão bem?

Sim.

É uma consequência da granularidade de uma arquitetura de microsserviços.


🩺 3. O dia em que a cloud mostrou que também possui teto

A história técnica do Nubank é particularmente interessante porque seu crescimento obrigou a empresa a enfrentar limites de capacidade e quotas.

Nos primeiros tempos, infraestrutura concentrada em poucas contas AWS foi apelidada internamente de:

Pangeia.

Um supercontinente.

            PANGEIA

    ┌────────────────────┐
    │     AWS ACCOUNT    │
    │                    │
    │   serviços         │
    │   Datomic          │
    │   Kafka            │
    │   Kubernetes       │
    │   serviços         │
    │   serviços         │
    └────────────────────┘

Funcionou.

Até crescer demais.

A concentração aumentava blast radius, complicava isolamento entre ambientes e pressionava limites.

Então surgiu a:

Continental Drift.

A Deriva Continental.

         PANGEIA
            |
            ↓

 ┌────────┐ ┌────────┐ ┌────────┐
 │ACCOUNT │ │ACCOUNT │ │ACCOUNT │
 │   A    │ │   B    │ │   C    │
 └────────┘ └────────┘ └────────┘

Domínios separados.

Recursos separados.

Falhas mais isoladas.

Quotas menos concentradas. (Building Nubank)

É arquitetura distribuída aprendendo uma das regras mais antigas da engenharia:

não coloque todos os ovos na mesma cesta.

O mainframe chama Potter.

— Coronel?

— Sim?

— Parallel Sysplex mandou lembranças.


🩺 4. Mas atenção: Nubank NÃO esgotou a AWS brasileira

Aqui precisamos colocar uma etiqueta vermelha no prontuário.

NUBANK ESGOTOU TODA A AWS BRASIL

FALSO.

Não há evidência disso.

O que relatos técnicos do Nubank mostram é que determinados modelos de crescimento chegaram a encontrar limites de recursos/capacidade.

Isso é diferente.

Imagine:

AWS BRASIL

████████████████████████████████████████

Nubank não fez:

████████████████████████████████████████
NUBANK

A situação é mais parecida com:

PRECISO:

tipo específico de recurso
+
determinada região/AZ
+
determinada configuração
+
grande quantidade
+
agora

E naquele contexto a resposta pode ser:

CAPACITY NOT AVAILABLE

A própria documentação da AWS reconhece que Availability Zones podem tornar-se capacity constrained, a ponto de o provedor restringir criação de determinados recursos zonais. (Documentação AWS)

Cloud possui estoque.

Só que você não vê o almoxarifado.


🩺 5. Entra Itaú — e agora a coisa fica realmente grande

O segundo paciente é o Itaú Unibanco.

E aqui precisamos atualizar uma informação importante.

A intenção pública divulgada pelo banco é realmente radical.

Durante o AWS re:Invent 2024, em dezembro de 2024, Ricardo Guerra, CIO do Itaú, anunciou o plano de migrar 100% dos sistemas para cloud, incluindo sistemas que atualmente executam no mainframe.

Na ocasião, 65% das aplicações já estavam em cloud.

A meta divulgada foi:

2017
  |
início da jornada
  |
  v
2024
  |
65% aplicações cloud
  |
  v
2028
  |
migração prevista
  |
  v
2030
  |
estabilização prevista

Portanto, a história do 2030 possui uma nuance importante.

A migração foi anunciada para 2028, seguida de aproximadamente dois anos previstos para estabilização. (BR About Amazon)

E estamos falando do coração do banco.

Os 35% restantes descritos em 2024 eram fundamentalmente rotinas contábeis — justamente a lógica mais profundamente associada ao core. (BR About Amazon)

Isso muda completamente nossa discussão.


🩺 6. Porque Itaú não é uma fintech de garagem

Migrar um sistema web é uma coisa.

Migrar:

CORE
CONTABILIDADE
LEDGER
TRANSAÇÕES
BATCH
INTEGRAÇÕES
DÉCADAS DE REGRAS

é outra.

É quase como anunciar:

“Vamos trocar o motor do avião.”

Pergunta:

— Quando?

Resposta:

— Durante o voo.

Hawkeye:

— Excelente. Quem trouxe paraquedas?

O Itaú afirma que, desde o início dessa transformação, incidentes de alto impacto na experiência dos clientes diminuíram 99%, enquanto o custo por transação caiu 55%. (BR About Amazon)

O projeto utiliza inclusive IA generativa para ajudar na modernização de aplicações mainframe através do Amazon Q Developer. (BR About Amazon)

Ou seja:

MAINFRAME
   |
   v
ANÁLISE / MODERNIZAÇÃO
   |
   +── IA GENERATIVA
   |
   v
AWS

Isso é uma mudança arquitetural monumental.


🩺 7. Agora entra Santander carregando Gravity

O Santander escolheu outro caminho fascinante.

O nome é:

Gravity.

Em 19 de junho de 2025, o Santander anunciou ter concluído a migração de toda a infraestrutura tecnológica core da operação espanhola para Gravity, sua plataforma cloud-based de core banking. (Santander)

E a escala espanhola já é enorme:

> 4,3 bilhões
transações/ano

picos:
~33.000 transações/segundo

O Santander anunciou ainda que Brasil e México estavam entre os próximos rollouts; com esses avanços, esperava atingir aproximadamente 80% da infraestrutura tecnológica core global migrada para cloud. (Santander)

Quando concluída, Gravity deverá lidar com mais de:

1 trilhão de operações técnicas por ano.

(Santander)

Radar olha para Potter.

— Coronel, acho que vamos precisar de outra extensão elétrica.


🩺 8. A parte brilhante do Gravity: execução paralela

Aqui o COBOLzeiro deveria prestar muita atenção.

O Santander não simplesmente diz:

MAINFRAME OFF

CLOUD ON

BOA SORTE.

Gravity permite processamento simultâneo.

Conceitualmente:

               TRANSAÇÃO
                   |
          ┌────────┴────────┐
          |                 |
          v                 v
     MAINFRAME            CLOUD
          |                 |
          └───────┬─────────┘
                  |
               COMPARE
                  |
           RESULTADO IGUAL?
                  |
                 SIM
                  |
              CUTOVER

O Santander descreve justamente capacidade de processar simultaneamente em mainframe e cloud, permitindo testes em tempo real antes da transição definitiva. (Santander)

Para quem viveu migração bancária:

isso é música.

Você não confia na apresentação do PowerPoint.

Você reconcilia.


🩺 9. E então chegam as fintechs

Agora acrescente:

Nubank
Mercado Pago
PicPay
Inter
C6
Neon
fintech A
fintech B
fintech C

Mais:

e-commerce
streaming
governo
SaaS
telecom
indústria

Todos querendo cloud.

O problema começa a parecer:

                     DATACENTER

 BANCO ────────────────┐
 FINTECH ──────────────┤
 VAREJO ───────────────┤
 GOVERNO ──────────────┼──► COMPUTE
 TELECOM ──────────────┤
 STREAMING ────────────┤
 SaaS ─────────────────┘

Até aí tudo bem.

Então alguém abre a porta.

Entra um sujeito carregando 20.000 GPUs.

— Bom dia.

— Quem é você?

Inteligência Artificial.

Hawkeye fecha os olhos.

— Estamos ferrados.


🩺 10. IA mudou a unidade de medida

Aplicações empresariais tradicionais consomem energia.

Mas infraestrutura moderna de IA aumentou dramaticamente a densidade computacional.

Agora falamos de:

GPU
GPU
GPU
GPU
GPU
GPU

+
HBM
+
NETWORK FABRIC
+
STORAGE
+
COOLING

O gargalo começa a migrar de:

TEMOS CPU?

para:

TEMOS ENERGIA?

e depois:

TEMOS SUBESTAÇÃO?

e finalmente:

A REDE DE TRANSMISSÃO CONSEGUE ENTREGAR?

A Empresa de Pesquisa Energética brasileira já trata data centers explicitamente como grandes cargas cujo crescimento afeta diretamente o planejamento de expansão da transmissão. (EPE)

Isso é importantíssimo.

Data center deixou de ser apenas assunto de CIO.

Virou assunto de planejamento energético nacional.


⚡ 11. O Brasil descobriu o problema

E aqui os números ficam extraordinários.

Depois do REDATA, instituído em setembro de 2025, ocorreu forte crescimento dos pedidos relacionados a novos data centers.

Segundo a EPE, em apenas pouco mais de 60 dias apareceram 6,4 GW adicionais em projetos solicitando estudos para conexão à Rede Básica.

O pipeline passou de:

SET/2025
19,8 GW

   ↓

NOV/2025
26,2 GW

(EPE)

26,2 GIGAWATTS.

Agora não estamos mais discutindo servidor.

Estamos discutindo infraestrutura elétrica em escala industrial.

E a própria EPE ressalva corretamente que isso é pipeline de projetos, não capacidade que certamente será construída: implantação depende de transmissão, telecomunicações, viabilidade financeira, garantias e outros fatores. (EPE)


⚡ 12. Onde estão querendo colocar tudo isso?

Principalmente onde você provavelmente imaginou:

São Paulo.

Segundo a EPE, existe forte concentração de projetos no estado, especialmente nas regiões metropolitanas de:

SÃO PAULO

     e

CAMPINAS

(EPE)

Não é coincidência.

A região concentra:

  • mercado financeiro;

  • empresas;

  • telecomunicações;

  • fibras;

  • IXs;

  • mão de obra;

  • infraestrutura;

  • consumidores;

  • provedores;

  • ecossistema tecnológico.

São Paulo é para processamento brasileiro algo próximo do que Wall Street é para finanças americanas:

gravidade.

Quanto mais infraestrutura existe, mais infraestrutura quer ficar perto dela.


