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domingo, 23 de agosto de 2026

O Coelho Branco da Censura

 

Bellacosa Mainframe em historias da epoca da censura

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Coelho Branco da Censura

Ou: enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez a informação simplesmente pegasse o ônibus


Existem histórias sobre censura que começam com generais.

Outras começam com jornalistas.

Algumas começam com compositores, escritores, cineastas, estudantes, sindicalistas, intelectuais ou políticos.

Esta começa com um sujeito olhando desesperadamente para o relógio.

Ele tem uma pasta debaixo do braço.

Alguns envelopes.

Talvez uma guia que precisa ser carimbada.

Uma assinatura que precisa buscar.

Um documento que deveria ter chegado ao outro lado da cidade quinze minutos atrás.

O ônibus não vem.

Ele olha novamente para o relógio.

Está atrasado.

Muito atrasado.

E, em algum escritório distante, existe uma Rainha de Copas corporativa pronta para berrar:

CORTEM-LHE A CABEÇA!

Ou, traduzindo para o português empresarial:

— Se você não entregar isso hoje, está na rua!

Nosso personagem não é jornalista.

Não é líder estudantil.

Não é guerrilheiro.

Não é agente secreto.

Não usa sobretudo.

Não possui câmera escondida dentro de uma caneta.

Não sabe artes marciais.

Provavelmente não dirige um Aston Martin.

Ele é apenas...

o office-boy.

O coadjuvante do coadjuvante.

E justamente por isso talvez seja uma das figuras mais interessantes para pensarmos quando falamos sobre circulação de informação num mundo anterior à Internet.



🐇 O Coelho Branco da burocracia

Quem viveu o escritório brasileiro antes da digitalização conhece aquele personagem.

— Leva isso ao banco.

— Passa no cartório.

— Entrega esse envelope.

— Busca assinatura no doutor Fulano.

— Depois vai à gráfica.

— Aproveita e deixa isto no prédio da Rua Boa Vista.

— Volta antes das quatro.

O garoto pega a pasta.

Olha para o relógio.

E começa a correr.

🐇💨

É difícil imaginar metáfora melhor que o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas.

Sempre atrasado.

Sempre atravessando portas.

Sempre desaparecendo por corredores.

Só que nosso Coelho Branco pega ônibus.

Entra numa repartição.

— É aqui que entrega?

— Terceiro andar.

Terceiro andar:

— Não, mudou para o prédio ao lado.

Prédio ao lado:

— Falta o carimbo.

— Onde carimba?

— No primeiro prédio.

CARALHO.

Volta correndo.

E Lewis Carroll provavelmente teria reconhecido imediatamente aquele universo.

Porque poucas coisas são tão próximas do País das Maravilhas quanto uma burocracia que exige um documento para fornecer o documento necessário para solicitar o documento anterior.



👑 A Rainha de Copas

Agora mudemos a câmera.

Estamos durante a ditadura militar brasileira.

Existe censura.

Textos são examinados.

Músicas são vetadas.

Filmes enfrentam cortes ou proibições.

Peças encontram obstáculos.

Reportagens podem desaparecer.

Há documentos, pareceres, processos, cópias, formulários e decisões circulando por estruturas administrativas.

E a imagem tradicional que construímos desse sistema costuma olhar para cima.

Quem mandava?

Quem censurava?

Quem foi censurado?

Quem resistiu?

Quem assinou?

Quem foi preso?

Quem publicou?

Perguntas fundamentais.

Mas existe outra pergunta muito menos glamourosa:

quem carregava os papéis?



📂 Para censurar uma informação, alguém precisa conhecê-la

Existe um pequeno paradoxo operacional em qualquer sistema de censura.

Para decidir que alguma coisa não deve circular, alguém precisa primeiro ter acesso àquilo.

A música precisa ser ouvida.

O texto precisa ser lido.

O filme precisa ser assistido.

O roteiro precisa ser analisado.

O jornal precisa ser examinado.

Isso gera registros.

Cópias.

Pareceres.

Anotações.

Protocolos.

Pessoas.

Em linguagem de mainframe:

CONTENT_STATUS = BLOCKED
REASON_CODE    = CENSURA
PAYLOAD        = RESTRICTED

O censor tenta eliminar o payload público.

Mas cria metadados.

E às vezes o metadado mais poderoso de todos é simplesmente:

CENSURADO

Porque essa palavra comunica duas coisas simultaneamente.

A primeira:

Você não pode ver isto.

A segunda:

Existe aqui alguma coisa que alguém não quer que você veja.

Adivinhe qual das duas interessa mais ao chimpanzé.

🐒

— Onde?



📰 O ancestral analógico do “não olhe”

Muito antes de Google, Twitter, Facebook, Reddit, TikTok ou qualquer algoritmo de recomendação, já existia um fenômeno profundamente humano:

proibir pode aumentar a curiosidade.

Isso não significa que censura seja ineficiente.

Seria historicamente absurdo afirmar isso.

Censura destruiu carreiras, impediu circulação de obras, dificultou acesso à informação e foi acompanhada por repressão muito mais séria que simplesmente riscar algumas linhas de jornal.

Mas existe uma diferença enorme entre:

informação invisivelmente eliminada

e

informação visivelmente proibida.

Quando o público percebe a intervenção, nasce uma pergunta:

O que havia ali?

E perguntas são criaturas perigosas.

Porque viajam sem precisar de papel.



