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domingo, 18 de junho de 2023

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe Edgar “Ted” Codd Toma Chá no Condado — O Dia em que os Dados Abandonaram o Labirinto, Aprenderam SQL e Descobriram que até uma Elegante Tabela Precisa de COMMIT

 

Bellacosa Mainframe apresenta Codd Db2 SQL e banco de dados relacional

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Edgar “Ted” Codd Toma Chá no Condado — O Dia em que os Dados Abandonaram o Labirinto, Aprenderam SQL e Descobriram que até uma Elegante Tabela Precisa de COMMIT

Ou: como o modelo relacional libertou o programador dos ponteiros, por que o Db2 não inventou tudo sozinho, o que ACID realmente significa e por que um SELECT * continua sendo falta de educação até numa confortável poltrona inglesa



Prólogo — Chá, biscoitos e um arquivo sequencial com 40 milhões de registros

Chovia delicadamente sobre um condado inglês cujo nome ninguém no CPD conseguia pronunciar corretamente.

Dentro de uma antiga casa de campo, Edgar Frank “Ted” Codd estava acomodado numa confortável poltrona de couro, diante de uma lareira acesa. Sobre a pequena mesa repousavam um bule de chá, biscoitos amanteigados, algumas folhas cobertas por símbolos matemáticos e, por algum acidente temporal que jamais seria explicado, um terminal 3270 conectado a um mainframe IBM.

Do outro lado da sala, um jovem programador COBOL examinava uma solicitação enviada pela Diretoria:

“Precisamos saber quantos clientes de cada cidade realizaram compras superiores a dez mil moedas nos últimos seis meses.”

O iniciante respirou fundo.

Abriu o arquivo mestre de clientes.

Abriu o arquivo de transações.

Procurou o copybook.

Descobriu que existiam quatro versões do copybook.

Uma estava num PDS chamado OLD.

Outra estava num PDS chamado OLD.BKP.

A terceira terminava com .NEW.

A quarta se chamava DEFINITIVA, o que, em ambientes corporativos, normalmente significa que não é definitiva.

— Vou precisar escrever um programa, classificar os registros, fazer um MATCH, gerar um arquivo intermediário e depois produzir o relatório — explicou o programador. — Talvez fique pronto na próxima semana.

Codd mexeu calmamente o chá.

— E se você pudesse apenas declarar qual resultado deseja?

O jovem olhou para o terminal.

— Sem dizer ao computador como percorrer cada arquivo?

— Exatamente.

— Isso parece magia.

Codd colocou o pires sobre a mesa.

— Não é magia. É matemática com um bom otimizador.

Naquele instante, em algum lugar do tempo, um gerente enviou uma mensagem dizendo que a alteração era pequena.

A chuva ficou mais forte.



1. Antes do banco relacional, os dados não viviam em cavernas

Contar essa história dizendo que, antes do modelo relacional, as empresas administravam seus dados como se usassem fichas de papel é uma boa imagem literária, mas uma explicação histórica incompleta.

As décadas de 1960 e 1970 já possuíam sistemas sofisticados de gerenciamento de dados. Empresas processavam folhas de pagamento, reservas de passagens, contas bancárias, estoques e milhões de transações sem usar SQL.

Um dos exemplos mais importantes é o IMS, o Information Management System da IBM. Ele nasceu no contexto do programa Apollo e tornou-se um dos grandes bancos de dados corporativos do mainframe.

O IMS trabalha com uma estrutura hierárquica. Para um iniciante, podemos imaginá-la como uma árvore:

CLIENTE
├── CONTA
│   ├── SALDO
│   └── LANÇAMENTO
└── CARTÃO
    ├── FATURA
    └── COMPRA

Para encontrar uma compra, a aplicação normalmente navega por um caminho previamente conhecido:

CLIENTE → CARTÃO → FATURA → COMPRA

Esse modelo pode ser extremamente rápido. Se o caminho estiver bem definido e a aplicação souber exatamente aonde deseja chegar, a navegação é eficiente.

O problema aparece quando o negócio formula uma pergunta que não combina com os caminhos existentes.

Imagine que a empresa tenha organizado os dados para consultar todas as compras de determinado cliente. Depois, a Diretoria pergunta:

“Quais produtos foram comprados por clientes de três cidades diferentes durante uma promoção específica?”

Talvez essa navegação não tenha sido prevista.

Nesse caso, poderia ser necessário:

  • escrever um novo programa;

  • navegar por diferentes segmentos;

  • extrair informações para um arquivo;

  • ordenar os registros;

  • combinar arquivos;

  • criar índices adicionais;

  • executar um batch;

  • produzir um relatório;

  • esperar a janela de processamento.

O problema não era falta de inteligência dos programadores antigos. Muito pelo contrário: eles realizavam trabalhos extraordinários com memória, CPU e armazenamento limitados.

O problema era o acoplamento entre a pergunta, a estrutura lógica dos dados e o caminho físico utilizado para encontrá-los.

O programa precisava saber não apenas o que procurar, mas como chegar até lá.



2. Codd não queria apenas inventar uma tabela bonita

Edgar Frank Codd, conhecido como Ted Codd, era matemático e pesquisador da IBM. Em 1970, publicou o artigo:

A Relational Model of Data for Large Shared Data Banks.

Esse trabalho se tornou uma das bases mais importantes da computação moderna.

É comum resumir sua contribuição assim:

“Codd organizou os dados em tabelas com linhas e colunas.”

Não está errado, mas é semelhante a dizer que Alan Turing “trabalhava com fitas”. A descrição mostra a superfície e esconde a revolução.

Codd desejava criar uma fronteira clara entre:

  • a representação lógica dos dados;

  • a forma de consultá-los;

  • sua organização física dentro da máquina.

Em outras palavras, ele queria proteger o usuário e o programador da obrigação de conhecer todos os detalhes internos de armazenamento.

Antes, a aplicação podia precisar dizer:

“Comece pelo registro mestre, siga este ponteiro, abra aquele conjunto, leia o próximo segmento e continue até encontrar o código desejado.”

No modelo relacional, a aplicação poderia declarar:

SELECT NOME, SALDO
FROM CONTA
WHERE SALDO < 0;

A pergunta descreve o resultado. Ela não determina detalhadamente o caminho físico.

Essa é a grande virada:

Modelo navegacional:
“Explique por onde devo caminhar.”

Modelo relacional:
“Explique qual resultado deseja.”

O banco de dados recebe a responsabilidade de descobrir uma estratégia adequada.

Codd não estava apenas organizando registros. Ele estava propondo independência de dados.


3. Relação, tupla e atributo: a matemática entrou no CPD

Uma relação pode ser apresentada ao iniciante como uma tabela:

CONTACLIENTEAGÊNCIASALDO
1001Ana1205.500,00
1002Bruno120-320,00
1003Carla450810,00

Na linguagem formal:

  • a tabela corresponde aproximadamente a uma relação;

  • cada linha é uma tupla;

  • cada coluna é um atributo;

  • o conjunto de valores permitidos para um atributo é seu domínio;

  • uma chave identifica uma tupla;

  • as restrições protegem a integridade dos dados.

Por que usamos “aproximadamente”?

Porque uma relação matemática não é simplesmente uma planilha. Ela possui propriedades formais. Não depende visualmente da ordem das linhas, não deveria conter tuplas duplicadas e representa um conjunto de fatos.

Considere:

SELECT CLIENTE, SALDO
FROM CONTA
WHERE SALDO < 0;

Em linguagem humana, estamos pedindo:

“Forme uma relação contendo cliente e saldo para as tuplas nas quais o saldo seja negativo.”

Podemos combinar relações:

SELECT C.NOME,
       P.NUMERO_PEDIDO,
       P.VALOR
FROM CLIENTE C
JOIN PEDIDO P
  ON P.ID_CLIENTE = C.ID_CLIENTE
WHERE P.VALOR > 10000;

O JOIN não manda o computador seguir obrigatoriamente um ponteiro físico entre dois registros. Ele declara a condição lógica que relaciona as informações:

P.ID_CLIENTE = C.ID_CLIENTE

O sistema pode escolher diferentes estratégias para produzir o resultado.

O programador passou a pensar mais sobre conjuntos, predicados e resultados — e menos sobre o endereço físico do próximo registro.

Isso não eliminou a necessidade de compreender arquivos, páginas, índices ou buffers. Apenas mudou quem deve decidir cada detalhe e em qual momento.


4. System R: quando a teoria precisou funcionar fora da poltrona

Uma teoria pode ser elegante enquanto toma chá ao lado da lareira. O problema começa quando alguém pede que ela processe a folha de pagamento.

Após o trabalho de Codd, a IBM iniciou o projeto System R em seu laboratório de San Jose. O objetivo era descobrir se um sistema relacional poderia ser construído de forma prática e com desempenho aceitável.

A pergunta era séria.

Muitos especialistas acreditavam que a flexibilidade do modelo relacional teria um custo alto demais. Um sistema navegacional já conhecia seus caminhos. Um banco relacional teria de receber uma pergunta abstrata e descobrir como executá-la.

O System R demonstrou que isso era possível.

O projeto trabalhou com conceitos que se tornariam fundamentais:

  • linguagem declarativa;

  • catálogo de metadados;

  • índices;

  • transações;

  • controle de concorrência;

  • recuperação;

  • autorização;

  • views;

  • compilação de consultas;

  • otimização baseada em custo;

  • escolha automática de caminhos de acesso.

O System R não foi simplesmente “o primeiro Db2”. Era um projeto experimental, uma oficina na qual muitas ideias foram construídas, testadas, descartadas ou aperfeiçoadas.

Seu valor histórico está em provar que o modelo relacional não era apenas uma bela teoria matemática. Poderia sustentar trabalho comercial de verdade.

Codd desenhou o mapa.

O System R colocou botas, capa de chuva e saiu para verificar se a estrada existia.


5. SEQUEL: o dia em que a consulta tentou falar inglês

Donald Chamberlin e Raymond Boyce desenvolveram uma linguagem para trabalhar com o System R. Inicialmente, ela foi chamada SEQUEL, de Structured English Query Language.