⚡ 13. Mas isso cria concentração geográfica

Imagine:

BRASIL

                  Brasília
                     ●

       São Paulo
     ████████████

        Campinas
      █████████

 Rio ●

 Sul ●

 Nordeste ●

É apenas uma representação conceitual, não um mapa quantitativo.

Mas o problema é real.

Concentração produz eficiência.

Também produz risco.

Energia.

Fibra.

Subestações.

Eventos climáticos.

Falhas regionais.

Interrupções de backbone.

Se boa parte da infraestrutura crítica brasileira convergir para o mesmo eixo geográfico, surge uma pergunta desconfortável:

Quantas arquiteturas “distribuídas” estão fisicamente concentradas nos mesmos lugares?

Essa é uma pergunta extraordinariamente importante.


⚡ 14. AWS Brasil também possui geografia

A AWS possui a região brasileira sa-east-1.

Ela contém atualmente três Availability Zones:

sae1-az1
sae1-az2
sae1-az3

(Documentação AWS)

Cada AZ consiste em um ou mais data centers fisicamente separados, com energia, rede e conectividade redundantes; as zonas são conectadas por redes metropolitanas de baixa latência e alta largura de banda. (Documentação AWS)

Essa arquitetura permite:

          REGION

     ┌──────┼──────┐
     │      │      │
    AZ1    AZ2    AZ3

Se AZ1 falhar:

AZ1 💥

AZ2 ✓
AZ3 ✓

desde que sua aplicação tenha sido realmente projetada para isso.

Esse último pedaço da frase deveria estar escrito em letras garrafais.


🩺 15. “Estamos na AWS” NÃO é plano de contingência

Esta talvez seja a lição mais importante do artigo.

Alguém pergunta:

— Temos DR?

Resposta:

— Sim. Estamos na cloud.

ERRADO.

Cloud é infraestrutura.

DR é arquitetura.

Você pode construir:

APPLICATION
     |
    AZ1

e possuir um belo single point of failure.

Melhor:

       APPLICATION
          |
      ┌───┴───┐
      │       │
     AZ1     AZ2

Melhor ainda para certos sistemas críticos:

             APPLICATION
                  |
       ┌──────────┴──────────┐
       │                     │
    REGION A              REGION B
       │                     │
    AZ1/AZ2               AZ1/AZ2

E em casos extremos:

AWS
 |
 +── REGION A
 +── REGION B

PRIVATE CLOUD

IBM Z

A pergunta não é:

“Qual cloud você usa?”

É:

“Qual falha você consegue sobreviver?”


🩺 16. Multi-cloud resolve?

Talvez.

Mas existe um preço.

Você pode fazer:

              BANK
                |
       ┌────────┼────────┐
       │        │        │
      AWS      GCP     AZURE

Bonito.

Agora mantenha:

IAM
network
database
observability
deployment
security
skills
CI/CD
DR
data synchronization

em três plataformas.

Parabéns.

Você acabou de trocar:

RISCO DE CONCENTRAÇÃO

por:

COMPLEXIDADE OPERACIONAL

Arquitetura é frequentemente escolher qual problema você prefere possuir.


⚡ 17. O sistema elétrico brasileiro entrou oficialmente no war room

A EPE projeta que o consumo total de eletricidade brasileiro poderá chegar a aproximadamente 939 TWh em 2035 no cenário de referência.

O crescimento médio projetado é 3,3% ao ano. (EPE)

Mas existe algo mais interessante.

Cargas especiais — incluindo data centers, hidrogênio e eletromobilidade — podem representar parcela significativa da demanda futura, dependendo do cenário.

O próprio planejamento já considera data centers explicitamente. (EPE)

E o Brasil prevê cerca de:

R$ 120 bilhões

em investimentos no sistema de transmissão até 2035, no cenário de referência do PDE. (EPE)

O velho sysprog observa.

— Então precisamos fazer upgrade do backbone.

O engenheiro elétrico responde:

— Exatamente.

— Fibra?

— Não.

— Ethernet?

— Não.

— Então o quê?

500 kV.

Silêncio.


⚡ 18. São Paulo já precisa abrir espaço elétrico

A EPE informou que estudos concluídos recomendaram cerca de R$ 1,6 bilhão em novos investimentos de transmissão para São Paulo, capazes de liberar aproximadamente 4 GW de margem de conexão.

Outros estudos poderiam acrescentar cerca de mais 5 GW de margem no estado. (EPE)

Veja como a conversa evoluiu.

Ontem:

Precisamos de mais EC2.

Hoje:

Precisamos de mais 4 GW.

O programador pede:

kubectl scale deployment

e em algum lugar um engenheiro elétrico responde:

Calma, campeão.


🩺 19. E então IBM entra no centro cirúrgico

Agora chegamos à IBM.

Seria tentador imaginar IBM olhando Itaú, Santander e Nubank e dizendo:

CLOUD É MODA.

Não.

A resposta estratégica da IBM é muito mais sofisticada:

HYBRID CLOUD.

Não:

MAINFRAME
    OU
CLOUD

mas:

              ENTERPRISE

                  |
       ┌──────────┼──────────┐
       │          │          │
       v          v          v
     IBM Z      CLOUD     LinuxONE
       │          │          │
     CICS     Kubernetes    Linux
     COBOL      APIs       Containers
     Db2         AI          AI
       │          │          │
       └──────────┼──────────┘
                  |
                DATA

IBM percebeu que tentar impedir cloud seria inútil.

A estratégia é fazer IBM Z participar do ecossistema moderno.


🩺 20. z17 entra na guerra

E em 7 de julho de 2026 aconteceu algo simbolicamente importante.

IBM expandiu z17 e LinuxONE 5 com configurações single-frame e rack-mount.

Pela primeira vez, rack mount passou a estar disponível através de toda essa família Z/LinuxONE. (IBM Newsroom)

Isso significa colocar arquitetura Z mais naturalmente dentro da infraestrutura contemporânea de data centers.

E o comunicado da IBM toca justamente no nosso assunto:

organizações enfrentando disponibilidade extremamente baixa de espaço em data centers e custos elevados de capacidade. (IBM Newsroom)

IBM está dizendo:

Quer falar de densidade computacional? Ótimo. Vamos conversar.


⚡ 21. O mainframe encontra sua velha arma: densidade

O argumento histórico de sistemas distribuídos era:

commodity hardware
+
scale-out
=
economia

Mas quando chegamos a milhares de servidores:

SERVERS
+
NETWORK
+
STORAGE
+
COOLING
+
ENERGY
+
RACKS
+
SOFTWARE
+
OPERATIONS

precisamos mudar a métrica.

Não pergunte apenas:

Quanto custa uma VM?

Pergunte:

TRANSAÇÕES / WATT

TRANSAÇÕES / RACK

TRANSAÇÕES / m²

TRANSAÇÕES / ADMINISTRADOR

TRANSAÇÕES / DÓLAR

Agora IBM Z volta a uma conversa na qual sempre foi extremamente confortável.

Consolidação.


⚡ 22. LinuxONE torna a discussão ainda mais divertida

Porque alguém pode responder:

— Mas não quero COBOL.

IBM:

— Tudo bem.

— Quero Linux.

— Temos.

— Containers.

— Temos.

— Kubernetes.

— Temos.

— Java.

— Temos.

— Open source.

— Temos.

CLOUD-NATIVE
     |
     v
CONTAINERS
     |
     v
LINUX
     |
     v
LINUXONE

Ou seja, a batalha não é necessariamente:

MAINFRAME vs CLOUD

Pode ser:

QUAL ARQUITETURA
EXECUTA ESTE WORKLOAD
COM MELHOR

CUSTO
RESILIÊNCIA
DENSIDADE
SEGURANÇA
LATÊNCIA
ENERGIA?

Essa é uma discussão muito mais madura.


🩺 23. O futuro provavelmente será heterogêneo

Não acredito que o banco de 2035 necessariamente terá:

100% MAINFRAME

nem:

100% PUBLIC CLOUD

A tendência mais interessante é:

                    BANCO 2035

                        |
       ┌────────────────┼────────────────┐
       │                │                │
       v                v                v
     IBM Z          PUBLIC CLOUD     PRIVATE CLOUD
       │                │                │
   ledger/core        digital           dados
   settlement         analytics          IA
   high TPS             APIs          containers
       │                │                │
       └────────────────┼────────────────┘
                        |
                    APIs/EVENTS

Santander pode avançar muito mais na direção cloud.

Itaú declarou uma estratégia extremamente agressiva de migração.

Nubank já nasceu cloud-native.

Outras instituições poderão escolher misturas diferentes.

E isso é saudável.


⚠️ 24. Existe, porém, um risco novo: concentração sistêmica

Aqui está algo que merece atenção de bancos centrais, reguladores, CIOs e arquitetos.

No passado:

BANCO A → DC A

BANCO B → DC B

BANCO C → DC C

Agora imagine:

BANCO A ───┐
BANCO B ───┤
FINTECH A ─┤
FINTECH B ─┼──► HYPERSCALER / REGION
VAREJO ────┤
GOVERNO ───┤
SAAS ──────┘

Individualmente, cada empresa pode ter aumentado sua resiliência.

Coletivamente, podemos ter criado uma nova concentração.

Isso é o paradoxo.

Diversificação lógica pode esconder concentração física.

Dez bancos podem possuir arquiteturas diferentes...

executando em instalações que dependem dos mesmos corredores de fibra, da mesma região metropolitana ou de partes relacionadas do mesmo sistema elétrico.


⚠️ 25. E temos soberania

Outro problema.

Dados financeiros são infraestrutura estratégica.

Perguntas inevitáveis surgem:

Onde estão os dados?

Quem controla a infraestrutura?

Quem fabrica os processadores?

Quem controla o hypervisor?

Quem controla o software?

Quem possui as chaves?

Quem consegue desligar?

Qual legislação prevalece?

