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sábado, 15 de outubro de 2016

💃🎶 Gisele e o Primeiro Bailinho Escolar Parte II

Bellacosa Mainframe e o primeiro bailinho escolar

💃🎶 Gisele e o Primeiro Bailinho Escolar Parte II

Existem lembranças que sobrevivem ao tempo não pela grandiosidade dos acontecimentos, mas pela delicadeza dos detalhes, sei que já falei antes, mas mesmo assim é uma memoria tão doce, que resolvi reviver, relembrar, colorir um pouco mais.

Uma delas aconteceu em 1986, na saudosa Escola Estadual Amador Bueno da Veiga, em Taubaté.

Era costume nos anos 1980 que, durante a Semana do Professor e também próximo ao encerramento do ano letivo, as salas organizassem pequenas festas. Os rapazes ajudavam comprando refrigerantes, salgadinhos e doces. As garotas traziam quitutes preparados em casa. A sala era decorada com cartolinas, desenhos e enfeites improvisados. Os professores visitavam cada turma, experimentavam as guloseimas e participavam da confraternização.

Era simples.

Mas para nós parecia um grande evento social.

O ponto alto da festa acontecia quando alguém trazia um rádio ou um toca-fitas. Bastava fechar as cortinas, apagar as luzes e colocar uma música lenta para a mágica começar.

E então surgia a lendária tradição do Baile da Vassoura.

As regras eram implacáveis.

Um rapaz começava dançando com uma vassoura. Quando desejasse, podia oferecer a vassoura para qualquer garoto que estivesse dançando.

E aí vinha a lei máxima da brincadeira:

Não podia recusar.

O escolhido era obrigado a assumir a vassoura.

A segunda regra era igualmente cruel.

Não era permitido voltar para a mesma garota.

Era preciso convidar outra parceira.

Resultado?

Uma confusão divertida de trocas, risadas, provocações e, vez ou outra, algum beijo roubado que se tornava assunto durante semanas.

Mas entre tantas festas, uma ficou gravada para sempre na memória.

Havia uma colega chamada Gisele.

Uma amiga querida.

Daquelas pessoas que iluminavam os ambientes sem perceber.

Em determinado momento da festa, ela veio me chamar para dançar.

Eu, tímido até dizer chega, aproximei-me e confessei quase em segredo:

— Eu não sei dançar.

Qualquer outra pessoa talvez desistisse.

Mas não a Gisele.

Com aquele brilho maroto nos olhos que só algumas garotas possuem, ela simplesmente sorriu e respondeu:

— Não tem problema. Eu ensino.

E me levou mesmo assim para o meio da pista improvisada da sala do Sexto Ano A.

A música tocava baixinho.

As luzes permaneciam apagadas.

E ali ficamos.

Coladinhos.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Nada extraordinário aconteceu.

Não houve beijo cinematográfico.

Não houve declaração de amor.

Não houve final de novela.

Mas houve algo muito mais raro.

A descoberta da ternura.

Aquela sensação boa de alguém pegar sua mão quando você não sabe exatamente o que fazer.

Décadas se passaram.

Muitas pessoas cruzaram meu caminho.

Muitas cidades ficaram para trás.

Muitas histórias foram vividas.

Mas vez ou outra fecho os olhos e volto para aquela sala.

Ouço novamente a música.

Vejo as cortinas fechadas.

Escuto as risadas dos colegas.

E enxergo a doce Gisele me conduzindo pela pista improvisada.

Talvez seja por isso que Taubaté ainda ocupe um espaço tão especial dentro de mim.

Porque a cidade não foi feita apenas de ruas, bicicletas, açudes e aventuras.

Ela também foi feita de momentos pequenos.

Momentos aparentemente insignificantes.

Mas que continuam vivos quarenta anos depois.

E entre todas as lembranças daquele tempo mágico, ainda existe um garoto tímido aprendendo a dançar.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Guiado por uma amiga que jamais imaginaria que aquele gesto simples se transformaria numa das memórias mais doces de toda uma vida.

Ps: Não foi a primeira festa escolar, me recordo das turmas de 1983, 1984 e 1985, mas a Gisele foi unica e a festa de 1986 foi memoravel

Bailinhos escolares

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2014/10/taubate-e-o-final-boss-bailinhos-amigo.html

domingo, 5 de abril de 2015

☕🚲🌳 Taubaté, Onde Parte da Minha Alma Resolveu Ficar

 

Bellacosa Mainframe e a liberdade de andar de bicicleta por Taubate

☕🚲🌳 Taubaté, Onde Parte da Minha Alma Resolveu Ficar

Existem cidades onde moramos.

E existem cidades que moram dentro de nós.

Taubaté é uma delas.