Mais tarde, o nome foi reduzido para SQL, Structured Query Language.

Isso explica por que algumas pessoas pronunciam “és-quiú-él” e outras dizem “sequel”. As duas pronúncias carregam pedaços da história.

Veja esta consulta:

SELECT NOME
FROM FUNCIONARIO
WHERE DEPARTAMENTO = 'CONTABILIDADE';

Ela se aproxima de uma frase em inglês:

Selecione o nome do funcionário onde o departamento seja Contabilidade.

Não é linguagem natural. Não podemos conversar livremente com o banco como se ele fosse Jeeves, o mordomo da casa de campo. Porém, comparado às interfaces de baixo nível, era uma enorme aproximação da linguagem utilizada pelas pessoas.

O SQL é declarativo.

Você informa o que deseja, não necessariamente como executar.

Compare dois pensamentos.

Pensamento navegacional

  1. Abra o arquivo de funcionários.

  2. Leia o primeiro registro.

  3. Verifique o departamento.

  4. Se for Contabilidade, grave o nome.

  5. Leia o próximo registro.

  6. Repita até o fim.

Pensamento relacional

SELECT NOME
FROM FUNCIONARIO
WHERE DEPARTAMENTO = 'CONTABILIDADE';

Parece simples porque alguém colocou uma enorme quantidade de engenharia atrás dessa simplicidade.


6. O otimizador: o mordomo invisível da mansão

O SQL diz o que queremos. Mas alguém ainda precisa decidir como encontrar o resultado.

Esse alguém é o otimizador.

Imagine duas tabelas:

CLIENTE     20 milhões de linhas
TRANSACAO    4 bilhões de linhas

Agora execute:

SELECT C.NOME,
       SUM(T.VALOR)
FROM CLIENTE C
JOIN TRANSACAO T
  ON T.ID_CLIENTE = C.ID_CLIENTE
WHERE C.CIDADE = 'ITATIBA'
GROUP BY C.NOME;

Existem várias estratégias possíveis:

  • ler todos os clientes;

  • usar um índice sobre cidade;

  • começar pelas transações;

  • começar pelos clientes selecionados;

  • usar um nested-loop join;

  • classificar valores;

  • utilizar paralelismo;

  • ler antecipadamente páginas;

  • empregar um índice composto;

  • criar resultados intermediários.

O otimizador examina informações como:

  • número estimado de linhas;

  • quantidade de páginas;

  • distribuição dos valores;

  • seletividade;

  • índices disponíveis;

  • organização dos objetos;

  • custos estimados de CPU e entrada/saída;

  • possibilidade de paralelismo;

  • ordem das tabelas no JOIN.

Patricia Selinger e a equipe do System R tiveram papel decisivo na criação da otimização baseada em custo.

O otimizador é como um mordomo inglês eficiente. O visitante diz:

“Gostaria de chá.”

Ele não precisa explicar:

  1. em qual armário está o bule;

  2. qual torneira fornece água;

  3. quanto tempo a água deve ser aquecida;

  4. onde ficam as xícaras;

  5. qual bandeja deve ser usada.

O mordomo escolhe o caminho.

Mas, se as informações estiverem erradas, talvez ele procure o chá na biblioteca e encontre apenas uma instalação antiga do IMS.

No Db2, estatísticas desatualizadas podem levar o otimizador a tomar decisões inadequadas. É por isso que existem utilitários e atividades como:

  • RUNSTATS;

  • REORG;

  • EXPLAIN;

  • manutenção de índices;

  • análise do access path.

O SQL esconde detalhes. Ele não apaga as consequências físicas.


7. Db2: quando o modelo relacional entrou no MVS

Em 1983, a IBM lançou o Database 2, depois grafado Db2, para o ambiente MVS nos mainframes.

Às vezes se afirma que o Db2 foi o primeiro banco de dados relacional comercial. Isso não é correto.

Antes dele:

  • a IBM já havia lançado o SQL/DS;

  • a Oracle já comercializava um banco relacional;

  • o Ingres também participava dessa história.

O Db2 não precisa receber um troféu que pertence a uma história mais coletiva. Sua realização real já é gigantesca.

Ele levou a tecnologia relacional ao centro de ambientes MVS com exigências corporativas severas:

  • grande volume de dados;

  • muitas aplicações concorrentes;

  • processamento batch;

  • transações online;

  • recuperação;

  • segurança;

  • disponibilidade;

  • integridade;

  • auditoria;

  • compatibilidade;

  • administração centralizada.

O Db2 ajudou a demonstrar que uma base relacional podia cuidar de contas bancárias, reservas, pedidos, faturas e estoques sem desmaiar quando o laboratório se transformasse em produção.

Existe uma diferença enorme entre executar uma consulta numa demonstração e manter milhares de transações trabalhando enquanto o fechamento contábil, o CICS e o batch disputam recursos.

O mainframe foi a forja porque as ideias precisaram sobreviver ao mundo real.


8. ACID: não foi inventado pelo Db2, mas encontrou nele uma casa respeitável

Uma imprecisão comum é afirmar que o Db2 criou as propriedades ACID.

Os conceitos transacionais foram desenvolvidos durante vários anos e apareceram em sistemas anteriores. A formulação clássica do acrônimo ACID foi consolidada por Theo Härder e Andreas Reuter num importante artigo publicado também em 1983.

O Db2 não inventou sozinho o ACID. Entretanto, colocou essas propriedades em prática em um dos ambientes empresariais mais exigentes do mundo.

ACID significa:

  • Atomicidade;

  • Consistência;

  • Isolamento;

  • Durabilidade.

Vamos visitar cada cômodo da mansão.


8.1 Atomicidade — não existe meia transferência

Considere:

UPDATE CONTA
   SET SALDO = SALDO - 500
 WHERE NUMERO = 1001;

UPDATE CONTA
   SET SALDO = SALDO + 500
 WHERE NUMERO = 2002;

COMMIT;

A transação possui duas atualizações:

  1. retirar 500 da primeira conta;

  2. acrescentar 500 à segunda.

Se o sistema executar somente o débito, teremos uma transferência pela metade.

Atomicidade significa que a unidade lógica é indivisível:

  • tudo acontece;

  • ou nada permanece.

Se uma etapa falhar antes da confirmação, o sistema deve desfazer o trabalho incompleto com ROLLBACK.

Atomicidade não significa que a transação seja pequena ou instantânea. Significa que seus efeitos são considerados como uma unidade.


8.2 Consistência — o banco não pode sair pela janela usando pantufas

Uma transação deve conduzir o banco de um estado válido para outro estado válido.

Algumas regras podem ser expressas pelo próprio banco:

SALDO DECIMAL(15,2) NOT NULL

Uma chave estrangeira pode impedir a existência de uma conta associada a um cliente inexistente. Uma constraint pode impedir determinado valor proibido. Uma chave primária pode evitar duplicidade.

Mas o SGBD não conhece telepaticamente todas as regras do negócio.

A empresa precisa definir:

  • constraints;

  • validações;

  • regras na aplicação;

  • triggers, quando apropriadas;

  • políticas de integridade;

  • tratamento de erros.

Se o negócio determina que um cliente menor de idade não pode contratar certo produto, alguém precisa transformar essa regra numa proteção técnica.

O Db2 protege aquilo que foi corretamente especificado. Ele não possui bola de cristal, embora alguns planos de execução pareçam ter sido escritos por Nostradamus.


8.3 Isolamento — dois caixas e o último saldo disponível

Imagine uma conta com saldo de 500.

Dois terminais consultam o valor quase simultaneamente:

Terminal A lê: 500
Terminal B lê: 500

O Terminal A tenta sacar 500.

O Terminal B também tenta sacar 500.

Sem controle adequado, ambos poderiam acreditar que o dinheiro está disponível.

Isolamento controla a interferência entre transações concorrentes.

No Db2, o programador precisa conhecer conceitos como:

  • locks;

  • timeout;

  • deadlock;

  • cursor stability;

  • read stability;

  • repeatable read;

  • uncommitted read;

  • WITH UR;

  • unidade de trabalho.

Isolamento demais pode produzir contenção. Isolamento de menos pode permitir comportamentos indesejáveis.

A escolha correta depende do negócio.

Uma consulta estatística talvez tolere uma leitura ainda não confirmada. Uma movimentação financeira normalmente exige proteções muito mais rigorosas.

Colocar WITH UR em tudo porque “fica mais rápido” é como remover as fechaduras da casa para economizar tempo ao entrar.


8.4 Durabilidade — depois do COMMIT, acabou a poesia

Quando o sistema informa que uma transação foi confirmada, seu resultado precisa sobreviver a falhas.

Se o cliente concluiu um pagamento e recebeu a confirmação, o banco não pode reiniciar e responder:

“Pedimos desculpas. O seu pagamento era apenas uma experiência temporária em memória.”

Logs, checkpoints e mecanismos de recuperação ajudam a fornecer durabilidade.

O COMMIT representa uma fronteira importante. Antes dele, o trabalho pode ser desfeito. Depois dele, o resultado confirmado precisa permanecer.

Por isso a frase merece ser gravada no pires de todo programador iniciante:

COMMIT não é pontuação estética. É uma decisão de negócio.

Um COMMIT cedo demais pode quebrar a atomicidade de uma operação maior. Um COMMIT tarde demais pode manter recursos e locks durante muito tempo.


9. Quando o SQL encontra o COBOL

O SQL não substituiu automaticamente o COBOL. No mainframe, eles frequentemente trabalham juntos.

Um programa pode conter SQL embutido:

       EXEC SQL
           SELECT NOME,
                  SALDO
             INTO :WS-NOME,
                  :WS-SALDO
             FROM CONTA
            WHERE NUMERO_CONTA = :WS-NUMERO-CONTA
       END-EXEC.

Observe as variáveis precedidas por dois-pontos:

:WS-NOME
:WS-SALDO
:WS-NUMERO-CONTA

São host variables: campos do programa COBOL utilizados para trocar valores com o Db2.

