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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O Crachá que Eu Nunca Tive Em 1990 eu sonhava trabalhar na Xerox.

 
Bellacosa Mainframe e o dia que sonhei trabalhar na Xerox do Brasil

Um Café no Bellacosa Mainframe

O Crachá que Eu Nunca Tive

Em 1990 eu sonhava trabalhar na Xerox. Trinta e seis anos depois descobri que não queria realmente a Xerox — queria descobrir o mundo que existia depois daquela porta.

O professor barbudo acendeu o cachimbo.

Não porque precisasse dele.

Algumas lembranças simplesmente exigem cenário.

A fumaça subiu devagar pelo escritório enquanto eu olhava para uma tela onde conviviam COBOL, APIs, inteligência artificial e documentos que provavelmente jamais conheceriam uma folha de papel.

Curioso.

Passei boa parte da vida trabalhando com sistemas que processam milhões de informações e, naquela manhã, aquilo que voltou à memória não foi um programa, um banco de dados ou um mainframe.

Foi um cheiro.

Um cheiro químico.

Forte.

Desagradável.

Algo que minha memória insiste em comparar com amoníaco.

E imediatamente voltei para uma época em que copiar uma folha de papel era tecnologia.

Voltei para 1990.

Ou talvez um pouco antes.

Voltei para o garoto que eu era.

E, principalmente, para o crachá que eu nunca tive.



1. Quando o futuro tinha cheiro

Quem nasceu na era do smartphone talvez tenha dificuldade para compreender isso.

Houve uma época em que fazer uma cópia de um documento não significava apontar a câmera do telefone e tocar na tela.

Também não significava colocar uma folha num multifuncional doméstico de alguns quilos.

Copiar documentos podia envolver máquinas grandes, caras, mecânicas, eletrostáticas e, dependendo da tecnologia e da época, processos químicos.

Eu comecei a trabalhar quando ainda era possível encontrar equipamentos de reprodução que não pertenciam completamente ao universo do toner seco que depois se tornaria tão familiar.

Alguns processos de reprodução utilizavam reveladores líquidos; outros, como determinados sistemas diazo usados especialmente para plantas e desenhos técnicos, ficaram famosos pelo cheiro forte associado à amônia.

Talvez os detalhes químicos tenham se perdido em mais de três décadas.

O cheiro, não.

Memória é um banco de dados muito estranho.

Você pode esquecer um nome, uma data e até o modelo exato de uma máquina.

Mas alguém abre uma garrafa, passa um produto de limpeza ou aquece alguma coisa e, de repente:

SELECT *
  FROM MEMORIA
 WHERE CHEIRO = '1990';

SQLCODE = 0.

Registro encontrado.

O professor barbudo dá uma tragada no cachimbo.

E o garoto aparece novamente.



2. Xerox não era uma copiadora

Hoje olhamos para Xerox e imediatamente pensamos:

— Fotocópia.

Para mim, naquela época, significava muito mais.

Xerox era tecnologia.

Era multinacional.

Era treinamento.

Era uma empresa que parecia estar na fronteira entre aquilo que o mundo era e aquilo que o mundo seria.

E havia algo ainda mais importante para um garoto que não vinha daquele universo:

era uma boa empresa para trabalhar.

Eu ouvia falar dos benefícios.

Do salário.

De treinamento.

De possibilidades profissionais.

Até carro da empresa fazia parte daquele imaginário.

O salário podia chegar a várias vezes aquilo que eu recebia.

Cinco vezes mais parecia fortuna.

Mas dinheiro era apenas uma parte.

Eu queria pertencer àquele ambiente.

Em determinada ocasião fui fazer treinamento de operação de copiadoras Xerox — máquinas como as 1035, 1045 e 1060 fazem parte das minhas lembranças daquela época.

Eu não devia ter muito mais que 16 anos.

E fiquei maravilhado.

Não apenas pelas máquinas.

Pelo lugar.

Pelo ambiente.

Pelo treinamento.

Pelo refeitório.

Pelas pessoas.

Pela organização.

Pela sensação de que existia ali uma espécie de civilização profissional diferente daquela que eu conhecia.

