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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

 

Bellacosa Mainframe e a loira do banheiro

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

Crônicas do Pequeno Vagner

Todo mundo tem histórias de fantasmas.

Tem o tio que viu um vulto.

Tem a prima da vizinha que jurava conversar com espíritos.

Tem o amigo do amigo que viu um disco voador.

Mas a história que vou contar hoje tem uma diferença.

Eu estava lá.

Não ouvi dizer.

Não foi alguém que contou para alguém que contou para alguém.

Eu vi o caos acontecer.

Estamos em 1986.

Escola Estadual Amador Bueno da Veiga.

Parque Sabará.

Taubaté.

Sexta série A.

Período da manhã.

Era um daqueles dias completamente comuns.

Aula normal.

Professor explicando matéria.

Alunos alternando entre prestar atenção e sonhar acordados.

Nada indicava que aquele seria um dos acontecimentos mais comentados do ano letivo.

Até que, de repente...

Um grito.

Depois outro.

E mais outro.

Uma gritaria desesperada tomou conta da escola.

A aula parou imediatamente.

Alunos levantaram.

Professores saíram para o corredor.

Todo mundo tentando entender o que estava acontecendo.

O epicentro da confusão vinha da região dos banheiros próximos ao pátio das merendas.

Corremos para ver.

Porque criança e adolescente possuem um instinto natural.

Onde existe confusão, existe plateia.

E lá fomos nós.

Ao chegar perto da movimentação, encontramos uma cena impressionante.

Uma aluna estava completamente desesperada.

Chorava.

Tremia.

Mal conseguia falar.

A inspetora tentava acalmá-la.

As serventes cercavam a garota.

Professores faziam perguntas.

Outros alunos observavam boquiabertos.

E entre lágrimas e soluços ela repetia a mesma frase:

— Eu vi!

— Eu vi!

— A Loira do Banheiro apareceu para mim!

Pronto.

O caos estava oficialmente instalado.

Hoje, quase quarenta anos depois, continuo sem saber o que realmente aconteceu.

Não sei se a garota teve uma alucinação.

Não sei se alguém fez uma brincadeira.

Não sei se ela interpretou alguma sombra de forma errada.

E também não sei se ela acreditava sinceramente no que dizia.

Mas existe uma coisa que nunca esqueci.

O estado em que ela estava.

Aquilo não parecia teatro.

Não parecia encenação.

Ela estava genuinamente apavorada.

E isso foi suficiente para transformar uma velha lenda urbana em um problema real.

Nos dias seguintes a história explodiu.

Cada turma tinha sua versão.

Cada corredor produzia uma teoria diferente.

Cada recreio acrescentava novos detalhes.

Em poucos dias a Loira do Banheiro já possuía aparência, roupa, horário de aparição, local favorito e até comportamento definido.

A lenda ganhou vida própria.

Chegou ao ponto de haver reuniões com pais.

Conversas com orientadores.

Comentários entre professores.

A garota acabou sendo encaminhada para acompanhamento psicológico.

Enquanto isso, nós, os alunos, fazíamos o que adolescentes fazem melhor:

Espalhávamos ainda mais a história.

O resultado foi imediato.

Ninguém mais queria ir sozinho ao banheiro.

Especialmente nos horários mais vazios.

Formavam-se verdadeiras expedições.

Três.

Quatro.

Cinco alunos juntos.

Como se estivéssemos entrando numa dungeon infestada de monstros.

A coragem individual desapareceu.

A coragem coletiva floresceu.

E assim sobrevivemos.

Mas aquele ano já era complicado por outros motivos.

A direção enfrentava outro problema crescente.

O famoso "cheirinho da loló".

Para quem não viveu aquela época, era uma espécie de lança-perfume artesanal.

Produzido clandestinamente.

Distribuído em pequenos frascos.

Muitas vezes escondido dentro dos famosos bonequinhos agarradinhos que faziam sucesso entre os estudantes.

Enquanto a Loira do Banheiro aterrorizava os corredores...

