| Bellacosa Mainframe e o delete user |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
DELETE USER não apaga memória: o quarteirizado, o segredo empresarial e o conhecimento que atravessa a catraca
🔴🔵 Matrix, COBOL e o paradoxo das empresas que querem profissionais experientes, mas não querem que a experiência adquirida dentro delas saia pela porta
Por Vagner Bellacosa
Sexta-feira.
17:58.
O projeto terminou.
Depois de dois anos trabalhando dentro de um grande banco, nosso personagem recebe a última mensagem.
Obrigado pela colaboração.
17:59.
O notebook é devolvido.
18:00.
O crachá deixa de funcionar.
18:01.
VPN bloqueada.
Usuário revogado.
E-mail desabilitado.
Token cancelado.
RACF executa seu trabalho.
REVOKE USER .............. RC=00
DELETE ACCESS ............ RC=00
DISABLE VPN .............. RC=00
RETURN NOTEBOOK .......... RC=00
INVALIDATE BADGE ......... RC=00
Excelente.
Auditoria satisfeita.
Segurança satisfeita.
Procurement satisfeito.
Projeto encerrado.
Só esqueceram um comando.
ERASE EXPERIENCE ......... RC=12
Tentamos novamente.
DELETE FROM HUMAN_MEMORY
WHERE COMPANY = 'BANCO-A';
Resultado:
SQLCODE = -99999
FUNCTION NOT SUPPORTED.
Houston, temos um problema.
Ou melhor:
Morpheus, temos um problema.
Porque aquele profissional acabou de atravessar a catraca levando consigo algo que nenhum detector de metais consegue encontrar.
Conhecimento.
Pegue seu café.
Hoje vamos entrar numa das salas mais estranhas da Matrix corporativa.
💊 Duas pílulas sobre a mesa
Morpheus oferece novamente duas possibilidades.
🔵 Pílula azul:
O profissional assinou contratos.
Existem políticas de segurança.
Existem cláusulas de confidencialidade.
Existem leis.
Existem controles de acesso.
Existem responsabilidades éticas.
Segredo empresarial continua sendo segredo empresarial depois que o contrato termina.
Correto.
Agora a outra.
🔴 Pílula vermelha:
O contrato pode impedir legitimamente determinadas divulgações.
Mas não consegue apagar aquilo que o cérebro aprendeu.
Também correto.
Nosso problema começa exatamente entre essas duas verdades.
🧠 Afinal, o que saiu pela catraca?
Vamos imaginar um programador COBOL contratado para trabalhar dois anos em determinado sistema financeiro.
Quando entrou, conhecia:
COBOL
JCL
CICS
DB2
VSAM
MQ
MAINFRAME
Dois anos depois, continua conhecendo tudo isso.
Mas agora também sabe outras coisas.
Conhece padrões arquiteturais.
Entende determinados processos.
Conhece problemas recorrentes.
Aprendeu como grandes volumes se comportam.
Viu decisões funcionarem.
Viu decisões fracassarem.
Participou de incidentes.
Conheceu integrações.
Aprendeu características daquele segmento de negócio.
Descobriu por que certas abordagens aparentemente óbvias não funcionam.
Percebeu gargalos.
Desenvolveu intuição.
Tudo isso cabe em qual classificação?
PUBLIC?
INTERNAL?
CONFIDENTIAL?
SECRET?
PROFESSIONAL EXPERIENCE?
Agora a coisa ficou interessante.
🔐 Segredo não é experiência
Precisamos estabelecer uma diferença fundamental.
Um profissional não ganha direito de sair distribuindo:
código proprietário,
dados de clientes,
credenciais,
documentação confidencial,
planos estratégicos,
informações comerciais protegidas,
segredos empresariais,
informações pessoais,
arquivos internos.
O fim do contrato não transforma material confidencial em domínio público.
Não existe:
IF CONTRACT = EXPIRED
MOVE CONFIDENTIAL TO PUBLIC
END-IF.
Isso seria absurdo.
Segurança, ética profissional, contratos, propriedade intelectual, proteção de dados e legislação continuam importantes.
Mas existe outra categoria.
Experiência.