O compilador COBOL, sozinho, não entende toda a instrução SQL. Existe um processo que pode envolver:

  1. preparação do fonte;

  2. precompilação das instruções SQL;

  3. criação do DBRM;

  4. compilação COBOL;

  5. link-edit;

  6. BIND do DBRM em um package;

  7. eventual ligação do package a uma collection ou plan;

  8. execução.

O programa também precisa tratar resultados:

       EVALUATE SQLCODE
           WHEN 0
               CONTINUE
           WHEN +100
               DISPLAY 'CONTA NAO ENCONTRADA'
           WHEN OTHER
               DISPLAY 'ERRO SQL: ' SQLCODE
       END-EVALUATE

Para o iniciante:

  • SQLCODE = 0 normalmente indica sucesso;

  • SQLCODE = +100 normalmente indica que nenhuma linha foi encontrada ou que o cursor chegou ao fim;

  • SQLCODE negativo indica erro;

  • SQLSTATE fornece uma representação padronizada da condição.

Ignorar o SQLCODE porque o programa compilou é como ignorar o alarme de incêndio porque a campainha possui uma melodia agradável.


10. Consulta única e cursor: chá para um ou banquete para muitos

Se uma consulta deve retornar apenas uma linha, podemos usar SELECT ... INTO.

Mas, quando várias linhas podem ser retornadas, normalmente utilizamos um cursor.

Exemplo conceitual:

       EXEC SQL
           DECLARE C1 CURSOR FOR
               SELECT NOME,
                      SALDO
                 FROM CONTA
                WHERE AGENCIA = :WS-AGENCIA
                ORDER BY NOME
       END-EXEC.

Depois:

       EXEC SQL
           OPEN C1
       END-EXEC.

A aplicação busca cada linha:

       EXEC SQL
           FETCH C1
            INTO :WS-NOME,
                 :WS-SALDO
       END-EXEC.

Ao final:

       EXEC SQL
           CLOSE C1
       END-EXEC.

O fluxo é:

DECLARE → OPEN → FETCH → FETCH → FETCH → CLOSE

O cursor é semelhante a uma lista preparada pelo mordomo. O programa não recebe necessariamente todos os convidados de uma vez; solicita o próximo nome conforme avança.

É preciso tratar corretamente o SQLCODE +100, pois ele indica o fim do conjunto de resultados.


11. SELECT *: a bandeja grande demais

O comando abaixo é conveniente:

SELECT *
FROM CLIENTE
WHERE CPF = :WS-CPF;

Entretanto, em aplicações, ele pode ser uma má escolha.

Problemas possíveis:

  • recupera colunas desnecessárias;

  • aumenta o tráfego interno;

  • cria dependência da estrutura da tabela;

  • reduz a clareza;

  • pode prejudicar estratégias envolvendo índices;

  • dificulta manutenção;

  • pode surpreender quando a tabela recebe novas colunas.

Prefira declarar o necessário:

SELECT NOME,
       DATA_NASCIMENTO,
       SITUACAO
FROM CLIENTE
WHERE CPF = :WS-CPF;

No chá inglês, ninguém pede:

“Traga tudo o que houver na cozinha.”

Pede-se chá, leite, açúcar e dois biscoitos.

O mesmo princípio vale para o Db2.


12. O catálogo: quando o banco aprendeu a falar sobre si próprio

Um banco relacional não armazena somente dados de clientes, contas e produtos. Ele também guarda metadados, ou seja, dados sobre os próprios dados.

O catálogo contém informações sobre:

  • tabelas;

  • colunas;

  • tipos;

  • índices;

  • views;

  • packages;

  • privilégios;

  • tablespaces;

  • dependências;

  • estatísticas.

Isso permite responder a perguntas administrativas:

  • Quais colunas existem?

  • Qual índice atende esta tabela?

  • Quem possui determinada autorização?

  • Quais packages dependem deste objeto?

  • Quando as estatísticas foram atualizadas?

  • Qual é a cardinalidade estimada?

  • Que objetos podem ser afetados por uma alteração?

O catálogo transformou o banco num sistema capaz de descrever a própria estrutura.

Ferramentas modernas de governança, geração de código, descoberta de dados e administração continuam explorando esse princípio.

O banco de dados ganhou um espelho — e, como todo sistema antigo, às vezes não gostou do que viu depois de quinze anos sem RUNSTATS.


13. Passo a passo para o iniciante pensar como Codd sem esquecer que trabalha no CPD

Passo 1 — Entenda a pergunta de negócio

Antes de escrever SQL, descubra:

  • o que precisa ser retornado;

  • qual é o período;

  • quais filtros se aplicam;

  • quantas linhas são esperadas;

  • se duplicidades são permitidas;

  • qual precisão é necessária;

  • se a consulta apenas lê ou também altera dados.

Uma consulta tecnicamente perfeita pode responder à pergunta errada.

Passo 2 — Identifique as relações necessárias

Pergunte:

  • Em qual tabela está o cliente?

  • Onde estão as contas?

  • Como as tabelas se relacionam?

  • Qual coluna representa a chave?

  • Existe histórico?

  • Uma conta pode ter mais de um titular?

Não invente relacionamentos observando nomes parecidos.

COD-CLI e ID-CLIENTE podem representar a mesma coisa — ou podem ser duas entidades distintas criadas depois de uma aquisição em 1997.

Passo 3 — Escreva o resultado mínimo

Evite buscar dados que não serão utilizados.

SELECT C.NOME,
       SUM(T.VALOR)
FROM CLIENTE C
JOIN TRANSACAO T
  ON T.ID_CLIENTE = C.ID_CLIENTE
WHERE T.DATA_TRANSACAO BETWEEN :WS-DATA-INICIAL
                           AND :WS-DATA-FINAL
GROUP BY C.NOME;

Passo 4 — Teste casos normais e extremos

Teste:

  • nenhuma linha;

  • uma linha;

  • várias linhas;

  • valores nulos;

  • duplicidades;

  • datas-limite;

  • valores máximos;

  • caracteres especiais;

  • condições de erro.

Passo 5 — Examine o caminho de acesso

Use EXPLAIN e ferramentas disponíveis no ambiente.

Descubra:

  • se o índice foi utilizado;

  • se houve tablespace scan;

  • qual foi a ordem do join;

  • qual cardinalidade foi estimada;

  • se as estatísticas estão atualizadas.

Passo 6 — Planeje a unidade de trabalho

Determine:

  • onde começa a transação;

  • onde ocorre o COMMIT;

  • quando executar ROLLBACK;

  • quais recursos permanecem bloqueados;

  • o que fazer em caso de deadlock ou timeout.

Passo 7 — Trate todos os retornos

Não trate apenas o caminho feliz.

Um programa de produção precisa saber responder a:

  • linha inexistente;

  • duplicidade inesperada;

  • violação de integridade;

  • indisponibilidade;

  • deadlock;

  • timeout;

  • erro de autorização;

  • falha no package;

  • dado incompatível com a host variable.

Passo 8 — Meça

Não declare que a consulta está rápida porque funcionou com dez linhas no ambiente de desenvolvimento.

Produção pode possuir:

  • bilhões de linhas;

  • concorrência;

  • cache diferente;

  • estatísticas diferentes;

  • índices diferentes;

  • distribuição desigual;

  • cargas batch simultâneas.

O laboratório é uma xícara. A produção é o oceano onde o bule caiu.


14. O que PostgreSQL, Oracle, SQL Server, MySQL e Snowflake herdaram

Quando usamos SQL nesses produtos, estamos trabalhando com ideias cuja genealogia passa por Codd, System R e SEQUEL.

A herança inclui:

  • relações;

  • tabelas;

  • linhas e colunas;

  • chaves;

  • joins;

  • constraints;

  • views;

  • consultas declarativas;

  • catálogos;

  • transações;

  • otimizadores.

Isso não significa que todos sejam cópias do Db2.

Cada produto possui sua história, arquitetura e implementação:

  • PostgreSQL descende do projeto POSTGRES;

  • Oracle criou sua própria linha comercial;

  • Microsoft SQL Server desenvolveu seu próprio ecossistema;

  • MySQL adotou motores e escolhas particulares;

  • Snowflake utiliza SQL sobre uma arquitetura distribuída orientada à nuvem.

A herança é conceitual e linguística. Não é necessariamente uma linhagem direta de código-fonte.

É semelhante ao latim: português, espanhol, italiano e francês compartilham raízes, mas não são o mesmo idioma nem funcionam de maneira idêntica.

Codd ajudou a criar a gramática intelectual. Diferentes empresas construíram suas próprias cidades sobre esse território.


15. O mainframe é realmente a fonte de todas as tecnologias?

A frase “The Fountain From Which All Other Technologies Flow” é uma excelente provocação, mas deve ser tratada como metáfora.

Nem tudo nasceu no mainframe.

A computação moderna também recebeu contribuições decisivas de:

  • universidades;

  • laboratórios governamentais;

  • empresas concorrentes;

  • sistemas Unix;

  • redes acadêmicas;

  • computadores pessoais;

  • projetos de código aberto;

  • telecomunicações;

  • centros de pesquisa internacionais.

Entretanto, o mainframe foi uma das grandes forjas da computação empresarial.

Foi nele que muitas ideias precisaram aprender a conviver com:

  • dinheiro real;

  • milhares de usuários;

  • auditoria;

  • falhas;

  • concorrência;

  • segurança;

  • processamento contínuo;

  • compatibilidade por décadas;

  • consequências jurídicas e financeiras.

No laboratório, uma falha produz um relatório.

Num banco, ela pode produzir um saldo incorreto.

Numa companhia aérea, pode vender o mesmo assento duas vezes.

No varejo, pode reduzir o estoque sem confirmar a venda.

O mainframe ensinou uma lição que retorna em todas as gerações tecnológicas:

Uma tecnologia não está madura apenas quando funciona. Ela está madura quando falha de maneira controlada, recupera-se corretamente e preserva aquilo que já havia confirmado.