Hoje isso pode parecer banal.

Não era.



3. O refeitório era parte do sonho

Esta talvez seja uma das coisas que somente alguém que começou a trabalhar muito cedo consegue compreender completamente.

Quando você cresce cercado por determinadas condições, certos benefícios empresariais parecem normais.

Refeitório.

Treinamento.

Plano de carreira.

Benefícios.

Instalações agradáveis.

Equipamentos modernos.

Para quem está olhando aquilo de fora, porém, a mensagem é completamente diferente:

Então é possível trabalhar assim?

O refeitório não era apenas um lugar para comer.

Era uma evidência.

Aquele prédio inteiro dizia silenciosamente para mim:

existe outro mundo profissional.

E eu queria entrar nele.

Não havia terminado sequer o colegial.

Morava no subúrbio.

Ir e voltar para casa fazia parte da batalha cotidiana.

Trabalhar e estudar ao mesmo tempo não era frase bonita para colocar no LinkedIn.

Era terça-feira.

Era quarta-feira.

Era quinta-feira.

E os boletos não eram uma metáfora sobre responsabilidade.

Eram dolorosamente reais.

Mesmo assim, eu sonhava.


4. Eu queria aquele crachá

Às vezes me imaginava trabalhando na Xerox.

É engraçado admitir isso depois de tantos anos.

Eu conseguia praticamente enxergar o crachá no peito.

VAGNER.

Funcionário da Xerox do Brasil.

Pronto.

Eu tinha vencido.

Era mais ou menos esse o tamanho do horizonte que eu conseguia enxergar.

E existe uma lição importante aqui para quem está começando uma carreira.

Não despreze sonhos pequenos vistos do futuro.

Eles podem ter sido gigantes quando foram sonhados.

O jovem de 1990 não possuía todas as informações que o homem de 2026 possui.

Ele não poderia planejar aquilo que sequer sabia que existia.

Eu não imaginava o que aconteceria depois.

Não imaginava trabalhar com mainframes.

Não imaginava passar por instalações da IBM na região de Milão.

Não imaginava trabalhar em aeroportos.

Não imaginava mergulhar no sistema financeiro brasileiro.

Não imaginava morar na Europa.

Não imaginava voltar ao Brasil carregando experiências de mundos completamente diferentes.

Muito menos imaginava que, décadas depois, estaria ensinando tecnologia.

Se alguém tivesse contado tudo isso para aquele garoto, talvez ele respondesse:

— Legal. Agora preciso ir embora porque amanhã acordo cedo.

A sobrevivência vinha antes da autobiografia.


5. Enquanto isso, havia um velho chamado COBOL

Aqui nossa história começa a ficar especialmente divertida.

Porque, enquanto eu olhava para aquelas máquinas modernas e imaginava o futuro, havia uma tecnologia que já era considerada velha.

COBOL.

O COBOL surgiu em 1959.

Quando chegamos a 1990, portanto, ele já carregava aproximadamente três décadas de história.

Trinta anos!

Para um adolescente, trinta anos é praticamente arqueologia.

A Xerox parecia moderna.

As copiadoras pareciam modernas.

Os computadores pessoais pareciam o futuro.

COBOL?

O velho já estava lá.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. VELHO-SENHOR.

       PROCEDURE DIVISION.
           DISPLAY 'AINDA NAO TERMINEI'.
           STOP RUN.

O professor barbudo ri.

Porque sabe o final dessa história.

O garoto não sabia.


6. A civilização da fotocópia

Para entender a transformação tecnológica que viria depois, precisamos lembrar que fotocópias não eram simplesmente conveniência.

Elas faziam parte da infraestrutura social.

Havia lojas especializadas em cópias.

Algumas enormes.

Conheci várias.

Algumas possuíam uma quantidade impressionante de máquinas.

Dez.

Quinze.

Vinte copiadoras.

E havia fila.

Fila de gente querendo transformar papel em mais papel.

Hoje isso parece quase absurdo.

Na época era perfeitamente racional.

Universidades precisavam de cópias.

Escritórios precisavam de cópias.

Empresas precisavam de cópias.

Advogados precisavam de cópias.

