☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta compilador. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta compilador. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de julho de 2026

IBM COBOL Elevate for z/OS: CSI Las Vegas no Laboratório do Código Legado

 

Bellacosa Mainframe apresenta o Ibm cobol elevate for zos

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

IBM COBOL Elevate for z/OS: CSI Las Vegas no Laboratório do Código Legado

Quando um Programador COBOL Descobre que o Verdadeiro Crime Não Está no Código Antigo — Está em Executá-lo Durante Décadas sem Investigar Onde a CPU Desaparece

Era madrugada no Data Center de Las Vegas.

As luzes do corredor piscavam sobre os corredores de armazenamento. O ruído constante da refrigeração lembrava o motor de uma aeronave que jamais poderia pousar. Milhões de transações cruzavam o ambiente enquanto quase toda a cidade dormia.

Cartões eram autorizados.

Reservas de hotéis eram confirmadas.

Pagamentos eram processados.

Apólices eram calculadas.

Contas bancárias eram atualizadas.

No centro daquele ecossistema havia um IBM Z executando programas COBOL que talvez tivessem sido escritos antes de alguns integrantes da equipe de desenvolvimento nascerem.

Tudo parecia normal.

Até que o alarme apareceu:

CPU CONSUMPTION ABOVE EXPECTED LEVEL

Gil Grissom aproximou-se do terminal 3270, observou os números e disse:

— A máquina não mente. Mas os números também não confessam sozinhos.

Ao lado dele, um jovem programador COBOL examinava um programa com 14 mil linhas e perguntava:

— Devemos recompilar tudo?

Grissom colocou os óculos, aproximou-se da tela e respondeu:

— Antes de alterar a cena do crime, precisamos descobrir o que realmente aconteceu.

É exatamente nesse ponto que entra o IBM COBOL Elevate for z/OS.

Anunciado pela IBM em 7 de julho de 2026, o produto foi apresentado como uma solução integrada para otimização, modernização, análise de desempenho e aceleração de upgrades de aplicações COBOL críticas. A primeira versão anunciada é o IBM COBOL Elevate for z/OS 1.1, com disponibilidade geral planejada para 18 de setembro de 2026. (IBM)

Mas o que isso realmente significa?

Seria apenas mais uma ferramenta de análise?

Um novo compilador?

Um profiler?

Uma solução de inteligência artificial?

Um produto de migração?

Ou uma tentativa da IBM de criar uma espécie de laboratório forense para investigar milhares de programas COBOL antes de alguém decidir alterá-los?

Coloque as luvas.

Isole a área.

Faça uma cópia do load module.

A investigação vai começar.



Capítulo 1 — A vítima não era o COBOL

Durante anos, consultorias, fabricantes e apresentações de modernização repetiram uma narrativa aparentemente irresistível:

“O problema é que o sistema foi escrito em COBOL.”

Essa afirmação soa moderna, mas frequentemente está errada.

O COBOL não é necessariamente o problema.

O verdadeiro problema pode estar em:

  • programas compilados há muitos anos;

  • versões antigas do compilador;

  • opções inadequadas de compilação;

  • módulos que consomem CPU desnecessariamente;

  • dependências que ninguém documentou;

  • chamadas repetitivas;

  • algoritmos inadequados para os volumes atuais;

  • programas recompilados parcialmente;

  • aplicações sem inventário confiável;

  • ausência de dados que mostrem onde vale a pena investir.

Imagine uma aplicação criada em 1996.

Naquele período, ela processava 100 mil registros por noite. Em 2026, executa a mesma lógica sobre 80 milhões de registros.

O código pode estar correto.

O resultado pode estar correto.

O batch pode terminar.

Mas um trecho executado uma única vez em 1996 talvez hoje seja repetido 80 milhões de vezes.

O crime não foi escrever o programa daquela forma.

O crime foi aumentar o volume por trinta anos sem voltar à cena para procurar novas evidências.


Capítulo 2 — A ficha do suspeito

Nome

IBM COBOL Elevate for z/OS

Release inicial anunciado

Versão 1.1

Data do anúncio

7 de julho de 2026

Disponibilidade geral planejada

18 de setembro de 2026

Ambiente principal

Aplicações COBOL executadas no IBM Z sob z/OS.

Missão declarada

Ajudar organizações a modernizar aplicações COBOL críticas por meio de:

  • otimização automatizada de desempenho;

  • aceleração de upgrades de compiladores;

  • análise de inventário e prontidão;

  • assistência por inteligência artificial;

  • informações de desempenho ligadas ao código-fonte;

  • redução do risco operacional;

  • aumento da produtividade das equipes.

A página oficial do produto resume a proposta como uma forma de revitalizar aplicações COBOL, obter ganhos contínuos de performance, acelerar upgrades do compilador e melhorar a qualidade do código, procurando minimizar o risco operacional. (IBM)

Portanto, o Elevate não deve ser entendido apenas como “mais uma ferramenta COBOL”.

Ele é apresentado como uma solução composta por três capacidades complementares:

  1. Accelerate

  2. Upgrade

  3. Performance Insights

Esses três componentes correspondem a três perguntas que assombram qualquer grande ambiente COBOL:

1. O que está consumindo recursos?
2. O que precisa ser atualizado?
3. Onde devemos agir primeiro?

Capítulo 3 — A cena do crime corporativa

Considere um banco fictício chamado Cassino Federal de Las Vegas.

Seu inventário contém:

42.000 programas COBOL
18 milhões de linhas de código
7.500 copybooks
12.000 jobs batch
3.800 transações CICS
2.400 módulos Db2
850 integrações MQ
Programas compilados em diferentes gerações

O diretor pergunta:

— Quanto ganharemos se atualizarmos todos os programas?

Ninguém sabe.

Em seguida, ele pergunta:

— Quais programas devemos recompilar primeiro?

Ninguém sabe.

Depois:

— Quais módulos realmente consomem mais CPU?

A equipe mostra relatórios de SMF, RMF, CICS, Db2, ferramentas de monitoramento e planilhas.

Então surge outra pergunta:

— Qual linha do programa provoca esse consumo?

Silêncio.

Esta é uma dificuldade clássica da engenharia de performance.

Os relatórios operacionais mostram que algo consumiu recursos. Entretanto, transformar a métrica operacional em uma ação concreta sobre o código pode exigir um especialista que entenda simultaneamente:

  • COBOL;

  • compiladores;

  • Language Environment;

  • CICS;

  • Db2;

  • IMS;

  • VSAM;

  • JCL;

  • SMF;

  • comportamento do processador;

  • arquitetura da aplicação;

  • regras de negócio.

