
Bellacosa Mainframe e o frango grelhado no carvão
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🔥 O Frango que Atravessei o Atlântico — Carvão, Portugal e uma Receita que Trouxe na Bagagem
Há coisas que um viajante traz na mala. Outras voltam escondidas na memória — e reaparecem anos depois quando o carvão começa a ficar vermelho.
Uma churrasqueira acesa na madrugada, uma lembrança trazida de Portugal e o verdadeiro easter egg escondido no nome deste blog.
Há easter eggs que colocamos deliberadamente dentro de uma história.
E existem aqueles que ficam escondidos durante tantos anos que, em determinado momento, percebemos que praticamente ninguém mais sabe que eles estão ali.
Este é um deles.
Talvez o maior easter egg do El Jefe Midnight Lunch esteja justamente no nome:
Midnight Lunch.
Almoço da meia-noite.
O nome sempre foi uma referência bem-humorada a um hábito que me acompanha há muito tempo: eu funciono melhor à noite.
Não sei explicar exatamente o motivo.
Talvez algum especialista em sono consiga encontrar uma explicação científica para meu biorritmo. Eu só consigo descrever o comportamento do sistema.
De manhã?
Digamos que o Vagner esteja operando em modo degradado.
CPU limitada.
Poucos initiators disponíveis.
WLM olhando para mim e dizendo:
— Deixa esse sujeito quieto porque hoje o workload ainda não subiu.
😂
Eu acordo, faço minhas coisas, acompanho o relógio e existo civilizadamente entre os demais seres humanos.
Mas produtividade?
Calma.
Depois vem o almoço.
E, logo após ele, aquela tradicional nhaca pós-refeição, quando o organismo aparentemente resolve executar um enorme batch interno e requisita praticamente todos os recursos disponíveis.
Só que então alguma coisa começa a acontecer.
A tarde avança.
O sistema aquece.
As ideias aparecem.
A curiosidade aumenta.
A vontade de pesquisar alguma coisa surge.
Uma coisa puxa outra.
Quando o Sol finalmente desaparece no horizonte...
IPL COMPLETO.
Este que vos escreve começa a funcionar a 100 km/h.
🌙 O turno da noite começa
É justamente durante a noite que muitas das histórias deste blog nasceram.
Uma pesquisa leva a outra.
Um artigo leva a um livro.
Uma fotografia antiga abre uma memória.
Uma memória lembra uma cidade.
A cidade lembra uma pessoa.
A pessoa lembra uma comida.
Quando percebo, são duas da manhã e estou pesquisando a origem de alguma coisa que provavelmente começou com uma pergunta completamente diferente quatro horas antes.
Quem acompanha o Bellacosa Mainframe talvez reconheça o padrão.
O problema é que existe uma consequência biológica dessa produtividade noturna.
Dá fome.
Não aquela fome comportada das refeições convencionais.
É o famoso:
larico da madrugada.
E comigo existe outro agravante.
Nem sempre quero simplesmente abrir a geladeira, pegar alguma coisa e comer.
Às vezes decido cozinhar.
E não necessariamente alguma coisa simples.
Se o cérebro decidiu que duas horas da manhã é um excelente horário para pesquisar computadores construídos em 1964, aparentemente também considera perfeitamente razoável preparar uma refeição mais elaborada.
Daí nasceu a brincadeira:
El Jefe Midnight Lunch.
E esta velha postagem sobre um aparentemente inocente frango grelhado no carvão guarda uma das melhores pistas dessa história.
🇵🇹 O frango que encontrei em Portugal
Durante os anos em que vivi em Portugal conheci muitos sabores.
Alguns sofisticados.
Outros tradicionais.
Outros curiosos.
Mas existe uma comida extremamente simples que ficou gravada na memória.
Frango no carvão.
Quem olha rapidamente talvez pense:
— Vagner, pelo amor de Deus. É frango assado.
Não.
😂
Brasileiro conhece frango assado.
Temos o glorioso frango girando naquela máquina que carinhosamente apelidamos de:
televisão de cachorro.
Temos espetinho de frango.
Frango em pedaços na churrasqueira.
Sobrecoxa.
Coxinha da asa.
Frango desossado.
Frango com cerveja.
Frango assado no forno.
Somos perfeitamente capazes de colocar praticamente qualquer parte de uma galinha sobre uma churrasqueira.
Mas aquele frango português tinha personalidade própria.
✂️ Primeiro vinha a transformação
Uma das coisas que me chamava atenção era a preparação.
O frango inteiro era aberto ao meio, normalmente pelas costas, utilizando uma tesoura de cozinha apropriada.
Nada de ficar bonitinho como o frango inteiro que conhecemos das assadeiras brasileiras.
Ele era aberto.
Espalmado.
Esticado.
Aquela ave passava por uma espécie de processo de engenharia mecânica culinária.
😂
Depois era presa entre duas grelhas.
Isso fazia enorme diferença.
A grelha mantinha o frango aberto e permitia virá-lo inteiro durante o preparo.
De um lado.
Do outro.
De volta.
Calor.
Tempero.
Mais calor.