Cloud traz eficiência extraordinária.

Mas concentração em empresas estrangeiras também introduz questões de soberania tecnológica.

Isso não significa:

“cloud estrangeira é ruim”.

Significa:

infraestrutura crítica exige análise geopolítica além da análise técnica.

O CIO de 2035 precisará conversar com:

CISO
CFO
regulador
engenheiro elétrico
jurídico
geopolítica

O emprego ficou mais interessante.


⚠️ 26. Água também entra na conversa

Data centers precisam dissipar calor.

Dependendo da tecnologia de refrigeração, disponibilidade hídrica também pode ser relevante.

Então o site selection passa a considerar:

ENERGIA
+
ÁGUA
+
FIBRA
+
LATÊNCIA
+
TERRENO
+
IMPOSTOS
+
CLIMA
+
RISCO
+
MÃO DE OBRA

O data center moderno é quase uma cidade industrial.

A aplicação continua dizendo:

POST /payment

Mas atrás dela pode existir uma infraestrutura de centenas de milhões ou bilhões.


⚡ 27. A IA piora tudo — e pode ajudar

Aqui existe outro paradoxo maravilhoso.

IA aumenta brutalmente demanda computacional.

Mas IA também pode otimizar:

cooling
capacity
scheduling
energy
fraud
operations
predictive maintenance

Então:

IA
 |
 +── consome energia
 |
 └── ajuda a economizar energia

M*A*S*H teria orgulho.

Criamos um paciente que também trabalha no hospital.


🩺 28. Como deveria ser a contingência bancária?

Para um sistema realmente crítico, eu pensaria em camadas.

Nível 1 — aplicação

retry
timeout
circuit breaker
idempotency

Nível 2 — compute

multiple instances
autoscaling

Nível 3 — AZ

AZ A
AZ B
AZ C

Nível 4 — região

REGION A
REGION B

Nível 5 — plataforma

Dependendo do risco:

PUBLIC CLOUD
+
PRIVATE INFRASTRUCTURE

Nível 6 — dados

replication
backup
immutable backup
reconciliation

Nível 7 — operação

runbook
war room
chaos testing
DR exercise

Porque existe uma diferença enorme entre:

TEMOS DR

e:

TESTAMOS DR NA SEMANA PASSADA.

A segunda frase vale muito mais.


🩺 29. E não esqueça o modo degradado

Bancos deveriam perguntar:

Se 30% da infraestrutura desaparecer, precisamos realmente desligar 100% do banco?

Talvez não.

Imagine:

NORMAL MODE

PIX
CARTÃO
INVESTIMENTOS
EXTRATOS
MARKETING
RECOMENDAÇÕES
CHATBOT
ANALYTICS

Durante crise:

SURVIVAL MODE

PIX
CARTÃO
SALDO
AUTENTICAÇÃO

todo o resto:
WAIT

Aviação, telecomunicações e sistemas críticos conhecem bem esse conceito.

Preservar funções essenciais pode ser melhor que tentar manter tudo e perder tudo.


🩺 30. A grande pergunta do iniciante COBOL

Depois de tudo isso, o jovem programador pergunta:

— Então mainframe venceu?

Não.

— Cloud venceu?

Também não.

— Então quem venceu?

O velho sysprog aponta para a tomada.

— Ele.

Porque:

COBOL precisa energia.

CICS precisa energia.

Db2 precisa energia.

Kubernetes precisa energia.

Datomic precisa energia.

Kafka precisa energia.

GPU precisa MUITA energia.

Não existe:

cloud computing

sem:

electricity

A física é o sistema operacional abaixo de todos os sistemas operacionais.


☕ 31. O verdadeiro capacity planner de 2035

Talvez o capacity planner futuro não esteja olhando apenas:

CPU 73%

Ele estará olhando:

CPU ............ 73%

GPU ............ 91%

POWER .......... 87%

COOLING ........ 79%

GRID CAPACITY .. 93%

WATER .......... 68%

CARBON ......... 74%

NETWORK ........ 61%

E então perguntará:

Posso executar esse treinamento de IA agora?

Resposta:

JOB HELD

REASON:

POWER CAPACITY

O velho JES2 começa a rir em algum lugar.


🏥 Epílogo — 23h47 no M*A*S*H

Radar entra novamente.

— Coronel!

Potter olha assustado.

— O que caiu agora?

— Nada.

— Então por que está correndo?

— O pessoal da aplicação pediu mais 5.000 GPUs.

Potter olha para Hawkeye.

Hawkeye olha para B.J.

B.J. olha para Klinger.

Klinger, inexplicavelmente vestido de eletricista, pergunta:

— Quantos megawatts?

Radar consulta o papel.

Silêncio.

Potter suspira.

— Ligue para a cloud.

Radar pega o telefone.

Espera.

Desliga.

— E então?

— Disseram que precisamos falar com a concessionária.

O velho sysprog começa a rir.

Hawkeye pergunta:

— Qual a graça?

Ele abre um relatório antigo.

Na capa:

CAPACITY PLANNING
IBM MAINFRAME
1987

— Passamos quarenta anos tentando explicar que recurso computacional não é infinito.

Toma o último gole do café.

— A cloud finalmente concordou conosco.

Potter aponta para o mapa do Brasil.

São Paulo.

Campinas.

Fibra.

Subestações.

AWS.

Bancos.

Fintechs.

IA.

Data centers.

Linhas de transmissão.

Usinas.

E finalmente percebe que o diagrama correto nunca foi:

CLIENTE
  |
 APP
  |
CLOUD

Era:

                    CLIENTE
                       |
                      APP
                       |
                      API
                       |
                 MICROSERVIÇOS
                       |
             KUBERNETES / IBM Z
                       |
                DATA CENTER
                       |
                    RACK
                       |
                    CPU/GPU
                       |
                 SUBESTAÇÃO
                       |
                  TRANSMISSÃO
                       |
                    GERAÇÃO
                       |
                       ⚡

E lá embaixo, escondido sob todas as abstrações modernas, estava o verdadeiro ROOT.

Não Kubernetes.

Não AWS.

Não Clojure.

Não COBOL.

Não z/OS.

Não Linux.

Mas:

//POWER    JOB
//         EXEC PGM=ELETRICIDADE

Sem ele:

IEF450I CLOUD - ABEND=S0WATT

Hawkeye observa a tela.

— Podemos reiniciar?

O engenheiro elétrico responde:

— A usina?

— É.

— Não recomendo.

Potter fecha o prontuário.

Diagnóstico final

O futuro bancário brasileiro não será decidido apenas pela disputa:

mainframe versus cloud.

Será decidido pela capacidade de combinar computação, energia, telecomunicações, resiliência, segurança, soberania, economia e arquitetura.

O Nubank mostrou que uma instituição cloud-native pode alcançar escala bancária monumental.

O Itaú declarou uma rota para levar até seu coração transacional para cloud.

O Santander está transformando seu core através do Gravity.

AWS e outras hyperscalers continuam expandindo infraestrutura.

IBM responde apostando em hybrid cloud, IA, LinuxONE, z17 e densidade computacional.

E a IA acrescenta uma demanda gigantesca que nenhum capacity planner bancário de 1990 imaginaria.

Enquanto isso, o Brasil possui projetos de data centers que somavam 26,2 GW de pedidos em processo no MME em novembro de 2025, embora apenas uma fração disso necessariamente venha a se materializar. São Paulo concentra grande parte dessa corrida e já exige bilhões em expansão da transmissão. (EPE)

Portanto, talvez a grande discussão da próxima década não seja:

“COBOL ou Java?”

Nem:

“IBM Z ou AWS?”

Nem mesmo:

“Mainframe ou Kubernetes?”

Talvez seja:

“Onde estão os próximos 500 megawatts, quanto custam, como chegam até o data center e o que acontece com meu banco se eles desaparecerem?”

E quando essa pergunta finalmente chegar à reunião de arquitetura, haverá um velho sysprog no fundo da sala.

Ele não dirá nada.

Apenas abrirá o RMF.

Pegará o café.

E sorrirá.

Porque, depois de cinquenta anos de revoluções tecnológicas, alguém finalmente redescobriu a primeira lei não escrita do CPD:

Você pode virtualizar o servidor. Pode abstrair o storage. Pode containerizar a aplicação. Pode distribuir o banco. Pode chamar o datacenter de cloud. Pode até pedir para uma IA escrever o código.

Mas ainda não inventaram autoscaling para a tomada.

Fim do café.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

☕🚀 Os Maiores Bancos Digitais do Brasil Nasceram na Nuvem, Mas o Dinheiro Ainda Passa pelo Mainframe

 

Bellacosa Mainframe e uma visão do sistema bancario brasileiro

☕🚀 Os Maiores Bancos Digitais do Brasil Nasceram na Nuvem, Mas o Dinheiro Ainda Passa pelo Mainframe

Existe uma frase que se tornou quase um mantra no mercado financeiro moderno:

"O futuro está na nuvem."

E é verdade.

Nubank, Inter, Mercado Pago, PicPay, PagBank e dezenas de fintechs brasileiras nasceram em arquiteturas modernas, utilizando APIs, microsserviços, containers, Kubernetes, inteligência artificial e infraestrutura cloud.

Mas existe uma realidade pouco comentada fora dos bastidores da tecnologia bancária.

Uma realidade que surpreende estudantes, jornalistas, executivos recém-chegados ao setor financeiro e até muitos profissionais de TI.

O dinheiro que movimenta bilhões de reais diariamente no Brasil continua passando por sistemas centrais executados em plataformas que nasceram décadas antes da internet comercial.

Sim.

Enquanto o cliente faz um PIX em um smartphone equipado com processadores capazes de executar bilhões de operações por segundo, uma parte significativa da infraestrutura que garante que aquele dinheiro chegue ao destino continua rodando em ambientes IBM Z, CICS, DB2, MQ e COBOL.