📻 A informação aprende a procurar outra estrada

Uma música é proibida.

Mas alguém conhece a letra.

Outro ouviu num show.

Outro possui uma gravação.

Outro conta para um amigo.

Um texto desaparece.

Mas existe uma cópia.

Um mimeógrafo.

Uma universidade.

Uma redação.

Uma mala vindo do exterior.

Um filme não pode circular oficialmente.

Mas alguém encontra uma fita.

Outra pessoa copia.

Uma terceira leva para outra cidade.

Um quarto sujeito assiste.

Depois conta para vinte.

A arquitetura oficial funciona assim:

CENTRALIZAR → INSPECIONAR → AUTORIZAR

A cultura responde:

COPIAR → DISTRIBUIR → RECONTAR

De repente temos algo muito parecido com uma rede peer-to-peer.

Só que os peers usam sapatos.



🚌 Napster de ônibus

Hoje é fácil esquecer o custo físico da informação.

Copiar um arquivo:

Ctrl+C

Copiar uma fita cassete exigia outra fita.

Copiar VHS exigia equipamento e tempo.

Mimeografar exigia papel, matriz e tinta.

Fotocopiar custava dinheiro.

Transportar informação exigia pernas.

Carro.

Trem.

Ônibus.

Correio.

Mala.

E gente.

Muita gente.

A rede social existia antes da rede social.

Só não tinha botão Compartilhar.

Tinha:

— Passa isso para o Carlos.



🕵️ Todo mundo procura James Bond

Quando pensamos em vazamento de informação, nossa imaginação procura imediatamente alguém importante.

Um agente infiltrado.

Um funcionário graduado.

Um jornalista famoso.

Um intelectual.

Um opositor conhecido.

Alguém que mereça relatório, fotografia e vigilância.

Porque histórias gostam de protagonistas.

E instituições também.

Se chega à mesa de um chefe:

“Possível jornalista ligado à oposição.”

Interessante.

Investigue.

Agora chega:

“Office-boy de dezenove anos levou alguns envelopes para outro prédio.”

— E daí?

Aí mora uma vulnerabilidade organizacional maravilhosa.

Não porque office-boys fossem automaticamente agentes clandestinos.

Não eram.

Não devemos transformar uma possibilidade estrutural numa afirmação histórica sem documentação.

Mas porque sistemas frequentemente confundem:

baixo status

com

baixa relevância informacional.

E essas coisas não são iguais.



🔐 LOW PRIVILEGE, HIGH MOBILITY

O diretor possui poder.

Mas passa boa parte do dia dentro de determinada estrutura.

O office-boy possui quase nenhum poder.

Mas atravessa estruturas.

Diretoria.

Financeiro.

Banco.

Correio.

Cartório.

Gráfica.

Fornecedor.

Outro escritório.

Outra repartição.

Outra portaria.

Outro office-boy.

Ele pode possuir:

LOW FORMAL PRIVILEGE

mas simultaneamente:

HIGH PHYSICAL MOBILITY

HIGH CONTACT SURFACE

INCIDENTAL INFORMATION ACCESS

Para um profissional moderno de segurança, isso deveria soar familiar.

Porque aprendemos dolorosamente que uma conta aparentemente insignificante pode representar um caminho excelente até alguma coisa importante.



👻 A invisibilidade social

Existe ainda uma propriedade mais interessante.

Algumas pessoas tornam-se invisíveis não porque ninguém literalmente as veja, mas porque são percebidas como parte do ambiente.

O motorista está dirigindo.

A copeira está servindo café.

O faxineiro está limpando.

O porteiro está na porta.

O técnico está consertando alguma coisa.

O office-boy está esperando o envelope.

E pessoas conversam.

Às vezes conversam como se ninguém estivesse ali.

Deixam papéis sobre mesas.

Comentam nomes.

Discutem decisões.

Entregam envelopes.

Porque aquele sujeito não pertence ao círculo de poder.

Ele é cenário.

Só que cenário também possui olhos.

E ouvidos.

Daí nasce uma frase que merece ficar:

Invisibilidade social pode produzir visibilidade informacional.



🕸️ O organograma mentia

Pegue um organograma antigo.

Presidente.

Diretor.

Gerente.

Supervisor.

Funcionário.

Tudo perfeitamente hierárquico.

Agora desenhe outra rede por cima:

office-boy ↔ recepcionista ↔ motorista ↔ gráfica ↔ banco ↔ outro office-boy ↔ estudante ↔ jornalista ↔ músico

Essa rede não aparece no organograma.

Mas existe.

São relações construídas esperando elevador.

Tomando café.

Entregando documento.

Encontrando sempre o mesmo funcionário no protocolo.

Pegando ônibus.

Fazendo favor.

— Quando passar lá, entrega isso para mim?

Pronto.

Criamos outra aresta.

O organograma descreve autoridade.

Não necessariamente descreve circulação.



📼 A cópia que misteriosamente não morreu

E então chegamos às histórias deliciosamente nebulosas daquele período.

Uma obra desaparece oficialmente.

Mas reaparece.

Uma música proibida continua sendo conhecida.

Um texto circula.

Um panfleto aparece.

Uma gravação atravessa fronteiras.

Um filme encontra algum caminho alternativo.

Às vezes sabemos como.

Outras vezes a cadeia de transmissão se perde.

Décadas depois sobra apenas:

“Alguém conseguiu uma cópia.”

Quem?

Não sabemos.

