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domingo, 9 de agosto de 2026

DELETE USER não apaga memória: o quarteirizado, o segredo empresarial e o conhecimento que atravessa a catraca

Bellacosa Mainframe e o delete user


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

DELETE USER não apaga memória: o quarteirizado, o segredo empresarial e o conhecimento que atravessa a catraca

🔴🔵 Matrix, COBOL e o paradoxo das empresas que querem profissionais experientes, mas não querem que a experiência adquirida dentro delas saia pela porta

Por Vagner Bellacosa


Sexta-feira.

17:58.

O projeto terminou.

Depois de dois anos trabalhando dentro de um grande banco, nosso personagem recebe a última mensagem.

Obrigado pela colaboração.

17:59.

O notebook é devolvido.

18:00.

O crachá deixa de funcionar.

18:01.

VPN bloqueada.

Usuário revogado.

E-mail desabilitado.

Token cancelado.

RACF executa seu trabalho.

REVOKE USER .............. RC=00
DELETE ACCESS ............ RC=00
DISABLE VPN .............. RC=00
RETURN NOTEBOOK .......... RC=00
INVALIDATE BADGE ......... RC=00

Excelente.

Auditoria satisfeita.

Segurança satisfeita.

Procurement satisfeito.

Projeto encerrado.

Só esqueceram um comando.

ERASE EXPERIENCE ......... RC=12

Tentamos novamente.

DELETE FROM HUMAN_MEMORY
 WHERE COMPANY = 'BANCO-A';

Resultado:

SQLCODE = -99999

FUNCTION NOT SUPPORTED.

Houston, temos um problema.

Ou melhor:

Morpheus, temos um problema.

Porque aquele profissional acabou de atravessar a catraca levando consigo algo que nenhum detector de metais consegue encontrar.

Conhecimento.

Pegue seu café.

Hoje vamos entrar numa das salas mais estranhas da Matrix corporativa.


💊 Duas pílulas sobre a mesa

Morpheus oferece novamente duas possibilidades.

🔵 Pílula azul:

O profissional assinou contratos.

Existem políticas de segurança.

Existem cláusulas de confidencialidade.

Existem leis.

Existem controles de acesso.

Existem responsabilidades éticas.

Segredo empresarial continua sendo segredo empresarial depois que o contrato termina.

Correto.

Agora a outra.

🔴 Pílula vermelha:

O contrato pode impedir legitimamente determinadas divulgações.

Mas não consegue apagar aquilo que o cérebro aprendeu.

Também correto.

Nosso problema começa exatamente entre essas duas verdades.


🧠 Afinal, o que saiu pela catraca?

Vamos imaginar um programador COBOL contratado para trabalhar dois anos em determinado sistema financeiro.

Quando entrou, conhecia:

COBOL
JCL
CICS
DB2
VSAM
MQ
MAINFRAME

Dois anos depois, continua conhecendo tudo isso.

Mas agora também sabe outras coisas.

Conhece padrões arquiteturais.

Entende determinados processos.

Conhece problemas recorrentes.

Aprendeu como grandes volumes se comportam.

Viu decisões funcionarem.

Viu decisões fracassarem.

Participou de incidentes.

Conheceu integrações.

Aprendeu características daquele segmento de negócio.

Descobriu por que certas abordagens aparentemente óbvias não funcionam.

Percebeu gargalos.

Desenvolveu intuição.

Tudo isso cabe em qual classificação?

PUBLIC?
INTERNAL?
CONFIDENTIAL?
SECRET?
PROFESSIONAL EXPERIENCE?

Agora a coisa ficou interessante.


🔐 Segredo não é experiência

Precisamos estabelecer uma diferença fundamental.

Um profissional não ganha direito de sair distribuindo:

código proprietário,

dados de clientes,

credenciais,

documentação confidencial,

planos estratégicos,

informações comerciais protegidas,

segredos empresariais,

informações pessoais,

arquivos internos.

O fim do contrato não transforma material confidencial em domínio público.

Não existe:

IF CONTRACT = EXPIRED
   MOVE CONFIDENTIAL TO PUBLIC
END-IF.

Isso seria absurdo.

Segurança, ética profissional, contratos, propriedade intelectual, proteção de dados e legislação continuam importantes.

Mas existe outra categoria.

Experiência.

Se durante um projeto você descobre que determinada arquitetura apresenta problemas de escalabilidade, não consegue simplesmente desaprender isso.

Se participa de um incidente causado por determinada decisão, aquela experiência passa a fazer parte do seu repertório.

Se descobre uma maneira melhor de organizar determinada rotina batch, você não volta magicamente ao estado anterior quando troca de empresa.

É aí que a fronteira começa.


🧳 A bagagem invisível

Imagine que nosso profissional atravesse a catraca carregando uma mochila.

Segurança verifica:

NOTEBOOK ............... DEVOLVIDO
TOKEN .................. DEVOLVIDO
DOCUMENTOS .............. OK
PENDRIVE ................ NENHUM
CELULAR ................. OK

Tudo certo.

Mas existe outra mochila.

Invisível.

Dentro dela:

EXPERIÊNCIA
│
├── decisões que funcionaram
├── decisões que fracassaram
├── padrões reconhecidos
├── conhecimento do setor
├── técnicas aprendidas
├── problemas já enfrentados
├── soluções experimentadas
├── intuição
└── memória profissional

Essa mochila pertence a quem?

A empresa?

Ao profissional?

A ambos?

Depende do conteúdo.

E talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis da economia do conhecimento.


🏦 Segunda-feira: Banco B

Nosso profissional terminou o projeto sexta-feira.

Existe um detalhe inconveniente.

Segunda-feira chegam:

aluguel,

energia,

água,

alimentação,

escola,

transporte,

impostos,

financiamento,

cartão,

boletos.

Os boletos possuem uma arquitetura extraordinariamente resiliente.

EMPLOYMENT STATUS = INACTIVE

BILLING STATUS = ACTIVE

🤣

O profissional precisa encontrar outro projeto.

Abre o LinkedIn.

Atualiza o perfil.

OPEN TO WORK

E aparece uma oportunidade.

Banco B.

Concorrente do Banco A.