Esses profissionais existem, mas são raros.

O IBM COBOL Elevate tenta reduzir essa distância entre o sintoma observado no ambiente e a ação que deve ser tomada no programa.


Capítulo 4 — Primeiro laboratório: Accelerate

O primeiro pilar recebe o nome de Accelerate.

Sua função começa com uma pergunta essencial:

Quais programas realmente precisam de otimização?

Isso parece simples, mas é uma mudança importante.

Em muitas empresas, modernização ainda é tratada como um projeto de massa:

Selecionar milhares de programas
            ↓
Recompilar tudo
            ↓
Executar testes
            ↓
Encontrar incompatibilidades
            ↓
Corrigir
            ↓
Testar novamente
            ↓
Implantar

Esse modelo pode funcionar, mas custa tempo, dinheiro e capacidade de testes.

O Accelerate propõe uma abordagem mais seletiva.

A IBM afirma que a solução realiza uma análise antecipada de performance para identificar os programas COBOL que necessitam de otimização. Depois de uma configuração inicial descrita como simples e realizada uma vez, o produto auxilia no processo de otimização. O anúncio também declara que aplicações identificadas podem ser otimizadas sem alteração do código-fonte, sem recompilação e sem extensas atividades manuais de análise de performance. (IBM)

Essa é provavelmente a afirmação mais provocativa de todo o anúncio.

Como otimizar sem modificar o fonte?

Aqui precisamos separar cuidadosamente fato confirmado de interpretação técnica.

O anúncio confirma o objetivo de otimizar determinados módulos sem modificar o fonte e sem exigir recompilação convencional. Porém, o material público inicial não descreve em detalhes toda a implementação interna utilizada para produzir essa otimização.

Portanto, não devemos inventar que o produto “reescreve o load module”, “aplica patches binários” ou “usa otimização JIT” sem documentação técnica que confirme esses mecanismos.

O que podemos afirmar é:

  • ele analisa previamente o ambiente;

  • identifica candidatos que oferecem potencial de ganho;

  • permite otimizações sem mudanças no fonte;

  • pretende reduzir a necessidade de análise manual extensa;

  • procura diminuir o esforço de testes antes da implantação.

No laboratório do CSI, isso equivale a melhorar a investigação sem obrigar alguém a reconstruir todo o edifício onde o crime ocorreu.

Por que o teste pode ser menor?

Porque existe uma diferença importante entre:

ALTERAR A REGRA DE NEGÓCIO

e:

OTIMIZAR A EXECUÇÃO DA MESMA REGRA

Quando o código-fonte é alterado, a organização precisa provar que:

  • nenhuma condição mudou;

  • nenhum cálculo foi afetado;

  • nenhum campo foi deslocado;

  • nenhum fluxo alternativo deixou de funcionar;

  • nenhum comportamento CICS, Db2 ou IMS foi modificado.

Quando a otimização preserva a lógica e não exige alteração do fonte, a estratégia de validação pode ser mais focada.

Isso não significa “não testar”.

Em sistemas críticos, qualquer mudança deve ser validada.

Significa que o escopo do teste pode potencialmente ser reduzido porque o objetivo não é alterar o comportamento funcional da aplicação.

Exemplo

Considere os seguintes programas:

PGM001 — executado 3 vezes por mês
PGM002 — executado 90 milhões de vezes por dia
PGM003 — consome 0,01 segundo
PGM004 — utiliza 17% da CPU total do batch noturno
PGM005 — será desativado em dois meses

Sem análise, uma empresa poderia tratar todos da mesma forma.

Com uma abordagem orientada por evidências, a prioridade provavelmente seria:

1. PGM004
2. PGM002
3. Investigar os demais somente se necessário

O grande ganho do Elevate pode não estar apenas em “acelerar programas”.

Pode estar em impedir que a equipe desperdice seis meses otimizando programas irrelevantes.


Capítulo 5 — Segundo laboratório: Upgrade

O segundo pilar chama-se Upgrade e trata de um dos projetos mais temidos do mundo COBOL:

atualizar o compilador.

Quem está começando pode imaginar que isso significa apenas trocar o comando de compilação.

Não é tão simples.

Um programa pode conter:

  • sintaxe antiga;

  • opções de compilação herdadas;

  • comportamentos dependentes de versões anteriores;

  • estruturas de dados mal definidas;

  • redefinições perigosas;

  • dependências com copybooks;

  • chamadas estáticas ou dinâmicas;

  • interfaces CICS;

  • SQL embutido;

  • acessos IMS;

  • bibliotecas específicas;

  • programas chamados por dezenas de outros módulos.

Por isso, atualizar um compilador não é apenas um problema tecnológico.

É também um problema de inventário.

A pergunta que ninguém deseja ouvir

— Quantos programas ainda foram compilados com versões antigas?

Em muitos ambientes, a resposta é:

— Estamos levantando.

Depois de três meses:

— Ainda estamos levantando.

Depois de seis meses:

— Encontramos outra biblioteca.

O Upgrade do COBOL Elevate foi projetado para ajudar a acelerar a adoção de níveis suportados do Enterprise COBOL. Para isso, a IBM apresenta recursos de inventário automatizado, avaliações de prontidão, remediação assistida por IA, fluxos guiados, análise de dependências, identificação de requisitos e previsão do risco do projeto. (IBM)

Isso transforma o upgrade em algo mais próximo de uma investigação estruturada.

Passo a passo conceitual

Passo 1 — Inventariar

Descobrir:

Quais programas existem?
Onde estão?
Qual compilador foi utilizado?
Quais bibliotecas participam do processo?
Quais programas chamam outros programas?

Passo 2 — Mapear dependências

Um programa raramente vive sozinho.

PGM-A
  ├── COPY CLIENTE
  ├── COPY CONTA
  ├── CALL PGM-B
  ├── EXEC SQL
  └── EXEC CICS LINK PGM-C

Modificar o PGM-A pode afetar mais do que o PGM-A.

Passo 3 — Avaliar prontidão

O sistema precisa identificar:

  • incompatibilidades;

  • padrões problemáticos;

  • opções obsoletas;

  • riscos de migração;

  • necessidades de correção.

Passo 4 — Priorizar

Os programas podem ser classificados, conceitualmente, como:

Baixo risco
Médio risco
Alto risco
Necessita investigação

Passo 5 — Remediar

A assistência de IA pode ajudar a explicar problemas e orientar correções.