Epílogo — O último COMMIT antes da chuva parar

O jovem programador COBOL terminou sua consulta:

SELECT C.CIDADE,
       COUNT(DISTINCT C.ID_CLIENTE) AS CLIENTES,
       SUM(P.VALOR) AS VALOR_TOTAL
FROM CLIENTE C
JOIN PEDIDO P
  ON P.ID_CLIENTE = C.ID_CLIENTE
WHERE P.DATA_PEDIDO >= :WS-DATA-LIMITE
  AND P.VALOR > 10000
GROUP BY C.CIDADE
ORDER BY VALOR_TOTAL DESC;

Codd observou a tela.

— Muito melhor — disse ele.

— Então não preciso mais conhecer arquivos, índices, buffers, locks ou caminhos de acesso?

Codd interrompeu a xícara antes que ela tocasse os lábios.

O silêncio tomou a sala.

Até o terminal 3270 pareceu escurecer.

— Meu jovem, eu lhe dei independência de dados. Não lhe dei licença para ignorar o computador.

O programador abriu o EXPLAIN.

Descobriu um tablespace scan sobre bilhões de linhas.

As estatísticas estavam desatualizadas.

O índice que todos juravam existir havia sido removido durante uma mudança emergencial três anos antes.

No catálogo, o responsável pela alteração aparecia como USER01.

Ninguém conhecia USER01.

Na lareira, uma chama assumiu por um instante a forma de uma mensagem:

DSNT408I SQLCODE = -911

Era o easter egg deixado pelo fantasma de uma transação vítima de deadlock.

Depois de corrigir a consulta, atualizar as estatísticas e testar a unidade de trabalho, o jovem executou novamente o programa.

O relatório apareceu.

Os saldos permaneceram corretos.

O COMMIT foi realizado no momento adequado.

Codd finalmente bebeu o chá.


Conclusão — Os dados não aprenderam apenas uma linguagem

Edgar F. Codd não inventou simplesmente uma maneira conveniente de desenhar tabelas. Ele ajudou a mudar a relação entre pessoas, programas e dados.

O modelo relacional ofereceu:

  • independência entre lógica e armazenamento;

  • uma base matemática;

  • operações sobre conjuntos;

  • consultas declarativas;

  • maior flexibilidade para formular novas perguntas;

  • um terreno comum para linguagens como SQL.

O System R demonstrou que a teoria poderia funcionar.

SEQUEL, depois SQL, deu aos dados uma linguagem declarativa.

O SQL/DS iniciou a transformação em produto dentro da IBM.

O Db2 levou essa herança ao coração do MVS e das cargas empresariais críticas.

O mainframe submeteu tudo à pressão de bancos, companhias aéreas, governos, seguradoras e varejistas que não poderiam aceitar um resultado “aproximadamente correto”.

O Db2 não inventou sozinho o banco relacional, não foi o primeiro produto comercial dessa categoria e não criou isoladamente o ACID. Reconhecer essas nuances não reduz sua importância. Ao contrário: permite enxergar sua verdadeira grandeza.

Codd forneceu o modelo.

Chamberlin e Boyce ajudaram a criar a linguagem.

Selinger e sua equipe ensinaram o sistema a escolher caminhos.

Härder e Reuter consolidaram o vocabulário do ACID.

Muitos engenheiros transformaram pesquisa em produto.

E o mainframe colocou tudo diante do teste definitivo:

Funciona em produção, sob concorrência, depois de uma falha, sem perder o dinheiro de ninguém?

Quando hoje escrevemos:

SELECT *
FROM HISTORIA
WHERE TECNOLOGIA = 'MODERNA';

encontramos cloud, PostgreSQL, Oracle, SQL Server, MySQL, data warehouses e plataformas distribuídas.

Mas, se acrescentarmos:

AND ORIGEM_CONCEITUAL = 'MODELO RELACIONAL';

Ted Codd ainda estará lá, tomando chá numa confortável poltrona inglesa, olhando discretamente para o otimizador e lembrando ao programador COBOL:

Diga ao banco o que você deseja. Depois verifique com muito cuidado o que ele decidiu fazer.

sábado, 17 de junho de 2023

IBM Z Resiliency Como um Padawan COBOL Pode Evoluir do "Meu Programa Funciona" para "Meu Sistema Nunca Para"

 

Bellacosa Mainframe expande as ideias em IBM Z Resiliency

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Holocron da IBM Z Resiliency

Como um Padawan COBOL Pode Evoluir do "Meu Programa Funciona" para "Meu Sistema Nunca Para"

"O melhor programa COBOL não é apenas aquele que produz o resultado correto. É aquele que continua produzindo o resultado correto mesmo quando discos falham, servidores reiniciam, links caem, operadores cometem erros e o datacenter enfrenta uma crise."


Introdução

Quando um desenvolvedor COBOL começa sua jornada no IBM Z, normalmente sua preocupação é bastante simples:

  • aprender PROCEDURE DIVISION;

  • entender WORKING-STORAGE;

  • fazer READ e WRITE em arquivos VSAM;

  • acessar Db2;

  • executar um programa via JCL;

  • tratar um SQLCODE.

Tudo isso é importante.

Mas existe uma realidade muito maior que normalmente só é descoberta anos depois.

Seu programa não vive sozinho.

Ele faz parte de um enorme ecossistema composto por:

  • IBM Z Hardware

  • z/OS

  • JES2

  • WLM

  • CICS

  • IMS

  • Db2

  • MQ

  • RACF

  • GDPS

  • Parallel Sysplex

  • Storage

  • Redes

  • Operação

  • Monitoramento

  • Backup

  • Disaster Recovery

Todo esse conjunto possui um único objetivo:

Nunca deixar o negócio parar.

É justamente isso que a IBM chama de Resiliency.


O maior equívoco do desenvolvedor iniciante

O Padawan COBOL costuma pensar:

"Meu programa compilou."

Depois:

"Funcionou no teste."

Depois:

"Funcionou em produção."

Fim da história.

Na realidade...

A história apenas começou.

Porque a pergunta correta nunca é:

"O programa funciona?"

A pergunta correta é:

"Ele continua funcionando quando alguma coisa dá errado?"

Essa mudança de mentalidade separa um programador júnior de um engenheiro de software para ambientes críticos.


O mundo perfeito não existe

Imagine um banco.

Às 10 horas da manhã.

Existem:

  • 8 milhões de clientes conectados.

  • milhares de caixas eletrônicos.

  • PIX.

  • cartões.

  • internet banking.

  • aplicativos móveis.

  • APIs REST.

  • Open Finance.

Nesse momento:

uma CPU apresenta defeito.

O que acontece?

Se você respondeu:

"O banco para."

Você ainda está pensando como quem programa um computador doméstico.

No IBM Z, o esperado é que ninguém perceba.

Esse é o verdadeiro significado da palavra Resiliency.


Resiliência não significa nunca falhar

Essa é outra confusão muito comum.

Nenhum computador é perfeito.

Discos quebram.

Memórias apresentam defeitos.

Cabos rompem.

Fontes queimam.

Operadores erram comandos.

Aplicações possuem bugs.

Até meteoros poderiam destruir um datacenter.

Resiliência significa:

Aceitar que falhas acontecerão e projetar o sistema para continuar operando apesar delas.


O conceito mais importante

A IBM define resiliência como:

Capacidade de fornecer os serviços necessários diante da adversidade sem impacto significativo.

Perceba um detalhe.

Ela não fala em hardware.

Ela não fala em COBOL.

Ela fala em:

Serviço.

O cliente quer sacar dinheiro.

Ele não quer saber quantas CPUs existem.


O iceberg invisível

Quando você executa:

EXEC SQL
SELECT SALDO
END-EXEC

Você enxerga apenas uma linha.

Por trás dela existem dezenas de componentes trabalhando juntos.

Seu programa depende de:

  • compilador COBOL;

  • runtime;

  • Db2;

  • buffer pools;

  • storage;

  • cache;

  • canais FICON;

  • discos;

  • processadores;

  • WLM;

  • z/OS;

  • JES;

  • rede;

  • segurança RACF.

A resiliência protege toda essa cadeia.


O verdadeiro custo de um downtime

Muitos iniciantes imaginam:

"Se o sistema parar por cinco minutos não faz diferença."

Na prática, cinco minutos podem significar:

  • milhões de transações não realizadas;

  • PIX rejeitados;

  • compras canceladas;

  • multas;

  • perda de reputação;

  • ações caindo na bolsa.

O Redbook mostra que o custo de uma interrupção vai muito além da infraestrutura. Há perdas diretas de receita, custos fixos durante a parada e impactos intangíveis, como perda de confiança dos clientes e danos à marca.


O famoso RAS

Quase todo Sysprog conhece esta sigla.

Reliability

Confiabilidade.

Quanto menor a chance de quebrar.

Availability

Disponibilidade.

Mesmo quebrando,

continua funcionando.

Serviceability

Facilidade para manutenção.

Trocar peças.

Atualizar firmware.

Fazer manutenção.

Sem parar o ambiente.


O COBOL participa da Resiliência?

Sim.

Muito mais do que parece.

Um programa COBOL mal escrito pode derrubar um ambiente inteiro.

Por exemplo:

  • LOOP infinito.

  • COMMIT inexistente.

  • Deadlock.

  • Consumo exagerado de CPU.

  • SQL sem índice.

  • Arquivos bloqueados.

  • Storage leak.

  • Falta de tratamento de exceção.

Resiliência também é responsabilidade do desenvolvedor.


O que um Padawan precisa aprender

Primeira fase.

Programar.

Segunda fase.

Programar corretamente.

Terceira fase.

Programar para recuperação.

Quarta fase.

Programar pensando na infraestrutura.

Quinta fase.

Programar pensando no negócio.

Essa evolução leva anos.


A importância do COMMIT

Imagine:

Você atualiza:

100.000 registros.

No registro 99.999 ocorre uma queda elétrica.

Sem COMMIT.

Tudo volta.

Com COMMIT periódico.

A perda é mínima.

O programa consegue reiniciar.

Esse pequeno detalhe pode economizar horas de processamento.


Checkpoints

Batchs gigantes normalmente possuem checkpoints.

Imagine um processamento de:

40 milhões de clientes.

No cliente 39 milhões ocorre uma falha.

Sem checkpoint.

Tudo recomeça.

Com checkpoint.

Continua do ponto salvo.