Precisam exatamente de alguém com:

experiência em sistemas financeiros de grande porte.

Ora...

Foi exatamente isso que Banco A passou dois anos ensinando indiretamente ao profissional.

E aqui aparece o paradoxo.

Banco A queria alguém experiente quando contratou.

Banco B também quer.

Mas de onde vem experiência?

De experiências anteriores.


🐔 O ovo e a galinha da experiência

Toda vaga sênior possui uma frase aproximadamente assim:

Necessária experiência comprovada no setor.

Traduzindo:

PROCURA-SE ALGUÉM
QUE TENHA APRENDIDO
TRABALHANDO PARA OUTRA PESSOA.

Isso é perfeitamente normal.

É assim que profissões evoluem.

Mas existe uma tensão interessante.

Empresas querem contratar experiência acumulada em outros lugares.

Ao mesmo tempo, naturalmente prefeririam que conhecimentos estratégicos adquiridos dentro delas não beneficiassem concorrentes.

As duas coisas não são completamente compatíveis.

Não podemos dizer:

Quero seus vinte anos de experiência.

e simultaneamente:

Mas tudo aquilo que aprender aqui deverá desaparecer da sua cabeça quando sair.

A humanidade ainda não implementou essa API.


🧓 O veterano carrega erros pagos por outros

Existe algo ainda mais valioso que soluções.

Erros.

Um profissional experiente carrega um verdadeiro cemitério de decisões ruins.

SOLUÇÃO A
RESULTADO: FALHOU

SOLUÇÃO B
RESULTADO: CARA DEMAIS

SOLUÇÃO C
RESULTADO: FUNCIONOU PARCIALMENTE

SOLUÇÃO D
RESULTADO: FUNCIONOU

No próximo projeto alguém propõe A.

O veterano imediatamente diz:

— Eu evitaria isso.

— Por quê?

— Já vi dar problema.

Pronto.

Talvez tenha acabado de economizar seis meses e alguns milhões.

Ele roubou segredo empresarial?

Não necessariamente.

Pode simplesmente ter utilizado experiência profissional legítima.

E aqui aparece uma frase que deveria estar em toda discussão sobre senioridade:

Experiência é, em parte, um banco de dados de erros que alguém já pagou para você presenciar.

Quanto vale isso?

Boa pergunta.


💰 O custo invisível da terceirização

Quando procurement compara alternativas, a planilha talvez apresente:

MODELO A - FUNCIONÁRIO
CUSTO: XXXXX

MODELO B - CONSULTORIA
CUSTO: XXXX

MODELO C - TERCEIRIZAÇÃO
CUSTO: XXX

MODELO D - QUARTEIRIZAÇÃO
CUSTO: XX

Excelente.

Mas talvez estejam faltando algumas colunas.

RETENÇÃO DE CONHECIMENTO ............. ???
TRANSFERÊNCIA DE KNOW-HOW ............ ???
ROTATIVIDADE ......................... ???
RECONSTRUÇÃO DE CONTEXTO ............. ???
DEPENDÊNCIA DE TERCEIROS ............. ???
EXPOSIÇÃO COMPETITIVA ................ ???
TEMPO PARA TREINAR SUBSTITUTO ........ ???

De repente o modelo mais barato ficou um pouco mais difícil de identificar.

Isso não significa que terceirizar seja errado.

Existem excelentes razões para terceirização.

Elasticidade.

Especialização.

Velocidade.

Acesso a talentos.

Redução de estruturas permanentes.

Projetos temporários.

Transferência de determinadas responsabilidades.

Tudo legítimo.

A pílula vermelha não diz:

Terceirização é ruim.

Ela pergunta:

Estamos contabilizando todos os custos da terceirização ou apenas aqueles que cabem facilmente numa planilha?


🧱 E então terceirizamos a terceirização

Agora vamos adicionar algumas camadas.

BANCO
  ↓
CONSULTORIA A
  ↓
CONSULTORIA B
  ↓
FORNECEDOR C
  ↓
PROFISSIONAL

O banco possui contrato com A.

A possui contrato com B.

B possui contrato com C.

C encontrou o profissional.

Cada camada pode possuir controles perfeitamente válidos.

Mas surge uma questão de governança:

qual é o vínculo real entre o profissional que conhece o sistema e a organização proprietária daquele sistema?

Talvez muito pequeno.

Ele pode não possuir:

carreira dentro do banco,

perspectiva de longo prazo,

participação futura,

estabilidade,

identificação organizacional,

incentivo econômico para permanecer.

Mas pode possuir:

ACCESS TO CRITICAL SYSTEM = YES
KNOWLEDGE OF BUSINESS     = YES
INCIDENT EXPERIENCE       = YES
ARCHITECTURE KNOWLEDGE    = YES
LONG-TERM RELATIONSHIP    = NO

Essa combinação deveria pelo menos despertar curiosidade.


🕶️ Agent Smith entra na sala

Agent Smith olha a planilha.

— Mr. Anderson, seu contrato termina sexta-feira.

Anderson responde:

— Certo.

— Você devolverá o notebook.

— Sim.

— Seu acesso será revogado.

— Sim.

— Não poderá levar arquivos.

— Evidentemente.

— Não poderá divulgar informações confidenciais.

— Concordo.

Smith faz uma pausa.

— E tudo que aprendeu aqui?

Anderson olha para Morpheus.

Morpheus sorri.

Não existe checkbox para isso.


⏳ A meia-vida do conhecimento

Agora chegamos a um conceito fascinante.

Nem todo conhecimento mantém seu valor estratégico para sempre.

Algumas informações envelhecem rapidamente.

Outras sobrevivem décadas.

Podemos imaginar uma espécie de:

Meia-Vida do Conhecimento

Um segredo sobre uma operação que acontecerá amanhã pode valer muito hoje.

Na semana seguinte talvez valha quase nada.

Uma negociação empresarial pode ser altamente sensível durante meses.

Depois de concluída e anunciada, seu valor confidencial muda.

Uma estratégia tecnológica pode permanecer relevante durante anos.

Conhecimento de negócio pode durar muito mais.

E experiência?

Experiência pode acompanhar o profissional pelo resto da vida.