Estudantes precisavam de cópias.

Órgãos públicos precisavam de cópias.

Bancos precisavam de cópias.

E a burocracia brasileira possuía uma fome particularmente insaciável por papel.


7. ORIGINAL + 3 VIAS

Quem viveu aquela época conhece a expressão.

Em três vias.

Uma para você.

Uma para o departamento.

Uma para outro departamento.

E talvez uma quarta porque ninguém sabia exatamente onde as outras três terminariam.

Mas não bastava possuir papel.

Era necessário possuir o artefato mágico:

O protocolo.

Carimbo.

Data.

Rubrica.

Pronto.

Sua folha havia adquirido existência administrativa.

O programador COBOL iniciante pode imaginar algo assim:

       IF DOCUMENTO-ENTREGUE = 'S'
           MOVE FUNCTION CURRENT-DATE
             TO DATA-PROTOCOLO
           MOVE 'CARIMBADO'
             TO STATUS-DOCUMENTO
       ELSE
           MOVE 'VOCE NAO ENTREGOU'
             TO STATUS-DOCUMENTO
       END-IF.

Sem protocolo?

Boa sorte.


8. O checksum humano do cartório

E havia outra instituição maravilhosa:

a cópia autenticada.

Você possuía o documento original.

Fazia uma cópia.

Levava original e cópia ao cartório.

Alguém comparava os dois.

E certificava que aquela reprodução correspondia ao original.

Pensando como programador:

DOCUMENTO ORIGINAL
       |
       V
    FOTOCÓPIA
       |
       V
  CÓPIA GERADA
       |
       V
    CARTÓRIO
       |
       V
COMPARE ORIGINAL WITH COPY
       |
       +---- DIFERENTE ---> REJECT
       |
       +---- IGUAL -------> AUTENTICADA

Era um CHECKSUM humano.

Com carimbo.

E fé pública.

O mundo funcionava assim porque a informação ainda estava profundamente associada ao objeto físico que a carregava.

Isso é fundamental para entender o que aconteceu depois.


9. A primeira grande transformação: o documento separou-se do papel

Durante séculos, informação administrativa e papel praticamente caminharam juntos.

Então o computador começou a romper essa relação.

Primeiro criávamos documentos digitalmente e os imprimíamos.

Depois imprimíamos cada vez menos.

Vieram impressoras matriciais.

Impressoras laser.

Jato de tinta.

Scanners.

E-mail.

PDF.

Internet.

Sistemas de gestão documental.

Certificados digitais.

Assinaturas eletrônicas.

Cloud.

Smartphones.

Finalmente aconteceu algo conceitualmente revolucionário:

A cópia deixou de precisar existir fisicamente.

Em 1990:

INFORMAÇÃO
    |
    V
  PAPEL
    |
    V
COPIADORA
    |
    V
OUTRO PAPEL

Décadas depois:

INFORMAÇÃO
    |
    V
ARQUIVO DIGITAL
    |
    +----> EMAIL
    +----> CLOUD
    +----> APP
    +----> API
    +----> SMARTPHONE

A transformação não matou simplesmente a copiadora.

Ela atacou a razão pela qual precisávamos dela.


10. E então o celular terminou o serviço

Imagine entregar um smartphone moderno para aquele garoto de 1990.

Explique:

— Isto é telefone.

Tudo bem.

— Também é câmera.

Interessante.

— Calculadora.

Legal.

— Agenda.

Ótimo.

— Terminal bancário.

Como?

— Biblioteca.

Como?

— Máquina fotográfica.

Você já falou.

— Filmadora.

Espera.

— Correio.

— Televisão.

— Rádio.

— Mapa.

— GPS.

— Scanner.

E então coloque um documento sobre a mesa.

Aponte o telefone.

Click.

Pronto.

O garoto provavelmente olharia para aquela Xerox enorme e depois para o pequeno retângulo em sua mão.

Algo deu terrivelmente errado com a escala das coisas.


11. As lojas desapareceram

Esse é um dos aspectos mais fascinantes da transformação tecnológica.

Não desaparecem somente máquinas.

Desaparecem ecossistemas.

