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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Capítulo 8 — Business Week (1994)

Bellacosa mainframe e o dia que a impresna errou

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 8 — Business Week (1994)

O Dia em que a Imprensa Percebeu que Talvez Tivesse Enterrado o Mainframe Cedo Demais

Uma análise da reportagem publicada pela Business Week em 1994, mostrando como a indústria começou a reconhecer que as previsões sobre o fim do mainframe haviam sido exageradas e como o IBM Z continuou sua evolução tecnológica.

Por


Business Week reconhecendo em 1994 que o Mainframe continuava relevante
A reportagem da Business Week marcou um ponto de inflexão, mostrando que o mercado começava a reconsiderar o futuro dos mainframes.

"Quando os fatos mudam, a engenharia muda de direção. Quando o marketing muda de direção, normalmente muda também o discurso."

— Bellacosa Mainframe

Contexto histórico

Após anos de previsões sobre o desaparecimento dos grandes sistemas, empresas descobriram que migrar aplicações críticas era muito mais caro, complexo e arriscado do que parecia nas apresentações de marketing.

George Colony, da Forrester Research, sintetizou essa mudança ao afirmar que era "o fim do fim dos mainframes", reconhecendo que a plataforma continuava estratégica para grandes organizações.

A grande lição

A Business Week mostrou que tendências tecnológicas precisam ser avaliadas à luz dos resultados reais e não apenas das expectativas do mercado.

O IBM Mainframe continuou evoluindo nas décadas seguintes, incorporando Linux, Java, virtualização, DevOps, APIs, cloud híbrida, OpenShift, Inteligência Artificial e chegando ao IBM z17 como uma das plataformas mais resilientes da computação corporativa.


Janeiro de 1994

Estamos agora em um momento extremamente interessante da nossa história.

Até aqui vimos uma sequência de previsões pessimistas.

"O dinossauro."

"O último mainframe será desligado."

"O mainframe está correndo rumo à extinção."

Parecia que existia um consenso.

O funeral já estava marcado.

Faltava apenas escolher quem faria o discurso de despedida.

Mas então aconteceu algo curioso.

O mercado começou a olhar para os números.

E os números possuem um defeito terrível para quem vive de buzzwords.

Eles não ligam para apresentações em PowerPoint.


Alguma coisa não fechava

As vendas de servidores realmente cresciam.

Os PCs realmente dominavam os escritórios.

As redes locais realmente se expandiam.

Mas...

Os bancos continuavam comprando mainframes.

As seguradoras também.

As bolsas de valores igualmente.

As companhias aéreas não desligavam seus CPDs.

Os governos continuavam investindo em grandes sistemas.

As empresas mais críticas da economia simplesmente... não estavam abandonando o IBM Mainframe.

Isso começou a chamar atenção.


O Business Week muda o tom

Em 10 de janeiro de 1994, a Business Week, uma das revistas de negócios mais respeitadas do mundo, publicou uma reportagem que destoava da narrativa predominante.

Em vez de insistir na ideia da morte inevitável do mainframe, a matéria citava George Colony, fundador da Forrester Research, com uma frase que se tornaria histórica:

"It's the end of the end for the mainframes."

Em tradução livre:

"É o fim do fim dos mainframes."

Parece um jogo de palavras.

E é exatamente isso.

Mas também representa uma mudança profunda de percepção.

Pela primeira vez, uma publicação de grande circulação reconhecia que talvez a indústria tivesse exagerado nas previsões anteriores. Essa mudança de tom foi registrada por Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe como um marco importante na evolução do debate sobre a plataforma IBM.


Traduzindo o economês

Vamos simplificar.

George Colony estava dizendo algo parecido com:

"Talvez tenhamos exagerado."

Ou ainda:

"Talvez o problema nunca tenha sido o mainframe."

Ou, numa tradução Bellacosa Mainframe:

"Pessoal... acho que enterramos o paciente antes de confirmar o óbito."


A realidade começou a aparecer

Entre 1991 e 1994 muitas empresas iniciaram grandes projetos de migração.

Alguns deram certo.

Outros...

Nem tanto.