Se durante um projeto você descobre que determinada arquitetura apresenta problemas de escalabilidade, não consegue simplesmente desaprender isso.
Se participa de um incidente causado por determinada decisão, aquela experiência passa a fazer parte do seu repertório.
Se descobre uma maneira melhor de organizar determinada rotina batch, você não volta magicamente ao estado anterior quando troca de empresa.
É aí que a fronteira começa.
🧳 A bagagem invisível
Imagine que nosso profissional atravesse a catraca carregando uma mochila.
Segurança verifica:
NOTEBOOK ............... DEVOLVIDO
TOKEN .................. DEVOLVIDO
DOCUMENTOS .............. OK
PENDRIVE ................ NENHUM
CELULAR ................. OK
Tudo certo.
Mas existe outra mochila.
Invisível.
Dentro dela:
EXPERIÊNCIA
│
├── decisões que funcionaram
├── decisões que fracassaram
├── padrões reconhecidos
├── conhecimento do setor
├── técnicas aprendidas
├── problemas já enfrentados
├── soluções experimentadas
├── intuição
└── memória profissional
Essa mochila pertence a quem?
A empresa?
Ao profissional?
A ambos?
Depende do conteúdo.
E talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis da economia do conhecimento.
🏦 Segunda-feira: Banco B
Nosso profissional terminou o projeto sexta-feira.
Existe um detalhe inconveniente.
Segunda-feira chegam:
aluguel,
energia,
água,
alimentação,
escola,
transporte,
impostos,
financiamento,
cartão,
boletos.
Os boletos possuem uma arquitetura extraordinariamente resiliente.
EMPLOYMENT STATUS = INACTIVE
BILLING STATUS = ACTIVE
🤣
O profissional precisa encontrar outro projeto.
Abre o LinkedIn.
Atualiza o perfil.
OPEN TO WORK
E aparece uma oportunidade.
Banco B.
Concorrente do Banco A.
Precisam exatamente de alguém com:
experiência em sistemas financeiros de grande porte.
Ora...
Foi exatamente isso que Banco A passou dois anos ensinando indiretamente ao profissional.
E aqui aparece o paradoxo.
Banco A queria alguém experiente quando contratou.
Banco B também quer.
Mas de onde vem experiência?
De experiências anteriores.
🐔 O ovo e a galinha da experiência
Toda vaga sênior possui uma frase aproximadamente assim:
Necessária experiência comprovada no setor.
Traduzindo:
PROCURA-SE ALGUÉM
QUE TENHA APRENDIDO
TRABALHANDO PARA OUTRA PESSOA.
Isso é perfeitamente normal.
É assim que profissões evoluem.
Mas existe uma tensão interessante.
Empresas querem contratar experiência acumulada em outros lugares.
Ao mesmo tempo, naturalmente prefeririam que conhecimentos estratégicos adquiridos dentro delas não beneficiassem concorrentes.
As duas coisas não são completamente compatíveis.
Não podemos dizer:
Quero seus vinte anos de experiência.
e simultaneamente:
Mas tudo aquilo que aprender aqui deverá desaparecer da sua cabeça quando sair.
A humanidade ainda não implementou essa API.
🧓 O veterano carrega erros pagos por outros
Existe algo ainda mais valioso que soluções.
Erros.
Um profissional experiente carrega um verdadeiro cemitério de decisões ruins.
SOLUÇÃO A
RESULTADO: FALHOU
SOLUÇÃO B
RESULTADO: CARA DEMAIS
SOLUÇÃO C
RESULTADO: FUNCIONOU PARCIALMENTE
SOLUÇÃO D
RESULTADO: FUNCIONOU
No próximo projeto alguém propõe A.
O veterano imediatamente diz:
— Eu evitaria isso.
— Por quê?
— Já vi dar problema.
Pronto.
Talvez tenha acabado de economizar seis meses e alguns milhões.
Ele roubou segredo empresarial?
Não necessariamente.
Pode simplesmente ter utilizado experiência profissional legítima.
E aqui aparece uma frase que deveria estar em toda discussão sobre senioridade:
Experiência é, em parte, um banco de dados de erros que alguém já pagou para você presenciar.