Aqui existe uma diferença enorme entre:

ERRO NA LINHA 1784

e:

A construção utilizada depende de um comportamento legado.
Considere a seguinte alteração e execute estes testes.

Passo 6 — Executar ondas de migração

Em vez de uma migração caótica de 40 mil programas:

Onda 1 — baixo risco
Onda 2 — médio risco
Onda 3 — aplicações críticas
Onda 4 — casos especiais

Esse planejamento reduz o efeito “Big Bang”, no qual tudo é alterado ao mesmo tempo e ninguém consegue determinar qual mudança causou o incidente.


Capítulo 6 — Terceiro laboratório: Performance Insights

O terceiro pilar é o Performance Insights.

Talvez seja a parte mais fácil de explicar para um programador iniciante e uma das mais interessantes para um profissional experiente.

Tradicionalmente, performance no mainframe é observada por meio de dados como:

  • tempo de CPU;

  • tempo decorrido;

  • EXCP;

  • utilização de serviço;

  • contadores CICS;

  • métricas Db2;

  • estatísticas IMS;

  • informações SMF;

  • relatórios RMF;

  • medições por job, transação ou address space.

Essas informações são valiosas.

Porém, existe um problema.

Elas podem dizer:

O PROGRAMA X CONSOME MUITA CPU

mas não necessariamente:

A REGIÃO ENTRE AS LINHAS 1840 E 1880
É A PRINCIPAL RESPONSÁVEL

O Performance Insights procura conectar análise estática, análise dinâmica e dados reais de execução ao código-fonte COBOL. Com isso, a solução pretende identificar e priorizar problemas potenciais de performance, oferecendo recomendações acionáveis diretamente associadas ao fonte. (IBM)

Análise estática

É a investigação do código sem depender apenas de uma execução específica.

Ela pode observar padrões como:

  • estruturas de repetição;

  • chamadas;

  • pesquisas;

  • conversões;

  • movimentações;

  • uso de tabelas;

  • caminhos lógicos;

  • construções que merecem revisão.

Exemplo:

PERFORM 1000-PROCESSAR
   VARYING WS-INDICE FROM 1 BY 1
   UNTIL WS-INDICE > 5000000

A estrutura não é automaticamente um erro.

Mas merece atenção porque qualquer operação dentro dela pode ser repetida cinco milhões de vezes.

Análise dinâmica

É a observação da aplicação durante uma execução real ou representativa.

Ela responde:

  • quantas vezes o trecho executou;

  • quanto recurso foi consumido;

  • quais caminhos foram mais utilizados;

  • quais rotinas quase nunca foram chamadas;

  • onde o tempo ficou concentrado.

A união das duas

A análise estática diz:

“Este trecho tem potencial para ser caro.”

A dinâmica responde:

“Ele foi executado 80 milhões de vezes e representa parte relevante do consumo.”

Juntas, elas formam uma evidência muito mais forte.

No CSI, uma impressão digital isolada pode não resolver o caso.

Uma impressão digital, uma gravação, o horário e o DNA formam um conjunto muito mais convincente.


Capítulo 7 — Exemplo investigativo

Considere um programa de cálculo de tarifas:

       PERFORM VARYING WS-I FROM 1 BY 1
          UNTIL WS-I > WS-QTD-LANCAMENTOS

          MOVE SPACES TO WS-DESCRICAO

          PERFORM 3000-LOCALIZAR-TARIFA

          IF WS-TARIFA-ENCONTRADA
             COMPUTE WS-VALOR-TOTAL =
                     WS-VALOR-TOTAL + WS-TARIFA
          END-IF

       END-PERFORM.

O programa funciona.

Mas a análise revela:

Quantidade de iterações: 60.000.000
Chamadas à rotina de localização: 60.000.000
Percentual de CPU concentrado na rotina: 42%

A investigação do fonte mostra que a tabela de tarifas está ordenada, mas o programa realiza uma busca sequencial.

Um desenvolvedor poderia estudar a possibilidade de substituir uma lógica equivalente a busca linear por uma estratégia de busca binária, quando tecnicamente válida.

Por exemplo, em COBOL, uma tabela adequadamente declarada e ordenada pode permitir o uso de SEARCH ALL.

Mas aqui surge uma regra de ouro:

Nunca troque SEARCH por SEARCH ALL apenas porque alguém disse que é mais rápido.

Para utilizar SEARCH ALL, é necessário garantir, entre outros pontos:

  • tabela ordenada conforme a chave;

  • declaração compatível;

  • condição de busca adequada;

  • manutenção correta da ordenação;

  • testes que confirmem o comportamento.

Performance não é adivinhação.

É ciência baseada em medição.

O Elevate pretende ajudar justamente a mostrar onde uma mudança pode produzir impacto real, evitando a otimização baseada em superstição.


Capítulo 8 — A inteligência artificial entra na sala

A expressão “AI-assisted” aparece no anúncio, especialmente na área de remediação do upgrade.

Isso não deve ser interpretado como:

A IA substituirá todos os programadores COBOL.

O cenário é mais interessante.

A IA pode atuar como um assistente técnico capaz de:

  • interpretar resultados;

  • resumir dependências;

  • explicar incompatibilidades;

  • sugerir remediações;

  • orientar fluxos de atualização;

  • ajudar profissionais menos experientes;

  • reduzir o tempo gasto em levantamentos manuais.

Imagine o programador iniciante encontrando uma construção problemática.

Sem assistência, ele vê:

MIGRATION ISSUE 0C27

Com assistência contextual, ele poderia receber algo semelhante a:

O programa utiliza uma construção cujo comportamento
deve ser revisado na atualização do compilador.

Arquivos relacionados:
COPY-A
COPY-B

Programas dependentes:
PGM102
PGM238

Risco estimado:
Médio

Ação recomendada:
Revisar a definição do campo e executar os testes X, Y e Z.

A inteligência artificial não elimina a necessidade de julgamento humano.

Ela reduz o tempo necessário para chegar às perguntas corretas.

Grissom jamais condenaria um suspeito apenas porque um algoritmo o indicou.

Ele usaria a indicação para procurar evidências.

O mesmo vale para modernização COBOL.


