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sábado, 4 de julho de 2026

Capítulo 4 — Forbes (1989)

Bellacosa Mainframe e a revista forbes em 1989

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 4 — Forbes (1989)

O Dia em que o Mainframe Virou um Dinossauro... e Resolveu Continuar Evoluindo

Uma análise da reportagem da Forbes que classificou o mainframe como um "dinossauro tecnológico", mostrando o contexto da época e como a plataforma IBM evoluiu continuamente até chegar ao IBM z17.

Por

Capa da Forbes de 1989 e o início das previsões sobre a morte do Mainframe
A reportagem da Forbes marcou uma geração ao comparar o mainframe a um dinossauro, iniciando uma longa sequência de previsões sobre seu fim.

"Toda revolução tecnológica produz duas coisas: uma inovação verdadeira e dezenas de previsões exageradas."

— Bellacosa Mainframe

Março de 1989

Voltemos quase quarenta anos no tempo.

O muro de Berlim ainda estava de pé.

A World Wide Web sequer existia.

Linux ainda não havia sido criado.

Java levaria vários anos para nascer.

Windows era apenas a versão 2.0.

O IBM AS/400 havia acabado de ser lançado.

O System/390 ainda nem existia.

A computação corporativa era dominada por grandes datacenters.

E foi exatamente nesse cenário que a Forbes, uma das revistas de negócios mais influentes do planeta, publicou um artigo que ajudaria a moldar a percepção do mercado sobre o futuro da computação.

O tom era claro.

Os computadores pessoais estavam ficando mais poderosos.

As workstations da Sun Microsystems faziam sucesso entre engenheiros.

Os servidores UNIX ganhavam espaço.

As redes locais Ethernet cresciam rapidamente.

Tudo parecia indicar que a centralização estava com os dias contados.

O mainframe passou a ser descrito como um "dinossauro tecnológico", uma metáfora poderosa para sugerir que uma tecnologia gigantesca, cara e aparentemente lenta seria inevitavelmente substituída por uma nova geração de computadores menores e distribuídos. Essa imagem se espalhou rapidamente pela indústria e seria repetida inúmeras vezes ao longo da década seguinte.


Por que essa comparação fazia sentido?

Hoje é fácil dizer que a Forbes estava errada.

Mas um engenheiro sério precisa entender o contexto antes de julgar.

Em 1989 havia excelentes razões para acreditar naquela previsão.

Os microprocessadores evoluíam rapidamente.

O preço do hardware caía ano após ano.

As empresas começavam a montar redes locais.

Os usuários finalmente podiam ter um computador sobre a mesa.

Até então, era comum dividir tempo em um único computador central.

De repente...

Cada funcionário tinha sua própria máquina.

Parecia uma revolução.

E realmente era.


O nascimento da ilusão da descentralização

Imagine um gerente em 1989.

Ele visita uma feira de tecnologia.

No primeiro estande encontra um enorme IBM Mainframe.

Na sala ao lado vê uma workstation Sun rodando gráficos coloridos.

Depois encontra dezenas de PCs ligados em rede.

A demonstração impressiona.

Tudo parece mais moderno.

Mais rápido.

Mais bonito.

O vendedor então faz a pergunta fatal:

"Por que continuar pagando milhões por um mainframe?"

É uma pergunta excelente.

O problema é que ela estava incompleta.

A pergunta correta deveria ser:

"Quem continuará processando milhões de transações com disponibilidade próxima de 100% durante os próximos vinte anos?"

Essa pergunta aparecia muito menos nos folders de marketing.


O marketing encontrou um vilão perfeito

Toda boa campanha publicitária precisa de um antagonista.

Na indústria automobilística, o vilão pode ser o consumo de combustível.

Na indústria farmacêutica, pode ser uma doença.

Na computação dos anos 90...

O vilão escolhido foi o mainframe.

Ele reunia todas as características necessárias para uma boa narrativa.

Era grande.

Era caro.

Ficava escondido em salas refrigeradas.

Poucas pessoas o conheciam.

Pouquíssimos sabiam como funcionava.

Era o candidato perfeito para representar "o passado".

Enquanto isso, os novos servidores eram vendidos como:

  • modernos;

  • abertos;

  • flexíveis;

  • distribuídos;

  • democráticos.

Era uma excelente história.

Só havia um detalhe.

Histórias vendem revistas.

Engenharia precisa funcionar às três horas da manhã.


O dinossauro mais estranho da História

A metáfora do dinossauro era extremamente eficiente.