Em 1985, após mais uma mudança daquelas que pareciam rotina na família Bellacosa, desembarquei no Jardim Garcez, no Parque Sabará. Eu tinha pouco mais de dez anos e não fazia ideia de que estava entrando em um dos períodos mais felizes de toda a minha vida.

A casa ficava na Rua 9, número 51.

Hoje é apenas um endereço.

Mas para mim foi um portal.

Ali começava um mundo novo.

O bairro ainda era jovem. Muitas ruas eram de terra. Havia terrenos vazios, campos de futebol improvisados, mato, riachos, pastos e uma sensação constante de que tudo ainda estava sendo descoberto.

O fim da cidade parecia também o começo da aventura.

Próximo de casa existia um pasto. Cortando caminho por ele, chegávamos a um estábulo onde comprávamos leite fresco. Coisa simples, comum para quem viveu aquela época, mas que hoje parece cena de filme.

Lembro do cheiro da terra molhada.

Das minas d'água.

Das bicas onde bebíamos água gelada sem medo.

Dos riachos onde eu procurava peixinhos para aquário.

Dos enormes açudes onde mergulhávamos sem pensar muito nas consequências e saíamos cobertos de lodo até as orelhas.

Era uma infância em contato direto com a natureza.

Claro que existiam perigos.

Cobras.

Aranhas.

Buracos.

Espinhos.

Mas o sentimento predominante era outro:

Liberdade.

Uma palavra que talvez as gerações atuais tenham dificuldade de compreender em toda sua dimensão.

Nós saíamos de manhã.

Voltávamos quando o sol começava a desaparecer.

Sem celular.

Sem GPS.

Sem aplicativo de localização.

Sem ninguém monitorando cada passo.

O mundo era nosso.

E nós pertencíamos ao mundo.

Foi também em Taubaté que a bicicleta deixou de ser brinquedo para virar extensão do meu corpo.

Minha velha Monareta me levava para todos os lugares.

E quando digo todos, não estou exagerando.

Pedalava por bairros inteiros.

Explorava ruas desconhecidas.

Atravessava regiões que para mim pareciam outros países.

Taubaté era gigantesca aos olhos de um garoto.

Cada bairro escondia um mistério.

Cada rua levava a uma nova descoberta.

Cada esquina tinha potencial para virar uma aventura.

E havia também os livros.

Ah, a Biblioteca Municipal de Taubaté...

Ali encontrei centenas de mundos.

Enquanto alguns exploravam florestas, eu explorava estantes.

Enquanto alguns caçavam tesouros, eu encontrava civilizações inteiras dentro das páginas.

Aquele lugar ajudou a formar quem sou.

Muitas das viagens que fiz no futuro começaram primeiro dentro daqueles livros.

Mas Taubaté não era feita apenas de lugares.

Era feita de pessoas.

Amigos.

Colegas.

Paqueras.

Primeiros amores.

Primeiros beijos.

Primeiras decepções.

Primeiras descobertas sobre o coração humano.

Hoje conto algumas dessas histórias e já imagino alguém pensando:

— Ah, lá vem o tiozão inventando moda...

Mas não.

Foram tempos mágicos.

Tempos em que tudo parecia possível.

Tempos em que o mundo ainda possuía aquele brilho especial que só existe entre a infância e a adolescência.

Houve também a escola.

A lendária Amador Bueno da Veiga.

As fugas estratégicas da educação física.

As brincadeiras.

As bagunças.

Os bailinhos escolares.

As amizades.

As lendas.

A famosa Loira do Banheiro.

E a outra loira lendária...

A diretora.

Que causava muito mais medo que qualquer fantasma.

Hoje rio ao lembrar.

Mas na época era assunto seríssimo.

Olho para trás e percebo que nem tudo foi perfeito.

Houve tristezas.

Houve dores.

Houve problemas.

Houve acontecimentos que marcaram.

Mas a memória é curiosa.

Ela não mente.

Mas escolhe aquilo que merece permanecer iluminado.

E quando penso em Taubaté, o que ficou foi o sol.

Foi a liberdade.

Foi a bicicleta.

Foi a biblioteca.

Foi o cheiro do mato.

Foi o sabor das pitangas.

Foi a água gelada da bica.

Foi o açude.

Foi a aventura.

Foi a felicidade simples.

Talvez por isso, décadas depois, ainda exista um pedaço do meu coração morando naquela Rua 9.

Talvez por isso, quando penso em lar, uma parte da minha alma ainda esteja pedalando pelas ruas de terra do Parque Sabará.

E suspeito que ela nunca mais voltou de lá.


sexta-feira, 14 de março de 2014

🐎🌳 Xuxa, o Amigo Que o Tempo Não Conseguiu Levar

 

Bellacosa Mainframe e as andaças por Taubate com o amigo Xuxa

🐎🌳 Xuxa, o Amigo Que o Tempo Não Conseguiu Levar

Existem colegas.