A diretora travava uma guerra em múltiplas frentes.

Fantasmas de um lado.

Arteiros do outro.

E centenas de adolescentes hiperativos no meio do caminho.

Hoje, olhando para trás, penso que talvez a verdadeira heroína daquela história fosse a diretora.

Porque administrar uma escola cheia de adolescentes já é difícil.

Administrar uma escola cheia de adolescentes convencidos de que uma assombração apareceu no banheiro é praticamente trabalho para super-herói.

Se a Loira do Banheiro realmente existia?

Não faço ideia.

Mas uma coisa eu posso afirmar.

Naquele dia de 1986, uma garota acreditou que viu algo.

E sua reação foi tão verdadeira que acabou alimentando uma das maiores ondas de pânico escolar que testemunhei na juventude.

Quase quarenta anos depois, ainda consigo ouvir os gritos ecoando pelo corredor.

E ainda me pergunto:

O que aquela menina viu naquele banheiro?

Talvez nunca saibamos.

Mas a lenda ganhou mais um capítulo naquele dia.

E suspeito que, em algum canto da memória coletiva da Amador Bueno da Veiga, a Loira do Banheiro ainda continua morando por lá.


sábado, 14 de abril de 2018

Um dos Últimos Boteco Analógico de Itatiba: Torresmo, Universitários, Original em Território Brahma e uma Pinga que Ninguém Sabe de Onde Vem

 

Bellacosa Mainframe e o bar bhrama da camilo pires

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Um dos Últimos Boteco Analógico de Itatiba: Torresmo, Universitários, Original em Território Brahma e uma Pinga que Ninguém Sabe de Onde Vem

🍺 Há lugares que o Google conhece. E há lugares que Itatiba conhece.


Existe uma diferença enorme entre um bar e um boteco.

Bar pode ter branding.

Pode ter iluminação estudada, cardápio acessado por QR Code, IPA com nome de constelação, hambúrguer desconstruído e uma parede cuidadosamente preparada para você tirar uma fotografia e publicar no Instagram.

Boteco não.

Boteco simplesmente acontece.

Ele abre a porta pela manhã, alguém encosta no balcão, outro chega depois, uma cerveja aparece, alguém pergunta se fulano morreu, outro responde que não morreu coisa nenhuma, apenas mudou para Valinhos, um terceiro garante que encontrou o sujeito na semana passada e, quando você percebe, quatro homens reconstruíram quarenta anos da história municipal sem consultar uma única fonte primária.

Itatiba possui desses lugares.

E existe um deles no Centro, na Rua Coronel Camilo Pires, 441.

O endereço, pelo menos, conseguimos confirmar documentalmente: registros públicos de imóveis descrevem o nº 441 como prédio de destinação comercial e de serviços.

O resto?

Bem...

O resto pertence àquilo que existia muito antes do Google:

memória oral.

🍺 A placa diz Brahma. Eu peço Original.

Comecemos pela primeira heresia.

Na fachada existe uma enorme placa da Brahma.

Daquelas placas que não pedem licença para participar da arquitetura. Ela está lá dizendo:

BRAHMA.

O sujeito entra, olha para o balcão e pede:

— Uma Brahma?

Não.

Eu:

— Me dá uma Original.

Original da Antarctica.

Porque coerência arquitetônica tem limites.

Aparentemente o boteco resolveu o problema da interoperabilidade muito antes da computação moderna:

FRONT-END....... BRAHMA
BACK-END........ BOTECO
CLIENTE......... BELLACOSA
REQUEST......... ORIGINAL ANTARCTICA
RETURN-CODE..... 00

É o verdadeiro ambiente multivendor.

Ninguém abre chamado.

Ninguém convoca reunião.

A cerveja chega gelada e seguimos o processamento.

🐷 E então aparece o verdadeiro sistema crítico: o torresmo

Porque cerveja você encontra em centenas de lugares.

Torresmo também.