Quanto vale isso?
Boa pergunta.
💰 O custo invisível da terceirização
Quando procurement compara alternativas, a planilha talvez apresente:
MODELO A - FUNCIONÁRIO
CUSTO: XXXXX
MODELO B - CONSULTORIA
CUSTO: XXXX
MODELO C - TERCEIRIZAÇÃO
CUSTO: XXX
MODELO D - QUARTEIRIZAÇÃO
CUSTO: XX
Excelente.
Mas talvez estejam faltando algumas colunas.
RETENÇÃO DE CONHECIMENTO ............. ???
TRANSFERÊNCIA DE KNOW-HOW ............ ???
ROTATIVIDADE ......................... ???
RECONSTRUÇÃO DE CONTEXTO ............. ???
DEPENDÊNCIA DE TERCEIROS ............. ???
EXPOSIÇÃO COMPETITIVA ................ ???
TEMPO PARA TREINAR SUBSTITUTO ........ ???
De repente o modelo mais barato ficou um pouco mais difícil de identificar.
Isso não significa que terceirizar seja errado.
Existem excelentes razões para terceirização.
Elasticidade.
Especialização.
Velocidade.
Acesso a talentos.
Redução de estruturas permanentes.
Projetos temporários.
Transferência de determinadas responsabilidades.
Tudo legítimo.
A pílula vermelha não diz:
Terceirização é ruim.
Ela pergunta:
Estamos contabilizando todos os custos da terceirização ou apenas aqueles que cabem facilmente numa planilha?
🧱 E então terceirizamos a terceirização
Agora vamos adicionar algumas camadas.
BANCO
↓
CONSULTORIA A
↓
CONSULTORIA B
↓
FORNECEDOR C
↓
PROFISSIONAL
O banco possui contrato com A.
A possui contrato com B.
B possui contrato com C.
C encontrou o profissional.
Cada camada pode possuir controles perfeitamente válidos.
Mas surge uma questão de governança:
qual é o vínculo real entre o profissional que conhece o sistema e a organização proprietária daquele sistema?
Talvez muito pequeno.
Ele pode não possuir:
carreira dentro do banco,
perspectiva de longo prazo,
participação futura,
estabilidade,
identificação organizacional,
incentivo econômico para permanecer.
Mas pode possuir:
ACCESS TO CRITICAL SYSTEM = YES
KNOWLEDGE OF BUSINESS = YES
INCIDENT EXPERIENCE = YES
ARCHITECTURE KNOWLEDGE = YES
LONG-TERM RELATIONSHIP = NO
Essa combinação deveria pelo menos despertar curiosidade.
🕶️ Agent Smith entra na sala
Agent Smith olha a planilha.
— Mr. Anderson, seu contrato termina sexta-feira.
Anderson responde:
— Certo.
— Você devolverá o notebook.
— Sim.
— Seu acesso será revogado.
— Sim.
— Não poderá levar arquivos.
— Evidentemente.
— Não poderá divulgar informações confidenciais.
— Concordo.
Smith faz uma pausa.
— E tudo que aprendeu aqui?
Anderson olha para Morpheus.
Morpheus sorri.
Não existe checkbox para isso.
⏳ A meia-vida do conhecimento
Agora chegamos a um conceito fascinante.
Nem todo conhecimento mantém seu valor estratégico para sempre.
Algumas informações envelhecem rapidamente.
Outras sobrevivem décadas.
Podemos imaginar uma espécie de:
Meia-Vida do Conhecimento
Um segredo sobre uma operação que acontecerá amanhã pode valer muito hoje.
Na semana seguinte talvez valha quase nada.
Uma negociação empresarial pode ser altamente sensível durante meses.
Depois de concluída e anunciada, seu valor confidencial muda.
Uma estratégia tecnológica pode permanecer relevante durante anos.
Conhecimento de negócio pode durar muito mais.
E experiência?
Experiência pode acompanhar o profissional pelo resto da vida.