Sistemas previstos para serem reescritos em dezoito meses completavam quatro anos de projeto.

Os custos disparavam.

A complexidade aparecia.

Regras de negócio esquecidas voltavam a assombrar as equipes.

Interfaces que ninguém conhecia surgiam do nada.

Programas COBOL escritos quinze anos antes continuavam funcionando perfeitamente.

Descobriu-se algo que nenhum folder de marketing mencionava.

Legado não significa velho.

Significa importante.


O verdadeiro patrimônio da empresa

Imagine uma seguradora.

Ela possui vinte milhões de clientes.

Cada contrato depende de dezenas de regras.

Regras legais.

Regras fiscais.

Regras atuariais.

Regras internas.

Agora imagine alguém dizendo:

— Vamos reescrever tudo.

A pergunta não é:

"Conseguimos?"

A pergunta é:

"Vale a pena?"

Essa simples mudança de perspectiva transformou completamente a discussão.


Bellacosa Mainframe e o Cobol como o vilão favorito

O COBOL virou o vilão favorito

Durante anos, COBOL foi apresentado como um símbolo do passado.

Parecia existir uma competição para descobrir quem faria a manchete mais dramática.

"O fim do COBOL."

"A última geração de programadores."

"Ninguém mais aprende COBOL."

Enquanto isso...

Universidades deixavam de ensinar COBOL.

Mas bancos continuavam contratando especialistas.

Governos continuavam executando milhões de linhas de código.

Seguradoras ampliavam seus sistemas.

Era uma situação curiosa.

Todo mundo dizia que COBOL estava morrendo.

Mas ninguém queria desligar o sistema que pagava salários.


O humor do velho operador

Imagine um operador de CPD lendo aquela reportagem da Business Week.

Ele olha para o relógio.

Depois para o console.

Mais um JOB termina normalmente.

Outro começa.

Ele comenta com o colega:

— Parece que cancelaram meu funeral.

O colega responde:

— Ainda bem.

Temos o fechamento contábil às oito.


A IBM não ficou parada

Existe um detalhe frequentemente esquecido.

Muitas análises daquela época tratavam o mainframe como se fosse uma tecnologia congelada.

Como se a IBM tivesse parado de inovar.

Isso simplesmente não era verdade.

Enquanto o mercado discutia Client/Server...

A IBM continuava investindo bilhões em pesquisa.

Novos processadores.

Mais memória.

Melhores canais de entrada e saída.

Virtualização cada vez mais sofisticada.

Novos sistemas operacionais.

Ferramentas de desenvolvimento.

Integração com redes abertas.

A plataforma evoluía continuamente.

A diferença é que evolução incremental raramente vira manchete.


O mercado aprendeu uma palavra nova

Na metade da década de 1990 começou a surgir um conceito importante.

Integração.

Até então o debate parecia binário.

Ou era Mainframe.

Ou era Client/Server.

Com o amadurecimento dos projetos, as empresas descobriram que poderiam ter os dois.

O front-end poderia rodar em PCs.

As aplicações departamentais em servidores distribuídos.

E o processamento crítico permanecer no mainframe.

Hoje isso parece óbvio.

Na época foi quase revolucionário.


O Padawan visita uma reunião de diretoria

Nosso Padawan COBOL entra discretamente na sala.

Um consultor termina sua apresentação.

— Precisamos substituir completamente o mainframe.

O diretor financeiro faz apenas uma pergunta.

— Quanto custará?

O consultor responde.

— Aproximadamente cinquenta milhões de dólares.

O diretor permanece em silêncio.

Depois pergunta novamente.

— E se não substituirmos?

Outro silêncio.

Nesse momento o arquiteto da empresa comenta:

— Podemos integrar os novos sistemas ao ambiente existente.

A reunião muda completamente de direção.

Porque, no mundo corporativo, arquitetura sempre precisa conversar com orçamento.


O início da convivência

Foi justamente nessa época que a indústria começou a abandonar uma visão extremamente simplista.

Não era mais uma guerra.

Não existia vencedor absoluto.

Cada plataforma possuía seu espaço.

Mainframe para grandes volumes transacionais.

