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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Deir el-Medina: Greve, Cerveja, Fofoca, Paneb e o Escorpião que Inventou o RH

Bellacosa Mainframe e a divertida historia de Deir El Medina ostracos fofoqueiros

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Deir el-Medina: Greve, Cerveja, Fofoca, Paneb e o Escorpião que Inventou o RH

🏺 Há 3.200 anos o faraó tinha trabalhadores especializados, folha de presença, chefes problemáticos, salário atrasado, greve e desculpas para faltar ao serviço. Em outras palavras: inventamos muito pouco desde então.

Existe uma mentira confortável que contamos sobre o passado.

Imaginamos que os antigos eram antigos.

Homens solenes olhando para o horizonte.

Sacerdotes caminhando entre colunas.

Faraós contemplando a eternidade.

Escribas registrando os movimentos das estrelas.

Construtores erguendo monumentos destinados a desafiar os milênios.

Tudo acompanhado por alguma música épica de documentário.

Então aparece um pedaço de calcário de Deir el-Medina e diz:

O sujeito não veio trabalhar porque foi picado por um escorpião.

Pronto.

Acabaram-se três milênios de distância histórica.

Conhecemos esse sujeito.

Provavelmente já trabalhamos com ele.

E, considerando a quantidade de escorpiões no Egito, existe uma possibilidade bastante razoável de que o pobre coitado estivesse dizendo a mais absoluta verdade.

Mas isso não importa.

Porque em algum momento ocorreu uma conversa que, traduzida livremente para o idioma universal da burocracia, deve ter sido mais ou menos assim:

— Cadê o funcionário?

— Não veio.

— Motivo?

— Escorpião.

— CID?

— Ainda não inventaram.

— Atestado?

— Também não.

— Testemunha?

— O escorpião.

— Onde ele está?

— Foi promovido a falecido.

— Certo. Escreva na pedra.

E escreveram.



🦂 O escorpião entrou para a História

O British Museum conserva o óstraco EA5634, datado aproximadamente de 1250 a.C., durante o reinado de Ramsés II.

Não é uma piada moderna.

É essencialmente uma folha de presença.

São nomes de trabalhadores, dias e razões pelas quais determinadas pessoas não compareceram ao serviço.

O registro cobre nada menos que 280 dias.

E entre os motivos de ausência estão doenças, problemas nos olhos e a gloriosa anotação:

“The scorpion stung him.”

O escorpião o picou.

Há mais de cem registros relacionados a doença. Também aparecem trabalhadores afastados porque estavam acompanhando superiores para realizar trabalhos particulares — prática que, segundo o próprio British Museum, não era necessariamente proibida quando mantida dentro de certos limites.

Portanto, outra grande tradição corporativa já existia:

— Cadê Nakhtmin?

— O chefe levou.

— Para a obra?

— Não.

— Para onde?

— Resolver um negócio particular.

— Durante o expediente?

— Sim.

— Isso pode?

— Se não abusar.

Consultoria interna não faturável, versão Ramsés II.



🍺 Um brinde ao homem que estava fazendo cerveja

Entre as justificativas preservadas em registros de Deir el-Medina aparecem tarefas domésticas e atividades relacionadas à preparação de cerveja.

Antes de julgarmos nosso herói, porém, é necessário lembrar que cerveja no Egito antigo não era simplesmente o equivalente faraônico de alguém faltar ao escritório porque resolveu produzir uma IPA artesanal na garagem.

Era alimento.

Era parte da economia doméstica.

Era importante na vida cotidiana.

Portanto, “fazer cerveja” podia ser uma atividade perfeitamente legítima.

Mas não estraguemos uma ótima história com contexto histórico demais.

Ergamos nossos copos ao desconhecido trabalhador que, três milênios depois, continua involuntariamente representando todos aqueles que olharam para o trabalho numa segunda-feira e pensaram:

Hoje não.

🍺

Um brinde também ao escriba que registrou aquilo.

Porque fazer cerveja é temporário.

Documentar que alguém faltou para fazer cerveja é eternidade.



👽 Então chegaram os Vogons

Ou talvez eles já estivessem lá.

Douglas Adams imaginou uma raça alienígena tão burocrática que seria capaz de destruir a Terra porque os planos para uma via expressa interestelar estavam disponíveis para consulta em algum arquivo impossível de encontrar.