CREDENCIAL ............... HORAS / DIAS
OPERAÇÃO ................. DIAS
NEGOCIAÇÃO ............... MESES
ROADMAP .................. MESES / ANOS
ARQUITETURA .............. ANOS
REGRA DE NEGÓCIO ......... ANOS
KNOW-HOW .................. DÉCADAS
EXPERIÊNCIA .............. VIDA
Não é uma escala científica.
É um modelo mental.
Mas ajuda a perceber algo fundamental:
informações possuem velocidades diferentes de envelhecimento.
🌳 Garden Leave: quando a empresa compra tempo
Algumas organizações e profissões reconhecem exatamente esse problema.
Em determinadas relações contratuais e jurisdições existe aquilo que costuma ser chamado de garden leave.
Simplificando muito:
o profissional deixa de atuar operacionalmente, mas permanece remunerado durante determinado período e sujeito às condições aplicáveis ao vínculo.
Por quê?
Tempo.
A empresa está, entre outras coisas, comprando distância temporal.
Durante esse período:
projetos avançam,
estratégias mudam,
negociações terminam,
preços mudam,
equipes mudam,
informações envelhecem.
O profissional deixa de receber conhecimento novo.
Parte do conhecimento sensível que carregava perde valor competitivo.
É quase:
KNOWLEDGE-TTL
Time To Live.
Isso não apaga memória.
Mas permite que determinadas informações percam atualidade.
💵 Espere... então conhecimento possui preço?
Aqui aparece uma ironia maravilhosa.
Se uma organização aceita pagar alguém durante meses para que ele não leve imediatamente determinado conhecimento para outro contexto competitivo, ela implicitamente reconhece uma coisa:
aquilo que está na cabeça dele possui valor econômico.
Pense nisso.
Não estamos mais discutindo metafísica.
Existe dinheiro sendo utilizado para administrar a velocidade com que conhecimento circula.
CONHECIMENTO SENSÍVEL
+
TEMPO
=
REDUÇÃO POTENCIAL
DO VALOR ESTRATÉGICO
Naturalmente isso depende de legislação, contrato, função e jurisdição.
Não é uma solução universal.
Mas conceitualmente é extraordinário.
🤔 E o quarteirizado?
Agora coloque as duas situações lado a lado.
EXECUTIVO / FUNÇÃO ESTRATÉGICA
Sai
↓
Afastamento remunerado
↓
Tempo
↓
Informação envelhece
↓
Mercado
Agora:
QUARTEIRIZADO
Sai sexta 18h
↓
Sem projeto
↓
Sem receita
↓
Boletos
↓
Segunda 08h
↓
Mercado
Não estou dizendo que deveriam receber tratamento idêntico.
Responsabilidades, contratos e níveis de acesso são diferentes.
Mas existe uma pergunta legítima:
Será que classificamos corretamente a sensibilidade pelo cargo ou deveríamos classificá-la também pelo conhecimento efetivamente acumulado?
Porque o organograma pode dizer:
EXTERNAL RESOURCE
enquanto a realidade diz:
KNOWS WHERE THE BODIES ARE BURIED
Metaforicamente, espero.
😂
🔐 Zero Trust deveria chegar ao conhecimento?
Segurança moderna trabalha muito com princípios como:
least privilege,
need to know,
segregation of duties,
zero trust,
monitoramento,
auditoria.
Excelente.
Mas frequentemente pensamos principalmente em acesso.
CAN USER READ DATASET X?
Talvez precisemos perguntar também:
WHY DOES USER NEED TO KNOW X?
FOR HOW LONG?
WHAT WILL USER KNOW AFTER PROJECT?
WHO WILL RETAIN THIS KNOWLEDGE?
Isso muda a conversa.
Porque controle de acesso é temporal.
Conhecimento adquirido é cumulativo.
📚 Documentar também é segurança
Existe outro lado do problema.
Quando o terceirizado vai embora levando experiência, talvez o maior risco nem seja aquilo que ele leva.
Pode ser aquilo que a empresa perde.
Ele conhecia determinado processo.
Saiu.
Ninguém documentou.
Seis meses depois:
— Por que isso funciona assim?
Resposta:
— Pergunta para o fulano.
— Onde está?
— Saiu.
Parabéns.
Criamos um SPOF.
Single Point of Failure.