Todos entendem imediatamente seu significado.

Dinossauros dominaram o planeta.

Depois desapareceram.

Logo...

O mainframe também desapareceria.

Mas havia um pequeno problema biológico nessa comparação.

Dinossauros não evoluem.

Mainframes, sim.

Enquanto as revistas escreviam artigos...

Os laboratórios da IBM trabalhavam silenciosamente.

Novos processadores.

Novos canais de I/O.

Mais memória.

Mais virtualização.

Mais desempenho.

Mais confiabilidade.

A cada geração surgiam melhorias que dificilmente apareciam nas manchetes.

Porque evolução incremental quase nunca vira capa de revista.


O que a reportagem acertou

É importante reconhecer que a Forbes não estava completamente equivocada.

Ela acertou em vários pontos.

A computação realmente se descentralizou.

Os PCs dominaram os escritórios.

As redes locais tornaram-se padrão.

Os servidores UNIX conquistaram espaço.

Mais tarde vieram Linux, virtualização e cloud.

Tudo isso aconteceu.

A revista percebeu corretamente que a arquitetura corporativa mudaria profundamente.

Onde ela errou foi na conclusão.

Ela confundiu crescimento de uma tecnologia com desaparecimento de outra.

Na engenharia, coexistência costuma ser muito mais comum do que substituição completa.


O que ficou de fora

Existe uma palavra que praticamente não aparecia nessas análises.

Negócio.

As reportagens discutiam hardware.

Processadores.

Arquiteturas.

Preço.

Memória.

Sistema operacional.

Mas quase nunca perguntavam:

Quem processa a folha de pagamento?

Quem controla o estoque nacional?

Quem liquida operações bancárias?

Quem registra bilhões de transações financeiras?

Quem mantém décadas de regras de negócio escritas em COBOL?

Porque substituir hardware é relativamente simples.

Substituir quarenta anos de conhecimento empresarial é outra história completamente diferente.


Enquanto isso... dentro do CPD

Vamos imaginar a cena.

Um jornalista termina de escrever:

"O mainframe é um dinossauro."

Na mesma hora...

Em algum banco brasileiro...

Um operador pressiona ENTER no terminal 3270.

Um programa COBOL inicia sua execução.

O CICS recebe milhares de requisições.

O Db2 executa centenas de milhares de comandos SQL.

O JES2 inicia dezenas de JOBs batch.

O RACF valida usuários.

O VSAM grava registros.

Tudo continua funcionando.

Sem saber que havia acabado de ser declarado extinto.

Se computadores pudessem rir...

Talvez aquele IBM respondesse:

"Interessante... agora deixe-me voltar ao trabalho."


O tempo é um juiz implacável

A grande vantagem da História é que ela não discute.

Ela apenas acontece.

Passaram-se cinco anos.

Depois dez.

Depois vinte.

Depois trinta.

Chegamos a 2026.

O "dinossauro" citado em 1989 agora atende por outro nome.

IBM z17.

Possui aceleração nativa para Inteligência Artificial.

Executa Linux.

Hospeda OpenShift.

Integra-se ao watsonx.

Utiliza DevOps.

Executa aplicações Java, Python, Node.js, Go e COBOL.

Conversa naturalmente com Kubernetes, APIs REST e ambientes híbridos de cloud.

O que morreu não foi o mainframe.

Foi a ideia de que inovação exige abandonar tudo o que veio antes.


A primeira lição da Forbes

A reportagem da Forbes merece ser lembrada.

Não porque acertou.

Nem porque errou.

Mas porque representa perfeitamente um fenômeno que continua acontecendo em 2026.

Sempre que surge uma tecnologia revolucionária...

Alguém anuncia o fim da tecnologia anterior.

Foi assim com:

  • PCs contra Mainframes.

  • Internet contra PCs.

  • Cloud contra Datacenters.

  • Containers contra Máquinas Virtuais.

  • Microservices contra Monólitos.

  • IA contra Programadores.

A História mostra que a realidade costuma ser bem menos dramática.

As melhores tecnologias raramente eliminam completamente as anteriores.

Elas aprendem a conviver.

A integrar.

A evoluir juntas.

E talvez essa seja a maior lição deixada pela Forbes de 1989.

O verdadeiro erro nunca foi apostar no futuro.

Foi acreditar que o futuro só poderia existir depois de destruir completamente o passado.