Servidores distribuídos para aplicações departamentais.

PCs para produtividade.

Mais tarde chegariam Linux.

Java.

Web Services.

Cloud.

Containers.

OpenShift.

Todos convivendo.

Essa mudança de mentalidade talvez tenha sido muito mais importante do que qualquer evolução de hardware.


O "fim do fim"

A frase de George Colony continua brilhante porque resume perfeitamente aquele momento.

Não significava que o mainframe venceria todas as disputas.

Também não significava que nada mudaria.

Significava apenas que a narrativa da morte inevitável começava a perder força.

A indústria finalmente compreendia algo essencial.

Uma tecnologia pode deixar de ser a única solução.

Sem deixar de ser uma solução excelente.


Trinta e dois anos depois

Estamos em 2026.

O IBM z17 integra Inteligência Artificial diretamente na plataforma.

O watsonx fornece modelos corporativos.

O BOB automatiza pipelines modernos.

O Zowe aproxima desenvolvedores open source.

O Ansible automatiza operações.

O COBOL continua recebendo novas versões.

O Db2 continua evoluindo.

O CICS continua sendo um dos monitores transacionais mais eficientes do mundo.

A grande surpresa?

Nada disso exigiu abandonar a arquitetura construída ao longo de décadas.

A plataforma simplesmente evoluiu.


A quarta grande lição

A reportagem da Business Week representa um momento raro na história da tecnologia.

O instante em que parte da imprensa começou a perceber que previsões muito otimistas também precisam ser revisadas.

Esse talvez seja o maior ensinamento deste capítulo.

Boa engenharia não se apaixona por modismos.

Ela mede.

Testa.

Observa.

Corrige.

E muda de opinião quando os fatos mudam.

Foi exatamente isso que começou a acontecer em 1994.

O mercado percebeu que a pergunta nunca deveria ter sido:

"Quem vai substituir o mainframe?"

A pergunta correta era:

"Como integrar novas tecnologias ao que já funciona extraordinariamente bem?"

Essa mudança de pergunta moldou praticamente toda a computação corporativa das três décadas seguintes.

E talvez explique por que, em vez de um túmulo...

Encontramos em 2026 um IBM z17 executando COBOL, Db2, CICS, Linux, OpenShift, APIs REST, DevOps, watsonx e Inteligência Artificial.

O funeral foi cancelado.

A evolução, não.


Fonte histórica

Business Week, 10 de janeiro de 1994, citando George Colony (Forrester Research) com a frase "It's the end of the end for the mainframes." O artigo, preservado por Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe, marcou uma inflexão importante no discurso da indústria: pela primeira vez, uma grande publicação reconhecia que as previsões sobre a extinção do mainframe talvez tivessem sido precipitadas.

Bellacosa Mainframe e o Funeral que nunca aconteceu


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Capítulo 3 — O Professor que Arquivou o Funeral

Bellacosa Mainframe e o professor que arquivou o Funeral

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 3 — O Professor que Arquivou o Funeral

Conheça a história de Wolfgang Spruth e descubra como sua coleção de reportagens preservou a memória das previsões sobre a morte do mainframe, transformando-as em um importante documento histórico da computação moderna.

Por


Wolfgang Spruth preservando a história das previsões sobre a morte do Mainframe

Wolfgang Spruth documentou décadas de previsões equivocadas sobre o fim do Mainframe, criando um importante registro histórico da computação.


Wolfgang Spruth e a Coleção das Manchetes que Tentaram Enterrar o Mainframe

"A História não é escrita apenas pelos vencedores. Às vezes ela também é escrita pelos analistas que erraram a previsão."


Antes de continuarmos...

Existe um personagem fundamental nesta história.

Curiosamente...

Ele não era jornalista.

Não era executivo de marketing.

Não era consultor.

Nem trabalhava tentando vender a próxima grande revolução da informática.

Era um professor.

Um pesquisador.

Um engenheiro.

Alguém que dedicou décadas da vida estudando computação corporativa.

Seu nome era Professor Wolfgang (Wilhelm G.) Spruth.

