sexta-feira, 6 de abril de 2012

O PRIMEIRO ACIDENTE — CRÔNICA BELLACOSA MAINFRAME

 





O PRIMEIRO ACIDENTE — CRÔNICA BELLACOSA MAINFRAME
Para o El Jefe Midnight Lunch


Toda família tem aquela história que vira SMF permanente no diário da memória: não apaga, não sobrescreve, não tem delete, somente se replica em todas as festas, almoços, reencontros e churrascos da família.
E na Famiglia Bellacosa, uma dessas histórias é o Primeiro Acidente.

Relatada em segunda pessoa, porque o protagonista ali —eu, o Vaguinho um pequeno oni de fraldas — não tinha ainda memória RAM suficiente pra registrar o evento, mas deixou log suficiente no coração dos adultos ao redor.




Vaguinho — versão 0.1.3, build “Bebê Careca”

Rua Ultrecht, Vila Rio Branco.
Cenário simples, cotidiano, mas para quem lê o histórico depois, parece quase um ambiente de teste improvisado.

Eu, bebê de colo, ainda carequinha, ainda descobrindo o mundo, rodando no modo Debug:

  • zero coordenação;

  • zero noção de altura;

  • zero estabilidade;

  • mas já 100% Bellacosa no quesito “aprontar”.

Minha mãe recebe visita da prima Noemi — 14 anos, adolescente, moça boa, mas completamente sem treinamento técnico para segurar um Bellacosa em sua versão mais instável.

Era como dar um servidor crítico pra alguém que ainda estava no curso introdutório de informática: a intenção era ótima, mas o risco era altíssimo.


Procedimento incompatível detectado

Noemi me pega no colo.
Imagino a cena, EU desgostoso de ser manipulado, claro, ativo meu módulo de mini-oni.

Mexe pra cá, desequilibra pra lá, balança como se estivesse testando gravidade.
E a gravidade, paciente e implacável, respondeu:

PUMBA.

O bebê caiu de cabeça no chão.

Se fosse um desenho animado, teria ecoado TOING com estrelinhas ao redor.
Mas não era desenho. Era vida real.

E o resto é fácil de imaginar, abri o maior berreiro, ao estilo oficial do Bellacosa-Módulo-Bebê, aquele que faz eco no bairro inteiro.



Pânico, berreiro e o início da lenda

Noemi congela.
O mundo dela dá tela azul.
A alma sai do corpo, roda dois loops e volta.
A menina moça vive ali seu primeiro trauma de adolescência.

Minha mãe corre, me recolhe, faz carinho, cura e backup emocional.
Meu pai, com cara de poucos amigos, chega logo depois, bravo, esbravejando, como só pai que ama faz quando vê o filho machucado.

E Noemi…
Coitada.
Mesmo hoje, adulto, eu ainda brinco com ela:

“Olha aí, Noemi, se sou maluco, metade da culpa é sua!”

Ela ri — ri muito — porque trauma vira afeto quando a família é boa, quando a história deixa de doer e passa a fazer parte da identidade coletiva.


O legado do primeiro tombo

Dizem que aquele foi o marco zero.
Como se o universo tivesse hackeado meu código-fonte naquele impacto.
Ou como se ali tivesse sido instalada a DLL do diabinho Bellacosa, que acompanharia todas as aventuras seguintes:
galos, cicatrizes, acrobacias, escaladas ninja, pulos de muro, fugas cinematográficas e tudo mais que já apareceu no meu changelog de infância, muitos compartilhados aqui, outros escondidos em baús enterrados na mais profunda Dungeon com boss modo full-difícil.

Ali foi o primeiro commit da minha carreira como arteiro profissional.

Um pequeno acidente que virou grande história.
Um trauma que virou carinho.
Uma lembrança que virou tradição de risada.

Na Famiglia Bellacosa, até os tombos vêm com afeto, lore e easter eggs.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Trem a diesel manobrando composição de passageiro eletrica

Locomotora diesel em manobra na estação de Novara


Desde a mais tenra infância sou um aficionado por trens e ao morar na Europa, este prazer aumentou exponencialmente, o parque ferroviário é vasto com composições dos mais diversos feitios e modelos.