Fonte histórica

Forbes, edição de 20 de março de 1989, posteriormente citada pelo Professor Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe, como uma das primeiras grandes publicações a popularizar a metáfora do "dinossauro tecnológico". O trabalho de Spruth preserva essa e outras manchetes históricas, permitindo compreender o contexto da época e compará-lo com a evolução real da plataforma IBM Z.

Bellacosa Mainframe e o Funeral que nunca aconteceu


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Capítulo 3 — O Professor que Arquivou o Funeral

Bellacosa Mainframe e o professor que arquivou o Funeral

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 3 — O Professor que Arquivou o Funeral

Conheça a história de Wolfgang Spruth e descubra como sua coleção de reportagens preservou a memória das previsões sobre a morte do mainframe, transformando-as em um importante documento histórico da computação moderna.

Por


Wolfgang Spruth preservando a história das previsões sobre a morte do Mainframe

Wolfgang Spruth documentou décadas de previsões equivocadas sobre o fim do Mainframe, criando um importante registro histórico da computação.


Wolfgang Spruth e a Coleção das Manchetes que Tentaram Enterrar o Mainframe

"A História não é escrita apenas pelos vencedores. Às vezes ela também é escrita pelos analistas que erraram a previsão."


Antes de continuarmos...

Existe um personagem fundamental nesta história.

Curiosamente...

Ele não era jornalista.

Não era executivo de marketing.

Não era consultor.

Nem trabalhava tentando vender a próxima grande revolução da informática.

Era um professor.

Um pesquisador.

Um engenheiro.

Alguém que dedicou décadas da vida estudando computação corporativa.

Seu nome era Professor Wolfgang (Wilhelm G.) Spruth.

E, sem saber, ele acabaria produzindo um dos documentos históricos mais importantes sobre a evolução do IBM Mainframe.


Quem foi Wolfgang Spruth?

Para quem trabalha com IBM Z, principalmente na Europa, Wolfgang Spruth dispensa apresentações.

Professor da Universidade de Tübingen, na Alemanha, Spruth foi uma das maiores autoridades mundiais em Enterprise Computing, IBM Mainframe, sistemas operacionais, bancos de dados e arquitetura corporativa.

Durante décadas pesquisou:

  • IBM System/360

  • System/370

  • ESA/390

  • S/390

  • zSeries

  • z/OS

  • CICS

  • Db2

  • Virtualização

  • Arquiteturas Corporativas

  • Grandes Centros de Processamento de Dados

Muito antes da palavra "Cloud" existir...

Spruth já estudava virtualização.

Muito antes de falarmos em IA...

Ele estudava arquitetura de sistemas.

Muito antes do DevOps...

Ele analisava integração entre aplicações corporativas.

Seu foco nunca foi seguir modismos.

Seu foco sempre foi entender como os sistemas realmente funcionavam.

E essa diferença faz toda a diferença.


Um pesquisador em vez de um torcedor

Existe algo interessante sobre pesquisadores.

Eles normalmente não torcem.

Eles observam.

Registram.

Documentam.

Comparam.

Foi exatamente isso que Spruth fez.

Enquanto boa parte da imprensa anunciava o "fim inevitável" do mainframe...

Ele resolveu guardar aquelas reportagens.

Não para zombar.

Não para ridicularizar jornalistas.

Mas para construir um registro histórico.

Porque previsões tecnológicas também fazem parte da História da Computação.


O nascimento de um documento histórico

Anos depois surgiu um pequeno documento que se tornaria extremamente famoso entre profissionais IBM.

Seu título era simples.

The Death of the Mainframe

À primeira vista parecia apenas mais uma apresentação.

Alguns slides.

Algumas citações.

Poucas páginas.

Mas havia algo extremamente inteligente naquele material.

Em vez de discutir opiniões...

Spruth simplesmente mostrou as manchetes.

Uma após outra.

Em ordem cronológica.

Como um museu.

Como um álbum de fotografias.

Como um arquivo de jornal.

Cada slide representava um momento em que alguém decretou que o IBM Mainframe havia chegado ao fim.

O leitor tirava suas próprias conclusões.

Essa simplicidade tornou o trabalho tão poderoso.


O museu dos "fins do mundo"

Imagine entrar em um museu.

Na primeira sala existe uma placa.

1989

Logo abaixo.

Uma manchete.

"O Mainframe morreu."

Você caminha alguns metros.

Outra sala.

1991

Mais uma manchete.

"O último mainframe será desligado."

Mais alguns passos.

1993

"O Mainframe está correndo para a extinção."

Depois...

Outra previsão.

E outra.

E outra.

Ao final da exposição...

Você sai do museu.