Mas existe aquele torresmo que transforma um estabelecimento comercial em infraestrutura crítica municipal.

E, na minha opinião de frequentador — aqui não existe Michelin, TripAdvisor nem auditor independente —, ali mora o melhor torresmo de Itatiba.

Torresmo de boteco não precisa de apresentação.

Não vem acompanhado de manifesto gastronômico.

Ninguém explica que o porco foi “reinterpretado”.

Ninguém chama aquilo de:

Pork Belly Experience sobre cama de alguma coisa.

É torresmo.

PIC X(08).

TORRESMO.

Crocante onde precisa ser crocante, gorduroso onde Deus e o açougueiro determinaram que fosse gorduroso, acompanhado de cerveja e absolutamente incompatível com qualquer tentativa séria de alta gastronomia.

E boteco raiz tem outras coisas que desafiam a modernidade.

Salgados.

Não finger foods.

Salgados.

Coxinha, bolinho, pastel, quibe, qualquer criatura empanada cuja procedência você talvez prefira não investigar profundamente porque existe uma regra ancestral:

Se está quente, crocante e gostoso, não execute DISPLAY ORIGIN.

Aliás, a própria Prefeitura de Itatiba apresenta a gastronomia local misturando restaurantes sofisticados com comidas de boteco, torresmo, aipim à pururuca e outras tradições culinárias bastante brasileiras.

Mas boteco raiz possui uma característica adicional.

Existem coisas que não estão no cardápio.

🥃 A misteriosa pinga

Em algum lugar existe um alambique.

Provavelmente.

Quem produz?

Informação classificada.

Onde fica?

LOCATION UNKNOWN

Qual a marca?

Marca?

Você está fazendo perguntas demais.

😂

A pinga simplesmente aparece.

Alguém conhece alguém que conhece alguém.

Chega uma garrafa.

— É boa?

— Boa demais.

— De onde veio?

— De um conhecido.

Pronto.

Fim da rastreabilidade da cadeia produtiva.

O auditor ISO 9001 desmaia no balcão.

E aqui entra outra memória cultural itatibense que merece ser registrada justamente porque encontrei pouquíssima documentação digital sobre ela: a pinga com arruda no Sábado de Aleluia.

Essa é daquelas tradições que precisam ser tratadas como tradição oral enquanto não encontramos documentação histórica adequada.

No sábado entre a Sexta-feira da Paixão e o Domingo de Páscoa, há itatibenses que preservam o costume de tomar sua dose de pinga com arruda.

Por quê?

Aí começa justamente a maravilha das tradições populares.

Pergunte para cinco pessoas e talvez consiga sete explicações.

Proteção.

Saúde.

Espantar mau-olhado.

Tradição dos antigos.

“Meu pai fazia.”

“Meu avô já fazia.”

E chega um momento em que a melhor explicação talvez seja simplesmente:

porque em Itatiba se fazia assim.

Isso merece pesquisa histórica própria.

👴 O banco de dados dos velhos itatibenses

Mas a bebida é apenas o protocolo de transporte.

O verdadeiro dado está sentado nas mesas.

Ali estão figuras antigas e folclóricas da cidade.

Homens que conhecem pessoas que você nunca conheceu, lembram estabelecimentos que já não existem e conseguem localizar acontecimentos históricos através de referências absolutamente impossíveis para um historiador profissional:

— Foi quando o Toninho ainda tinha aquele Opala.

Pronto.

TIMESTAMP RESOLVIDO.

Outro corrige:

— Não era Opala. Era Caravan.

E começa uma discussão paralela de vinte minutos.

Essas pessoas formam uma espécie de banco de dados distribuído da memória municipal.

Não existe DBA.

Não existe backup.

Não existe normalização.

Existem duplicidades, inconsistências e versões conflitantes do mesmo registro.

Mas faça a consulta certa e aparece informação que jamais foi digitalizada.

Até que um belo dia...

🎓 Chegaram os universitários

Sangue novo.

Gente jovem.

Novos frequentadores.

