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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

 

Bellacosa Mainframe e a loira do banheiro

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

Crônicas do Pequeno Vagner

Todo mundo tem histórias de fantasmas.

Tem o tio que viu um vulto.

Tem a prima da vizinha que jurava conversar com espíritos.

Tem o amigo do amigo que viu um disco voador.

Mas a história que vou contar hoje tem uma diferença.

Eu estava lá.

Não ouvi dizer.

Não foi alguém que contou para alguém que contou para alguém.

Eu vi o caos acontecer.

Estamos em 1986.

Escola Estadual Amador Bueno da Veiga.

Parque Sabará.

Taubaté.

Sexta série A.

Período da manhã.

Era um daqueles dias completamente comuns.

Aula normal.

Professor explicando matéria.

Alunos alternando entre prestar atenção e sonhar acordados.

Nada indicava que aquele seria um dos acontecimentos mais comentados do ano letivo.

Até que, de repente...

Um grito.

Depois outro.

E mais outro.

Uma gritaria desesperada tomou conta da escola.

A aula parou imediatamente.

Alunos levantaram.

Professores saíram para o corredor.

Todo mundo tentando entender o que estava acontecendo.

O epicentro da confusão vinha da região dos banheiros próximos ao pátio das merendas.

Corremos para ver.

Porque criança e adolescente possuem um instinto natural.

Onde existe confusão, existe plateia.

E lá fomos nós.

Ao chegar perto da movimentação, encontramos uma cena impressionante.

Uma aluna estava completamente desesperada.

Chorava.

Tremia.

Mal conseguia falar.

A inspetora tentava acalmá-la.

As serventes cercavam a garota.

Professores faziam perguntas.

Outros alunos observavam boquiabertos.

E entre lágrimas e soluços ela repetia a mesma frase:

— Eu vi!

— Eu vi!

— A Loira do Banheiro apareceu para mim!

Pronto.

O caos estava oficialmente instalado.

Hoje, quase quarenta anos depois, continuo sem saber o que realmente aconteceu.

Não sei se a garota teve uma alucinação.

Não sei se alguém fez uma brincadeira.

Não sei se ela interpretou alguma sombra de forma errada.

E também não sei se ela acreditava sinceramente no que dizia.

Mas existe uma coisa que nunca esqueci.

O estado em que ela estava.

Aquilo não parecia teatro.

Não parecia encenação.

Ela estava genuinamente apavorada.

E isso foi suficiente para transformar uma velha lenda urbana em um problema real.

Nos dias seguintes a história explodiu.

Cada turma tinha sua versão.

Cada corredor produzia uma teoria diferente.

Cada recreio acrescentava novos detalhes.

Em poucos dias a Loira do Banheiro já possuía aparência, roupa, horário de aparição, local favorito e até comportamento definido.

A lenda ganhou vida própria.

Chegou ao ponto de haver reuniões com pais.

Conversas com orientadores.

Comentários entre professores.

A garota acabou sendo encaminhada para acompanhamento psicológico.

Enquanto isso, nós, os alunos, fazíamos o que adolescentes fazem melhor:

Espalhávamos ainda mais a história.

O resultado foi imediato.

Ninguém mais queria ir sozinho ao banheiro.

Especialmente nos horários mais vazios.

Formavam-se verdadeiras expedições.

Três.

Quatro.

Cinco alunos juntos.

Como se estivéssemos entrando numa dungeon infestada de monstros.

A coragem individual desapareceu.

A coragem coletiva floresceu.

E assim sobrevivemos.

Mas aquele ano já era complicado por outros motivos.

A direção enfrentava outro problema crescente.

O famoso "cheirinho da loló".

Para quem não viveu aquela época, era uma espécie de lança-perfume artesanal.

Produzido clandestinamente.

Distribuído em pequenos frascos.

Muitas vezes escondido dentro dos famosos bonequinhos agarradinhos que faziam sucesso entre os estudantes.

Enquanto a Loira do Banheiro aterrorizava os corredores...

A diretora travava uma guerra em múltiplas frentes.

Fantasmas de um lado.

Arteiros do outro.

E centenas de adolescentes hiperativos no meio do caminho.

Hoje, olhando para trás, penso que talvez a verdadeira heroína daquela história fosse a diretora.

Porque administrar uma escola cheia de adolescentes já é difícil.

Administrar uma escola cheia de adolescentes convencidos de que uma assombração apareceu no banheiro é praticamente trabalho para super-herói.

Se a Loira do Banheiro realmente existia?

Não faço ideia.

Mas uma coisa eu posso afirmar.

Naquele dia de 1986, uma garota acreditou que viu algo.

E sua reação foi tão verdadeira que acabou alimentando uma das maiores ondas de pânico escolar que testemunhei na juventude.