E isso não acontece por nostalgia.

Acontece porque funciona.

Muito bem.


O mito do "banco 100% digital"

Quando um banco digital aparece na televisão, geralmente a propaganda mostra:

  • aplicativo moderno;

  • cartão colorido;

  • conta aberta em minutos;

  • chatbot inteligente;

  • investimentos com poucos cliques.

Tudo parece novo.

Tudo parece revolucionário.

Tudo parece distante do mundo dos grandes datacenters.

Mas existe uma diferença importante entre:

interface digital
e
infraestrutura financeira.

O cliente enxerga o aplicativo.

O sistema financeiro enxerga liquidação.

E são coisas completamente diferentes.

Um banco pode ter uma experiência totalmente digital e, ainda assim, depender de sistemas centrais extremamente robustos para realizar:

  • liquidação financeira;

  • compensação;

  • controle contábil;

  • reconciliação;

  • registro de operações;

  • cálculo de tarifas;

  • processamento de empréstimos;

  • integração com o Banco Central.

É nesse momento que entram os sistemas de missão crítica.


O que acontece quando você faz um PIX?

Vamos imaginar uma situação extremamente comum.

Você abre o aplicativo.

Transfere R$ 100 para um amigo.

A operação parece instantânea.

Na tela tudo ocorre em segundos.

Mas por trás dos bastidores existe uma verdadeira cadeia industrial de processamento.

O aplicativo envia a solicitação.

Uma API recebe o pedido.

Serviços de autenticação validam identidade.

Motores antifraude executam verificações.

Regras de compliance são avaliadas.

Sistemas de limites são consultados.

Dados cadastrais são verificados.

Mensagerias distribuem eventos.

Sistemas contábeis registram a operação.

Mecanismos de liquidação realizam o acerto financeiro.

Tudo isso antes que a mensagem "PIX realizado com sucesso" apareça na tela.

O usuário vê um clique.

O datacenter vê centenas de transações.


Onde entra o mainframe?

É aqui que muita gente se surpreende.

O mainframe raramente aparece na camada visual.

Ele normalmente opera na camada mais importante.

A camada onde não pode haver erro.

Imagine o seguinte cenário.

Se uma rede social ficar indisponível por 10 minutos, usuários reclamam.

Se um streaming cair durante uma série, pessoas ficam irritadas.

Mas se um banco perder o controle de saldos durante 10 minutos?

O problema pode atingir milhões de clientes.

Por isso os sistemas responsáveis pelos registros financeiros mais críticos precisam apresentar:

  • disponibilidade extrema;

  • consistência absoluta;

  • segurança rigorosa;

  • rastreabilidade completa;

  • recuperação imediata.

São justamente essas características que fizeram os mainframes permanecerem relevantes.


O paradoxo da fintech

As fintechs surgiram prometendo romper com os bancos tradicionais.

Em muitos aspectos conseguiram.

Mudaram a experiência do cliente.

Reduziram burocracias.

Popularizaram contas digitais.

Criaram novos modelos de negócio.

Mas descobriram rapidamente uma verdade do mercado financeiro.

Movimentar dinheiro é muito mais difícil do que movimentar dados.

Enviar uma foto errada em uma rede social gera um transtorno.

Transferir R$ 10 milhões para a conta errada gera uma crise.

Por isso a arquitetura financeira moderna acabou evoluindo para um modelo híbrido.

Na superfície:

  • cloud;

  • APIs;

  • microsserviços;

  • inteligência artificial.

No núcleo:

  • processamento transacional;

  • bancos de dados críticos;

  • mensageria corporativa;

  • sistemas centrais de liquidação.

É uma combinação extremamente poderosa.


A nuvem descobriu que precisa do mainframe

Durante alguns anos surgiu uma narrativa bastante agressiva.

Muitos especialistas afirmavam que o mainframe desapareceria rapidamente.

A computação em nuvem seria suficiente para tudo.

A realidade mostrou algo diferente.

O que ocorreu foi integração.

Hoje observamos ambientes híbridos onde:

  • Kubernetes conversa com CICS;

  • APIs REST acessam programas COBOL;

  • aplicações cloud consomem serviços do z/OS;

  • eventos trafegam através do IBM MQ;

  • microsserviços utilizam informações armazenadas em DB2.

Não houve substituição.

Houve convergência.

A nuvem não matou o mainframe.

A nuvem passou a conversar com ele.


O caso brasileiro

O Brasil possui um dos sistemas financeiros mais sofisticados do planeta.

Muitas vezes não percebemos isso.

PIX.

TED.

DOC.

Open Finance.

Cartões.

Boletos.

Débito automático.

Tudo isso precisa funcionar para centenas de milhões de contas.

Os números impressionam.

Bilhões de transações são processadas todos os meses.

Milhões de operações acontecem simultaneamente.

O sistema precisa funcionar:

  • de madrugada;

  • em feriados;

  • durante promoções;

  • na Black Friday;

  • durante a Copa do Mundo;

  • durante grandes eventos nacionais.

A infraestrutura necessária para suportar esse volume é gigantesca.

E boa parte dela continua baseada em tecnologias que nasceram décadas atrás, mas evoluíram continuamente.


O COBOL que ninguém vê

Poucas tecnologias sofreram tanto preconceito quanto o COBOL.

Para muitos profissionais jovens, COBOL parece uma relíquia.

Algo pertencente a museus de informática.

Mas existe um detalhe curioso.

Grande parte das pessoas que criticam COBOL utilizou sistemas processados por COBOL antes mesmo do café da manhã.

Salário.

PIX.

Cartão.

Financiamento.

Previdência.

Seguros.

Consórcios.

Tudo isso frequentemente passa por programas COBOL.

O motivo é simples.

Esses sistemas foram construídos ao longo de décadas.

Receberam investimentos bilionários.

Foram testados em condições extremas.

Acumularam conhecimento de negócio impossível de reproduzir rapidamente.

Muitas vezes o código representa mais valor do que a própria infraestrutura.


O banco invisível

Imagine um iceberg.

O cliente vê apenas a ponta.

Aplicativo.

Cartão.

Notificação.

Interface.

Mas abaixo da superfície existe uma massa gigantesca de tecnologia invisível.

Essa parte inclui:

  • motores contábeis;

  • sistemas regulatórios;

  • integração com Banco Central;

  • mecanismos de liquidação;

  • auditoria;

  • compliance;

  • segurança.

É nesse universo invisível que o mainframe continua brilhando.

E justamente por ser invisível, raramente recebe o reconhecimento merecido.


Quando tudo funciona ninguém percebe

Existe uma ironia interessante no mundo da infraestrutura.

Quanto melhor um sistema funciona, menos as pessoas falam sobre ele.

Ninguém elogia um elevador por funcionar.

Ninguém agradece à rede elétrica por fornecer energia.

Ninguém faz uma postagem comemorando que o saldo bancário apareceu corretamente.

Mas quando ocorre uma falha?

Todo mundo percebe.

Por isso os sistemas centrais são projetados para uma missão simples:

não chamar atenção.

O sucesso é a invisibilidade.


O futuro não é cloud versus mainframe

Uma das maiores lições da última década foi perceber que a discussão estava errada.

A pergunta nunca deveria ter sido:

"Cloud ou Mainframe?"

A pergunta correta é:

"Como integrar os dois da melhor forma possível?"

Os líderes do mercado entenderam isso.

Hoje as arquiteturas mais modernas utilizam o melhor dos dois mundos.

Cloud para:

  • inovação rápida;

  • elasticidade;

  • analytics;

  • inteligência artificial.

Mainframe para:

  • processamento massivo;

  • transações críticas;

  • consistência financeira;

  • segurança corporativa.

O resultado é uma arquitetura híbrida extremamente eficiente.


A verdadeira transformação digital

Muitas empresas acreditam que transformação digital significa abandonar tudo que veio antes.

Mas a história mostra outra coisa.

Transformação digital bem-sucedida raramente consiste em destruir.

Consiste em evoluir.

Os sistemas que sustentam o mercado financeiro brasileiro representam décadas de conhecimento acumulado.

Substituí-los completamente seria como demolir uma usina hidrelétrica para construir um gerador portátil.

Não faz sentido.

O caminho inteligente é modernizar.

Expor APIs.

Integrar plataformas.

Automatizar processos.

Conectar o legado ao futuro.


O que os estudantes precisam entender

Quem está começando carreira em tecnologia frequentemente busca apenas as ferramentas mais recentes.

Isso é natural.

Mas existe uma lição valiosa.

As tecnologias que movimentam bilhões nem sempre são as mais populares nas redes sociais.

Muitas vezes são as mais confiáveis.

As mais estáveis.

As mais resilientes.

O profissional que entende:

  • cloud;

  • APIs;

  • Kubernetes;

  • segurança;

  • mainframe;

  • integração corporativa;

torna-se extremamente valioso para o mercado.

Porque consegue enxergar a arquitetura completa.

Não apenas a camada visível.


Conclusão: o coração continua batendo

Os maiores bancos digitais do Brasil nasceram na nuvem.

Foram criados por uma geração que cresceu falando de APIs, microsserviços e aplicações móveis.

Mudaram completamente a forma como os brasileiros se relacionam com o dinheiro.

Mas, ao crescerem, descobriram algo que os bancos tradicionais já sabiam há décadas.

No mercado financeiro, velocidade é importante.

Experiência do usuário é importante.

Inovação é importante.

Mas nada é mais importante do que confiança.

E confiança se constrói com sistemas capazes de operar dia após dia, ano após ano, movimentando bilhões de reais sem perder o controle de um único centavo.

Por isso, enquanto milhões de brasileiros fazem PIX, pagam boletos, investem, financiam imóveis e utilizam aplicativos modernos, existe uma infraestrutura silenciosa trabalhando nos bastidores.