E, aparentemente, eles gostaram do lugar.

Ótimo para o estabelecimento.

Só que aconteceu uma coisa inesperada.

Os velhos começaram a ficar desconfortáveis.

Não necessariamente porque os universitários estivessem fazendo alguma coisa.

A simples presença de uma geração diferente modificou o ambiente.

A piada que João fazia havia trinta anos de repente ganhou uma audiência desconhecida.

Aquela história meio indecente agora poderia receber outra interpretação.

A opinião politicamente jurássica do Seu Fulano talvez não sobrevivesse ao compilador social de 2026.

E surgiu o:

ALERTÔMETRO.

Antes de falar, pensar.

Antes da piada, olhar.

Antes do causo, verificar quem está ouvindo.

E quando você precisa fazer análise de impacto antes de contar uma piada no boteco, alguma coisa mudou.

🚨 Reunião extraordinária do CAB

A velharada então realizou aquilo que qualquer organização madura faria diante de uma alteração crítica de produção.

Formou uma comissão.

😂

Imagino a ata:

INCIDENT: BHRAMA-001

PROBLEMA:
Excesso de universitários no ambiente.

SINTOMAS:
- redução da espontaneidade;
- histórias sendo interrompidas;
- aumento do alertômetro;
- tiozões executando autocensura.

AÇÃO:
Solicitar intervenção do barman.

SEVERIDADE:
SEV2 — cerveja ainda sendo servida.

E coube ao barman resolver o problema.

🤝 O grande diplomata da Camilo Pires

E, segundo me contaram, o homem foi conversar com os jovens praticamente ao melhor estilo ChatGPT.

Cheio de paninhos.

😂

Nada de:

— Vocês precisam ir embora.

Muito pelo contrário.

A mensagem foi aproximadamente:

vocês são bem-vindos.

Podem vir.

Voltem.

A casa também é de vocês enquanto clientes.

Mas existe uma informação importante no README deste ambiente:

isto aqui é boteco de homem velho.

Tiozões da Sukita.

Homens formados socialmente em outro século.

Alguns sem exatamente aquilo que chamaríamos de refinamento social do século XXI.

Com opiniões antigas.

Piadas antigas.

Vocabulário antigo.

Maneiras antigas.

Não precisam concordar com eles.

Mas precisam compreender onde entraram.

E isso talvez tenha sido uma das melhores soluções possíveis.

Ninguém foi expulso.

Ninguém precisou passar por reeducação compulsória.

Os universitários continuaram universitários.

Os velhos continuaram velhos.

O barman simplesmente instalou uma:

CAMADA DE COMPATIBILIDADE.

🧠 Talvez seja isso que esteja faltando

A pequena história desse boteco diz alguma coisa maior sobre nosso tempo.

Estamos ficando muito bons em identificar diferenças.

Talvez estejamos ficando piores em conviver com elas.

Nem todo lugar precisa ser igual.

Nem todo grupo precisa falar da mesma maneira.

Nem toda geração precisa compartilhar exatamente os mesmos códigos.

O universitário pode olhar para o velho e pensar:

— Meu Deus, que ideia jurássica.

E o velho pode olhar para o universitário e pensar:

— Meu Deus, essa molecada inventa palavra para tudo.

Depois ambos podem pedir cerveja.

E comer torresmo.

Isso se chama sociedade.

Não precisamos necessariamente resolver todas as divergências antes da próxima rodada.

🐷 Porque no final existe o torresmo

Talvez seja esse o segredo.

Quando ideologias, gerações, costumes e vocabulários entram em conflito, alguém coloca um prato de torresmo na mesa.

O velho pega um.

O universitário pega outro.

Alguém pede uma cerveja.

Outro pergunta:

— Você conhece o fulano?

E começa outra história.

Enquanto isso, discretamente, na fachada continua escrito Brahma.

Eu continuo bebendo Original.

Uma misteriosa pinga continua chegando de algum alambique cuja localização provavelmente está protegida pelo sigilo profissional dos botequeiros.