Liga o aplicativo do banco.

Faz um PIX.

Compra uma passagem aérea.

Usa um cartão de crédito.

Recebe o salário.

E percebe que boa parte dessas operações ainda continua passando por plataformas IBM Z.

É impossível não sorrir.


O maior mérito de Spruth

Talvez você espere que o professor passasse páginas e páginas criticando cada jornalista.

Não.

Esse nunca foi o objetivo.

O trabalho possui um tom quase acadêmico.

Ele apenas apresenta os fatos.

Mostra as datas.

As publicações.

As frases.

E deixa que a passagem do tempo faça o restante.

É um excelente exemplo de como a História costuma ser mais convincente do que qualquer debate.


O contexto importa

E aqui existe uma lição importante para todo Padawan COBOL.

É muito fácil rir das previsões feitas há trinta anos.

Mas precisamos lembrar do contexto.

Naquela época:

Os computadores pessoais dobravam de potência rapidamente.

As redes locais cresciam.

O UNIX conquistava espaço.

O Windows NT surgia como promessa corporativa.

A internet começava sua expansão.

Os servidores Intel ficavam cada vez mais baratos.

Tudo parecia apontar para uma descentralização completa.

Se estivéssemos vivendo em 1991...

Talvez muitos de nós também acreditássemos naquelas previsões.

A História precisa ser analisada com os olhos da época.

Não apenas com o conhecimento que temos hoje.


A imprensa não inventou essa narrativa

Outro detalhe interessante.

As revistas não criaram sozinhas a ideia da morte do mainframe.

Elas refletiam um sentimento muito presente no mercado.

Fabricantes promoviam novas arquiteturas.

Consultorias recomendavam migrações.

Analistas divulgavam projeções otimistas.

Empresas buscavam reduzir custos.

A imprensa fazia aquilo que continua fazendo até hoje.

Publicava aquilo que parecia representar o futuro.

O problema não era noticiar tendências.

O problema era transformar tendências em certezas.

Existe uma enorme diferença entre dizer:

"O Client/Server está crescendo."

E afirmar:

"O Mainframe acabou."

Uma frase descreve uma evolução.

A outra decreta um veredito.


O curioso efeito das manchetes

Manchetes possuem um poder enorme.

Poucas pessoas leem o artigo inteiro.

A maioria lê apenas o título.

Imagine um diretor financeiro em 1993.

Ele abre uma revista.

Lê:

"Mainframe: tecnologia em extinção."

Pronto.

A ideia fica plantada.

Mesmo que o restante do texto apresente ressalvas...

O título já cumpriu sua missão.

Esse fenômeno continua existindo em 2026.

Troque "Mainframe" por:

  • IA substituirá todos os programadores.

  • O fim das linguagens tradicionais.

  • O último DBA.

  • O fim do DevOps.

  • O fim do Cloud.

  • O fim do Kubernetes.

Mudam os personagens.

O mecanismo psicológico continua exatamente o mesmo.


A máquina do hype nunca parou

Os anos mudam.

Os nomes mudam.

Mas existe uma engrenagem que permanece.

Primeiro surge uma inovação.

Depois aparece entusiasmo.

Em seguida surgem previsões exageradas.

Logo aparecem manchetes definitivas.

Anos depois...

A realidade encontra um equilíbrio.

Foi assim com:

Client/Server.

SOA.

XML.

Java Applets.

CORBA.

Blockchain.

Metaverso.

NFT.

E, muito provavelmente, acontecerá com diversas previsões atuais envolvendo Inteligência Artificial.

A IA transformará profundamente a indústria?

Sem dúvida.

Mas isso não significa que todo software existente será descartado.

Nem que toda linguagem desaparecerá.

Nem que décadas de regras de negócio deixarão de existir da noite para o dia.


O verdadeiro legado de Spruth

Talvez a maior contribuição de Wolfgang Spruth não tenha sido provar que o mainframe sobreviveu.

Isso o tempo fez sozinho.

Seu verdadeiro legado foi outro.

Ele nos ensinou a importância de preservar a memória da tecnologia.

Porque engenharia também possui História.

E quem não conhece essa História corre o risco de repetir exatamente os mesmos erros.

Hoje olhamos para aquelas manchetes e sorrimos.

Daqui a vinte anos...

Talvez alguém faça exatamente a mesma coisa com muitas previsões feitas sobre Inteligência Artificial em 2026.


Um conselho para o Padawan

Quando você ouvir alguém dizendo:

"Essa tecnologia morreu."