Então sempre que descubro uma nova locomotiva, la estou eu de maquina em punho registrando para a posteridade.


Esta maquina a diesel esta estacionada na estação Tronco de Novara, esta estação tem sua malha distribuída em ramais e subramais que interligam diversas pequenas cidades da região. Devido a esta distribuição de interligamentos, o tráfego ferroviário é grande, partindo diversas trens varias vezes ao dia, 

Deste pequenos trens de uma única carruagem ate composições velozes interligando Novara a Europa. Por isso esta pequena diesel desempenha um papel fundamental posicionando composição para la e para cá.


domingo, 1 de abril de 2012

Uma viagem de trem pelo Piemonte.

Passeando de Trenitalia 


A melhor coisa que existe na Itália são os meios de transporte. Voce consegue viajar para onde quiser, sem muita dificuldade ou constrangimento.



Aqui estou viajando em uma composição de passageiros tracionada a locomotiva eléctrica, olhando pela janela vemos a planície do Piemonte. Vários casario, algumas pequenas propriedades agrícola, campos e pastos, gado e ovelha passeando e aproveitando o dia.

Meu destino é retornar para a cidade de Novara, após um delicioso passeio em Alessandria. Onde provei um delicioso sorvete e aproveitei para conhecer a cidade.


quinta-feira, 29 de março de 2012

🌊 Crônica Bellacosa Mainframe — O Rio, os Salgados e o Pequeno Guerreiro do Mogi-Guaçu



 🌊 Crônica Bellacosa Mainframe — “O Rio, os Salgados e o Pequeno Guerreiro do Mogi-Guaçu”

(Para o blog El Jefe Midnight Lunch)


Há rios que cortam cidades.
E há rios que cortam vidas.
O Mogi-Guaçu dos anos 80 fazia os dois.

Para um paulistano recém-teletransportado para Pirassununga, aquele rio não era apenas água correndo:
era um animal vivo, pulsante, cheio de voz.
Era a primeira vez que eu via a natureza não como paisagem, mas como espetáculo.



🐟 O Mogi-Guaçu antes da ganância: água limpa, peixe farto, vida abundante

  1. Pirassununga.
    O rio era quase uma entidade mística.

  • Águas mais claras, mais calmas.

  • Muitas áreas verdes.

  • Barrancos que eram convites ao descanso.

  • Pescadores em fila, cada qual com seu kit de aventura.

  • Lambaris, piaus, dourados, cascudos — parecia cardápio ambulante.

O pessoal da cidade tratava o rio como um templo.
E eu, com apenas 9 anos, tratava como um parque de diversões gratuito.


🐟✨ A piracema: o milagre que parecia invenção do Maurício de Sousa

Se tem algo que nunca mais esqueci, foi a primeira piracema que vi.

Peixes voando do rio.
Sim, voando.
Saltando contra a correnteza como os samurais da água.

E o mais surreal:
os moradores usando guarda-chuvas abertos como redes improvisadas —
capturando os peixes que vinham literalmente pulando para dentro.

Era a Pirassununga versão "modo lendário ativado".



☀️🧺 Praiamas, represa e piqueniques com cheiro de infância

As tardes à beira do Mogi-Guaçu eram um convite ao ócio criativo:

  • brincadeiras nas “praiamas”, pequenas faixas de areia improvisadas;

  • visitas às instalações da represa, que para mim pareciam uma espécie de usina futurista;

  • adultos rindo, crianças correndo, vento soprando cheiro de mato e água.

Era tudo tão vivo, tão fresco, tão…
Brasil que deu certo, antes da mão pesada do progresso sem alma.



💸 A parte dura da história: a vida real da Família Wilson Bellacosa

Mas todo paraíso tem sua fenda de realidade.

A fotografia — a paixão do meu pai — não sustentava uma família inteira.
E ali começava o capítulo que me forjou:
o trabalho infantil involuntário mais épico e mais formador que já tive.

Sim, meus caros leitores do El Jefe:
antes de ser Bellacosa Mainframe, eu fui Bellacosa CoxinhaWare 1.0.