Uma infraestrutura que raramente aparece nas propagandas.

Que quase nunca vira manchete.

Mas que continua sustentando o sistema financeiro nacional.

A nuvem trouxe inovação.

As fintechs trouxeram agilidade.

Os aplicativos trouxeram conveniência.

Mas, no coração de boa parte dessa engrenagem, o velho gigante continua trabalhando.

Discreto.

Confiável.

Resiliente.

Processando bilhões.

Como faz há décadas.

E, ao que tudo indica, continuará fazendo por muitos anos.


domingo, 14 de junho de 2026

O Dia em que um Banco Declarou a Própria Liquidação: Lições de Engenharia, Governança e Confiabilidade a partir do Incidente do Nubank

Bellacosa Mainframe e o incidente informatico do Nubank

O Dia em que um Banco Declarou a Própria Liquidação: Lições de Engenharia, Governança e Confiabilidade a partir do Incidente do Nubank

Introdução

Em junho de 2026, um episódio incomum chamou a atenção do mercado financeiro brasileiro, dos profissionais de tecnologia e dos especialistas em gestão de riscos. Clientes do Nubank receberam comunicações oficiais informando que a instituição teria entrado em processo de liquidação. A mensagem, enviada por canais legítimos da empresa, parecia autêntica, utilizava terminologia regulatória correta e mencionava procedimentos relacionados ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

O problema era simples e ao mesmo tempo alarmante: a informação era falsa.

Em poucas horas, a notícia se espalhou pelas redes sociais, grupos de investidores, fóruns especializados e veículos de imprensa. O Banco Central precisou esclarecer que não existia qualquer procedimento de liquidação em andamento. O Nubank confirmou que se tratava de um erro operacional decorrente de uma falha em processos internos.

À primeira vista, o incidente parece apenas um erro de comunicação. Entretanto, uma análise mais profunda revela um caso clássico de falha sistêmica envolvendo automação, governança, gestão de mudanças, segregação de ambientes e controles de produção.

Mais importante ainda: o episódio oferece uma oportunidade rara para discutir um tema frequentemente negligenciado em empresas digitais modernas — a diferença entre construir sistemas rápidos e construir sistemas confiáveis.


O que aconteceu

Segundo informações divulgadas publicamente, um fluxo responsável por notificações relacionadas a processos de liquidação institucional teria sido acionado indevidamente.

A comunicação foi distribuída para clientes reais utilizando canais oficiais.

Do ponto de vista do usuário final, todos os elementos indicavam legitimidade:

  • origem oficial;

  • identidade visual correta;

  • linguagem regulatória compatível;

  • referência ao FGC;

  • comunicação direta da instituição.

Em segurança da informação existe um princípio fundamental:

O usuário não possui mecanismos para diferenciar uma mensagem legítima de uma mensagem enviada legitimamente por engano.

Essa frase resume a gravidade do incidente.

Quando uma comunicação falsa vem de um atacante externo, o cliente pode desconfiar.

Quando a mesma comunicação vem do próprio banco, a confiança desaparece como mecanismo de defesa.


O erro informático por trás do incidente

Embora os detalhes técnicos completos não tenham sido divulgados, a descrição pública permite inferir algumas hipóteses plausíveis.

O problema parece ter ocorrido em uma combinação de:

  • automação de mensagens;

  • parametrização inadequada;

  • ausência de validações obrigatórias;

  • insuficiência de mecanismos de aprovação.

Em engenharia de software, isso é conhecido como um erro de "guard rails", ou seja, ausência de barreiras que impeçam uma ação perigosa.

Imagine um sistema com a seguinte lógica:

Evento:
Liquidação Institucional

Instituição:
[NOME_DO_BANCO]

Ação:
Enviar comunicação aos clientes

Se o campo da instituição estiver vazio, o sistema deveria interromper imediatamente o processo.

No entanto, em muitos sistemas corporativos existem valores padrão.

Exemplo:

if banco == null:
    banco = "Nubank"

Ou ainda:

if banco == "":
    utilizar_instituicao_padrao()

Pequenos atalhos criados durante desenvolvimento, testes ou homologação podem se transformar em bombas-relógio quando chegam à produção.


Quando ambientes de teste contaminam a produção

Uma das hipóteses mais discutidas é a existência de um fluxo originalmente criado para testes.

Esse cenário é extremamente comum.

Empresas desenvolvem sistemas utilizando ambientes distintos:

Desenvolvimento

Local onde programadores criam funcionalidades.

Homologação

Ambiente utilizado para validações.

Produção

Sistema real utilizado por clientes.

Na teoria, esses ambientes são completamente isolados.

Na prática, muitas organizações acabam criando atalhos.

Exemplos comuns:

  • cópia de bases produtivas;

  • reutilização de configurações;

  • compartilhamento de APIs;

  • uso de dados reais em homologação.

Quando isso acontece, uma fronteira crítica desaparece.

O resultado é que ações originalmente pensadas para teste passam a ter impacto real.


A armadilha da automação

O setor financeiro moderno depende de automação em larga escala.

Bancos digitais enviam diariamente:

  • notificações;

  • alertas;

  • extratos;

  • avisos regulatórios;

  • comunicações de segurança.

Uma única plataforma pode disparar milhões de mensagens por hora.

O benefício é evidente:

  • redução de custos;

  • velocidade operacional;

  • escalabilidade.

O problema é que a automação amplifica erros.

Um funcionário que envia uma mensagem errada manualmente afeta algumas pessoas.

Um sistema automatizado pode afetar milhões.

Existe uma máxima conhecida em operações de TI:

A automação não elimina erros humanos. Ela multiplica seus efeitos.

O incidente ilustra perfeitamente esse princípio.


O papel dos controles de mudança

Toda alteração em sistemas críticos deveria seguir um processo formal.

Esse processo normalmente inclui:

Revisão técnica

Validação por outros desenvolvedores.

Aprovação operacional

Análise dos impactos.

Aprovação de negócio

Validação da área responsável.

Testes

Verificação funcional.

Plano de rollback

Capacidade de reversão rápida.

Quando qualquer uma dessas etapas falha, o risco aumenta exponencialmente.

A questão não é impedir erros.

Erros são inevitáveis.

A questão é impedir que erros individuais alcancem clientes.


O conceito de “blast radius”

Engenheiros de confiabilidade utilizam o conceito de blast radius.

Traduzindo livremente:

"raio de explosão".

A pergunta é simples:

Se algo der errado, quantas pessoas serão afetadas?

Sistemas modernos devem ser projetados para minimizar esse impacto.

Exemplo:

Em vez de enviar uma comunicação para toda a base de clientes, o sistema deveria:

  1. enviar para um grupo piloto;

  2. validar resultados;

  3. liberar gradualmente;

  4. expandir para toda a população.

Essa técnica é utilizada por empresas como:

  • Google;

  • Amazon;

  • Microsoft;

  • Netflix.

Caso o disparo incorreto tivesse sido submetido a um rollout progressivo, o incidente provavelmente teria sido detectado nos primeiros minutos.


O problema dos dados reais em testes

Outro aprendizado importante envolve o uso de dados produtivos.

Muitas empresas utilizam bases reais para reproduzir cenários complexos.

Isso facilita testes.

Também aumenta riscos.

Dados reais possuem características imprevisíveis:

  • relacionamentos existentes;

  • integrações ativas;

  • gatilhos automáticos;

  • usuários legítimos.

Uma rotina criada para laboratório pode encontrar condições inesperadas quando executada em produção.

É por isso que organizações maduras investem em:

  • anonimização;

  • mascaramento de dados;

  • ambientes sintéticos.

O objetivo é reproduzir a realidade sem colocar clientes reais em risco.


O fator psicológico do incidente

Existe um aspecto pouco discutido.

O dano não foi apenas tecnológico.

Foi psicológico.

O sistema financeiro funciona baseado em confiança.

Quando um banco afirma que está sendo liquidado, o cliente não realiza uma análise técnica.

Ele reage emocionalmente.

As perguntas surgem imediatamente:

  • Meu dinheiro está seguro?

  • Preciso sacar recursos?

  • Minha conta continuará funcionando?

  • Meu cartão será cancelado?

  • Vou perder investimentos?

Em poucos minutos pode surgir um fenômeno conhecido como corrida informacional.

Não necessariamente uma corrida bancária tradicional.

Mas uma corrida por esclarecimentos.

Milhares de pessoas acessam simultaneamente:

  • aplicativo;

  • central de atendimento;

  • redes sociais;

  • imprensa.

O volume gerado pode se tornar um problema operacional por si só.


O impacto no mercado

Embora o incidente tenha sido rapidamente esclarecido, ele produziu repercussões relevantes.

Mercados financeiros são altamente sensíveis à informação.

Especialmente quando envolve:

  • liquidez;

  • solvência;

  • regulação.

Investidores institucionais monitoram continuamente sinais de risco.

Uma notícia sobre liquidação, ainda que falsa, pode provocar:

  • volatilidade;

  • aumento de dúvidas;

  • especulação;

  • pressão reputacional.

Mesmo após o esclarecimento, permanece uma questão:

Como um mecanismo tão crítico conseguiu ser acionado incorretamente?

Essa pergunta interessa mais ao mercado do que o próprio erro.

Porque ela trata da maturidade operacional da organização.


O custo invisível da reputação

Empresas costumam medir:

  • receita;

  • lucro;

  • crescimento;

  • número de clientes.

Poucas conseguem medir confiança.

Entretanto, confiança é um dos ativos mais valiosos do setor financeiro.

Uma instituição pode gastar bilhões em marketing.

Mas basta um único incidente de credibilidade para comprometer anos de construção de marca.

A reputação é semelhante a um sistema distribuído:

Leva muito tempo para convergir.

Pode ser afetada em segundos.