Mas Deir el-Medina sugere outra hipótese:

os Vogons fizeram estágio no Egito.

Imagine o Ministério das Tumbas Reais.

FORMULÁRIO DEM-27B — JUSTIFICATIVA DE AUSÊNCIA

Nome: ______________________

Equipe: ☐ esquerda ☐ direita

Motivo:

☐ doença
☐ problema ocular
☐ obrigação familiar
☐ serviço particular solicitado pelo chefe
☐ fabricação de cerveja
☐ atividade religiosa
☐ escorpião
☐ outros — anexar óstraco complementar

Em caso de escorpião, informar:

☐ picada confirmada
☐ tentativa de picada
☐ escorpião indisponível para depoimento
☐ escorpião morto durante o incidente

Assinatura do supervisor: __________________

Assinatura do escorpião: __________________



🏘️ Mas Deir el-Medina não era uma cidade qualquer

A graça da história fica ainda maior quando entendemos quem eram essas pessoas.

Deir el-Medina abrigava trabalhadores altamente especializados responsáveis pela construção e decoração das tumbas reais da região tebana.

Pedreiros.

Desenhistas.

Escultores.

Pintores.

Escribas.

Capatazes.

Artesãos.

Gente que trabalhava em um dos projetos tecnologicamente e artisticamente mais sofisticados de sua civilização.

E justamente porque aquela comunidade possuía um nível incomum de documentação, ela nos deixou algo extraordinário:

o cotidiano.

Os grandes monumentos dizem o que o Estado queria dizer.

Os óstracos dizem o que aconteceu enquanto o Estado estava olhando para outro lado.



🗣️ FOFOCA

Porque nenhuma tecnologia humana jamais superou a fofoca.

Antes da imprensa.

Antes do telefone.

Antes do WhatsApp.

Antes do Facebook.

Antes do Slack.

Antes do Teams.

Já existia:

“Você soube o que fulana fez?”

Deir el-Medina preservou cartas, reclamações, disputas domésticas, acusações e conflitos entre pessoas que viveram lado a lado durante gerações.

Era uma comunidade relativamente pequena.

Todo mundo conhecia todo mundo.

Filhos trabalhavam com filhos dos colegas.

Famílias casavam entre si.

Vizinhos discutiam.

Dívidas existiam.

Casamentos davam errado.

Autoridades eram chamadas para resolver conflitos.

Alguém inevitavelmente sabia alguma coisa sobre alguém.

Portanto, podemos propor com razoável segurança antropológica que o primeiro protocolo de comunicação distribuída realmente tolerante a falhas foi:

GOSSIP/1.0

FULANA disse
   ↓
para SICRANA
   ↓
que BELTRANA ouviu
   ↓
de outra pessoa
   ↓
que PANEB fez merda.

E então chegamos a Paneb.


😈 PANEB

Toda boa comunidade precisa de um personagem sobre o qual ninguém consegue contar uma história curta.

Deir el-Medina tinha Paneb.

O principal documento é o chamado Papiro Salt 124.

E aqui precisamos colocar um enorme:

⚠️ ALLEGEDLY

Paneb foi objeto de uma denúncia extraordinária.

As acusações atribuídas a Amennakht incluem suborno, roubo, violência, abuso de poder, irregularidades sexuais e outras condutas.

Mas existe uma questão maravilhosa para o historiador:

o denunciante tinha seus próprios interesses.

Paneb ocupava uma posição importante como chefe de trabalhadores, e o documento deve ser lido como uma acusação — não como sentença judicial moderna contendo fatos definitivamente comprovados.

Um estudo dedicado ao caso alerta justamente para possíveis exageros, distorções, boatos e parcialidade na denúncia.

Em outras palavras:

temos política de escritório.

Há 3.200 anos.

Paneb pode ter sido um canalha extraordinário.

Pode ter sido um canalha moderado com um inimigo extraordinariamente competente em produzir documentação.

Ou alguma combinação dos dois.

Mas a lista de acusações é tão impressionante que Paneb parece ter descoberto o conceito de compliance apenas para poder violá-lo sistematicamente.