Capítulo 9 — A ligação com o IBM z17

O anúncio do COBOL Elevate foi publicado no mesmo contexto da expansão da família IBM z17, incluindo configurações single frame e rack mount. A IBM posiciona o z17 como uma plataforma para aplicações críticas e relaciona o Elevate ao objetivo de extrair mais valor das aplicações COBOL existentes. A disponibilidade do COBOL Elevate foi anunciada para 18 de setembro de 2026. (IBM Newsroom)

Por que essa ligação importa?

Porque hardware e compilador evoluem juntos.

Um módulo compilado há muitos anos pode não aproveitar da melhor forma:

  • instruções mais recentes;

  • melhorias de geração de código;

  • avanços da arquitetura;

  • otimizações presentes em compiladores modernos;

  • capacidades da nova geração do IBM Z.

Isso não significa que um programa antigo deixe de funcionar.

A retrocompatibilidade é uma das forças históricas do mainframe.

Significa que:

funcionar não é necessariamente o mesmo que aproveitar todo o potencial disponível.

É como colocar um excelente piloto em um veículo moderno, mas obrigá-lo a dirigir utilizando um manual escrito para um modelo de trinta anos atrás.

O veículo anda.

Porém, vários recursos permanecem inutilizados.


Capítulo 10 — Para que o produto serve?

O IBM COBOL Elevate pode ajudar organizações que enfrentam problemas como:

1. Inventário desconhecido

A empresa não sabe exatamente quais programas existem, como se relacionam ou quais versões de compilador foram utilizadas.

2. Upgrade adiado

O projeto de atualização é constantemente postergado por medo do risco, falta de profissionais ou ausência de estimativas confiáveis.

3. CPU crescente

Os volumes aumentam, o consumo cresce e ninguém consegue relacionar facilmente a métrica operacional ao trecho de código responsável.

4. Equipe reduzida

Poucos profissionais conhecem profundamente todo o ambiente.

5. Otimização sem prioridade

Existem milhares de programas, mas não há critérios para decidir quais merecem atenção.

6. Modernização genérica

A empresa fala em modernização, mas não possui uma sequência prática de ações.

O Elevate procura oferecer uma rota mais objetiva:

Descobrir
   ↓
Medir
   ↓
Classificar
   ↓
Priorizar
   ↓
Otimizar
   ↓
Atualizar
   ↓
Validar
   ↓
Acompanhar

Capítulo 11 — O que ele não é

Também precisamos eliminar alguns suspeitos inocentes.

Não é um substituto automático do COBOL

O objetivo não é apagar o COBOL e converter tudo para outra linguagem.

Não é simplesmente um compilador novo

O Enterprise COBOL continua sendo o compilador. O Elevate trabalha em torno do processo de análise, otimização, priorização e upgrade.

Não é uma autorização para deixar de testar

Reduzir esforço de teste não significa eliminar testes.

Não é uma bola de cristal

Uma recomendação precisa ser analisada dentro do contexto da aplicação.

Não elimina especialistas

Ele pode reduzir dependências excessivas e tornar conhecimento mais acessível, mas arquitetos, desenvolvedores, engenheiros de performance, equipes de testes e especialistas de negócio continuam essenciais.

Não corrige regras de negócio erradas apenas acelerando o código

Um programa que calcula algo incorretamente continuará errado, talvez apenas mais rápido.

Essa é uma curiosidade importante:

Otimizar um erro pode transformar um erro lento em um erro de alta velocidade.


Capítulo 12 — Como um programador COBOL iniciante deve estudar o Elevate

Mesmo antes de utilizar o produto, o iniciante pode preparar a base técnica.

Passo 1 — Aprenda o ciclo de compilação

Entenda:

Fonte COBOL
   ↓
Pré-compilação, quando aplicável
   ↓
Compilação
   ↓
Objeto
   ↓
Binder
   ↓
Load module ou program object
   ↓
Execução

Sem compreender essa sequência, será difícil perceber o significado de otimizar, recompilar ou atualizar compiladores.

Passo 2 — Estude opções de compilação

Conheça conceitos como:

  • OPTIMIZE;

  • ARCH;

  • TUNE;

  • informações de debug;

  • listings;

  • mapas;

  • opções relacionadas ao comportamento do compilador.

Não é necessário decorar tudo.

O importante é perceber que dois programas com o mesmo fonte podem gerar objetos diferentes dependendo da versão e das opções utilizadas.

Passo 3 — Aprenda o básico de performance

Diferencie:

  • CPU time;

  • elapsed time;

  • espera por I/O;

  • contenção;

  • consumo de Db2;

  • tempo de serviço;

  • volume processado;

  • frequência de execução.

Um programa pode demorar muito sem consumir muita CPU, por exemplo, quando espera I/O ou algum recurso.

Passo 4 — Estude estruturas COBOL críticas

Observe:

  • loops;

  • tabelas;

  • chamadas;

  • buscas;

  • conversões;

  • campos mal definidos;

  • uso de funções;

  • movimentações repetitivas;

  • acessos a arquivos e bancos.

Passo 5 — Aprenda a medir antes de alterar

Nunca otimize apenas porque um trecho “parece feio”.

Código feio pode executar uma vez por semana.

Código elegante pode executar 500 milhões de vezes por dia.

Passo 6 — Entenda o negócio

Uma rotina pode parecer redundante, mas existir por exigência regulatória, contábil ou histórica.

Antes de removê-la, investigue.

No mainframe, muitos comentários ausentes estão escondidos na memória dos antigos membros da equipe.


Capítulo 13 — Um roteiro corporativo de adoção

Uma organização interessada no COBOL Elevate poderia estruturar uma iniciativa conceitual em fases.

Fase 1 — Definir o caso

Escolher uma aplicação com:

  • consumo relevante;

  • valor de negócio;

  • dados confiáveis;

  • equipe disponível;

  • volume representativo.

Fase 2 — Criar a linha de base

Registrar:

CPU atual
Elapsed atual
Volume processado
Versão dos módulos
Compiladores
Opções
Incidentes
Janela batch
SLA

Sem linha de base, qualquer alegação de melhoria vira opinião.

Fase 3 — Inventariar

Mapear programas, copybooks, bibliotecas e dependências.

Fase 4 — Analisar candidatos

Separar os módulos realmente relevantes.

Fase 5 — Avaliar recomendações

Reunir:

  • desenvolvimento;

  • performance;

  • produção;

  • testes;

  • negócio.

Fase 6 — Criar piloto

Começar com um conjunto controlado.

Fase 7 — Testar

Executar:

  • comparação funcional;

  • regressão;

  • análise de resultados;

  • performance;

  • recuperação;

  • rollback.