CREDENCIAL ............... HORAS / DIAS
OPERAÇÃO ................. DIAS
NEGOCIAÇÃO ............... MESES
ROADMAP .................. MESES / ANOS
ARQUITETURA .............. ANOS
REGRA DE NEGÓCIO ......... ANOS
KNOW-HOW .................. DÉCADAS
EXPERIÊNCIA .............. VIDA

Não é uma escala científica.

É um modelo mental.

Mas ajuda a perceber algo fundamental:

informações possuem velocidades diferentes de envelhecimento.


🌳 Garden Leave: quando a empresa compra tempo

Algumas organizações e profissões reconhecem exatamente esse problema.

Em determinadas relações contratuais e jurisdições existe aquilo que costuma ser chamado de garden leave.

Simplificando muito:

o profissional deixa de atuar operacionalmente, mas permanece remunerado durante determinado período e sujeito às condições aplicáveis ao vínculo.

Por quê?

Tempo.

A empresa está, entre outras coisas, comprando distância temporal.

Durante esse período:

projetos avançam,

estratégias mudam,

negociações terminam,

preços mudam,

equipes mudam,

informações envelhecem.

O profissional deixa de receber conhecimento novo.

Parte do conhecimento sensível que carregava perde valor competitivo.

É quase:

KNOWLEDGE-TTL

Time To Live.

Isso não apaga memória.

Mas permite que determinadas informações percam atualidade.


💵 Espere... então conhecimento possui preço?

Aqui aparece uma ironia maravilhosa.

Se uma organização aceita pagar alguém durante meses para que ele não leve imediatamente determinado conhecimento para outro contexto competitivo, ela implicitamente reconhece uma coisa:

aquilo que está na cabeça dele possui valor econômico.

Pense nisso.

Não estamos mais discutindo metafísica.

Existe dinheiro sendo utilizado para administrar a velocidade com que conhecimento circula.

CONHECIMENTO SENSÍVEL
        +
TEMPO
        =
REDUÇÃO POTENCIAL
DO VALOR ESTRATÉGICO

Naturalmente isso depende de legislação, contrato, função e jurisdição.

Não é uma solução universal.

Mas conceitualmente é extraordinário.


🤔 E o quarteirizado?

Agora coloque as duas situações lado a lado.

EXECUTIVO / FUNÇÃO ESTRATÉGICA

Sai
 ↓
Afastamento remunerado
 ↓
Tempo
 ↓
Informação envelhece
 ↓
Mercado

Agora:

QUARTEIRIZADO

Sai sexta 18h
 ↓
Sem projeto
 ↓
Sem receita
 ↓
Boletos
 ↓
Segunda 08h
 ↓
Mercado

Não estou dizendo que deveriam receber tratamento idêntico.

Responsabilidades, contratos e níveis de acesso são diferentes.

Mas existe uma pergunta legítima:

Será que classificamos corretamente a sensibilidade pelo cargo ou deveríamos classificá-la também pelo conhecimento efetivamente acumulado?

Porque o organograma pode dizer:

EXTERNAL RESOURCE

enquanto a realidade diz:

KNOWS WHERE THE BODIES ARE BURIED

Metaforicamente, espero.

😂


🔐 Zero Trust deveria chegar ao conhecimento?

Segurança moderna trabalha muito com princípios como:

least privilege,

need to know,

segregation of duties,

zero trust,

monitoramento,

auditoria.

Excelente.

Mas frequentemente pensamos principalmente em acesso.

CAN USER READ DATASET X?

Talvez precisemos perguntar também:

WHY DOES USER NEED TO KNOW X?
FOR HOW LONG?
WHAT WILL USER KNOW AFTER PROJECT?
WHO WILL RETAIN THIS KNOWLEDGE?

Isso muda a conversa.

Porque controle de acesso é temporal.

Conhecimento adquirido é cumulativo.


📚 Documentar também é segurança

Existe outro lado do problema.

Quando o terceirizado vai embora levando experiência, talvez o maior risco nem seja aquilo que ele leva.

Pode ser aquilo que a empresa perde.

Ele conhecia determinado processo.

Saiu.

Ninguém documentou.

Seis meses depois:

— Por que isso funciona assim?

Resposta:

— Pergunta para o fulano.

— Onde está?

— Saiu.

Parabéns.

Criamos um SPOF.

Single Point of Failure.

Só que feito de carne, café e COBOL.

CRITICAL KNOWLEDGE
COPIES = 1

STATUS = LEFT COMPANY

Isso é um incidente esperando acontecer.


🧠 Knowledge Escrow

Talvez organizações precisem pensar em algo semelhante a um escrow de conhecimento.

Antes que pessoas críticas saiam:

documentar decisões,

registrar racional arquitetural,

capturar runbooks,

fazer sessões de transferência,

parear profissionais,

registrar incidentes históricos,

explicar exceções,

mapear dependências,

preservar contexto.

Não para tentar copiar uma pessoa.

Isso é impossível.

Mas para reduzir:

BUS FACTOR = 1

Ou, na versão Bellacosa:

LOTTERY FACTOR = 1

Porque ninguém precisa ser atropelado por um ônibus.

Pode simplesmente ganhar na Mega-Sena e decidir nunca mais responder ao Teams.

O risco é exatamente o mesmo.

🤣


🤖 E agora temos IA

Aqui nossa Matrix ganha outra camada.

Imagine uma organização capaz de capturar:

documentação,

decisões arquiteturais,

post-mortems,

runbooks,

histórico técnico,

FAQs,

padrões,

explicações.

Uma IA corporativa pode ajudar a tornar esse conhecimento pesquisável.

Interessante.

Mas cuidado.

Porque agora temos outro problema:

o repositório de conhecimento tornou-se ele próprio um ativo extremamente sensível.

Antes:

SEGREDOS ESPALHADOS
EM 200 CABEÇAS

Depois:

SEGREDOS INDEXADOS
NUM ÚNICO SISTEMA
PESQUISÁVEL
EM LINGUAGEM NATURAL

Parabéns.

Resolvemos um problema.

Criamos outro.

Bem-vindo à segurança da informação.


⚖️ Ética continua sendo fundamental

Existe algo que nenhuma arquitetura substitui.

Ética profissional.