E, sem saber, ele acabaria produzindo um dos documentos históricos mais importantes sobre a evolução do IBM Mainframe.


Quem foi Wolfgang Spruth?

Para quem trabalha com IBM Z, principalmente na Europa, Wolfgang Spruth dispensa apresentações.

Professor da Universidade de Tübingen, na Alemanha, Spruth foi uma das maiores autoridades mundiais em Enterprise Computing, IBM Mainframe, sistemas operacionais, bancos de dados e arquitetura corporativa.

Durante décadas pesquisou:

  • IBM System/360

  • System/370

  • ESA/390

  • S/390

  • zSeries

  • z/OS

  • CICS

  • Db2

  • Virtualização

  • Arquiteturas Corporativas

  • Grandes Centros de Processamento de Dados

Muito antes da palavra "Cloud" existir...

Spruth já estudava virtualização.

Muito antes de falarmos em IA...

Ele estudava arquitetura de sistemas.

Muito antes do DevOps...

Ele analisava integração entre aplicações corporativas.

Seu foco nunca foi seguir modismos.

Seu foco sempre foi entender como os sistemas realmente funcionavam.

E essa diferença faz toda a diferença.


Um pesquisador em vez de um torcedor

Existe algo interessante sobre pesquisadores.

Eles normalmente não torcem.

Eles observam.

Registram.

Documentam.

Comparam.

Foi exatamente isso que Spruth fez.

Enquanto boa parte da imprensa anunciava o "fim inevitável" do mainframe...

Ele resolveu guardar aquelas reportagens.

Não para zombar.

Não para ridicularizar jornalistas.

Mas para construir um registro histórico.

Porque previsões tecnológicas também fazem parte da História da Computação.


O nascimento de um documento histórico

Anos depois surgiu um pequeno documento que se tornaria extremamente famoso entre profissionais IBM.

Seu título era simples.

The Death of the Mainframe

À primeira vista parecia apenas mais uma apresentação.

Alguns slides.

Algumas citações.

Poucas páginas.

Mas havia algo extremamente inteligente naquele material.

Em vez de discutir opiniões...

Spruth simplesmente mostrou as manchetes.

Uma após outra.

Em ordem cronológica.

Como um museu.

Como um álbum de fotografias.

Como um arquivo de jornal.

Cada slide representava um momento em que alguém decretou que o IBM Mainframe havia chegado ao fim.

O leitor tirava suas próprias conclusões.

Essa simplicidade tornou o trabalho tão poderoso.


O museu dos "fins do mundo"

Imagine entrar em um museu.

Na primeira sala existe uma placa.

1989

Logo abaixo.

Uma manchete.

"O Mainframe morreu."

Você caminha alguns metros.

Outra sala.

1991

Mais uma manchete.

"O último mainframe será desligado."

Mais alguns passos.

1993

"O Mainframe está correndo para a extinção."

Depois...

Outra previsão.

E outra.

E outra.

Ao final da exposição...

Você sai do museu.

Liga o aplicativo do banco.

Faz um PIX.

Compra uma passagem aérea.

Usa um cartão de crédito.

Recebe o salário.

E percebe que boa parte dessas operações ainda continua passando por plataformas IBM Z.

É impossível não sorrir.


O maior mérito de Spruth

Talvez você espere que o professor passasse páginas e páginas criticando cada jornalista.

Não.

Esse nunca foi o objetivo.

O trabalho possui um tom quase acadêmico.

Ele apenas apresenta os fatos.

Mostra as datas.

As publicações.

As frases.

E deixa que a passagem do tempo faça o restante.

É um excelente exemplo de como a História costuma ser mais convincente do que qualquer debate.


O contexto importa

E aqui existe uma lição importante para todo Padawan COBOL.

É muito fácil rir das previsões feitas há trinta anos.

Mas precisamos lembrar do contexto.

Naquela época:

Os computadores pessoais dobravam de potência rapidamente.

As redes locais cresciam.

O UNIX conquistava espaço.

O Windows NT surgia como promessa corporativa.

A internet começava sua expansão.

Os servidores Intel ficavam cada vez mais baratos.

Tudo parecia apontar para uma descentralização completa.