📋 INCIDENT REPORT — PANEB

USER................ PANEB
ROLE................ CHIEF WORKMAN
ENVIRONMENT......... DEIR-EL-MEDINA
SEVERITY............. SEV-1
STATUS............... INVESTIGATING

ALLEGATIONS:

[!] abuso de autoridade
[!] violência
[!] apropriação indevida
[!] suborno
[!] uso irregular de trabalhadores
[!] comportamento sexual impróprio
[!] tretas diversas

ROOT CAUSE:
Pending investigation.

RECOMMENDED ACTION:
Do not give Paneb administrative privileges.

O mais fascinante é que o caso não nos revela apenas Paneb.

Revela conflito de interesse.

Quem acusa?

Por quê?

Quem ganha se o acusado perder o cargo?

Quanto da acusação é fato?

Quanto é interpretação?

Quanto é fofoca?

Quanto foi acrescentado porque, já que estamos denunciando o sujeito, podemos colocar aquela história do ano passado também?

Isso não é apenas arqueologia.

É uma reunião de RH.


⚖️ O primeiro princípio universal da política

Aqui Deir el-Medina ensina algo delicioso:

Duas pessoas podem observar exatamente o mesmo acontecimento e produzir narrativas completamente diferentes.

E nada demonstra isso melhor que a famosa greve.

No reinado de Ramsés III, problemas políticos e econômicos afetaram o fornecimento das rações que constituíam pagamento dos trabalhadores.

Eles trabalharam.

A remuneração não chegou adequadamente.

E os trabalhadores fizeram uma coisa revolucionariamente moderna:

pararam de trabalhar.

O chamado Papiro da Greve, hoje conservado pelo Museo Egizio de Turim, registra o conflito. O museu confirma que os trabalhadores interromperam suas atividades por causa das rações não entregues e que o conflito com as autoridades se prolongou.

E então podemos fazer uma experiência.

O mesmo acontecimento.

Dois jornais.


📰 THE THEBES CONSERVATIVE

🚨 RADICAIS PARALISAM PROJETO ESTRATÉGICO DO FARAÓ

Grupo organizado abandona postos, atravessa área de controle e pressiona autoridades em meio à delicada situação econômica do reino

Tebas — Trabalhadores envolvidos em projeto estratégico do Estado interromperam unilateralmente suas atividades e realizaram concentração nas proximidades de instalações religiosas.

O movimento ocorre em momento delicado para a administração de Ramsés III.

Representantes dos trabalhadores alegam problemas no fornecimento de rações.

Críticos, porém, questionam:

seria realmente necessário abandonar o trabalho?

Fontes próximas à administração lembram que dificuldades logísticas podem ocorrer em qualquer grande empreendimento.

Especialistas alertam que ceder às reivindicações poderá criar perigoso precedente:

Hoje querem grãos.

Amanhã quem sabe o quê?

Um cidadão ouvido pelo The Thebes Conservative, que pediu anonimato por trabalhar no Ministério dos Obeliscos, declarou:

— No meu tempo, se faltasse peixe, a gente trabalhava com fome.

Questionado sobre sua idade, respondeu:

— 24.


✊ A VOZ DO NILO

HERÓIS DO POVO CRUZAM OS BRAÇOS: “ESTAMOS COM FOME!”

Trabalhadores que constroem a eternidade do faraó exigem algo radical: receber pelo trabalho realizado

DEIR EL-MEDINA — Enquanto autoridades vivem cercadas pelas riquezas do reino, trabalhadores responsáveis pelas tumbas reais foram obrigados a interromper suas atividades após atrasos nas provisões essenciais.

Eles não exigiram palácios.

Não exigiram ouro.

Não exigiram carruagens.

Exigiram:

COMIDA.

Os trabalhadores atravessaram o posto de controle e fizeram uma espécie de ocupação pacífica próxima aos templos.

A mensagem dirigida às autoridades foi inequívoca:

“Estamos com fome!”

A administração, confrontada com a inédita possibilidade de que pessoas precisam comer para continuar trabalhando, iniciou negociações.


😂 MESMO INCIDENTE. DUAS TIMELINES.

E é justamente aí que a brincadeira deixa de ser apenas brincadeira.

O Museo Egizio preserva palavras extraordinárias dos trabalhadores.

Eles atravessaram o posto de controle dizendo:

“Estamos com fome!”