Um especialista pode trabalhar para cinco bancos durante a carreira.

Isso não significa que deva chegar ao Banco B dizendo:

Vou contar como Banco A faz tudo.

Profissionais constroem reputação justamente sabendo separar:

aquilo que aprenderam

daquilo que não têm direito de revelar.

Essa fronteira nem sempre é simples.

Mas existe.

E profissionais experientes normalmente entendem que confiança também é patrimônio.

Talvez um dos ativos mais importantes da carreira.

Você pode levar experiência para o próximo projeto.

Mas se levar segredos indevidamente, talvez leve também algo que destrua sua própria reputação.


🔵 A pílula azul está certa

Precisamos reconhecer:

empresas precisam contratar temporariamente.

Nem todo profissional precisa virar funcionário permanente.

Contratos de confidencialidade são necessários.

Controles técnicos funcionam.

A maioria dos profissionais é ética.

Experiência precisa circular.

Mobilidade profissional é saudável.

Mercados precisam de conhecimento circulando.

Tudo verdadeiro.


🔴 A pílula vermelha também

Agora o outro lado.

Quanto mais fragmentamos relações profissionais...

quanto mais terceirizamos...

quanto mais quarteirizamos...

quanto mais transformamos especialistas em recursos temporários...

maior pode se tornar a circulação das pessoas.

E pessoas carregam experiência.

Logo:

ALTA ROTATIVIDADE
       ↓
ALTA CIRCULAÇÃO DE PESSOAS
       ↓
ALTA CIRCULAÇÃO DE EXPERIÊNCIA

Não necessariamente de segredos.

De experiência.

E talvez seja exatamente isso que o modelo econômico pretendia comprar quando contratou aquele profissional experiente.

Aqui está o paradoxo completo.


🐇 Follow the white rabbit

Então talvez uma organização madura devesse perguntar antes de terceirizar:

O conhecimento envolvido é commodity ou estratégico?

Quanto tempo ele permanece sensível?

Quem precisa realmente acessá-lo?

Quanto conhecimento tácito será criado?

Como será transferido?

Quem permanecerá depois do projeto?

Existe documentação suficiente?

Existe redundância humana?

Existe plano de saída?

Existe retenção seletiva para funções críticas?

Existem obrigações claras de confidencialidade?

O profissional entende essas obrigações?

A cadeia de subcontratação é conhecida?

Quem responde por quem?

E principalmente:

Estamos terceirizando trabalho ou terceirizando memória institucional?

Essa pergunta muda tudo.


🕶️ Wake up, Neo

Sexta-feira.

18:00.

Nosso profissional atravessa a catraca.

O crachá fica.

O notebook fica.

O token fica.

O código fica.

Os datasets ficam.

Os documentos ficam.

As credenciais ficam.

Mas alguma coisa atravessa a porta.

Trinta anos de experiência.

Dois anos de contexto.

Centenas de decisões observadas.

Dezenas de incidentes.

Milhares de pequenas conexões mentais.

Segunda-feira ele precisa trabalhar novamente.

Talvez no concorrente.

Isso não faz dele traidor.

Faz dele trabalhador.

E talvez seja responsabilidade da organização ter projetado sua arquitetura considerando essa possibilidade desde o primeiro dia.

Porque segurança madura não depende de:

"Espero que essa pessoa nunca vá embora."

Isso não é controle.

É fé.


☕ Cambio final, Torre de Controle

Talvez tenhamos cometido um erro conceitual durante décadas.

Tratamos conhecimento como se fosse arquivo.

Arquivo possui owner.

Arquivo possui ACL.

Arquivo possui backup.

Arquivo possui classificação.

Arquivo pode ser apagado.

Conhecimento não funciona exatamente assim.

Você pode revogar acesso ao sistema.

Mas não pode revogar a experiência produzida pelo acesso anterior.

Pode exigir confidencialidade.

Mas não pode exigir amnésia.

Pode proteger segredos.

Mas não pode impedir que profissionais aprendam.

E ainda bem.

Porque se conseguíssemos impedir conhecimento de circular, provavelmente ainda estaríamos reinventando os mesmos erros geração após geração.

A questão, portanto, não é:

como impedir o profissional de levar conhecimento?

Talvez seja:

Como proteger aquilo que realmente precisa permanecer secreto enquanto permitimos que experiência legítima continue fazendo aquilo que conhecimento sempre fez — circular, combinar-se e produzir conhecimento novo?

Essa é uma pergunta muito mais difícil.

E muito mais interessante.

Na próxima sexta-feira, quando algum profissional crítico terminar o projeto, não pergunte apenas:

USER REVOKED?

Pergunte:

KNOWLEDGE RETAINED?

E depois:

CONFIDENTIALITY PROTECTED?

E finalmente:

CRITICAL KNOWLEDGE
DEPENDENT ON ONE HUMAN?

Y/N

Se a resposta for Y...

talvez o problema nunca tenha sido o profissional atravessar a catraca.

Talvez o problema tenha começado anos antes, quando decidimos colocar conhecimento estratégico dentro de uma pessoa temporária sem construir uma arquitetura para preservá-lo.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. DELETE-USER.

       DATA DIVISION.
       WORKING-STORAGE SECTION.

       01 WS-ACCESS          PIC X VALUE 'Y'.
       01 WS-MEMORY          PIC X VALUE 'Y'.
       01 WS-EXPERIENCE      PIC X VALUE 'Y'.

       PROCEDURE DIVISION.

           MOVE 'N' TO WS-ACCESS.

           DISPLAY 'ACCESS REVOKED'.

           IF WS-MEMORY = 'Y'
               DISPLAY 'MEMORY STILL ACTIVE'
           END-IF.

           IF WS-EXPERIENCE = 'Y'
               DISPLAY 'EXPERIENCE LEAVING BUILDING'
           END-IF.

           DISPLAY 'DESIGN FOR PEOPLE TO LEAVE.'.

           STOP RUN.

🔴🔵

Wake up, Neo.

DELETE USER apaga o usuário.

Não apaga o que ele aprendeu.

E talvez a verdadeira segurança não seja tentar impedir o conhecimento de atravessar a catraca.