O que empresas podem aprender

O incidente produz diversas lições para organizações digitais.

1. Sistemas críticos precisam de múltiplas aprovações

Nenhuma comunicação regulatória deveria depender de uma única ação.

Princípio dos quatro olhos:

duas pessoas precisam validar.

2. Produção deve ser protegida contra operadores

O objetivo não é desconfiar das pessoas.

É reconhecer que erros acontecem.

Sistemas precisam impedir ações perigosas.

3. Rollouts graduais reduzem impacto

Nenhum disparo massivo deveria ocorrer instantaneamente.

4. Testes precisam ser isolados

Ambientes de homologação devem permanecer separados da produção.

5. Alertas precisam monitorar comportamentos anormais

Se uma mensagem de liquidação for enviada, alarmes automáticos deveriam disparar imediatamente.


O paradoxo dos bancos digitais

O caso revela um paradoxo interessante.

Os bancos digitais são extraordinariamente eficientes.

Conseguem:

  • abrir contas em minutos;

  • aprovar cartões rapidamente;

  • processar milhões de transações.

Mas velocidade e confiabilidade nem sempre evoluem no mesmo ritmo.

À medida que organizações crescem, seus sistemas tornam-se mais complexos.

Mais integrações.

Mais automações.

Mais dependências.

Mais pontos de falha.

O desafio deixa de ser construir funcionalidades.

Passa a ser controlar complexidade.


A maturidade dos sistemas modernos

Os maiores incidentes tecnológicos raramente acontecem por falhas sofisticadas.

Na maioria das vezes eles surgem de:

  • configurações incorretas;

  • permissões inadequadas;

  • processos incompletos;

  • validações ausentes.

A história da tecnologia está repleta de exemplos semelhantes.

Falhas milionárias já foram causadas por:

  • campos vazios;

  • scripts de manutenção;

  • comandos executados no ambiente errado;

  • parâmetros incorretos.

O problema não é a tecnologia.

O problema é a interação entre tecnologia, pessoas e processos.


Conclusão

O episódio envolvendo a falsa comunicação de liquidação do Nubank não deve ser interpretado apenas como um erro operacional isolado.

Ele representa um estudo de caso sobre os desafios da engenharia moderna em sistemas de missão crítica.

O incidente demonstrou como um único evento pode atravessar múltiplas camadas organizacionais:

  • tecnologia;

  • governança;

  • comunicação;

  • segurança;

  • reputação;

  • mercado financeiro.

Mais importante, revelou uma verdade frequentemente esquecida em ambientes digitais:

A confiabilidade não nasce da ausência de erros.

Ela nasce da capacidade de impedir que erros inevitáveis se transformem em crises.

Em um mundo onde bancos são plataformas de software, cada linha de código, cada configuração e cada processo operacional participa diretamente da construção da confiança do cliente.

E confiança, diferentemente do software, não pode ser restaurada simplesmente com um novo deploy.

Ela precisa ser reconquistada.

Para ir mais longe

Bellacosa Mainframe e o incidente do nubank







segunda-feira, 18 de maio de 2026

O Lobo Roxo da Faria Lima: COBOL, Nubank e o Dia em que uma Startup Entrou no Salão dos Bancos e Descobriu que os Gigantes Tinham um Problema Chamado Fricção

 

Bellacosa Mainframe e o lobo roxo da Faria Lima

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Lobo Roxo da Faria Lima: COBOL, Nubank e o Dia em que uma Startup Entrou no Salão dos Bancos e Descobriu que os Gigantes Tinham um Problema Chamado Fricção

💳 Como um cartão roxo, um aplicativo e uma arquitetura digital desafiaram Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil, Caixa e companhia — e o que um programador COBOL iniciante pode aprender com essa história antes de tentar reescrever o mundo em microsserviços

Imagine a cena.

Um enorme salão de operações financeiras.

Telas piscando.

Gráficos subindo e descendo.

Telefones tocando.

Executivos engravatados dizendo coisas como:

— Liquida isso antes do fechamento.

— Aumenta o limite da carteira.

— Quero essa posição zerada antes do almoço.

— Quanto temos de exposição?

No fundo da sala existe uma enorme porta de aço.

Nela está escrito:

CORE BANKING
AUTHORIZED PERSONNEL ONLY

Atrás daquela porta existem décadas de tecnologia bancária.

COBOL.

CICS.

Db2.

IMS.

MQ.

JCL.

VSAM.

RACF.

Batch noturno.

Arquivos gigantes.

Processamento de milhões de transações.

Sistemas que funcionavam quando muitos fundadores de fintechs ainda estavam aprendendo a andar.

Na mesa principal estão sentados os gigantes.

Banco do Brasil.

Caixa Econômica Federal.

Bradesco.

Itaú.

Santander.

Cada um com décadas — alguns com séculos — de história, capital, infraestrutura, clientes, agências, funcionários e sistemas.

Então entra alguém segurando um pequeno cartão roxo.

Nenhuma agência.

Nenhum prédio gigantesco.

Nenhuma tradição centenária.

Nenhum gerente esperando atrás de uma mesa de madeira.

Apenas um smartphone.

O pessoal da sala olha.

Um executivo pergunta:

— E você é quem?

A resposta:

— Nubank.

Silêncio.

Outro executivo ri.

— Banco?

— Mais ou menos.

— Quantas agências?

— Nenhuma.

— Quantos caixas?

— Nenhum.

— Então o que você tem?

O cartão roxo sobe lentamente.

— Um aplicativo.

Provavelmente alguém teria mandado o rapaz procurar a recepção.

E esse é justamente o começo da história.

Porque o Nubank não entrou no mercado bancário brasileiro tentando construir um banco tradicional um pouco melhor.

Ele entrou questionando uma premissa muito mais perigosa:

E se várias coisas que nós consideramos parte natural de um banco existirem apenas porque sempre foram feitas daquele jeito?

Para um programador COBOL iniciante, essa pergunta vale ouro.

Não porque COBOL seja velho.

Mas porque sistemas corporativos acumulam, ao longo das décadas, uma enorme quantidade de decisões.

Algumas são brilhantes.

Algumas continuam essenciais.

Algumas existem porque ninguém ousou perguntar por quê.

E algumas continuam ali simplesmente porque alterar aquilo custaria tanto que todo mundo prefere fingir que não percebeu.

Pegue o café.

Hoje vamos falar de bancos.

Mas, principalmente, vamos falar de sistemas.


Capítulo 1 — O mercado impossível

Imagine que você estivesse montando uma startup em 2013.

Alguém apresenta a ideia:

Vamos criar uma instituição financeira no Brasil.

Qualquer pessoa minimamente racional poderia responder:

— Excelente. E depois vamos fabricar aviões para competir com Boeing e Airbus?

O mercado brasileiro já possuía gigantes.

Banco do Brasil.

Caixa.

Bradesco.

Itaú.

Santander.

Bancos regionais.

Bancos médios.

Cooperativas.

Financeiras.

Administradoras de cartão.

Cada um com clientes, capital, tecnologia e décadas de conhecimento regulatório.

Era aparentemente um mercado horrível para entrar.

Só que existe uma diferença importante entre:

mercado competitivo

e:

mercado satisfatório para o consumidor

Essas coisas não são iguais.

Um mercado pode ter muitos concorrentes e, mesmo assim, oferecer experiências muito semelhantes.

Esse era um dos grandes pontos do sistema bancário tradicional.

O consumidor frequentemente encontrava:

tarifa
fila
agência
formulário
assinatura
telefone
gerente
burocracia
espera

O banco podia ser tecnologicamente sofisticadíssimo por trás.

Mas para o cliente?

Às vezes parecia 1987.

E aqui aparece uma primeira lição fundamental para quem está começando em COBOL.

Backend excelente não garante experiência excelente.

Você pode ter:

99,999% disponibilidade

no core.

Pode processar:

10 milhões de transações

durante a madrugada.

Pode ter:

RACF
CICS
DB2
IMS
GDG
SMF
WLM

funcionando perfeitamente.

Mas se o usuário precisar preencher três formulários, telefonar cinco vezes e esperar 40 minutos para resolver alguma coisa, ele não enxerga sua arquitetura maravilhosa.

Ele enxerga sofrimento.

O Nubank encontrou espaço justamente nessa distância.


Capítulo 2 — O inimigo não era o mainframe

Aqui existe um erro que aparece frequentemente quando se fala de fintech.

Alguém diz:

Fintech venceu porque banco tradicional usa mainframe.

Calma.

Não.

Muito pelo contrário.

Os mainframes dos grandes bancos são parte da razão pela qual essas instituições conseguem operar em enorme escala.

Um IBM Z pode processar volumes absurdos de transações com confiabilidade extraordinária.

COBOL continua executando grande parte da economia mundial porque resolve muito bem problemas transacionais.

Portanto:

MAINFRAME != PROBLEMA

O verdadeiro problema era frequentemente:

PROCESSO + ORGANIZAÇÃO + FRICÇÃO + HISTÓRIA

Veja a diferença.

O banco tradicional tinha algo conceitualmente parecido com:

CLIENTE
   |
   v
AGÊNCIA
   |
   v
GERENTE
   |
   v
SISTEMA DE ATENDIMENTO
   |
   v
MIDDLEWARE
   |
   v
CORE BANKING

O Nubank podia imaginar desde o início:

CLIENTE
   |
   v
SMARTPHONE
   |
   v
APLICAÇÃO
   |
   v
SERVIÇOS
   |
   v
PLATAFORMA FINANCEIRA

Não significa que o segundo modelo seja magicamente simples.

Há dezenas de problemas escondidos ali:

  • segurança;

  • KYC;

  • antifraude;

  • crédito;

  • liquidação;

  • bandeiras;

  • compliance;

  • regulação;

  • cobrança;

  • observabilidade;

  • contingência;

  • reconciliação.