Quase quarenta anos depois, ainda consigo ouvir os gritos ecoando pelo corredor.

E ainda me pergunto:

O que aquela menina viu naquele banheiro?

Talvez nunca saibamos.

Mas a lenda ganhou mais um capítulo naquele dia.

E suspeito que, em algum canto da memória coletiva da Amador Bueno da Veiga, a Loira do Banheiro ainda continua morando por lá.


sábado, 15 de outubro de 2016

💃🎶 Gisele e o Primeiro Bailinho Escolar Parte II

Bellacosa Mainframe e o primeiro bailinho escolar

💃🎶 Gisele e o Primeiro Bailinho Escolar Parte II

Existem lembranças que sobrevivem ao tempo não pela grandiosidade dos acontecimentos, mas pela delicadeza dos detalhes, sei que já falei antes, mas mesmo assim é uma memoria tão doce, que resolvi reviver, relembrar, colorir um pouco mais.

Uma delas aconteceu em 1986, na saudosa Escola Estadual Amador Bueno da Veiga, em Taubaté.

Era costume nos anos 1980 que, durante a Semana do Professor e também próximo ao encerramento do ano letivo, as salas organizassem pequenas festas. Os rapazes ajudavam comprando refrigerantes, salgadinhos e doces. As garotas traziam quitutes preparados em casa. A sala era decorada com cartolinas, desenhos e enfeites improvisados. Os professores visitavam cada turma, experimentavam as guloseimas e participavam da confraternização.

Era simples.

Mas para nós parecia um grande evento social.

O ponto alto da festa acontecia quando alguém trazia um rádio ou um toca-fitas. Bastava fechar as cortinas, apagar as luzes e colocar uma música lenta para a mágica começar.

E então surgia a lendária tradição do Baile da Vassoura.

As regras eram implacáveis.

Um rapaz começava dançando com uma vassoura. Quando desejasse, podia oferecer a vassoura para qualquer garoto que estivesse dançando.

E aí vinha a lei máxima da brincadeira:

Não podia recusar.

O escolhido era obrigado a assumir a vassoura.

A segunda regra era igualmente cruel.

Não era permitido voltar para a mesma garota.

Era preciso convidar outra parceira.

Resultado?

Uma confusão divertida de trocas, risadas, provocações e, vez ou outra, algum beijo roubado que se tornava assunto durante semanas.

Mas entre tantas festas, uma ficou gravada para sempre na memória.

Havia uma colega chamada Gisele.

Uma amiga querida.

Daquelas pessoas que iluminavam os ambientes sem perceber.

Em determinado momento da festa, ela veio me chamar para dançar.

Eu, tímido até dizer chega, aproximei-me e confessei quase em segredo:

— Eu não sei dançar.

Qualquer outra pessoa talvez desistisse.

Mas não a Gisele.

Com aquele brilho maroto nos olhos que só algumas garotas possuem, ela simplesmente sorriu e respondeu:

— Não tem problema. Eu ensino.

E me levou mesmo assim para o meio da pista improvisada da sala do Sexto Ano A.

A música tocava baixinho.

As luzes permaneciam apagadas.

E ali ficamos.

Coladinhos.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Nada extraordinário aconteceu.

Não houve beijo cinematográfico.

Não houve declaração de amor.

Não houve final de novela.

Mas houve algo muito mais raro.

A descoberta da ternura.

Aquela sensação boa de alguém pegar sua mão quando você não sabe exatamente o que fazer.

Décadas se passaram.

Muitas pessoas cruzaram meu caminho.

Muitas cidades ficaram para trás.

Muitas histórias foram vividas.

Mas vez ou outra fecho os olhos e volto para aquela sala.

Ouço novamente a música.

Vejo as cortinas fechadas.

Escuto as risadas dos colegas.

E enxergo a doce Gisele me conduzindo pela pista improvisada.

Talvez seja por isso que Taubaté ainda ocupe um espaço tão especial dentro de mim.

Porque a cidade não foi feita apenas de ruas, bicicletas, açudes e aventuras.

Ela também foi feita de momentos pequenos.

Momentos aparentemente insignificantes.

Mas que continuam vivos quarenta anos depois.

E entre todas as lembranças daquele tempo mágico, ainda existe um garoto tímido aprendendo a dançar.

Dois passinhos para lá.

Um passinho para cá.

Guiado por uma amiga que jamais imaginaria que aquele gesto simples se transformaria numa das memórias mais doces de toda uma vida.

Ps: Não foi a primeira festa escolar, me recordo das turmas de 1983, 1984 e 1985, mas a Gisele foi unica e a festa de 1986 foi memoravel

Bailinhos escolares

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2014/10/taubate-e-o-final-boss-bailinhos-amigo.html

sexta-feira, 14 de março de 2014

🐎🌳 Xuxa, o Amigo Que o Tempo Não Conseguiu Levar

 

Bellacosa Mainframe e as andaças por Taubate com o amigo Xuxa

🐎🌳 Xuxa, o Amigo Que o Tempo Não Conseguiu Levar

Existem colegas.