E talvez justamente aí esteja uma das partes mais fascinantes da história da informação.

Nós lembramos de quem escreveu.

Lembramos de quem cantou.

Lembramos de quem dirigiu.

Lembramos de quem proibiu.

Mas frequentemente esquecemos de quem:

carregou.



🐇 O coadjuvante do coadjuvante

Imagine nosso personagem novamente.

Ele não está tentando derrubar governo nenhum.

Talvez nem saiba exatamente o que existe dentro da pasta.

Está preocupado com uma coisa muito mais urgente:

o ônibus está atrasado.

Olha o relógio.

Corre.

Entra no prédio.

Sobe.

Desce.

Pega assinatura.

Recebe outro envelope.

Alguém diz:

— Leva isso também.

Ele coloca na pasta.

E continua.

Enquanto a Rainha de Copas procura inimigos importantes...

🐇💨

...o Coelho Branco atravessa outra porta.

Essa é a imagem que me interessa.

Não porque possamos afirmar que todo office-boy era mensageiro clandestino.

Mas porque ela revela uma verdade organizacional muito maior:

Informação importante não precisa ser transportada por pessoas importantes.


💾 O office-boy desapareceu. A vulnerabilidade não.

Avancemos quarenta anos.

O office-boy praticamente desapareceu de muitos escritórios.

Documentos viraram arquivos.

Assinaturas viraram certificados.

Correspondência virou e-mail.

Memorandos viraram mensagens.

Pastas viraram diretórios.

O Coelho Branco ganhou login.

E então descobrimos:

conta de serviço esquecida;

usuário terceirizado;

credencial antiga;

fornecedor;

estagiário;

API mal configurada;

permissão herdada;

servidor legado.

O princípio permanece.

Todo mundo protege o CEO.

O atacante olha para a lavanderia.

Porque ninguém precisa invadir o portão principal do castelo quando existe uma janela lateral aberta.



🧠 Zero Trust encontrou o Coelho Branco

A segurança moderna criou expressões sofisticadas:

Least Privilege.

Need to Know.

Insider Threat.

Data Loss Prevention.

Zero Trust.

Por trás de todas existe uma descoberta pouco glamourosa:

não importa quanto poder alguém possui no organograma.

Importa:

o que consegue acessar, para onde consegue ir e o que consegue transportar.

O office-boy de ontem carregava envelopes.

A identidade digital de hoje carrega tokens.

Mudou o veículo.

Não mudou completamente o problema.



👑 A Rainha continua procurando protagonistas

Existe ainda uma lição para além da segurança.

Instituições adoram olhar para cima.

A imprensa olha para celebridades.

Empresas olham para executivos.

Governos olham para lideranças.

Historiadores olham para personagens conhecidos.

Algoritmos olham para aquilo que já possui atenção.

Enquanto isso, uma quantidade enorme de história acontece nas mãos de pessoas cujos nomes jamais chegam ao índice remissivo.

Alguém guardou aquele papel.

Alguém fez aquela cópia.

Alguém levou aquela fita.

Alguém entregou aquele envelope.

Alguém contou aquela história.

E provavelmente estava atrasado.



🐒 Os chimpanzés aparecem novamente

Evidentemente eles apareceriam.

Começamos falando sobre sonhos.

Fomos parar numa estação impossível da CPTM.

Depois loteria.

Depois Lost.

Depois números malditos.

Probabilidade.

Lei dos Grandes Números.

Um milhão de chimpanzés.

Imprensa.

Efeito VEJA.

Censura.

Vazamentos.

Office-boys.

Até que um sujeito atrasado olhando para o relógio resolveu atravessar correndo a história de Lewis Carroll.

Quando percebemos, havia outro artigo sobre a mesa.

Os chimpanzés são assim.

Você entrega uma máquina de escrever.

Eles devolvem uma banana.

Você pergunta sobre a banana.

Eles devolvem um artigo.



☕ Epílogo — A informação simplesmente pegou o ônibus

Talvez nunca saibamos quantas histórias sobreviveram porque alguém aparentemente irrelevante resolveu guardar alguma coisa.

Talvez nunca saibamos quantas informações atravessaram sistemas rígidos porque seus criadores observaram cuidadosamente os protagonistas...

e esqueceram dos figurantes.

Não devemos romantizar.

Havia risco.

Havia repressão.

Havia consequências reais.

E não devemos inventar heróis onde os documentos históricos não permitem encontrá-los.

Mas podemos aprender alguma coisa observando a arquitetura.

Sistemas de controle enxergam hierarquias.

Informação enxerga caminhos.

E caminhos podem passar pelos lugares mais improváveis.

Uma pasta.

Uma gráfica.

Um mimeógrafo.

Uma fita cassete.

Uma mala.

Um amigo.

Um office-boy.

Um ônibus.

Enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez alguma informação proibida estivesse simplesmente atravessando São Paulo no colo de um garoto desesperado porque precisava voltar ao escritório antes das cinco.

Ele olha para o relógio.

🐇

— Estou atrasado!

Corre.

A porta fecha.

O ônibus parte.

E dentro da pasta...

a história continua viajando.

Para ir mais longe



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P.S. — O que meu pai nunca me contou

Depois de terminar este causo, fiquei diante de uma pergunta muito menos divertida que o Coelho Branco, a Rainha de Copas e o office-boy correndo atrás do ônibus:

eu teria coragem de escrever tudo isso naquela época?

Não sei.