Talvez seja construir uma organização que saiba exatamente o que pode atravessar, o que precisa ser protegido e o que não pode desaparecer quando aquela pessoa for embora.

Cambio final, Torre de Controle.

sábado, 8 de agosto de 2026

Quanto Custa um Programador? Salário, custo de oportunidade, conhecimento tácito e o valor invisível de 30 anos de carreira

Bellacosa Mainframe quanto custa um programador

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quanto Custa um Programador?

Salário, custo de oportunidade, conhecimento tácito e o valor invisível de 30 anos de carreira

🔴🔵 Matrix, COBOL e a estranha economia onde sabemos o preço da hora, mas quase nunca sabemos o valor do conhecimento

Por Vagner Bellacosa


Existe uma pergunta aparentemente simples que empresas fazem todos os dias:

Quanto custa esse programador?

RH responde.

Procurement responde.

A consultoria responde.

O gerente responde.

O Excel responde.

Todo mundo parece conhecer a resposta.

R$ 50 por hora.

R$ 80.

R$ 120.

R$ 200.

R$ 300.

Depende da tecnologia, senioridade, contrato, localização, especialização e de uma dúzia de outras variáveis.

Simples.

Ou talvez não.

Pegue seu café.

Hoje Morpheus está esperando no CPD.

Sobre a mesa estão novamente duas pílulas.

🔵 A pílula azul pergunta:

Quanto custa contratar um programador por uma hora?

🔴 A vermelha pergunta:

Quanto custou produzir o profissional capaz de entregar aquela hora?

Parece a mesma pergunta.

Não é.

E talvez exista uma Matrix inteira escondida entre as duas respostas.


💊 A primeira Matrix: preço não é valor

Imagine um profissional COBOL com trinta anos de carreira.

Alguém olha sua contratação e escreve:

RESOURCE: COBOL DEVELOPER
LEVEL: SENIOR
RATE: R$ 100/H

Pronto.

Transformamos três décadas de vida numa linha de planilha.

Existe algo errado?

Não necessariamente.

Empresas precisam transformar coisas complexas em números.

Orçamentos precisam existir.

Projetos precisam ser estimados.

Contratos precisam estabelecer preços.

Não conseguimos escrever no procurement:

VALOR: DEPENDE DA HISTÓRIA DE VIDA DO CARLOS

O problema começa quando esquecemos que o preço utilizado para contratar alguma coisa não necessariamente representa seu valor total.

Preço é uma informação.

Valor é outra.

E conhecimento possui uma característica particularmente desagradável para planilhas:

ele é invisível.


🧑‍💻 Quanto custa fabricar um programador?

Vamos fazer um experimento.

Precisamos de um especialista.

COBOL.

JCL.

Db2.

CICS.

VSAM.

MQ.

Batch.

TSO/ISPF.

Um pouco de RACF.

Conhecimento de produção.

Experiência com sistemas financeiros.

Capacidade de diagnosticar incidentes.

Precisamos dele segunda-feira.

Onde compramos?

Não existe fábrica.

Não existe:

AMAZON
  ↓
COBOL SENIOR
  ↓
ENTREGA PRIME
  ↓
AMANHÃ ATÉ 22H

Aquele profissional precisou ser construído.

E sua fabricação talvez tenha começado décadas atrás.

Primeiro curso.

Primeiro emprego.

Primeiro programa.

Primeiro erro.

Primeiro abend.

Primeira madrugada.

Primeiro sistema crítico.

Primeira alteração que deu errado.

Primeira alteração que deu certo por um motivo que ele ainda não compreendia completamente.

Primeiro incidente sério.

Primeiro:

"Não mexa nisso."

Depois:

"Por quê?"

E finalmente, anos depois:

"Agora entendi por que ninguém mexia nisso."

Isso também é formação.


📚 O curso de R$ 1.000 que custou muito mais

Imagine que determinado treinamento custe R$ 1.000.

É tentador registrar:

CUSTO DO CONHECIMENTO = R$ 1.000

Mas talvez o profissional tenha estudado cem horas.

À noite.

Depois do trabalho.

Nos sábados.

Nos domingos.

Enquanto outras pessoas estavam viajando.

Assistindo televisão.

Namorando.

Brincando com os filhos.

Dormindo.

Vivendo.

Essas cem horas possuem valor.

Economistas chamam isso de custo de oportunidade.

Toda escolha implica abrir mão de outra possibilidade.

Quando escolhemos estudar, não sacrificamos apenas dinheiro.

Sacrificamos alternativas.

Agora multiplique isso por trinta anos.

Quantas noites?

Quantos finais de semana?

Quantos livros?

Quantos laboratórios?

Quantos cursos?

Quantas certificações?

Quantos experimentos?

Quantos programas escritos apenas para entender alguma coisa?

Quantos:

"Só mais meia hora..."

que viraram duas da manhã?

Existe uma linha que nunca aparece no currículo:

TEMPO INVESTIDO PARA ME TORNAR QUEM SOU: ????? HORAS

Talvez seja a linha mais cara de todas.


🧪 Você é seu próprio laboratório de P&D

Empresas investem em pesquisa e desenvolvimento.

Testam produtos.

Experimentam tecnologias.

Algumas dão certo.

Outras fracassam.

O profissional de tecnologia faz exatamente a mesma coisa consigo próprio.

Aprende uma linguagem.

Aprende um framework.

Compra um livro.

Monta um laboratório.

Estuda uma certificação.

Experimenta uma ferramenta.

Só que existe um pequeno detalhe.

Ele não sabe se aquele investimento dará retorno.

Em 1998 alguém diz:

"Aprenda X. É o futuro."

Você aprende.

Em 2001:

"Esqueça X. Agora todo mundo quer Y."

Você aprende Y.

Em 2008:

"Y morreu. O futuro é Z."

Lá vamos nós novamente.

Quem absorveu o custo das tecnologias que você estudou e nunca utilizou?

Você.

Quem pagou pelas noites?

Você.

Quem assumiu o risco de obsolescência?

Você.

Portanto, quando alguém diz que apenas a empresa assume risco, talvez devêssemos acrescentar uma pequena observação:

existem diferentes tipos de risco.

A empresa assume risco empresarial.

O profissional assume risco de carreira.