É resiliência aplicada ao desenvolvimento.


Idempotência

Uma palavra moderna.

Mas extremamente útil.

Se o mesmo programa executar novamente,

ele não deve:

duplicar pagamentos;

duplicar TED;

duplicar PIX;

duplicar lançamentos.

Grandes sistemas financeiros dependem disso.


Tratamento de exceções

Nunca escreva:

IF SQLCODE NOT = 0
    DISPLAY 'ERRO'
END-IF

Isso não resolve nada.

Um bom programa:

  • registra logs;

  • identifica contexto;

  • faz rollback quando necessário;

  • encerra de forma segura;

  • permite recuperação.


O papel do WLM

O Workload Manager decide quem recebe prioridade.

Imagine:

  • Folha de pagamento.

  • PIX.

  • Batch estatístico.

Quem deve receber CPU primeiro?

O WLM responde.

Seu programa faz parte dessa fila.


Parallel Sysplex

Talvez seja a tecnologia mais famosa do IBM Z.

Vários sistemas trabalham como se fossem um único computador.

Se um deles cair,

os demais continuam.

O usuário nem percebe.

Parece magia.

Na realidade,

é engenharia.


GDPS

Geographically Dispersed Parallel Sysplex.

Imagine:

São Paulo inteiro sem energia.

Outro datacenter assume.

Essa é a ideia.

Algumas empresas conseguem continuar operando mesmo após perder completamente um site.


Zero Data Loss

Um conceito impressionante.

Perder:

zero.

Nem um registro.

Nem um pagamento.

Nem um PIX.

Nem um centavo.

Nem um byte.

É um objetivo que depende de arquiteturas de replicação síncrona e soluções como GDPS e tecnologias de espelhamento de armazenamento.


Curiosidade

Muitos bancos realizam manutenção durante o horário comercial.

Você nem percebe.

Enquanto um sistema recebe manutenção,

outro assume.

Depois ocorre o inverso.

Esse processo chama-se:

Rolling Maintenance.


Easter Egg nº 1

O maior inimigo da disponibilidade nem sempre é o hardware.

É o operador.

Estudos da indústria mostram que erros humanos continuam entre as causas mais frequentes de indisponibilidade.

Por isso existem:

  • automação;

  • procedimentos;

  • scripts;

  • validações;

  • System Automation;

  • Runbooks.


Easter Egg nº 2

Os engenheiros IBM costumam perseguir um objetivo curioso.

Eliminar o que chamam de:

Single Point of Failure

Qualquer componente único que possa derrubar todo o ambiente.

Vale para:

  • CPU;

  • disco;

  • switch;

  • cabo;

  • storage;

  • operador;

  • documentação.

Até pessoas podem ser um "Single Point of Failure" quando apenas um especialista conhece um procedimento crítico.


Easter Egg nº 3

Um COBOL pode ser resiliente mesmo sendo escrito há 40 anos.

Se:

  • estiver bem estruturado;

  • tratar exceções;

  • possuir restart;

  • possuir checkpoints;

  • respeitar transações;

ele continua extremamente moderno.


O que estudar depois deste curso

Depois de entender Resiliency, o caminho natural é aprofundar-se na própria stack IBM Z.

Infraestrutura

  • IBM Z Hardware

  • CPC

  • LPAR

  • PR/SM

  • HMC

Sistema Operacional

  • z/OS

  • JES2

  • SDSF

  • WLM

  • SMF

  • RMF

Armazenamento

  • DFSMS

  • DFSMShsm

  • Copy Services

  • Metro Mirror

  • Global Mirror

Redes

  • VTAM

  • TCP/IP

  • DVIPA

  • Sysplex Distributor

Middleware

  • CICS

  • IMS

  • Db2

  • MQ

Alta Disponibilidade

  • Parallel Sysplex

  • Coupling Facility

  • Data Sharing

  • GDPS

Operação

  • IBM System Automation

  • OMEGAMON

  • IBM Z Operations Analytics


As habilidades modernas do desenvolvedor COBOL

O mercado mudou.

Hoje um desenvolvedor COBOL pode agregar muito mais valor quando conhece:

  • APIs REST com z/OS Connect;

  • JSON e XML;

  • Git;

  • GitHub;

  • DevOps;

  • CI/CD;

  • testes automatizados;

  • observabilidade;

  • OpenTelemetry;

  • containers para ferramentas de apoio;

  • Ansible;

  • Zowe;

  • VS Code;

  • automação operacional;

  • inteligência artificial aplicada ao desenvolvimento.


Os perigos de ignorar a resiliência

Quem pensa apenas em "fazer funcionar" costuma criar sistemas frágeis.

Os principais riscos são:

  • perda de dados;

  • duplicidade de transações;

  • indisponibilidade prolongada;

  • degradação de desempenho;

  • dificuldade de recuperação;

  • manutenção cara;

  • dependência de especialistas;

  • aumento do risco operacional.

Em ambientes financeiros, esses problemas podem gerar prejuízos milionários.


Como evoluir de Padawan para Mestre

Uma evolução sólida pode seguir esta trilha:

Nível 1 — Fundamentos

  • COBOL

  • JCL

  • VSAM

  • Db2

  • CICS

Nível 2 — Sistema

  • z/OS

  • SDSF

  • JES2

  • TSO/ISPF

  • WLM

Nível 3 — Arquitetura

  • Parallel Sysplex

  • Coupling Facility

  • Data Sharing

  • ARM

  • SFM

Nível 4 — Continuidade de Negócios

  • RAS

  • HA

  • DR

  • RTO

  • RPO

  • GDPS

Nível 5 — Modernização

  • APIs

  • z/OS Connect

  • DevOps

  • Observabilidade

  • IA

  • Automação


A maior lição do IBM Z Resiliency

Depois de estudar esse tema, muitos desenvolvedores descobrem que escrever código representa apenas uma pequena parte do trabalho. Um programa COBOL faz sentido somente quando está inserido em uma arquitetura capaz de sobreviver a falhas, manter dados íntegros e continuar entregando serviços ao negócio.

É por isso que os profissionais mais valorizados no ecossistema IBM Z não são apenas excelentes programadores. Eles entendem infraestrutura, operação, banco de dados, middleware, redes, automação e continuidade de negócios. Eles sabem que um COMMIT bem posicionado, um tratamento adequado de exceções ou um checkpoint inteligente podem ter tanto impacto quanto uma nova funcionalidade.

No fim da jornada, o verdadeiro Mestre do IBM Z não é aquele que escreve o código mais sofisticado. É aquele que projeta soluções que continuam funcionando quando o inesperado acontece. Essa é a essência da IBM Z Resiliency: construir sistemas preparados para enfrentar falhas sem interromper aquilo que realmente importa — o negócio de milhões de pessoas.


sexta-feira, 16 de junho de 2023

Os Assassinos Silenciosos do System Design

 

Bellacosa Mainframe e os assassinos sileciosos do system design

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Os Assassinos Silenciosos do System Design

O guia do Programador COBOL Padawan para construir sistemas que não explodem quando chegam à produção

Existe um momento muito perigoso na vida de todo projeto de software.

Não é quando o programa apresenta erro de compilação.

Não é quando o JCL retorna JCL ERROR.

Não é quando o COBOL encerra com um S0C7, um S0C4 ou um S806.

O momento mais perigoso acontece muito antes disso.

Acontece naquela reunião aparentemente inocente em que alguém diz:

“É um sistema simples. Vamos começar a programar e depois ajustamos os detalhes.”

Nesse instante, caro Programador COBOL Padawan, uma perturbação surge na Força.

Ou, para os oficiais da Frota Estelar, os sensores da ponte detectam uma anomalia arquitetural se formando perto do núcleo de dobra.

Muitos sistemas não fracassam porque seus programadores desconhecem sintaxe. Eles fracassam porque começaram sem requisitos claros, cresceram sem planejamento, acumularam complexidade desnecessária, ignoraram segurança, não prepararam mecanismos de recuperação e foram colocados em produção sem monitoramento adequado.

No início, tudo parece funcionar.

O sistema cadastra clientes.

A API responde.

O batch termina.

A tela CICS abre.

O SELECT retorna dados.

Todos comemoram.

Entretanto, meses depois, a quantidade de usuários aumenta, o banco de dados cresce, as integrações se multiplicam e aquela pequena aplicação começa a mostrar rachaduras.

As respostas ficam lentas.

O banco atinge níveis perigosos de utilização.

Ninguém consegue localizar os erros.

A equipe tem medo de alterar o código.

Uma mudança de configuração exige nova compilação.

Um servidor cai e leva todo o sistema junto.

O que parecia ser um pequeno cargueiro espacial agora está tentando operar como a USS Enterprise, mas foi construído sem escudos, sem sensores e sem plano de evacuação.

Este artigo é uma viagem completa pelos principais erros de System Design, explicando como eles surgem, por que são perigosos e como evitá-los. A missão é traduzir os conceitos de arquitetura para quem está começando em COBOL, mainframe e sistemas corporativos.

Prepare seu café, ajuste o comunicador e assuma seu posto na ponte.

Temos uma arquitetura para salvar.


1. O que é System Design?

System Design, ou projeto de sistemas, é o processo de decidir como uma solução será estruturada para atender a determinados objetivos.

Não se resume a desenhar caixas e setas em um diagrama.

Também não significa apenas escolher:

  • linguagem de programação;

  • banco de dados;

  • framework;

  • servidor;

  • provedor de nuvem.

O projeto de sistemas procura responder perguntas muito mais profundas:

  • Quem utilizará o sistema?

  • Quantos usuários serão atendidos?

  • Qual volume de dados será processado?

  • O sistema precisa funcionar 24 horas por dia?

  • O que acontece quando um componente falha?

  • Como os dados serão protegidos?

  • Como o ambiente será monitorado?

  • Como a solução crescerá?

  • Como uma versão será implantada?

  • Como recuperar o sistema após um desastre?

  • Quanto custará manter tudo funcionando?

Em um ambiente mainframe, essas perguntas aparecem há décadas.