É fácil imaginar coragem retrospectiva.

Hoje posso sentar diante de um computador, escrever sobre censura, questionar autoridades, fazer piada, publicar, pesquisar documentos e transformar até os mecanismos de repressão em personagens de uma história de boteco.

Naquele tempo, a conta era outra.

E talvez eu saiba disso não apenas pelos livros.

Meu pai foi militar da Polícia do Exército entre 1969 e 1970.

Décadas depois, quando passávamos pela região da Estação da Luz, eu percebia nele uma reação particular diante do lugar que eu associaria mais tarde ao antigo DOPS.

Eu era apenas o filho.

Não conhecia organogramas da repressão.

Não sabia distinguir DOPS, DOI-CODI, Polícia do Exército ou qualquer uma das engrenagens daquele sistema.

Mas criança não precisa conhecer organograma para perceber medo.

Basta conhecer o rosto do próprio pai.

Hoje conheço muito mais sobre aquele período do que conhecia então.

Mas existe uma coisa que continuo não sabendo.

O que exatamente meu pai sabia?

O que ouviu?

O que viu?

O que lhe contaram?

Por que aquele lugar provocava aquela reação?

Não sei.

E não vou completar a história por ele.

Seria fácil juntar as datas, seu serviço militar, aquele prédio e minha lembrança e construir uma narrativa perfeita.

Perfeita demais.

Seria pintar o alvo depois do tiro.

Seria colocar o nosso famoso sexto dedo.

Há histórias em que aquilo que não sabemos precisa permanecer escrito exatamente assim:

não sei.

Talvez ele simplesmente conhecesse a reputação daquele lugar.

Talvez tivesse ouvido histórias durante o serviço militar.

Talvez existisse alguma experiência que nunca compartilhou comigo.

Talvez a explicação fosse outra.

A resposta pertencia a ele.

E foi embora com ele.

Foi então que percebi que havia esquecido um personagem neste artigo inteiro.

Falamos sobre o censor.

Sobre o censurado.

Sobre o jornalista.

Sobre o músico.

Sobre a fita clandestina.

Sobre o panfleto.

Sobre o documento que escapava.

Sobre o office-boy que atravessava a cidade carregando envelopes.

Mas existe uma forma de informação muito mais difícil de encontrar nos arquivos:

aquilo que alguém decidiu nunca contar.

A reportagem censurada pode deixar um espaço em branco.

A música proibida pode deixar um processo.

O filme cortado pode sobreviver numa cópia.

O panfleto clandestino pode reaparecer quarenta anos depois dentro de uma caixa.

Mas uma história que alguém resolveu guardar consigo talvez não deixe documento algum.

Nenhuma assinatura.

Nenhum protocolo.

Nenhum carimbo.

Nenhum arquivo.

Apenas pequenos sinais.

Uma mudança de expressão.

Um silêncio inesperado.

Um olhar para determinado prédio.

Talvez uma frase interrompida.

E um filho que percebe que alguma coisa aconteceu ali, embora não saiba exatamente o quê.

Foi assim que compreendi outra dimensão da censura.

A mais eficiente talvez não seja aquela que coloca um carimbo vermelho sobre uma página.

É aquela que consegue fazer alguém pensar:

“É melhor não falar sobre isso.”

Nesse momento o censor já nem precisa estar presente.

O medo executa o programa sozinho.

E talvez seja por isso que não consigo responder heroicamente à pergunta que abriu este P.S.

Eu teria escrito este artigo naquela época?

Gostaria de dizer que sim.

Seria uma bela história.

Eu, enfrentando a Rainha de Copas, escondendo textos na pasta do Coelho Branco e mandando a censura para /dev/null.

Mas não sei.

Eu vi, muitos anos depois, algo daquele período ainda existir no rosto do meu pai.

Isso basta para desconfiar de qualquer coragem que eu invente retrospectivamente para mim mesmo.

Hoje posso escrever.

Posso perguntar.

Posso discordar.

Posso pesquisar.

Posso publicar.

Posso olhar para um documento marcado CENSURADO e perguntar o que havia embaixo.

E posso contar que meu pai serviu na Polícia do Exército entre 1969 e 1970 e que havia coisas sobre aquele tempo que ele nunca me contou.

Sem acusá-lo.

Sem absolvê-lo.

Sem completar os espaços vazios.

Apenas preservando aquilo que realmente sei.

Porque talvez os arquivos mais difíceis de recuperar sejam justamente aqueles que nunca chegaram a ser gravados.

Meu pai carregou alguma coisa daquele período.

Não sei o quê.

Mas lembro do seu rosto.

E há memórias que o tempo não consegue censurar.






sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

Ou: antes do Teams, do escritório inteligente e do RH falar em “engajamento”, já existiam o Clube da Veja, o Clube da Bolacha, a vaquinha do aniversário, o churrasco da firma — e uma certa Rosalaine capaz de fazer um office-boy correr mais rápido que Hermes

Pegue um café.

Hoje não vamos falar de COBOL.

Não haverá CICS, Db2, VSAM, JCL nem abend misterioso esperando no fim do artigo.

Hoje vamos abrir um arquivo muito mais antigo e talvez mais complicado de restaurar.

O backup da memória.

A culpa começou com a revista Veja.

Outro dia, enquanto remexia algumas lembranças envolvendo a revista, aconteceu aquilo que frequentemente ocorre com quem já possui algumas décadas de dados armazenados no HD biológico: você procura um arquivo e descobre um diretório inteiro.