E carreira não possui UNDO.


⏳ Trinta anos não cabem em um currículo de duas páginas

Aqui começa algo fascinante.

Depois de algumas décadas, o profissional já não sabe apenas aquilo que consegue explicar.

Ele sabe coisas que simplesmente reconhece.

Olha um log.

Alguma coisa incomoda.

Olha uma sequência de jobs.

— Tem algo errado aqui.

O júnior pergunta:

— Onde?

O veterano responde:

— Ainda não sei.

Isso parece magia.

Não é.

É experiência acumulada.

Centenas de incidentes anteriores construíram padrões mentais.

O cérebro compara aquilo que está vendo com milhares de situações armazenadas.

É conhecimento tácito.


🧠 Conhecimento tácito: o arquivo que não está no SharePoint

Existe conhecimento explícito.

Manual.

Runbook.

Documentação.

Wiki.

Fluxograma.

JCL comentado.

Diagrama.

E existe conhecimento tácito.

É aquilo que alguém sabe porque viveu.

Por exemplo:

"Esse job pode atrasar vinte minutos normalmente. Se atrasar depois das 03:40, aí temos problema."

Onde está documentado?

Talvez em lugar nenhum.

"Esse campo parece inútil, mas o sistema da contabilidade ainda lê."

Documentado?

Talvez.

Atualizado?

Boa sorte.

"Nunca reinicie essa etapa sem verificar aquele arquivo."

Por quê?

— Em 2007 fizemos isso.

O que aconteceu?

— Melhor não repetir.

😂

Isso é conhecimento organizacional.

E frequentemente está armazenado na pior mídia de backup possível:

HUMAN BRAIN
SINGLE COPY
NO MIRROR
NO REPLICATION
NO DISASTER RECOVERY

Quando o profissional sai:

DELETE USER
REVOKE ACCESS
REMOVE EMAIL
RETURN NOTEBOOK

Perfeito.

Só esqueceram:

BACKUP EXPERIENCE

Comando inexistente.


💰 Então quanto custa aquela hora?

Agora podemos voltar ao nosso profissional.

O cliente paga hipoteticamente R$ 200/h.

Depois das camadas contratuais, o profissional talvez receba R$ 55/h.

Os números são ilustrativos.

Não estamos acusando ninguém.

Consultorias possuem custos.

Vendemm.

Recrutam.

Administram.

Gerenciam.

Assumem riscos.

Possuem impostos.

Mantêm estruturas.

Podem responder contratualmente pela entrega.

Tudo isso possui valor.

Mas nossa pergunta permanece:

Quanto dos R$ 200 representa acesso ao conhecimento acumulado do profissional e quanto desse valor chega a quem acumulou esse conhecimento?

Talvez a resposta seja perfeitamente razoável.

Talvez não.

Mas seria interessante conhecê-la.

Chamamos anteriormente essa diferença de:

Spread do Conhecimento

O cliente conhece quanto paga.

Cada intermediário conhece sua margem.

O profissional conhece quanto recebe.

Pouquíssimas pessoas conhecem a cadeia inteira.

CLIENTE
  │
  │ R$ 200/h
  ▼
CONSULTORIA
  │
  ▼
SUBCONTRATADA
  │
  ▼
FORNECEDOR
  │
  │ R$ 55/h
  ▼
PROFISSIONAL

Agora coloque atrás desse profissional:

30 ANOS DE EXPERIÊNCIA
MILHARES DE HORAS DE ESTUDO
DEZENAS DE PROJETOS
CENTENAS DE INCIDENTES
ERROS
ACERTOS
MADRUGADAS
CONHECIMENTO DE NEGÓCIO
CONHECIMENTO TÁCITO

R$ 55 continua sendo apenas preço.

A discussão sobre valor ficou bem mais complicada.


🏛️ E existe mais um participante na Matrix

Também precisamos lembrar do Estado.

CLT.

Contribuições.

Imposto de renda.

Previdência.

Tributos.

Benefícios.

Proteções.

Direitos.

Tudo isso faz parte da equação.

Novamente, duas pílulas.

🔵 A azul lembra corretamente:

direitos trabalhistas, previdência e proteção social possuem custos e benefícios reais.

🔴 A vermelha pergunta:

quanto da segurança futura de um trabalhador deveria depender de regras que podem mudar várias vezes durante uma carreira de quarenta ou cinquenta anos?

Não existe resposta simples.

A demografia muda.

A expectativa de vida muda.

A quantidade de contribuintes muda.

As contas públicas precisam fechar.

Reformas tornam-se necessárias.

Mas existe também a perspectiva humana.

A pessoa começou a trabalhar acreditando em determinada linha de chegada.

Décadas depois, pode encontrar outra regra.

É como executar:

PERFORM TRABALHAR
   UNTIL APOSENTADORIA.

e descobrir no meio da execução:

*** PROGRAM UPDATED ***
*** NEW CONDITIONS APPLIED ***

O sistema precisa sobreviver.

Mas o trabalhador também.


⌛ O ativo que ninguém consegue devolver

Dinheiro perdido pode ser recuperado.

Emprego perdido pode ser substituído.

Servidor quebrado pode ser trocado.

Dataset pode ser restaurado.

Programa pode voltar de backup.

Existe apenas um ativo sem restore:

TIME

Não existe:

RESTORE MY-LIFE
FROM BACKUP
WHERE YEAR BETWEEN 1995 AND 2010.

Os melhores anos profissionais também são anos de vida.

E frequentemente construímos uma promessa silenciosa:

"Depois eu faço."

Depois eu viajo.

Depois escrevo.

Depois estudo aquilo por prazer.

Depois vou conhecer aquele lugar.

Depois descanso.

Depois aproveito.

Depois da aposentadoria.

Talvez dê certo.

Tomara que dê.

Mas ninguém possui SLA sobre o futuro.

Essa talvez seja uma das pílulas vermelhas mais desconfortáveis de todas.


🕯️ O Sr. Dornelles e o valor que não aparece no extrato

E aqui preciso fazer uma pausa.

Não para falar de uma multinacional.

Nem de um CEO.

Nem de algum bilionário da tecnologia.

Quero falar simplesmente do Sr. Dornelles.