Existem companheiros de aventura.

E existem aqueles raros amigos que se tornam parte da nossa própria história.

Quando olho para trás e revisito meus anos em Taubaté, um nome sempre aparece com força nas memórias:

Alexandre Lima.

Mas quase ninguém o chamava assim.

Para nós, ele era simplesmente o Xuxa.

Conheci o Xuxa no quinto ano da Escola Estadual Amador Bueno da Veiga, no Parque Sabará.

Eu era o garoto novo.

Ele era um dos garotos mais isolados da turma.

Enquanto os outros grupos já estavam formados, nós dois acabamos orbitando um ao outro por falta de opção.

E foi justamente daí que nasceu uma amizade que atravessaria décadas.

Daquelas amizades verdadeiras.

Daquelas que não precisam de manutenção constante para continuar funcionando.

Daquelas que o tempo apenas fortalece.

O Xuxa morava numa chácara na antiga Estrada de Tremembé.

Era praticamente outro mundo.

Seu pai, o senhor Moacir, criava porcos.

E uma das atividades da família consistia em percorrer escolas recolhendo os restos da merenda que seriam descartados.

Era uma época diferente.

Tudo era reaproveitado.

Tudo tinha utilidade.

Quantas vezes ajudei naquela tarefa.

Lá ia a carroça.

Puxada por um velho cavalo.

Passando pelas escolas.

Recolhendo os latões.

Voltando para a chácara.

Para um garoto criado na periferia de São Paulo, aquilo era uma aventura fantástica.

Parecia que eu havia sido transportado para outro universo.

E quando as tarefas terminavam, começava a verdadeira diversão.

Os irmãos do Xuxa:

Marcia.

Natalino.

André.

Todos participavam das brincadeiras.

A casa estava sempre cheia de movimento.

Sempre cheia de vida.

Seu Moacir e Dona Neusa me recebiam como se eu fosse mais um membro da família.

Participei de almoços.

Jantares.

Conversas.

Comemorações.

Momentos simples que se transformaram em tesouros.

Passávamos horas andando de bicicleta.

Jogando bola.

Brincando de bolinha de gude.

Explorando o bairro.

Nadando em riachos.

Sentados debaixo de mangueiras.

Falando sobre tudo e sobre nada.

Trocando segredos que naquela época pareciam informações classificadas pelo governo federal.

Era amizade na sua forma mais pura.

Sem interesse.

Sem segundas intenções.

Sem redes sociais.

Sem selfies.

Sem curtidas.

Apenas convivência.

Apenas companheirismo.

Apenas vida.

Mas talvez o aspecto mais curioso daquela amizade fosse um personagem quase lendário da família.

O avô do Xuxa.

Um homem misterioso.

Rosacruz.

Leitor compulsivo.

Pesquisador das antigas tradições.

Guardião de uma biblioteca que para mim parecia saída de um filme.

Livros sobre história.

Religiões antigas.

Filosofia.

Ocultismo.

Civilizações desaparecidas.

Mistérios do mundo.

Enquanto outras crianças sonhavam com tesouros enterrados, eu tinha acesso a algo muito mais valioso:

Conhecimento.

Lembro de passar horas ouvindo suas histórias.

Falando sobre culturas antigas.

Civilizações perdidas.

Segredos religiosos.

Mitos e lendas.

Era como ter um mago particular morando no bairro.

Talvez ali tenha começado parte da minha curiosidade quase infinita sobre história, culturas, povos e crenças.

Talvez alguns dos caminhos que percorri na vida adulta tenham começado naquela biblioteca.

Entre livros empoeirados e conversas fascinantes.

Hoje, quando eu e o Xuxa nos falamos, inevitavelmente acabamos voltando para aqueles dias.

Relembramos aventuras.

Risadas.

Travessuras.

Confusões.

E algumas histórias tão absurdas que parecem inventadas.

Como a famosa e lendária história da piscina do bordel.

Mas essa...

Essa merece uma crônica própria.

Porque certas aventuras não cabem em apenas alguns parágrafos.

Taubaté foi muitas coisas para mim.

Foi liberdade.

Foi descoberta.

Foi crescimento.

Mas também foi amizade.

E quando penso em amizade verdadeira, daquelas que resistem ao tempo, à distância e às mudanças da vida, sempre lembro do Xuxa.

O garoto da chácara.

Da carroça.

Do cavalo.

Dos riachos.

Das bicicletas.

Das tardes sem pressa.

Um amigo que o tempo passou décadas tentando levar.

E falhou miseravelmente.