Um sistema COBOL corporativo normalmente não é apenas um programa. Ele pode envolver:

  • transações CICS;

  • programas batch;

  • JCL;

  • arquivos VSAM;

  • tabelas Db2;

  • filas IBM MQ;

  • segurança RACF;

  • logs SMF;

  • gerenciamento de carga pelo WLM;

  • rotinas de recuperação;

  • interfaces com sistemas externos.

Portanto, System Design é a arte de transformar requisitos de negócio em uma estrutura técnica capaz de funcionar com segurança, desempenho, disponibilidade e possibilidade de evolução.

Um bom projeto não tenta prever o futuro inteiro.

Ele cria uma base suficientemente sólida para que o sistema possa se adaptar sem precisar ser destruído e reconstruído a cada nova necessidade.


2. O primeiro assassino silencioso: começar sem requisitos claros

Um dos erros mais graves é iniciar a programação antes de compreender o problema.

A frase normalmente soa assim:

“Vamos codificar logo para ganhar tempo.”

Na prática, esse atalho costuma produzir o efeito contrário.

Quando os requisitos são vagos, cada pessoa imagina um sistema diferente.

O gestor imagina um portal.

O cliente imagina um aplicativo.

O desenvolvedor imagina uma API.

A infraestrutura imagina uma solução em nuvem.

O analista mainframe imagina uma integração com CICS e Db2.

Todos estão trabalhando, mas cada um está construindo uma nave diferente.

Um exemplo simples

O cliente solicita:

“Precisamos modernizar o sistema de pagamentos.”

A palavra “modernizar” pode significar muitas coisas:

  • substituir telas 3270 por uma interface web;

  • expor transações COBOL como APIs;

  • migrar programas para outra plataforma;

  • reorganizar o código;

  • melhorar desempenho;

  • automatizar implantação;

  • atualizar a segurança;

  • criar acesso por dispositivos móveis;

  • simplesmente documentar o legado.

Sem esclarecimento, a equipe pode passar meses resolvendo o problema errado.

Requisitos funcionais e não funcionais

Os requisitos funcionais descrevem o que o sistema deve fazer.

Exemplos:

  • cadastrar clientes;

  • consultar saldo;

  • emitir boleto;

  • processar pagamento;

  • gerar relatório;

  • cancelar uma transação.

Os requisitos não funcionais descrevem como o sistema deve se comportar.

Exemplos:

  • responder em menos de dois segundos;

  • atender dez mil usuários simultâneos;

  • manter disponibilidade de 99,99%;

  • criptografar dados sensíveis;

  • registrar todas as operações;

  • recuperar o serviço em até quinze minutos.

Muitos projetos documentam apenas as funcionalidades e ignoram os requisitos não funcionais.

Depois descobrem, tarde demais, que o sistema funciona — porém é lento, inseguro ou impossível de operar.

Passo a passo antes de programar

Antes de escrever o primeiro IDENTIFICATION DIVISION, procure responder:

  1. Qual problema de negócio será resolvido?

  2. Quem são os usuários?

  3. Qual volume inicial de dados?

  4. Qual crescimento esperado?

  5. Quais integrações existem?

  6. Qual horário de funcionamento?

  7. Qual nível de indisponibilidade é aceitável?

  8. Quais dados são sensíveis?

  9. Como os erros serão tratados?

  10. Quem dará suporte em produção?

Clareza no início não elimina mudanças.

Ela apenas impede que a equipe viaje em dobra máxima para o quadrante errado.


3. Ignorar escalabilidade desde cedo

Escalabilidade é a capacidade de um sistema continuar funcionando quando sua carga aumenta.

Um projeto pode começar com cem usuários e atingir cem mil.

Uma tabela pode começar com dez mil registros e chegar a bilhões.

Um processo batch que inicialmente trabalha com vinte arquivos pode, anos depois, receber milhares.

O erro está em pensar:

“Quando crescer, nós resolvemos.”

Às vezes isso é possível.

Em outras situações, a solução inicial cria limitações tão profundas que o crescimento exige uma reescrita completa.

Escala vertical e escala horizontal

Escala vertical significa tornar uma máquina mais poderosa:

  • mais CPU;

  • mais memória;

  • mais armazenamento;

  • processadores mais rápidos.

Escala horizontal significa adicionar mais máquinas ou instâncias para dividir o trabalho.

Em ambientes distribuídos, a escala horizontal é comum.

No mainframe, há décadas existem mecanismos sofisticados de expansão e gerenciamento de carga, como:

  • múltiplas LPARs;

  • Parallel Sysplex;

  • WLM;

  • compartilhamento de dados;

  • filas;

  • particionamento de workloads;

  • recursos especializados.

O importante não é defender uma única estratégia.

É reconhecer que o crescimento precisa ser considerado.

Exemplo de programa COBOL

Imagine um batch que processa um arquivo sequencial inteiro usando apenas uma etapa e um programa.

No começo:

  • 50 mil registros;

  • execução em três minutos.

Cinco anos depois:

  • 500 milhões de registros;

  • execução em nove horas;

  • janela batch insuficiente.

Talvez o projeto devesse ter considerado:

  • particionamento;

  • processamento paralelo;

  • checkpoints;

  • retomada após falha;

  • divisão por faixas;

  • utilização de banco com índices adequados;

  • filas de trabalho.

Escalabilidade não significa construir uma arquitetura gigante no primeiro dia.

Significa evitar escolhas que impossibilitem o crescimento.


4. Overengineering: quando a solução é maior que o problema

Overengineering acontece quando criamos uma solução excessivamente complexa para uma necessidade simples.

É o famoso caso de utilizar um torpedo de fótons para abrir uma lata de conservas.

Imagine uma aplicação interna usada por vinte pessoas.

A equipe decide criar:

  • quinze microsserviços;

  • três bancos de dados;

  • um cluster Kubernetes;

  • Kafka;

  • Redis;

  • Elasticsearch;

  • Service Mesh;

  • Event Sourcing;

  • CQRS;

  • múltiplos pipelines;

  • dezenas de dashboards.

Tudo isso para cadastrar fornecedores.

A arquitetura parece impressionante em uma apresentação.

Mas agora exige:

  • mais servidores;

  • mais especialistas;

  • mais monitoramento;

  • mais segurança;

  • mais custos;

  • mais pontos de falha.

Complexidade não é sinônimo de maturidade.

O princípio KISS

KISS significa:

Keep It Simple.

Ou, em português:

Mantenha a solução simples.

Uma solução simples tende a ser:

  • mais fácil de entender;

  • mais barata;

  • mais testável;

  • mais confiável;

  • mais rápida de corrigir.

Isso não significa escrever código descuidado.

Significa usar apenas a complexidade necessária.

Monólito não é palavrão

Muitas equipes tratam qualquer monólito como tecnologia ultrapassada.

Entretanto, um monólito modular pode ser excelente para diversos cenários.

O problema não é o monólito.

O problema é um monólito sem organização, com dependências caóticas e responsabilidades misturadas.

Da mesma forma, microsserviços não são automaticamente modernos.

Um ambiente de microsserviços mal projetado pode se tornar um monólito distribuído, mais difícil de depurar e mais caro de operar.

A melhor arquitetura não é a mais elegante no diagrama.

É a que atende aos requisitos com o menor nível razoável de complexidade.


5. Negligenciar tolerância a falhas

Todo componente falha.

Discos falham.

Redes falham.

Servidores param.

Programas recebem dados inválidos.

APIs externas ficam indisponíveis.

Filas enchem.

Bancos bloqueiam recursos.

Pessoas cometem erros.

O arquiteto maduro não pergunta:

“Será que vai falhar?”

Ele pergunta:

“Quando falhar, o que acontecerá?”

Falha não pode virar desastre

Uma falha local deveria permanecer local.

Se uma API de consulta de endereço estiver indisponível, isso não deveria necessariamente derrubar todo o sistema de cadastro.

Se um servidor parar, outra instância deveria assumir.

Se um programa batch interromper após processar 80% do arquivo, deveria ser possível retomar do ponto correto.

Padrões importantes

Timeout

Nenhuma chamada deveria esperar eternamente.

Um timeout define quanto tempo o sistema aguardará antes de considerar a operação malsucedida.

Retry

Algumas falhas são temporárias.

Uma nova tentativa pode resolver.

Entretanto, repetir sem controle é perigoso. Mil clientes realizando cinco tentativas podem transformar uma pequena lentidão em colapso completo.

Circuit Breaker

Funciona como um disjuntor.

Quando um serviço começa a falhar repetidamente, o sistema interrompe temporariamente as chamadas para evitar sobrecarga.

Failover

Quando um componente principal falha, outro assume.

Checkpoint

Um processo longo salva pontos de progresso para poder continuar após interrupção.

Dead Letter Queue

Mensagens que não podem ser processadas são desviadas para uma fila de análise, evitando que bloqueiem todo o fluxo.

A tradição do mainframe

A tolerância a falhas está no coração dos ambientes IBM Z.

Conceitos como:

  • Parallel Sysplex;

  • Coupling Facility;

  • GDPS;

  • replicação;

  • recuperação de logs;

  • commit e rollback;

  • reinício de jobs;

  • journaling;

  • gerenciamento de workload;

existem porque sistemas bancários, governamentais e de companhias aéreas não podem simplesmente parar e aguardar alguém reiniciar o computador.

A lição é simples:

Falhar é inevitável. Falhar sem plano é opcional.


6. Ignorar estratégias de cache

Cache é uma camada de armazenamento rápido utilizada para evitar processamento ou acesso repetitivo a fontes mais lentas.

Imagine que dez mil usuários consultem a mesma tabela de códigos de países.

Sem cache, cada requisição pode acessar o banco.

Com cache, a informação pode ser lida uma vez e reutilizada.

Isso reduz:

  • latência;

  • carga no banco;

  • consumo de CPU;

  • tráfego de rede;

  • custos.

Tipos de cache

O cache pode existir:

  • no navegador;

  • na aplicação;

  • em memória;

  • em servidores como Redis;

  • em proxies;

  • em CDNs;

  • em estruturas internas do banco;

  • em subsistemas mainframe.

O lado difícil

Cache traz um problema delicado:

Como garantir que os dados não fiquem desatualizados?