Uma lembrança chamou outra.

Depois outra.

E mais outra.

Quando percebi, não estava mais pensando na revista.

Estava novamente dentro de um escritório da Avenida Paulista, antes do ano 2000, numa época em que palavras como smart office, employee experience, collaboration platform, digital workplace e people analytics ainda não haviam sido inventadas para explicar coisas que nós simplesmente chamávamos de:

trabalhar com gente.

Para otimizar essa memória, convoquei três consultores especializados em observar o comportamento do brasileiro:

Laerte, Glauco e Angeli.

E, naturalmente, deixei o temível Leão de Chácara cuidando da porta.

Porque memória corporativa antiga não é assunto para amadores.


🏢 O escritório antes de virar “workspace”

Quem começou a trabalhar nas últimas duas décadas talvez tenha dificuldade para imaginar o tamanho de alguns departamentos empresariais dos anos 1980 e 1990.

Hoje uma atividade pode passar por ERP, workflow, e-mail, portal corporativo, API, chatbot, RPA, inteligência artificial e meia dúzia de sistemas.

Naquela época, boa parte dessa infraestrutura tinha nome, sobrenome e crachá.

Eram pessoas.

Muitas pessoas.

Departamentos com cinquenta, sessenta, oitenta funcionários não eram particularmente estranhos.

Alguns chegavam perto de uma centena.

Dentro deles havia setores menores, frequentemente três ou quatro, cada qual com sua chefia, suas mesas, seus arquivos, seus telefones e seus pequenos universos.

Existia o organograma oficial:

Diretor → Gerente → Chefes → Setores → Funcionários.

Mas havia outro organograma.

Nunca impresso.

Nunca aprovado pela diretoria.

Nunca enviado ao RH.

E provavelmente muito mais importante para entender como aquela empresa realmente funcionava.


Era o organograma social.

Nele estavam as secretárias, os office-boys, o pessoal que sabia onde ficava determinada pasta, quem conhecia alguém na contabilidade, quem sabia qual gerente estava de bom humor, quem organizava o aniversário, quem cobrava a vaquinha, quem fazia o café e quem sabia onde estava a revista que desaparecera havia três dias.

Era uma rede.

Só não chamávamos de rede social.


👩‍💼 A secretária era o roteador social do departamento

A secretária daquela época merece um capítulo próprio.

Aliás, merece uma homenagem.

Sua função formal podia envolver agenda, telefone, correspondência, documentos, reuniões e suporte administrativo.

Mas sua função real era muito maior.

Ela sabia quem estava de férias.

Quem faltara.

Quem precisava falar com o gerente.

Quem estava esperando uma ligação.

Quem fazia aniversário naquela semana.

Quem ia casar.

Quem acabara de ter filho.

Quem estava prestes a se aposentar.

Quem ainda não havia pago a vaquinha.

E, naturalmente, quem estava enrolando para pagar a assinatura da revista.

Em termos mainframeiros, a secretária era simultaneamente:

Scheduler + Service Desk + Workflow + Event Manager + Social Network + Knowledge Base.

Com uma vantagem importante:

ela conhecia as pessoas.

E existia uma hierarquia entre elas.

Cada setor podia possuir sua secretária e uma secretária departamental ajudava a coordenar aquele pequeno universo.

Não estava escrito no organograma informal.

Não precisava.

Todo mundo sabia.


📰 O Clube da Assinatura

Eis uma instituição praticamente desaparecida:

o Clube da Assinatura.

O departamento assinava uma revista.

No nosso caso, entre elas estava a Veja.

Cada participante contribuía com uma pequena cota e, quando chegava o vencimento, entrava em funcionamento um sofisticadíssimo sistema financeiro.

A secretária.

— Pessoal, chegou a hora da assinatura.

Pronto.

Começava a arrecadação.

Não havia PIX.

Não havia aplicativo.

Não havia link de pagamento.

Havia dinheiro, controle, cobrança e memória.

Especialmente memória.

Porque a secretária sabia perfeitamente quem ainda não tinha pago.

Quando a revista chegava, começava outro protocolo.

Ela circulava.

Alguém lia.

Passava para outro.

Esse levava para o almoço.

Outro perguntava:

— Cadê a Veja?

— Está com o fulano.

Era uma espécie de Token Ring editorial.

O pacote precisava circular pelos nós da rede até completar o percurso.

E ninguém precisava de Wi-Fi.


🍪 O Clube da Bolacha

Mas o verdadeiro sistema crítico ficava dentro de um armário.

O Clube da Bolacha.

Cada participante contribuía com um ticket-almoço e, com os recursos arrecadados, abastecíamos um dos armários do departamento.

Aquilo era um pequeno paraíso da gula.

Bolachas.

Biscoitos.

Doces.

Salgados.

Coisas destinadas a salvar funcionários naquele momento crítico entre o almoço e o fim do expediente.

Hoje talvez alguém criasse um projeto chamado:

Corporate Employee Snack Experience Initiative.

Nós chamávamos de:

armário da bolacha.

Funcionava perfeitamente.

Até alguém comer a última.

Aí tínhamos um incidente de produção.

— QUEM ACABOU COM A BOLACHA E NÃO AVISOU?

Severity 1.

War Room imediatamente.

Laerte, Glauco e Angeli poderiam passar uma semana naquele departamento e sair com material para cinco anos.