Se estivéssemos vivendo em 1991...

Talvez muitos de nós também acreditássemos naquelas previsões.

A História precisa ser analisada com os olhos da época.

Não apenas com o conhecimento que temos hoje.


A imprensa não inventou essa narrativa

Outro detalhe interessante.

As revistas não criaram sozinhas a ideia da morte do mainframe.

Elas refletiam um sentimento muito presente no mercado.

Fabricantes promoviam novas arquiteturas.

Consultorias recomendavam migrações.

Analistas divulgavam projeções otimistas.

Empresas buscavam reduzir custos.

A imprensa fazia aquilo que continua fazendo até hoje.

Publicava aquilo que parecia representar o futuro.

O problema não era noticiar tendências.

O problema era transformar tendências em certezas.

Existe uma enorme diferença entre dizer:

"O Client/Server está crescendo."

E afirmar:

"O Mainframe acabou."

Uma frase descreve uma evolução.

A outra decreta um veredito.


O curioso efeito das manchetes

Manchetes possuem um poder enorme.

Poucas pessoas leem o artigo inteiro.

A maioria lê apenas o título.

Imagine um diretor financeiro em 1993.

Ele abre uma revista.

Lê:

"Mainframe: tecnologia em extinção."

Pronto.

A ideia fica plantada.

Mesmo que o restante do texto apresente ressalvas...

O título já cumpriu sua missão.

Esse fenômeno continua existindo em 2026.

Troque "Mainframe" por:

  • IA substituirá todos os programadores.

  • O fim das linguagens tradicionais.

  • O último DBA.

  • O fim do DevOps.

  • O fim do Cloud.

  • O fim do Kubernetes.

Mudam os personagens.

O mecanismo psicológico continua exatamente o mesmo.


A máquina do hype nunca parou

Os anos mudam.

Os nomes mudam.

Mas existe uma engrenagem que permanece.

Primeiro surge uma inovação.

Depois aparece entusiasmo.

Em seguida surgem previsões exageradas.

Logo aparecem manchetes definitivas.

Anos depois...

A realidade encontra um equilíbrio.

Foi assim com:

Client/Server.

SOA.

XML.

Java Applets.

CORBA.

Blockchain.

Metaverso.

NFT.

E, muito provavelmente, acontecerá com diversas previsões atuais envolvendo Inteligência Artificial.

A IA transformará profundamente a indústria?

Sem dúvida.

Mas isso não significa que todo software existente será descartado.

Nem que toda linguagem desaparecerá.

Nem que décadas de regras de negócio deixarão de existir da noite para o dia.


O verdadeiro legado de Spruth

Talvez a maior contribuição de Wolfgang Spruth não tenha sido provar que o mainframe sobreviveu.

Isso o tempo fez sozinho.

Seu verdadeiro legado foi outro.

Ele nos ensinou a importância de preservar a memória da tecnologia.

Porque engenharia também possui História.

E quem não conhece essa História corre o risco de repetir exatamente os mesmos erros.

Hoje olhamos para aquelas manchetes e sorrimos.

Daqui a vinte anos...

Talvez alguém faça exatamente a mesma coisa com muitas previsões feitas sobre Inteligência Artificial em 2026.


Um conselho para o Padawan

Quando você ouvir alguém dizendo:

"Essa tecnologia morreu."

Não pergunte apenas:

"Qual tecnologia?"

Pergunte também:

  • Quem fez essa previsão?

  • Em qual contexto?

  • Com quais dados?

  • Qual interesse econômico existia?

  • Ela resolve um problema técnico ou vende uma narrativa?

Foi exatamente esse olhar crítico que transformou um conjunto de manchetes esquecidas em um dos documentos históricos mais valiosos da computação corporativa.

Graças ao trabalho paciente do professor Wolfgang Spruth, aquelas previsões não ficaram perdidas em arquivos de jornais. Elas se tornaram uma aula permanente sobre humildade tecnológica.

Porque, no fim das contas, a maior vítima da década de 1990 não foi o mainframe.

Foram as certezas absolutas.

E a Engenharia continua ensinando, geração após geração, que modismos passam.