Só que feito de carne, café e COBOL.
CRITICAL KNOWLEDGE
COPIES = 1
STATUS = LEFT COMPANY
Isso é um incidente esperando acontecer.
🧠 Knowledge Escrow
Talvez organizações precisem pensar em algo semelhante a um escrow de conhecimento.
Antes que pessoas críticas saiam:
documentar decisões,
registrar racional arquitetural,
capturar runbooks,
fazer sessões de transferência,
parear profissionais,
registrar incidentes históricos,
explicar exceções,
mapear dependências,
preservar contexto.
Não para tentar copiar uma pessoa.
Isso é impossível.
Mas para reduzir:
BUS FACTOR = 1
Ou, na versão Bellacosa:
LOTTERY FACTOR = 1
Porque ninguém precisa ser atropelado por um ônibus.
Pode simplesmente ganhar na Mega-Sena e decidir nunca mais responder ao Teams.
O risco é exatamente o mesmo.
🤣
🤖 E agora temos IA
Aqui nossa Matrix ganha outra camada.
Imagine uma organização capaz de capturar:
documentação,
decisões arquiteturais,
post-mortems,
runbooks,
histórico técnico,
FAQs,
padrões,
explicações.
Uma IA corporativa pode ajudar a tornar esse conhecimento pesquisável.
Interessante.
Mas cuidado.
Porque agora temos outro problema:
o repositório de conhecimento tornou-se ele próprio um ativo extremamente sensível.
Antes:
SEGREDOS ESPALHADOS
EM 200 CABEÇAS
Depois:
SEGREDOS INDEXADOS
NUM ÚNICO SISTEMA
PESQUISÁVEL
EM LINGUAGEM NATURAL
Parabéns.
Resolvemos um problema.
Criamos outro.
Bem-vindo à segurança da informação.
⚖️ Ética continua sendo fundamental
Existe algo que nenhuma arquitetura substitui.
Ética profissional.
Um especialista pode trabalhar para cinco bancos durante a carreira.
Isso não significa que deva chegar ao Banco B dizendo:
Vou contar como Banco A faz tudo.
Profissionais constroem reputação justamente sabendo separar:
aquilo que aprenderam
daquilo que não têm direito de revelar.
Essa fronteira nem sempre é simples.
Mas existe.
E profissionais experientes normalmente entendem que confiança também é patrimônio.
Talvez um dos ativos mais importantes da carreira.
Você pode levar experiência para o próximo projeto.
Mas se levar segredos indevidamente, talvez leve também algo que destrua sua própria reputação.
🔵 A pílula azul está certa
Precisamos reconhecer:
empresas precisam contratar temporariamente.
Nem todo profissional precisa virar funcionário permanente.
Contratos de confidencialidade são necessários.
Controles técnicos funcionam.
A maioria dos profissionais é ética.
Experiência precisa circular.
Mobilidade profissional é saudável.
Mercados precisam de conhecimento circulando.
Tudo verdadeiro.
🔴 A pílula vermelha também
Agora o outro lado.
Quanto mais fragmentamos relações profissionais...
quanto mais terceirizamos...
quanto mais quarteirizamos...
quanto mais transformamos especialistas em recursos temporários...
maior pode se tornar a circulação das pessoas.
E pessoas carregam experiência.
Logo:
ALTA ROTATIVIDADE
↓
ALTA CIRCULAÇÃO DE PESSOAS
↓
ALTA CIRCULAÇÃO DE EXPERIÊNCIA
Não necessariamente de segredos.
De experiência.
E talvez seja exatamente isso que o modelo econômico pretendia comprar quando contratou aquele profissional experiente.
Aqui está o paradoxo completo.
🐇 Follow the white rabbit
Então talvez uma organização madura devesse perguntar antes de terceirizar:
O conhecimento envolvido é commodity ou estratégico?
Quanto tempo ele permanece sensível?
Quem precisa realmente acessá-lo?
Quanto conhecimento tácito será criado?
Como será transferido?
Quem permanecerá depois do projeto?
Existe documentação suficiente?
Existe redundância humana?
Existe plano de saída?
Existe retenção seletiva para funções críticas?