Fase 8 — Comparar

Exemplo:

ANTES
CPU: 100 unidades
Elapsed: 45 minutos

DEPOIS
CPU: 78 unidades
Elapsed: 37 minutos

Mas também verificar:

Resultados de negócio idênticos?
Registros processados idênticos?
Abends?
Diferenças?
Comportamento em pico?

Fase 9 — Expandir

Somente depois das evidências, ampliar para outras aplicações.


Capítulo 14 — Curiosidades recolhidas no laboratório

Curiosidade 1 — O nome “Elevate”

A escolha sugere elevar aplicações existentes, não descartá-las.

Não é “COBOL Replace”.

Não é “COBOL Escape”.

É “COBOL Elevate”.

O patrimônio permanece, mas deve ser levado a outro nível de eficiência e manutenção.

Curiosidade 2 — O release começa em 1.1

O produto foi anunciado publicamente como IBM COBOL Elevate for z/OS 1.1. A numeração pode refletir a estratégia de empacotamento e evolução do produto, mas não devemos inventar a existência de uma versão comercial 1.0 sem documentação específica.

Curiosidade 3 — O fonte não é a única evidência

Um programa COBOL possui várias camadas relevantes:

Fonte
Copybooks
Opções do compilador
Objeto
Program object
Runtime
Dados
Volume
Ambiente
Hardware

Analisar apenas o fonte é como analisar apenas a fotografia da cena sem examinar impressões digitais, horários e depoimentos.

Curiosidade 4 — O programa mais longo pode não ser o mais caro

Um programa de 20 mil linhas executado uma vez pode consumir menos que uma rotina de 30 linhas chamada 200 milhões de vezes.

Curiosidade 5 — A otimização pode adiar expansão de capacidade

Quando aplicações utilizam menos CPU ou terminam mais cedo, a empresa pode obter maior valor do hardware existente, liberar janela batch e acomodar crescimento.

Isso não significa que qualquer otimização automaticamente reduzirá custos, pois contratos, métricas e modelos de cobrança variam. Mas eficiência técnica aumenta as opções disponíveis para planejamento de capacidade.


Capítulo 15 — Easter eggs para veteranos

Easter egg 1 — O cadáver que se levantou

O COBOL já foi declarado morto tantas vezes que deveria possuir mais certidões de óbito que programas em uma load library.

Agora, em vez de organizar seu funeral, a IBM apresenta uma solução para fazê-lo executar melhor no z17.

Easter egg 2 — “Follow the evidence”

No CSI, Grissom dizia que as evidências contam a história.

Na performance, o equivalente é:

Follow the measurements.

Não siga a opinião.

Não siga a estética do código.

Não siga o módulo que alguém “acha” problemático.

Siga CPU, frequência, volume, tempo e impacto.

Easter egg 3 — O copybook desaparecido

Todo grande projeto de inventário encontra algum programa cuja compilação depende de um copybook guardado em uma biblioteca que ninguém conhecia.

Em Las Vegas, isso seria chamado de evidência escondida.

No mainframe, chama-se terça-feira.

Easter egg 4 — O load module sem fonte

Existe sempre aquele módulo antigo que funciona há vinte anos, mas cujo fonte correto ninguém consegue localizar.

Ele continua em produção como um suspeito sem documentos, vivendo sob identidade falsa.

Easter egg 5 — A linha inocente

Um simples:

MOVE ZERO TO WS-CONTADOR

parece inofensivo.

E geralmente é.

Mas qualquer operação multiplicada por centenas de milhões merece ser analisada no contexto correto.


Capítulo 16 — A pergunta provocativa

Durante décadas, a modernização foi vendida como uma escolha binária:

OU REESCREVEMOS TUDO
OU CONTINUAMOS PARADOS NO PASSADO

O COBOL Elevate confronta essa ideia.

Ele sugere uma terceira rota:

PRESERVAR A LÓGICA
COMPREENDER O AMBIENTE
ATUALIZAR O COMPILADOR
OTIMIZAR O QUE IMPORTA
MELHORAR CONTINUAMENTE

Isso é menos cinematográfico que uma reescrita completa.

Não produz um slide dizendo “100% transformação”.

Mas pode ser muito mais responsável.

Reescrever milhões de linhas de código não remove automaticamente a complexidade do negócio. Às vezes, apenas transporta os mesmos problemas para uma nova linguagem, adicionando novos defeitos durante o percurso.

A lógica acumulada durante décadas representa conhecimento institucional.

A modernização inteligente não começa perguntando:

“Como nos livramos do COBOL?”

Ela começa perguntando:

“O que este sistema faz, por que é importante, onde está o risco e como podemos melhorá-lo com evidências?”


Capítulo 17 — O impacto para a carreira COBOL

Para o programador iniciante, o anúncio traz uma notícia excelente.

O futuro profissional não será apenas escrever:

IF SALDO > ZERO
   PERFORM PAGAMENTO
END-IF

O novo profissional COBOL precisará compreender:

  • performance;

  • compilação;

  • dependências;

  • observabilidade;

  • análise estática;

  • análise dinâmica;

  • IA assistiva;

  • DevOps;

  • modernização;

  • arquitetura IBM Z;

  • qualidade de software.

O programador deixa de ser apenas o autor do fonte.

Torna-se investigador do comportamento da aplicação.

Essa mudança amplia a carreira.

Um desenvolvedor pode evoluir para:

  • especialista em modernização COBOL;

  • engenheiro de performance;

  • arquiteto de aplicações IBM Z;

  • especialista em upgrade de compiladores;

  • engenheiro DevOps para mainframe;

  • líder de qualidade;

  • analista de dependências;

  • consultor de otimização.

O COBOL Elevate não reduz a importância do conhecimento COBOL.

Ele torna esse conhecimento parte de uma disciplina mais ampla.


Veredito final do laboratório

O IBM COBOL Elevate for z/OS 1.1, anunciado em 7 de julho de 2026 e com disponibilidade geral planejada para 18 de setembro de 2026, representa uma tentativa ambiciosa da IBM de reunir otimização, modernização, atualização de compiladores, inteligência artificial e análise de performance em uma solução integrada. (IBM)

Seus três pilares formam uma sequência lógica:

ACCELERATE
Identificar e otimizar módulos relevantes.

UPGRADE
Inventariar, avaliar e acelerar a atualização do compilador.

PERFORMANCE INSIGHTS
Ligar evidências de execução ao código-fonte.