Em torno das copiadoras existiam:

  • fabricantes;

  • vendedores;

  • técnicos;

  • operadores;

  • fornecedores;

  • lojas;

  • papelarias;

  • toner;

  • peças;

  • cilindros;

  • papel;

  • contratos;

  • treinamento;

  • logística;

  • aluguel de equipamentos.

Quando uma tecnologia é substituída, todos esses elementos precisam se transformar ou desaparecem junto com ela.

As grandes lojas com vinte máquinas e filas de clientes tornaram-se raridades.

Algumas sobreviveram transformadas em gráficas rápidas e centros de serviços.

Outras simplesmente fecharam.

O futuro chegou.

Só não chegou da maneira que imaginávamos.


12. E o COBOL?

Ah.

O velho.

Enquanto isso...

       PROCEDURE DIVISION.

           DISPLAY 'VOCES TERMINARAM?'.

           PERFORM PROCESSA-FOLHA.
           PERFORM CALCULA-JUROS.
           PERFORM ATUALIZA-CONTA.
           PERFORM LIQUIDA-PAGAMENTO.

           DISPLAY 'TENHO BATCH PARA RODAR.'.

           STOP RUN.

Aqui existe uma das grandes lições sobre legado.

Idade não determina obsolescência.

Utilidade determina muito mais.

A copiadora solucionava um problema:

reproduzir fisicamente informação.

Quando a necessidade de reprodução física diminuiu drasticamente, sua importância também diminuiu.

COBOL solucionava outro conjunto de problemas:

processar negócios.

Folha de pagamento continua existindo.

Conta bancária continua existindo.

Seguro continua existindo.

Cobrança continua existindo.

Tributação continua existindo.

Estoque continua existindo.

Liquidação financeira continua existindo.

O formulário mudou.

O negócio permaneceu.


13. O segredo da sobrevivência

Isso também não significa que o COBOL de 2026 seja simplesmente uma peça congelada de 1959.

Esse é outro erro frequente.

Compiladores evoluíram.

Plataformas evoluíram.

Integrações evoluíram.

O COBOL moderno pode participar de arquiteturas envolvendo APIs, JSON, XML, mensageria, bancos relacionais, CICS, IMS, Db2, VSAM e inúmeros componentes contemporâneos.

Imagine:

SMARTPHONE
    |
    V
 INTERNET
    |
    V
   API
    |
    V
z/OS Connect
    |
    V
  CICS
    |
    V
  COBOL
    |
    V
Db2 / VSAM

O usuário toca numa interface criada há seis meses.

Uma API recebe a chamada.

Alguma infraestrutura moderna encaminha a transação.

E lá embaixo pode existir uma regra de negócio cuja genealogia atravessa décadas.

O usuário pensa:

— Que aplicativo moderno!

Lá no porão, o COBOL olha para cima:

— Crianças...


14. Não confunda interface com essência

Esta talvez seja uma das maiores lições que aquela velha copiadora pode ensinar ao programador iniciante.

Tecnologias visíveis parecem dominar nossa percepção.

A copiadora era visível.

Grande.

Barulhenta.

Impressionante.

Um mainframe frequentemente não é percebido pelo consumidor.

Mas aquilo que vemos não é necessariamente aquilo que sustenta o processo.

Uma interface pode mudar dez vezes enquanto determinada regra de negócio permanece.

Imagine um cálculo bancário.

Em determinado momento ele foi solicitado por formulário.

Depois:

TERMINAL

Depois:

ATM

Depois:

HOME BANKING

Depois:

WEB

Depois:

SMARTPHONE

Amanhã talvez:

AGENTE DE IA

Mas a pergunta central continuará:

O CLIENTE TEM SALDO?
QUAL A TAXA?
QUAL O LIMITE?
A TRANSAÇÃO É PERMITIDA?
COMO CONTABILIZAR?

A interface muda.

O negócio permanece.


15. O erro de rir do legado

Programadores iniciantes frequentemente encontram algo antigo e imediatamente perguntam:

— Por que ainda usamos isso?

É uma excelente pergunta.

Mas existe uma pergunta melhor:

Por que isso conseguiu sobreviver até aqui?

