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domingo, 1 de novembro de 2015

☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

 

Bellacosa Mainframe e as loucas historias do seu Luis


☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez

Se existe uma coisa que as gerações atuais perderam sem perceber, foi a figura do contador de histórias do bairro.

Hoje temos streaming.

Temos YouTube.

Temos TikTok.

Temos inteligência artificial.

Mas nos anos 1980, no Jardim Garcez, em Taubaté, tínhamos algo muito mais poderoso:

Seu Luís.

Funcionário da prefeitura durante o dia.

Guardião da cultura popular durante a noite.

Morava na Rua 9, próximo de casa.

Um senhor simples.

Já de idade.

Mas dono de um dos maiores bancos de dados narrativos que já conheci.

Quando o sol desaparecia atrás da Serra da Mantiqueira e a noite tomava conta do bairro, começava um ritual quase sagrado.

A gurizada se reunia em frente ao portão de sua casa.

Sentávamos na calçada.

Alguns no meio-fio.

Outros encostados no muro.

Esperando.

E então o velho mestre iniciava mais uma sessão.

Sem televisão.

Sem projetor.

Sem computador.

Apenas voz, imaginação e talento.

Era melhor que qualquer streaming.

Seu Luís possuía centenas de histórias.

Talvez milhares.

Algumas certamente inventadas por ele.

Outras herdadas de seus pais.

Outras dos avós.

Outras dos bisavós.

Narrativas que atravessaram gerações até desembarcar naquela rua de terra do Parque Sabará.

Pedro Malasarte era presença constante.

E que figura extraordinária ele se tornava nas mãos do velho contador.

Ora enganava reis.

Ora enganava demônios.

Ora fugia de monstros.

Ora encontrava tesouros escondidos.

Mas não era só Pedro Malasarte.

Havia princesas aprisionadas em castelos.

Cavalos alados cruzando os céus.

Rainhas encantadas.

Monstros escondidos em matas escuras.

Bruxas vivendo em casebres de pau a pique no meio do sertão.

E fantasmas.

Muitos fantasmas.

A quantidade de assombrações que habitava aquelas histórias era suficiente para transformar qualquer ida ao banheiro durante a madrugada numa missão de alto risco.

Lembro de fragmentos.

Pequenos pedaços preservados no backup da memória.

O velho cão negro.

Que, segundo a lenda, não era um cachorro comum.

Era o próprio demo vagando pelas estradas.

Havia também a história do cavalo alado.

Uma jornada impossível.

Uma viagem onde o herói precisava alimentar a criatura com pedaços de carne durante o percurso.

Caso contrário, o animal o abandonaria entre monstros e assombrações.

Tinha a famosa sopa da pedra.

As serpentes falantes.

Os passarinhos encantados.

As bruxas.

As maldições.

As profecias.

E a magnífica Rainha Águia.

Uma criatura fantástica que protegia viajantes perdidos e os guiava para casa.

Tudo contado de forma tão vívida que era impossível não acreditar.

Pelo menos por algumas horas.

O problema surgia depois.

Na hora de dormir.

Qualquer estalo na janela.

Qualquer sombra no corredor.

Qualquer rangido da madeira.

Pronto.

Lá estava o pequeno Vagner de olhos arregalados imaginando que alguma das criaturas das histórias havia decidido fazer uma visita.

E isso era maravilhoso.

Porque as histórias cumpriam exatamente sua função.

Faziam sonhar.

Faziam imaginar.

Faziam sentir medo.

Faziam rir.

Faziam viver aventuras sem sair da calçada.

Enquanto isso, Seu Luís seguia sua performance.

Molhando o bico com uma aguardente artesanal.

Tomando um gole aqui.

Outro ali.

E aumentando gradativamente o nível de insanidade das narrativas.

Quanto mais avançava a noite, mais fantásticas ficavam as aventuras.

Era como assistir a um sistema entrando em modo turbo.

Os monstros cresciam.

Os castelos ficavam maiores.

As bruxas mais poderosas.

Os fantasmas mais assustadores.

E nós, os pequenos onis do Jardim Garcez, permanecíamos hipnotizados.

Hoje percebo que Seu Luís era muito mais do que um contador de histórias.

Ele era um arquivo vivo.

Um servidor humano de memórias.

Um preservador da tradição oral.

Um homem simples que carregava séculos de cultura popular dentro da cabeça.

Muitas dessas histórias morreram com ele.

Outras sobreviveram apenas em fragmentos.

Mas algumas ainda vivem.

Espalhadas pelas lembranças dos garotos que um dia sentaram naquela calçada.

Esperando ansiosamente pela próxima aventura.

E talvez seja justamente por isso que ainda me lembro dele.

Porque existem pessoas que passam pela nossa vida.

E existem pessoas que ajudam a construir nossa imaginação.

Seu Luís pertence à segunda categoria.

E suspeito que boa parte do escritor, sonhador, contador de causos e aventureiro que existe em mim tenha nascido ali.

Sentado numa calçada de Taubaté.

Ouvindo um velho contador de histórias transformar uma rua comum em um reino encantado.