Se o preço de um produto mudar no banco, quando o cache será atualizado?

Estratégias comuns incluem:

  • tempo de expiração;

  • invalidação explícita;

  • atualização após gravação;

  • leitura através do cache;

  • atualização antecipada.

Existe uma velha piada entre programadores:

Há duas coisas difíceis em computação: invalidar cache, nomear coisas e erros de contagem.

Sim, a frase diz duas coisas e lista três.

Esse é o easter egg clássico.

Cache não conserta consulta ruim

Adicionar cache sobre uma arquitetura defeituosa pode apenas esconder o problema.

Primeiro, ajuste:

  • índices;

  • consultas;

  • modelo de dados;

  • volume retornado.

Depois, utilize cache onde houver benefício real.


7. Projeto ruim de banco de dados

O banco de dados frequentemente se torna o coração e o gargalo do sistema.

Um modelo mal projetado pode causar:

  • consultas lentas;

  • duplicidade;

  • inconsistência;

  • bloqueios;

  • dificuldade de manutenção;

  • crescimento descontrolado.

Erros comuns

Falta de índices

Uma consulta por CPF em uma tabela com milhões de registros pode exigir varredura completa se não houver índice adequado.

Índices demais

Índices aceleram leitura, mas também ocupam espaço e aumentam o custo de inserções, atualizações e exclusões.

Uso indiscriminado de SELECT *

Buscar todas as colunas desperdiça:

  • I/O;

  • memória;

  • rede;

  • CPU.

Solicite apenas os dados necessários.

Tipos inadequados

Armazenar datas como texto ou valores numéricos como caracteres cria problemas de validação, ordenação e desempenho.

Ausência de integridade

Chaves primárias, estrangeiras, restrições e validações ajudam a impedir dados inválidos.

Transações longas

Uma transação aberta por muito tempo pode manter locks e afetar outros usuários.

No Db2

O programador COBOL precisa conhecer a importância de:

  • índices;

  • EXPLAIN;

  • RUNSTATS;

  • REORG;

  • planos de acesso;

  • cardinalidade;

  • commits;

  • níveis de isolamento;

  • cursores;

  • tabelas particionadas.

Um SQL correto do ponto de vista sintático pode ser desastroso do ponto de vista operacional.

A consulta retorna o resultado.

Mas talvez consuma milhões de leituras para localizar vinte linhas.

O banco não deve ser tratado como um depósito onde jogamos dados.

Ele é um motor que precisa ser modelado, observado e ajustado.


8. Ignorar segurança

Segurança não deve ser adicionada no final do projeto como um acessório.

Ela precisa acompanhar todo o ciclo de vida.

Cada atalho pode criar uma superfície de ataque.

Autenticação e autorização

Autenticação responde:

Quem é você?

Autorização responde:

O que você pode fazer?

Uma pessoa pode estar corretamente autenticada e ainda assim não possuir permissão para consultar salários, alterar limites ou excluir registros.

Princípio do menor privilégio

Cada usuário, programa ou serviço deve receber apenas as permissões necessárias.

Nada além disso.

Uma aplicação que precisa apenas consultar uma tabela não deveria ter permissão para apagá-la.

Criptografia

Dados precisam ser protegidos:

  • em trânsito;

  • em repouso;

  • durante backups;

  • em arquivos temporários;

  • em logs.

Segredos não pertencem ao código

Senhas, tokens e chaves não devem aparecer em programas ou repositórios.

Nada de:

01 WS-PASSWORD PIC X(20) VALUE 'ADMIN123'.

Além de inseguro, isso transforma qualquer troca de senha em alteração de código.

Mainframe e segurança

No IBM Z, a proteção pode envolver:

  • RACF;

  • SAF;

  • perfis de recursos;

  • MFA;

  • TLS;

  • ICSF;

  • Crypto Express;

  • auditoria SMF;

  • separação de funções.

Entretanto, possuir ferramentas poderosas não garante segurança.

Configuração incorreta, privilégios excessivos e ausência de revisão continuam sendo riscos.

Segurança é tecnologia, processo e disciplina.


9. Não ter monitoramento, logs e observabilidade

Um sistema sem monitoramento é como a Enterprise atravessando uma nebulosa com os sensores desligados.

Talvez a nave esteja bem.

Talvez esteja a segundos de uma colisão.

Sem telemetria, ninguém sabe.

Logs

Logs registram eventos importantes:

  • início e fim de processamento;

  • erros;

  • decisões;

  • identificadores;

  • mensagens recebidas;

  • duração de operações.

Um bom log precisa ser útil.

Mensagens como:

“Erro inesperado.”

ajudam muito pouco.

Melhor seria registrar:

  • operação;

  • horário;

  • módulo;

  • código do erro;

  • contexto;

  • identificador da transação.

Naturalmente, sem expor senhas ou dados sensíveis.

Métricas

Métricas mostram valores ao longo do tempo:

  • CPU;

  • memória;

  • transações por segundo;

  • tempo médio de resposta;

  • quantidade de erros;

  • tamanho de fila;

  • uso de conexões;

  • duração do batch.

Tracing

Em sistemas distribuídos, uma única operação pode atravessar diversos serviços.

Tracing permite acompanhar a jornada da requisição.

Observabilidade no mainframe

Podemos relacionar esse universo a:

  • SMF;

  • RMF;

  • OMEGAMON;

  • SDSF;

  • logs do CICS;

  • estatísticas do Db2;

  • mensagens JES;

  • registros de MQ;

  • relatórios de WLM.

O objetivo é responder:

  • O que aconteceu?

  • Quando aconteceu?

  • Onde aconteceu?

  • Qual componente foi afetado?

  • Quantos usuários sofreram impacto?

  • Qual foi a causa?

  • O problema está piorando?

Se a equipe só descobre uma falha quando o cliente telefona, o sistema não está verdadeiramente monitorado.


10. Configurações hardcoded

Hardcoding ocorre quando valores específicos de ambiente são gravados diretamente no código.

Exemplos:

  • endereço de servidor;

  • senha;

  • diretório;

  • fila;

  • porta;

  • nome de banco;

  • limite operacional;

  • e-mail;

  • URL.

Por que isso é ruim?

Porque o código fica preso ao ambiente.

Para mover de desenvolvimento para teste, talvez seja necessário alterar e recompilar.

Para trocar um servidor, nova mudança.

Para ajustar timeout, novo deploy.

Isso aumenta riscos e reduz flexibilidade.

Estratégia correta

Separar:

  • código;

  • configuração;

  • segredo.

Configurações podem ficar em:

  • arquivos externos;

  • variáveis de ambiente;

  • tabelas de parâmetros;

  • sistemas de gestão de configuração;

  • cofres de segredos;

  • propriedades de runtime.

No mundo COBOL e mainframe, essa separação também pode envolver:

  • PARM de JCL;

  • SYSIN;

  • DDs;

  • arquivos de controle;

  • tabelas Db2;

  • variáveis simbólicas;

  • parâmetros de transação.

O mesmo programa pode operar em vários ambientes sem alteração do fonte.

Essa é uma característica valiosa de sistemas bem projetados.


11. Não testar em escala realista

O notebook do desenvolvedor não é a produção.

No ambiente local:

  • há poucos dados;

  • apenas um usuário;

  • quase nenhuma concorrência;

  • rede rápida;

  • banco vazio;

  • recursos disponíveis.

Em produção:

  • milhares de usuários;

  • milhões de registros;

  • chamadas simultâneas;

  • períodos de pico;

  • integrações lentas;

  • falhas intermitentes.

Um sistema pode funcionar perfeitamente no teste funcional e colapsar sob carga.

Tipos de teste

Teste de carga

Verifica o comportamento sob volume esperado.

Teste de estresse

Aumenta a carga até localizar o limite.

Teste de pico

Simula aumento repentino de uso.

Teste de longa duração

Avalia vazamentos de memória, degradação e acúmulo de recursos.

Teste de concorrência

Identifica condições de corrida, locks e conflitos.

Teste de recuperação

Confirma se o sistema volta corretamente após falha.

Chaos Engineering

Introduz falhas controladas para verificar a resiliência.

Por exemplo:

  • derrubar uma instância;

  • atrasar uma chamada;

  • bloquear uma dependência;

  • simular perda de rede;

  • encher uma fila.

No mainframe, também é essencial testar:

  • grandes massas;

  • duração da janela batch;

  • contenção Db2;

  • transações CICS;

  • reinício de jobs;

  • checkpoints;

  • indisponibilidade de datasets;

  • falha de comunicação MQ.

Produção não deveria ser o primeiro teste de escala.

Quando isso acontece, o cliente se torna parte involuntária da equipe de QA.


12. O erro invisível: monitorar tecnologia, mas ignorar o negócio

Muitas equipes monitoram CPU, memória e disco.

Mas não sabem responder:

  • Quantos pagamentos foram processados?

  • Quantas vendas foram perdidas?

  • Quantos clientes abandonaram a operação?

  • Quantas transações falharam por regra de negócio?

  • Qual valor financeiro ficou represado?

O sistema pode estar tecnicamente saudável e ainda assim falhar na missão.

Imagine que todos os servidores estejam verdes no painel, mas uma regra errada esteja rejeitando metade dos pedidos.

A infraestrutura diz:

“Tudo normal.”

O negócio diz:

“Estamos perdendo dinheiro.”

Por isso, métricas técnicas e de negócio precisam caminhar juntas.

A ponte da Enterprise não monitora apenas o motor de dobra.

Ela também monitora destino, tripulação, missão e ameaças.


13. O custo também faz parte da arquitetura

Uma arquitetura pode funcionar e ainda assim ser inviável financeiramente.

Recursos ociosos, bancos superdimensionados, tráfego excessivo, logs sem retenção controlada e componentes desnecessários aumentam despesas.

Na nuvem, cada decisão pode gerar custo recorrente:

  • processamento;

  • armazenamento;

  • transferência;

  • chamadas;

  • serviços gerenciados;

  • licenciamento.

No mainframe, também existem questões de:

  • consumo de CPU;

  • MSU;

  • janelas;

  • classes de serviço;

  • licenças;

  • capacidade;

  • uso de processadores especializados.