E em algum Sábado de Aleluia alguém ainda coloca arruda dentro da cachaça porque aprendeu com alguém que aprendeu com alguém que aprendeu com alguém.

Talvez o Google nunca indexe isso.

Talvez nenhum historiador registre.

Talvez daqui a cinquenta anos ninguém saiba quem eram aqueles homens das fotografias penduradas na parede.

Por isso vale escrever.

Porque existem lugares que são mais do que estabelecimentos comerciais.

São arquivos vivos de uma cidade.

E, enquanto houver alguém na Rua Coronel Camilo Pires contando uma história, alguém duvidando dela, outro corrigindo a data e um prato de torresmo circulando...

o velho mainframe social de Itatiba continuará processando.

Sem cloud.

Sem IA.

Sem documentação.

E, preferencialmente,

sem mexer no JCL que está funcionando.

domingo, 1 de novembro de 2015

☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

 

Bellacosa Mainframe e as loucas historias do seu Luis


☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

Se existe uma coisa que as gerações atuais perderam sem perceber, foi a figura do contador de histórias do bairro.

Hoje temos streaming.

Temos YouTube.

Temos TikTok.

Temos inteligência artificial.

Mas nos anos 1980, no Jardim Garcez, em Taubaté, tínhamos algo muito mais poderoso:

Seu Luís.

Funcionário da prefeitura durante o dia.

Guardião da cultura popular durante a noite.

Morava na Rua 9, próximo de casa.

Um senhor simples.

Já de idade.

Mas dono de um dos maiores bancos de dados narrativos que já conheci.

Quando o sol desaparecia atrás da Serra da Mantiqueira e a noite tomava conta do bairro, começava um ritual quase sagrado.

A gurizada se reunia em frente ao portão de sua casa.

Sentávamos na calçada.

Alguns no meio-fio.

Outros encostados no muro.

Esperando.

E então o velho mestre iniciava mais uma sessão.

Sem televisão.

Sem projetor.

Sem computador.

Apenas voz, imaginação e talento.

Era melhor que qualquer streaming.

Seu Luís possuía centenas de histórias.

Talvez milhares.

Algumas certamente inventadas por ele.

Outras herdadas de seus pais.

Outras dos avós.

Outras dos bisavós.

Narrativas que atravessaram gerações até desembarcar naquela rua de terra do Parque Sabará.

Pedro Malasarte era presença constante.

E que figura extraordinária ele se tornava nas mãos do velho contador.

Ora enganava reis.

Ora enganava demônios.

Ora fugia de monstros.

Ora encontrava tesouros escondidos.

Mas não era só Pedro Malasarte.

Havia princesas aprisionadas em castelos.

Cavalos alados cruzando os céus.

Rainhas encantadas.

Monstros escondidos em matas escuras.

Bruxas vivendo em casebres de pau a pique no meio do sertão.

E fantasmas.

Muitos fantasmas.

A quantidade de assombrações que habitava aquelas histórias era suficiente para transformar qualquer ida ao banheiro durante a madrugada numa missão de alto risco.

Lembro de fragmentos.

Pequenos pedaços preservados no backup da memória.

O velho cão negro.

Que, segundo a lenda, não era um cachorro comum.

Era o próprio demo vagando pelas estradas.

Havia também a história do cavalo alado.

Uma jornada impossível.

Uma viagem onde o herói precisava alimentar a criatura com pedaços de carne durante o percurso.

Caso contrário, o animal o abandonaria entre monstros e assombrações.

Tinha a famosa sopa da pedra.

As serpentes falantes.

Os passarinhos encantados.

As bruxas.

As maldições.

As profecias.

E a magnífica Rainha Águia.

Uma criatura fantástica que protegia viajantes perdidos e os guiava para casa.

Tudo contado de forma tão vívida que era impossível não acreditar.

Pelo menos por algumas horas.

O problema surgia depois.

Na hora de dormir.

Qualquer estalo na janela.

