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sábado, 1 de julho de 2006

☕🚌 A Primeira Vagneida : Quando um ônibus para Valinhos abriu um caminho para o mundo

 

Bellacosa Mainframe e a primeira vagneida

☕🚌 A Primeira Vagneida

Quando um ônibus para Valinhos abriu um caminho para o mundo

Existem viagens que medimos em quilômetros.

E existem viagens que medimos pelo tamanho da transformação que provocam dentro da gente.

Minha primeira Vagneida pertence à segunda categoria.

Voltemos aos anos de 1985 e 1986.

A separação dos meus pais caminhava lentamente para um desfecho inevitável, culminando oficialmente em fevereiro de 1986. Para uma criança, compreender tudo aquilo era impossível. O que eu percebia era apenas o silêncio.

Silêncio dos parentes.

Silêncio das visitas.

Silêncio dos telefonemas.

A família paterna, por razões que cada um carregava consigo, praticamente desapareceu do nosso convívio. De uma hora para outra parecíamos estar sozinhos, tentando reorganizar uma vida que havia sido desmontada peça por peça.

Mas a vida tem dessas surpresas.

Quando menos esperamos, alguém abre uma porta.

Foi exatamente isso que aconteceu.

Minha tia-avó Guiomar, irmã da minha avó Alzira, ficou sabendo da situação através de cartas. Naquela época as notícias viajavam lentamente, escritas à mão, atravessando cidades dentro de envelopes. Não havia WhatsApp. Não havia redes sociais. Havia papel, tinta e carinho.

E, sem avisar ninguém, ela apareceu.

Foi uma visita inesperada.

Mas talvez tenha sido uma das visitas mais importantes da nossa história.

Ela trouxe conversa.

Trouxe abraço.

Trouxe esperança.

Trouxe aquela sensação de que ainda existiam pessoas olhando por nós.

Vi minha mãe respirar um pouco mais aliviada.

Era como se alguém tivesse aberto a janela depois de um longo inverno.

Mal sabia eu que aquela visita mudaria também a minha vida.

Durante as férias escolares surgiu um convite inesperado.

Meus irmãos passariam alguns dias na casa do meu pai.

Eu, por outro lado, fui convidado para conhecer Valinhos.

Hoje parece algo simples.

Mas para um garoto daquela época era uma missão digna de Indiana Jones.

O detalhe era que eu viajaria...

Sozinho.

Minha mãe precisou ir ao Juizado de Menores.

Naqueles tempos era necessária uma autorização especial para que um menor embarcasse desacompanhado em uma viagem interestadual ou mesmo entre determinadas cidades, que era meu caso.

Lembro do juiz.

Das perguntas.

Da ansiedade.

E finalmente daquele documento.

Na minha imaginação infantil aquilo não era apenas uma autorização.

Bellacosa Mainframe e o primeiro green card

Era meu Green Card da aventura.

Meu passaporte.

Minha licença oficial para explorar o desconhecido.

Chegou o grande dia.

Entrei sozinho no ônibus.

Sentei próximo à janela.

Observei Taubaté ficando para trás.

Bellacosa Mainframe lembranças da Rodovia Dom Pedro

Entre quase 300 quilometros e longas horas cheguei na Rodovia Dom Pedro ainda nem existia como conhecemos hoje. As estradas pareciam enormes, intermináveis. E o ônibus sem o conforto moderno dos ares condicionados, ia com janelas abertas e o mormaço da estrada entrando. Parando em inumeras cidades, um pinga pinga doidão.

Cada cidade que passava aumentava minha sensação de independência.

Pela primeira vez eu estava completamente responsável por mim mesmo.

Sem meus pais.

Sem irmãos.

Sem ninguém conhecido ao lado.

Era apenas eu...

...e o mundo.

Ao chegar na Rodoviária de Campinas, lá estavam minha prima Noemi e meu tio-avô Francisco, esperando por mim.

Que sensação maravilhosa foi vê-los.

Missão cumprida.

A primeira grande expedição da minha vida terminava com sucesso.

Passei alguns dias inesquecíveis em Valinhos.

Histórias que ainda merecem capítulos próprios.

Porque ali vivi novas aventuras.

Conheci novos lugares.

Novos sabores.

Novas pessoas.

Mas isso fica para outra crônica.

Hoje quero apenas celebrar aquele momento em que tudo começou.

Olhando para trás, percebo que aquela pequena viagem foi muito maior do que parecia.

Talvez ali tenha nascido o viajante que anos depois pisaria em Portugal.

Que atravessaria a Espanha.

Que dormiria em trens pela Europa.

Que caminharia até Santiago de Compostela.

Que visitaria museus ferroviários.

Que pisaria em aeroportos, estações e rodoviárias sem medo.

Tudo começou naquele ônibus.

Naquele banco próximo à janela.

Naquele garoto carregando uma pequena mala e um coração gigantesco.

Hoje brinco dizendo que foi a primeira Vagneida oficialmente documentada.

A primeira aventura em que o destino confiou em mim.

E talvez tenha sido exatamente naquele dia que descobri uma verdade que continua me acompanhando:

Toda grande jornada começa com um passo.

Às vezes...

Esse passo é simplesmente subir em um ônibus.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988