Até que pele, gordura, carne, fumaça e molho começassem a trabalhar juntos.
🔥 Carvão, fogo e paciência
E então entrava o carvão.
Aqui aparece outra diferença importante.
Não era simplesmente jogar o frango sobre labaredas e esperar acontecer alguma coisa.
O carvão precisava produzir calor.
A brasa precisava trabalhar.
Existe uma enorme diferença entre cozinhar utilizando fogo direto e cozinhar aproveitando a energia irradiada por uma boa cama de brasas.
A gordura começa a escorrer.
Algumas gotas encontram o carvão.
Pequenas labaredas aparecem.
Surge fumaça.
E parte daquela fumaça retorna para a carne.
Nesse momento começa uma química maravilhosa que nossos ancestrais descobriram milhares de anos antes de alguém inventar a palavra gastronomia.
É cheiro.
É calor.
É gordura.
É proteína.
É carvão.
É tempo.
E é impossível transmitir completamente isso através de uma fotografia.
🧂 O tempero que fazia a diferença
Havia ainda o tempero.
E aqui entramos em território perigoso.
Porque cada lugar possuía sua própria maneira de preparar.
Alho.
Sal.
Ervas.
Pimenta.
Óleo ou azeite.
Vinagre.
Molhos preparados pela própria casa.
Algumas versões mais picantes.
Outras mais suaves.
O tempero penetrava na carne e continuava participando do processo enquanto o frango assava.
Não era apenas aquilo que colocávamos antes.
Era parte do próprio ritual.
E então vinha o resultado.
A pele ligeiramente tostada.
As extremidades mais queimadinhas.
A carne úmida por dentro.
O aroma de carvão.
O tempero.
A gordura.
Tudo trabalhando simultaneamente.
Simples.
Ridiculamente simples.
E maravilhoso.
🍗 A simplicidade que engana
Essa talvez seja uma das grandes lições que trouxe das minhas viagens:
complexidade não é requisito para excelência.
Às vezes passamos anos procurando pratos sofisticados, ingredientes exóticos e técnicas complicadas quando algumas das melhores coisas que experimentamos possuem meia dúzia de componentes.
O segredo está no processo.
Quem trabalha com mainframe deveria reconhecer imediatamente esse conceito.
COBOL também parece simples.
MOVE.
ADD.
PERFORM.
READ.
WRITE.
Até você descobrir que existem sistemas escritos com essas aparentemente simples instruções processando operações críticas há décadas.
O frango português funcionava da mesma maneira.
Frango.
Tempero.
Carvão.
Grelha.
Tempo.
Cinco componentes.
E um resultado completamente diferente dependendo de quem operava o sistema.
🍟 E então chegavam os acompanhamentos
Normalmente aquilo não vinha sozinho.
Havia arroz.
Batatas fritas.
Às vezes salada.
E aquele molho especial que transformava uma refeição aparentemente banal em algo capaz de permanecer décadas dentro da memória.
Um pedaço do frango.
Um pouco de arroz.
Algumas batatas.
Molho.
Pronto.
Não precisava estrela Michelin.
Não precisava prato de porcelana com uma ervilha posicionada geometricamente no centro.
Precisava apenas estar gostoso.
E estava.
Muito.
✈️ O problema de voltar para o Brasil
Quando retornamos de uma longa temporada no exterior trazemos coisas estranhas conosco.
Não estou falando das malas.
Trazemos hábitos.
Expressões.
Comparações.
Cheiros.
Referências.
Saudades.
E sabores.
O problema é que sabores são particularmente cruéis.
Porque você lembra perfeitamente que alguma coisa era maravilhosa...
mas não consegue colocar a memória dentro de uma panela.
Foi assim que aquele frango português atravessou o Atlântico comigo.
Não trouxe a churrasqueira.
Não trouxe o restaurante.
Não trouxe o cozinheiro.
Não trouxe exatamente o molho.
Trouxe a lembrança.
E memória culinária é uma espécie de código-fonte sem documentação.
Você sabe qual deveria ser o resultado.
Só não possui mais o fonte original.
🏡 A churrasqueira do quintal virou laboratório
Já no Brasil, olhando para a churrasqueira de casa, resolvi fazer aquilo que qualquer sujeito curioso faria:
tentar reproduzir.
Nascia então o:
Frango Lusitano — Bellacosa Fork.
😂
Ou talvez:
FRANGO-PT-BR Release 1.0.
A ideia fundamental permanecia.
Abrir o frango.
Temperar.
Colocar sobre a grelha.
Usar carvão.
Assar lentamente.
Virar.
Regar.
Experimentar.
Só que cada execução permitia mudar alguma coisa.
Mais alho.
Menos vinagre.
Mais ervas.
Outro tempo de marinada.
Brasa mais forte.
Brasa mais fraca.
Mais molho.
Menos molho.
Orégano.
Salsa.
Cebolinha.
Pimenta.
Cebola.
E assim aquela lembrança portuguesa começou lentamente a ganhar sotaque brasileiro.
🧪 Cozinhar também é experimentar
Talvez seja por isso que gosto tanto de cozinhar.