🍗🔥 O Empreendimento da Coxinha — Versão 1983

A operação era digna de startup:

Squad Bellacosa:

  • Dona Mercedes (Product Owner & Masterchef)

  • Eu e Vivi (junior devs de empanar, testes e QA de textura)

  • Sr. Wilson (DevOps: fritava, entregava e tentava não queimar nada)

Nós produzíamos coxinhas e risoles artesanais.
E nos finais de semana…
lá estávamos nós à beira do Mogi-Guaçu, vendendo salgados para turistas.

Eu com 9 anos.
Tabuleiro na mão.
Subindo e descendo o barranco.
Chamando clientes.
Fazendo troco.
Entendendo capitalismo raiz antes de saber o que era economia.

Parecia brincadeira.
Mas hoje vejo:
era sobrevivência.
Era caráter em construção.
Era vida me empurrando pra frente.


⚔️ O Pequeno Guerreiro do Mogi-Guaçu

Eu cresci rápido.

Aquele trabalho de final de semana, aquela responsabilidade, aquele suor pré-adolescente, forjaram algo em mim:

  • resiliência;

  • senso de urgência;

  • autoconfiança;

  • noção de valor;

  • e a certeza de que nada cai do céu — nem peixe, a não ser na piracema.

Fui moldado ali, entre barrancos, coxinhas e trocos contados.

O mesmo menino que carregava tabuleiro à beira do rio…
anos depois desembarcou em Lisboa com a coragem de quem já havia conquistado o Mogi inteiro.


🥚 Easter Egg Bellacosa Mainframe

A receita da coxinha original da Dona Mercedes ainda existe.
E pasme:
até hoje nunca comi outra igual —
nem no Brasil, nem em Portugal, nem na Europa inteira.

Quando o sistema é clássico…
não tem update que supere.

quarta-feira, 28 de março de 2012

🖥️📚 Michael Crichton: o impacto cultural e o manual de sobrevivência tecnológica

 


🖥️📚 Michael Crichton: o impacto cultural e o manual de sobrevivência tecnológica


🌍 Impacto cultural

Michael Crichton ensinou a sociedade a desconfiar de sistemas complexos. Antes de IA, big data e automação total, ele já alertava: tecnologia amplifica erros humanos. Seus livros moldaram o cinema, a TV (ER), o debate científico popular e a mentalidade de risco em engenharia, saúde e TI. Crichton fez o público pensar como operador: “funciona… até falhar”.



📖 Livros (ordem de publicação – romances sob o nome Michael Crichton)

1️⃣ A Case of Need — 1968

👤 Dr. John Berry
📜 Ética médica e erro sistêmico.
🥚 Base de ER.
💬 Auditoria clínica antes do termo.

2️⃣ The Andromeda Strain — 1969

👤 Dr. Jeremy Stone
📜 Patógeno extraterrestre.
🥚 Protocolos reais.
💬 Isolamento é governança.

3️⃣ The Terminal Man — 1972

👤 Harry Benson
📜 Neurotecnologia fora de controle.
🤫 IA biológica primitiva.
💬 Automação sem fallback.

4️⃣ The Great Train Robbery — 1975

👤 Edward Pierce
📜 Golpe vitoriano.
🥚 Engenharia social.
💬 Hack analógico.

5️⃣ Eaters of the Dead — 1976

👤 Ahmad ibn Fadlan
📜 Vikings “científicos”.
🤫 Beowulf reprogramado.
💬 Método > mito.

6️⃣ Congo — 1980

👤 Karen Ross
📜 Tecnologia vs natureza.
🥚 IA primata.
💬 Campo sem teste = desastre.

7️⃣ Sphere — 1987

👤 Norman Johnson
📜 Psicologia sob pressão.
🥚 Interface alien.
💬 Usuário é o bug.

8️⃣ Rising Sun — 1992

👤 Peter Smith
📜 Cultura corporativa.
🤫 Política nos bastidores.
💬 Contexto importa.

9️⃣ Jurassic Park — 1990

👤 Alan Grant
📜 Caos e biotecnologia.
🥚 Teoria do caos.
💬 Sistema complexo não perdoa.

🔟 The Lost World — 1995

👤 Ian Malcolm
📜 Continuação caótica.
💬 “Eu avisei.”