Qualquer sombra no corredor.

Qualquer rangido da madeira.

Pronto.

Lá estava o pequeno Vagner de olhos arregalados imaginando que alguma das criaturas das histórias havia decidido fazer uma visita.

E isso era maravilhoso.

Porque as histórias cumpriam exatamente sua função.

Faziam sonhar.

Faziam imaginar.

Faziam sentir medo.

Faziam rir.

Faziam viver aventuras sem sair da calçada.

Enquanto isso, Seu Luís seguia sua performance.

Molhando o bico com uma aguardente artesanal.

Tomando um gole aqui.

Outro ali.

E aumentando gradativamente o nível de insanidade das narrativas.

Quanto mais avançava a noite, mais fantásticas ficavam as aventuras.

Era como assistir a um sistema entrando em modo turbo.

Os monstros cresciam.

Os castelos ficavam maiores.

As bruxas mais poderosas.

Os fantasmas mais assustadores.

E nós, os pequenos onis do Jardim Garcez, permanecíamos hipnotizados.

Hoje percebo que Seu Luís era muito mais do que um contador de histórias.

Ele era um arquivo vivo.

Um servidor humano de memórias.

Um preservador da tradição oral.

Um homem simples que carregava séculos de cultura popular dentro da cabeça.

Muitas dessas histórias morreram com ele.

Outras sobreviveram apenas em fragmentos.

Mas algumas ainda vivem.

Espalhadas pelas lembranças dos garotos que um dia sentaram naquela calçada.

Esperando ansiosamente pela próxima aventura.

E talvez seja justamente por isso que ainda me lembro dele.

Porque existem pessoas que passam pela nossa vida.

E existem pessoas que ajudam a construir nossa imaginação.

Seu Luís pertence à segunda categoria.

E suspeito que boa parte do escritor, sonhador, contador de causos e aventureiro que existe em mim tenha nascido ali.

Sentado numa calçada de Taubaté.

Ouvindo um velho contador de histórias transformar uma rua comum em um reino encantado.


domingo, 6 de setembro de 2009

🌍 Tricksters do Mundo

Bellacosa Mainframe revisa e encontra os Tricksters 

🌍 Tricksters do Mundo

Explicados para Mainframers (com logs, falhas e bypass autorizados pelo caos)

Se o mundo fosse um mainframe cósmico, os tricksters seriam aqueles programas que:

  • Não seguem o fluxo esperado

  • Exploram regras mal definidas

  • Nunca causam ABEND técnico, só ABEND moral

  • E sempre deixam o operador confuso olhando o SYSOUT

Eles não são heróis clássicos.
Não são vilões tradicionais.
São testes de stress ambulantes do sistema social, divino e humano.


🧠 O que é um Trickster? (definição estilo manual IBM)

Trickster é um arquétipo universal que aparece em praticamente todas as culturas humanas.

Características comuns:

  • Inteligência acima da média

  • Moral flexível (ISO = UR total)

  • Uso de ironia, mentira e ambiguidade

  • Capacidade de virar o jogo sem força

  • Exposição das falhas do sistema

📌 Em linguagem mainframe:

Tricksters existem para provar que a regra estava errada, não o código.


⚙️ Trickster ≠ Hacker (mas quase)

Comparação rápida:

HackerTrickster
Explora falha técnicaExplora falha humana
Precisa de acessoPrecisa de arrogância alheia
Pode ser barradoSempre passa
Age ocultoAge à vista de todos

O trickster não invade.
Ele recebe permissão sem que o sistema perceba.


🌎 Tricksters pelo mundo (versão “data center global”)

🇧🇷 Pedro Malazarte – Brasil

Função: Auditor informal da desigualdade
Falha explorada: Ganância, ignorância, abuso de poder

Pedro segue ordens literalmente.
Resultado:

  • Quem mandou se arrepende

  • Ele sobrevive

  • O sistema continua errado

➡️ Literal execution bug.