Durante muitos anos, uma página dedicada ao COBOL tornou-se parte da memória afetiva e técnica de muita gente da comunidade.

CADCOBOL.

Quem viveu determinadas épocas da Internet técnica brasileira sabe exatamente o que significavam páginas assim.

Não existia necessariamente uma grande equipe editorial.

Não havia uma máquina gigantesca de marketing.

Existia alguém compartilhando conhecimento.

Exemplos.

Explicações.

Material técnico.

COBOL.

Experiência.

E do outro lado existiam estudantes e profissionais procurando respostas.

ALGUÉM TEM UMA DÚVIDA
        ↓
PESQUISA
        ↓
ENCONTRA CADCOBOL
        ↓
LÊ
        ↓
ENTENDE
        ↓
RESOLVE
        ↓
SEGUE A VIDA

Talvez consiga emprego.

Talvez resolva um incidente.

Talvez ensine outra pessoa.

Talvez aquele conhecimento entre num programa.

Talvez esse programa permaneça anos em produção.

Uma pequena pedra cai no lago.

As ondas continuam muito depois de perdermos a pedra de vista.


🌊 Quanto vale uma página que ensinou milhares?

Essa pergunta é quase impossível.

Imagine milhares de acessos.

Cada pessoa economizando dez minutos.

Uma hora.

Um dia.

Imagine alguém conseguindo compreender COBOL graças a um exemplo.

Imagine alguém usando aquele aprendizado numa entrevista.

Imagine outro professor utilizando a explicação para preparar uma aula.

Outro profissional compartilhando o link.

Outro resolvendo um problema de produção.

Qual foi o valor econômico total?

Não sabemos.

Provavelmente jamais saberemos.

Mas sabemos uma coisa:

não foi zero.

Agora vem o paradoxo.

Para quem acessou:

CUSTO DO CONTEÚDO = R$ 0,00

Mas para quem produziu:

TEMPO
CONHECIMENTO
HOSPEDAGEM
DOMÍNIO
MANUTENÇÃO
ESTUDO
VIDA

Gratuito nunca significou sem custo.

Significava apenas que alguém do outro lado estava pagando a conta.


❤️ Quando a seta muda de direção

Durante anos:

SR. DORNELLES
       ↓
    CADCOBOL
       ↓
   COMUNIDADE

Conhecimento saindo.

Compartilhamento.

Ajuda.

Memória.

Experiência.

Então chega um momento difícil da vida.

E aquela seta precisa inverter:

SR. DORNELLES
       ↑
   COMUNIDADE

A comunidade ajuda.

Pessoas anônimas ajudam.

Colegas ajudam.

Isso é extraordinariamente bonito.

É humanidade funcionando.

Mas também deveria nos fazer pensar.

Não sobre uma pessoa específica.

Sobre nosso modelo de valorização do conhecimento.

Como alguém pode produzir durante décadas algo útil para milhares de pessoas e esse valor social acumulado não necessariamente se transformar em proteção econômica para seu próprio criador?

Não estou dizendo que alguém lhe devia royalties.

Não estou dizendo que cada pessoa que consultou uma página deveria ter pago.

Não estou procurando culpados.

Estou fazendo uma pergunta.

Morpheus também fazia perguntas.


🔴 A pílula vermelha do conhecimento gratuito

Nós adoramos conhecimento gratuito.

Eu adoro.

Você provavelmente também.

Software livre.

Documentação.

Blogs.

Vídeos.

Tutoriais.

Fóruns.

Stack Overflow.

GitHub.

Listas de discussão.

Páginas pessoais.

Quantas vezes nossa carreira foi salva por alguém que resolveu publicar gratuitamente aquilo que sabia?

Talvez centenas.

Mas raramente pensamos:

quem está pagando para esse conhecimento continuar existindo?

Existe uma economia invisível sustentando a Internet técnica.

Milhares de pessoas entregaram milhões de horas sem receber diretamente por elas.

E a sociedade tecnológica ficou extraordinariamente mais rica.

Só que os autores não ficaram necessariamente mais ricos junto com ela.

Essa é uma gigantesca externalidade positiva.

O conhecimento escapa.

Espalha-se.

Multiplica-se.

Produz valor em lugares que seu criador jamais conhecerá.

É maravilhoso.

E economicamente estranho.


🤖 Então chegou a IA

Agora a pergunta ficou ainda maior.

Durante décadas nós colocamos conhecimento na Internet.

Código.

Tutoriais.

Artigos.

Perguntas.

Respostas.

Livros.

Documentação.

Fóruns.

Repositórios.

Hoje construímos sistemas capazes de trabalhar sobre quantidades gigantescas de conhecimento humano.

Isso abre discussões jurídicas e econômicas enormes.

Mas existe uma pergunta filosófica anterior:

quanto da inteligência digital moderna nasceu de pessoas que simplesmente decidiram compartilhar aquilo que sabiam?

Não existe IA moderna sem uma história anterior de produção humana de conhecimento.

Não existe programador moderno isolado de tudo aquilo que outros programadores escreveram.

Somos todos, de alguma maneira, nós de uma enorme rede.

O conhecimento que recebi ontem entra naquilo que ensino amanhã.


🧓 Quanto vale um profissional de 30 anos?

Agora podemos finalmente responder à pergunta do título.

Quanto custa um programador com trinta anos de experiência?

Resposta:

não sabemos.

Sabemos quanto custa contratá-lo.

Isso é diferente.

Podemos calcular seu salário.

Sua hora.

Encargos.

Benefícios.

Margem.

Contrato.

Mas como colocamos preço em:

30 anos de decisões?

30 anos de erros?

30 anos de padrões reconhecidos?

30 anos de contatos profissionais?

30 anos de sistemas conhecidos?

30 anos de regras de negócio?

30 anos sabendo o que não fazer?

Essa última talvez seja uma das coisas mais valiosas.

O júnior sabe fazer.

O sênior sabe fazer melhor.

O veterano frequentemente sabe:

quando não fazer.

E evitar um erro pode valer muito mais do que escrever mil linhas de código.


🚨 O profissional de R$ 55 que vale R$ 50.000 às 03:17

Produção cai.

03:17.

War Room.