1️⃣1️⃣ Disclosure — 1994

👤 Tom Sanders
📜 Poder e tecnologia.
💬 RH também é sistema.

1️⃣2️⃣ Airframe — 1996

👤 Casey Singleton
📜 Investigação técnica.
🥚 Engenharia real.
💬 Logs salvam reputações.

1️⃣3️⃣ Timeline — 1999

👤 André Marek
📜 Viagem no tempo.
💬 Latência mata.

1️⃣4️⃣ Prey — 2002

👤 Jack Forman
📜 Nanotecnologia swarm.
🥚 IA distribuída.
💬 Microserviços assassinos.

1️⃣5️⃣ State of Fear — 2004

👤 Peter Evans
📜 Ciência, política e mídia.
🤫 Controverso.
💬 Dados ≠ narrativa.

1️⃣6️⃣ Next — 2006

👤 Alex Burnett
📜 Genética e patentes.
🥚 DNA como IP.
💬 Propriedade do código-fonte humano.

1️⃣7️⃣ Pirate Latitudes — 2009 (póstumo)

👤 Charles Hunter
📜 Piratas históricos.
💬 Operação sem TI.

1️⃣8️⃣ Micro — 2011 (com Richard Preston, póstumo)

👤 Jack Parker
📜 Miniaturização extrema.
💬 Escala muda tudo.


🖥️ Comentário final Bellacosa
Crichton deixou um legado essencial: tecnologia exige humildade operacional. Seus livros são manuais narrativos para quem mantém sistemas críticos vivos. Leia como quem revisa JCL: cada capítulo é um alerta de produção.

MAINFRAME ONLINE. CONSCIÊNCIA ATIVA.

terça-feira, 27 de março de 2012

💣 Event-Driven Architecture explicada para quem já confiou em MQ às cegas





💣 Event-Driven Architecture explicada para quem já confiou em MQ às cegas



00:00 — Introdução: quando o sistema falava por bilhetes

Antes de Kafka, antes de cloud, antes de “arquitetura hexagonal”, já existia mensageria.
Mainframer raiz lembra bem: MQSeries, filas persistentes, mensagens garantidas, commit, rollback e aquele silêncio confortável de quem confiava que “se entrou na fila, chega do outro lado”.

A Event-Driven Architecture (EDA) nada mais é do que isso:
👉 sistemas conversando por eventos, não por chamadas diretas.

💥 Easter egg: quem já depurou mensagem envenenada em fila sabe mais EDA do que muito arquiteto de LinkedIn.



1️⃣ O que é Event-Driven Architecture (sem buzzword)

EDA é um modelo onde:

  • Um produtor emite um evento

  • O evento é colocado em um broker

  • Um ou mais consumidores reagem a esse evento

  • Nenhum produtor sabe quem vai consumir

Tradução mainframe:

“Eu jogo na fila e durmo tranquilo.”


2️⃣ Por que EDA virou moda (de novo)

Nos sistemas distribuídos modernos:

  • Tudo é instável

  • A rede falha

  • Serviços sobem e descem

  • Escalar síncrono vira gargalo

EDA resolve isso com:

  • Desacoplamento

  • Assincronia

  • Resiliência

  • Escalabilidade horizontal

📌 Curiosidade: o que a cloud vende hoje como inovação, o mainframe entregava há décadas com disciplina.


3️⃣ O paralelismo direto: MQSeries vs Kafka 🧠

MQSeriesKafka
FilaTópico
MensagemEvento
PersistênciaLog distribuído
CommitOffset
DLQDead Letter Topic
Retry manualReprocessamento

😈 Easter egg: Kafka não garante “exatamente uma vez” tão fácil quanto prometem. Mainframer já desconfiava.


4️⃣ Evento não é chamada de serviço (grave isso)

Erro clássico de quem vem do síncrono:

  • Usar evento esperando resposta

  • Criar dependência invisível

  • Transformar EDA em RPC disfarçado

👉 Evento é:

  • Algo que já aconteceu

  • Imutável

  • Registrado para sempre (ou até expirar)

💬 “PedidoCriado” ≠ “CriaPedido()”


5️⃣ Passo a passo mental para desenhar EDA

1️⃣ O que aconteceu? (evento)
2️⃣ Quem precisa saber disso? (consumidores)
3️⃣ O produtor precisa esperar? (não!)
4️⃣ O evento pode ser repetido? (sempre!)
5️⃣ Existe reprocessamento? (obrigatório)
6️⃣ O sistema aguenta mensagens duplicadas?