🇯🇵 Kitsune – Japão

Raposas mágicas que:

  • Mudam de forma

  • Enganam humanos

  • Testam caráter

No Japão, o trickster é:

  • Elegante

  • Espiritual

  • Ambíguo

Kitsune pune:

  • Arrogância

  • Falta de respeito

  • Desejo excessivo

➡️ Security test espiritual.


🇳🇴 Loki – Mitologia Nórdica

O mais mainframe de todos.

Loki:

  • Ajuda os deuses

  • Quebra tudo

  • Conserta depois

  • Ou piora

Ele é:

  • O desenvolvedor brilhante sem documentação

  • O cara que resolve hoje e explode amanhã

➡️ Change sem CAB approval.


🇩🇪 Till Eulenspiegel – Alemanha

Especialista em:

  • Interpretar ordens literalmente

  • Humilhar autoridades com lógica pura

Exemplo clássico:

“Ensine as pessoas a ver.”

Ele pinta óculos nos muros.

➡️ Manual mal escrito, execução perfeita.


🇳🇬 Anansi – África Ocidental

Aranha-trickster.

Anansi:

  • Usa histórias como arma

  • Ensina lições morais

  • Vence deuses maiores

É o DBA da narrativa:

  • Controla quem sabe o quê

  • Quando sabe

  • E como usa

➡️ Gestão de conhecimento como poder.


🇨🇳 Sun Wukong – China (Rei Macaco)

Sim, o avô espiritual de Goku.

Sun Wukong:

  • Engana o Céu

  • Enfrenta burocracia divina

  • Ri das regras cósmicas

Ele literalmente:

  • Se recusa a aceitar hierarquia

  • Burla imortalidade

  • Sobrevive a punições absurdas

➡️ Usuário root no universo.


🇺🇸 Coyote – Povos indígenas norte-americanos

Coyote:

  • Cria o mundo… errando

  • Ensina falhando

  • Aprende quebrando

Ele não é sábio.
Ele vira sábio depois do erro.

➡️ Ambiente de testes permanente.


🎌 Tricksters e Anime: não é coincidência

Todo fã de anime já conhece tricksters, mesmo sem chamar assim:

  • Goku (início) → Sun Wukong

  • Luffy → Trickster caótico

  • Hisoka → Trickster sombrio

  • Gojo → Quebra regras conscientemente

Anime ama tricksters porque:

  • Eles desafiam hierarquia

  • Crescem fora do sistema

  • Revelam hipocrisia

➡️ Shōnen inteiro é um grande test case contra autoridade absoluta.


🧩 Easter eggs culturais

🥚 Tricksters quase sempre:

  • Fingem ser burros

  • Caem em armadilhas que eles mesmos criam

  • Morrem… e voltam

  • Nunca aprendem totalmente

🥚 Eles não querem destruir o sistema
👉 Querem mostrar que ele não funciona como promete


🧠 O Trickster no ambiente corporativo (cuidado!)

Existe o trickster moderno:

  • O cara que responde e-mail literalmente

  • O analista que segue processo ruim até quebrar

  • O dev que pergunta “é isso mesmo?”

⚠️ Atenção:
Nem todo ambiente aceita tricksters.
Alguns preferem sistemas injustos funcionando do que sistemas questionados.


💬 Comentário Bellacosa Mainframe

Mainframers entendem tricksters porque vivem em ambientes onde:

  • Regras antigas ainda mandam

  • Documentação nem sempre reflete a realidade

  • Quem entende o sistema sobrevive melhor que quem manda

O trickster é o COBOL humano:

  • Velho

  • Subestimado

  • Mas essencial


🏁 Encerramento – JOB STATUS

Tricksters existem porque:

  • Sistemas são feitos por humanos

  • Humanos erram

  • E alguém precisa provar isso sem derrubar tudo

Eles são:

  • O riso no meio da opressão

  • A inteligência do fraco

  • O teste de integridade cultural

JOB FINALIZADO
RC=0
SYSOUT: “Sistema exposto, mas ainda rodando.”

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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