Não pergunte apenas:

"Qual tecnologia?"

Pergunte também:

  • Quem fez essa previsão?

  • Em qual contexto?

  • Com quais dados?

  • Qual interesse econômico existia?

  • Ela resolve um problema técnico ou vende uma narrativa?

Foi exatamente esse olhar crítico que transformou um conjunto de manchetes esquecidas em um dos documentos históricos mais valiosos da computação corporativa.

Graças ao trabalho paciente do professor Wolfgang Spruth, aquelas previsões não ficaram perdidas em arquivos de jornais. Elas se tornaram uma aula permanente sobre humildade tecnológica.

Porque, no fim das contas, a maior vítima da década de 1990 não foi o mainframe.

Foram as certezas absolutas.

E a Engenharia continua ensinando, geração após geração, que modismos passam.

Arquiteturas sólidas evoluem.

 

Bellacosa Mainframe e a serie Funeral que nunca aconteceu



quarta-feira, 1 de julho de 2026

Capítulo 1 — O Funeral que Nunca Aconteceu

Bellacosa Mainframe e o funeral que nunca aconteceu


Uma viagem histórica pelas previsões que anunciaram a morte do mainframe e pela engenharia que manteve COBOL, CICS, Db2, JCL, z/OS e IBM Z essenciais até 2026.

Por


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Capítulo 1 — O Funeral que Nunca Aconteceu

"Existem três coisas extremamente perigosas na Tecnologia da Informação: benchmark sem contexto, buzzword da moda e jornalista anunciando a morte de uma tecnologia que movimenta bilhões de dólares por dia."
— Bellacosa Mainframe


O dia em que enterraram um computador... que continuou trabalhando

Imagine a cena.

Março de 1991.

Um auditório lotado.

Executivos de gravata.

Consultores distribuindo transparências de retroprojetor.

Especialistas apontando para gráficos coloridos.

No centro da sala, um palestrante sobe ao palco e anuncia, com a confiança de quem acredita estar vendo o futuro:

"O mainframe morreu."

A plateia aplaude.

Outro completa:

— "Agora tudo será Client/Server."

Mais um responde:

— "COBOL acabou."

Um terceiro acrescenta:

— "Em poucos anos ninguém mais usará JCL."

Lá no fundo alguém grita:

— "Windows NT vai dominar o mundo!"

E outro completa:

— "UNIX substituirá tudo."

Naquele instante parecia impossível discordar.

A imprensa repetia.

Os analistas confirmavam.

Os fabricantes concorrentes comemoravam.

As consultorias vendiam projetos milionários de migração.

Os buzzwords surgiam mais rápido do que versões de frameworks aparecem hoje.

Enquanto isso...

A milhares de quilômetros dali...

Sem plateia.

Sem marketing.

Sem PowerPoint.

Sem keynote.

Um IBM Mainframe continuava fazendo exatamente o que sempre fez.

Processando folha de pagamento.

Autorizando compras.

Movimentando contas bancárias.

Controlando companhias aéreas.

Executando milhões de transações CICS.

Atualizando tabelas Db2.

Executando milhares de JOBs JES2.

Processando COBOL.

Respondendo IMS.

Gerenciando VSAM.

Sem saber que, segundo alguns especialistas, ele já estava morto.


Bellacosa Mainframe e o IBM S390 que atravessou o olho do furacão

O morto mais produtivo da história da computação

Existe uma ironia maravilhosa nessa história.

Poucas tecnologias receberam tantos atestados de óbito quanto o mainframe.

E poucas sobreviveram tão bem.

Durante praticamente toda a década de 1990 surgiu uma nova manchete anunciando que aquele enorme computador centralizado finalmente havia chegado ao fim.

Era compreensível.

Os PCs evoluíam rapidamente.

As redes Ethernet cresciam.

Os servidores UNIX ficavam mais baratos.

Windows NT surgia como promessa corporativa.

A internet começava sua explosão.

Tudo parecia apontar para um futuro distribuído.

O problema não era enxergar essas tendências.

O problema era acreditar que evolução significava substituição.

Foi exatamente esse erro que boa parte da indústria cometeu.


A década dos Buzzwords

Se você é um Padawan COBOL em 2026, talvez ache engraçado imaginar uma época sem Cloud, Kubernetes, DevOps, IA Generativa ou LLMs.

Mas toda geração cria seus próprios modismos.

Na década de 1990 eles tinham nomes diferentes.

Client/Server.

Downsizing.

Open Systems.

Distributed Computing.

Network Computing.