O maior mérito da proposta não é prometer uma substituição mágica do legado.

É reconhecer que o ambiente COBOL precisa ser investigado antes de ser transformado.

Em vez de tratar todos os programas como culpados, a solução procura:

  • localizar os verdadeiros consumidores;

  • medir o impacto;

  • identificar dependências;

  • avaliar riscos;

  • orientar correções;

  • concentrar o esforço onde existe retorno.

No final daquela madrugada em Las Vegas, o jovem programador olhou novamente para o alerta de CPU.

— Então não devemos recompilar tudo?

Grissom desligou a lanterna, colocou o relatório sobre a mesa e respondeu:

— Não até sabermos quais módulos estavam presentes, quantas vezes foram executados e o que fizeram com cada ciclo de processador.

Na tela do terminal, milhares de programas continuavam trabalhando.

Alguns estavam perfeitamente inocentes.

Outros escondiam comportamentos caros havia décadas.

E pela primeira vez, havia um novo investigador entrando no laboratório.

Seu nome era:

IBM COBOL ELEVATE FOR z/OS
RELEASE 1.1

Porque no mainframe, como no CSI, o código pode permanecer em silêncio.

Mas a CPU sempre deixa vestígios.

 Maiores informações

https://www.ibm.com/new/announcements/introducing-ibm-cobol-elevate-for-z-os

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Uma aula com a lendaria Grace Hopper

Bellacosa Mainframe e a lendaria Grace Hopper

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Grace Hopper: a mulher que ensinou o computador a falar com humanos

⚓ Este vídeo é uma pequena olhadela na didática de uma mulher lendária que ajudou a criar o mundo da informática em que vivemos hoje

Existe uma coisa curiosa quando assistimos a vídeos antigos de grandes nomes da computação.

Esperamos encontrar dinossauros tecnológicos.

Pessoas falando sobre máquinas que ocupavam salas inteiras, fitas magnéticas, cartões perfurados, memórias medidas em kilobytes e computadores cuja capacidade hoje seria humilhada por uma cafeteira conectada ao Wi-Fi.

Então aparece Grace Hopper.

E alguns minutos depois acontece algo desconcertante:

ela não parece antiga.

A máquina atrás dela pode ser antiga.

O uniforme pode denunciar outra época.

O vocabulário técnico pode carregar o cheiro de válvula, relé e papel contínuo.

Mas a maneira como Grace Hopper explica uma ideia complicada através de alguma coisa que qualquer pessoa consegue visualizar continua absolutamente moderna.

E talvez essa seja uma das partes menos lembradas de seu legado.

Grace Hopper não ajudou apenas a ensinar computadores a compreender linguagens mais próximas das pessoas.

Ela também passou décadas fazendo exatamente o movimento inverso:

ensinando pessoas a compreender computadores.


👩‍✈️ Antes de tudo: quem diabos foi Grace Hopper?

Grace Brewster Murray Hopper nasceu em 9 de dezembro de 1906, em Nova York.

Matemática.

Cientista da computação.

Professora.

Oficial da Marinha dos Estados Unidos.

Programadora.

Pioneira dos compiladores.

Uma das figuras fundamentais na evolução das linguagens de programação.

E, para nós que vivemos naquele maravilhoso pântano corporativo chamado mainframe, existe ainda outra ligação particularmente importante:

COBOL.

Grace Hopper foi uma das grandes defensoras da ideia de que computadores não deveriam ser programados exclusivamente através de códigos quase incompreensíveis para seres humanos.

Isso parece óbvio em 2026.

Em sua época?

Nem um pouco.


🦖 Imagine programar quando programação ainda estava sendo inventada

Hoje alguém abre Python e escreve:

print("Hello World")

Outro sujeito abre seu editor e escreve COBOL:

DISPLAY 'HELLO WORLD'.

E um terceiro abre Java, instala 14 dependências, baixa 800 megabytes e inicia uma discussão no Stack Overflow.

Brincadeiras à parte, existe uma ideia gigantesca escondida nisso:

nós escrevemos instruções usando abstrações compreensíveis para humanos.

O computador não entende realmente aquilo.

Existe uma enorme infraestrutura traduzindo nossas intenções para alguma coisa que a máquina consiga executar.

Essa ponte parece natural porque nascemos depois dela.

Grace Hopper viveu antes da ponte existir.

E ajudou a construí-la.


⚙️ Harvard Mark I: quando computador parecia locomotiva

Durante a Segunda Guerra Mundial, Hopper entrou para a Reserva Naval dos Estados Unidos e acabou trabalhando com o Harvard Mark I, sob a liderança de Howard Aiken.

O Mark I era uma criatura extraordinária.

Imagine uma mistura de:

  • computador;

  • central telefônica;

  • relógio gigantesco;

  • painel industrial;

  • máquina contábil;

  • e cenário perfeito para um cientista maluco de filme dos anos 1940.

Programar aquilo estava muito distante da experiência moderna.

Não havia VS Code.

Não havia GitHub.

Não havia Stack Overflow.

Não havia:

“Chat, por que meu programa está dando S0C7?”

Você estava praticamente conversando diretamente com a máquina.

E Hopper percebeu uma coisa fundamental.

Aquilo não poderia continuar assim para sempre.


🧠 “Mas computadores só entendem números!”

Essa talvez seja uma das características mais interessantes dos pioneiros.

Eles precisam lutar contra ideias que posteriormente parecem absurdas.

Quando Hopper começou a defender linguagens mais próximas da linguagem humana, existia resistência.

Computadores eram máquinas matemáticas.

Portanto, segundo aquela visão, programadores deveriam falar a língua das máquinas.

Grace Hopper virou a pergunta de cabeça para baixo:

Por que obrigar milhares ou milhões de pessoas a aprender a linguagem da máquina quando podemos ensinar a máquina a compreender melhor nossa linguagem?

Essa inversão filosófica mudou tudo.


🔧 O compilador

No começo dos anos 1950, Hopper trabalhou no que se tornaria um dos primeiros compiladores, associado ao sistema A-0.

Hoje a palavra parece banal.

Compilador.

Para quem trabalha com COBOL:

SOURCE
   ↓
COMPILER
   ↓
OBJECT
   ↓
LINK
   ↓
LOAD MODULE

Segunda-feira.

Mas pense conceitualmente.

Você escreve algo conveniente para um humano.

Outra camada transforma aquilo em algo conveniente para uma máquina.