Arquiteturas sólidas evoluem.

 

Bellacosa Mainframe e a serie Funeral que nunca aconteceu



quarta-feira, 1 de julho de 2026

Capítulo 1 — O Funeral que Nunca Aconteceu

Bellacosa Mainframe e o funeral que nunca aconteceu


Uma viagem histórica pelas previsões que anunciaram a morte do mainframe e pela engenharia que manteve COBOL, CICS, Db2, JCL, z/OS e IBM Z essenciais até 2026.

Por


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 1 — O Funeral que Nunca Aconteceu

"Existem três coisas extremamente perigosas na Tecnologia da Informação: benchmark sem contexto, buzzword da moda e jornalista anunciando a morte de uma tecnologia que movimenta bilhões de dólares por dia."
— Bellacosa Mainframe


O dia em que enterraram um computador... que continuou trabalhando

Imagine a cena.

Março de 1991.

Um auditório lotado.

Executivos de gravata.

Consultores distribuindo transparências de retroprojetor.

Especialistas apontando para gráficos coloridos.

No centro da sala, um palestrante sobe ao palco e anuncia, com a confiança de quem acredita estar vendo o futuro:

"O mainframe morreu."

A plateia aplaude.

Outro completa:

— "Agora tudo será Client/Server."

Mais um responde:

— "COBOL acabou."

Um terceiro acrescenta:

— "Em poucos anos ninguém mais usará JCL."

Lá no fundo alguém grita:

— "Windows NT vai dominar o mundo!"

E outro completa:

— "UNIX substituirá tudo."

Naquele instante parecia impossível discordar.

A imprensa repetia.

Os analistas confirmavam.

Os fabricantes concorrentes comemoravam.

As consultorias vendiam projetos milionários de migração.

Os buzzwords surgiam mais rápido do que versões de frameworks aparecem hoje.

Enquanto isso...

A milhares de quilômetros dali...

Sem plateia.

Sem marketing.

Sem PowerPoint.

Sem keynote.

Um IBM Mainframe continuava fazendo exatamente o que sempre fez.

Processando folha de pagamento.

Autorizando compras.

Movimentando contas bancárias.

Controlando companhias aéreas.

Executando milhões de transações CICS.

Atualizando tabelas Db2.

Executando milhares de JOBs JES2.

Processando COBOL.

Respondendo IMS.

Gerenciando VSAM.

Sem saber que, segundo alguns especialistas, ele já estava morto.


Bellacosa Mainframe e o IBM S390 que atravessou o olho do furacão

O morto mais produtivo da história da computação

Existe uma ironia maravilhosa nessa história.

Poucas tecnologias receberam tantos atestados de óbito quanto o mainframe.

E poucas sobreviveram tão bem.

Durante praticamente toda a década de 1990 surgiu uma nova manchete anunciando que aquele enorme computador centralizado finalmente havia chegado ao fim.

Era compreensível.

Os PCs evoluíam rapidamente.

As redes Ethernet cresciam.

Os servidores UNIX ficavam mais baratos.

Windows NT surgia como promessa corporativa.

A internet começava sua explosão.

Tudo parecia apontar para um futuro distribuído.

O problema não era enxergar essas tendências.

O problema era acreditar que evolução significava substituição.

Foi exatamente esse erro que boa parte da indústria cometeu.


A década dos Buzzwords

Se você é um Padawan COBOL em 2026, talvez ache engraçado imaginar uma época sem Cloud, Kubernetes, DevOps, IA Generativa ou LLMs.

Mas toda geração cria seus próprios modismos.

Na década de 1990 eles tinham nomes diferentes.

Client/Server.

Downsizing.

Open Systems.

Distributed Computing.

Network Computing.

Workstations.

RISC.

Windows NT.

Cada um era apresentado como "o futuro inevitável".

Bastava colocar um desses nomes em um folder colorido e, magicamente, o produto parecia revolucionário.

Era como se existisse um encantamento corporativo.

Se um software fosse chamado apenas de "Sistema Financeiro", ninguém prestava atenção.