Workstations.

RISC.

Windows NT.

Cada um era apresentado como "o futuro inevitável".

Bastava colocar um desses nomes em um folder colorido e, magicamente, o produto parecia revolucionário.

Era como se existisse um encantamento corporativo.

Se um software fosse chamado apenas de "Sistema Financeiro", ninguém prestava atenção.

Mas bastava renomeá-lo para:

Open Distributed Client/Server Enterprise Architecture Framework

...e imediatamente ele parecia valer dez vezes mais.

Mudou alguma coisa desde então?

Talvez apenas os nomes.

Hoje trocamos "Client/Server" por "AI Native".

"Distributed Computing" virou "Cloud First".

"Open Systems" virou "Platform Engineering".

"SOA" virou "Microservices".

"Big Data" virou "Data Fabric".

"Machine Learning" virou "Generative AI".

A tecnologia evolui.

Os buzzwords apenas mudam de roupa.


O professor que resolveu guardar a história

Anos depois, o professor Wilhelm G. Spruth, uma das maiores autoridades mundiais em Enterprise Computing e tecnologia IBM Z, teve uma ideia brilhante.

Em vez de simplesmente dizer que aquelas previsões estavam erradas...

Ele resolveu preservá-las.

Em seu famoso trabalho "The Death of the Mainframe", Spruth reuniu exatamente essas manchetes históricas publicadas por jornais, revistas e analistas de mercado. Seu objetivo não era ridicularizar ninguém, mas mostrar como previsões tecnológicas podem ser influenciadas pelo entusiasmo do momento e pelo marketing da indústria.

Graças a esse trabalho, hoje podemos olhar para aquelas páginas quase como um arqueólogo observa um fóssil.

Cada manchete conta uma história.

Cada previsão revela como a indústria pensava.

Cada erro ensina uma lição.


Este artigo não é sobre rir do passado

Seria muito fácil fazer piada.

E faremos algumas.

Mas o objetivo aqui é outro.

Vamos entender por que pessoas extremamente inteligentes chegaram à conclusão de que o mainframe morreria.

Na época, isso parecia lógico.

Muitos dos argumentos eram tecnicamente consistentes.

O problema é que quase todos analisavam apenas o hardware.

Pouquíssimos observavam aquilo que realmente sustentava o mundo corporativo:

  • décadas de regras de negócio;

  • milhões de linhas de COBOL;

  • consistência transacional;

  • disponibilidade próxima de 100%;

  • segurança;

  • auditoria;

  • governança;

  • integração;

  • custo gigantesco de uma migração.

Eles olharam para o computador.

Esqueceram de olhar para o negócio.

E negócios raramente seguem modismos.


Trinta anos depois...

Agora avance o calendário.

Não estamos mais em 1991.

Nem em 1996.

Estamos em 2026.

Enquanto muitos dos "assassinos do mainframe" desapareceram, foram comprados, mudaram de nome ou simplesmente deixaram de existir, o IBM Z continua evoluindo.

Hoje temos:

  • IBM z17;

  • aceleração de IA integrada;

  • watsonx;

  • IBM Build Open Builder (BOB);

  • OpenShift;

  • Ansible;

  • Zowe;

  • DevOps;

  • APIs REST;

  • containers Linux;

  • Enterprise COBOL cada vez mais otimizado;

  • Db2 mais inteligente;

  • CICS mais moderno;

  • z/OS integrando cloud híbrida e inteligência artificial.

O "dinossauro" aprendeu a conversar com Kubernetes.

Aprendeu a executar IA.

Aprendeu a expor APIs.

Aprendeu DevOps.

E fez tudo isso sem abandonar aquilo que sempre soube fazer melhor: executar cargas críticas com confiabilidade extraordinária.


Bem-vindo ao maior "post-mortem" da história da TI

Nos próximos capítulos vamos abrir uma verdadeira cápsula do tempo.

Vamos revisitar, uma a uma, as reportagens da Forbes, The New York Times, InfoWorld e Business Week.

Você verá o contexto histórico.

Os argumentos utilizados.

O que acertaram.

O que erraram.

Como aquelas previsões influenciaram toda uma geração de arquitetos e executivos.

E, principalmente, por que o tempo mostrou que o futuro costuma ser muito mais complexo do que qualquer manchete de capa consegue prever.

Pegue seu café.

Abra o ISPF.

Porque a autópsia vai começar.

E, curiosamente, o paciente ainda está trabalhando.

Bellacosa Mainframe e a serie o Funeral que nunca aconteceu