Executivos.

Operação.

DBA.

Sysprog.

Desenvolvimento.

Ninguém encontra a causa.

Até alguém perguntar:

— Quem conhecia isso?

Silêncio.

— O antigo analista.

— Chamem ele.

— O contrato acabou.

— Quando?

— Há dois anos.

Nesse momento ocorre uma transformação fascinante.

O mesmo conhecimento que procurement classificava como:

RATE = R$ 55/H

pode subitamente valer:

PRODUÇÃO PARADA = R$ ??????/MINUTO

Nada mudou na cabeça daquele profissional.

Mudou nossa percepção.

Talvez valor sempre estivesse ali.

Apenas não aparecia no Excel.


🕶️ Wake up, Neo

Talvez Thomas Anderson nunca tenha sido apenas um programador preso numa realidade simulada.

Talvez ele seja uma metáfora perfeita para o profissional moderno.

Durante o dia:

EMPLOYEE_ID
SALARY
JOB_TITLE
RATE
COST_CENTER

A organização sabe exatamente quanto Anderson custa.

Mas Neo começa a fazer outra pergunta:

Quanto vale aquilo que Anderson sabe?

Essa é a verdadeira pílula vermelha.

Não significa pedir demissão.

Não significa odiar empresas.

Não significa atacar bancos.

Não significa demonizar consultorias.

Não significa abandonar a CLT.

Não significa rejeitar previdência.

Não significa cobrar por cada tutorial que você publicou.

Significa apenas:

entender a arquitetura.


🔴🔵 As duas pílulas continuam sobre a mesa

🔵 Pílula azul

Seu salário é o preço acordado pelo seu trabalho.

Empresas assumem riscos.

Consultorias adicionam serviços.

Intermediários possuem custos.

O Estado oferece proteção e cobra por ela.

Contratos existem porque organizações precisam funcionar.

Tudo isso é verdade.

🔴 Pílula vermelha

Seu salário não mede necessariamente todo o valor do seu conhecimento.

Sua formação possui custos invisíveis.

Seu tempo possui custo de oportunidade.

Sua carreira contém risco.

Seu conhecimento tácito pode desaparecer quando você sair.

As regras podem mudar durante décadas.

Conhecimento gratuito possui custo.

E talvez aquilo que você sabe seja economicamente muito mais valioso do que aquilo que aparece no seu contracheque.

Isso também pode ser verdade.

As pílulas não precisam destruir uma à outra.

Talvez maturidade seja conseguir enxergar as duas.


☕ Cambio final, Torre de Controle

Depois de trinta anos, talvez a pergunta errada seja:

"Quanto ganha um programador?"

A pergunta interessante é:

"Quanto custou construir aquele programador?"

Cursos.

Livros.

Computadores.

Certificações.

Horas.

Noites.

Sábados.

Domingos.

Projetos.

Fracassos.

Sucessos.

Abends.

Produção.

Incidentes.

Amigos.

Mentores.

Professores.

Páginas como CADCOBOL.

Pessoas como o Sr. Dornelles.

Milhares de pequenos fragmentos de conhecimento emprestados por pessoas que vieram antes.

Tudo isso está sentado naquela cadeira.

Então alguém abre uma planilha.

Olha para o profissional.

E escreve:

RESOURCE COST = R$ 55/H

Talvez esteja correto.

Como preço.

Mas nunca confunda isso com a resposta para:

VALUE OF KNOWLEDGE = ?

Essa variável continua sem PIC.

Talvez seja grande demais.

E se algum dia você encontrar uma página antiga, um tutorial esquecido, um vídeo com poucas visualizações ou um veterano explicando gratuitamente algo que levou trinta anos para aprender...

pare um instante.

Leia.

Aprenda.

Compartilhe.

Agradeça.

Se puder, ajude a preservar.

Porque talvez você esteja diante de uma coisa que nossa Matrix ainda não aprendeu a contabilizar:

patrimônio humano.

E patrimônio humano possui uma característica curiosa.

Quando uma máquina antiga desaparece, podemos procurar outra no museu.

Quando um manual desaparece, talvez exista uma cópia.

Quando um dataset desaparece, talvez exista backup.

Quando uma pessoa que carregava décadas de conhecimento desaparece...

IEC999I KNOWLEDGE NOT FOUND
BACKUP DATASET DOES NOT EXIST
RETURN CODE = 12

Não existe restore.

Não existe rollback.

Não existe UNDO.

Só resta aquilo que ela conseguiu transmitir.

Por isso talvez nossa maior responsabilidade como comunidade não seja apenas aprender.

É preservar quem ensina, reconhecer quem compartilha e transmitir adiante aquilo que recebemos.

Sr. Dornelles:

esta xícara é para o senhor.

Não como caridade.

Não como dívida.

Mas como reconhecimento.

Porque em algum ponto da carreira de milhares de profissionais existe uma linha invisível de código que talvez tenha começado numa página chamada CADCOBOL.

E nenhuma folha de pagamento jamais será capaz de calcular completamente o valor disso.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. KNOWLEDGE-VALUE.

       DATA DIVISION.
       WORKING-STORAGE SECTION.

       01 WS-SALARY              PIC 9(09)V99.
       01 WS-HOURLY-RATE         PIC 9(07)V99.
       01 WS-KNOWLEDGE-VALUE     PIC X(30)
                                 VALUE 'IMPOSSIBLE TO CALCULATE'.

       PROCEDURE DIVISION.

           DISPLAY 'PRICE CAN BE MEASURED'.
           DISPLAY 'KNOWLEDGE CANNOT.'.

           DISPLAY 'REMEMBER WHO TAUGHT YOU.'.
           DISPLAY 'TEACH THE NEXT GENERATION.'.

           STOP RUN.

🔴🔵

Wake up, Neo.

Seu crachá sabe quanto você custa.

Seu contracheque sabe quanto você recebe.

O procurement sabe quanto sua hora custa.

A consultoria sabe sua margem.

O Estado sabe quanto você deve.

Os boletos sabem exatamente onde encontrá-lo.

Mas talvez ninguém saiba realmente...

quanto vale tudo aquilo que existe entre suas orelhas.

Cambio final, Torre de Controle.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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