Mas existe uma vantagem brutal:

o sistema nasceu pensando no canal digital como canal principal.

Isso é diferente de pegar um sistema construído durante décadas e acrescentar:

IF CHANNEL = MOBILE
    PERFORM DIGITAL-FLOW
END-IF.

Sim, COBOLzeiro.

O mundo inteiro eventualmente vira um IF.


Capítulo 3 — O smartphone virou agência bancária

Um dos fatores decisivos do sucesso do Nubank foi timing.

O smartphone estava deixando de ser luxo.

Estava virando infraestrutura social.

De repente milhões de pessoas carregavam no bolso:

tela
câmera
internet
GPS
autenticação
notificações
aplicativos

Tudo isso em um único dispositivo.

Antes, para construir presença nacional, um banco precisava de prédios.

Agências.

Funcionários.

Terminais.

Caixas eletrônicos.

Segurança.

Transporte de numerário.

Infraestrutura física.

O smartphone alterou radicalmente essa equação.

A agência podia ser:

+-------------------+
|                   |
|      📱           |
|                   |
+-------------------+

O cliente não precisava ir ao banco.

O banco passava a ir com o cliente.

Essa mudança parece óbvia hoje.

Mas quase toda inovação parece óbvia depois que alguém faz.

Easter egg nº 1

Existe uma frase famosa atribuída ao mundo da tecnologia:

A melhor interface é aquela que desaparece.

No caso bancário, ocorreu algo ainda mais estranho.

A agência inteira começou a desaparecer.


Capítulo 4 — O cartão roxo era um cavalo de Troia

Agora chegamos a uma das decisões mais inteligentes.

O Nubank não tentou inicialmente convencer o brasileiro a transferir toda a vida financeira.

Imagine a proposta:

Feche sua conta no banco onde recebe salário há quinze anos, transfira seus investimentos e venha para uma startup desconhecida.

Resposta natural:

RETURN-CODE = 12

Mas:

Quer experimentar um cartão sem anuidade controlado por aplicativo?

Muito mais fácil.

Esse é um princípio importantíssimo de produto.

Reduza o tamanho da primeira decisão.

O Nubank entrou com algo relativamente simples:

CARTÃO

Depois podia expandir.

É praticamente uma estratégia de:

LAND
AND
EXPAND

Primeiro:

cartão

Depois:

conta

Depois:

Pix

Depois:

empréstimos

Depois:

investimentos

Depois:

seguros

E assim sucessivamente.

O cartão foi quase um:

ENTRY PROGRAM

do ecossistema Nubank.

COBOLzeiros entenderão imediatamente.

Você não chama todo o sistema.

Você chama um ponto de entrada.


Capítulo 5 — O Nubank descobriu o poder do segundo banco

Esse detalhe é gigantesco.

O Nubank não precisava inicialmente substituir Itaú, Bradesco ou Banco do Brasil.

Ele podia coexistir.

Um cliente poderia ter:

SALÁRIO ---------> ITAÚ
POUPANÇA --------> CAIXA
FINANCIAMENTO ---> SANTANDER
CARTÃO ----------> NUBANK

Isso eliminava uma barreira enorme:

switching cost.

Trocar completamente de banco pode ser traumático.

Experimentar um segundo cartão não.

Então milhões de pessoas podiam simplesmente testar.

Se gostassem, aumentavam o relacionamento.

É quase como instalar um programa novo sem desinstalar o antigo.

INSTALL NUBANK
WITHOUT DELETE BANCO-ANTERIOR

A estratégia foi brilhante porque reduziu o medo do consumidor.


Capítulo 6 — UX virou arma competitiva

Durante décadas, bancos venderam sobretudo:

segurança
solidez
tradição
patrimônio
confiança

O Nubank adicionou outra palavra:

experiência

Aplicativo bonito.

Informações claras.

Notificações imediatas.

Controle do cartão.

Atendimento pelo próprio aplicativo.

Linguagem menos burocrática.

Parece pouco?

Não é.

Em software corporativo existe um fenômeno curioso.

Às vezes gastamos:

R$ 100 milhões

melhorando sistemas internos.

Mas uma mudança de três telas altera dramaticamente a percepção do usuário.

Isso é uma lição fundamental.

O cliente não interage com arquitetura.

Ele interage com interfaces.

Você pode ter por trás:

COBOL
Assembler
Java
C
DB2
Kafka
MQ
Cloud

O cliente não se importa.

Ele quer apertar:

PAGAR

e receber:

PAGO

Se der erro, aí todo mundo passa a descobrir sua arquitetura.

É como eletricidade.

Ninguém pergunta qual transformador alimenta a geladeira.

Até faltar luz.


Capítulo 7 — O cartão roxo virou símbolo

Branding também importou enormemente.

Bancos tradicionais frequentemente usavam comunicação séria.

Executivos.

Ternos.

Prédios.

Famílias felizes financiando casas.

O Nubank apareceu com:

ROXO

Uma escolha visual extremamente diferenciada.

O cartão virou objeto de conversa.

E isso gerou algo extraordinário:

pessoas começaram a falar voluntariamente sobre uma instituição financeira.

Pense no absurdo.

Imagine uma conversa em 2015:

— Cara, chegou meu cartão!

— Qual?

— Nubank.

— O roxinho?

Marketing perfeito.

O produto carregava a marca fisicamente dentro da carteira do cliente.

Cada vez que alguém pagava uma conta:

DISPLAY "NUBANK"

Capítulo 8 — O convite criou escassez

Nos primeiros tempos havia fila.

Convites.

Expectativa.

E isso cria um mecanismo psicológico curioso.

Se alguma coisa parece difícil de conseguir, ela parece mais desejável.

É o velho truque do mercado financeiro:

DEMANDA > OFERTA

Então acontecia:

— Você já tem Nubank?

— Ainda não.

— Posso te mandar convite.

Pronto.

O cliente virou canal de aquisição.

Hoje chamaríamos isso de:

REFERRAL

Mas na prática era algo ainda melhor:

marketing social.

A propaganda vinha de alguém conhecido.

Não de um comercial de televisão.


Capítulo 9 — O custo de crescimento mudou

Agora vamos para arquitetura e economia.

Banco tradicional cresceu historicamente construindo:

AGÊNCIA
 |
 +-- imóvel
 +-- funcionários
 +-- segurança
 +-- gerente
 +-- caixa
 +-- telecomunicação
 +-- manutenção
 +-- estrutura administrativa

Cada expansão geográfica significava infraestrutura física.

Um banco digital muda parcialmente a equação.

Novo cliente:

DOWNLOAD
   |
   v
CADASTRO
   |
   v
IDENTIFICAÇÃO
   |
   v
ANÁLISE
   |
   v
CONTA

Isso não significa custo zero.

Nunca significa custo zero.

Existem:

cloud
datacenter
fraude
atendimento
bandeira
processamento
compliance
capital
crédito
cobrança
segurança

Mas o custo marginal assume outra forma.

Essa diferença permite crescer muito rapidamente.

Se dez milhões de pessoas baixarem um aplicativo, você não precisa construir dez milhões de agências.

Seu problema muda.

Agora é:

SCALABILITY

E aí começa outra guerra.


Capítulo 10 — Escalar também dói

Startup tem uma palavra favorita:

scale

Todo mundo quer escalar.

Pouca gente fala da parte divertida.

Quando você escala, tudo que era pequeno vira grande.

Um erro de:

0,01%

parece irrelevante.

Até você ter cem milhões de operações.

Então:

100.000.000 * 0,0001 = 10.000

Dez mil problemas.

Bem-vindo ao mundo real.

COBOLzeiro, guarde essa lição:

sistemas financeiros não podem pensar apenas em funcionalidade; precisam pensar em volume.

Um programa que funciona perfeitamente com:

100 registros

pode virar desastre com:

100 milhões

É por isso que bancos adoram:

performance
capacity planning
WLM
SMF
RMF
batch window
index
partition

Escala transforma detalhes em incidentes.


Capítulo 11 — Dados: o combustível secreto

No começo, um banco tradicional possuía enorme vantagem.

Décadas de histórico.

Milhões de clientes.

Modelos de crédito.

Informações de comportamento.

O Nubank começou pequeno.

Mas conforme ganhou clientes passou a acumular dados.

Imagine:

valor da compra
horário
estabelecimento
pagamentos
atrasos
limites
movimentação
renda
comportamento
frequência

Com escala suficiente, isso vira matéria-prima para análise de risco.

E surge um ciclo extremamente poderoso:

MAIS CLIENTES
      |
      v
MAIS DADOS
      |
      v
MELHORES MODELOS
      |
      v
MELHOR RISCO
      |
      v
MAIS CRÉDITO
      |
      v
MAIS CLIENTES

Esse é um flywheel.

Uma roda que alimenta a si própria.

Para um programador COBOL isso pode parecer distante.

Não é.

Porque em algum ponto todos esses modelos precisam conversar com sistemas transacionais.

Pode existir uma IA sofisticadíssima decidindo:

LIMIT = 8500

Mas alguém precisa registrar isso.

Controlar.

Auditar.

Autorizar.

Persistir.

E eventualmente cobrar.

Nesse momento você encontra novamente:

CORE

Capítulo 12 — Pix mudou as regras do tabuleiro

Depois ocorreu outra transformação gigantesca.

Pix.

Antes, movimentar dinheiro entre bancos tinha mais fricção.

TED.

DOC.

Horários.

Tarifas.

Prazo.

O Pix reduziu dramaticamente isso.

De repente:

BANCO A
  |
 PIX
  |
  v
BANCO B

quase instantaneamente.

Isso teve uma consequência econômica importante:

reduziu o aprisionamento do cliente.

Se dinheiro circula facilmente, possuir conta em vários bancos fica muito menos complicado.

Você pode manter:

BANCO TRADICIONAL
+
FINTECH
+
CORRETORA

e movimentar recursos entre eles.