🎂 A indústria da vaquinha

Outro componente essencial da infraestrutura corporativa era a:

vaquinha.

Tudo justificava uma.

Aniversário?

Vaquinha.

Casamento?

Vaquinha.

Nascimento de filho?

Vaquinha.

Aposentadoria?

Vaquinha.

Dia da Secretária?

Vaquinha.

Ocasião especial?

Evidentemente:

vaquinha.

Nos aniversariantes do mês, juntava-se dinheiro para comprar bolo e alguma lembrancinha.

E então surgia outro artefato arqueológico maravilhoso:

o cartão.

O cartão circulava clandestinamente pelo departamento.

Todo mundo precisava assinar sem que o homenageado percebesse.

Era uma operação de inteligência.

— Passa para o João.

— Mas não deixa a Maria ver.

— O Carlos ainda não assinou.

— Cadê o cartão?

— Está no financeiro.

No final apareciam dezenas de assinaturas.

Algumas simplesmente:

Parabéns!

Outras:

Muitas felicidades!

Outras continham piadas internas que provavelmente seriam completamente indecifráveis para qualquer arqueólogo digital de 2126.

Mas aquele cartão tinha uma coisa que nenhum botão de 👍 conseguiu substituir completamente.

Ele havia passado pelas mãos das pessoas.



❤️ A empresa entrava um pouco na vida

É preciso tomar cuidado para não transformar nostalgia em história cor-de-rosa.

Os escritórios antigos também tinham problemas.

Hierarquias pesadas.

Burocracia.

Chefias ruins.

Fofocas.

Favoritismos.

Conflitos.

Tecnologia limitada.

Processos que hoje consideraríamos absurdamente ineficientes.

Não estou propondo ressuscitar tudo aquilo.

Mas havia uma característica interessante:

a fronteira entre vida profissional e convivência social era diferente.

Quando alguém casava, o departamento comemorava.

Quando nascia um filho, comemorava.

Quando alguém fazia aniversário, comemorava.

Quando se aposentava depois de décadas, aquilo era um acontecimento.

E quando algo ruim acontecia, aquela mesma rede também aparecia.

Éramos colegas de trabalho.

Mas frequentemente funcionávamos como uma espécie de família estendida.

Com todas as vantagens e todos os defeitos que famílias estendidas possuem.


🏃 E no meio disso tudo havia o office-boy

Agora chegamos ao personagem que vos escreve.

O office-boy.

Hoje talvez seja difícil explicar a importância daquele sujeito correndo de um lado para outro.

O office-boy atravessava a empresa inteira.

Levava documentos.

Buscava assinaturas.

Ia ao banco.

Passava pelo protocolo.

Entregava correspondência.

Subia.

Descia.

Entrava no elevador.

Saía do prédio.

Atravessava a Paulista.

Voltava.

Levava outro documento.

Recebia outra missão.

Era uma espécie de:

TCP/IP humano.

Os pacotes eram envelopes.

O roteamento era feito de memória.

E o traceroute podia envolver quinze andares e uma agência bancária.

Como office-boy, tive a sorte de conhecer muita gente.

E entre as pessoas que marcaram aqueles primeiros tempos estavam algumas das primeiras secretárias com quem trabalhei.

Elizabeth, nossa Bethinha.

Ana Maria.

Terezinha.

Cecilia.

Depois vieram Maria Aparecida, Nilce, Eliza, Benzão, Debora, Cristina, Adriana e tantas outras mulheres com quem tive a honra de trabalhar.

E havia...

Rosalaine.


🐺 “É o lobo... é o lobo!”

Rosalaine tinha uma característica impossível de registrar num currículo.

A voz.

Era uma voz de fada.

Angelical.

Leve.

Quase adolescente.

Mas Rosalaine era uma mulher adulta.

E havia um antigo personagem de desenho animado cuja fala eu adorava ouvi-la imitar.

Eu chegava perto.

— Rosalaine...

Ela provavelmente já sabia.

— O quê, Vagner?

— Fala.

— Falar o quê?

Eu insistia.

Até que vinha aquela voz:

— É o lobo... é o lobo!

Pronto.

Podia acabar o expediente.

O dia já tinha valido a pena.

Para aquele office-boy, ouvir Rosalaine dizendo “é o lobo, é o lobo” era praticamente um benefício corporativo não declarado.

E havia outro pequeno problema.

Eu era apaixonado por ela.

Consequentemente, o sistema de prioridades do office-boy apresentava uma pequena vulnerabilidade conhecida pelas demais secretárias.


⚡ SLA ROSALAINE

As outras perceberam rapidamente.

Pedido normal?

Vagner executava.

Pedido urgente?

Vagner corria.

Pedido da Rosalaine?

O espaço-tempo sofria uma pequena deformação.

E naturalmente começaram as piadas.

Uma delas ficou na memória:

“Se for a Rosalaine a pedir para o Vagner, ele faz mais rápido que Hermes.”

Eu provavelmente protestava.

— Nada a ver!

E elas:

— Sei...

— Eu faço rápido para todo mundo!

— Claro, Vagner.

— Faço mesmo!

Bastaria então alguém chamar:

— Rosalaine, pede você para ele.

Fim da discussão.

Porque provavelmente, antes que ela terminasse:

— Vagner, você poderia...

FUUUUSH!

Cadê o office-boy?

Já estava no elevador.


🪽 Mais rápido que Hermes

Décadas depois percebo que a piada era melhor do que talvez imaginássemos.