Isso representa uma transferência gigantesca de complexidade.

Em vez de:

HUMANO → adapta-se completamente à máquina

passamos progressivamente para:

HUMANO → abstração → tradução → máquina

Boa parte da história da computação posterior é uma gigantesca expansão dessa ideia.


🗣️ FLOW-MATIC: fazendo computadores entenderem negócios

Outro passo importantíssimo foi o FLOW-MATIC, desenvolvido na década de 1950.

Hopper percebeu que pessoas trabalhando com negócios pensavam em conceitos como:

CLIENTE
SALDO
FATURA
PAGAMENTO
ESTOQUE
TOTAL
VENCIMENTO

Não em registradores, opcodes e endereços de memória.

Isso parece quase ridiculamente evidente agora.

Mas essa mudança de perspectiva foi revolucionária.

FLOW-MATIC utilizava comandos próximos do inglês e influenciaria profundamente aquilo que viria depois.

E então chegamos ao nosso velho conhecido.


🦕 COBOL entra na sala

Em 1959 surgiu o esforço que levaria ao COBOL — Common Business-Oriented Language.

Grace Hopper não “inventou sozinha o COBOL”, simplificação histórica que frequentemente aparece na internet.

COBOL foi resultado de um esforço coletivo envolvendo o CODASYL e diversos especialistas e organizações.

Mas Hopper e o trabalho desenvolvido anteriormente por sua equipe foram influências fundamentais para a filosofia que tornou COBOL possível.

Especialmente uma ideia:

programas empresariais deveriam ser legíveis por pessoas que compreendessem o negócio.

Por isso encontramos coisas como:

IF CUSTOMER-BALANCE > CREDIT-LIMIT
    DISPLAY 'CREDIT LIMIT EXCEEDED'
END-IF

Você pode odiar COBOL.

Pode chamá-lo de velho.

Pode fazer piadas sobre dinossauros.

Mas leia aquilo novamente.

Um programa escrito décadas atrás pode continuar sendo razoavelmente compreensível por alguém que conhece inglês e lógica.

Isso não aconteceu por acidente.


☕ Bellacosa entra no CPD

Agora imagine Grace Hopper entrando num CPD moderno.

Ela encontra:

z/OS.

LinuxONE.

Containers.

APIs.

Java.

Python.

COBOL 6.x.

Db2.

CICS.

MQ.

z/OS Connect.

Git.

CI/CD.

Inteligência artificial generativa.

Um jovem programador provavelmente tentaria explicar tudo:

“Admiral, agora usamos inteligência artificial generativa integrada a pipelines DevOps orientados a APIs dentro de arquiteturas híbridas cloud-native…”

Hopper provavelmente interromperia:

“Muito bem. O que isso resolve?”

Silêncio na sala.

Porque uma das características mais fascinantes de sua didática era justamente transformar abstrações em coisas concretas.


📏 O famoso nanossegundo

E aqui chegamos ao vídeo e à parte que considero deliciosa.

Grace Hopper tornou-se famosa por utilizar pedaços de fio para demonstrar fisicamente conceitos relacionados ao tempo computacional.

Ela mostrava aproximadamente a distância que a luz percorre em um nanossegundo:

cerca de 30 centímetros.

De repente:

1 nanossegundo

deixava de ser apenas:

0,000000001 segundo

Era uma coisa que você podia segurar na mão.

Isso é didática.

Não é simplificar estupidamente o assunto.

É encontrar uma representação capaz de conectar um conceito abstrato ao modelo mental do aluno.


🧵 “Aqui está seu nanossegundo”

Imagine uma palestra moderna.

Slide 1:

Digital Transformation Journey

Slide 2:

AI-Driven Hybrid Multicloud Cognitive Enterprise

Slide 3:

um diagrama com 87 caixas.

Slide 4:

ninguém sabe mais onde estamos.

Grace Hopper aparece.

Tira um pedaço de fio.

“Isto é aproximadamente um nanossegundo.”

Pronto.

A sala inteira compreendeu.

É quase ofensivamente eficiente.


🧠 Informação não é conhecimento

Existe uma lição enorme nisso para quem ensina tecnologia.

Podemos colocar num PowerPoint:

1 ns = 10⁻⁹ s

Tecnicamente perfeito.

Didaticamente esquecível.

Ou podemos entregar aproximadamente 30 centímetros de fio para alguém e dizer:

“Durante esse intervalo minúsculo, nem mesmo a luz consegue viajar muito mais do que isto.”

Agora existe uma imagem mental.

Daqui a vinte anos aquela pessoa talvez tenha esquecido a apresentação inteira.

Mas provavelmente lembrará:

do maldito pedaço de fio.


🐛 E naturalmente precisamos falar do bug

Nenhum artigo sobre Grace Hopper consegue escapar dessa história.

Em 1947, trabalhando com o Harvard Mark II, a equipe encontrou uma mariposa presa em um relé.

O inseto foi colocado no registro de operações acompanhado da famosa anotação:

“First actual case of bug being found.”

A história frequentemente vira:

“Grace Hopper inventou o termo bug.”

Não.

O termo bug já era utilizado anteriormente para problemas e defeitos técnicos.

A graça do episódio está justamente no trocadilho:

pela primeira vez havia literalmente um inseto dentro do computador.

E poucas histórias representam tão perfeitamente a cultura hacker original quanto abrir uma máquina, encontrar uma mariposa e colá-la no log.


😂 O primeiro ticket de suporte zoológico

Podemos imaginar:

INCIDENT: SYSTEM FAILURE

SEVERITY: HIGH

ROOT CAUSE:
MOTH

CORRECTIVE ACTION:
REMOVE MOTH

STATUS:
RESOLVED

MAXCC=0.

Problema encerrado.


⚓ Amazing Grace

Hopper permaneceu ligada à Marinha durante décadas e alcançou o posto de Rear Admiral.

Quando finalmente se aposentou definitivamente em 1986, tinha 79 anos.

Pense nisso.

Uma mulher nascida em 1906 participou da computação desde máquinas eletromecânicas gigantescas até uma época em que computadores pessoais já estavam entrando nas casas.

Ela atravessou praticamente uma era geológica da informática.

Mark I.

Compiladores.

FLOW-MATIC.

COBOL.

Mainframes.

Minicomputadores.

Computadores pessoais.

Redes.

E continuava ensinando.


👩‍🏫 Talvez este seja o legado escondido de Grace Hopper

Normalmente lembramos dela através de palavras enormes:

pioneira.

compiladores.