O documento informa que já haviam transcorrido 18 dias naquele mês e que os homens foram sentar-se atrás do templo funerário de Tutmés III. Diante das autoridades, explicaram que fome e sede os haviam levado àquela situação e pediram que suas palavras fossem transmitidas ao faraó e ao vizir.

É difícil encontrar uma reivindicação política mais simples.

Não era:

TRABALHADORES DE TODO O NILO, UNI-VOS!

Karl Marx demoraria aproximadamente outros três milênios para nascer.

Também não era:

ABAIXO O ESTADO FARAÔNICO!

Bakunin estava igualmente indisponível.

Era:

PAGUEM A COMIDA.


🚩 ANARQUISTAS!

Um comentarista conservador imaginário de 1150 a.C. certamente teria dito:

— Isso começa assim.

— Como?

— Primeiro eles reclamam das rações.

— Certo.

— Depois fazem uma paralisação.

— Sim.

— Daqui a pouco querem derrubar o faraó.

— Eles disseram isso?

— Não.

— Então de onde você tirou?

— É óbvio.

Enquanto nosso comentarista popular responderia:

— Esses homens constroem a eternidade do faraó e não conseguem receber o jantar?

E aí está a beleza.

Interesses diferentes produzem leituras diferentes do mesmo acontecimento.

O administrador precisa terminar a tumba.

O trabalhador precisa alimentar a família.

O escriba precisa registrar o problema.

O faraó provavelmente preferia que todo mundo simplesmente voltasse ao trabalho.

E o historiador, três mil anos depois, agradece profundamente porque:

ninguém conseguiu resolver a treta antes que fosse documentada.


🧑‍💼 O verdadeiro herói é o burocrata

Existe, entretanto, um personagem que merece nosso respeito.

O escriba.

Porque pense nisso.

Trabalhadores furiosos.

Administração pressionada.

Rações atrasadas.

Gente sentada no templo.

Negociação.

Reclamação.

Provavelmente todo mundo falando ao mesmo tempo.

E alguém pensou:

“É melhor documentar isso.”

Esse homem é o ancestral espiritual do operador que, no meio de um SEV-1, escreve:

14:37 - users report issue
14:42 - batch stopped
14:51 - management notified
15:03 - workers still hungry
15:07 - Pharaoh informed
15:09 - awaiting response

Graças a ele estamos rindo da situação três milênios depois.


🏺 A verdadeira máquina do tempo

É por isso que um óstraco pode ser mais emocionante do que uma estátua.

Uma estátua de Ramsés diz:

EU SOU RAMSÉS, PODEROSO REI.

Sabemos.

Obrigado, Ramsés.

Você escreveu isso em aproximadamente 40 mil lugares.

Mas o óstraco diz:

Pennub não veio trabalhar hoje.

Imediatamente quero saber:

Por quê?

Onde estava?

A mulher brigou com ele?

Estava doente?

Estava cuidando de alguém?

Foi fazer cerveja?

O chefe levou para algum serviço particular?

Ou...

🦂

foi o sacaninha do escorpião?


🦂 EM DEFESA DO ESCORPIÃO

Também devemos reconhecer que estamos ouvindo apenas um lado dessa história.

Durante aproximadamente 3.200 anos, o escorpião não teve direito de resposta.

O registro diz:

“The scorpion stung him.”

Mas onde está o depoimento do escorpião?

Onde está a perícia?

Havia testemunhas?

O trabalhador provocou o animal?

Tratava-se realmente de um escorpião?

O suspeito foi identificado numa fila?

Portanto, em nome dos princípios fundamentais da justiça:

inocente até prova em contrário.

O escorpião pode ter sido vítima de uma fraude trabalhista faraônica.

Imagine:

— Chefe, não vou conseguir ir.

— Por quê?

— Escorpião.

— De novo?

— Outro.

— Você mora onde?

— Deir el-Medina.

— Certo. Faz sentido.


🍺 E VOLTAMOS À CERVEJA

Talvez seja apropriado terminar exatamente onde começamos.

Com trabalhadores.

Não reis.

Não deuses.

Não generais.

Trabalhadores.

Pessoas que adoeciam.

Pessoas que cuidavam de parentes.

Pessoas que tinham problemas domésticos.

Pessoas que deviam dinheiro.

Pessoas que brigavam.