📎 Dica Bellacosa:
Se duplicar quebra, não está pronto para EDA.


6️⃣ Idempotência: o velho truque com nome novo

Mainframer conhece:

  • Controle por chave

  • Flags de processamento

  • Tabelas de controle batch

No EDA moderno:

  • Idempotência é obrigatória

  • Consumidor deve aguentar evento repetido

  • “Exatamente uma vez” é lenda urbana

😈 Easter egg:
Quem já escreveu batch reentrante já venceu essa fase.


7️⃣ Falhas fazem parte do design 🔥

Em EDA:

  • Mensagem pode atrasar

  • Consumidor pode cair

  • Ordem pode se perder

  • Evento pode ficar órfão

📌 Curiosidade:
No mainframe isso chamava reprocessamento controlado.
Na cloud chamam de resiliência.


8️⃣ Guia de estudo para mainframers migrantes 📚

Conceitos-chave

  • Event-Driven Architecture

  • At-least-once delivery

  • Idempotência

  • Eventual Consistency

  • Dead Letter Queue

Ferramentas modernas (espírito antigo)

  • Kafka

  • RabbitMQ

  • IBM MQ

  • EventBridge

  • Pub/Sub


9️⃣ Aplicações práticas no mundo real

  • Integração entre sistemas legados e cloud

  • Processamento assíncrono de pedidos

  • Auditoria e rastreabilidade

  • Desacoplamento de core systems

  • Alta escalabilidade sem travar tudo

🎯 Mainframer com EDA vira arquiteto natural.


🔟 Comentário final (03:04, plantão eterno)

Event-Driven Architecture não é moda.
É mensageria com orgulho.

Se você já:

  • Confiou em MQ sem ver o consumidor

  • Lidou com DLQ às 06h da manhã

  • Reprocessou lote sem duplicar dado

Então você já viveu EDA.

🖤 El Jefe Midnight Lunch decreta:
Quem entende filas, entende o futuro.

 

sábado, 17 de março de 2012

🥃 Paco, o Espanhol de Aço — O Imigrante que Derrotou a Morte Três Vezes

 


🥃 Paco, o Espanhol de Aço — O Imigrante que Derrotou a Morte Três Vezes

Crônica ao estilo Bellacosa Mainframe para o blog El Jefe Midnight Lunch

Alguns homens vêm ao mundo para trabalhar, outros para sobreviver, e uma pequena minoria para desafiar as estatísticas, a lógica e até mesmo a Morte.
Entre esses últimos, estava meu bisavô Francisco — mas para a família, o nome verdadeiro era Paco, espanhol de sangue quente, sotaque carregado, bigode bravo e coração leal.



🚢 Do Mar de Almería à Pauliceia dos Trilhos

Paco não nasceu no Brasil — ele atravessou o Atlântico, ainda pequeno, espremido com a família num navio a vapor que partiu de Almería.
Espanha vivia dias difíceis; o Brasil prometia fartura, café e futuro.

Chegaram em Santos, foram para a célebre Hospedaria dos Imigrantes, e dali seguiram para o interior profundo — o então Novo Mundo, hoje Catanduva. A família cresceu como crescem famílias fortes: espalhando-se em raízes, galhos e histórias por São José do Rio Preto, Barretos e arredores.

Foi ali que Paco conheceu Bel, moça firme, descendente também de espanhóis, com quem construiu um lar. Mas o destino, esse maquinista incansável, os chamava de volta aos trilhos — e embarcaram rumo a São Paulo pela Companhia Paulista, a ferrovia que costurava sonhos e cidades.

Foram morar em São Caetano, depois Parque São Lucas, depois onde a vida pedisse. Família sempre crescendo, sempre trabalhando, sempre lutando.


🔥 Paco: pouca fala, muito jornal

Meu bisavô era de poucas palavras e muitas opiniões. O português dele vinha carregado de Espanha, de poeira, de trabalho.
Bravo, mas justo.
Sério, mas com um sorriso meio torto que valia mais que discurso.