Hermes, na mitologia grega, era justamente o mensageiro dos deuses.

E o que fazia o office-boy?

Levava mensagens.

Documentos.

Envelopes.

Ordens.

Papéis.

Atravessava territórios carregando informação.

Eu era praticamente um Hermes corporativo da Avenida Paulista.

Só havia uma diferença.

Hermes tinha velocidade divina.

Eu tinha Rosalaine dizendo:

— Vagner...

Nesse momento, meu caro Hermes:

saia da frente.


🎄 O churrasco e a festa da firma

E então chegávamos ao encerramento anual daquele grande organismo social.

O churrasco.

Às vezes viajávamos para uma pousada da própria empresa.

Em outras ocasiões alugávamos uma chácara.

E lá ia o departamento.

Chefes.

Funcionários.

Secretárias.

Famílias.

Namorados.

Maridos.

Esposas.

Filhos.

O sujeito que durante onze meses aparecia impecavelmente vestido surgia de bermuda diante da churrasqueira.

O gerente encontrava seus subordinados fora do habitat corporativo.

As famílias finalmente conheciam aquelas pessoas cujos nomes ouviam durante o ano inteiro.

— Ahhh, então VOCÊ é o fulano!

Frase perigosíssima.

Dependendo da quantidade de cerveja consumida, segredos corporativos podiam começar a vazar.

E então havia a grande instituição:

A Festa de Final de Ano da Empresa

Comentadíssima.

Esperada.

Patrocinada pela empresa.

Não era simplesmente um evento no calendário.

Era um ritual.

Porque naquela época existia uma regra não escrita:

Não bastava ser funcionário. Tinha que participar.


🧠 A empresa que não aparecia no organograma

Quarenta anos depois, algo curioso acontece.

Eu não consigo lembrar de todos os documentos que transportei.

Não lembro de todos os protocolos.

Não lembro de cada assinatura que busquei.

Não lembro de cada tarefa considerada urgentíssima.

Muitas coisas pelas quais alguém provavelmente disse:

“Vagner, isso precisa estar pronto HOJE!”

desapareceram completamente.

Urgentíssimas em 1980 e tantos.

Irrelevantes em 2026.

Mas lembro do Clube da Assinatura.

Lembro do armário da bolacha.

Lembro das vaquinhas.

Lembro dos cartões.

Lembro dos aniversários.

Lembro dos churrascos.

Lembro das festas.

Lembro das secretárias.

E lembro de uma voz dizendo:

“É o lobo... é o lobo!”

Talvez exista uma lição interessante nisso.

A memória humana possui seu próprio algoritmo de retenção.

E aparentemente ele não respeita as prioridades corporativas.


🤖 Então chegou o escritório inteligente

Nas décadas seguintes fizemos uma coisa extraordinária.

Automatizamos.

Digitalizamos.

Otimizamos.

Reduzimos departamentos.

Criamos workflows.

ERPs.

CRMs.

Portais.

Self-service.

E-mail.

Mensagens instantâneas.

Videoconferência.

Automação.

Inteligência artificial.

Hoje equipes muito menores conseguem realizar trabalhos que antigamente exigiam dezenas de pessoas.

Isso é progresso.

Não tenho saudade de carregar papel porque alguém precisava fisicamente transportar informação entre dois pontos.

Não quero trocar APIs por office-boys.

Não quero substituir workflow por pastas circulando de mesa em mesa.

Seria absurdo.

Mas talvez tenhamos cometido um pequeno erro conceitual.

Ao eliminar a ineficiência, às vezes eliminamos junto coisas que não eram ineficiência.

O armário da bolacha não era workflow.

O cartão de aniversário não era processo.

A vaquinha do casamento não era produtividade.

O churrasco não era KPI.

A secretária sabendo que alguém estava vivendo uma semana difícil não era people analytics.

A piada sobre Rosalaine e Hermes não aparecia em nenhuma métrica de desempenho.

Mas tudo isso criava uma coisa dificílima de medir:

pertencimento.


🏭 Quando eficiência demais transforma gente em recurso

Hoje projetamos escritórios fantásticos.

Estações compartilhadas.

Hot desks.

Sensores.

Reserva automática de mesa.

Salas inteligentes.

Dashboards.

Indicadores de ocupação.

Colaboração remota.

Processos digitais.

Tudo muito eficiente.

Tudo muito funcional.

Mas existe uma pergunta que talvez devesse aparecer em algum desses dashboards:

As pessoas ainda conhecem umas às outras?

Não apenas o cargo.

Não apenas o avatar.

Não apenas o nome no Teams.

Conhecem?

Sabem quem está fazendo aniversário?

Sabem quem acabou de ter filho?

Sabem quem vai se aposentar?

Sabem quem conta a pior piada?

Sabem quem sempre rouba a última bolacha?

Existe algum equivalente moderno daquela secretária que percebia o departamento como um organismo humano?

Porque uma empresa pode otimizar perfeitamente o fluxo de trabalho e, ao mesmo tempo, transformar seres humanos em unidades intercambiáveis de capacidade.

E aí talvez tenhamos criado o escritório mais inteligente da história...

para tratar pessoas como gado com extraordinária eficiência.


🎨 Laerte, Glauco, Angeli e o departamento invisível

É justamente por isso que gosto de imaginar Laerte, Glauco e Angeli caminhando por aquele escritório.

Eles sabiam observar o Brasil que não aparece nos documentos oficiais.