Pessoas que fofocavam.

Pessoas que acusavam outras pessoas.

Pessoas que tinham chefes.

Pessoas que eram chefes terríveis.

Pessoas que precisavam comer.

Pessoas que, quando não receberam, pararam de trabalhar.

Pessoas que eventualmente precisavam fazer cerveja.

E uma pessoa que, em algum momento, teve um encontro profissionalmente inconveniente com um escorpião.

Essa talvez seja a maior descoberta de Deir el-Medina:

não existe “homem antigo”.

Existe apenas o homem.

Mudam as ferramentas.

Mudam os governos.

Mudam os idiomas.

Mudam as religiões.

Calcário vira papiro.

Papiro vira papel.

Papel vira banco de dados.

Banco de dados vira ServiceNow.

Mas continua existindo:

FUNCIONÁRIO
   ↓
CHEFE
   ↓
PAGAMENTO
   ↓
FOFOCA
   ↓
TRETA
   ↓
FORMULÁRIO

E, ocasionalmente:

ESCORPIÃO
   ↓
INCIDENTE
   ↓
AUSÊNCIA
   ↓
JUSTIFICATIVA
   ↓
ARQUIVAMENTO
   ↓
3200 ANOS
   ↓
INTERNET
   ↓
NÓS RINDO

☕ Um último café em Deir el-Medina

Imagine sentar naquela aldeia ao fim do expediente.

O sol desaparecendo atrás das montanhas de Tebas.

Alguém trazendo pão.

Outro homem reclamando do supervisor.

Uma mulher contando o que a vizinha disse.

Um trabalhador dizendo que as rações continuam atrasadas.

Ao longe, Paneb provavelmente sendo acusado de alguma coisa.

O escriba anotando.

E alguém aparece carregando uma jarra.

— Quem fez a cerveja?

Silêncio.

Um homem levanta a mão.

— Você não deveria estar trabalhando hoje?

— Deveria.

— E por que não estava?

Ele aponta para a jarra.

Justo.

Sirva.

Porque reis morrerão.

Dinastias desaparecerão.

Impérios cairão.

A língua será esquecida.

As tumbas serão saqueadas.

E três milênios depois outros trabalhadores estarão sentados diante de máquinas incompreensíveis, reclamando do chefe, do salário, do colega, do governo e daquela reunião que poderia perfeitamente ter sido um e-mail.

Então levantemos a caneca.

🍺 Ao cervejeiro.

🦂 Ao escorpião — culpado ou injustamente acusado.

📜 Ao escriba que documentou a bagunça.

Aos perigosos revolucionários que cometeram o ato subversivo de querer receber o pagamento.

👔 À administração que provavelmente classificou tudo como problema temporário de logística.

😈 E a Paneb, que nos lembra que o primeiro requisito para existir compliance é alguém suficientemente criativo para tornar compliance necessário.

Mas principalmente:

um brinde às pessoas comuns de Deir el-Medina.

Os faraós gastaram fortunas tentando conquistar a imortalidade.

Construíram tumbas.

Esculpiram montanhas.

Cobriram paredes com seus nomes.

Mandaram escrever que seriam lembrados eternamente.

E funcionou.

Mas um trabalhador desconhecido conseguiu praticamente a mesma coisa faltando ao serviço porque...

um maldito escorpião o picou.

Douglas Adams teria compreendido perfeitamente.

DON'T PANIC.

Preencha o óstraco.

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PS: Construímos arranha-céus, satélites, inteligência artificial, PIX, computadores quânticos e mainframes capazes de processar bilhões de transações.

O escorpião continua conseguindo abrir incidente.

🦂 3.200 anos depois: o escorpião ainda está em produção

O faraó desapareceu.

Deir el-Medina foi abandonada.

O Império Romano acabou.

Os Vogons ainda aguardam aprovação do formulário A38.

COBOL apareceu.

A Internet apareceu.

A inteligência artificial apareceu.

Mas em algum lugar do Brasil um trabalhador manda mensagem:

“Chefe, não vou hoje. Fui picado por um escorpião.”

E, pela primeira vez, o gerente deveria respeitar não apenas o atestado.

Deveria respeitar a tradição histórica da justificativa.

É um processo de negócio com pelo menos 3.200 anos de uptime. 🦂😂



Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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