Mas bastava renomeá-lo para:

Open Distributed Client/Server Enterprise Architecture Framework

...e imediatamente ele parecia valer dez vezes mais.

Mudou alguma coisa desde então?

Talvez apenas os nomes.

Hoje trocamos "Client/Server" por "AI Native".

"Distributed Computing" virou "Cloud First".

"Open Systems" virou "Platform Engineering".

"SOA" virou "Microservices".

"Big Data" virou "Data Fabric".

"Machine Learning" virou "Generative AI".

A tecnologia evolui.

Os buzzwords apenas mudam de roupa.


O professor que resolveu guardar a história

Anos depois, o professor Wilhelm G. Spruth, uma das maiores autoridades mundiais em Enterprise Computing e tecnologia IBM Z, teve uma ideia brilhante.

Em vez de simplesmente dizer que aquelas previsões estavam erradas...

Ele resolveu preservá-las.

Em seu famoso trabalho "The Death of the Mainframe", Spruth reuniu exatamente essas manchetes históricas publicadas por jornais, revistas e analistas de mercado. Seu objetivo não era ridicularizar ninguém, mas mostrar como previsões tecnológicas podem ser influenciadas pelo entusiasmo do momento e pelo marketing da indústria.

Graças a esse trabalho, hoje podemos olhar para aquelas páginas quase como um arqueólogo observa um fóssil.

Cada manchete conta uma história.

Cada previsão revela como a indústria pensava.

Cada erro ensina uma lição.


Este artigo não é sobre rir do passado

Seria muito fácil fazer piada.

E faremos algumas.

Mas o objetivo aqui é outro.

Vamos entender por que pessoas extremamente inteligentes chegaram à conclusão de que o mainframe morreria.

Na época, isso parecia lógico.

Muitos dos argumentos eram tecnicamente consistentes.

O problema é que quase todos analisavam apenas o hardware.

Pouquíssimos observavam aquilo que realmente sustentava o mundo corporativo:

  • décadas de regras de negócio;

  • milhões de linhas de COBOL;

  • consistência transacional;

  • disponibilidade próxima de 100%;

  • segurança;

  • auditoria;

  • governança;

  • integração;

  • custo gigantesco de uma migração.

Eles olharam para o computador.

Esqueceram de olhar para o negócio.

E negócios raramente seguem modismos.


Trinta anos depois...

Agora avance o calendário.

Não estamos mais em 1991.

Nem em 1996.

Estamos em 2026.

Enquanto muitos dos "assassinos do mainframe" desapareceram, foram comprados, mudaram de nome ou simplesmente deixaram de existir, o IBM Z continua evoluindo.

Hoje temos:

  • IBM z17;

  • aceleração de IA integrada;

  • watsonx;

  • IBM Build Open Builder (BOB);

  • OpenShift;

  • Ansible;

  • Zowe;

  • DevOps;

  • APIs REST;

  • containers Linux;

  • Enterprise COBOL cada vez mais otimizado;

  • Db2 mais inteligente;

  • CICS mais moderno;

  • z/OS integrando cloud híbrida e inteligência artificial.

O "dinossauro" aprendeu a conversar com Kubernetes.

Aprendeu a executar IA.

Aprendeu a expor APIs.

Aprendeu DevOps.

E fez tudo isso sem abandonar aquilo que sempre soube fazer melhor: executar cargas críticas com confiabilidade extraordinária.


Bem-vindo ao maior "post-mortem" da história da TI

Nos próximos capítulos vamos abrir uma verdadeira cápsula do tempo.

Vamos revisitar, uma a uma, as reportagens da Forbes, The New York Times, InfoWorld e Business Week.

Você verá o contexto histórico.

Os argumentos utilizados.

O que acertaram.

O que erraram.

Como aquelas previsões influenciaram toda uma geração de arquitetos e executivos.

E, principalmente, por que o tempo mostrou que o futuro costuma ser muito mais complexo do que qualquer manchete de capa consegue prever.

Pegue seu café.

Abra o ISPF.

Porque a autópsia vai começar.

E, curiosamente, o paciente ainda está trabalhando.

Bellacosa Mainframe e a serie o Funeral que nunca aconteceu