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domingo, 5 de abril de 2015

☕🚲🌳 Taubaté, Onde Parte da Minha Alma Resolveu Ficar

 

Bellacosa Mainframe e a liberdade de andar de bicicleta por Taubate

☕🚲🌳 Taubaté, Onde Parte da Minha Alma Resolveu Ficar

Existem cidades onde moramos.

E existem cidades que moram dentro de nós.

Taubaté é uma delas.

Em 1985, após mais uma mudança daquelas que pareciam rotina na família Bellacosa, desembarquei no Jardim Garcez, no Parque Sabará. Eu tinha pouco mais de dez anos e não fazia ideia de que estava entrando em um dos períodos mais felizes de toda a minha vida.

A casa ficava na Rua 9, número 51.

Hoje é apenas um endereço.

Mas para mim foi um portal.

Ali começava um mundo novo.

O bairro ainda era jovem. Muitas ruas eram de terra. Havia terrenos vazios, campos de futebol improvisados, mato, riachos, pastos e uma sensação constante de que tudo ainda estava sendo descoberto.

O fim da cidade parecia também o começo da aventura.

Próximo de casa existia um pasto. Cortando caminho por ele, chegávamos a um estábulo onde comprávamos leite fresco. Coisa simples, comum para quem viveu aquela época, mas que hoje parece cena de filme.

Lembro do cheiro da terra molhada.

Das minas d'água.

Das bicas onde bebíamos água gelada sem medo.

Dos riachos onde eu procurava peixinhos para aquário.

Dos enormes açudes onde mergulhávamos sem pensar muito nas consequências e saíamos cobertos de lodo até as orelhas.

Era uma infância em contato direto com a natureza.

Claro que existiam perigos.

Cobras.

Aranhas.

Buracos.

Espinhos.

Mas o sentimento predominante era outro:

Liberdade.

Uma palavra que talvez as gerações atuais tenham dificuldade de compreender em toda sua dimensão.

Nós saíamos de manhã.

Voltávamos quando o sol começava a desaparecer.

Sem celular.

Sem GPS.

Sem aplicativo de localização.

Sem ninguém monitorando cada passo.

O mundo era nosso.

E nós pertencíamos ao mundo.

Foi também em Taubaté que a bicicleta deixou de ser brinquedo para virar extensão do meu corpo.

Minha velha Monareta me levava para todos os lugares.

E quando digo todos, não estou exagerando.

Pedalava por bairros inteiros.

Explorava ruas desconhecidas.

Atravessava regiões que para mim pareciam outros países.

Taubaté era gigantesca aos olhos de um garoto.

Cada bairro escondia um mistério.

Cada rua levava a uma nova descoberta.

Cada esquina tinha potencial para virar uma aventura.

E havia também os livros.

Ah, a Biblioteca Municipal de Taubaté...

Ali encontrei centenas de mundos.

Enquanto alguns exploravam florestas, eu explorava estantes.

Enquanto alguns caçavam tesouros, eu encontrava civilizações inteiras dentro das páginas.

Aquele lugar ajudou a formar quem sou.

Muitas das viagens que fiz no futuro começaram primeiro dentro daqueles livros.

Mas Taubaté não era feita apenas de lugares.

Era feita de pessoas.

Amigos.

Colegas.

Paqueras.

Primeiros amores.

Primeiros beijos.

Primeiras decepções.

Primeiras descobertas sobre o coração humano.

Hoje conto algumas dessas histórias e já imagino alguém pensando:

— Ah, lá vem o tiozão inventando moda...

Mas não.

Foram tempos mágicos.

Tempos em que tudo parecia possível.

Tempos em que o mundo ainda possuía aquele brilho especial que só existe entre a infância e a adolescência.

Houve também a escola.

A lendária Amador Bueno da Veiga.

As fugas estratégicas da educação física.

As brincadeiras.

As bagunças.

Os bailinhos escolares.

As amizades.

As lendas.

A famosa Loira do Banheiro.

E a outra loira lendária...

A diretora.

Que causava muito mais medo que qualquer fantasma.

Hoje rio ao lembrar.

Mas na época era assunto seríssimo.

Olho para trás e percebo que nem tudo foi perfeito.

Houve tristezas.

Houve dores.

Houve problemas.

Houve acontecimentos que marcaram.

Mas a memória é curiosa.

Ela não mente.

Mas escolhe aquilo que merece permanecer iluminado.

E quando penso em Taubaté, o que ficou foi o sol.

Foi a liberdade.

Foi a bicicleta.

Foi a biblioteca.

Foi o cheiro do mato.

Foi o sabor das pitangas.

Foi a água gelada da bica.

Foi o açude.

Foi a aventura.

Foi a felicidade simples.

Talvez por isso, décadas depois, ainda exista um pedaço do meu coração morando naquela Rua 9.

Talvez por isso, quando penso em lar, uma parte da minha alma ainda esteja pedalando pelas ruas de terra do Parque Sabará.

E suspeito que ela nunca mais voltou de lá.