Para challengers como Nubank isso é excelente.

A infraestrutura nacional passa a reduzir parte da vantagem das redes tradicionais.

Easter egg nº 2

Para quem viveu TED e DOC:

Pix parece MOVE CORRESPONDING.

Só que alguém finalmente colocou:

SYNCHRONOUS

na operação.


Capítulo 13 — Open Finance e o fim do castelo fechado

Depois veio Open Finance.

Conceitualmente, a ideia é poderosa:

os dados financeiros pertencem ao cliente.

Com autorização, informações podem transitar entre instituições.

Isso reduz outro moat tradicional.

Antes:

BANCO
 |
 +-- possui histórico
 +-- conhece cliente
 +-- controla relacionamento

Agora potencialmente:

CLIENTE
 |
 +-- autoriza compartilhamento

Isso aumenta competição.

O banco deixa de ser simplesmente o proprietário da informação.

Vira guardião de dados cuja circulação pode ser autorizada.

É uma mudança filosófica enorme.


Capítulo 14 — Por que os gigantes não esmagaram o Nubank?

Chegamos à pergunta mais interessante.

Itaú tinha dinheiro.

Bradesco tinha dinheiro.

Santander tinha dinheiro.

Banco do Brasil tinha dinheiro.

Todos tinham equipes de TI gigantescas.

Então por que simplesmente não copiaram tudo?

Aqui aparece o famoso:

Innovator's Dilemma.

Imagine que você ganha bilhões com:

ANUIDADE
TARIFA
PACOTE
SERVIÇOS

Aparece alguém dizendo:

— Precisamos eliminar tarifas.

Seu diretor financeiro pergunta:

— Quanto isso custa?

— Alguns bilhões.

— E quanto ganhamos?

— Talvez no futuro evitemos perder clientes.

Excelente reunião.

😂

Para uma startup:

receita existente = 0

Ela pode destruir um modelo econômico porque não tem receita antiga para proteger.

Para uma empresa incumbente:

CANIBALIZAR PRODUTO

é uma decisão dolorosa.

Esse é um dos motivos pelos quais empresas pequenas conseguem ameaçar gigantes.

Elas não possuem passado.

O passado é ativo.

Mas também pode ser peso.


Capítulo 15 — Legado tecnológico versus legado organizacional

Outro ponto importantíssimo.

Quando ouvimos:

LEGADO

pensamos:

COBOL
MAINFRAME

Mas existe legado muito mais perigoso:

LEGADO ORGANIZACIONAL

Exemplo:

— Por que precisamos dessa aprovação?

— Porque sempre foi assim.

— Quem aprovava?

— Um departamento extinto em 2004.

— Então por que ainda aprovamos?

— Não sei.

Esse tipo de coisa existe em toda grande organização.

Veja:

legacy code
legacy process
legacy policy
legacy incentive
legacy hierarchy
legacy culture

Às vezes reescrever o sistema é fácil.

Difícil é reescrever a empresa.


Capítulo 16 — O Nubank mudou os concorrentes

Uma das maiores vitórias de uma inovação acontece quando os concorrentes passam a copiá-la.

Hoje bancos tradicionais oferecem:

app excelente
Pix
cartão virtual
controle digital
conta sem tarifa
atendimento digital
investimentos no app
biometria
notificações

Isso significa que o Nubank venceu todos?

Não.

Significa algo mais interessante:

ele alterou a referência do consumidor.

Antes o cliente comparava:

BANCO A vs BANCO B

Depois passou a comparar:

EXPERIÊNCIA DIGITAL A vs EXPERIÊNCIA DIGITAL B

Isso força todo mundo a melhorar.


Capítulo 17 — Os gigantes continuam gigantes

Não caia na narrativa simplista:

Fintech matou bancos tradicionais.

Não matou.

Os grandes bancos continuam tendo vantagens absurdas.

Corporate banking.

Agronegócio.

Financiamento imobiliário.

Crédito estruturado.

Câmbio.

Tesouraria.

Derivativos.

Seguros.

Gestão patrimonial.

Redes empresariais.

Capital.

Conhecimento regulatório.

Relacionamentos institucionais.

Infraestrutura.

Décadas de dados.

O mundo bancário é muito maior do que cartão de crédito.

Então a disputa não é:

NUBANK VS BANCO

É:

QUAL PARTE DA CADEIA FINANCEIRA
CADA UM CONSEGUE DOMINAR?

Muito mais interessante.


Capítulo 18 — O que um COBOLzeiro iniciante aprende com tudo isso?

Agora chegamos ao café.

Você começou COBOL e pensa:

— O que Nubank tem a ver comigo?

Tudo.

Passo 1 — Aprenda o core

Antes de criticar sistema legado, entenda-o.

Estude:

COBOL
JCL
CICS
DB2
VSAM
IMS
MQ
RACF

Entenda por que cada coisa existe.

Passo 2 — Pense em jornada

Não veja apenas:

PROGRAM A

Veja:

CLIENTE
   |
   v
CANAL
   |
   v
API
   |
   v
MIDDLEWARE
   |
   v
COBOL
   |
   v
DB2

O programa faz parte de uma experiência maior.

Passo 3 — Pergunte onde está a fricção

O gargalo pode não ser CPU.

Pode ser processo.

Pode ser autorização.

Pode ser formulário.

Pode ser arquitetura.

Pode ser gente.

Passo 4 — Não confunda modernização com reescrita

Modernizar pode significar:

expor API
automatizar deploy
melhorar observabilidade
integrar cloud
introduzir DevOps
reduzir etapas manuais

sem apagar o COBOL.

Passo 5 — Aprenda economia

Programador financeiro precisa entender:

receita
custo
risco
fraude
crédito
capital
margem
inadimplência

Seu código existe para sustentar negócio.

Passo 6 — Aprenda dados

Banco moderno é cada vez mais:

transação
+
dados
+
modelo
+
automação

Passo 7 — Nunca subestime UX

Um backend perfeito escondido atrás de uma experiência horrível continua sendo um produto ruim.


Capítulo 19 — O pequeno PERFORM que virou império

Existe algo quase poético na história do Nubank.

Ele não começou tentando resolver:

TODO O SISTEMA FINANCEIRO

Começou resolvendo:

UM PROBLEMA

Cartão.

Sem anuidade.

No smartphone.

Depois executou algo parecido com:

PERFORM EXPAND-PRODUCT
    UNTIL CUSTOMER-BASE = HUGE

Isso é uma lição de arquitetura e de carreira.

Quem começa COBOL às vezes tenta aprender tudo ao mesmo tempo:

COBOL
JCL
CICS
DB2
IMS
MQ
Assembler
Java
Python
Cloud
DevOps
AI

Calma.

Comece pelo cartão roxo.

Escolha seu primeiro problema.

Domine.

Depois expanda.


Capítulo 20 — O verdadeiro Lobo Roxo

No fim das contas, o Nubank não venceu simplesmente porque era digital.

Também não venceu porque bancos antigos eram incompetentes.

Muito menos porque COBOL estava ultrapassado.

Ele cresceu porque uma combinação rara aconteceu ao mesmo tempo:

SMARTPHONE
+
UX
+
BAIXA FRICÇÃO
+
MARCA
+
TIMING
+
DISTRIBUIÇÃO DIGITAL
+
DADOS
+
ESCALA
+
MUDANÇAS REGULATÓRIAS

O cartão roxo foi apenas a face visível.

Por trás dele existia uma tese poderosa:

a experiência bancária podia ser reconstruída colocando o cliente digital no centro.

E existe uma ironia deliciosa.

Os bancos tradicionais passaram décadas criando fortalezas tecnológicas incríveis.

Mainframes.

Redes.

Datacenters.

Sistemas de liquidação.

Processamento massivo.

Segurança.

Redundância.

O Nubank não precisou destruir a fortaleza.

Encontrou uma porta lateral.

Essa porta chamava-se:

EXPERIÊNCIA

Entrou por ali.

Depois que entrou, começou a construir sua própria fortaleza.


Epílogo — Wall Street encontra o CPD

Imagine novamente o salão.

Os grandes bancos continuam sentados.

Só que agora existe outra cadeira na mesa.

Roxa.

O veterano do mainframe olha para o jovem programador COBOL.

— Aprendeu alguma coisa?

O rapaz responde:

— Que startup mata legado?

O veterano dá um gole no café.

— Não.

— Que mainframe morreu?

— Também não.

— Então o quê?

Ele aponta para uma tela onde milhões de transações passam por segundo.

— Sistemas não perdem mercado porque são velhos.

Pausa.

Perdem mercado quando deixam de resolver aquilo que o cliente considera importante.

O novato fica pensando.

Na tela aparece:

TRANSACTION APPROVED

O veterano sorri.

— E outra coisa.

— O quê?

— Nunca confunda uma interface simples com um sistema simples.

Atrás do botão roxo existe um mundo.

Crédito.

Fraude.

Liquidação.

Compliance.

Segurança.

Auditoria.

Dados.

Regulação.

Resiliência.

E, em algum lugar escondido do planeta financeiro, provavelmente um programa escrito décadas atrás ainda está fazendo alguma coisa importantíssima.

Talvez seja COBOL.

Talvez ninguém saiba quem escreveu.

Talvez exista um comentário:

* DO NOT CHANGE THIS ROUTINE.

Sem nenhuma explicação.

O jovem pergunta:

— Posso apagar?

O veterano encara.

— Wall Street tem uma regra.

— Qual?

— Se você não sabe por que existe, não execute DELETE.

Fim do café.

E lembre-se:

na próxima vez que alguém mostrar um aplicativo moderno e disser:

“Isso substituiu o banco antigo.”

Pergunte:

E ONDE LIQUIDA?

Normalmente é aí que a conversa começa a ficar realmente interessante.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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