Não sigo necessariamente a lógica:
“Esta é a receita e ela deve ser reproduzida exatamente desta maneira.”
Prefiro pensar:
“Esta é a versão atual. Vamos ver o que acontece se alterarmos alguma coisa.”
Naturalmente, isso também produz falhas.
Algumas versões ficam melhores.
Outras...
digamos que são imediatamente descontinuadas e nenhuma documentação é preservada para proteger os responsáveis.
😂
Mas existe prazer nesse processo.
Você prova.
Compara.
Lembra.
Modifica.
E tenta novamente.
É praticamente desenvolvimento iterativo utilizando alho.
🎥 E existe uma prova arqueológica
É justamente aí que aquela antiga postagem deste blog se torna especial.
O pequeno vídeo publicado junto com ela não é apenas uma demonstração culinária.
Hoje percebo que ele é uma prova arqueológica.
Um registro de uma das inúmeras vezes em que reproduzi aquele prato em casa.
Na época provavelmente parecia simplesmente:
“Olha aí o Vagner fazendo frango.”
Mais de dez anos depois, porém, o vídeo ganhou outra dimensão.
Ele registra uma memória portuguesa sendo reconstruída numa churrasqueira brasileira.
Registra um hábito.
Registra uma época.
E, sem que eu percebesse, registra também parte da explicação do nome deste próprio blog.
🕛 Midnight Lunch
Agora talvez tudo faça um pouco mais de sentido.
O sujeito escreve durante a madrugada.
Pesquisa durante a madrugada.
Fica curioso durante a madrugada.
E inevitavelmente...
fica com fome durante a madrugada.
Então vai para a cozinha.
Às vezes prepara alguma coisa simples.
Em outras resolve produzir algo mais sofisticado.
Talvez uma receita aprendida no Brasil.
Talvez uma experiência.
Talvez alguma memória gastronômica encontrada milhares de quilômetros daqui.
Talvez...
um frango português aberto ao meio, preso entre grelhas e assado lentamente sobre carvão.
Enquanto boa parte das pessoas normais está dormindo.
🥚 E finalmente o easter egg
Portanto, se algum arqueólogo digital chegar a este blog daqui a muitos anos e perguntar:
“Por que diabos este negócio se chama El Jefe Midnight Lunch?”
Aqui está uma das respostas.
Porque havia — e ainda há — um sujeito cujo relógio interno aparentemente foi configurado no fuso horário errado.
De manhã roda a meia carga.
Depois do almoço começa lentamente a aumentar o throughput.
Quando o Sol desaparece, os initiators sobem.
As filas diminuem.
A CPU acorda.
E o operador resolve escrever.
Pesquisar.
Criar.
Contar histórias.
E eventualmente...
cozinhar.
O Midnight Lunch nunca foi somente um nome engraçado.
Era uma pequena descrição do operador.
☕ O sabor também é uma máquina do tempo
Hoje vejo aquele vídeo com outros olhos.
O frango continua sendo frango.
O carvão continua sendo carvão.
A churrasqueira continua sendo churrasqueira.
Mas aquilo que realmente está assando ali é uma lembrança.
Portugal está naquela grelha.
Os anos em que vivi do outro lado do Atlântico estão naquele tempero.
O Brasil está nas adaptações.
Minha curiosidade está nas experiências.
E este blog está no registro.
Talvez seja justamente para isso que mantemos blogs durante tantos anos.
Não apenas para contar aos outros aquilo que fizemos.
Mas para permitir que nós mesmos possamos reencontrar aquilo que fomos.
Uma postagem minúscula.
Um vídeo antigo.
Um frango sobre carvão.
E, escondida no meio de tudo isso, uma pequena pista explicando o nome de um universo inteiro de histórias.
El Jefe Midnight Lunch.
Agora vocês sabem.
Mas não contem para ninguém.
É um easter egg.
😉
☕ P.S. — O batch das 03h17
Se algum dia você encontrar uma postagem enorme publicada num horário em que pessoas sensatas deveriam estar dormindo, não estranhe.
Provavelmente o sistema estava com todos os recursos disponíveis.
E se, no meio do texto, houver uma pausa inexplicável...
também não se preocupe.
Pode ter sido apenas uma intervenção operacional crítica.
JOB MIDNIGHTLUNCH
STEP01 — ESCREVER
STEP02 — PESQUISAR
STEP03 — ABRIR GELADEIRA
STEP04 — COZINHAR
STEP05 — COMER
STEP06 — VOLTAR AO TEXTO
COND CODE 0000
Às 03h17, naturalmente.
Porque todo bom mainframe — e aparentemente todo Bellacosa — precisa de sua janela batch.
Frango assado como churrasco
Outra especialidade portuguesa que trouxe comigo. O frango no carvão.
Um frango bem temperadinho com alho, cebola, salsa, cebolinha, oregano, pimenta, vinagre e sal.
Carvão em brasa bem quente.
Colocamos o frango na brasa e deixamos assar sem muito enrolação, molhando de tempos em tempos o frango com o caldo em que ele ficou de molho.
Acompanha bem com batatas fritas e arroz, batatas cozidas no próprio caldo do frango e salada
Bom apetite
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