E havia uma liturgia diária:

  • A Gazeta Esportiva — porque todo espanhol de respeito é corinthiano sofredor por vocação.

  • O infame Notícias Populares — porque ninguém resiste a uma manchete absurda antes do almoço.

  • O Estado de São Paulo aos domingos — porque até os bravos têm seu dia de calmaria.

Eu gostava de ouvi-lo. Às vezes achava que ele exagerava nas histórias. Depois percebi que não. Ele era realmente aquilo tudo.


💀 Primeiro Superpoder: vencer a Morte por desabamento

Um dia, enquanto trabalhava como encarregado no restauro de um alto-forno, aconteceu o impensável: a chaminé inteira desabou.
Gente morreu.
Houve gritos, poeira, caos.

Do meio dos escombros, levantou-se Paco — machucado, sangrando, mas vivo.
E, segundo ele, xingando em espanhol quem tivesse culpa.

A Morte errou a mão.
E Paco devolveu a encarada.


🚗 Segundo Superpoder: atropelamento? Só um incômodo

Anos depois, atravessando a famigerada estrada Mogi das Cruzes — a querida Avenida Imperador da Vila Rio Branco — um motorista covarde o atropelou e fugiu.

Ambulância. Hospital.
E alguns dias depois ele já estava em casa, rindo da situação, como quem toma chuva sem guarda-chuva.

A Morte tentou de novo.
Paco 2 x 0.



🍽️ Terceiro Superpoder: AVC com banho de sangue teatral

Mas a cena mais absurda foi durante um almoço de domingo.
A família toda reunida.
De repente Paco convulsiona — um AVC súbito.

Na queda, bate o pulso num prato de colorex.
Corta o braço.
Jorra sangue.
Parece filme de samurai.

E no fim?
Saiu ileso do AVC.
Só perdeu movimento da mão.

Paco 3 x 0.

A Morte, coitada, pediu música no Fantástico.

🪙 O Guardião do Troco e o Imperador da Sarjeta

Meu bisavô tinha regras.
Firmes.
E sagradas.

Ele me dava moedas para doces, pipas, piões — mas ao voltar da padaria ou do jornaleiro, pedia o troco.
Se estivesse certo, era meu prêmio.
Se estivesse errado, eu tinha que voltar para pegar o troco correto.

Aprendi duas lições:

  1. Honestidade não é opção — é procedimento operacional.

  2. Corinthiano até no troco é rígido.

Outra mania: limpar a guia da sarjeta em frente à casa.
Adorava uma calçada impecável.
Eu, claro, era o estagiário oficial.
Ganhava algumas coroas pela auditoria.

🍺 A guerra com seu genro — e o acordo entre as famílias

Paco era teimoso.
Bravo.
Um rolo compressor de Espanha e turrice.

Quando sua filha apaixonou-se por meu avô Pedro — um italiano — o mundo quase acabou.
Espanhol e italiano na mesma mesa?
Que ousadia!

Foi preciso meu outro bisavô, Luigi, subdelegado meio rufião, intervir para negociar a paz.
Um tratado quase diplomático.

No fim, o casamento durou décadas, só terminando quando meu avô Pedro faleceu.

A paz latina, selada na base do amor e do tranco.

🥘 Epílogo: o homem que virou lenda

Paco não foi herói de cinema.
Não saiu no jornal (pelo menos não nas manchetes sérias).
Mas foi um daqueles homens raros:

  • que chegam com pouco e constroem muito

  • que criam filhos, netos e bisnetos com dureza e ternura

  • que batalham pela vida até o último round

  • que deixam marcas invisíveis, mas permanentes

Quando penso no meu bisavô, vejo um sobrevivente, um mestre rude, um espanhol corinthiano que encarava a vida com coragem, humor e jornal na mão.

E no grande Mainframe da memória, o registro do velho Paco permanece em STATUS ACTIVE, com retenção infinita e proibição permanente de purge.

Porque certos homens não viram lembrança.
Eles viram fundação.

E o Paco?
Ah… esse foi puro aço forjado no calor da Pauliceia.