Essa mudança de perspectiva é poderosa.

Se determinado programa atravessou 20, 30 ou 40 anos de produção, talvez exista uma razão.

Talvez carregue milhares de regras.

Talvez esteja profundamente integrado.

Talvez possua comportamento conhecido.

Talvez tenha sido corrigido centenas de vezes.

Talvez substituir aquilo custe muito mais que mantê-lo.

Talvez ninguém tenha conseguido demonstrar economicamente que a substituição produziria benefício proporcional ao risco.

Legado não significa automaticamente ruim.

Legado significa:

algo que recebemos de quem veio antes.

Pode ser maravilhoso.

Pode ser horroroso.

Normalmente é um pouco dos dois.


16. Curiosidade — o programa também possui arqueologia

Quando você abre um programa COBOL antigo, procure os comentários.

Talvez encontre:

* 1992 - JOSE - ALTERACAO DE JUROS
* 1997 - MARIA - NOVA REGRA
* 2004 - CARLOS - AJUSTE CONTABIL
* 2011 - ANA - PROJETO XYZ
* 2018 - ROBERTO - ADEQUACAO
* 2026 - VAGNER - API

Isso não é apenas documentação.

É estratigrafia.

Cada alteração representa uma camada histórica.

Como uma cidade construída sobre outra cidade.

Ou como aquela loja que primeiro teve uma copiadora, depois dez, depois vinte, depois scanners e finalmente virou outra coisa.

Programas também carregam fósseis.


17. Dica ao programador COBOL iniciante

Quando receber um programa antigo, não comece alterando.

Primeiro investigue.

Passo 1 — descubra quem chama o programa

Batch?

CICS?

Outro programa?

Scheduler?

API?

Passo 2 — descubra os dados

Ele lê VSAM?

Db2?

Arquivo sequencial?

MQ?

Passo 3 — procure as regras

Não fique olhando apenas IF, MOVE e PERFORM.

Pergunte:

que regra de negócio isso representa?

Passo 4 — procure história

Comentários.

Datas.

Alterações.

Chamadas.

Copybooks.

JCL.

Dependências.

Passo 5 — só então modifique

Porque talvez aquele IF aparentemente idiota exista desde 1994 justamente porque alguma sexta-feira terrível ensinou alguém que ele precisava estar ali.


18. Easter egg — o programador de 1990

Imagine que eu consiga entrar novamente naquele centro de treinamento.

O garoto está diante da Xerox.

Chego perto.

Barbudo.

Mais velho.

Cachimbo na mão.

Ele provavelmente ficaria desconfiado.

— Quem é você?

— Longa história.

— Você trabalha aqui?

Olho para meu peito.

Nenhum crachá da Xerox.

— Não.

Talvez ele fique decepcionado.

Então pergunto:

— Você realmente quer trabalhar aqui?

— Claro!

— Por quê?

Ele começa a falar.

Tecnologia.

Salário.

Benefícios.

Carro.

Treinamento.

Ambiente.

Futuro.

Eu sorrio.

Agora compreendo.

Ele não quer aquela empresa especificamente.

Ele quer atravessar aquela porta.

Então digo:

— Continue andando.

— Vou conseguir trabalhar aqui?

Dou outra tragada no cachimbo.

— Não.

Ele me olha indignado.

— Então por que continuar?

Porque agora eu sei algo que ele não sabe.

— Porque existe muito mais depois dessa porta do que você consegue enxergar daqui.


19. Trinta e seis anos depois

A fumaça desaparece lentamente no escritório.

Volto para 2026.

Na minha frente existe um computador infinitamente mais poderoso do que quase qualquer coisa que aquele garoto poderia imaginar.

Posso conversar com inteligência artificial.

Posso acessar sistemas do outro lado do planeta.

Posso ensinar pessoas sem estar na mesma sala.

Posso escrever uma história e publicá-la para milhares de pessoas sem gráfica, fotolito, papel ou copiadora.

A velha Xerox desapareceu da minha frente.

O crachá nunca chegou.

Curiosamente, isso deixou de importar há muito tempo.

Porque vieram outras portas.

Mainframe.