O Brasil da conversa lateral.

Da piada.

Da fila.

Do cafezinho.

Do sujeito tentando escapar da vaquinha.

Da secretária que sabe tudo.

Do funcionário que esconde a revista.

Do armário comunitário.

Do chefe que muda completamente depois da segunda cerveja no churrasco.

E o Leão de Chácara?

Naturalmente ficaria na entrada.

Talvez cobrando:

— Você pagou a cota da bolacha?

— Ainda não.

— Então volta.

Governança.


☕ Epílogo — O mainframe social

Talvez aquela empresa antiga tivesse dois sistemas funcionando simultaneamente.

O primeiro processava negócios.

Pedidos.

Contas.

Contratos.

Documentos.

Pagamentos.

Relatórios.

O segundo processava gente.

Aniversários.

Casamentos.

Nascimentos.

Paixões.

Amizades.

Piadas.

Brigas.

Reconciliações.

Festas.

Café.

Bolachas.

O primeiro sistema foi substituído inúmeras vezes.

Mainframes, minis, PCs, cliente-servidor, web, cloud, APIs, inteligência artificial.

O segundo nunca teve documentação.

E talvez por isso tenhamos perdido partes dele durante a migração.

Esta história é uma pequena tentativa de restaurar o backup.

E principalmente uma homenagem carinhosa a Elizabeth, a Bethinha; Ana Maria; Terezinha; Cecilia; Maria Aparecida; Nilce; Eliza; Benzão; Debora; Cristina; Adriana e tantas outras secretárias com quem tive a honra de trabalhar.

Mulheres que provavelmente jamais aparecerão no organograma histórico dessas empresas, mas que ajudaram a fazer aqueles departamentos funcionarem como comunidades.

E, claro, uma lembrança especial para Rosalaine.

A mulher de voz de fada que, sem saber, descobriu uma vulnerabilidade crítica no sistema operacional de determinado office-boy. Sabe que vendo hoje, descobri de onde gosto das vozes das personagens de anime, talvez Freud explique, mas agora entendo um pouco melhor a magia da voz feminina dos animes, o efeito que me provoque e a pessoa que iniciou esse processo.

Bastava chamar:

— Vagner...

E qualquer prioridade anterior era imediatamente reavaliada.

Se depois viesse:

— É o lobo... é o lobo!

pronto.

O expediente estava ganho.

Hoje temos máquinas capazes de processar bilhões de instruções por segundo.

Temos inteligência artificial.

Temos escritórios inteligentes.

Temos automação suficiente para eliminar departamentos inteiros.

Mas até hoje ninguém conseguiu construir um sistema capaz de reproduzir perfeitamente aquele estranho protocolo social que fazia cinquenta pessoas assinarem escondidas um cartão de aniversário.

Talvez porque aquilo nunca tenha sido tecnologia.

Era simplesmente gente vivendo parte da vida junto.

E quando alguém perguntar como eram aqueles escritórios antes do ano 2000, talvez eu não precise explicar organogramas, máquinas de escrever, arquivos de aço ou processos administrativos.

Posso simplesmente responder:

Havia um armário cheio de bolachas.

Uma Veja circulando pelo departamento.

Um cartão esperando a última assinatura.

Uma secretária cobrando a vaquinha.

Um churrasco sendo planejado.

E um office-boy atravessando a Avenida Paulista mais rápido que Hermes porque, em algum lugar do escritório, Rosalaine havia acabado de chamá-lo.

Bons tempos.

Bons e imperfeitos tempos.

Agora pegue mais uma bolacha.

Mas, pelo amor de Deus:

se pegar a última, avise.

☕🐺


Para ir mais longe

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segunda-feira, 11 de março de 2019

🧾 Capítulo 2 — Minha Vida como Office-Boy

 


🧾 Capítulo 2 — Minha Vida como Office-Boy

Ser office-boy nos anos 80 não era pra qualquer um.
Precisava ter desenvoltura, perspicácia e um toque de loucura — além da eterna urgência de pagar os boletos.

Filho de uma mulher divorciada, com dois irmãos pequenos, eu carregava mais que pastas: carregava responsabilidade.
Cada vale-transporte, cada cesta básica, cada ajuda contava.

Com a pasta abarrotada de documentos e uma lista de lugares a visitar, eu cruzava a cidade.
Enfrentava filas intermináveis em bancos, cartórios, correios.
E de volta ao escritório, virava faz-tudo: comprava lanches, resolvia pendências, datilografava contratos em máquinas de escrever mecânicas, e quando o destino permitia, “pilotava” um terminal 3270 — a joia tecnológica do escritório.

O som das teclas ecoava como trilha sonora da minha juventude.
Tec-tec da Olivetti, o clique do teclado IBM, o burburinho dos colegas.
Era a música do trabalho.

Entre uma entrega e outra, levava comigo sempre um livro.
Lia no ônibus, estudava no trem, rabiscava anotações no papel amassado do caderno.
E ao final do expediente, corria feito louco pra chegar a tempo no colégio.


💼 Foram






anos duros — mas preciosos.
Ali aprendi o valor do esforço, da paciência e da dignidade.
E talvez, sem perceber, estava programando o primeiro sistema da minha vida:
o da persistência.




📘 Continua…
Próximo capítulo:
“Entre o 3270 e o XT – o despertar do programador”
💡 Onde o office-boy começa a decifrar o código da própria vida.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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