Existem obrigações claras de confidencialidade?
O profissional entende essas obrigações?
A cadeia de subcontratação é conhecida?
Quem responde por quem?
E principalmente:
Estamos terceirizando trabalho ou terceirizando memória institucional?
Essa pergunta muda tudo.
🕶️ Wake up, Neo
Sexta-feira.
18:00.
Nosso profissional atravessa a catraca.
O crachá fica.
O notebook fica.
O token fica.
O código fica.
Os datasets ficam.
Os documentos ficam.
As credenciais ficam.
Mas alguma coisa atravessa a porta.
Trinta anos de experiência.
Dois anos de contexto.
Centenas de decisões observadas.
Dezenas de incidentes.
Milhares de pequenas conexões mentais.
Segunda-feira ele precisa trabalhar novamente.
Talvez no concorrente.
Isso não faz dele traidor.
Faz dele trabalhador.
E talvez seja responsabilidade da organização ter projetado sua arquitetura considerando essa possibilidade desde o primeiro dia.
Porque segurança madura não depende de:
"Espero que essa pessoa nunca vá embora."
Isso não é controle.
É fé.
☕ Cambio final, Torre de Controle
Talvez tenhamos cometido um erro conceitual durante décadas.
Tratamos conhecimento como se fosse arquivo.
Arquivo possui owner.
Arquivo possui ACL.
Arquivo possui backup.
Arquivo possui classificação.
Arquivo pode ser apagado.
Conhecimento não funciona exatamente assim.
Você pode revogar acesso ao sistema.
Mas não pode revogar a experiência produzida pelo acesso anterior.
Pode exigir confidencialidade.
Mas não pode exigir amnésia.
Pode proteger segredos.
Mas não pode impedir que profissionais aprendam.
E ainda bem.
Porque se conseguíssemos impedir conhecimento de circular, provavelmente ainda estaríamos reinventando os mesmos erros geração após geração.
A questão, portanto, não é:
como impedir o profissional de levar conhecimento?
Talvez seja:
Como proteger aquilo que realmente precisa permanecer secreto enquanto permitimos que experiência legítima continue fazendo aquilo que conhecimento sempre fez — circular, combinar-se e produzir conhecimento novo?
Essa é uma pergunta muito mais difícil.
E muito mais interessante.
Na próxima sexta-feira, quando algum profissional crítico terminar o projeto, não pergunte apenas:
USER REVOKED?
Pergunte:
KNOWLEDGE RETAINED?
E depois:
CONFIDENTIALITY PROTECTED?
E finalmente:
CRITICAL KNOWLEDGE
DEPENDENT ON ONE HUMAN?
Y/N
Se a resposta for Y...
talvez o problema nunca tenha sido o profissional atravessar a catraca.
Talvez o problema tenha começado anos antes, quando decidimos colocar conhecimento estratégico dentro de uma pessoa temporária sem construir uma arquitetura para preservá-lo.
IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. DELETE-USER.
DATA DIVISION.
WORKING-STORAGE SECTION.
01 WS-ACCESS PIC X VALUE 'Y'.
01 WS-MEMORY PIC X VALUE 'Y'.
01 WS-EXPERIENCE PIC X VALUE 'Y'.
PROCEDURE DIVISION.
MOVE 'N' TO WS-ACCESS.
DISPLAY 'ACCESS REVOKED'.
IF WS-MEMORY = 'Y'
DISPLAY 'MEMORY STILL ACTIVE'
END-IF.
IF WS-EXPERIENCE = 'Y'
DISPLAY 'EXPERIENCE LEAVING BUILDING'
END-IF.
DISPLAY 'DESIGN FOR PEOPLE TO LEAVE.'.
STOP RUN.
🔴🔵
Wake up, Neo.
DELETE USER apaga o usuário.
Não apaga o que ele aprendeu.
E talvez a verdadeira segurança não seja tentar impedir o conhecimento de atravessar a catraca.
Talvez seja construir uma organização que saiba exatamente o que pode atravessar, o que precisa ser protegido e o que não pode desaparecer quando aquela pessoa for embora.
☕ Cambio final, Torre de Controle.