Aeroporto.

Sistema financeiro.

IBM.

Milão.

Europa.

Tecnologia.

Ensino.

Alunos.

Histórias.

E o COBOL?

Bem...

O COBOL estava aqui antes de boa parte dessa história começar.

E continua aqui.


20. A máquina morreu; o sonho não

Talvez seja esse o verdadeiro significado daquela lembrança.

Quando somos jovens, confundimos frequentemente o símbolo com o objetivo.

Eu achava que queria um crachá.

Queria oportunidade.

Achava que queria Xerox.

Queria tecnologia.

Achava que queria aquele prédio.

Queria descobrir até onde poderia chegar.

Achava que queria cinco vezes meu salário.

Também queria isso.

Não vamos romantizar demais.

Os boletos continuavam chegando.

O professor barbudo sabe perfeitamente disso.

Mas havia algo além.

Aquela empresa me mostrou que existia um mundo maior.

E isso foi suficiente.


Epílogo — IDENTIFICATION DIVISION

O cachimbo está quase apagado.

Antes de levantar, olho novamente para a tela.

Talvez toda carreira possua sua própria IDENTIFICATION DIVISION.

       IDENTIFICATION DIVISION.

       PROGRAM-ID. CRACHA-QUE-EU-NUNCA-TIVE.

       AUTHOR. VAGNER-BELLACOSA.

       DATE-WRITTEN. 1990.

      *------------------------------------------------*
      * NA VERDADE O PROGRAMA AINDA ESTAVA SENDO      *
      * ESCRITO. O PROGRAMADOR APENAS NAO SABIA.      *
      *------------------------------------------------*

       PROCEDURE DIVISION.

           PERFORM TRABALHAR.
           PERFORM ESTUDAR.
           PERFORM ERRAR.
           PERFORM APRENDER.
           PERFORM VIAJAR.
           PERFORM ENSINAR.
           PERFORM CONTAR-HISTORIAS.

           DISPLAY
             'O CRACHA NUNCA CHEGOU.'.

           DISPLAY
             'MAS EU ATRAVESSEI A PORTA.'.

           STOP RUN.

Talvez o detalhe mais bonito seja justamente este:

em 1990 eu olhava para a Xerox e acreditava estar olhando para o futuro.

Eu estava.

Só havia cometido um pequeno erro de interpretação.

O futuro não era a copiadora.

Não era o toner.

Não era o prédio.

Nem sequer era o crachá.

O futuro era o garoto olhando para tudo aquilo e descobrindo que queria ir mais longe.

A Xerox que ele admirava mudou.

As copiadoras gigantes envelheceram.

As lojas cheias de máquinas desapareceram.

O papel perdeu parte do império.

O mundo digital engoliu toneladas de documentos.

Até o telefone virou scanner.

E aquele COBOL que já parecia velho em 1990?

Continua executando.

Talvez esteja tentando nos ensinar alguma coisa.

Máquinas passam.

Empresas mudam.

Tecnologias envelhecem.

Crachás expiram.

Mas conhecimento acumulado, curiosidade e vontade de atravessar a próxima porta possuem uma estranha capacidade de sobreviver.

O professor apaga o cachimbo.

O garoto pega suas coisas e vai embora.

Ainda há um trem para pegar.

Ainda há escola.

Ainda há trabalho amanhã.

Ainda há boletos.

Ele não sabe nada sobre Milão.

Não sabe nada sobre bancos.

Não sabe nada sobre mainframes.

Não sabe que um dia será professor.

Não sabe que, trinta e seis anos depois, ainda se lembrará daquele refeitório.

Melhor assim.

Se soubesse tudo, talvez deixasse de ser sonho e virasse cronograma.

Ele apenas segue andando.

Sem o crachá.

Mas na direção da porta.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde até uma velha copiadora pode ensinar alguma coisa sobre COBOL, legado, carreira — e sobre os programas que levamos uma vida inteira para compilar.



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De Fã para Fã. Conteúdo não oficial produzido como homenagem, comentário, análise ou paródia. Personagens, marcas e obras eventualmente mencionados pertencem aos seus respectivos titulares.
Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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