Um bom arquiteto não pensa apenas:

“Funciona?”

Ele também pergunta:

“É sustentável?”

A melhor solução equilibra:

  • desempenho;

  • confiabilidade;

  • segurança;

  • simplicidade;

  • custo.


14. Um roteiro prático para projetar melhor

Aqui está um pequeno plano de missão para o Programador COBOL Padawan.

Etapa 1 — Compreenda o problema

Converse com usuários e responsáveis pelo negócio.

Evite começar pela tecnologia.

Etapa 2 — Levante requisitos funcionais

Liste as operações que o sistema deverá executar.

Etapa 3 — Levante requisitos não funcionais

Defina:

  • desempenho;

  • volume;

  • disponibilidade;

  • segurança;

  • recuperação;

  • auditoria.

Etapa 4 — Identifique dados e integrações

Pergunte:

  • De onde os dados vêm?

  • Onde serão armazenados?

  • Quem poderá acessá-los?

  • Quais sistemas dependem deles?

Etapa 5 — Desenhe uma solução simples

Comece com a menor arquitetura capaz de atender aos requisitos.

Etapa 6 — Mapeie pontos de falha

Para cada componente, pergunte:

“O que acontece se ele parar?”

Etapa 7 — Planeje observabilidade

Defina logs, métricas, alertas e painéis antes da produção.

Etapa 8 — Separe configuração do código

Prepare a solução para múltiplos ambientes.

Etapa 9 — Teste com volume realista

Não teste apenas o caminho feliz.

Etapa 10 — Revise segurança

Aplique menor privilégio, criptografia e auditoria.

Etapa 11 — Documente decisões

Registre por que determinada alternativa foi escolhida.

Isso evita que, anos depois, alguém veja uma solução estranha e a substitua sem compreender o contexto.

Etapa 12 — Evolua gradualmente

Arquitetura não é um monumento congelado.

Ela deve ser revisada conforme o negócio e a tecnologia evoluem.


15. Curiosidades da sala de máquinas

Curiosidade 1 — Mainframes já faziam “cloud” antes do nome existir

Compartilhamento de recursos, virtualização, isolamento e gerenciamento centralizado são práticas antigas no mainframe.

O termo mudou.

Muitos princípios permaneceram.

Curiosidade 2 — Filas não são novidade

Mensageria assíncrona parece moderna, mas sistemas corporativos utilizam filas e processamento desacoplado há décadas.

IBM MQ é um exemplo clássico dessa filosofia.

Curiosidade 3 — O batch continua vivo

Mesmo com APIs e eventos, processamento batch continua essencial para:

  • fechamento financeiro;

  • faturamento;

  • conciliação;

  • geração de relatórios;

  • tratamento de grandes volumes.

A diferença é que batch moderno pode ser integrado a pipelines, APIs e eventos.

Curiosidade 4 — Simplicidade exige experiência

Criar algo complicado é relativamente fácil.

Criar uma solução simples que atenda aos requisitos exige entendimento profundo.

É como a ponte da Enterprise: o painel parece organizado porque uma enorme complexidade foi cuidadosamente controlada abaixo do convés.


16. Easter egg da Frota Estelar

Em muitos episódios de Star Trek, a Enterprise encontra tecnologias extremamente poderosas construídas por civilizações avançadas.

Entretanto, o perigo raramente está apenas na tecnologia.

O problema aparece quando:

  • ninguém compreende os limites;

  • não existem controles;

  • a tripulação ignora sinais;

  • alguém tenta obter poder rapidamente;

  • uma falha pequena se propaga.

Isso é System Design.

Uma arquitetura sofisticada sem compreensão pode ser mais perigosa que uma solução simples.

O melhor oficial de engenharia não é aquele que instala mais componentes.

É aquele que mantém a nave funcionando, conhece seus limites e sabe exatamente o que fazer quando uma luz vermelha aparece no painel.

Como diria Montgomery Scott em espírito:

Você não pode mudar as leis da física, capitão.

Na engenharia de software, também não podemos ignorar:

  • latência;

  • concorrência;

  • falhas;

  • volume;

  • capacidade;

  • custo.

Podemos administrá-los.

Nunca eliminá-los por decreto.


Conclusão — O sistema não quebra de repente

Os grandes problemas arquiteturais raramente chegam anunciados.

Eles crescem silenciosamente.

Uma consulta sem índice parece inofensiva enquanto a tabela é pequena.

Uma configuração hardcoded parece conveniente enquanto existe apenas um ambiente.

A ausência de cache não incomoda enquanto há poucos usuários.

A falta de logs passa despercebida enquanto nada falha.

A inexistência de failover parece aceitável enquanto o servidor está funcionando.

Depois, um dia, tudo converge.

O tráfego aumenta.

O banco fica lento.

A aplicação gera timeout.

Os retries sobrecarregam ainda mais o sistema.

A fila cresce.

Os logs são insuficientes.

A equipe não consegue identificar a causa.

A direção pede uma previsão.

O cliente reclama.

E alguém diz:

“Precisamos reescrever tudo.”

Na realidade, o desastre começou meses ou anos antes, em pequenas decisões que pareciam não ter importância.

O verdadeiro objetivo de System Design não é criar diagramas bonitos nem utilizar todas as tecnologias da moda.

É construir sistemas capazes de:

  • cumprir sua missão;

  • resistir a falhas;

  • crescer com controle;

  • proteger dados;

  • ser observados;

  • ser mantidos;

  • evoluir sem caos.

Para o Programador COBOL Padawan, compreender arquitetura é o passo que transforma alguém que apenas escreve programas em um profissional que entende sistemas.

O COBOL pode processar a regra.

O JCL pode executar o job.

O Db2 pode armazenar os dados.

O CICS pode receber a transação.

O MQ pode transportar a mensagem.

Mas é o projeto de sistemas que faz todas essas partes trabalharem juntas.

Na Frota Estelar, uma nave não é apenas o motor de dobra.

É a combinação de propulsão, sensores, escudos, comunicação, suporte à vida, segurança, comando e uma tripulação treinada.

No mundo corporativo, a arquitetura também depende de integração, observabilidade, resiliência, dados, processos e pessoas.

Antes de liberar a próxima versão, pare diante do painel e faça a pergunta mais importante:

“Estamos construindo apenas algo que funciona hoje, ou um sistema capaz de sobreviver à missão de amanhã?”

Porque o melhor sistema não é aquele que nunca falha.

É aquele que foi projetado para continuar sua jornada quando o inesperado inevitavelmente aparecer no horizonte.

Vida longa e próspera aos seus programas, aos seus jobs e às suas arquiteturas.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

⏳ A Filosofia do Desejo em Anime — Parte 6: O Amor e o Fetiche da Eternidade

 


A Filosofia do Desejo em Anime — Parte 6: O Amor e o Fetiche da Eternidade

Amar é um gesto contra o tempo.
É desafiar o esquecimento, gritar no vazio do relógio:

“Eu ainda me lembro.”

O fetiche final não é o toque, o poder, o caos ou o ideal.
É a memória.
O amor que sobrevive à ausência, o eco que insiste mesmo depois do silêncio.
Os japoneses chamam isso de natsukashii
uma nostalgia doce, dolorida e irresistível.


🌌 1. Your Name (君の名は。)

Ano: 2016 | Direção: Makoto Shinkai

Dois jovens trocam de corpo, de vida e de destino.
Separados por tempo e tragédia, buscam reencontrar-se sem lembrar exatamente o porquê.
O fetiche aqui é a conexão impossível — amar alguém que já se foi, mas ainda está.

🔎 Curiosidade Bellacosa: Shinkai declarou que queria fazer “um filme sobre o destino como código genético do amor”.
A trilha do RADWIMPS é quase uma oração moderna.


🌸 2. 5 Centimeters per Second (秒速5センチメートル)

Ano: 2007 | Direção: Makoto Shinkai

Cada episódio é uma estação da vida — e um adeus.
Takaki e Akari se amam, mas a vida os separa, como neve que cai devagar demais.
O fetiche aqui é a saudade, o prazer doloroso de lembrar.

🔎 Curiosidade Bellacosa: O título se refere à velocidade de queda das pétalas de cerejeira —
um símbolo do quanto o amor pode ser lento e rápido ao mesmo tempo.


🎶 3. Vivy: Fluorite Eye’s Song (ヴィヴィ)

Ano: 2021 | Estúdio: Wit Studio

Uma androide cantora atravessa cem anos tentando impedir a guerra entre humanos e máquinas.
Mas o que ela descobre é mais humano que qualquer algoritmo:
amar é aprender a falhar.

O fetiche da eternidade aqui é o ciclo, o desejo de corrigir, salvar, e cantar para alguém que já não existe.

🔎 Curiosidade Bellacosa: A música “Sing My Pleasure” virou um hino digital — mistura de IA e emoção em pura harmonia.


🌧 4. The Garden of Words (言の葉の庭)

Ano: 2013 | Direção: Makoto Shinkai

Um jovem e uma mulher se encontram nos dias de chuva, em um jardim silencioso.
Nada acontece — e é isso que acontece.
O fetiche é a suspensão do tempo, o instante que se recusa a passar.

🔎 Curiosidade Bellacosa: O som da chuva foi tratado como instrumento musical.
Shinkai disse: “a água é o toque dos que não se tocam”.


Epílogo de Balcão: A Eternidade como Fetiche

No fim de tudo, o amor talvez não queira durar —
quer apenas ser lembrado.
Os animes de Shinkai e seus herdeiros nos ensinam que o desejo não é sobre possuir,
mas sobre preservar o instante antes que ele se desfaça.

O verdadeiro fetiche da eternidade é este:
guardar o cheiro de um beijo que o tempo já levou.
Rever um rosto que talvez nunca tenha existido.
Sorrir por dentro e pensar:

“Se eu a encontrasse hoje... ainda reconheceria seu olhar.”

E então, o ciclo se fecha.
Do corpo ao espírito, do toque ao eco, do agora ao sempre —
o amor continua sendo a mais humana das ficções,
e o mais belo dos bugs da alma.



Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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