Existem companheiros de aventura.

E existem aqueles raros amigos que se tornam parte da nossa própria história.

Quando olho para trás e revisito meus anos em Taubaté, um nome sempre aparece com força nas memórias:

Alexandre Lima.

Mas quase ninguém o chamava assim.

Para nós, ele era simplesmente o Xuxa.

Conheci o Xuxa no quinto ano da Escola Estadual Amador Bueno da Veiga, no Parque Sabará.

Eu era o garoto novo.

Ele era um dos garotos mais isolados da turma.

Enquanto os outros grupos já estavam formados, nós dois acabamos orbitando um ao outro por falta de opção.

E foi justamente daí que nasceu uma amizade que atravessaria décadas.

Daquelas amizades verdadeiras.

Daquelas que não precisam de manutenção constante para continuar funcionando.

Daquelas que o tempo apenas fortalece.

O Xuxa morava numa chácara na antiga Estrada de Tremembé.

Era praticamente outro mundo.

Seu pai, o senhor Moacir, criava porcos.

E uma das atividades da família consistia em percorrer escolas recolhendo os restos da merenda que seriam descartados.

Era uma época diferente.

Tudo era reaproveitado.

Tudo tinha utilidade.

Quantas vezes ajudei naquela tarefa.

Lá ia a carroça.

Puxada por um velho cavalo.

Passando pelas escolas.

Recolhendo os latões.

Voltando para a chácara.

Para um garoto criado na periferia de São Paulo, aquilo era uma aventura fantástica.

Parecia que eu havia sido transportado para outro universo.

E quando as tarefas terminavam, começava a verdadeira diversão.

Os irmãos do Xuxa:

Marcia.

Natalino.

André.

Todos participavam das brincadeiras.

A casa estava sempre cheia de movimento.

Sempre cheia de vida.

Seu Moacir e Dona Neusa me recebiam como se eu fosse mais um membro da família.

Participei de almoços.

Jantares.

Conversas.

Comemorações.

Momentos simples que se transformaram em tesouros.

Passávamos horas andando de bicicleta.

Jogando bola.

Brincando de bolinha de gude.

Explorando o bairro.

Nadando em riachos.

Sentados debaixo de mangueiras.

Falando sobre tudo e sobre nada.

Trocando segredos que naquela época pareciam informações classificadas pelo governo federal.

Era amizade na sua forma mais pura.

Sem interesse.

Sem segundas intenções.

Sem redes sociais.

Sem selfies.

Sem curtidas.

Apenas convivência.

Apenas companheirismo.

Apenas vida.

Mas talvez o aspecto mais curioso daquela amizade fosse um personagem quase lendário da família.

O avô do Xuxa.

Um homem misterioso.

Rosacruz.

Leitor compulsivo.

Pesquisador das antigas tradições.

Guardião de uma biblioteca que para mim parecia saída de um filme.

Livros sobre história.

Religiões antigas.

Filosofia.

Ocultismo.

Civilizações desaparecidas.

Mistérios do mundo.

Enquanto outras crianças sonhavam com tesouros enterrados, eu tinha acesso a algo muito mais valioso:

Conhecimento.

Lembro de passar horas ouvindo suas histórias.

Falando sobre culturas antigas.

Civilizações perdidas.

Segredos religiosos.

Mitos e lendas.

Era como ter um mago particular morando no bairro.

Talvez ali tenha começado parte da minha curiosidade quase infinita sobre história, culturas, povos e crenças.

Talvez alguns dos caminhos que percorri na vida adulta tenham começado naquela biblioteca.

Entre livros empoeirados e conversas fascinantes.

Hoje, quando eu e o Xuxa nos falamos, inevitavelmente acabamos voltando para aqueles dias.

Relembramos aventuras.

Risadas.

Travessuras.

Confusões.

E algumas histórias tão absurdas que parecem inventadas.

Como a famosa e lendária história da piscina do bordel.

Mas essa...

Essa merece uma crônica própria.

Porque certas aventuras não cabem em apenas alguns parágrafos.

Taubaté foi muitas coisas para mim.

Foi liberdade.

Foi descoberta.

Foi crescimento.

Mas também foi amizade.

E quando penso em amizade verdadeira, daquelas que resistem ao tempo, à distância e às mudanças da vida, sempre lembro do Xuxa.

O garoto da chácara.

Da carroça.

Do cavalo.

Dos riachos.

Das bicicletas.

Das tardes sem pressa.

Um amigo que o tempo passou décadas tentando levar.

E falhou miseravelmente.