COBOL.

Marinha.

Mark I.

FLOW-MATIC.

Tudo correto.

Mas quando vejo aqueles vídeos antigos, outra coisa me chama atenção.

Grace Hopper sabia contar histórias.

Ela compreendia algo que muitos especialistas esquecem:

saber uma coisa não significa saber ensiná-la.

Conhecimento técnico e capacidade didática são habilidades diferentes.

Você pode conhecer profundamente arquitetura de computadores e ser incapaz de explicar memória virtual para um iniciante.

Pode conhecer CICS profundamente e transformar uma apresentação de 40 minutos em um instrumento de tortura reconhecido pela Convenção de Genebra.

Ou pode pegar algo abstrato e dizer:

“Veja este pedaço de fio.”

E mudar para sempre a maneira como alguém compreende computadores.


🤖 De Grace Hopper à inteligência artificial

Existe ainda uma ironia maravilhosa.

Grande parte da evolução da computação pode ser interpretada como uma tentativa contínua de reduzir a distância entre:

INTENÇÃO HUMANA
       ↓
    MÁQUINA

Primeiro:

MACHINE CODE

Depois:

ASSEMBLY

Depois:

LINGUAGENS DE ALTO NÍVEL

Depois:

COBOL
FORTRAN
C
JAVA
PYTHON

E agora chegamos a:

"Crie um programa que leia este arquivo,
valide os clientes e gere um relatório."

E uma IA tenta transformar intenção humana em software.

Não é a mesma tecnologia.

Não é uma linha evolutiva simples.

Mas filosoficamente existe uma conexão fascinante.

Continuamos tentando fazer a máquina caminhar em nossa direção.

Grace Hopper certamente reconheceria essa velha batalha.


🦖 E o COBOL continua respirando

Existe também algo deliciosamente irônico para quem trabalha com mainframe.

Durante décadas anunciaram:

“COBOL vai morrer.”

COBOL:

IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. NAO-MORRI.

Ano seguinte:

“Agora definitivamente vai morrer.”

COBOL:

DISPLAY 'CONTINUO AQUI'.

Chegam cloud, APIs, microsserviços, DevOps e IA.

COBOL olha para seus bilhões de linhas processando bancos, seguradoras, governos e grandes corporações e pergunta:

“Terminou?”

Talvez a longevidade tenha alguma relação justamente com aquela obsessão inicial de Hopper e seus contemporâneos:

software deveria representar problemas humanos de maneira compreensível.


☕ O pedaço de fio deveria estar em toda sala de treinamento

Para mim, esta pequena olhadela na didática de Grace Hopper vale mais do que dezenas de apresentações corporativas.

Porque existe ali uma lição para qualquer pessoa que ensine tecnologia.

Quando alguém não entende algo, nossa primeira reação costuma ser adicionar informação.

Mais slides.

Mais palavras.

Mais diagramas.

Mais documentação.

Grace Hopper frequentemente fazia o contrário.

Ela procurava a imagem certa.

O objeto certo.

A analogia certa.

A história certa.

O famoso nanossegundo transformado em fio representa perfeitamente essa filosofia.


🎓 A verdadeira transformação digital

Talvez Grace Hopper tenha participado de uma transformação muito maior do que simplesmente criar ferramentas melhores.

Ela ajudou a mudar nossa concepção sobre quem deveria adaptar-se a quem.

No começo:

HUMANO
  ↓
precisa compreender
  ↓
MÁQUINA

Progressivamente:

HUMANO
   ↕
LINGUAGEM
   ↕
COMPILADOR
   ↕
MÁQUINA

Hoje acrescentamos outra camada:

HUMANO
   ↕
LINGUAGEM NATURAL
   ↕
IA
   ↕
SOFTWARE
   ↕
MÁQUINA

A distância continua diminuindo.

E isso torna aquela mulher segurando um pedaço de fio décadas atrás estranhamente contemporânea.


🌌 Um nanossegundo depois...

Grace Hopper morreu em 1º de janeiro de 1992, aos 85 anos.

Não viu smartphones.

Não viu cloud computing.

Não viu Kubernetes.

Não viu ChatGPT.

Não viu um programador conversando em português com uma inteligência artificial às duas da manhã sobre COBOL.

Talvez seja melhor não explicar Kubernetes logo de cara.

Mas ela viveu tempo suficiente para assistir a uma ideia considerada quase absurda tornar-se normal:

pessoas comuns poderiam dizer aos computadores o que desejavam utilizando linguagens progressivamente mais humanas.

Hoje fazemos isso diariamente.

E raramente pensamos nas pessoas que abriram essa estrada.

Por isso vale assistir ao vídeo.

Não apenas como curiosidade histórica.

Observe como Grace Hopper fala.

Observe as analogias.

Observe os objetos.

Observe o humor.

Observe como ela pega algo invisível — tempo computacional — e coloca aquilo praticamente na mão da plateia.

Porque naquele momento não estamos vendo apenas uma pioneira da computação.

Estamos vendo uma professora.

Uma lendária mulher que ajudou a construir o mundo digital no qual vivemos e que, décadas antes de PowerPoint, YouTube, MOOCs e inteligência artificial, já havia compreendido uma das regras mais importantes da educação tecnológica:

se o aluno não consegue enxergar a ideia, encontre uma maneira de torná-la visível.

E se para isso você precisar entrar numa sala carregando um pedaço de fio...

leve o fio.


☕ Epílogo do Bellacosa Mainframe

Em algum lugar do multiverso mainframe, imagino Grace Hopper entrando numa reunião moderna.

Na tela:

AI-ENABLED
CLOUD-NATIVE
ZERO-TRUST
API-FIRST
DEVSECOPS
HYBRID-CLOUD
AGENTIC-AI

Ela observa durante alguns segundos.

Pega seu pedaço de fio.

Olha para os executivos.

E pergunta:

“Muito interessante. Agora alguém consegue me explicar o problema que estamos tentando resolver?”

Silêncio.

Ao fundo, um mainframe continua processando tranquilamente.

IEF142I JOBHOPPR STEP01 - STEP WAS EXECUTED
IEF285I   MAXCC=0000

Amazing Grace.

Job completed successfully.

☕🦖⚓

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/05/cobol-imortal-ele-esta-rodando-o-mundo.html

Este video é uma pequena olhadela na sua didatica. Uma lendaria mulher que ajudou a criar o mundo da informatica que vivemos hoje.

 

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...